Palace – Life After


Palace sempre soou grande em minha mente. As músicas parecem sempre ter um ar de grandiosidade, seja pelos instrumentais, seja pelos vocais ecoantes. Suas músicas de ritmo sereno e impactantes marcaram tanto meu ano de 2016 (quando descobri seu primeiro álbum) que até hoje tenho escrito na parede branca do meu quarto So Long Forever. Então, 3 anos depois, lançaram Life After.

Temas pesados de perda, significado e superação são reabordados nesse novo álbum, embalados por um ar mais aconchegante e positivo em comparação ao primeiro projeto da banda. O indie atmosférico super bem construído nas 11 faixas faz você ser transportado para algum lugar onde tudo tem um tom de azul, ora anil e bem iluminado, ora marinho e nublado. Em “Bones”, quase dá pra sentir no rosto o vento frio evocado pelas cordas tristes de violinos e violoncelos ao fundo, enquanto os vocais de Leo Wyndham e os arranjos de guitarra de Rupert Turner abraçam os ouvidos, como um bom agasalho.

A última faixa de 7 minutos é um fim de obra lindo que ressoa na alma, combinando perfeitamente com a mensagem que a banda parece querer passar. Não sei se intencional para causar uma reflexão, mas se você ouvir o álbum em loop, “Life After” toca logo em seguida de “Heaven Up There”.

Porém, nada novo debaixo do Sol. As letras podem fazer olhar pra cima, e a positividade pode tomar conta na maior parte do álbum, mas em questão de estilo, a banda não traz nada de novo. 3 anos, mesmo para artistas que marcaram seus fãs como Palace me marcou, pode ser o tempo para as músicas caírem no esquecimento dentro das playlists menos usadas de outra época. O desafio de apetecer fãs antigos sem perder o som que os fez se apaixonar, e ao mesmo tempo procurar se inovar e se manter original sempre é um desafio. Em minha opinião, desejava mais de Life After. Mais emoção, mais impacto, mais alguma coisa. As músicas são boas, mas não se destacam muito, nem entre si, nem entre as bandas indies atuais.

Talvez os lançamentos das músicas coincidam com momentos pessoais, marcando individualmente algumas pessoas e não aparecendo no radar de outras. Billboard e outros charts de popularidade talvez sirvam para ajudar as pessoas a chegar no som das bandas ou só mesmo para que o círculo de dinheiro das gravadoras continue girando. De qualquer forma, não deixe de fazer esporadicamente a curadoria de suas músicas e playlists. Somos seres em constante transformação, e assim deveriam ser nossas músicas. Palace, tudo bem. Ainda guardo você no coração.

OUÇA: “Life After”, “No Other”, “Running WIld”, “Bones” e “Heaven Up There”

The National – I Am Easy To Find


Hoje em dia, a tendência das pessoas é ouvir os singles e adicioná-los a suas playlists pessoais e é isto. Alguns poucos até procuram ouvir o álbum quando sai, mas como pode-se perceber nos números de plays ao lado das faixas nos serviços de streaming, a primeira e as mais populares são as mais ouvidas. Seguindo para o fim do álbum, ocorre um decaimento do interesse. Ain’t nobody got time for um álbum de 1 hora quando o mundo te exige uma rapidez para sobreviver. O novo álbum do The National te exige o contrário: se você não ouvir ele com calma, na mesma sintonia da proposta, capaz de a grandiosidade desse projeto passar despercebido pelo seu radar.

Matt Berninger acompanhado de convidados como Sharon Van Etten, Lisa Hannigan, Mina Tindle, Gail Ann Dorsey e Kate Stables e do Brooklyn Youth Chorus em várias das faixas fazem você se sentir em uma igreja onde a pregação é feita por meio de músicas delicadas, com várias camadas instrumentais que enchem os ouvidos. Usei a igreja mais como alegoria para descrever o álbum, mas eu ADORARIA uma live session em uma catedral, que sonho seria. Eu ouvia de olhos fechados o álbum, quando o som de cigarras na faixa “I Am Easy To Find” me transportou para minha infância, onde eu morava perto de um riacho que vivia inundado por esse mesmo som; Matt disse que a música é basicamente sobre se perder de você mesmo, esquecer sua essência. Acertou em cheio.

