Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.

Emannuel é escritor, internacionalista, filósofo pós-moderno, baixista amador, arrogante, neurótico, pessimista e usuário de figuras de linguagem, especialmente eufemismos e metáforas. E mentiras. Gosta de referências, citações, filmes em línguas desconhecidas, literatura barata, arte que ninguém entende e, na música, de folk, post-punk e britpop.

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