Norah Jones – Begin Again



Com sua estrondosa estreia, Norah Jones se consolidou como figura central do jazz contemporâneo. Com o tempo, porém, provou sua versatilidade enquanto fazia passagens por outros elementos para complementar a tradicionalidade do seu estilo.

Begin Again é um compilado de colaborações inusitadas que a artista desenvolveu durante 2018, e apresenta novas formas de enxergar sua obra, embora seja menos experimental do que seus projetos passados. O resultado é uma descontraída junção de faixas que parecem ter sido concebidas de forma orgânica, sem grandes pretensões.

Por um lado, faixas como “It Was You” dão um toque leve ao todo e divertem pela sua suavidade. Essa, aliás, é uma das músicas mais essencialmente jazzy e reconhecíveis, que impulsa o álbum para um momento mais animado, clima não tão presente nas outras faixas, que entoam melodias mais suaves e frias.

Por outro lado, a surpresa não é o ponto de destaque deste curto projeto, tornando-se previsível mesmo sendo composto por apenas sete músicas.

A abertura com “My Heart Is Open” constrói o caminho para uma sonoridade diferente explorando caminhos novos e construindo uma composição mais lenta que retoma sons sintéticos. Essa estrutura se acalma logo em “Begin Again”, retomando uma mais tradicional, mesmo que ainda não essencialmente a Norah da estreia.

“Uh Oh” é outro momento curioso e fora da curva para o projeto, que utiliza das diferentes camadas vocais associadas a um R&B sutil para uma faixa um pouco mais densa e de atmosfera psicodélica, semelhante à apresentada no início.

A compilação de Begin Again não surte um efeito essencialmente profundo, mas ganha um toque de encanto pela criatividade sutil e as adições vocais que a cantora proporciona com o tom suave.

É também uma face distinta de Norah, mais descontraída e despretensiosa, embora com a tonalidade refinada de sempre.

OUÇA: “Uh Oh” e “It Was You”

Girlpool – What Caos Is Imaginary



Desde sua estreia em 2014, Girlpool tem se aprofundado na expansão da sua sonoridade. What Chaos Is Imaginary chega para provar essas mudanças, consolidando um compilado de sons muito mais expansivo e maduro do que em seus outros projetos. A adição de elementos distintos, antes não presentes nos seus discos, ajuda a captar a energia distinta que ronda a produção desse álbum.

Apesar dessa nova composição que ajuda a criar uma atmosfera coesa para o álbum, a temática não é tão distante assim daquilo que já haviam apresentado, mas talvez trabalhada de uma maneira mais polida.

O mais interessante de todo o projeto pode ser, talvez, como essa conjugação de diferentes influências torna difícil definir um único rumo para os ritmos. Em momentos, se mantém amplamente tradicionais, remetendo a projetos antigos. Em outros, vão por caminhos inexplorados.

A adição de elementos eletrônicos sutis em “Chemical Freeze” tornam esse momento um dos mais diferenciados do projeto, capturando a energia mais ousada em que a dupla se jogou para o disco. “Minute In Your Mind” altera um pouco essa tonalidade, mas ainda consolida o aspecto mais dream-pop da banda.

Ainda assim, poderíamos pensar que escutamos outro álbum completamente diferente quando iniciam-se “Hoax And The Shrine” ou “Swamp And Bay”: a primeira, tomada pelos elementos acústicos com poucas interferências, a segunda, com uma sonoridade muito mais afirmativa e incisiva, mas também mais previsível. Outros momentos, como “Hire”, voltam para a origem mais grunge e despojada.

Explorando o indie-rock em sua tradição, a dupla transita por distintos elementos sonoros que fogem da sua estrutura tradicional que, caso não ocorressem, deixariam o álbum num patamar muito mais raso e monótono.

O elemento vocal do disco também se destaca, uma vez que a combinação das vozes e divisão enquanto solos funciona bem e criam uma boa harmonização. Nos momentos individuais é possível entender a particularidade de cada um, o que também favorece na diversificação do álbum.