E que tema melhor de se trabalhar em um álbum que implora por calma, que as relações humanas, a parte de nós que mais tem sofrido com a correria do mundo atual? As outras músicas no álbum abordam muito o tema de relacionamentos, não tanto de uma forma romântica; mais inclusivo que isso. Relações humanas como um todo. Implementando sons eletrônicos, mas deixando-os em segundo plano ao mesmo tempo que dando mais ênfase aos vocais e a percussão, The National consegue com esse álbum, tocar quem estiver disposto a parar, depois de um dia pesado, tirar os sapatos, colocar os fones de ouvido, deitar no sofá com os pés pra cima e ouvir uma obra de 1 hora feita para ser ouvida com os olhos fechados e o coração aberto.

Ah, e “Not In Kansas” me faz ter vontade de chorar toda vez que escuto aquelas primeiras notas de guitarra sozinhas com a voz de Matt. Que música linda. Não é um single, longe disso. São 6 minutos e 44 segundos de emoção pura para os ouvidos. Dito isso, eu coloquei na minha playlist anyway.

OUÇA: “The Pull Of You”, “Not In Kansas” e “I Am Easy To Find”

Jungle – For Ever


O primeiro álbum do Jungle me conquistou e grudou em meus ouvidos de uma maneira que quando descobri o som deles, não parei de ouvir por semanas. Tive inclusive a oportunidade de ouvi-los ao vivo, o que só fez minha paixão crescer ainda mais. Agora, 2 anos depois, lançam For Ever e, com esse segundo projeto mostram que paixão pode sim ser convertida em um relacionamento sério de anos.

Parte do poder que a música tem sobre nossos cérebros é enraizada na memória. Se quando você ouviu pela primeira vez aquela música, estava passando por um mau momento, a associação provavelmente não será das melhores. Já passei por maus bocados ouvindo Jungle e nunca consegui associar as músicas da banda com a tristeza do momento. Muito pelo contrário, é a banda a qual eu recorro quando preciso de um boost de energia e vitalidade.

Quando pediam pra descrever o som de Jungle, eu sempre descrevia como uma mistura do estilo dos BeeGees com as batidas de Daft Punk, mas sempre achei uma descrição incompleta. Em For Ever, o grupo inglês não se distanciou de seu som característico recheado de falsetos, ritmos hipnotizantes de batidas eletrônicas e uma parede de som ao fundo das faixas que afunda você no mundo que Jungle cria em cada música. É impressionante. Ainda é o mesmo som de Jungle, mas o grupo também experimenta o suficiente para que o álbum não caia na mesmice.

Com letras abordando temas desde relacionamentos até introspecção e auto-reflexão, Jungle nunca foi uma banda que só joga palavras em batidas chicletes esperando que vire um hit. É uma banda complexa, com um potencial enorme para grandes coisas e que continua me conquistando até hoje. Se você tiver oportunidade, veja-os ao vivo. É uma experiência de outro mundo.

Uma última sugestão: na primeira escutada do álbum, deite e use fones de ouvido. Depois, pode estourar sua caixa de som. Jungle não é uma banda para ser escutada baixo. #Jungle4Ever

OUÇA: “Cherry”, “Beat 54 (All Good Now)” e “Heavy, California”

Leon Bridges – Good Thing


Leon Bridges procurou nesse novo projeto manter suas raízes soul e R&B que o elevaram aos holofotes ao mesmo tempo que tentou adicionar uma pitada de modernidade ao seu som.

Sua admiração por ícones da música soul dos anos 60 gerou um álbum sólido, refrescante e memorável. Lembro de ouvir “River” na trilha sonora da série Big Little Lies, em um contexto que tornou a música ainda mais bonita e profunda. Quando soube que Leon lançaria um segundo projeto esse ano, confesso que me interessei pelo que o jovem artista faria para dar sequência a sua carreira pós “Coming Home”.

Vejo o Good Thing não como uma definição perene de seu novo som, mas como uma experimentação de novos elementos. Quando um artista usa um álbum para testar novas direções, muitas vezes sacrifica a coesão e a estrutura de um álbum. O que eu creio que Leon Bridges conseguiu nesse novo projeto foi testar novas águas sem sacrificar a identidade de suas letras e vocais cheios de soul.

Conseguiu entregar um álbum coeso e bem estruturado? Na minha opinião, não. Good Thing conseguiu o suficiente para Leon conseguir superar Coming Home? Minha resposta tende para não. Existem faixas memoráveis. “Shy” e “Beyond” foram direto para minha playlist do dia-a-dia.

“You Don’t Know” soa como se Bridges estivesse com um pé na zona dance/pop, tentando realmente aumentar o espectro de sua fanbase. Por todo álbum, pode-se ouvir a influência de sons mais modernos e samples mais tecnológicos, mesclando-se ao tom retro dos vocais.

