Richard Ashcroft – Natural Rebel


Depois do desastroso These People (2016), o ex-vocalista do The Verve volta à essência dos seus primeiros trabalhos e lança o Natural Rebel.

Assim como no início da carreira, o novo disco tem aquela pegada dos compositores das anos 90: muitas músicas puxadas pro folk, outras pra um rock com maior levada, etc. Sendo assim, Ashcroft faz direito quando aposta naquilo que sabe bem, mesmo tendo saído de uma banda que era no começo um shoegaze.

Natural Rebel é exatamente isso: um ótimo disco para acordar ouvindo, cheio de canções mais do mesmo, mas que grudam na cabeça. Como vivo dizendo, às vezes é disso que precisamos.

“All My Dreams” e “Streets Of Amsterdam” são bem a cara desse compositor, músicas lindas. As mais puxadas pro rock ficam com “Born To Be Strangers” e “That’s When I Feel It”. E o destaque vai para “A Man In Motion”: Richard sempre manda bem em músicas em que expõe o seu interior – ‘I can deal with the pain as long as we keep on driving’ – divino maravilhoso. E o disco termina com “Money Money”, que é a outra mais do rock, nos fazendo repensar tudo aquilo que ouvimos, que é o mais do mesmo do disco.

Quando não ousa, Richard Ashcroft não erra. Isso o bota em dúvida muitas coisas enquanto artista. No entanto, é um disco coeso e gostoso de ouvir.

OUÇA: “All My Dreams”, “Born To Be Strangers” e “A Man In Motion”.

Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

Cat Power – Wanderer


Após seis anos e o nascimento de seu primeiro filho, Chan Marshall volta a lançar novas canções. Segundo entrevistas recentes, durante sua gravidez e nascimento de filho, que proporcionaram à compositora novos sentimentos e uma nova vida, as letras e melodias tão importantes em sua carreira e vida voltaram.

Wanderer é um disco que lembra muito a atmosfera do seu famoso e lindíssimo The Greatest (2003), no entanto, nesse disco Cat Power é outra pessoa. Muito mais forte, calma e esperançosa – mesmo que nem tanto assim – do que nesse disco e nos seus trabalhos anteriores. Ela voltou mais no sentido de apostar em suas letras e melodias e deixar de lado um pouco os lances eletrônicos de Sun (2012).

Por enquanto foram lançados dois singles, “Stay” e “Woman” (com participação nos backing vocals de Lana Del Rey), além do teaser com a canção que abre o disco, a “Wanderer”.

“Woman” chama a atenção nesses tempos. O orgulho de ser mulher e ter engravidado é muito precioso, ainda mais em época em que misóginos tem seus recursos legitimados. Fortalecer-se é mais do que necessário. E “Stay” é uma música linda de morrer. Cat Power faz uma versão da música de mesmo nome de Rihanna e Mikky Ekko.

Os singles se destacam no disco, junto com a “You Get” – batida que gruda na cabeça, ressoando sobre as demais, inclusive; nos faz repensar atitudes e ver que recebemos tudo aqui que mandamos pro mundo. “Black” lembra muito o ritmo de “Hate”, e dá o tom tão conhecido desse disco, assim como outras músicas: “Nothing Really Matters”, por exemplo.

Essas canções nos fazem relembrar porque amamos a Cat Power desde seu trabalho mais famoso já mencionado. A compositora é e sempre foi uma punk sem ser punk: seu piano/violão tocado sutilmente, meio que de qualquer jeito, sem firulas ou qualquer outra coisa complicada, sua voz limitada e sussurante como sempre seus sentimentos mais profundos. Nos mostra que música não é necessariamente feita de quem toca e canta demais. Às vezes tudo o que precisamos é alguém criando arte do seu jeito. A contracultura punk – que, como se sabe, foi apropriada pelo mercado há muito tempo – surgiu justamente da necessidade de alguns garotos de se apropriar do rock, fazendo-o do seu jeito e expressando os seus cotidianos periféricos, uma vez que, o rock progressivo e o movimento pop nunca deram conta disso. Esse é o sentimento nas canções da compositora. Às vezes mais vale uma canção sincera do que o hit mais vendido do universo.

A volta à calma – como já escreveram por aí – de Cat Power trouxe um disco interessante. No entanto, não será um álbum que se destacará em sua carreira. As composições mencionadas ressoarão em nossas mentes por algum tempo, mas a obra como um todo não chama tanta a atenção.

