Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.

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