Esse novo projeto serviu com certeza para me interessar nos próximos passos do artista, apesar de a sombra do ícone que é “River” e do grande álbum que foi Coming Home ainda serem maiores que as novidades propostas por Leon em Good Thing.

OUÇA: “Shy”, “Beyond” e “You Don’t Know”.

Django Django – Marble Skies


Começando com gravações caseiras em casa que se tornaram músicas completas e com certa notoriedade, o grupo escocês começou sua carreira com o primeiro álbum Django Django. Ganhando reconhecimento com tal álbum um tanto experimental, cheio de sintetizadores, guitarras tocando um estilo surf-rock e ritmos contagiantes, a banda ganhou espaço para mostrar do que é capaz ao mesmo tempo que criou expectativas em quem curtiu seu som.

Alguns anos depois, veio Born Under Saturn. Um álbum no qual o Desert Rock se mostra presente ainda mais que no primeiro, com um som mais denso e complexo. Existem pontos altos, porém pareceu que a banda decidiu se distanciar dos elementos que os trouxeram aos holofotes no seu primeiro projeto. Fãs que se encantaram com as batidas chicletes do primeiro álbum talvez não tenham aprovado tanto essa mudança de rumo.

No caso de Marble Skies, Django Django não só voltou às origens após perceberem o que seus fãs queriam. Eles forçaram a amizade mais um pouco, não deixaram de experimentar mas também não exageraram na inovação. O tom dançante da maior parte do álbum faz você balançar a cabeça ou bater o pé ou dançar sozinho no seu quarto como os sons do início da carreira dessa banda promissora. Desde upbeats contagiantes como “Tic-Tac-Toe” até as baladas mais calmas e com um tom mais introspectivo como “Sundials”, escutar os 40 min de álbum é uma experiência muito bem construída.

Com participações de Anna Prior (Metronomy) e Rebecca Taylor (Slow Club), o som de Django Django nunca foi tão designável e reconhecível. Com o tema central de sentir o tempo passar e as coisas mudarem ao seu redor, o tão esperado 3o álbum da banda, Marble Skies, é uma delícia de se ouvir. Se você gosta de Metronomy, Temples ou Hot Chip, tem uma grande chance de você se apaixonar pelo som de Django Django.

OUÇA: “Tic-Tac-Toe”, “Marble Skies”, “Sundials” e “In Your Beat”

U2 – Songs Of Experience


A banda procura continuar com seu superpoder de sempre conciliar sua personalidade com o som da atualidade. Em Songs Of Experience, U2 tenta dar sua opinião sobre o que acontece politicamente no mundo ao mesmo tempo que procura atingir o coração individual de cada um de seus ouvintes.

Talvez tenham tentado abraçar o mundo novamente como fizeram anos atrás com seus álbuns icônicos. As músicas de Joshua Tree pareciam tocar em loop no rádio após seu lançamento em 1986 (baseado em depoimentos de meu pai). Todos cantam “But I Still Haven’t Found What I’m Looking For” ou “Where The Streets Have No Name”. A banda foi adotada pelos EUA com esse álbum sendo o carimbo do cartório nos papéis de adoção. O problema é que o mundo de décadas pra cá se tornou um lugar enorme, talvez até maior que o abraço dessa mega-banda.

Poucos acreditam no potencial da música de mudar o mundo como U2. Em sua busca por se modernizar, às vezes a banda acaba errando o caminho e bagunçando o meio-campo (peguei essa do meu pai também). Nunca esconderam seus ideias cristãos, por muitas vezes os utilizando de inspiração para algumas de suas músicas icônicas. Não sei se os problemas de hoje em dia são grandes demais ou se a música talvez não seja mais tão poderosa quanto era antigamente. E, pra falar a verdade, não gostaria de acreditar em nenhuma das duas opções.

As críticas cantadas por Bono são todas relevantes e embaladas por melodias cheias de impacto. A faixa “American Soul” é uma clara cutucada na situação política americana. “Get Out Of Your Own Way” faz menção a superarmos barreiras que colocamos diante de nós mesmos, uma mensagem forte. “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” é o que gostaríamos que o mundo fosse. Claramente, existem alguns flashbacks (ou tentativas de flashbacks) de hits antigos de All That You Can’t Leave Behind ou até mesmo War. Mas são só isso nesse álbum: flashbacks.

