Bat for Lashes – Lost Girls



Lost Girls, o quinto álbum que Natasha Khan lança com o nome artístico de Bat for Lashes, é, de certa forma, muito visual. Já na capa, fica claro que o que vamos encontrar tem uma grande influência dos anos 1980. Além disso, o álbum nasceu de um período criativo em que a britânica escrevia seu primeiro roteiro de cinema, após se mudar para Los Angeles.

A relação com o cinema e com as memórias oitentistas de Natasha – em especial, filmes de fantasia e ficção científica – é a espinha dorsal do álbum. Não é à toa que uma das faixas – com um som que traz muita influência de The Cure – tem o título de “Vampires”. Assim como nos outros trabalhos da cantora, a sensação é de que o que estamos ouvindo é algo etéreo. São músicas que convidam o ouvinte a sonhar e viajar, seja através das nossas próprias memórias da icônica década de oitenta, ou dos laços afetivos que criamos com a música e a cultura daquela época.

No caso de Lost Girls, essa característica nostálgica passa longe de ser apenas uma forma de surfar na onda de revivals dos anos 80, que vêm tomando conta da cultura pop nos últimos anos. Há um toque pessoal nas criações de Natasha. A sua voz singela, acompanhada dos sintetizadores característicos do synth pop que marcou a música nos anos 1980, nunca soa batida neste álbum. É, sim, um som de outra época – quase de outro mundo. Mas é um baita som.

OUÇA: “Kids In The Dark”, “Jasmine”, “Mountains”

Bruce Springsteen – Western Stars



Cordas e personagens errantes. Esses são os ingredientes de Western Stars, o 19º álbum de estúdio de Bruce Springsteen. São 12 faixas de country rock, que dão voz a histórias de protagonistas envelhecidos, que olham para a estrada vazia como um longo e cansativo caminho a ser percorrido. A sonoridade do álbum, que remete aos anos 1960 e é muito diferenciada do que se tornou o esperado de Springsteen, é justamente um dos pontos (mais) altos do álbum. É um ponto fora da curva na discografia do The Boss – mas um ponto muito bem marcado.

Seja o dublê, o ator em fim de carreira ou o laçador de cavalos, é impossível ficar imune aos personagens e às histórias contadas pelo cantor em Western Stars. Aos 69 anos, a voz de Springsteen, grave e cristalina, conquista a atenção do ouvinte em meio aos arranjos musicais do álbum. São canções mais contemplativas, em comparação com as composições mais recentes do músico, antes mais voltadas para questões políticas dos Estados Unidos. Em “Western Stars”, os protagonistas trazem traços inconfundíveis de personagens sobre os quais Springsteen gosta de cantar – mas, desta vez, com um som mais intimista.

As temáticas são mundanas, mas evocativas. Esse é um álbum que traz consigo imagens de seus personagens, de suas paisagens. É impossível ouvir Western Stars e não se imaginar vagando sozinho em uma estrada rural norte-americana, como apenas o horizonte azul de companhia.

OUÇA: “The Wayfarer”, “Stones” e “Hello Sunshine”

Ian Brown – Ripples



Em seu sétimo álbum solo, o ex-vocalista do Stone Roses faz um trabalho que altera entre composições boas, que grudam nos ouvidos – como “First World Problems”, o single que abre Ripples -, e sons repetitivos, que não se destacam tanto entre as dez faixas que compõem o novo disco. Ian Brown toca vários dos instrumentos utilizados nas músicas, além de ser o produtor do álbum. Ripples, aliás, é um trabalho em família: os filhos do vocalista fazem parte de sua banda e ajudaram a escrever várias músicas. É também o primeiro trabalho de Brown em dez anos, desde o álbum solo anterior, My Way.

Mas nem tudo é negativo: em vários momentos, a voz de Brown soa muito bem, ainda mais considerando que o músico tem 56 anos de idade. É um dos pontos altos deste trabalho, que conta com dois covers – “Black Roses”, de Barrington Levy, e “Break Down the Wall”, de Mikey Dread. Há outras faixas memoráveis, como “The Dream and the Dreamer” e o “Blue Sky Day”. Em várias músicas, inclusive nessa última, um blues com um quê de Nina Simone, há um ar de desesperança em relação à humanidade, em especial quando ele canta sobre como tratamos a nós mesmos – ou como os governantes tratam o povo – e ao nosso planeta.

