DIIV – Deceiver



Se no início da década, o DIIV surgiu como parte da onda de shoegaze revival que estava em crescente na época, talvez eles tenham se perdido nesse mar. Mesmo que a estética fosse levemente diferenciada, e o lo-fi fosse uma das coisas pelas quais a banda se segurava, não tinha muita coisa que destacasse o grupo, a não ser uma ou outra música pegajosa, e uma considerável evolução do primeiro pro segundo álbum. É muito fácil ser mais um nesse gênero, talvez seja o maior problema dele.

A grande tirada de Deceiver é que, esse sim, consegue fazer algo muito mais interessante, ao mesclar outros gêneros na fórmula do DIIV, tornando cada música uma surpresa diferente. Diferenciar todas as músicas em um álbum de shoegaze já é um ótimo passo pra se destacar, e aqui a banda se utiliza de riffs que vão do grunge ao post hardcore melódico, e melodias inventivas que se encaixam muito melhor nessa sonoridade do que encaixava nas antigas da banda.

A melancolia do refrão de “Horsehead” dá o tom do álbum: não é mais aquele shoegaze divertidinho de antes. E a letra fala sobre o envolvimento do vocalista Cole com drogas de uma forma muito sutil, mas que passa uma sinceridade que é o carro chefe do trabalho. O mais engraçado é que, por exemplo, a banda brinca com a letra do refrão de “I Wanna Be Adored” do Stone Roses e suas múltiplas variações em “Skin Game”, enquanto esse provavelmente é o trabalho mais afastado dos moldes deixados pela mesma. Deceiver tá mais pra um filho de Smashing Pumpkins com Brand New e Title Fight, mas talvez não atingindo o mesmo nível de agressão dos mesmos.

Tirando, é claro, no que é provavelmente a melhor música do álbum, “Blankenship”, que tá muito mais pra Sonic Youth com Cloud Nothings. A carga política das letras, dando voz ao ativismo ecológico da banda, aliada aos breakdowns estrondosos e melodias suaves que se complementam perfeitamente, dão aquela pitada de atitude essencial, é o clímax que o álbum inteiro criou uma tensão pra chegar. E mesmo que seja um trabalho mais agressivo e sujo, a beleza de momentos como “Between Tides”, e a inspiração chupada de My Bloody Valentine em “For The Guilty” equilibram bem a energia do projeto.

A forma como Deceiver foi montado, as bases pelas quais ele se guia, e a forma como ele te cativa a continuar ouvindo é o que o DIIV precisava pra se provar no seu gênero. A inteligência das letras e a força dos instrumentos, aliados a uma produção impecável, traz balanço ao som da banda e torna tudo nele mais sincero. É a química perfeita que o grupo precisava achar pra engatar, e finalmente surfar na onda do shoegaze com propriedade.

OUÇA: “Blankenship”, “Horsehead”, “Taker” e “Skin Game”

Vivian Girls – Memory



Retornando como se nada tivesse acontecido, o trio Vivian Girls lançou seu primeiro álbum em 8 anos mantendo tudo que tornava a banda atrativa no seu início. É um trabalho bem linear até, com nada fugindo absurdamente do que elas já faziam, só puxando mais pro lado das influências do grunge e do punk. É como uma banda de punk dos anos 90 passada pelo filtro da tendência de dream pop da nossa década atual.

Parece que o grupo retornou com mais fogo nos olhos, e as músicas se encaixam melhor numa gravação um pouco mais limpa, que é o ponto principal desse álbum. A forma como as canções não perdem sua estética lo-fi, mas são muito mais bem equilibradas em questões de mix e produção mantém o charme da proposta da banda, mas amplifica o efeito quando você consegue ouvir tudo na música direitinho, como em “At It Again”. Porém, nem todas são tão bem cuidadas como essa, então a consistência do trabalho não é uniforme. Mas em momentos que as músicas destoam do resto, compensam de certa forma pela energia, como a abertura “Most Of All”, que além de ser cheia de atitude, consegue ser pegajosa como poucas coisas que o Vivian Girls já fez.

