Francisco, el Hombre – RASGACABEZA



Francisco El Hombre volta depois de 3 anos de SOLTASBRUXA, primeiro álbum de estúdio e que levou o grupo a ter projeção no Brasil. Em RASGACABEZA a banda meio mexicana e meio brasileira investiu em uma mudança drástica e apostou em uma homenagem ao agito com o uso de inúmeras metáforas sobre fogo.

Das 8 faixas, apenas a sexta “O Tempo É Sua Morada (Celebrar)” possui um ritmo calmo e serve como respiro para o ouvinte em meio a toda fuligem do fogo das outras músicas.

No álbum de estreia as músicas de batidas reflexivas eram mais predominantes como “Sincero”, “Triste, Louca Ou Má” e “Axé, Auê, Sem Fuzuê”.

Outra mudança é o uso menos recorrente da crítica política explícita como acontecia nas canções de 2016 “Bolso Nada” e “Tá Com Dólar, Tá Com Deus”. Isso não significa que a banda tenha ficado menos engajada, mas apenas que as “críticas sociais fodas” ficaram mais nas entrelinhas.

A faixa com uma referência menos escondida é a última do disco “Se Hoje Tá Assim (Imagina o Amanhã)”. Com destaque para esses versos:  Viatura dita o medo (medo de sair) / Na moldura, retrocedo / De censura, vive o medo (medo de cair) /Criatura, surto cedo.

Com exceção de “O Tempo É Sua Morada”, a faixa mais outsider do disco, todo o álbum é uma enorme convocação para sair da zona de conforto, se mexer e tomar atitudes pró-ativas.

Um dos refrões que mais representa o espírito de RASGACABEZA é o da faixa “Parafuso Solto (Ponto Morto)”, que faz um dos convites mais fortes para sair da inércia:


Vai, acreditando que não cai
Pisa fundo até onde dá
Se essa bobina se afogar
Troca a peça e da-lhe pau
Já não arranco nem a pau
E o couro aguenta malemar
Meu sangue é óleo sujo
E minha mente rente à beira vai

Francisco El Hombre fez um movimento arriscado ao romper com a fórmula que o levou ao sucesso com SOLTASBRUXA, mas a jogada resultou em um trabalho de igual qualidade, ainda que por outros motivos.

RASGACABEZA mantém a essência das influências de MPB e raízes latinas do Francisco El Hombre, mas sai da zona de conforto ao apostar em algo que pode parecer na superfície o agito pelo agito, mas que no fundo traz a mesma veia política apresentada nas músicas de 2016.

OUÇA: “Travou (Tela Azul)”, “Encaldeirando (Aqui Dentro Tá Quente)”, “Parafuso Solto (Ponto Morto)” e “Manda Bala Fogo (Não Preciso De Você)”

Avril Lavigne – Head Above Water


Depois do maior hiato de sua carreira – 6 anos desde o lançamento do último álbum -, Avril Lavigne volta com letras reflexivas e acústicas em contraposição aos hits cheios de guitarra e refrões relativamente simples que a tornaram famosa, como “Complicated”, “Girlfriend” e “Sk8er Boi”.

Este novo trabalho é marcado pelo fato dela ter sido diagnosticada em 2015 com doença de Lyme, enfermidade comum, mas que pode ser letal se não tratada. O divórcio com o vocalista do Nickelback, Chad Kroeger, também influencia nas canções.

A faixa que faz uma referência mais direta a luta contra a doença é “Warrior”, última do disco. A música é uma balada acústica na qual Avril se abre sobre o momento em que batalhava pela vida. O refrão adota o tom de superação que marca todo o lançamento: ‘And I’m stronger, that’s why I’m alive / I will conquer, time after time / I’ll never falter, I will survive / I’m a warrior’. A mesma ideia de superar desafios está presente na faixa-título Head Above Water, na qual ela fala sobre manter “a cabeça acima da água” durante a tempestade.

Os destaques do álbum vão para as letras românticas de “Goddess” e “Crush”, que possuem uma pegada de pop misturado com soul e melodias que te pegam na primeira ouvida.

Dumb Blonde” é a mais pop do álbum. Com uma letra bem “girls with attitude”, ela faz o papel de agradar aqueles que sentem falta da Avril de “Girfriend”. As músicas possuem ritmos parecidos e as guitarras não são ignoradas como no resto do disco. Junto com a rapper Nick Minaj, a canadense se coloca como protagonista e diz que não é nenhuma loira burra. A canção pode lembrar um pouco “Hard Out Here” da Lily Allen.

Head Above Water talvez não agrade os fãs mais antigos da Avril. Por ser um trabalho predominantemente acústico e tratar das fraquezas da cantora porta-voz da rebeldia adolescente dos anos 2000, alguns podem estranhar.

No entanto, engana-se quem espera ouvir um disco pessimista, apesar dos temas difíceis abordados, todas as composições focam em transpor essas dificuldades. Ainda que muitos clichês sejam usados, como o discurso batido de “vencer batalhas” e “passar pela tempestade”, Avril  acerta em mostrar a capacidade de se reinventar e externar em suas músicas os demônios internos contra os quais ela luta há 4 anos.

OUÇA: “Goddess”, “Crush” e “Head Above Water”