Weyes Blood – Titanic Rising



Esta foi a primeira vez que entrei em contato com a produção do Weyes Blood, projeto prolífico da americana Natalie Mering, que lançou seu debut em 2011, com The Outside Room. E o primeiro play que dei em Titanic Rising, quarto álbum da cantora, eu já pensei “ora ora temos aqui uma discípula de Joni Mitchell.”

Se você se encanta por essa estética folk anos 1970, de The Carpenters, Carole King e Cass Elliot, seja bem-vindo. Titanic Rising é um refinamento dessa estética com um ar atualizado, as prenúncias de um novo retro-futurismo já cantado anteriormente por artistas como First-Aid Kit e Julia Holter.

Sendo assim, tudo iria de vento em popa para essa resenha: sonoridade familiar, melodias aconchegantes, até a própria capa do álbum um deleite visual por si só. Mas assim que “A Lot’s Gonna Change” terminou, e deixou uma atmosfera soturna e melancólica no ar eu perdi o rumo. ‘Let me change my words, show me where it hurts’. E tudo dói, acredite em mim.

Mering se aventura liricamente por um universo profundo e delicado, cantando com honestidade sobre melancolias que podem ser até disparos para uma tristeza reprimida. É um olhar calmo para o caos que encanta e desconcerta. A jornada onírica do álbum lentamente ganha contornos de esperança conforme o registro avança, até culminar em “Nearer To Thee”. A faixa instrumental combina com a faixa de abertura e dá uma noção cíclica para o produto.

O álbum é uma sequência de pontos altos, e não há partes que pareçam deslocadas. Tudo se encaixa. A radiofônica “Everyday” é genial eu sua letra jocosa. ‘True love is making a comeback for only half of us, the rest just feel bad‘. Em “Mirror Forever”, o ritmo fúnebre é embalado por uma letra tão concisa que mostra que Mering é de um esmero no estúdio invejável.

Todo esse liricismo apoiado em arranjos de orquestra e synths muito atualizados, como é o caso de “Movies” ou “Andromeda”, tão ricas em instrumental que poderiam se sustentar sem vocal algum. Eu poderia fazer citações de cada uma das canções, esmiuçar cada um dos violinos, apenas para mostrar que aqui está um dos melhores trabalhos do ano.

Depois de duas semanas escutando o álbum, finalmente consegui me tornar um pouco imune à melancolia que as canções emanam Fica então um veredito menos desesperador : Titanic Rising é sobre tristeza, mas é sobre esperança mais que tudo. Um feixe de luz reverso, que sai do fundo sombrio do oceano e vai de encontro a superfície, à procura de mais luz. O Weyes Blood fez um produto impecável e que certamente será lembrado no futuro.

OUÇA: “Everyday”, “Andromeda” e “Movies”.

Ariana Grande – thank u, next


thank u, next é o último álbum de Ariana Grande, uma das maiores artistas pops da atualidade. sweetener (2018) mostrou uma artista lidando com os problemas de sua vida com uma atitude positiva. Alegre, iluminado, embasado em resiliência e até mesmo uma dose de negação. thank u, next, como um bom antagonista shakespeariano, escancara uma outra postura. Sentimentos negativos, raiva e melancolia; um lado B de como lidar também com essas mesmas experiências negativas que não aparentam dar trégua.

Ao suceder rapidamente o lançamento anterior, fica inevitável colocar os dois discos lados a lado. sweetener marcou uma transição da cantora rumo a um produto mais autoral e autêntico. Com o auxílio de Pharell Williiams na produção, o produto foi um registro prospectivo, forte, progressista dentro do que pode ser no urban pop.

Desse lançamento para cá, uma série de eventos aumentaram a exposição de Ariana, e seus ressentimentos também. Toda a postura positiva e enérgica dela no trabalho anterior sede espaço à traços de personalidades visto como ruins e posturas não-convencionais, uma maneira diferente de ver os problemas da vista.

Uma das características marcantes é uma ambientação uníssona e presente. As músicas partem de uma base harmônica semelhante, um urban pop mais lento e “chilled”, com mais elementos de trap. Surge uma aura sombria, mais introspectiva, que projeta esse trabalho como o tão recorrente disco “dark pop” da carreira das cantoras americanas.

