Gary Clark Jr. – This Land



Gary Clark Jr. surgiu a cerca de 8 anos com o EP The Bright Lights e, desde então, lançou 3 discos e coleciona participações em grandes festivais de blues como o Crossroads, tocando ao lado de grandes lendas da guitarra como Eric Clapton, BB King, Buddy Guy e nomes contemporâneos da guitarra como John Mayer e Doyle Bramhall II. Em seu terceiro disco, ele procura ser despretensioso, mas extremamente ambicioso ao trazer uma gama grande de estilos musicais, de maneira experimental.

O álbum se inicia com “This Land”, um manifesto contra o racismo institucionalizado nos Estados Unidos que faz afro americanos não sentirem-se bem-vindos na própria terra. Contrário a isso, ele diz no refrão que é filho da américa e que aquela terra é dele.  A partir da terceira faixa, Gary passa a viajar por diversos estilos musicais diferentes, passando por soul em “When I’m Gone”, R&B, hip hop, pop em “The Guitar Man” e até mesmo reggae na faixa “Feeling Like A Million”. Vale destacar também “Pearl Cadillac”, excelente balada onde o artista mostra a habilidade que tem em combinar harmonicamente sua voz com a guitarra. O disco mostra a versatilidade de um artista que sempre foi visto como um guitarrista de blues, trazendo o foco para a produção e menos para os solos de guitarra. Entretanto, a guitarra blues característica do artista está presente e faixas como a instrumental “Highway 71”, onde ele experimenta solos em cima de uma base, “The Governor” e “Dirty Dishes Blues” que trazem um blues mais clássico.

This Land traz Gary Clark Jr. sem medo de arriscar novos arranjos e experimentar outros estilos. Mostra um artista mais maduro e confiante e acerta em muitos momentos com músicas que seriam excelentes singles, mas funcionam bem em conjunto. Sendo moderno, mas nunca esquecendo suas raízes, This Land é – sem dúvida – um dos melhores discos de blues do ano até o momento.

OUÇA: “My Eyes On You (Locked & Loaded)”, “This Land”, “Pearl Cadillac” e “Dirty Dishes Blues”

Greta Van Fleet – Anthem Of The Peaceful Army


Desde que surgiu para o grande público com seu EP de 2017 – From The Fires– a banda Greta Van Fleet tem causado alvoroço: seja por seu estilo cru de fazer Rock ‘n’Roll ou sua promessa como salvador do Rock atual, mas principalmente por ser comparado constantemente com uma das maiores bandas de todos os tempos: o Led Zeppelin. É clara a influência da banda inglesa nos jovens de Frankenmuth, Michigan – embora o guitarrista Jake Kiszka tenha declarado que as semelhanças são inconscientes e que o Led Zeppelin não é uma influência tão grande nas composições. “From The Fires” traz músicas como “Safari Song” que trazem claramente o estilo de compor de Jimmy Page e a maneira de cantar de Robert Plant. Entretanto, em seu disco de estreia – Anthem Of The Peaceful Army – a banda tenta se distanciar dessas semelhanças para começar a encontrar seu próprio som.

A primeira música do disco, “Age Of Man” já mostra esse distanciamento, trazendo influências de bandas como Rush e Yes, mas principalmente mostrando a capacidade de composição da banda, que já começa aqui a mostrar sua criatividade e originalidade. “When The Curtain Falls”, primeiro single do disco, que tem um lindo videoclipe e rendeu uma apresentação no programa The Tonight Show com Jimmy Fallon, traz elementos setentistas muito fortes marcados por riffs de guitarra e linhas pesadas de baixo. A voz de Josh Kiszka domina o disco, ora extremamente agressiva com drives e tons altos, ora mais tranquila e limpa.

“You’re The One” traz essa voz limpa e bela combinada com corais, violões e teclados e, junto com “Anthem”, são as baladas do disco. “Brave New World” é uma das melhores faixas do álbum, trazendo de volta os riffs de guitarra e uma pegada um pouco mais pesada, embora seja uma canção relativamente calma. A faixa “Lover, Leaver (Taker, Believer)” finaliza o disco e é uma versão estendida de outra música do meio do disco e a banda faz uma versão ao vivo dela de cerca de 23 minutos de improvisos, trazendo de novo a influência clara do Led Zeppelin.