Todavia, talvez isso não importe tanto no final das contas. A tristeza sempre proporciona a criação de lindas canções, mas é reconfortante ver que ela não dura muito, e que as artistas continuam tendo suas inspirações no cotidiano e criando. Cat Power está feliz, tendo uma nova vida, e compondo. Nada melhor do que ver suas compositoras favoritas bem.

OUÇA: “Stay”, “Woman” e “You Get”

Paul Weller – True Meanings


Poucos compositores tem uma carreira sólida e impecável – muito por causa da vontade de inovar, adentrar em novos nichos de mercado ou simplesmente por querer ir por outros estilos e nisso tudo errar ou se desvirtuar – ainda mais depois de muito tempo estrada. Paul Weller, que está na música há mais de 40 anos, consegue isso e sem sair dos trilhos. Ele tem uma carreira impecável.

Sua sólida discografia nunca decepciona. Em alguns momentos ele tenta voltar para a sua origem, o maravilhoso The Jam, usando muito mais das guitarras e músicas urgentes. Em outros, flerta mais com seu antigo projeto – daquele balaio de gato que chamaram de New Wave – The Style Council, indo mais para uma mistura de elementos e texturas musicais, e adentrando quase num fusion. Mas nunca deixando de lado a veia certeira de todas as melodias bem casadas e com um certo toque pop. Tudo bem pensado e repleto de sentimentos verdadeiros extravasados.

Apesar da trajetória já dita impecável, não podemos dizer que tudo são orquídeas. O início de sua carreira solo é o que Weller tem de melhor. Seus primeiros quatro discos são obrigatórios para quem gosta de música. Ouça sem moderação. Vicie-se.

Mas, indo ao que interessa, True Meanings é assim: um lindo disco, com tudo conectado, timbres inspiradores, mais puxado pro folk e com letras que saem do âmago, para ajudar-nos nesse mundo de cabeça pra baixo em que os sentimentais se sentem desolados.

Todas as músicas abusam de camadas de guitarras, violões, violinos, contrabaixos, entre outros, bem colocados. Os timbres sensacionais estão em “Mayfly”, que vem junto com passarinhos cantando, deixando mais onírico. O violão e a sinceridade folk está permeando todo o disco, mas destacam-se “Wishing Well”, “Come Along”, “Moving On” e “Gravity”. Estas duas últimas são os singles lançados. Deve-se mencionar que o arranjo de cordas está incrível aqui.

Porém, o arranjo mais lindo de todos está em “Books”. Violinos, violoncelos, cítaras, violão. Duas vozes lindas, junto com a de Weller, a de Lucy Rose. A letra então… Os questionamentos desses dias estão todos aqui.

O grande destaque vai para “Aspects”. Como que esse homem consegue lançar uma música linda dessas? Depois de ter lançado tantas? Depois de 40 anos de carreira? Ele mesmo diz: nada é impossível, tudo está dentro de nós, em nosso interior estão todas as respostas, é onde conseguiremos encontrar os padrões, as conexões e tudo o de mais bonito possível que nos faz continuar tentando.

Não é o melhor disco da carreira. No entanto, é o que precisamos ouvir em um momento tão doloroso como esse que estamos vivendo, em que tudo está distorcido e revirado, dando a impressão nos piores dias de que as esperanças estão sendo jogadas no ralo.

OUÇA: “Aspects”, “Gravity” e “Wishing Well”

Mundo Livre S/A – A Dança Dos Não Famosos


Uma das bandas expoentes do manguebeat lança seu nono disco como forma de pontuar sua posição em meio ao caos em que estamos vivendo. Com um instrumental sempre muito bem feito, letras políticas e interessantes – mas algumas machistas aqui e ali – os recifenses são conhecidos na cena alternativa pelas misturas e ritmos sempre bem casados.

A Dança Dos Não Famosos segue com tudo isso, mas está ainda melhor. “Batismo Nukgruuvk” abre o disco com uma combinação muito interessante com um rock pesado e ao fundo um coral de igreja tradicional.

“Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha” é a típica canção Mundo Livre S/A: letra sobre drogas e contestando a ordem vigente dos que podem e usam drogas intactos, com uma melodia dançante guiada pelo teclado e bateria.

O momento curioso do disco é inevitavelmente não associar “Special Manguechild” a várias canções do David Bowie. Fica uma linda quebra em um disco tão denso como este. Que logo volta a ficar pesado com a perspicaz Eletrochoque De Gestão: direito até a voz original do temeroso dizendo que não renunciará. Imperdível. Com certeza um dos grandes momentos desse ano.

Outro momento muito inspirado acontece com Vem Pra Rua Tomar Na Cabeça Um Passo Novoo clima soturno, batidas descompassadas e um piano incessante são a cama de fundo para “a democracia é uma ditadura disfarçada” dita por uma mulher de modo bem enfático e certeiro.