A primeira faixa, “imagine”, já atesta grande parte do que vem pela frente. Um beat devagar e a voz de Ariana em primeiro plano, com direito a whistle notes de Mariah Carey e um desfecho ao som de violinas. Ariana lida ao longo dos 41 minutos com amores impossíveis, incapacidade de se relacionar, consumismo. Dificuldade de lidar com o passado, arrependimentos e uma incapacidade de mudar essas características. “I admit I’m a lil messep up” ela canta em needy.

O álbum tem pontos altos excelentes, embasado alto escalão de produtores e compositores envolvidos no projeto. Os saxofones e o baixo elaborado em “bloodline”, meticulosamente curados por Max Martin, fazem dela facilmente uma das melhores faixas do ano. “fake smile” e “make up” tem uma estrutura pop tão bem casada que é bem provável tocar em qualquer rádio durante o próximo ano.

Obviamente um registro tão longo feito em tão pouco tempo tem momentos pouco cativantes. As insossas “bad idea” e “ghostin” parecem que poderiam usar de mais um tempo no estúdio. O disco finaliza com os três singles já lançados, que de fato fazem o recorte mais comercial do álbum. A faixa homônima realmente sintetiza todo o posicionamento de Ariana: olhando para si mesma e compreendendo suas falhas e erros, e tirando algum proveito.

thank u, next é sim um álbum melancólica de sua própria maneira. Mas antes disso, é sobre não saber lidar emocionalmente com as várias circunstâncias da vida. Ariana tem atualmente 11 anos de carreira. Com esse mesmo tempo de carreira, Mariah Carey já havia lançado Butterfly; Whitney Houston se preparava para lançar o My Love Is Your Love; Madonna atingia sua época mais polêmica com a sexualidade, Erotica e o sex book.  Seguindo essa lógica, provavelmente estamos nos aproximando do auge da carreira de Ariana. Seria thank u, next esse momento?

p.s.: Alguém ensina essa menina a usar letra maiúscula, por favor.

OUÇA: “imagine”, “bloodline” e “fake smile”

TOY – Happy In The Hollow


Ao mais familiares, minha opinião sobre esse álbum do TOY é: tá bom demais da conta!!!! Meu dreampop está vivo!!!!

Aos menos familiares, o quinteto do sul do Inglaterra apareceu na cena em 2012 com um debut self-titled. Animou a crítica e o público, aquele lenga-lenga clássico da estreia de uma banda indie. Os elogios continuaram com o Join The Dots (2014), e eles apresentavam em ambas produções uma vertente desse krautrock semi-psicodélico inspirado no final dos anos 1960, mas adicionando uma pitada de shoegaze que conferia autenticidade. E mais clássico que tudo isso, o terceiro registro foi aquele “nem quente nem frio”. Uma grande parte do público achou que em Clear Shot (2016) era muito sombrio, e o brilho do dreampop que eles haviam apresentado havia se perdido. Nada novo sob o Sol do universo das bandas indies britânicas.

Tudo que foi necessário foram três anos e uma nova gravadora. O TOY retorna com Happy In The Hollow, um disco produzido por eles mesmo e que está excelente! Tudo está de volta: a energia, o brilho, o shoegaze, a trenheira toda. Mas aqui, eles expandem seu universo melódico, incorporando novos elementos do pós-punk e um pouco daquele folk lisérgico dos anos 1960, que renova o som o tanto necessário.

Ainda que carregue seus resquícios do krautrock, o som em Happy In The Hollow é muito mais leve e delicado. A excelente “Charlie’s House”, um instrumental absurdo de grandeza e suavidade, mostra uma nova face da banda. Merece destaque também a incrível “The Willo”, que quebra genialmente o ritmo do álbum com um folk suave na medida certa.

Ainda assim, a banda reserva momentos específicos para referenciar sua produção anterior. A carro-chefe “Sequence One” e a agressiva “Energy”, ou a dreampop-esque radiofônica “Mistake A Stranger”, atestam esse feito. O registro abrange tantas fórmulas e gêneros que é dífícil colocar uma classificação ao som que fazem. Distorções, vocais aerados, batidas marcantes, baladas folks, mas tudo feito com extrema segurança. Os quarenta e poucos minutos da gravação aparentam segundos.

