black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

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