Clima que retorna em “O Passo Do $angue: Na Vidraça”: canção específica para o elenão e toda a gama de conservadores acéfalos que tentarão elegê-lo. E com direito a um final necessário e apocalíptico com o Vem Pra Pista Pórrám!”e a dançante e indignante “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”.

Embora muito recente, e considerando a configuração política incerta do nosso país – o conservadorismo vai vencer nas urnas? – A Dança Dos Não Famosos se tornará, se não o melhor disco da banda, um dos que mais se destacarão na discografia.

OUÇA: “Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha”, “Eletrochoque De Gestão” e “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”

Gui Amabis – Miopia


Amarrando todos os seus trabalhos anteriores em um, Gui Amabis lança Miopia, seu quarto disco solo.

Assim como os anteriores, há participações especiais de seus amigos e parceiros de trabalho – Amabis é o produtor de artistas de renome da música brasileira atual, além de ser compositor de trilhas sonoras – que sempre acrescentam muitas lentes às suas composições. Desde Juçara Marçal até sua filha Rosa, de 9 anos – que desbancou a participação de Tulipa Ruiz na música “Quase Um Vinho Bom”.

Mantendo a linha desde Trabalhos Carnívoros (2012) – antes Amabis emprestava suas letras a outras vozes e ficava como um fio condutor de cada sonoridade –, Miopia traz a maioria das suas canções sendo configuradas pelas harmonias e arranjos bem pensados, sua voz serena e forte ao mesmo tempo (além, é claro, a de seus convidados) e as letras sobre o cotidiano urbano, as neuras que nos provocam e os sentimentos profundos com relação ao amor, a vida, suas injustiças, desigualdades e suas reflexões.

A atmosfera soturna é bem composta por instrumentos todos neste mesmo plano, conduzindo as músicas sem muitos sobressaltos. Sendo um produtor de grande experiência, Amabis sabe conduzir a fluidez entre as canções, há sempre um panorama sendo aberto a cada canção que se alterna durante a passagem e a duração do álbum. Os créditos de produção vão para Scotty Hard, engenheiro de som e produtor canadense já bem familiarizado com artistas da música brasileira como a Nação Zumbi.

Há momentos de Miopia em que vozes e instrumentos se sobressaem da melhor forma: Juçara Marçal e seu parceiro saxofone bem marcado formam uma dupla sensacional e dão ainda mais ênfase a letra forte de “Todos Os Dias”. Juçara aparece novamente no disco na esperançosa “Para Mujica” – entre as melhores músicas do álbum.

Algumas das músicas lembram outras composições espalhadas pelos seus trabalhos anteriores, participações em outros discos, ou como no caso de “Contravento”, que foi gravada pela Céu no belo Caravana Sereia Bloom (2012), e também “Miopia”, do disco homônimo (e único) dos Sonantes – seu projeto com seu irmão Rica, Dengue, Pupilo e a já citada Céu.

Embora não seja melhor que Trabalhos Carnívoros, Miopia é um disco curto, porém amplo em sonoridades. E só nos resta esperar que a criatividade de Amabis não se esgote, e que ele continue com essas parcerias que casam sempre tão bem.

OUÇA:  “Contravento”, “Para Mujica” e “Mais Um Whiskey”.

Elza Soares – Deus É Mulher


Dispensando apresentações, uma das mulheres mais fortes que esse país tem lança mais um álbum, e que compõe muito bem esse ano (e essa época) que está repleto de ótimos trabalhos nacionais.

80 anos e verbalizando liricamente tudo o que nós não conseguimos fazer: posicionar-nos. Um verdadeiro safanão. Elza começa justamente jogando tudo. “O Que Se Cala” remete ao seu passado, essa sociedade que moldou (por certo tempo) o que a artista falava e como agia, mas que não faz mais. Agora – como sempre? – é a hora de falar o que deve ser dito, se reafirmar e ter o direito de não ser condenado por isso. “O meu país é meu lugar de fala” é o clamor da artista para que as minorias (que são a maioria) tenham o direito de existir e se posicionar sem serem reprimidos por isso. Ótimo início de obra.

Logo em seguida vêm a sensacional “Exú Nas Escolas”: liberdade religiosa e cultural no ensino já. Quebra de tabus são mais do que necessários. Além da mensagem imprescindível, esse funk ultra metalizado fica na cabeça. A combinação da batida, desse baixo e do riff agudo é perfeita.