Happy In The Hollow coloca o TOY como uma banda enérgica e renovada. Um disco coeso, sólido, de um grupo que sabe sua identidade e como trabalhar no limite entre vários gênero e ainda assim alcançar autenticidade.

OUÇA: “Energy”, “Mistake” e “The Willo”

Hey Geronimo – CONTENT


Meu primeiro contato com Hey Geronimo foi estritamente por conta dessa resenha. A banda de Brisbane fugiu do meu radar com seu primeiro álbum, Crashing Into The Sun, de 2016. Procurando sobre o histórico da banda, esbarrei em um artigo recente do site australiano Music Feeds em que a banda falava sobre o In Rainbows do Radiohead. Pouco mais do que aquilo foi necessário para eu me interessar em o que eles tinham para mostrar.

CONTENT, segundo álbum da banda, é indie nostálgico criado à partir de uma premissa distópica. Uma crítica ao mundo ultra-moderno, com tecnologia intrínseca e desmaterialização das relações interpessoais (que pode soar um pouco banky no contexto atual). Isso conjugado a synths psicodélicos, seguindo a linha que Tame Impala e MGMT fizeram em trabalhos passados. No entanto, é louvável que eles tenham ido a fundo na temática que eles já flertavam desde o álbum de estreia. Em metade das faixas está creditado Alex, uma inteligência artificial responsável por composições e arranjos dentro do álbum. O tema é extremamente explícito liricamente, com faixas como “Working For Google” e “Disconnect”.

O álbum abre com “The Last Public Telephone”, e progressivamente vai avançando em direção a uma sonoridade mais palatável, mais próximo do post-punk, com batidas mais rítmicas e guitarras mais presentes. Ainda há suficiente espaço para elementos eletrônicos e distorções e tudo corrobora no conceito final. Faixas como “Too Human”, “Young Again” e a excelente “Bad Citizen” são tão cativantes que a comovem o ouvinte. Serve para lembrar que o indie rock mais formuláico pode ser extremamente agradável quando feito com entusiasmo e dedicação.

A dobradinha final, com “Seat 8A” e “Faster Than Light”dão o tom necessário de desfecho que todo bom álbum tema. O Hey Geronimo produziu um álbum coeso, excelente, e muito agradável. Apesar de tratar de um tema ao qual eu pessoalmente sou averso, ainda foi bom o suficiente para cativar. Isso já é mais que necessário para que a banda entre no radar sonoro definitivamente e não saia por um bom tempo.

OUÇA: “Too Human”, “Young Again” e “Bad Citizen”

The Coral – Move Through The Dawn


A última vez que eu tinha ouvido o The Coral foi em uma festa do ensino médio. A galera alterna reunida na sala bebendo vinho barato e “Dreaming Of You” tocando ao fundo. A faixa mais conhecida da banda entrou em todos as playlists indies da década, e é o ponto alto de seu primeiro álbum The Coral de 2002. Ao dar play em Move Through The Dawn, sétimo e mais recente registro sonoro da banda da inglesa, um sentimento de continuidade. Aqui, uma atmosfera leve, alegre e com muitos riffs de guitarra reapareceu em uma atmosfera folk anos 1970 maravilhosa.

Move Through The Dawn é um álbum sobre escapismo e alegria e, até certo ponto, conformismo com a realidade, tudo ao mesmo tempo. O disco abre com a frase ‘What do you dream when the world is on fire?‘. Da batida espaçada de “Eyes Like A Pearl”, vem “Reaching Out To A Friend”, com seu ritmo bem marcado e atmosfera iluminada. Segue então uma meia hora em que melodias animadas que funcionam suficientemente bem.  O ritmo se mantém contagiante o tempo todo, forçando o ouvinte a se mexer no ritmo da música. Tudo isso permeado por sentimentos de afeição e carinho que enchem o coração de uma gostosa melancolia.