Mais ousada, a dupla dá passos importantes para uma sonoridade própria e mais única, mas ainda tropeça para encontrar uma estruturação melódica que funcione sem tornar-se relativamente previsível ou maçante em alguns momentos.

OUÇA: “Chemical Freeze” e “Minute In Your Mind”

ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”

Dillon Francis – Wut Wut


A influência latina se faz presente desde a primeira faixa do álbum, e determina uma predominância para o disco inteiro. A associação com a tendência de incluir a sonoridade na produção seria interessante, se não fosse atrelada a batidas eletrônicas genéricas e entediantes, reproduzindo mais do que já é comum escutar nas rádios de hoje em dia.

Mesmo com uma produção que deixa desejar, o segundo álbum do produtor americano conta com colaborações de alguns dos principais nomes latinos atuais. Alguns tiveram uma contribuição previsível e desinteressante, servindo como um apelo ainda mais comercial para as faixas eletrônica. Outros, no entanto, deixaram sua marca, não pela complexidade sonora da música, mas pelo seu carisma natural. É o caso do porto riquenho Residente, de Calle 13, já consagrado na cena latino americana como um dos principais nomes do reggaeton e rap comercial.

De qualquer forma, as colaborações não são o suficiente para realçar o disco e sustentá-lo em sua totalidade. Mesmo assim, algumas faixas são aproveitáveis e trazem um pouco do bom uso das influências de ritmos latinos. É o caso de “We The Funk”, com Fuego, influenciada claramente pelo reggaeton mas com pinceladas de elementos que remetem a tambores suaves. Apesar de previsível, “Look At That Butt” tem uma influencia trap acida e energia alta, que a tornam animada e dançante.

Algo que une as colaborações é a presença do idioma espanhol nas faixas, o que ajuda, de certa forma, a dar um toque diferente a cada música, deixando-as minimante mais intrigantes e, a depender do artista, realmente parte interessante da construção total. Outro exemplo de um quase sucesso é “Get It Get It”, a última faixa, que poderia se assemelhar a uma faixa da M.I.A. pela sua batida acelerada e estridente associada a elementos que constroem uma música potente na pista de dança e com uma excentricidade característica.

Os esforços em produzir uma combinação latino-eletrônica são claros e transparentes, mas possivelmente a tão escrachada fusão deixe quem escuta um tanto confuso. A coesão do disco peca durante sua progressão, e apesar de estarem conectadas, as faixas parecem perder sentido em si mesmas. O apelo comercial parece gritante demais para passar despercebido, o que não seria um problema se a estruturação geral do álbum propusesse uma abordagem diferente e menos preguiçosa.

OUÇA: “Get It Get It” e “We The Funk”

Troye Sivan – Bloom


O momento em que Troye Sivan lança seu segundo álbum de estúdio não vem do acaso: o australiano vem construíndo uma ampla gama de seguidores desde seus inícios no YouTube há alguns anos. A consolidação da sua carreira como cantor muito deve a essa época mas, para além disso, Sivan é o reflexo daqueles que cresceram vendo seus vídeos.

Algo que Bloom deixa claro desde seu início é o tom aberto e dinâmico com que o cantor aborda sua sexualidade: abertamente gay desde a época dos vídeos, suas vivências como jovem LGBT são claramente expostas na dinâmica do disco. As experiências não são tão diferentes de qualquer jovem adulto que explora relacionamentos e sua sexualidade mas, em termos de sensibilidade e vulnerabilidade, se tornam relevantes. A primeira experiência sexual de um jovem gay passivo é abordada de maneira leve e até romantizada por Sivan que, no contexto da faixa, funciona bem como uma narrativa sensual e intrínseca bastante interessante.

As influências musicais são claras e também dizem muito a respeito da formação de Sivan enquanto jovem da classe média australiana. O álbum é expressamente pop, talvez o mais pop que um cantor de 23 anos com a ampla rede de fãs adolescentes consegue ser, mas de certa forma, é um pop maduro, com momentos de produção excepcional que o destacam de qualquer revival do pop vintage que caracteriza as rádios de hoje. Sivan pode ser, por vezes, um respiro para a monotonia e desgaste que o gênero consegue causar. Em outros momentos, porém, reproduz modelos e, assim como seus contemporâneos, pode cansar.