Por que não senti a tamanha vontade de mudar o mundo que esperava depois que ouvi esse álbum lindo cheio de guitarras ecoastes do The Edge ou de falsetes de Bono? Talvez porque o mundo de hoje em dia nos torne mais frios (realistas?). Talvez porque U2 não conseguiu ainda pisar fora da sombra de seus sucessos passados com um álbum tão grandioso nessa nova década. Talvez seja um álbum que esteja no meio do caminho de alguma revolução maior para a banda.

The point is: se você gosta das coisas antigas do U2, irá curtir esse álbum; se não conhece U2, talvez não goste; nos anos 80, conhecendo ou não, você curtiria os álbuns do U2. Eu ainda curto.

P.S.: O Kendrick Lamar diz umas coisas que são bem verdade ali no meio.

OUÇA: “Lights Of Home”, “Get Out Of Your Own Way” e “American Soul”.

Kakkmaddafakka – Hus


Eu adorava quando alguém me perguntava qual banda eu estava ouvindo nos anos de 2012 e 2013 porque eu dizia que uma das que eu não conseguia parar de ouvir era Kakkmaddafakka. O que eu realmente adorava era ver a reação das pessoas ao nome da banda. A segunda coisa que eu mais gostava era que, não importava a quem eu sugerisse a música do grupo norueguês, ninguém voltava reclamando da sugestão. Pelo contrário. Kakkmaddafakka (KMF) é uma banda extremamente curtível. O perigo para uma banda assim, ao meu ver, é cair na mesmice.

Com o novo álbum Hus, evitaram isso ao mesmo tempo que procuraram voltar a essência dos primeiros LPs que os trouxeram aos holofotes. Quando esbarrei em uma das músicas deles em 2012 no Soundcloud, eu só curti, achando que era uma banda indie com músicas que grudavam no seu ouvido como chiclete. Não sabia que eram a febre do verão na Europa. Não sabia que eram os pupilos de Erlend Øye (Kings Of Convenience, The Whitest Boy Alive). Eu não sabia nada direito sobre essa banda de nome estranho, e mesmo assim o álbum ‘Hest’ (2011) foi ganhando lugar nos meus mais escutados.

Hus é um retorno as origens, mas não completamente. Sinto que Kakkmaddafakka nunca se aventurou longe do seu som ensolarado e refrescante, sempre mantendo a receita de indie upbeat com letras jovens e pouco complicadas. O álbum que mais se distanciou foi KMF, inclusive trocando momentaneamente o nome estranho que eu adorava e o estilo alegre por músicas mais contidas e batidas melancólicas. É meu projeto menos preferido da banda, mas não desgosto totalmente porque talvez tenha sido o que precisavam para perceber e decidir o tipo de música que Kakkmaddafakka faz melhor.

No início do álbum, a primeira música “Neighbourhood” já faz você querer fugir pra algum lugar, sair do conforto do seu subúrbio e se mandar (pra praia, no meu caso). “Boy”é outra música que me leva de volta ao ensino médio nos anos de 2012, 2013, com a letra referindo as ilusões que enfrentamos nos relacionamentos amorosos. “Holding Me Back” tem um refrão de colocar a mão no coração e cantar o mais alto possível de tão contagiante. Um exemplo de como a banda reavivou elementos dos primeiros LPs mas sem abrir mão da complexidade sonora e da mudança de clima nas músicas que a experiência desses anos trouxe a eles é na música “Summer Melancholy”.

É o melhor disco do grupo norueguês? Não. Mas fez com que eu me interessasse novamente pela música deles de uma maneira que eu não me interessava há anos. Eu colocaria esse álbum pra tocar em um encontro com meus amigos na praia, tomando cerveja, levando caixotes no mar e assistindo ao pôr-do-sol.

OUÇA: “Neighbourhood”, “Boy”, “Holding Me Back” e “Games”

Tribalistas – Tribalistas


Quando primeiro ouvi os Tribalistas, era uma criança. Música ainda não tinha um papel tão grande quanto tem hoje na minha vida. Mas as músicas daquele álbum marcaram porque viraram rotina. De manhã indo pra escola no engarrafamento, de noite voltando de um aniversário deitado no banco de trás do carro, de tarde com meu pai tocando no violão para mim, minha mãe e minha irmã. Era um álbum lindo em minhas lembranças. Quando assisti a live dos Tribalistas no Facebook anunciando o novo álbum, fui inundado pela euforia ao mesmo tempo que um receio bateu de leve na porta. Conseguiriam algo tão impactante quanto aquele álbum em 2002?