Alguns momentos sejam reservados para pequenas nostalgias. A excelente “Outside My Window” casaria perfeitamente no álbum de estreia da banda. No entanto, o som em nenhum momento parece datado ou desconexo. Existem batidas suficientes ao longo de espaços de respiro que provam que o trabalho de artesão está impecável. A última faixa, “After The Fair”, um folk acústico, não poderia ser um melhor desfecho.

Dentro da discografia da banda, a calmaria aqui aparece como uma equalizadora de emoções com o Distance Inbetween (2014). Com tons sombrios e minimalistas, com um pé no trip-hop, o álbum anterior havia marcado o retorno da banda ao cenário musical. Agora, tristeza deu lugar a um sentimento mais leve. Segundo eles mesmos ‘No more pain, no more sorrows to be sung’ (“She’s A Runaway”).

O The Coral entregou um álbum coeso, muito bem amarrado. Os dezesseis anos de carreira certamente foram muito bem aproveitados. A maturidade, os arranjos musicais bem encaixados, a facilidade de criar melodias pops e uma sonoridade homogênea é incrível. Talvez em alguns anos faça parte de um dos melhores álbums da banda. Move Through The Dawn merece inúmeros elogios, e o The Coral também.

Tom Grennan – Lighting Matches


A primeira vez que eu vi Tom Grennan foi em um clipe da Charli XCX. Brinco de cruz. Jaqueta rosa com estampa floral. Aquele corte de cabelo enquanto ele lavava vasilhas em meio a várias outras celebridades chamou minha atenção e eu tinha que saber quem era aquela beldade. E aquele ditado, “se a Charli gosta, a gente gosta”.

Isso foi lá em fevereiro de 2017, e levou quase um ano e meio para que Tom Grennan entregasse o seu disco de estreia. Lighting Matches é um reforço para o pop britânico, e vem junto com um cantor de grande personalidade e com um  rosto tão bonito que faz a gente querer ser adolescente mais uma vez e colocar um pôster dele no teto do quarto.

O álbum tomou como referência grande parte do que fez sucesso nas rádios britânicas na última década. Um quê de Amy Winehouse, um pouco da melancolia de James Blunt. Uma atitude de Adele, uns vocais do John Newman. Tudo isso em uma confiança de Harry Styles e o produto final é um artista extremamente palatável e pronto para o mercado. Obviamente a gravadora viu Tom Grennan um provável sucesso, e investiu em um álbum seguro e comercial para o debut.

Para sustentar essa promessa, um time forte de produtores e compositores foi alçado. Dentre eles, Charles Hugall (Ed Sheeran, Florence and The Machine), Jimmy Hogart (James Blunt, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Duffy), Fraser T Smith (Adele, Sam Smith), até mesmo Diane Warren. Fica óbvio que a gravadora realmente acredita do potencial dele. A estratégia foi então pulverizar os vocais de Grennan em um extenso espectro de sonoridades e agradar gregos e troianos. Desde um neo-soul até um indie post-punk, Lighting Matches é fácil de ser reconhecido e provavelmente envolverá o ouvinte em algum momento.

O álbum abre com “Find What I’ve Been Looking For”, um riff The Kooks-esque, e daí pra frente são uma hora de possíveis hits. “Royal Highness” faz a linha indie club banger, e “Run In The Rain” é tão dramática que facilmente entraria para alguma trilha Sonora de James Bond. Tudo é facilmente reconhecido, nada causa estranheza, e isso é um fator positivo.

“I Might” é talvez um dos altos momentos do álbum, sustentada por violinos e uma batida bem mercada enquanto Tom fala sobre amor de uma maneira clichê. “Make ‘Em Like You”, logo em seguida, é uma faixa extremamente redonda. Produzida por Joel Pott, que trabalhou com Shura, repete seu formulaico pop e acerta em cheio.

Liricamente, o álbum passa por temas que não impressionam pela banalidade. Solidão, álcool, amor. Tom Grennan pouco se aventura tanto em termos musicais quanto líricos. A autenticidade do disco ficam reservados aos vocais rasgados e as sotaque do cantor de Bedford.  As músicas são tão palatáveis que se colocadas no aleatório podem ser apreciadas da mesma forma. Esse fato é talvez o pior aspecto do disco: a falta de uma unidade de trabalho. Não existe algo marcante que amarre as faixas e as permitam se destacar individualmente. A homogeneidade atrapalha um pouco, e ao longo de dezesseis faixas o ouvinte pode perder um pouco o foco.