No fim, Ripples é um trabalho mediano, mas que quando alcança momentos bons, são muito bons. É possível que agrade mais os fãs de longa data do cantor, que o seguem desde a época de Stone Roses e ficaram na espera por um novo trabalho de estúdio da banda. Fica a satisfação de ouvir mais uma vez uma das vozes característica mais da cena Madchester.N

OUÇA: “First World Problems”, “The Dream And The Dreamer” e “Blue Sky Day”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Johnny Marr – Call The Comet


O ex-guitarrista do Smiths, Johnny Marr, passou um bom tempo trabalhando com outros músicos e grupos. Neste ano, ele lançou seu terceiro álbum solo, Call The Comet. E este terceiro disco é o trabalho mais sólido dessa nova fase da carreira do músico.

Muitos artistas vêm se inspirando nos acontecimentos políticos dos últimos dois anos, em particular na guinada conservadora representada pelo Brexit e pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Geralmente, esse tipo de inspiração leva a um de dois caminhos: ou à criação de músicas de protesto, ou a músicas menos desanimadoras, que trazem a esperança de mudanças e tempos melhores. O álbum de Marr se encaixa na última categoria, porém com um pequeno twist: ele também é um trabalho musical inspirado na temática sci-fi – como fica claro na segunda faixa do disco, “The Tracers”, em que os seres imaginados pelo britânico vêm à Terra, pois sabem que “nós nos perdemos”.

As letras formam um dos principais pontos positivos do álbum, que traz traços de britpop em meio à temática e “climão” sci-fi de certas canções. É claro que The Smiths continua influenciando a obra do britânico, mais evidentemente em “Hi Hello”. No fim, o músico é bem-sucedido ao apresentar seu álbum não-exatamente-conceitual sobre uma “sociedade alternativa”, em especial na criação das narrativas para apresentar um futuro não muito distante – porém livre da influência de um certo líder norte-americano.

OUÇA: “The Tracers”, “Walk Into The Sea” e “Bugs”

David Byrne – American Utopia


American Utopia é o primeiro álbum solo de David Byrne – sem contar álbuns colaborativos – em quatorze anos, como o próprio músico define. O álbum, que saiu neste mês de março, é parte do repertório dos shows que Byrne está realizando no Brasil e traz uma característica um pouco peculiar, se tratando do fundador do Talking Heads: um inegável tom otimista.

O otimismo é a forma que o artista encontra para encarar a Era Trump – e, em alguns momentos, essa estratégia funciona muito bem, como em “Everybody’s Coming To My House”. Porém, de modo geral, essa tentativa de encarar o momento de forma positiva se traduz de forma estranha, musicalmente falando. O resultado final dos experimentos sonoros de Byrne neste novo trabalho não estão à altura do que os fãs estão acostumados a esperar do cantor norte-americano. Os efeitos sonoros empregados no disco às vezes ficam deslocados, dependendo das músicas.

O que não é dizer que nada do disco é agradável. Na primeira faixa do disco, as explorações desses efeitos sonoros funciona, assim como em outros momentos do álbum. Mas no final, este acaba sendo um trabalho irregular de Byrne – uma pena, considerando o potencial que o nome do líder do Talking Heads carrega.

OUÇA: “Everybody’s Coming To My House”, “I Dance Like This” e “Doing The Right Thing”

Belle and Sebastian – How To Solve Our Human Problems


O novo disco da banda escocesa Belle and Sebastian, que recebeu o inspirado título de How To Solve Our Human Problems, é na verdade uma coletânea que reúne três EPS lançados pelo grupo. É difícil encontrar um som da banda, em vinte e dois anos de carreira, que não seja agradável aos ouvidos. A música que os escoceses entregam é o legítimo “som gostoso de se ouvir”. É um som bonito. E mesmo assim – às vezes, por causa disso – é também ocasionalmente um som melancólico.

Grande parte dessa sensação de melancolia vem das letras, compostas em sua maioria por Stuart Murdoch, tratam de sentimentos e falhas humanas – não é por nada que o nome do disco faça referência aos “human problems”. E nessa compilação de EPs, a banda discorre sobre questões em músicas por vezes calcadas no folk, outras que pendem muito mais para a disco music.

Embora, em termos de temática de suas letras, How To Solve Our Human Problems seja coeso, englobando essa premissa de discorrer sobre a condição humana, fica perceptível que se trata na verdade de uma trilogia reunida em um só álbum. Muito disso se deve à particularidade de música: nenhuma das faixas é desagradável ou mesmo ruim, mas as canções verdadeiramente tocantes, que vão ficar na cabeça do ouvinte e o farão querer escutar How To Solve Our Human Problems novamente estão no terço final do álbum. Melodias lindas, letras mais lindas ainda, que podem partir o coração de um ouvinte desavisado. Belle and Sebastian fazendo aquilo que Belle and Sebastian fazem de melhor.