A sonoridade, apesar de não muito destoante, é realçada pela certa transparência e delicadeza com que Troye caminha pelos versos. A vulnerabilidade passa a ser, então, uma das maiores características do álbum: seja pela produção sútil ou pelas letras expostas e amplamente pessoais. Mesmo que não seja necessariamente diferente de construções líricas comuns ao universo pop ou melodias muito fora da curva, o trajeto de escutar Bloom dá uma sensação de leveza e positividade ao se atravessar. Limitado a dez faixas, o projeto finaliza bem amarrado: ee mais extenso, o álbum poderia correr o risco de ser muito monótono e repetitivo.

Momentos mais dançantes como o da faixa título ou o de “Lucky Strike” se potencializam quando associados ao passo mais lento da parceria com Ariana Grande (“Dance To This”) ou, ainda, à progressão lenta de “The Good Side” ou “Postcard”.

Sivan se encaixa numa onda jovem do cenário pop bastante preocupada em trazer questões relacionadas a gênero e sexualidade, com visuais e expressões cada vez mais desinibidas mas, em oposição a outros promissores do cenário, Sivan o faz de forma leve e sútil, deixando sua boa marca no momento do gênero se situa para 2018 e, ainda, evidenciando sua proeminência na cultura queer, com potencial de amadurecimento para uma figura marcante do pop comercial LGBT.

OUÇA: “Bloom”, “Postcard”, “The good Side” e “Lucky Strike”

Jorja Smith – Lost & Found


O título do primeiro álbum da britânica Jorja Smith se esclarece de maneira sublime durante o processo que é escutar esse disco suave e que, com tal leveza, consegue atravessar momentos que se aproximam a uma implosão emocional dura de se presenciar.

O tom de voz perfeito ao R&B que não precisa de muito para sobressair se alia às melodias suaves para tornar Lost & Found um momento introspectivo e essencialmente musical raro em um álbum de estreia. Completo, profundo e por vezes amargo, é a construção de uma metáfora sobre perda e reencontro, com uma densa visão própria. Sem resposta aparente para todos os questionamentos, parece valer a pena simplesmente pelo fato de conseguir transmitir seus dilemas de forma excepcional.

O início do álbum indica a cantora aceitando a perda – de forma ampla. Com melodias leves em que a voz é a protagonista, “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” e “February 3rd” dialogam com esse desencontro, em que Smith conversa consigo mesma e com seu exterior. A artista se apresenta firme e ciente de si: o projeto é extremamente maduro, em termos de sonoridade, de lírica e, inclusive, na forma como utiliza sua voz. Smith tem o controle, mesmo quando aceita sua própria perda e enfrenta as parcelas mais duras do álbum, o faz de forma firme. Lost & Found evolui, assim, para um disco afirmativo. Nele, além de ser extremamente introspectiva, Smith é honesta e também muito objetiva em termos da sua personalidade e maturidade artística.

Particularmente em “Teenage Fantasy”, por exemplo, a cantora utiliza sua voz para dar um dos  pontos altos ao álbum, quando o refrão inicia. Retomando o R&B numa atmosfera semelhante ao final dos anos noventa e início da década de 2000, Smith transporta com facilidade: com batida sutil associada a um piano delicado, encarna a melancolia da turbulenta transição de milênio, podendo ser comparada a uma Amy Winehouse de Frank (2003). A composição das músicas é semelhante e marcada pelo minimalismo, mas não menos interessantes, em grande parte pela sua versatilidade vocal. Em “February 3rd”, Smith confecciona outro dos momentos altos do álbum ao criar uma faixa com realidade nostálgica, ao mesmo tempo em que possui elementos bastante contemporâneos. Para além disso, utiliza excepcionalmente, mais uma vez, sua voz, principalmente prestes ao fim da música, em que todos os elementos (vocal a instrumental) convergem naturalmente.