No entanto, serve como um ponto de início para um próximo álbum. O cantor tem sido extremamente elogiado por entregar performances ao vivo enérgicas e vivas. Junto ao carisma, tem potencial de se tornar um headliner de festivais em pouco tempo. We’re rooting for you, Tom Grennan!

OUÇA: “Royal Highness”, “I Might” e “Make ‘Em Like You”

Joan of Arc – 1984


Volte a ser criança e lentamente escave todos seus fantasmas, medos, pensamentos sombrios. Agora, cante tudo isso sobre pianos demorados e com vocais da Robyn. Essa certamente é a receita para 1984, o último lançamento da banda Joan Of Arc. Aos não familiarizados, essa é uma banda americana, liderada por Tim Kinsella. Essa prolífica banda que está na ativa desde 1995 volta em 2018 com um disco peculiar, hermético e pouco palatável. Mas isso é produto da elevada experimentação que a banda se prostra a fazer, e é inegável que o resultado é sólido e coeso.

O álbum o leva para um passeio no norte dos Estados Unidos, entre matas densas e uniformes, cidades pequenas e neve, sobre a qual alguém caminha e é possível escutar cada passo. Sintetizadores envolvem tudo em uma atmosfera sisuda, na qual vocais agudos contam tristezas e ansiedades. A atmosfera boreal, de cidades com pouca gente e um sentimento do Outro lacaniano, que recorta e limite a realidade. É à partir dessa coersão e imposição do coletivo que o eu lírico se define durante as canções.

As histórias aqui são de Melina Ausikaitis, a guitarrista da banda que também está nos vocais. Seus relatos extremamente pessoais recriam o cenário de uma infância bruta, de memórias dolorosas. São 35min em nove faixas que o levam a conhecer todos os remorsos de uma infância cênica e calejada. ‘There’s no need to close the door on your personal hole, I’ll tell you why: nobody will notice‘. Esse excerto de “Truck” já mostra a crueza com que a vida é observada.

As faixas aqui não se interrompem. São apresentadas como páginas de um romance que o leitor devora durante uma noite de insônia. Página por página, camadas por camadas, passo a passo andando na neve.  Quem canta aqui é um mero fantasma, tentando o convencer a olhar para a criança que um dia ele foi e fazê-lo ser reconhecido. O produto final, um noise-pop com muitas camadas, mostra que vinte e tantos anos de carreira, com uma média de um registro por ano, dão uma segurança inimaginável para uma banda.

OUÇA: Esse álbum passa fora da minha órbita auditiva. Escute o álbum todo, é uma experiência singular. Ou escute “Truck”.

Datarock – Face The Brutality


Datarock, a impressionante banda norueguesa que fez todo mundo querer um macacão vermelho da Adidas nos anos 2000. A estreia em 2005, com o Datarock Datarock, e o sucessor Red (2009) foram ótimos. Tinha cara de coisa nova, um clima de balada da Escandinávia, um quê de Talking Heads. Os caras voltaram em 2015 com o The Musical, um disco que ninguém mais lembra que existe. E talvez o quarto álbum, o Face The Brutality, não seja o que vai torná-los relevantes novamente.

Como quem morde e assopra, a gente sabe elogiar os bons momentos que a banda de Bergen traz. Começando pelas excelentes influências que eles tem domínio.  Dos melhores atos do new-wave ao mais indie retrô anos 1980.  Está tudo lá, de David Byrne e Devo a Two Door Cinema Club. Isso leva à bons momentos na gravação. “Everything” é um canção rendonda, radiofônica tal qual um Metronomy. “Feathers & Wax”, talvez o ponto alto do álbum, bebe da trilogia de Berlim de David Bowie, com a batida rápida e vocais sóbrios. Outros momentos, como “Invitation To Love”, têm seu valor, com um baixo seduzente e um sintetizador bem acertado.