Anthem Of The Peaceful Army é um excelente disco de estreia, principalmente para uma banda tão jovem e com influências tão marcantes. O Greta Van Fleet tem o potencial para mostrar o rock clássico para jovens que não são familiarizados com bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, entre outras. Entretanto, tem principalmente o potencial de fazer seu próprio nome no rock’n’roll, desenvolvendo mais o estilo original que mostra em faixas do disco de estreia e talvez influenciar minimamente bandas jovens a apostar num estilo mais clássico de fazer rock, o que faz muita falta hoje em dia.

OUÇA: “Age Of Man”, “When The Curtain Falls”, “You’re The One”, “Brave New World” e “Lover, Leaver (Taker, Believer)” (principalmente a versão ao vivo).

Panic! At the Disco – Pray For The Wicked


É fácil perceber que Brendon Urie é uma pessoa inquieta: sempre trazendo elementos inovadores para um estilo musical que possui um padrão definido, mas principalmente após 2013, quando ele passou a ser o único membro de sua banda de longa data – o Panic! At the Disco, lançando o Too Weird To Live, Too Rare To Die, álbum que redefiniu sua banda para o que ela apresenta em seu último disco, Pray For The Wicked. Entretanto, muito se passou antes de chegar a essas músicas: o excelente álbum de 2016, Death Of A Bachelor, e interpretando Charlie Price no musical da Broadway de Cindy Lauper, Kinky Boots, onde Urie expandiu ainda mais seus horizontes.

Pray For The Wicked começa com a excelente “(Fuck A) Silver Lining”, fazendo alusão à expressão em inglês que diz que tudo tem seu lado bom, mas que ele não quer simplesmente o lado bom, ele quer o melhor lado possível, usando a frase ‘Only gold is hot enough’, uma metáfora com ter prata (silver), mas querer o ouro (gold) – e também usando a expressão que tudo são cerejas no topo, ou seja – tudo é o complemento do melhor. A seguir, o single “Say Amen (Saturday Night)”, mostrando a criatividade melódica de Urie usando vozes e instrumentos sintetizados como complemento da banda tradicional – guitarra, baixo, etc. Vale destacar também a terceira faixa do álbum, “Hey Look Ma, I Made It”, onde ele diz que conseguiu aquilo que sempre quis, mas com um preço: na frase “sou uma prostituta vendendo canções e o cafetão é a gravadora” e também com o clipe que acompanhou o lançamento da canção, onde Urie mostra – através de um fantoche que o representa – os excessos que podem acompanhar a fama. Outro destaque vai para “High Hopes”, primeira música composta para o álbum, onde ele também fala sobre chegar ao topo e sempre ter tido grandes esperanças de chegar onde está. Roaring 20s conta um pouco da história de Urie, fala sobre a Broadway, sobre álcool e drogas, sobre gratidão e sobre vulnerabilidade.

Pray For The Wicked é o álbum mais pessoal que Brendon Urie já fez e mostra um artista mais maduro e aceitando melhor seu lugar quanto a sucesso, dinheiro, fama. Também mostra a evolução musical do artista fazendo do Panic! At The Disco basicamente seu projeto solo desde 2013. É um excelente álbum para fãs da banda, mas também serve muito bem para mostrar ao público que conhece somente as músicas antigas o quanto ele conseguiu evoluir como artista e ser humano desde então.