Em músicas como “The One”, na qual a cantora reconhece sua própria carência afetiva, não se limita apenas a descrever seu sentimento como um vazio de preenchimento necessário. Smith reconhece sua perda mas, ao mesmo tempo, também está ciente do que isso implica. Não esconde, mas sua vulnerabilidade está associada a uma grande noção de autoconhecimento: Smith reflete sobre o que significa a sua necessidade de “querer”, direcionando a narrativa para não sentir que há “algo” a se preencher.

A perda com a qual a cantora conversa assume formas distintas e se apresenta de maneira dolorosa (como na faixa “Blue Lights”, em que dialoga com o medo à polícia e violência do bairro em que nasceu numa metáfora de culpa sem motivo) ao mesmo tempo em que é revitalizadora e, nesse caso, toma a forma de uma espécie de reencontro. Essa dualidade nostálgica serve como apoio para a exposição das mensagens.

“Tomorrow” e “Don’t Watch Me Crying”, possivelmente dentre os momentos mais dolorosos do disco, também o finalizam. Após apresentar tanta estruturação e eloquência na forma de transmitir, é como se, nesse último suspiro, a cantora se permite ser relativamente inconsequente: a simplicidade das músicas dá espaço a uma abertura emocional dolorosa que encerra o álbum com aquilo que parece ser o mais importante, a honestidade. O reconhecimento de si mesma não de forma prepotente mas sim muito assertiva e demarcando, justamente, a perda e o reencontro como possíveis metáforas para esse processo de autoconhecimento.

O minimalismo, apesar de interessante pelo destaque a cada elemento da composição, pode em certos momentos dar abertura a uma percepção de monotonia ou falta de variação mas que, ao considerá-la em detalhe, é possível contornar.

Para além da introspecção, a britânica consolida uma estréia sólida e rara, deixando grandes expectativas perante seu próximos trabalhos e mostrando-se como artista e compositora com muito a contribuir em termos de narrativa no cenário musical e, claro, habilidade técnica.

OUÇA: “Teenage Fantasy”, “February 3rd”, “The One” e “Don’t Watch Me Cry”

Tove Styrke – Sway


Participante do Swedish Idol – competição na qual finalizou em terceiro lugar – a sueca Tove Styrke apresenta, quase dez anos depois, seu terceiro álbum de estúdio. Seu primeiro LP, lançado após a finalização do programa em 2010, apresentou uma coletânea que a consolidaram em seu país como um proeminente nome pop.

Hoje, Styrke volta com narrativas predominantemente românticas em Sway, alinhando-se na evolução do cenário pop e o contexto em que se localiza em 2018. Um dos aspectos que mais marca o LP é o de possuir diversas batidas extremamente infecciosas, produzidas com o intuito e habilidade de se fixarem em quem ouve. Isso ajuda a criar uma obra, no mínimo, divertida. Em outros momentos, porém, as batidas podem tornar-se cansativas e cair na mesmice de um álbum beirando ao genérico. Um disco que, apesar de possuir qualidade superior à de outros artistas da mesma esfera, pode ser apenas isso – bom – sem transcender ou desafiar as barreiras de um gênero que se transforma com facilidade e que, também, dá abertura à diversidade.

São os detalhes de produção ou da lírica da cantora que elevam a experiência de escutar a obra completa mas que, às vezes, se perdem na narrativa ou na semelhança sonora. Styrke parece seguir, de certa forma, na corrida pela reafirmação no mundo pop, e o faz com uma largada de vantagem, mas parece se cansar no percurso para finalizar em uma posição mediana.

A faixa título, introdução ao álbum, apesar de não ser um dos destaques, estabelece com sucesso o tom sonoro e lírico geral do álbum. As letras são bastante românticas e dialogam com sensações comuns mas não muito aprofundadas.