No entanto, tirando uma ou outra faixa que cativará esse ou aquele ouvinte, os 40min de Face The Brutality parecem mais uma playlist do Daily Discover do Spotify do que o Datarock. A desnecessária abertura com “BMX” parece um left-over do The Knife. O primeiro single “Ruffle Shuffle”, tem uma letra que dá vontade de pagar a conta do bar mais cedo e ir pra casa logo.  “Sense Of Reason”, “Beautiful Monster” e mais umas duas canções abusam muito de elementos anos 1980 criam uma bricolagem sonora que beira o medíocre.

Fica parecendo que as faixas boas não encontram um momento adequado. Estão ali, perdidas, sem uma coesão que pudesse dar-lhes força como conjunto. A desconexão entre um momento e outro cria um álbum fraco, que soterra as expectativas do ouvinte. A tarefa de casa foi bem feita, e os noruegueses continuaram estudando as influências que tanto os encantam. Tem vocais bons, tem sintetizadores, tem atitude. Mas o Datarock esqueceu que um disco deve ser mais do que meras gravações justapostas.

De vez em quando nos sentimos traídos quando um artista que a gente gosta não faz o álbum que a gente tanto esperava. Muito mais quando não fez “o álbum que a gente esperava” há algum tempo. E se a música não tem sido boa, é mais difícil ainda pensar que talvez aquele artista não seja tão bom quanto você queria que ele fosse.

OUÇA: “Everything”, “Feathers & Wax”, “Invitation To Love” e “Outta Here”

Editors – Violence


Violência: comportamento envolvendo força física. Intenção de machucar, destruir ou matar alguém ou algo. A escolha de um substantivo tão singular para um álbum deixa uma vontade de esmiuçar as entre-linhas e achar alguma correlação.

O Editors voltou depois de 3 anos do seu último lançamento. A nostalgia aos anos 1980 veio junto. A banda que vive a alcunha de “Interpol meets U2” tem traçado uma carreira considerável desde a estreia lá em 2005.  Violence, no entanto,  cai naquele caso que o conceito é bom, a execução nem tanto.

O The Back Room já tinha os estabelecido o Editors como um meio termo entre as bandas indies que bebiam dos anos 1980. Agora parece que eles voltaram na loja de vinis da cidade, compraram gravações novas e renovaram essa essência. Os vocais de Tom Smith perderam um pouco do protagonismo inicial. As guitarras acirradas e batidas pulsantes que conquistaram o mundo também se diluíram, e os sintetizadores tomaram conta.

O álbum abre com a fraca “Cold”, que pode deixar um ouvinte pouco decepcionado. Uma produção que flerta com um synth-pop comercial de vocais sóbrios. Não necessariamente um bom começo. “Hallelujah (So Low)” vai na contramão da faixa antetior. Brinca com sintetizadores e vocais sussurrados ao fundo que são rompidos por riffs agressivos. Agora sim, um começo digno.

Apesar dessa esperança inicial, a gravação passa por altos e baixos.  Os vocais grandiosos da homônima “Violence”, com uma batida constante embalam um estranho clima upbeat;  “Nothingness” é um misto de melodia contagiante e  letra obscura que faz a gente querer tirar os CDs do Keane do armário; a dobradinha final com “Counting Spooks”  e “Belong” finalizam o álbum de uma boa forma, com seus devidos pianos alongados e algo que relembra a produção de Brian Eno. Entre essas faixas, uma série de escolhas ruins quebram com a totalidade do projeto. Ora cria-se um clima soturno, ora dissipa-o.

Nessa altura a gente já pode dizer que o Editors largou um pouco as influências de Ian Curtis. Agora, se jogaram aos braços de outra grande banda do mesmo período: o Depeche Mode. As referências entre ViolenceViolator, sétimo álbum da banda britânica dos anos 1980, são comoventes. Os deslizes na produção retiram dos Brummies toda uma potência de mesclar um lirismo sombrio com batidas elétricas que os vizinhos de Essex conseguiram alcançar anos atrás.

Considerando toda a discografia do quinteto de Birmingham, Violence ocupa uma posição mediana, abaixo da tríade de álbum iniciais. O fato de essa ser uma gravação posterior ao muito bem-vindo In Dream de 2015 mostra certa estabilidade na produção da banda. Eles definitivamente se recuperaram após a crise que foi o quarto álbum, The Weight Of Your Love. Violence, uma tentativa de aprofundar dentro de uma temática é certamente uma boa premissa.