OUÇA: “(Fuck A) Silver Lining”, “Say Amen (Saturday Night)”, “High Hopes” e “Roaring 20s”

Jack White – Boarding House Reach


Jack White sempre foi conhecido por inovação. Desde ser frontman de uma banda sem baixo e ainda assim criar o riff de baixo mais famoso de todos os tempos, ser baterista de outra, criar um selo que trabalha de maneiras completamente analógicas, até sua carreira solo – com diversos integrantes tocando diversos instrumentos. Carreira solo que, segundo o próprio Jack White, é o como o White Stripes soaria se voltasse a tocar hoje. Mas é muito maior que isso, pois mostra como a mente de White trabalha, mostrando – a cada disco – influências diferentes em sua peculiar visão. Seguindo essa linha, em 2018, lançou seu terceiro disco da carreira solo – Boarding House Reach. 

O disco se inicia com a excelente “Connected By Love”, bem similar ao estilo dos álbuns anteriores e quase completamente analógicos de White, mas já trazendo alguns efeitos digitais – o grande diferencial desse disco. A partir de “Corporation”, terceira faixa do disco, trazendo mais de três minutos de instrumental, o lado experimental começa a aflorar. “Hypermisophoniac” é a que mais abraça a proposta do álbum, tendo sido feita para com a ajuda de instrumentos de brinquedo para soar propositalmente estranha. “Over And Over” traz de volta o estilo clássico de Jack White, com os característicos riffs e solos de guitarra e os corais femininos. Entretanto, “Respect Commander” traz de volta o ar experimental, fazendo o disco parecer uma montanha russa de maneira proposital.

Pode-se dizer que Boarding House Reach é o disco mais experimental de toda a carreira de White, onde ele segue caminhos que seguira previamente, mas principalmente se aventura em caminhos opostos ao seguro, mostrando faixas que podem confundir quando ouvidas sem o contexto do álbum – mas sem faltar em qualidade e mantendo sempre a assinatura pitoresca do artista.

OUÇA: “Connected By Love”, “Corporation”, “Hypermisophoniac” e “Over And Over”

Maroon 5 – Red Pill Blues


Em 2014, o Maroon 5 lançou V, disco que – à época – foi o mais pop da banda, mostrando as influências eletrônicas que já vinha procurando incorporar desde seu terceiro álbum. Agora, em 2017, a banda segue pelo mesmo caminho com Red Pill Blues, mas de maneira mais confortável e apostando em diversas parcerias.

Red Pill Blues desenvolve bem a proposta de V, último disco da banda, e mostra um Maroon 5 que abandonou a alcunha pop rock para se tornar um expoente da música pop contemporânea ao colocar a sonoridade eletrônica como protagonista, deixando de lado os riffs groovados de guitarra característicos de James Valentine e trazendo convidados como SZA, Julia Michaels, LunchMoney Lewis, A$AP Rocky, Future e Kendrick Lamar – mas ainda conseguindo manter reconhecível o estilo clássico do Maroon 5, principalmente reconhecido pela voz aguda do frontman, Adam Levine. O disco é repleto de músicas muito bem produzidas, com claro apelo comercial, embora hajam excessões como “Denim Jacket”, da versão deluxe, e a excelente “Closure”, que conta com uma jam de 7 minutos em seu final. Outras faixas que valem destacar são “What Lovers Do” – single principal e mais dançante do álbum – com a participação de SZA, “Help Me Out” – com Julia Michaels, onde o vocalista Adam Levine mostra toda sua versatilidade vocal ao chegar facilmente em tons agudos e o excelente primeiro single da banda, “Don’t Wanna Know”, com a participação de Kendrick Lamar.

Apesar de mostrar um Maroon 5 completamente eletrônico, Red Pill Blues remete muito ao estilo despretensioso de compor do debut da banda, Songs About Jane, mas com a nova abordagem de estilo que já procurava trazer desde Hands All Over, mostrando uma banda mais madura, mais decidida e mais confortável com o tipo de música que quer fazer. Embora pareça um amontoado de hits de rádio, principalmente por causa das escolhas de parcerias, o disco com certeza merece uma segunda ou terceira ouvida, a fim de revelar ao ouvinte a sonoridade característica que deixou o Maroon 5 famoso no começo dos anos 2000.

OUÇA: “What Lovers Do”, “Denim Jacket” e “Closure”.

