Bon Iver – i,i



Já faz mais de uma década desde o debut do Bon Iver, For Emma, Forever Ago (2007). Nestes anos, o Bon Iver se consagrou como essa entidade quase mística liderada pelo estadunidense Justin Vernon. Chegando ao seu quarto álbum da melhor forma possível, o Bon Iver se mostra uma banda madura cujos discos veem crescendo e amadurecendo com o passar dos anos.

i,i não poderia ser um álbum mais adequado para este momento de mais de uma década de banda. Ele chega neste clima de celebração do Bon Iver, expondo características da sua discografia como colagens ao longo do disco. Nos lembra dos diversos fragmento de encantamento que levou o Bon Iver a ser tão aclamado pela crítica. Aqui, nos deparamos tanto com a sonoridade folk de For Emma, Forever Ago (2007) e Bon Iver (2011), quanto com a experimentação e texturas eletrônicas de 22, A Million (2016). 

A atmosfera do álbum se encaixa exatamente após 22, A Million, onde todos os ensaios do trabalho passado mostram frutos grandiosos. Enquanto o álbum anterior surpreendia pela excentricidade e experimentação, i,i consegue transpor tudo isso para ou outro patamar. Os sintetizadores e elementos eletrônicos já soam de forma mais natural ao se misturarem com o folk e as variações de volume tão características do Bon Iver. É justamente ao dosar estas texturas eletrônicas com momentos serenos que surgem os grandes encantos de i,i. O álbum evolui de desta maneira intimista, envolvente e calorosa, criando um clima familiar e inovador ao mesmo tempo.

i,i representa um fechamento de ciclo para o Bon Iver. Faz a amarração dos três álbuns anteriores ao conseguir sintetizar anos de amadurecimento em um trabalho sólido. É uma verdadeira celebração de mais de uma década de banda. Um trabalho que ainda apresenta a mesma beleza de For Emma, Forever Ago, somada com anos de amadurecimento e experimentações. 

OUÇA: “Hey, Ma”, “U (Man Like)”, “Naeem”, “Faith” e “Marion”

Of Monsters and Men – Fever Dream



Sempre me pareceu um fato curioso como um país tão pequeno e isolado como a Islândia consegue alçar tantas bandas relevantes. Talvez o segredo esteja justamente na cultura nórdica tão visível nas canções que de lá saem. Apesar de haver um punhado de artistas islandeses consolidados, sem dúvida a banda nórdica que mais faz barulho no mainstream nos últimos anos foi o Of Monster And Men. O single “Little Talks” (2011) tocou por toda parte, desde baladas indie até comerciais de TV. “Little Talks” abriu as portas para a banda, mas também colocou um grande peso a ser carregado: como dar continuidade a tamanho sucesso? 

Nos seus dois primeiros ótimos álbuns, a banda passou a ser mundialmente conhecida pela sua sonoridade nórdica que mistura indie com folk. Melodias muito bem articulada por letras que remetem cenários islandeses com lagos, florestas e montanhas. Seus discos anteriores mostram uma evolução e amadurecimento desta fórmula característica do of Monsters And Men. Fever Dream não segue esta mesma linha. A banda não mira nem no sucesso radiofônico do passado, nem na sonoridade pop folk que consagrou. Aqui vemos uma banda que sai da sua zona de conforto para explorar novos ares. A proposta do disco é misturar os elementos folk com com sons eletrônicos, abstraindo os elementos marcantes e conhecidos da banda em sonoridades mais leves e difusas. O que vemos em Fever Dream é um Of Monsters And Men completamente novo. E como em toda aposta, há riscos. 

De forma alguma Fever Dream chega a ser um álbum ruim. Porém, ao deixar de lado suas características mais marcantes, a banda se perde num generalismo. O disco é um conjunto melodias bonitas, mas genéricas. Todo intimismo e personalidade dos álbuns passadas se perde em um disco que poderia ser de muitas outras bandas além do Of Monsters And Men. Sem nenhum single muito forte, nem nada que se sobressaia, Fever Dream marca o ponto mais fraco da carreira dos islandeses.

