Boy & Bear – Suck On Light



O folk é um gênero musical que tem tudo a ver com raízes. Seu nome tem a mesma etimologia da nossa palavra folclore. O que nos traz à mente histórias e canções passadas de geração para geração, que dialogam diretamente com a história e as tradições de um povo. A transposição disso para a música contemporânea não é nunca direta. Os subgêneros de metal que se relacionam com o folk, por exemplo, costumam beber na fonte de um ideal medieval de culturas europeias, usando suas figuras mitológicas como símbolos. Já no rock mainstream e no indie, o folk começou com artistas gravando músicas que, muitas vezes, já existiam décadas antes, cujas autorias não eram fáceis de definir, se é que não eram composições que foram se moldando ao longo do tempo. Uma boa parte das primeiras gravações fonográficas foram dedicadas a esses registros, mais por seu caráter histórico do que artístico.

Essas gravações, no entanto, cristalizaram uma imagem do que seria uma canção folk. A primeira relação que a maior parte de nós tem com essa palavra é a cena dos EUA nos anos 1960, na qual artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Johnny Cash regravaram alguns desses clássicos, muitas vezes dando traços autorais a esses novos registros. E foi através de uma afinidade com o ideal de como uma canção folk deveria soar, com toda sua história, que artistas desse período passaram a compor suas obras, que até hoje são populares mundo afora. Desde então, as nossas expectativas sobre o folk são praticamente as mesmas.

Mesmo na Austrália, do outro lado do mundo, essas expectativas não foram revolucionadas, graças à mesma matriz da língua inglesa. Ainda que o folk tenha diversos matizes regionais, sua identidade geral é fácil de reconhecer. Por isso, na década passada, quando o folk passou por um novo ciclo de retorno, as referências para quem produzia o som, assim como para quem ouvia, eram as do folk dos anos 1960, um folk infundido com muito rock, que trazia suas letras para questões contemporâneas, com guitarras mais energéticas que Dylan conquistou a tanto custo, mas mantendo uma identidade relativamente estável. Foi nesse cenário que a banda Boy & Bear surgiu, primeiro fazendo covers de seus ídolos do país dos cangurus, e depois com sua própria versão cantarolável e aconchegante do folk em seu debute Moonfire. A facilidade de conhecer e já sair acompanhando cada uma das faixas era um dos pontos mais altos do álbum.

Mas, como ocorreu com tantos artistas desse folk do novo milênio, Boy & Bear foi se debruçando cada vez mais para o rock e deixando o folk de lado. Se tornando cada vez mais hermética. Suas novas canções não convidavam quem as ouvia a aprender as letras para cantar junto. Mas o folk, como disse, é uma música de raiz. E elas sempre estão lá quando precisamos voltar. Suck On Light é um retorno às origens para a banda.

Logo de primeira audição, algumas das melodias parecem ser exatamente as mesmas que a banda toca há oito anos. Pode-se dizer, no entanto, que são versões mais maduras dos mesmos riffs. O que faz com que sintamos falta da jovialidade do primeiro álbum, mas que também tenhamos uma ideia de sua trajetória. Ainda que não sejam canções poderosas, as presentes em Suck On Light são as melhores que a banda desenvolveu desde o debute. Partindo já de como puxa o coro na faixa de abertura até como incorpora guitarras de uma forma que não faz com que percam a aparência de efeitos puramente acústicos. Ou melhor, elas são perceptíveis, mas não destoam. A equalização do álbum foi bem-feita. Fica longe do lo-fi, mas sem cair nos males da superprodução que é um dos bode-expiatórios mais comuns na crítica musical.

Mas o principal defeito do disco aparece justamente em um ponto que é essencial para qualquer obra do gênero folk: nas letras. Aquela vontade de cantar junto não surge em nenhum momento. Podemos admirar o ritmo, a execução técnica. Mas onde está a alma? Quais são as questões das quais esse álbum está tratando? O mundo pode estar precisando de um pouco do engajamento social pelo qual o folk ficou conhecido, ou, ao menos, por sua forma de colocar nossas vidas em perspectiva, cantar nossos cotidianos. Suck On Light não parece fazer nada disso. Antes ficando restrito à psicologia superficial e aos sentimentos genéricos que são tão comuns no soft rock.

OUÇA: “Work Of Art”; “Off My Head” e “Telescope”

Emannuel é escritor, internacionalista, filósofo pós-moderno, baixista amador, arrogante, neurótico, pessimista e usuário de figuras de linguagem, especialmente eufemismos e metáforas. E mentiras. Gosta de referências, citações, filmes em línguas desconhecidas, literatura barata, arte que ninguém entende e, na música, de folk, post-punk e britpop.

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