Queens of the Stone Age – Villains


Muitas pessoas pensam em Mark Ronson como o produtor do pop que aparece no clipe de “Uptown Funk” com o Bruno Mars e que nunca produziria um álbum de rock. A verdade é que “Uptown Funk” faz parte de um disco de Ronson voltado para o funk e para o soul e que Bruno Mars é apenas uma das participações do disco, que incluem Andrew Wyatt, Kevin Parker e Stevie Wonder. Além disso, Ronson já produziu singles de artistas como Adele, Amy Winehouse e Paul McCartney. Da mesma maneira, muitas pessoas pensam no Queens of the Stone Age como a banda de bad boys do stoner rock do deserto com o baixista nu e o vocalista que briga com a plateia e que nunca faria um trabalho dançante como Villains, sétimo disco da banda de Palm Desert, California.

A escolha do produtor Mark Ronson e a levada que a banda escolheu para as músicas de Villains pode parecer uma surpresa, tendo em vista discos e performances mais antigos da banda, mas a surpresa seria maior se o Queens of the Stone Age não seguisse por um caminho como esse, pois a cada disco que a banda lança, podemos perceber claramente as influências que os levaram a fazer tais músicas. Por exemplo, a experiência de quase morte que Josh Homme teve em 2011 influenciou extremamente o clima sombrio e as letras de …Like Clockwork – disco que também trouxe uma adição maior de harmonias e teclados – característica não tão presente em músicas de outros discos como “No One Knows” e “In My Head”.

A primeira faixa do disco, “Feet Don’t Fail Me”, já estabelece claramente o tom do álbum, usando sintetizadores e a pegada dançante das guitarras e batidas. As influências continuam em “The Way You Used To Do”, primeiro single de Villains, mas a faixa ainda traz os elementos de stoner rock característicos na discografia da banda – provando o quão bem o Queens of the Stone Age consegue incorporar novas influências sem descaracterizar-se. As duas músicas mais “rock’n’roll” do disco são “Head Like A Haunted House”, com uma pegada mais rockabilly e “The Evil Has Landed”, trazendo mais uma vez as características stoner rock e riffs e solos sujos de guitarra. A faixa final é “Villains Of Circumstance”, mais calma e mais sombria – trazendo orquestrações e o foco na voz do vocalista Josh Homme, às vezes lembrando o que Elvis faria nos dias de hoje.

Cada vez que o Queens of the Stone Age anuncia um novo trabalho, a única certeza que podemos ter é que ele não será mediano. O alto nível imposto pelos discos anteriores da banda está muito claro em Villains, trazendo uma banda ainda mais madura que em …Like Clockwork e mais consistente que em álbuns anteriores. Pode-se esperar perfomances ao vivo memoráveis dessa banda singular no cenário atual, cujos limites de criatividade vão muito além do comum.

OUÇA: “Feet Don’t Fail Me”, “The Way You Used To”, “Head Like A Haunted House”, “The Evil Has Landed” e “Villains Of Circumstance”

Dan Auerbach – Waiting On A Song

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Waiting On A Song é o segundo álbum solo do vocalista/guitarrista do Black KeysDan Auerbach. Com uma proposta e uma sonoridade bem distinta do seu projeto principal, Dan viaja por diversas influências de diferentes épocas de vários estilos musicais.

O álbum começa com sua animada faixa-título, Waiting On A Songcombinando harmonias vocais e riffs bem trabalhados de guitarra, trazendo um ar pop setentista para a canção e segue para a não tão animadora “Malibu Man”que – embora combine guitarra e sets bem trabalhados de metais – não empolga muito e fica apagada perto de músicas como “Livin’ In Sin”, “Shine On Me” e a canção auge do disco – “King Of A One Horse Town”. Vale mencionar também a excelente “Never In My Wildest Dreams” , canção mais calma do álbum, trazendo um ar mais acústico e extremamente bem trabalhado nas harmonias de violões, metais e guitar slide.

Musicalmente, o disco – de apenas 10 faixas – que parece ter sido composto para uma roadtrip, é extremamente leve de se ouvir, passando suavemente de uma faixa a outra e mistura – na medida certa -, pop, rock, folk e o garage blues que o deixou conhecido com o Black Keys.

