Big Thief — Two Hands



Dentro da indústria musical há algumas possibilidades para que um artista lance dois álbuns no mesmo ano: o fracasso e o conceito são alguns dos cenários iminentes. E, com absoluta certeza, o flop não é a alternativa correta para o caso do Big Thief — banda do Brooklyn que lançou Two Hands, seu novo trabalho, apenas cinco meses após U.F.O.F..

A verdade é que se U.F.O.F era voltado para seres extraterrestres (sendo a explanação da sigla: “unidentified flying object friends”), Two Hands retorna a Terra para falar de nós, seres humanos. ‘I am that naked thing swimming in air / Why does that mean anything?‘ questiona a vocalista Adrianne Lenker na faixa de abertura de Two Hands. O existencialismo presente indica mais ou menos qual o tom das composições no álbum. Mais à frente da canção, Lenker abraça suas incertezas e o acaso de existir quando diz: ‘I don’t want to lock my door anymore / Hand me that cable / Plug into anything / I am unstable / Rock and sing‚ rock and sing‘, produzindo uma belíssima faixa de abertura: sensível, vulnerável e delicada.

Mas não é só sobre existencialismo que Lenker escreve. Na faixa “Forgotten Eyes” ela dialoga com questões sérias como pessoas moradoras de rua e os não ouvidos pela sociedade, segundo entrevista da própria ao Stereogum. A composição, seu refrão, ‘The wound has no direction / Everybody needs a home and deserves protection‘, juntamente aos violões, riffs e bateria mais que orgânica e energética de James Krivchenia, fazem desta canção uma das mais interessantes do trabalho. Lembra um tanto o Real Estate, pode-se dizer.

Voltando ao tema conceito, a delicada faixa-título abraça de uma vez por todas a ideia dos dois álbuns lançados em 2019 serem obras complementares. Two Hands continua a história de dois seres iniciada em U.F.O.F., uma relação entre “celestial” e “terráqueo”, porém sem os clichês de ETs criados e conhecidos por nós. A atmosfera das canções é algo tão natural que encanta. Mas especialmente em Two Hands isso é ultra trabalhado, simplesmente pelo fato do novo CD ser mais orgânico e possuir menos participações de samples e sons sintetizados. Tanto é verdade que é possível ouvir os rastejos dos dedos nas cordas do baixo de Max Oleartchik.

Ainda nos mesmos 39 minutos é possível ouvir a delicadíssima “Wolf”, o primeiro single “Not” — digno de uma performance espetacular ao vivo —, e a dark “Cut My Hair”. A verdade, no entanto, é que nada do que eu fale aqui chegará a preciosidade que é Two Hands. Big Thief é hoje uma grande banda, dedicada, talentosa e curiosa  (Adrianne Lenker é um exímia compositora, sem medo de mostrar sua vulnerabilidade) e a dupla de CDs é só a confirmação disso.

OUÇA: “Forgotten Eyes”, “The Toy”, “Two Hands” e “Not”

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