A tríade “Banho”, “Eu Quero Comer Você” e “Língua Solta” é o momento em que esperávamos. Traduções da condição e do que é ser mulher nessa sociedade, mas ao mesmo tempo, de nós mesmas nos entendermos. Às vezes é difícil se entender, não é mesmo? Destaque pro baixo gorduroso como cama de fundo de “Eu Quero Comer Você” – assim como o de “Clareza” que surge mais adiante.

E a letra de “Língua Solta”, hein? Que sacada mais brilhante! Devemos usar sempre a nossa capacidade de falar “pelos ouvidos” – sempre condenada pelos homens, pra nos fazer calar – para nos ajudar. Dar atenção aos próprios sentidos e ter a língua solta é a solução.

“Hienas Na TV”, “Clareza”, “Um Olho Aberto” e “Credo” são as irônicas chamadas para que fiquemos espertas, e não caiamos nas armadilhas que nos cercam por todos os lados, e às vezes dentro de nossas mentes. Desde prestar atenção às mentiras que nos contam na TV, no discurso “ambientalista” (ecocapitalista) que quer desnaturalizar nossos comportamentos e até a religião. Nessas canções os elementos eletrônicos suscitam inclusive outras percepções e sentidos.

Tudo culmina perfeitamente na “Dentro De Cada Um” e “Deus Há De Ser”. “A mulher vai sair de dentro de cada um” é o futuro não muito distante e que apontará para novos caminhos nesses tempos que só nos impulsionam para abismos de incertezas.

Deus é Mulher é um disco importante para a música brasileira contemporânea, e escancara o óbvio: que Elza Soares é uma grande artista. Quantos musicistas chegam nessa idade e lançam trabalhos relevantes? Elza é uma rara exceção. Como se não bastasse toda a sua história e importância na nossa cultura, ela ainda nos dá mais motivos para reverenciá-la hoje em dia.

OUÇA: “Exú Nas Escolas”, “Eu Quero Comer Você” e “Deus Há De Ser”.

Juliano Gauche – Afastamento


Afastamento é o terceiro álbum do Juliano Gauche após o término da banda capixaba Solana.

Seu disco homônimo de 2013 e Nas Estâncias de Dzyan (2016) provaram que Juliano é um compositor de destaque nesses últimos anos na cena independente do tal rock nacional. Todas as canções destes discos são dignos de atenção.

Produzido por ele mesmo e por Catatau (do Cidadão Instigado), Afastamento tem o ritmo em certos momentos similar aos seus discos anteriores – mas com um pé maior no rock, mesmo que com menos vigor. Em entrevistas recentes, Juliano destacou algumas de suas influências para esse disco: desde Pink Floyd, o krautrock, a banda eletrônica francesa The Dø e até João Guimarães Rosa – a leitura de Grande Sertão: Veredas fez brotar a letra de “Pra Festejar Em Silêncio”.

Nesse disco, a presença de guitarras mais marcadas voltaram, as letras têm menor enfoque na astrologia, a voz e o andamento das músicas e do disco dão a ideia justamente de maior introspecção pois no geral são mantras, poucas são as canções cadenciadas, e tudo isso somado dá o clima soturno de isolamento pela distância e reflexão.

A primeira música lançada há algumas semanas foi “Pedaço De Mim”. Ao ler seu título e ouvi-la é inevitável não pensar na música de mesmo nome de Chico Buarque. Assim como fazer o comparativo da perspectiva da saudade entre os dois compositores – ou melhor, a ausência de saudade de Gauche. Enquanto a falta de alguém para o Chico é como a sua metade exilada e um membro amputado, para Gauche é a vontade de se livrar de uma vez de alguém/algo que não sai da mente – que se vai aos poucos e que ele não quer que volte. Ou quem sabe, ao mesmo tempo que se livra desse sentimento, se livra um pouco de si, que está conectado intrinsecamente ao seu passado ou estado de consciência que não deve estar presente mais.

E esse é o espírito do disco como um todo. A vontade de se afastar do passado, e percebê-lo com novos olhos, para também superá-lo.

Em uma época em que o retrocesso ao passado parece surgir toda vez em que assistimos a televisão, ou ouvimos conversas nas ruas, nos dá o medo iminente de que tudo daquilo que suamos para deixar pra trás possa voltar — justamente disso que se trata “Dos Cachorros Sisudos”.

Juliano continua com a tradição de sempre gravar a canção de um amigo em seus discos: no primeiro, “Sérgio Sampaio Volta” do Cérebro Eletrônico; no segundo, “1,99” de João Moraes; neste, uma das que mais se destacam, “Tem Dia Que É Demais”, do Gustavo Macacko, ex-Bloco Bleque.