Um dos pontos altos encontra-se nas faixas em sequência, “Say My Name” e “On The Low”, ambas lançadas precedendo a estreia do álbum. As duas apresentam uma das principais características do álbum: refrões marcados pela repetição de frases e sonoridades, o que possibilita a fixação desses no imaginário de quem ouve. Em “Say My Name” a cantora persuade seu interesse amoroso a ser claro e  reconhecer seus sentimentos por ela, apresentando-se de forma bastante direta e certeira com seus sentimentos. De certa forma, o diálogo com sensações amorosas, no álbum em geral, não se apresentam de forma melodramática e negativa, muitas vezes enaltecendo sentimentos positivos e incitando ao seu aproveitamento; energia muito presente em “On The Low”, quando Styrke reafirma sua vontade de explicitar seus sentimentos, reconhecendo sua inevitabilidade.

A energia positiva do álbum se mantém, inclusive chegando a dialogar com uma intensidade amorosa que remete a uma vontade de ser irresponsável por parte do eu-lírico. A estruturação das batidas é bastante semelhante uma da outra, tornando o álbum previsível, de certa forma, quando se chega na metade. O disco é curto, possui sete faixas autorais e um cover de “Liability”, da Lorde, o que atua mais como uma vantagem do que um ponto baixo: se fosse mais extenso no mesmo ritmo seria, possivelmente, mais cansativo.

A maneira de expor os sentimentos e a relação sonora parecem uma tentativa de se posicionar diante de álbuns como o próprio Melodrama, referenciado no cover (mesmo que a abordagem sentimental seja diferente). Nesse sentido, é uma obra coesa e que se sustenta numa esfera isolada, como peça individual. Quando comparada a um contexto macro e associada a obras de sonoridade semelhante – o EP de estreia da americana Billie Elish, por exemplo – o projeto estagna e não inova como poderia, em termos de construção melódica e até mesmo na profundidade lírica. Isso não seria necessariamente um problema, nem toda produção precisa ser essencialmente profunda, mas apresenta-se como uma narrativa mais rasa do que propriamente madura e acaba consolidando-se como uma característica frustrante para um álbum em que é perceptível um potencial inexplorado.

OUÇA: “On The Low” e “Say My Name”.

Young Fathers – Cocoa Sugar


Conhecidos pela sua expansividade, Young Fathers nunca se limitou a uma classificação única. A experimentalidade já atingiu pontos diferentes em projetos passados, o que os posicionaram como um grupo diverso. A influência do rap e hip-hop parece ser a base, mas estão longe de limitar-se a isso.

Cocoa Sugar é um álbum mais coeso, mas não menos diverso e rico melodicamente. Possui difere30ntes construções e variadas camadas, o que mantém o padrão de diversificação. Além disso, os três membros parecem igualar-se em tempo de voz, o que contribui ainda mais para dar um tom de harmonia para o desenvolvimento. A ideia de coesão e uma certa acessibilidade não deve ser confundida com limitação, uma vez que continuam explorando territórios distintos e adicionando pequenos detalhes que tornam as composições uma viagem interessante. O álbum já vale a pena pela curiosidade de saber o que irá se abordar.

Abre com “See How”, que é marcada pela entrada contínua de elementos e se consolida por uma monumentalidade maior, chegando a ter vocais em coro e uma finalização súbita (algo marcante no projeto como um todo). É a forma como essa canção se consolida que pode deixar o ouvinte mais instigado.

Há uma certa relação, no decorrer das canções, entre passividade e agressividade: as músicas agregam elementos que parecem seguir uma progressão para repentinamente serem interrompidos (ou complementados) por sons muito distantes melodicamente.

A sequência intensa de “Lord” e “Tremolo” constrói uma atmosfera sonora e até visual muito interessante: as referências religiosas se fazem presentes nas letras e no som, sendo que nessa faixa a ambientação transporta para um tom mais enigmático, muito associado à presença do teclado da segunda. As influências começam a se expandir com maior imponência e rapidez, mas não de forma a tornar o projeto confuso, pelo contrário, o enriquece.

Em “Wow”, por exemplo, vocais distorcidos que assumem um tom mais agudo lembram a britânica FKA twigs em diversas das suas composições, quando esses passam a fazer parte da construção da batida, uma fração da instrumentação. Além disso, a pulsão dos sintetizadores desde o começo e os sons agudos combinados a certos gritos começam a redefinir toda a estrutura do álbum. Aqui, os escoceses incorporam uma semelhança à produtora SOPHIE, por exemplo. Já “Border Girl” esclarece mais efetivamente uma influência trip-hop beirando para a eletrônica experimental com uma presença sutil de um hip-hop dos anos noventa, que mais se destaca pelos detalhes, pequenos efeitos que a tornam um ponto alto, junto com as anteriores.