Sem o mesmo encanto do passado, a banda se afasta cada vez mais do seu momento de glória de 2011. Ao tentar se modernizar, o Of Monsters And Men esquece o que os fez ser o que são. Não foi desta vez que tivemos um substituto para “Little Talks”.

OUÇA: “Róróró” e “Wars”

American Football – American Football



Em seu terceiro álbum autointitulado, o American Football supera a atmosfera de nostalgia e mostra um grande amadurecimento sonoro. Deixando para trás o clima emo do final dos anos 90, a banda mostra que segue relevante em 2019, com um som mais adulto.

o American Football, que foi um dos expoentes do emo no final dos anos 90, passou nada menos que 17 anos sem lançar álbum. Quando ressurgiram em 2016, o clima de nostalgia e retorno foram o suficiente para agradar aos fãs e a crítica. A banda que ressurgia conseguia mostrar canções igualmente profundas e consistentes, mesmo depois de tanto tempo. Porém, o terceiro álbum não vem com um intervalo de 17 anos, mas com menos de 3. Um novo disco “mais do mesmo” talvez poderia soar inerte desta vez. Aí que entra o encanto deste novo disco. A banda consegue se reinventar de uma forma impressionante, mantendo suas características passadas ao mesmo tempo que atualiza e move em frente sua sonoridade.

Já na primeira canção, “Silhouettes”, surge quase que um manifesto. A canção de mais de 7 minutos abre portas para o disco, introduzindo a atmosfera intensa e envolvente. Enquanto nos trabalhos anteriores a sonoridade do American Football misturava o emo a algo mais folk, neste disco a mudança fica clara já no início. A aproximação da banda com um som mais próximo ao shoegaze é a grande marca deste trabalho. O álbum se mostra uma combinação do emo com uma atmosfera mais barulhenta, porém minimalista, mergulhada no pós-punk e shoegaze. A aproximação com estes estilos também é reforçado pela parceria com a Rachel Goswell, do Slowdive. 

As parceirias, inclusive, são outro ponto alto deste álbum. A abertura sonora proposta neste trabalho do American Football é reforçada pelos vocais femininos nas 3 parcerias do disco. Nomes grandes como Rachel Goswell (Slowdive), Hayley Williams (Paramore) e Elizabeth Powell (Land of Talk) entraram nas gravações. Os vocais femininos funcionam muito bem na proposta da banda, aumentando o a dramaticidade e envolvimento das cações através do contraste de vocais. A ótima canção “Uncomfortably Numb”, por exemplo, mostra o belo contraponto da letra ora cantada pelo vocalista Mike Kinsella, ora repetida pela inconfundível voz da Hayley Williams.

Este terceiro álbum revela o grande potencial que sempre esteve latente no American Football. Ao deslocar a sonoridade, a banda mostra que se foi um dos expoente do emo duas décadas atrás, ela está pronta para reviver o emo nestes tempos, na sua melhor forma.

OUÇA: “Silhouettes”, “Uncomfortably Numb”, “I Can’t Feel You” e “Doom In Full Bloom”

Mumford & Sons – Delta


A banda britânica que passou por uma verdadeira montanha-russa ao longo dos seus primeiros três álbuns, neste momento apresenta um trabalho que busca uma reconciliação com seu passado. Delta surge como uma tentativa de reinvenção, misturando elementos clássicos da banda com batidas eletrônicas e novos ingredientes. O que poderia ser um movimento interessante, na prática se tornou um grande desastre. 