A violência que batiza o disco cria uma profundidade emocional diferente. É relacionada muito mais com a solidão e frustração do que com a ira. Violência de quem senta sozinho na sarjeta da rua às três da manhã pra fumar o último Gauloise se perguntando se felicidade e solidão andam lado a lado. Nesse álbum, solidão, selvageria e sofrimento não encontraram sua catarse. Nada foi machucado, destruído ou morto. É uma pena que o Editors não conseguiu entregar a emoção como um todo. Ficam apenas os punhos cerrados.

OUÇA: “Hallelujah (So Low)”, “Violence”, “Nothingness” e “Counting Spooks”

Cut Chemist – Die Cut


Se imagine saindo com seus amigos em uma quarta-feira. Noitada no centro da cidade, balada Throwback 90s, entrada 5 reais com nome na lista. Vocês andam pela balada muito abafada e um pouco vazia. E aí quando na pista, quem tá mandando o set é Kate Moss, Thom Yorke e os Beach Boys. Todos ao mesmo tempo na aparelhagem. É exatamente essa sensação que esse álbum evoca.

Eu juro que eu não sabia onde eu tava amarrando meu jegue quando me disponibilizei pra falar sobre esse álbum. Pra dar nome aos santos, Lucas MacFadden, ou Cut Chemist, é um DJ californiano que tá aí desde a década de 1990 flertando com o rap e o hip-hop. Uma carreira extremamente prolífica, ele decidiu em 2006 lançar um primeiro álbum solo, The Audience’s Listening.

Esse debut foi extremamente amigável. Umas agitações aqui e acolá fizeram o gosto de uma galera alterna mundo a fora. E aí que doze anos depois MacFadden retorna com o Die Cut, que parece uma continuação do que já havia sido criado agora, mas agora muito mais tumultuado e desconcertante, ainda que estranhamente bom.

O álbum parece uma enxurrada de referências e breaks e beats que simplesmente não importa o quanto você tente compreendê-lo, será sempre muita informação. Dezessete faixas que não se esforçam em parecer fáceis de escutar. É um exercício de ginástica mental, de ficar saltando entre riffs de guitarra, broken beats, vocais lo-fi e hip-hop a la GrandMaster Flash.

Vale a pena mencionar que o álbum é recheado com participações de outros artistas. Isso deve influenciar ainda mais nos diferentes humores que evoca.  Esse talvez é o “corte fatal” que MacFadden propõe: seu produto não é tão mais individual, mas ligeiramente coletivo.

Diferente do registro de 2006, que tinha uma harmonia mais convencional e funk-ish, Die Cut já começa com um sabor de hip-hop anos 1990 dissonante e lisérgico. O primeiro um terço, começando em Die Cut (Theme) até Work On My Mind é uma sequência maravilhosa. O primeiro grande momento que chama atenção é Home Away From Home, com vocais quase etéreos de Laura Darlington que saltam aos ouvidos.

Esses esparsos momentos de harmonia vão reaparecendo no álbum nas duas últimas partes, como em Madman ou You Want It, I Got It. Mas os entremeios das faixas, com transições e interlúdios, parecem excessivos. Fica na boca um gosto de frustração.  O prazer que uma faixa traz e logo em seguida algo vem e o deixa desconcertado. A ambientação folk de Plane Jane é um desses últimos momentos de paz em meio ao caos lo-fi. O registro inteiro puxa e empurra os limites do que é audível, e fica uma vontade de salvar faixas específicas em uma playlist para nunca mais ter que escutar todo o álbum.

Compreender e apreciar esse álbum como um todo parece difícil. Prazeroso, porém difícil. Talvez alguns anos a frente de seu momento. Não é ruim, só parece demais. Na verdade, não é ruim de maneira alguma. Mas ao final, fica uma sensação de confusão mental. É necessário deixar o tempo dizer se esse foi um álbum genuinamente bom ou meramente pretensioso.

OUÇA: “Home Away From Home”, “MadMan”, “You Want It I Got It” e “Work On My Mind”