Os detalhes são importantes em Young Fathers e nesse projeto, a percepção de todos os elementos pode demorar e tornam a experiência musical ainda mais intrigante.

A sequência “Wire” e “Toy” definem o ponto mais eufórico do disco, marcado pelas batidas mais aceleradas e essencialmente mais experimentais do projeto, e que criam uma atmosfera mais envolvente e dançante (algo que já vinha sendo feito desde “Wow”).

A segunda metade é mais pulsante que a primeira, mais agressiva e mais instigante. Inspira maior adrenalina ao ouvinte. Não necessariamente uma qualificação maior em relação à primeira metade do disco, mas uma evidência desse tom impositivo e passivo-agressivo que se apresenta. Algo que marca o projeto no geral é a diversidade de camadas e a coesão (mesmo que com tanta variação) pela sua construção de ambientação. Ainda que com trocas súbitas de tom, sons e até narrativas, o álbum faz sentido e parece propositalmente feito para ser uma evidência dessa dualidade e ambiguidade, ao invés de mostrar uma faceta direta e pouco múltipla.

OUÇA: “Wow”, “Border Girl”, “Wire” e “Toy”

Paddy Hanna – Frankly, I Mutate


Em seu álbum de estreia, Paddy Hanna, originário de Dublin, pareceu evidenciar boas perspectivas, apesar de haver necessidade de polimento. Em Frankly, I Mutate, além de consolidar uma narrativa consistente e marcante ao longo de todo o projeto, o irlandês apresenta uma boa elaboração de arranjos e sonoridade envolvente, tratando, muitas vezes, de assuntos mais obscuros.

Inicia com uma música plenamente instrumental, o que ajuda a favorecer uma ambientação importante para definir a tonalidade do resto do álbum. Embora o projeto não siga exatamente a mesma sonoridade da música de abertura, “I Saw The Man Part II” não deixa a desejar pela falta de vocal e inclusive é um detalhe a ser lembrado após haver escutado todo o disco, como se a introdução realmente deixasse claro, mesmo que não explicitamente, a direção das coisas, além de ser um destaque.

Uma mistura de folk e certa psicodelia que transportam ao passado, o álbum consegue ser melancólico ao mesmo tempo em que é diverso na construção sonora. Para além disso, apesar de não ser diretamente indicado pelas melodias, muitas das canções dialogam com sentimentos de incerteza e insegurança pessoais, o que define um tema geral. Mais do que um contexto depressivo, Hanna estabelece uma certa percepção de coletividade de crise. Dessa maneira, o resultado final parece transmitir a ideia de que a falta de certeza não são limitadas apenas ao indivíduo, mesmo que certas metáforas tenham algumas conotações que parecem diretamente pessoais.

Os detalhes em arranjos são muito relevantes para elevar a qualidade sonora do álbum e sustentá-lo no que poderia ser algo repetitiva e monótona, então, mesmo que se baseie numa experiência folk-rock, o artista consegue expandir suficientemente a gama de sons e instrumentação para tornar o todo tolerável e até agradável. Porém, o que Hanna consegue com a instrumentação, perde-se no desempenho vocal: o cantor indica uma tendência proposital a alterar o tom da sua voz para atingir diferentes patamares, mas em muitos momentos o resultado é desconfortável de se ouvir. O irlandês tem mais sucesso quando mantém sua voz em um tom mais grave e sutil. Muitas faixas perdem seu certo potencial devido às experimentações do cantor.

De qualquer forma, “Frankly, I Mutate” tem seu título bem explicado até o final da obra, tanto pela diferenciação que este faz de seu antecessor em termos de melodias, mas também pela demarcação de um tema constante em seu desenvolvimento: a honestidade com relação às alterações pessoais da vida, sendo um certo tom de confissão e aceitação da constante incerteza. A honestidade é, assim, uma das maiores marcas desse projeto e o que o fazem mais digno de escutar.