O Mumford & Sons é daquelas bandas que surgiu gigante. O debut lá em 2009 levou a banda, não apenas a ser headliner dos maiores festivais do mundo, mas também a abrir as portas para o indie folk, alçando várias bandas do estilo de lá para cá. Nos seus dois primeiros álbuns, Sigh No More (2009) e Babel (2012), a banda conseguiu este feito de mostrar que é possível criar canções cativantes e acessíveis dentre de um gênero pouco explorado no mainstream de então. Porém, o grande sucesso também mostrou pontos fracos da banda que no último trabalho, Wilder Mind (2015), apresentou um álbum fraquíssimo, apostando em hits grudentos e pouco interessantes. Delta surge justamente neste contexto de cobrança de um material mais denso da banda. O álbum até aponta para uma tentativa de resgate da essência do Mumford & Sons e tenta readapta-la a 2018. É uma intenção louvável, porém o resultado é desastroso.

A banda afundou o pé nos efeitos eletrônicos sem muitos critérios. O conjunto parece uma coleção de experimentações e tentativas não refinadas. Ao mesmo tempo que o álbum se mostra ambicioso na proposta, ele se apresenta de forma pouco elaborada. Os elementos trazidos são tão diversos e aleatórios que fica difícil sustentar uma unidade para o álbum. Ora vemos elementos de jazz, ora batidas eletrônicas estilo Alt-J, ora um retorno a arranjos puxados para o folk. Tudo compondo melodias que abusam de variações de ritmo para causar dramaticidade de forma forçada e repetitiva. Aparentemente todas as idéias novas que a banda teve foram usadas ao mesmo tempo, sem uma proposta amarrada para o disco. Em mais de uma hora de canções, temos um álbum cansativo e pouco memorável. No meio de tantas misturas, talvez a única música realmente boa do disco, o lead single Guiding Light, mostra a dosagem adequada do que seria cabível na mistura entre texturas eletrônicas e a sonoridade clássica da banda.

Não foi dessa vez que o Mumford & Sons apresentou um trabalho digno do reconhecimento dos seus primeiros discos. Apesar da tentativa de se reconectar com seus trabalhos anteriores, infelizmente, desta vez a proposta morreu na praia.

OUÇA: “Guiding Light”

Wild Nothing – Indigo


O quarto álbum do estadunidense Jack Tatum sob o nome Wild Nothing já dá seu recado no refrão do lead single, “Letting Go”: ‘Letting go / I wanna be happier now / I wanna be more than closed‘. A atmosfera que surge neste trabalho é leve e alegre, em muitos momentos causando surpresa para quem já acompanha o trabalho do Wild Nothing.

Ritmos alegres e batidas acentuadas no dream pop dançante marcam Indigo. A proposta se encaixa na discografia como uma continuação do álbum anterior, Life Of Pause (2016), mesclando momentos em que hora se conecta mais com o trabalho passado e momentos em que aponta a nova direção que Tatum vem seguindo. Em algumas canções, como por exemplo, “Canyon On Fire”, vemos a mistura de guitarras marcantes e batidas sintéticas já características do Wild Nothing. Em outros momentos, como em “Letting Go”, esta atmosfera dualista se desfaz em ritmos e arranjos quase que festivos. O clima alegre predomina, sendo a principal marca do álbum. 

O que inicialmente indica que há algo interessante e inovador em Indigo, logo frustra as expectativas. Logo após a primeira faixa, os bons momentos do álbum acabam diluídos em um marasmo persistente onde o conjunto acaba soando fraco e repetitivo, abusando de refrãos pegajosos. Apesar das tentativas de sons progressivos e texturas distintas, o pouco contraste nas canções acaba predominando, fazendo do álbum um trabalho pouco marcante. O clima alegre, no fim das contas, acaba se mostrando algo superficial e cansativo.

Indigo acaba sendo um dos trabalhos mais fraco de Tatum. Apesar de representar uma passagem de sons mais obscuros para algo alegre e ensolarado, isso se da de forma pouco interessante, entediando o ouvinte pela repetitividade das faixas. Acredito que o lado bom do álbum possa ser a direção para trabalhos futuros que ele indica. O Wild Nothing dificilmente desaponta. Vale a pena esperar o próximo capítulo.