E as variações não ficam só na casa do loud/quiet. Os riffs poderosos de “Sludge”, por exemplo, complementam os vocais suaves de forma estranhamente efetiva, criando uma tensão muito similar ao que o Nirvana fazia, mas remodelado pra não parecer tão fora da curva pra esse álbum. Isso ajuda a não torná-lo totalmente repetitivo, e eu digo “totalmente” pois em alguns momentos acaba acontecendo, e aí se vê que há espaço pra banda continuar crescendo, mas não alcançou totalmente esse potencial ainda.

Sendo um dos melhores álbuns da discografia da banda, Memory prova que, mesmo que a banda tenha parado por muito tempo, ainda existe química entre as integrantes, que montaram um álbum que, mesmo que ainda tenha reflexos de suas limitações, mostra que há espaço pra novas ideias entrarem no som do grupo, e talvez atrair todo um novo público.

OUÇA: “Most Of All”, “Sludge” e “Far Away”

Melanie Martinez – K-12



Criar seu álbum em torno de um conceito não chega a ser um problema, desde que a música que o envolve cative o ouvinte mesmo fora de contexto, e até ultrapassando barreiras de linguagem. Então, se você não fizer parte de uma banda de prog moderno mega conceitual, deveria levar isso em consideração, construindo uma experiência que abrigue o consumidor casual e o hardcore, sem causar conflitos entre os lados. Equilíbrio é uma coisa ótima, sabe, alguns artistas deveriam tentar mais manter pelo menos algum.

Então quando um artista entrega um álbum que, não só recicla um conceito antigo, mas ainda piora e muito a qualidade “casual” do produto, é difícil defender. E a Melanie não é a primeira pessoa a fazer isso, o primeiro exemplo que me vem a mente é o 21st Century Breakdown do Green Day. Sucede um conceito ambicioso, que acerta em alguns pontos e erra em outros, pra repetir a fórmula de forma genérica e apática.

Só que no caso do Green Day tinha, sei lá, a dupla “Viva La Gloria”, que dava uma energia ocasional pro projeto de forma diferente o suficiente pra manter o mínimo de novidade pra puxar o ouvinte ocasionalmente. O problema de K-12 é que é tudo mais do mesmo: músicas com uma temática que remete à infância, mas com um subtexto de maldade pra causar uma ambiguidade desconfortável. Se a fórmula funcionava pelo menos decentemente no Cry Baby, isso se deve às metáforas inventivas, e ao carisma com o qual Melanie acentuava essas distorções na estética infantil, ambos acompanhados de uma produção bem digna. Já aqui, tudo perde qualquer vestígio de naturalidade que poderia ter pra virar um “kkkk olha como eu sou uma menina má” em temas completamente clichés, com melodias fracas e beats insossos.

Se no álbum anterior tínhamos músicas como “Mrs. Potato Head”, que era uma crítica ao modo compulsivo como as plásticas estéticas são incentivadas na sociedade americana, nesse álbum temos algumas tentativas , como “Strawberry Shortcake”, que se você pensar bem tem até uma mensagem ok lá no fundo, mas fica ofuscada pela mesma problemática de que, em algum momento, a Melanie PRECISA ser edgy pra te lembrar que, apesar do conceito ser sobre escola, ela é não é nem um pouco inocente. E se você já fez cara feia só de ler essa frase, fique longe desse álbum.

E o pior de tudo é que tem um filme de uma hora e meia que acompanha o álbum, pra deixar bem claro que tudo aqui é parte de uma masturbação de um tema e uma estética que não dá mais tesão pra ninguém. Reenforça o argumento do “conceito”, mas em K-12, nem isso salva.

OUÇA: “Strawberry Shortcake” e “Teacher’s Pet”

black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

HOMESHAKE – Helium


Do início da década pra cá, tem muito artista por aí usando e abusando da estética do chamado Bedroom Pop: uma sonoridade lo-fi, com vocais e instrumentos afogados em distorção de má qualidade que pode ser proposital ou só falta de grana pra fazer algo melhor mesmo, identidade visual remetendo aos momentos mais pessoais da intimidade do artista, e letras simplistas que tocam em tópicos de desilusão amorosa e momentos rotineiros retratados de forma mais melodramática e com linguagem mais acessível, mas com a intenção de trazer o ouvinte pra perto a partir de toda uma atmosfera intimista e pessoal, fazendo o mesmo se sentir confortável com tudo que o artista quer passar e tornando a distância entre os dois menor.