No entanto, as letras não parecem mais tão redondinhas e geniais como as dos discos anteriores – “Dos Dois” e “Todos Esses Dias Estranhei A Nossa Vida” dão essa quebra indesejada. Seu disco homônimo ainda se destaca perante os demais em todos sentidos.

OUÇA: “Pedaço de Mim”, “Dos Cachorros Sisudos” e “Longe, Enfim”.

God Is an Astronaut – Epitaph


Epitaph é o nono album da banda de post/space-rock God Is an Astronaut. Os irlandeses estão entre os conhecidos do estilo, e no geral, são muito estimados por suas composições. Com uma discografia muito sólida, o grupo lança mais um disco para manter a sua linha. No entanto, não é isso o que sentimos ao reouvir todos os trabalhos da banda.

No seu início, God Is an Astronaut surpreendia com as maravilhosas melodias, além dos andamentos das músicas. Era tudo muito deslumbrante. The End Of The Beginning (2002) e All Is Violent, All Is Bright (2005) são discos essenciais para os amantes do post-rock: as ideias melódicas, a atmosfera das músicas, todo o conceito e percurso dos discos são lindos.

Epitaph é muito parecido Helios | Erebus (2015): muito calcado no som mais puxado para o gênero ambient, ideia que começou lá no Origins (2013) – mas, esse, por sua vez é muito superior aos dois discos seguintes.

A ideia de fazer um som com uma atmosfera ambiente claustrofóbica não é de se jogar fora, mas sabe quando a banda que você gosta lança um disco mais do mesmo e que nada te acrescenta? Isso é o que define melhor Epitaph. Inclusive, existem canções que se parecem tanto, que torna o álbum até um pouco entediante, como a “Komorebi” e “Oisín” – a mesma linha de piano estilo trilha sonora.

O último lançamento da banda poderia ter sido usado na trilha sonora de algum filme sobre o espaço, ideia muito retomada nos últimos anos pelo cinema estadunidense. Mas jamais figuraria como as mais belas trilhas sonoras de filmes que você tem vontade de reouvir depois que o filme acaba.

Thievery Corporation – Treasures From The Temple


O duo, que ultimamente se transforma em banda, do Thievery Corporation lança seu décimo disco Treasures From The Temple cheio parcerias, como sempre.

Conhecido por suas misturas com música indiana, dub, downtempo, trip-hop, jazz, reggae e até a música brasileira – mais especificamente com aquela bossa nova bem com cara gringa – o duo volta a sua linha mais tradicional, de trabalhar com o reggae e o dub dentro do trip-hop e música eletrônica.

Nos seus álbuns anteriores, e ainda, no seu melhor álbum, o Saudade (2014), a mistura com a música brasileira ficou mais forte e dominou as composições. Uma combinação de sucesso. E que atingiu certo reconhecimento por essas bandas.

Dessa forma, o novo disco era aguardado pelos ouvintes que se formaram. E decepciona. O disco é muito inferior ao Saudade.

As músicas no geral são sempre aquela mesmice cansativa e que não nos desperta vontade alguma de comprar a mídia física, e nem o pensamento de que algum dia o disco terá outra audição. [Inclusive, foi necessária muita paciência para ouvir mais que uma vez.]

São doze canções cansativas, pouco chamativas e que pouco acrescentam. Quando o duo convida letristas do hip-hop para compor as composições o disco toma uma forma melhor, mas quando isso não acontece, o que ouvimos é entediante. “Music to Make You Stagger” é um bom exemplo disso. Logo na terceira faixa já queremos parar de ouvir, mesmo depois da ótima “History”, que justamente conta com a participação de Mr. Lif & Sitali. Mas a agonia é superada pela “Letter To The Editor” com participação da ótima Racquel Jones. E pra sorte do ouvinte, ou do Thievery, muitas são as participações especiais nesse disco. Tornando-o menos chato. “Water Under The Bridge” e “Joy Ride” são outras faixas que devem ser mencionadas.

No entanto, isso mesmo não empolga tanto. O que esse projeto tem de tão chamativo? O que traz de diferente? O lance de ligar várias culturas? Nesse sentido o Transglobal Underground é mais eficiente. Ou se alguém tem vontade de ouvir um projeto de trip-hop ou música eletrônica, projetos como os maravilhosos projetos do Mike Patton, ou quem sabe o N.A.S.A., Haelos, ou um velho Portished ou Massive Attack, até mesmo o mainstream Daft Punk são mais legais.

O que isso quer dizer? É que o Thievery Corporation não empolga praticamente nunca. Só fez isso uma única vez, e foi em 2014.