OUÇA: “Letting Go” e “Shallow Water”.

Mount Eerie – Now Only


Now Only é mais um álbum onde Phil Elverum interpreta suas canções sobre luto. Após o falecimento de sua esposa em 2016, Phil, sob o nome de Mount Eerie, lançou o belíssimo álbum A Crow Looked At Me (2017). Agora, um ano depois, o cantor da continuidade ao relato intimista sobre sua perda.

A curta distâncias entre álbuns já deixa pistas sobre uma continuação do trabalho passado. Phil Elverum ainda canta sobre as inquietações decorrentes do falecimento de sua esposa. Em Now Only, as canções são apresentadas de forma mais condensadas, distribuídas em apenas 6 faixas. As músicas parecem grandes monólogos sobre o que é perder alguém importante. Em seu conteúdo, o álbum soa mais enérgico e menos desesperador que o anterior: enquanto o artista descobre novos desdobramentos em relação a sua perda, apresenta canções que registram um novo estágio deste processo. Instrumentalmente, as canções também se tornam mais complexas em relação ao disco passado, porém ainda mantendo a simplicidade sonora característica do artista.

A capacidade de Phil Elverum de transformar a dor em belas canções já é conhecida. É um som hipnotizaste. Não é algo exatamente prazeroso para se ouvir, mas ao mesmo tempo é envolvente ao ponto de prender o interlocutor no disco. As longas canções envolvem o ouvinte nas narrativas e na sonoridade intimista. A dor sentida por Phil é transmitida de forma arrebatadora. É difícil ouvir o álbum sem se emocionar se colocando no lugar do vocalista. O sentimento de dor que não se consegue largar pode ser resumido nos primeiros versos de “Earth”: “I don’t want to live with this feeling any longer than I have to / But also I don’t want you to be gone / So I talk about you all the time”.

Now Only resume-se como a segunda parte de A Crow Looked At Me. Mostra um sutil alívio do luto de Phil, porém a essência ainda é a mesma do álbum anterior: canções que nos levam a refletir sobre a dor vocalizada nas canções. É a continuação de um processo de luto que assim como o trabalho anterior, é belíssimo, intimista e profundo.

OUÇA: “Now Only” e “Earth”

Franz Ferdinand – Always Ascending


Esses dias um amigo comentou comigo que o indie estava morto no mainstream atual. É verdade. Boa parte das bandas que fizeram o estilo se popularizar encontram-se apagadas e com pouca relevância atualmente. Já faz 14 anos desde que o Franz Ferdinand emplacou o hit “Take Me Out”. Os escoceses foram uma das bandas mais importantes para o indie rock dos anos 2000, tendo seus dias de glória com os álbuns Franz Ferdinand (2004) e You Could Have It So Much Better (2005). Desde então a banda vem encontrando dificuldades de se inserir em um cenário musical que já não é o mesmo do início dos anos 2000. Apesar de lançarem álbuns coesos, suas músicas já parecem deslocadas da atualidade. O estranhamento e a falta de canções memoráveis se repetem no lançamento atual.

Always Ascending se esforça para se adaptar aos tempos atuais, porém sem muito êxito. O álbum indica uma tentativa de mudança nas perspectivas do Franz Ferdinand. Parece que a nova fórmula de atualização das bandas indie é o flerte com o eletrônico e um resgate das atmosferas dance e synth pop. Essa direção fica evidente já na faixa título “Always Ascending” e se replica em boa parte das canções do disco, marcando a identidade do trabalho atual. O que poderia vir a ser algo interessante, neste caso acaba soando um tanto simplório, grudento e pouco relevante. As canções soam como um emaranhado de texturas e efeitos que ora se tornam grudentos e repetitivos de mais, ora se tornam pouco memoráveis. Não há nada muito forte e marcante no álbum, nem mesmo entre os singles.