O uso desses padrões pra aproximar ouvintes a partir de uma dinâmica lo-fi já vem de décadas atrás, com artistas famosos como Daniel Johnston e Elliott Smith, por exemplo, até o garoto que realmente faz suas músicas pesarosas dentro do seu quartinho pra uns gatos pingados na internet ouvirem, como foi o caso do Vinícius (Yoñlu). Porém, a diferença entre o que já tinham feito nesse gênero e o que podemos chamar de Bedroom Pop é a infusão de gêneros como o Jangle Pop e o Psych Pop, usando de sintetizadores e guitarras agudas para criar algo mais relaxante e com uma certa impressão de desleixo.

E foi nessa onda que surgiu o projeto HOMESHAKE, do canadense Peter Sagar, onde absolutamente tudo que descrevi lá em cima sobre o Bedroom Pop foi usado, complementado por loops de bateria eletrônica (nos álbuns mais recentes) e uma voz suave que destaca de forma balanceada os grooves com forte influência de R&B de cada música. Álbuns como Midnignt Snack e Fresh Air conseguiam atingir um equilíbrio interessante pela constante entrega de boas melodias e uma variedade de variações instrumentais que mantinham a atenção do ouvinte sem se tornar pedante ou repetitivo, apesar do último ter quase chegado nessa marca em certos pontos.

Só que o problema de Helium, novo álbum do artista, é que ele é assim quase o tempo inteiro. A produção mais limpa e formal deixa um certo vazio na sonoridade do HOMESHAKE exatamente onde morava o apelo do projeto, deixando mais a atmosfera da coisa pela atmosfera e não pelas gambiarras musicais que distinguiam cada canção em trabalhos anteriores. Se canções como “Like Mariah” e “Just Like My” tinham até certo potencial de serem destaques no álbum por possuírem elementos que se sobressaem, os mesmos foram enterrados por uma mixagem homogênea que acaba cortando qualquer êxtase possível, tornando o que era pra ser “chill music” em música de elevador mesmo.

Mas não se engane, apesar dos exemplos citados, a grande maioria das músicas aqui não tem nada de realmente atrativo pra te fazer voltar a elas. Qualquer elemento engraçadinho como sons de telefone emulados por uma guitarra ou vozes conversando no fundo que tentavam evocar momentos mais rotineiros pra diferenciar a banda de outras do gênero, humanizando essa arte e aconchegando o ouvinte de forma mais incisiva do que o Bedroom Pop tradicional tenta fazer, foi exterminado de vez aqui a favor de sintetizadores sem inspiração e produção lavada que aproximam mais o projeto de algo que você escuta em qualquer rádio genérica de música dos anos 80 de madrugada.

Apesar de não chegar a ser uma ética sonora que realmente desagrade, peca terrívelmente em qualquer chance de longevidade que as músicas poderiam ter, tornando Helium descartável e medíocre, não causando nenhuma impressão realmente digna de qualquer destaque a quem procura uma sonoridade confortável e familiar como quem se sentiu atraído pelos primeiros álbuns do Peter. Partindo da criatividade sonora dele em diversos momentos na discografia, o projeto poderia ter tomado diversos rumos que destacam essas forças, mas aparentemente escolheram seguir o caminho mais enfadonho.

OUÇA: “Like Mariah”, “All Night Long” e “Just Like My”

The Prodigy – No Tourists


Se a imagem que se forma na sua cabeça quando perguntam sobre uma festa do final dos anos 90 é de raves de música agressiva e de gente com uma um visual de gosto duvidoso, em parte a culpa desse estereótipo é do gênero Big Beat, que pega elementos do Drum and Bass e do Industrial, e joga num liquidificador na potência máxima. Grupos como The Chemical Brothers, Fatboy Slim e The Crystal Method ajudaram a impulsionar esse movimento na cena mais alternativa das baladas, mas a banda que mais marcou a época, não só pela atitude e agressividade, mas também por ter popularizado a estética do gênero, foi o The Prodigy.