Waiting On A Song traz o lado mais harmonioso e produtor de Dan Auerbach, resgatando sonoridades de várias épocas distintas e as mesclando com um som atual, fazendo o disco parecer ideal para os dias de hoje e para épocas como os anos 70 e mostra como Dan sabe utilizar suas influências com maestria sem parecer nostálgico.

OUÇA: “Waiting On A Song”, “Livin’ In Sin”, “Shine On Me”, “King Of A One Horse Town” e “Never In My Wildest Dreams”.

Mayer Hawthorne – Man About Town

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Em seu quarto trabalho, Man About Town, Mayer Hawthorne assumiu de vez a alcunha de artista pop – influência talvez de sua mudança de Michigan para Los Angeles -, trazendo com clareza as referências que apareciam tímidas em seu trabalho anterior – Where Does This Door Go. Ainda influenciado pelo soul e pela musica negra americana, agora talvez mais perto do soul pop, Hawthorne mostra sua versatilidade como músico, produtor e compositor ao incorporar influências de artistas como Hall & Oates até lendas como David Bowie.

O disco traz algumas das melhores e mais inspiradas músicas do multi instrumentista, tais como “Cosmic Love” e “Breakfast In Bed”, nas quais Mayer se arrisca no R&B dos anos 70, usando muitos falsetes, viradas rápidas de bateria e saxofone – também “Fancy Clothes”, com licks bem construídos de guitarra, sendo seguida por “The Valley” – a qual traz um pop mais animado, usando teclado e sintetizadores ao invés de bateria -, que parece uma simples virada na música anterior, dando um ar progressivo ao álbum.

Man About Town funciona muito bem como um misto de referências poderosas, trazendo uma enxurrada de hits que poderiam tocar nas rádios tanto hoje quanto há 30 ou 40 anos atrás, mostrando que o lado produtor de Hawthorne pode ser ainda mais meticuloso e perfeccionista do que o multi instrumentista. Embora o uso de tais influências possa soar a ouvidos mais críticos como mais do mesmo feito pelo artista em discos anteriores, a sapiência musical e os recursos estilísticos que Mayer escolhe deixam o disco bem diferente de seus outros trabalhos, mostrando a versatilidade de um músico que nunca será datado e que consegue trabalhar muito bem dentro e fora de seu tempo.

OUÇA: “Cosmic Love”, “Fancy Clothes”, “The Valley” e “Breakfast In Bed”.

David Bowie – Blackstar

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Na madrugada do dia 10 de janeiro de 2016 David Bowie faleceu e deixou um enorme vazio em milhões de fãs pelo mundo todo. Dois dias antes de seu falecimento – no dia de seu aniversário de 69 anos -, o Starman presenteou a todos nós com seu vigésimo sexto álbum de estúdio, denominado Blackstar.

À primeira ouvida – antes de tomar conhecimento da morte de Bowie -, eu e muitos autores de diversas resenhas que li viram Blackstar como um novo recomeço do “Camaleão do Rock” – mostrando o artista completo que é ao se reinventar, mesmo depois de 50 anos de carreira, incorporando desde elementos do jazz experimental, até influências como Kendrick Lamar e Death Grips -, mas agora ele pode ser visto como a despedida perfeita de um dos maiores ícones de todos os tempos.

Composto por apenas 7 faixas, Blackstar começa com a música que dá nome ao álbum, com a voz de Bowie repleta de efeitos e ecos, mas ainda completamente característica e reconhecível – menos cantada e mais falada – com um tom sombrio, quase fúnebre e envolta por uma base eletrônica extremamente experimental, com toques de jazz dados pelos instrumentos de sopro.

