Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Bring Me the Horizon – amo


O rock pode ser bem cruel às vezes. Muitos que chegam como rebeldes buscando a glória dentro do gênero parecem estar pisando em ovos. Mas pelo jeito, o Bring Me The Horizon continua correndo sobre eles sem se preocupar em quebrá-los. É justamente nessa aventura por terrenos desconhecidos que a banda lança o ousado sexto álbum de estúdio, amo, enterrando suas origens do deathcore.

É impossível conhecer o quinteto de Sheffield fazendo uma mera comparação entre o novo álbum e o seu debut, Count Your Blessings (2006), sem se surpreender com o abismo que os separam. A banda formada por adolescentes que gritavam e tocavam de forma crua e desesperada de algum jeito é a mesma que ainda busca fazer rock, porém de forma bem executada, madura e sem discriminar qualquer outro gênero. Entender o Bring Me The Horizon em seus quase 15 anos de carreira e seis trabalhos lançados mostra que, na verdade, essa mudança de sonoridade é totalmente compreensível.

amo carrega o fardo de ser o sucessor do mais aclamado – e consequentemente mais comercial – álbum do BMTH: That’s The Spirit (2015), que consagrou o grupo nos charts e mundialmente. Esse trabalho tornou concreto as experimentações que vinham desde 2010, com o álbum There Is A Hell, Believe Me I’ve Seen It. There Is A Heaven, Let’s Keep It A Secret, no qual o metalcore começa a dividir espaço com elementos do pop e do eletrônico. Essa foi a maneira que a banda mudou completamente a imagem que construiu ao longo dos anos. Para a alegria de alguns ou para a tristeza dos que curtiam os gritos do vocalista Oliver Sykes, o Bring Me The Horizon ousou ir muito mais além.

Novamente a vida pessoal tem muito peso na produção de Sykes e Jordan Fish para este novo álbum. Divórcio, casamento, vícios e até a morte de um amigo modelam suas letras e melodias de amo, brincando com essa dualidade de delícias e discórdias da vida. As guitarras pesadas deixam de ser protagonistas, passando a coexistir com batidas do trap, synthpop e até alguns violinos. Até mesmo os gritos arrancados da garganta deram espaço para vocais limpos e alguns autotunes. O resultado dessa produção foi entregue em 13 faixas que conversam muito bem entre si, apesar de toda essa mistura que não definem apenas um gênero.

Os primeiros singles, “Mantra” e “Wonderful Life”, fazem a cota hardcore do álbum que mais lembram o antigo som da banda. A maior surpresa começa logo em seguida, com os sintetizadores marcantes da cantora Grimes no barulho apocalíptico de “Nihilist Blues”, mostrando um Oliver Sykes de voz quase irreconhecível. A parte melancólica e vingativa de amo fica evidente em “Medicine”, o hit grudento e comercial que desagradou muitos fãs. E ainda para a surpresa dos brasileiros, a açucarada faixa “Mother Tongue” traz Sykes brincando em português: ‘So don’t say you love me, fala amo’ usando a similaridade do som de ‘amo’ e ‘emo’.

Se o That’s The Spirit trilhou os caminhos para um novo Bring Me The Horizon, então amo foi o seu divisor de águas – agora eles estão mais livres do que nunca para explorar águas desconhecidas. O álbum é imensamente destemido, assim como o BMTH foi e promete ser para trabalhados ainda mais ousados. Agradando ou não aos fãs mais conservadores, o fato é que sair da zona de conforto foi uma grande atitude rock ‘n’ roll.

OUÇA: “Mantra”, “Nihilist Blues”, “In the Dark”, “Mother Tongue” e “Heavy Metal”