Mas, assim como milhares de outros gêneros, parece que o Big Beat não passou no teste do tempo, ficando ultrapassado perante às tendências atuais da EDM em geral. Tanto que o Chemical Brothers, por exemplo, mudou muito desde seu auge para se adaptar a uma nova audiência, mas sem perder certos elementos das suas raízes. E o problema do novo álbum do The Prodigy, é que parece que ele foi feito em 1999.

E se for levar pro lado de que “não se mexe em time que está ganhando”, a desvantagem aqui é que, apesar de seguir a fórmula dos trabalhos anteriores, nada é tão memorável quanto o auge de álbuns como The Fat Of The Land e Music For The Jilted Generation. A agressividade continua, a repetição também, mas é tudo de forma plástica e reciclada, deixando algumas músicas chegarem ao nível de serem irritantes, coisa que não acontecia nesses álbuns mais antigos. As duas primeiras músicas do álbum, por exemplo, seguem essa fórmula de forma mais aceitável. Mas quando chegamos em “Fight Fire With Fire”, a coisa começa a desandar de verdade e parece que é tudo parte de uma coleção de b-sides de alguma outra era da banda. Não é possível que alguém consiga ouvir “Boom Boom Tap” e achar legitimamente que é uma canção aceitável.

Pra ser sincero, não tem nem muito o que dissertar aqui. Não tem grande análise sobre sonoridades, dinâmicas, e significados de letras, já que o álbum em si não oferece nada de muito significativo nesses aspectos que mostrem uma evolução ou regressão do que a banda já mostrou anteriormente. Exceto por umas 3 músicas que são até um pouco pegajosas e interessantes, tudo parece uma colagem mal feita de coisas que qualquer ouvinte mais ou menos introduzido à discografia do The Prodigy já cansou de ouvir. Mas, se você não se cansou, talvez ache graça em mais músicas e consiga apreciar melhor. E se cansou mesmo mas ainda tem um leve interesse no Big Beat, talvez seja mais interessante acompanhar o The Chemical Brothers.

OUÇA: “Need Some1”, “Light Up The Sky”, “No Tourists”

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

We Were Promised Jetpacks – The More I Sleep, The Less I Dream


Amadurecimento é um tópico complicado quando falamos sobre artistas musicais. Sempre há dois casos: era ruim e ficou bom, ou o contrário. Logo, nem sempre amadurecer significa evoluir, dependendo do caso e da sua perspectiva sobre ele. Há bandas que decolam pra novas dimensões que nem sabiam que poderiam chegar, e outras que ficam estagnadas em uma experimentação barata ou desinteressante que afasta os fãs antigos que acompanhavam a banda pelo fogo nos olhos que elas possuíam no início.

Com The More I Dream, The Less I Sleep do We Were Promised Jetpacks, pode-se argumentar que o fogo não é mais o mesmo em questão de energia, mas não de formas de trazer uma mistura de emoções em suas canções. Se aqui não tem mais os riffs angulares e pegajosos dos primeiros trabalhos, isso é compensado com a meticulosa construção de uma sonoridade que chega a ser até mais aconchegante, mas se aproveitando de momentos mais vagarosos pra criar certa tensão, uma característica que se manifestava em algumas músicas antigas da banda, mas parece ter finalmente tomado forma nesse álbum.

E o que tem de mais interessante nesse novo álbum são os lampejos de paranoia e desconforto que se manifestam ao longo de seus 42 minutos, seja em uma guitarra mais dissonante do resto ou, principalmente, mas letras carregadas de angústia e incerteza do vocalista Adam Thompson como em “Repeating Patterns” que, além de ser a música mais energética e sombria desse trabalho, parece relatar problemas passados em público causados por ansiedade social, e como isso acaba se ocasionando em ações erráticas por parte de quem sofre com isso.