OUÇA: “There Is An Everlasting Song”, “Poor Boy” e “Too Many Tears”

Stereophonics – Scream Above The Sounds


Com Scream Above The Sounds, os britânicos do Stereophonics chegam a seu décimo álbum de estúdio. São 25 anos de carreira, e boa parte do álbum soa como o grupo revisitando notas e arranjos que fizeram parte da história da banda. Na maior parte desses momentos, o bom e velho “feijão com arroz” funciona, como nas duas canções iniciais do disco. Como é usual, a voz de Kelly Jones nunca falha em atrair a atenção do ouvinte; é um voz, assim como “Caught By The Wind”, a música que abre o álbum, extremamente radiofônica, que faz o ouvinte cantar junto sem muito esforço.

Mas não é só de receitas já testadas e aprovadas que Scream Above The Sounds é feito. Há canções que trazem a banda tentando coisas novas, que fogem do stadium rock normalmente apresentado pelo Stereophonics. Essas tentativas, embora não resultem em obras-primas, mostram que mesmo com um quarto de século de estrada, a banda tem capacidade de inovar e fazer essas mudanças funcionarem.

Em termos de letras, o décimo disco do grupo britânico, de forma geral, não demonstra as sacadas legais de obras mais antigas. Porém, o álbum é mais inventivo – e realmente emociona – quando Kelly Jones canta para Stuart Cable, o baterista original da banda, que morreu em 2010. Em “Before Anyone Knew Our Name”, que acaba sendo o ponto alto do álbum, Jones canta “I miss you, man”, e é evidente a sinceridade por trás do verso.

OUÇA: “What’s All The Fuss About”, “Before Anyone Knew Our Name” e “All In One Night”.

Gogol Bordello – Seekers And Finders


Sétimo disco de estúdio, Seekers and Finders traz muitos elementos que fazem do gipsy punk do Gogol Bordello uma colcha de retalhos muito bem costurada. Ao longo das onze faixas do novo disco, é possível detectar as influências multiétnicas da banda. Em Seekers and Finders, há músicas com influências country, rockabilly e, claro, punk. Neste sétimo álbum, a banda liderada pelo ucraniano Eugene Hütz conta com instrumentos como violinos, acordeões, trompetes, marimba, guitarras e baixos para compor a sonoridade do disco. Tudo arranjado de forma a entregar uma carga intensa de rock and roll única, como os fãs da banda já estão acostumados a esperar.

A sensação de que, apesar da banda ter sido criada em Nova York, ela vem de vários lugares – e pertence a nenhum deles – não está presente apenas na sonoridade do disco. Sempre divertido, dessa vez a mensagem de algumas das letras da banda trazem o ouvinte para discussões muito atuais – em “Clearvoyance”, Hütz canta sobre um nômade e imigrante ilegal e sua vida. Entre as surpresas agradáveis do álbum está a faixa-título, que tem a boa participação de Regina Spektor.

Com sons que evocam até mesmo músicas mexicanas, o novo álbum do Gogol Bordello é como uma viagem ao redor do mundo. Uma divertida e agradável (e punk) viagem.

OUÇA: “Walking On the Burning Coal”, “Seekers and Finders” e “Clearvoyance”

Iron & Wine – Beast Epic


Se existe algo como um “feel good movie”, existe também algo como “feel good music”. Iron and Wine por vezes personificou esse tipo de música, um folk reconfortante, indie da melhor qualidade – mesmo que um tanto quanto melancólico. Depois de indas e vindas, Iron & Wine – ou, simplesmente, Sam Beam retorna à Sub Pop Records. E o retorno não é percebido apenas nesse sentido. Beast Epic traz muito da sonoridade que conferiu notoriedade e sucesso ao projeto. Traz as características e o violão que deram a Iron and Wine sua identidade. O próprio Sam Beam admite uma certa “afinidade” de Beast Epic com trabalhos anteriores – e a passagem do tempo e o eventual retorno a coisas que nos são familiares é um tema que permeia o álbum.

O que não é dizer que Beast Epic é simplesmente mais do mesmo, mas sim um aprimoramento de tudo o que tornou o projeto musical de Sam Beam algo singular e que merecia ser ouvido. A voz é outra característica que parece ter melhorado com o tempo: Beam soa como deve soar e a voz dá harmonia a todos os elementos musicais, do violão ao som do piano, quase escondido ao fundo.

Ouvir Beast Epic, é, no fim, como voltar a ver um velho amigo. Um bom velho amigo.

OUÇA: “Claim Your Ghost”, “Bitter Truth” e “About A Bruise”