Grande destaque do disco, “Lazarus”, com o melhor instrumental do álbum e um videoclipe que transformou a morte e a despedida em obra de arte de uma maneira que somente David Bowie poderia conseguir, é uma das melhores canções da carreira do artista. A balada do disco é “Dollar Days”, onde os vocais são acompanhados por violão, piano e um extremamente bem trabalhado saxofone e, ao final, se conecta melodicamente à última canção, “I Can’t Give Everything Away”, as últimas palavras de um dos maiores e mais enigmáticos compositores da história da música contemporânea, onde ele repete que não pode dar tudo, embora tenha dado muito, talvez muito mais do que possamos entender agora, tornando-o um artista completo, eterno e sempre à frente de seu tempo.

David Bowie sabia de seu destino e sabia que Blackstar era a maneira perfeita de finalizar uma obra grandiosa e mostrar que se foi cedo demais, que tinha muito mais a nos mostrar e ensinar. Infelizmente, a hora dele chegou; portanto, celebremos o maravilhoso legado que ele nos deixou e nunca nos esqueçamos de quem ele foi. Rest in peace, David Bowie.

OUÇA: Tudo o que puder do grande Starman.

Muse – Drones

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Depois de um disco extremamente experimental – The 2nd Law, de 2012 – onde as influências de música eletrônica são muito presentes, esperava-se que Drones fosse o disco mais pesado do grupo inglês Muse, tendo em vista a escolha do produtor Robert John “Mutt” Lange e pelas declarações do trio sobre o aguardado álbum, mas – embora o peso característico do Muse esteja presente em algumas faixas – Drones soa mais um amontoado de influências que funciona até certo ponto e que conta uma sombria história: os drones, as guerras modernas e a ética que envolve esses assuntos.

As primeiras duas músicas não trazem novidades em relação ao disco de 2012, mas a partir de “Psycho”, primeira a ser divulgada pela banda e um dos destaques do disco, percebe-se o peso que o produtor Lange – responsável por clássicos do hard rock, tais como Pyromania, do Def Leppard; Back In Black e Highway To Hell, do AC/DC – incorporou à sonoridade do Muse.

Ainda nas músicas mais pesadas destaca-se “Reapers”, a melhor do disco, onde os riffs virtuosos e sujos de guitarra característicos de Bellamy se fazem presentes junto com uma técnica muito utilizada no metal onde ele imita um determinado som, nesse caso, os disparos de um drone hellfire, sempre acompanhado pelo baixo distorcido e extremamente técnico de Wolstenholme – tornando-a uma das melhores músicas do Muse dos últimos anos. Então vêm as músicas que menos se destacam por serem mais das mesmas propostas dos discos anteriores, como a clara influência de Queen em “Defector” e “Revolt”, também percebida em outras mais antigas como “Panic Station” e “Supermassive Black Hole”

Embora o disco esfrie depois de algumas músicas, os shows ao vivo vão ficar ainda melhores, selecionando as músicas certas e combinando-as com clássicos. Com músicas beirando o progressivo como “The Globalist”, a mais longa da carreira do Muse, com dez minutos de duração, a interação com o público pode aumentar durante as quatro partes em que é dividida. Vale citar também a balada “Mercy”, que embora também não inove e soe levemente parecida com músicas de outros discos, tem um refrão forte e uma letra que apresenta a teoria que inspirou Drones.

A mensagem por trás do disco é muito interessante e foi definida por Bellamy como: “O mundo é dirigido por drones utilizando drones para todos nós nos transformarmos em drones. Drones explora a viagem de um ser humano, desde o seu abandono e perda de esperança, à sua doutrinação pelo sistema para ser um drone humano, à sua eventual deserção de seus opressores”.

Portanto, Drones funcionará muito bem ao vivo entre clássicos do Muse, fazendo a banda manter o status de melhor show ao vivo do século XXI, mas como álbum não tem tanta força. Há, nesse álbum, músicas que têm potencial para se tornarem clássicos em meio a algumas outras que não se destacam em nada em relação a álbuns anteriores. Entretanto, percebe-se uma melhora enorme da qualidade se comparando ao último disco e, talvez num próximo álbum, o Muse se supere e faça o melhor de sua carreira.

OUÇA: “Psycho”, “Reapers” e “The Globalist”