Muitas pessoas atualmente não procuram um som mais complexo e trabalhado, só o próximo hit do verão com o refrão chiclete para tocar na próxima festa. Arnaldo, Carlinhos (e Zé) e Marisa são gigantes habilidosos da música popular brasileira que tem carreiras solo robustas e bem construídas; não precisavam ressuscitar esse projeto, mas o fizeram. E na opinião de um eterno fã agradecido, o fizeram lindamente.

Começamos o álbum em ‘Diáspora’ com a narrativa na voz pausada e grave de Arnaldo. A música remete à quantidade de refugiados e às dificuldades que passam, com menções a povos que saíram de seus países por conta de conflitos. Em seguida vem ‘Um Só’, com o tema de união sempre presente nas letras do grupo (Somos todos tribalistas). Ao ouvir essa música, percebe-se que a capacidade de criar letras incríveis de cada um dos integrantes, quando juntos, é somada, resultando em obras lindas.

‘Fora da Memória’, em minha opinião, é o ápice do que muitos criticam como sendo o reviver exagerado de elementos do primeiro álbum. A poesia da letra não parece ter sido bem pensada, e a melodia embala de maneira parecida o ouvinte como há 15 anos atrás. Talvez muito parecida. Não sei se esperava ouvir algo novo do trio ou mais do mesmo. Pra falar a verdade, nem esperava que esse álbum viesse a existir. Foi só uma bela surpresa.

Não penso em me casar nos próximos anos, mas toda vez que escuto ‘Aliança’, não posso evitar de pensar em uma vida feliz ao lado de alguém. Em seguida, ‘Trabalivre’ faz me sentir em algum álbum solo experimental do Arnaldo Antunes, como se chegasse com Marisa e Carlinhos e pedisse: “Cantem essa aqui comigo.”

Foi mais na segunda metade do álbum que percebi realmente que o core do estilo deles não mudou nesse tempo de hiato. Os Tribalistas daquele tempo estão presentes fortes nesse álbum. Isso não é algo ruim. É algo que vai afastar alguns fãs que preferem a inovação/evolução de estilo à preservação do estilo de som de uma banda.

Escutei esse álbum algumas vezes antes de escrever essa resenha e, na grande maioria das vezes, memórias me enchiam a mente. Fiquei feliz de receber a obra para resenhar, porém não levei em conta a carga emocional desse grupo na minha história. Então aqui vai uma resenha nada imparcial, com opiniões próprias e sentimentos, mas levando em consideração qualidades técnicas: quem gostava de Tribalistas em 2002 vai continuar gostando de Tribalistas em 2017.

OUÇA: “Aliança”, “Um Só” e “Feliz e Saudável”

Dan Croll – Emerging Adulthood

_______________________________________

Daniel Francis Croll foi um achado. Desde seu primeiro single “From Nowhere” (que foi a música com a qual o conheci), Dan se mostra, acima de tudo, um músico promissor. Colocar essa placa de ‘PROMISSOR’ no pescoço de um artista pode inibir suas criações e causar o efeito de que nada que ele crie vai ser bom o suficiente ou vai chegar aos pés das expectativas de críticos, fãs, público em geral… Com esse novo álbum, Dan Croll não só demonstrou sua capacidade como compositor, como também me fez pensar em como não criar expectativas no mundo da música as vezes é uma boa opção. Você pode se surpreender.

Vou usar esse espaço da resenha bem rápido só pra falar desse aspecto do mundo comercial da música atual. Bandas grandes como Arcade Fire, com álbuns lendários em sua discografia conseguem sobreviver a um álbum medíocre, suportam as críticas dos fãs e seguem em frente, fazendo show, ganhando dinheiro e espaço para melhorar no próximo projeto. Porém bandas menores, com pouca carga ‘histórica’ podem ter seu futuro na indústria musical ameaçado por um álbum mais-ou-menos, sumindo em meio ao mar de músicas esquecíveis (mar esse no qual nadamos à procura de nossa identidade musical).

Voltando ao álbum, ele começa com “One Of Us”, uma música que parece relatar as sensações de ser um músico batalhando vícios, desde a pressão de substâncias sombrias até àquela de escrever músicas que são ‘radio-friendly’. A música possui um ar um tanto alegre, surpreendendo com um daqueles solos de guitarra de derreter a mente no final. Definitivamente um dos destaques do álbum. A faixa seguinte trata de uma fase da vida pela qual todo mundo passa: de acordo com Dan, é a fase na qual as meninas estão todas atrás de um Bad Boy e os meninos todos querem ser um “Bad Boy”. Apesar de ser uma fase conturbada, é necessária para que consigamos definir nossa personalidade e ‘emergir para a fase adulta’.