A mudança de posicionamento, que até certo ponto é louvável, acabou produzindo um dos álbuns mais fracos da discografia da banda. Tanto que a faixa mais interessante do disco, “Lazy Boy”, é a que mais se distancia dos moldes do atual álbum, sendo uma canção ao antigo estilo do Franz Ferdinand, lembrando o rock dançante dos trabalhos passados. O que fica de positivo em Always Ascending é perceber que a banda tem se esforçado para sair da zona de conforto que a consagrou na década passada. Porém, infelizmente, não foi desta vez que o Franz Ferdinand voltou a ser relevante no cenário musical atual.

OUÇA: “Lazy Boy” e “Huck And Jim”.

Beck – Colors


Beck Hansen é um dos poucos artistas fora do mainstream a ganhar um Grammy de melhor álbum do ano. Um feito e tanto. Desde o aclamado Morning Phase (2014), o americano se consagrou como uma das principais referências no rock alternativo. Em Colors, até mesmo a classificação como rock alternativo poderia ser revista. Beck é um artista versátil e pouco acomodado. Enquanto Morning Phase trazia canções melancólicas e introspectivas, Colors apresenta um conteúdo oposto mergulhado no pop: alegre, enérgico e dançante.

Quem apostava em uma continuidade do ovacionado trabalho anterior, não poderia ter se surpreendido mais. Já na primeira canção, “Colors”, é apresentada uma atmosfera que flerta com sons eletrônicos, sintetizadores, batidas marcadas e dançantes. A inevitável surpresa estranha em primeiro momento, porém logo envolve e contagia. Colors não é apenas uma aventura ousada. É um álbum muito bem trabalhado, mostrando que o sucesso pode ser um aliado para apostar em caminhos novos.

Colors – cores saturadas e alegres, como as que cobrem a face do cantor na capa do álbum. Sobre o fundo preto e branco, elas que se destacam. Sem uma forma definida, porém expansivas e envolventes. Assim também são as canções do disco. Beck sempre foi habilidoso em trazer complexidade a sons acessíveis. Colors é álbum que afunda o pé no pop e no dance sem se tornar simplório por isso. Talvez depois do sucesso da crítica, trabalhar com sonoridades mais acessíveis tenha partido de uma tentativa de alcançar espaço no mainstream comercial. O que não é nenhum pecado quando não se perde a essência e a qualidade no trabalho. Nesse sentido, o álbum vai muito bem. Apresenta diversos elementos novos, sem aparentar ser algo exagerado ou forçado. Cada canção traz algo original, divagando por uma série de texturas que dão corpo ao álbum como um conjunto de experimentações dentro da proposta pop/dance do cantor.

Ao contrário do seu antecessor, Colors não almeja ser algo profundo e elaborado. É um álbum leve e divertido. Se torna prazeroso no momento em que se aceita as virtudes da leveza e da efemeridade. O disco passa rápido, deixando a sensação de ter proporcionado bons momentos de divertimento. Reflexo dos tempos em que vivemos, o álbum não cria laços fortes e duradouros com o ouvinte. Em vez de se debruçar e esmiuçar cada canção, o recente trabalho convida a uma audição leve e descompromissada, possibilitando uma diversão hedonista.

OUÇA: “Colors”, “I’m So Free”, “Dear Life” e “Wow”.

Foo Fighters – Concrete And Gold


O Foo Fighters chegou ao patamar de banda que não precisa se esforçar muito para agradar aos fãs. Não vemos grandes inovações já faz algum tempo. Mesmo assim, continua sendo uma banda gigante lançando álbuns coesos. Concrete And Gold não foge a regra. É um bom disco, porém com poucas coisas novas para apresentar. Mostra uma banda acomodada, mas ainda muito competente no som que se propõe a fazer.