OUÇA: “I Saw The Man Part II”, “Ida”, “All I Can Say Is I Love You”.,

Son Lux – Brighter Wounds


De certa forma, a abordagem do quinto projeto de estúdio de Son Lux parece desafiadora: o som é diferente e por vezes inesperado. A sutil combinação de sintetizadores com a instrumentação orgânica produz, em muitos momentos, efeitos sonoros marcantes e instigantes. Por vezes, as cordas assumem destaque nas músicas, associadas, claro, à voz de Ryan Lott.

Apesar de iniciar com uma introdução instigante e que chama pela construção misteriosa e grandiosa de suas batidas, o projeto parece demorar para encontrar um fluxo estável e mais animador. Em suas primeiras faixas, demonstra ser relativamente monótono, resgatado apenas pelos sutis períodos instrumentais. Muitas vezes, são momentos de produção pontuais que favorecem uma certa percepção diferente das faixas e salvam o álbum da mesmice. Quando chega à metade, parece atingir um certo ponto de curva e evolui para algo mais concreto.

A construção de sons que o álbum explora compila diferentes influências e apresenta claros traços de curadoria do seu fundador. Lott traz elementos clássicos com protagonismo para o violino, por exemplo, que lembra o que certas bandas synthpop, como a libanesa Mashrou’ Leila, já apresentam em projetos recentes, misturando cordas e piano com sintetizadores. Ao mesmo tempo, também chega a possuir uma eletrônica que lembra batidas presentes em canções mais experimentais, como “Girls” de Style of Eye, ou inclusive do australiano Flume. Em faixas como “The Fool You Need”, os elementos parecem dialogar diretamente com o que já era trazido por Flume e Chet Faker em “Drop The Game”, de 2013. Por isso, em alguns períodos, os sons podem parecer familiares demais para impressionar mas, quando bem trabalhados, conseguem surpreender.

O piano e as batidas agudas que se inserem progressivamente em “Labor” criam uma atmosfera de sensações que favorecem o diálogo com o vocal de Lott, para desenvolver outro momento de destaque. Na sequência de “All Directions” e “Aquatic”, a instrumentação acústica se mistura quase que perfeitamente com os sintetizadores para gerar alguns dos momentos mais belos e monumentais do projeto. Ao mesmo tempo, analisando parte das letras, percebemos que a instrumentação está fortemente associada à tonalidade densa do liricismo. Muitas das estruturações dialogam com uma forte densidade emocional, o que acaba por ser transmitido aos sons e em certos contextos chega a simular uma certa liberação emocional. A parcela final de “All Directions” ajuda a traduzir literalmente o nome da música, uma vez que os golpes do sintetizador associados à melodia parecem, de fato, ir em muitas direções. Nesse sentido, há uma complementação para criar um efeito em quem escuta. Ao final de “Surrounded”, por exemplo, cria-se uma atmosfera pesada pela progressão estritamente eletrônica com batidas constantes.

A escrita não é particularmente entediante, e favorece em dar maior coesão ao álbum no geral, uma vez que evidencia uma temática mais obscura e explica o por quê de certos momentos serem mais carregados e até abafados. O complemento é a voz delicada e característica que sustenta quase todas as músicas, adicionando um tom de certa melancolia.

Brighter Wounds parece ter mais sentido quando analisado em sua totalidade: letras pesadas associadas a sons ricos e instigantes, que geram uma contextualização energética e sensorial de carregamento e liberação necessária, mas que parecem se perder em certos momentos e cair na repetição ou tédio. De qualquer maneira, o disco possui grandes momentos de euforia e êxtase, principalmente em torno da parte eletrônica, em que as batidas parecem ser moldadas à vontade de quem produz e se encaixam aos outros complementos. Parece haver um sentido simples e direto no próprio título: instrumentação e letra dialogam pelas grandes vibrações e certa luminosidade da primeira, com e melancolia relatada na segunda.

OUÇA: “Forty Screams”, “All Directions” e “Aquatic”