Mesmo não tratando o tempo todo de temas fáceis de se conversar sobre (como seu primeiro ataque de pânico na música “24”), Emerging Adulthood é uma conversa sobre experiências e sobre como elas nos tornam quem somos através de amadurecimento. Durante o álbum todo, Croll escreve letras bem pessoais para ele e que, ao mesmo tempo, são bastante relacionáveis com momentos da vida de quem escuta o álbum. É uma coleção de 10 músicas que envolvem o ouvinte como um cobertor quentinho de humanidade e franqueza, contrastando com o ambiente atual tomado por músicas comerciais frias e sem sentimento.

Solidão, ansiedade, arrependimentos, desconfiança (ou confiança), relacionamentos… Emerging Adulthood é uma resenha do que enfrentamos para nos tornarmos adultos. A discrepância entre a melodia animada das músicas e suas letras melancólicas pode ser uma analogia a como Dan acredita que devamos lidar com esses temas pesados: com leveza e positividade, na medida do possível. Como se estivéssemos emergindo graciosamente de uma piscina de problemas, para um estado de calma e tranquilidade acima de tudo. Escutem o novo álbum de Dan Croll. É um dos meus favoritos desse ano até agora.

OUÇA: “One Of Us, “Bad Boy”, “24”, “Sometimes When I’m Lonely” e “Swim”

Baio – Man Of The World

_______________________________________

Faça uma escala de 0 a 10. Essa escala vai representar uma mistura do sucesso com q qualidade da música criada por artistas que procuraram carreira solo após terem começado em bandas grandes. Para se situar, perto do 10 você pode colocar Phill Collins após sair do Genesis. Descendo pro 5 temos Harry Styles, com seu projeto solo atual (podem me crucificar, mas eu NÃO achei o álbum dele bom; um álbum bom não sobrevive de singles). Acho que com esse álbum, Baio conseguiu firmar seu lugar na metade de cima dessa escala.

Apesar de ser um projeto solo, o próprio Baio já disse em entrevistas que ele não reconhece como álbuns solos, ou de bandas ou de produtores, mas que almeja a uma combinação dos três. Após deixar o Vampire Weekend e embarcar em suas próprias convicções musicais, Chris Baio conseguiu um bom público com seu primeiro álbum The Names, impressionando nos arranjos de vários instrumentos e na construção de faixas bem memoráveis e dançantes.

Dois anos passados, esse novo álbum mantém o estilo de batidas eletrônicas pops que lembram ícones da música pop/art rock experimental dos anos 70 e 80 que Chris já admitiu ter influências (como Bowie e Roxy Music).

Como adendo, para confirmar o ar um tanto nostálgico do álbum em relação a suas influências, estava ouvindo o álbum enquanto lavava a louça e perguntei de minha mãe o que achava da música e se já tinha ouvido algo parecido. Ela disse que a-ha tinha músicas no mesmo estilo que tocavam nas discotecas e festas que frequentava quando jovem. Ela achava tanto que era uma banda dos anos 80 que quando disse que são músicas que saíram este ano, ela não acreditou.

Com ritmo dançante e melodias memoráveis, o álbum começa com a eletrizante “Vin Mariani”, cheia de sintetizadores pujantes, enchendo os ouvidos, infestando o cérebro de quem escuta com vontade de levantar e se mover no ritmo. O álbum está repleto de músicas assim. Algumas com o dancing beat mais voltado para o baixo (“Key Under The Mat”), outras com o ritmo controlado pelas batidas eletrônicas e guitarras simples e companheiras (“PHILOSOPHY!”).

Man Of The World foi uma boa continuação para a carreira de Baio, apesar de não ter inovado muito, apesar de certas faixas quebraram o ritmo e a coesão do álbum, apesar de as letras não serem um tanto envolventes. Quando tiver vontade de dançar sem pensar em nada e estiver em dúvida sobre qual dancing hit dos anos 80 escolher, dê uma chance a Baio. Existe música boa sendo feita hoje sim, independente do que digam. Basta ouvir atentamente.

OUÇA: “Vin Mariani”, “Key Under The Mat”, “PHILOSOPHY!” e “Sensitive Guy”