Esses relatos mais intimistas e complexos mostram uma evolução da banda em questão de criar narrativas, e é complementado pela forma como as canções aqui se juntam e moldam uma experiência de álbum. Isso acaba sacrificando um pouco do apelo pop, mas mesmo assim ainda tem vários momentos específicos de destaque aqui. O grande problema mesmo é pra quem vai escutar esse álbum esperando os riffs enérgicos pelos quais a banda ficou conhecida, e vai acabar decepcionando esse público. Mas, depois de algumas audições, a beleza dos espaços em que a banda permite suas canções a respirar acabam trazendo uma experiência que não é muito difícil de agradar a qualquer um que procura algo de agradável nesse gênero. É o caso de um amadurecimento que não depende só da banda, mas também de quem acompanha ela.

OUÇA: “Repeating Patterns”, “The More I Sleep the Less I Dream”, “Make It Easier”, “When I Know More”

Alice in Chains – Rainier Fog


Se você é um artista que desde o início da carreira abraçou um gênero específico e ainda não largou mais dele, a consequência óbvia é que seu público sempre vai esperar a mesma sonoridade dos seus trabalhos, e eventualmente você vai enjoar de fazer aquele arroz com feijão básico de sempre. Você tem duas opções: muda tudo e foda-se o que a galera pensa, ou continua fazendo essa receita de bolo pra agradar a massa. A grande questão é que a partir do momento que você só se dedica a um estilo sem sair da sua zona de conforto, seu apelo será só para um nicho específico, raramente atraindo novos ouvintes ou instigando pessoas a ouvir seus álbuns mais novos, já que o elemento surpresa se perde nesse processo.

E é exatamente isso que acontece com o Alice in Chains em Rainier Fog. Já é o terceiro álbum deles desde seu retorno em 2009, e nada de significativo mudou desde então. Se os dois primeiros álbuns dessa era traziam a estética dos trabalhos dos anos 90 mas com pérolas interessantes no meio como Phantom Limb e Check My Brain, que pegavam a fórmula original da banda e distorciam até sair alguma coisa levemente diferente mas ainda no Grunge, o grande problema desse novo álbum é que não tem nada para distinguir ele do resto da discografia do grupo. As músicas parecem recortes que não entraram em álbuns anteriores, tornando a experiência unilateral e enfadonha.

Mesmo que, por exemplo, os vocais de William DuVall sejam muito mais proeminentes aqui, isso pouco colabora com a variedade na dinâmica da gravação. A maioria das músicas não se diferenciam muito entre si e pecam no fator memorabilidade. Se por exemplo, “The Devil Put Dinosaurs Here” (a música) poderia muito bem ser um hit da banda nos anos 90 pela forma como abraça os elementos dessa época e transforma em algo memorável, 70% das músicas desse álbum aqui seriam fillers de álbuns como Facelift e o Auto Intitulado, pois elas não saem da zona de conforto em que a banda se acorrentou.

Mas, são 70% pois até tem uma música ou outra que tem alguma coisa interessante, como “The One You Know”, de longe a música que mais remete à inspiração que o Alice in Chains já teve para fazer algo mais explosivo e cativante. E mesmo assim não é o suficiente para dizer que é a banda reacendendo o fogo nos olhos de seus tempos áureos, pois em qualquer outro álbum essas músicas não estariam entre as melhores.

E se essa resenha aqui só comparar esse trabalho com os outros te irrita, acredite, me irrita também. O problema é que Rainier Fog é construído de forma a ser só mais um álbum qualquer na discografia do grupo, reciclando ideias batidas e rodeando conceitos já utilizados antes na sua carreira. MAS, se você, não procura algo que reinvente a roda e mantenha somente “o bom e velho Alice in Chains” que você ama, esse aqui é o álbum certo pra você. Só não espere lembrar de muita coisa dele depois de ouvir, ou achar um novo clássico pra colocar no hall da fama do Grunge.