O álbum se encaixa com os trabalhos mais recentes da banda, fechando quase que uma trilogia com Wasting Light (2011) e Sonic Highways (2014). Contudo, as características que fizeram de Wasting Light um álbum realmente interessante lá em 2011, já não funcionam com a mesma eficácia aqui. Concrete And Gold, sonoramente, parece ter pouca coisa nova a oferecer. Há algumas tentativas de dar uma cara “retrô” para o álbum e até alguma aproximação com o stoner rock, mas nada que vingue e dê substância ao disco. Apesar disso, vale a pena lembrar que no caso do Foo Fighters, lançar mais do mesmo nem sempre é algo de todo ruim.

Concrete And Gold tem momentos ótimos. O disco começa muito bem com a sequência “T-shirt”, “Run”, “Make It Right” e “The Sky Is A Neighborhood”. A abertura do disco profetiza algo grandioso, intenso e dramático. “Run” é provavelmente a melhor canção do Foo Fighters em anos. Consegue unir elementos de força e tensão com viradas fluídas que funcionam muito bem. “The Sky Is A Neighborhood” é outro ótimo single que apresenta um rock alternativo denso e grandioso, daqueles para ser tocado em estádios lotados.

Apesar do ótimo começo, a proposta inicial se dissipa em canções menos memoráveis. O álbum perde força drasticamente na segunda metade, dando impressão que você entrou numa playlist qualquer de b-sides do Foo Fighters. A insipidez acaba marcando boa parte do disco. Não se tratam de canções ruins, mas sim, repetitivas e esquecíeis.

Apesar de ser um álbum satisfatório, Concrete And Gold reforça a possibilidade do Foo Fighters estar se aproximando de bandas como o Red Hot Chilli Peppers ou o U2. Milhares de fãs fieis e shows lotados, porém sempre apresentando uma repetição de si mesmos. Torcemos para que David Grohl não acabe como o próximo tiozão do rock.

OUÇA: “Run” e “The Sky Is A Neighborhood”

Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson


O lo-fi é um estilo peculiar. Parece dar abertura para qualquer tipo de experimentação, enaltecendo uma estética própria que se sobrepõe a padrões e refinamentos técnicos. Ao mesmo tempo que isso possibilita uma enorme liberdade, também traz desafios quando se fala em artistas inseridos no mercado mainstream. Ariel Pink talvez seja um dos expoentes mais icônicos quando se fala num lo-fi acessível e de ótima qualidade.

Depois de três anos do excelente pom pom (2014), Pink apresenta seu novo trabalho como uma continuação coerente. Dedicated To Bobby Jameson é um autêntico álbum de Ariel Pink. A despretensiosidade do californiano costuma gerar bons resultados e aqui não foi diferente. Longe de ser um álbum inovador ou revolucionário, o recente disco se firma na habilidade de transformar o lo-fi em algo acessível, fluído e divertido.

O título do álbum é uma referência ao músico californiano Bobby Jameson que faleceu em 2015. Pink chegou a dizer que o trabalho do cara ressoava com ele em um nível que sentiu a necessidade de dedicar seu último disco a ele. Apesar de Pink negar que o álbum faz uma referência direta ao acontecimento, é possível perceber certa melancolia nas novas canções, principal deslocamento do disco anterior. Se pom pom fosse o auge de uma festa onde todos estão felizes, Dedicated To Bobby Jameson seria os momentos de final de festa onde aquelas poucas pessoas estranhas ainda dançam sozinhas na balada vazia. O kitsch brega e divertido se diluindo aos poucos em um shoegaze anestesiante.

Apesar das poucas inovações, Pink continua em ótima forma, mantendo seu melhor estilo. Sua maior contribuição com Dedicated To Bobby Jameson é reafirmar a versatilidade com que consegue fazer os limites do lo-fi e do pop se sobreporem, gerando um trabalho consistente e agradável.

OUÇA: “Feels Like Heaven”, “Dedicated To Bobby Jameson” e “Another Weekend”