OUÇA: “The One You Know”, “All I Am” e “So Far Under”

Nine Inch Nails – Bad Witch


Chegar aqui e dizer que Bad Witch é um retorno à forma para Trent Reznor e ao mesmo tempo algo novo e experimental é a saída fácil. Escrever que a volta das guitarras e vocais extremamente destorcidos envolvidos por sons atmosféricos macabros é um revival do som industrial pesado dos tempos de Broken, The Downward Spiral e The Fragile é pouco. Não, acho que o caso aqui é um pouco mais do que isso. Minto, BEM MAIS.

E mesmo que por cima pareça que Bad Witch é so um músico em uma crise de meia idade resmungando sobre os rumos que a humanidade está tomando e tentando ser ‘edgy’ como nos velhos tempos, há elementos nas entrelinhas que dizem muito sobre seu estado mental atual e como ele lida com isso. O nome do álbum, das faixas, a capa, toda essa imagética formada em torno do projeto aponta pra outra coisa. Há uma certa espiritualidade aqui que torna toda a experiência mais complexa, esotérica e interessante de se destrinchar, trazendo uma dualidade que só se revela a partir do momento que você começa a reparar nos detalhes da obra.

Sim, a crítica de como a sociedade bate palmas para a decomposição de qualquer rastro de dignidade restante é muito presente, batendo diretamente na cara de quem elegeu Trump como presidente dos Estados Unidos. Mas há um outro lado dessa história, algo que aspira a transcender todos esses clichês que nós esperamos de “músicos revoltados com política”. De certa forma, esse álbum soa como um jeito que Trent encontrou de tentar se reconectar com seu velho amigo, David Bowie.

A metamorfose descrita em “Shit Mirror”, ao mesmo tempo que mostra uma visão pessimista do que os humanos estão se tornando com metáforas básicas, também parece se inspirar em uma figura que se transforma de modo a servir como símbolo de algo detestável dentro da sociedade, tal como Bowie usou sua persona de Thin White Duke na época do álbum Station to Station para promover um ser apático a diversos tipos de emoções humanas. Todo esse desdém sarcástico nas letras sobre a situação em que o mundo se encontra se prolonga pelo álbum, como em “Ahead Of Ourselves” e “God Break Down The Door” vemos um personagem desesperançoso, que só aceita seu destino.

E não é só no tema das letras que essa conexão faz sentido. A dinâmica entre vocais barítonos graves, padrões de tempo de batida puxados de gêneros como drum-and-bass e jazz e a inclusão de instrumentos de sopro mixados a uma atmosfera mórbida proveniente de sintetizadores carregados e build-ups pacientes remetem aos trabalhos de Bowie em seu último álbum, Blackstar, como uma tentativa de resgatar e prosseguir com a obra de seu amigo, como se a mesma estivesse incompleta.

E é aí que está o maior ponto desse projeto: ele também parece, de certa forma, incompleto. Teoricamente, faz parte de uma trilogia de EPs junto com os previamente lançados Not The Actual Events e Add Violence, mas na prática acaba se sobressaindo e se tornando um monstro próprio, com novas ambições e uma mensagem própria. Por exemplo, a capa possui 5 imagens, e uma delas foi usada como arte do single “God Break Down The Door”. Se são 5 imagens e cada uma representa uma música, está faltando uma imagem, certo?

Errado. A sexta imagem é o nulo, é o branco que preenche o resto do quadrado, e essa parte representa “Over And Out”. Uma canção vagarosa repleta de grooves que se aproxima da sonoridade mais recente dos álbuns do Nine Inch Nails descreve um desnorteamento por parte do narrador, como se ele estivesse tentando encontrar algo que não sabe o que é e se suas memórias estivessem se desvanecendo, e junto delas a sua existência se fosse junto. Mas quem é esse narrador? Depois de todas as referências à escondidas anteriormente no álbum, não seria surpreendente se essa fosse uma reflexão de Reznor sobre a relação de Bowie com ele.

O álbum termina com a frase “I’ve always been 10 years ahead of you, over and over again”. E se o Trent queria provar isso, Bad Witch executa exatamente esse propósito.

OUÇA: “God Break Down The Door”, “Over And Out” e “Ahead Of Ourselves”