Boogarins – Sombrou Dúvida



Aqui vemos um Boogarins mais palatável e menos dado a experimentações. Muitas das músicas do Sombrou Dúvida permitem entender o que o Dinho fala sem precisar de pesquisas nas letras na internet.

No entanto, ainda é um álbum que mantém a essência “bugarinha”. Ainda há o tom psicodélico e os reverbs para reforçar esse tom, ainda que menos extremados.

Um mesmo verso genial é repetido duas vezes no lançamento da banda goiana: “existe um desgaste no novo / se repete dá nojo/ e isso você não quer ver”. Eu acho que é essa mesmo a ideia, não adianta eles quererem fazer algo novo como Lá Vem A Morte toda vez.

Esse trecho está tanto na faixa-título “Sombra ou Dúvida” como em “Invenção”, as duas lançadas como single. “Invenção” inclusive faz uma homenagem à música “Princesa” dos também goianos Carne Doce.

A versão acabou ficando mais interessante que a original da Carne Doce, pois a roupagem psicodélica do Boogarins dá o toque de graça que faltava na música da Salma Jô e do Macloys. As duas bandas são próximas e já trabalharam juntos em outras faixas antes como “Benzim” e “Dos Namorados”.

“Dislexia Ou Transe” tem uma intro, repetida algumas vezes ao longo da música, que parece muito com a abertura de Globo Rural, porém a semelhança fica só nessa parte mesmo e o resto da música é puro Boogarins. É uma faixa com tudo para ser fixada na cabeça de quem curte esse estilo Tame Impala e a fase mais pop do Pink Floyd.

Outro destaque é “A Tradição”, com uma das letras mais bem construídas e reflexivas do álbum:

“A tradição

Como arma apontada

Mas não quer atirar

Jogue as ideias no ar”

“Sombrou Dúvida” difere muito do seu predecessor Lá Vem A Morte, onde as distorções sonoras eram tamanhas que o que o Dinho falava era totalmente incompreensível. Em “Onda Negra” e “Foi Mal” só dá para entender o que é cantado se a letra for lida antes, agora nas canções deste álbum de 2019, claramente dá para entender tudo.

Neste ano, o conjunto de Goiânia resolveu delimitar uma zona de conforto. Não fizeram mal pois entregaram um álbum de bastante qualidade. Não chega a representar a importância para a música alternativa brasileira que Lá Vem A Morte representa, mas a banda acertou em não querer inventar a roda duas vezes seguidas.

Apostar no garantido com certeza trouxe um resultado melhor do que tentar fazer um Lá Vem A Morte Parte 2.

OUÇA: “Invenção”, “Sombra Ou Dúvida”, “As Chances”, “Dislexia Ou Transe” e “A Tradição”

Ra Ra Riot – Superbloom



Em seu quinto álbum de estúdio o Ra Ra Riot não foge da fórmula pré-estabelecida do indie pop good vibes com melodias suaves e letras igualmente suaves, sem abordagem de temas complexos e que evocam calma e tranquilidade.

A banda não arrisca muito e acaba presa em uma forma, que embora seja agradável de ouvir, não traz novidade e é facilmente confundida com trabalhos antigos tanto do Ra Ra Riot como do Vampire Weekend, Phoenix e MGMT.

A melhor e mais chiclete faixa do novo disco é “A Check For Daniel”, que em alguns momentos lembra “aquela do Vampire Weekend” (“A Punk”). É a música mais agitada e dançante do álbum e a única que não economiza tanto nas guitarras.

Outro destaque do álbum é a faixa “Belladonna”, que tem um refrão contagiante, e um arranjo musical construído de forma excelente. Os instrumentos são perfeitamente encaixados com um coro de fundo e um interlúdio com diálogos em japonês.

Não há muito o que comentar sobre a composição das letras de Superbloom, todas são genéricas e parecem terem sido feitas somente para preencher os arranjos já construídos, que são muito bons e a principal qualidade da nova obra.

O trabalho novo do Ra Ra Riot não fugiu da zona de conforto. Às vezes isso é bom, outras vezes isso é ruim. Nesse caso o resultado é mais positivo que negativo, mas se tivessem buscado arriscar poderia ter saído um trabalho melhor.

A fórmula indie pop ainda não está totalmente esgotada e permite o surgimento de álbuns de boa qualidade, mas é preciso que se procure alternativas para reinventar.

Sem fugir muito do formato, o Phoenix tentou fazer algo original com o Bankrupt! em 2014 e o Vampire Weekend fez neste ano com Father Of The Bride. Talvez no próximo trabalho o Ra Ra Riot possa trazer sua contribuição para reinventar o indie pop.

OUÇA: “Belladonna”, “A Check For Daniel”, “War & Famine” e “This Time Of Year”

Sum 41 – Order In Decline



Banda surgida no final dos anos 1990 no esteio da explosão pop punk que popularizou Green Day, Blink 182, Bad Religion, Offspring e Rancid, o Sum 41 de 2019 é bem mais hard rock do que punk. As guitarras deste novo álbum Order In Decline estão bem mais carregadas e as letras menos trabalhadas.

Order In Decline é um álbum bem fácil de agradar na primeira ouvida. Quem gosta de músicas cheias de adrenalina e que remetem a Avenged Sevenfold, Slipknot e Three Days Grace, vai encontrar o trabalho perfeito. 

No entanto, vão se decepcionar aqueles que buscam no álbum o espírito pop punk de 1994, com letras que instam a rebelião, evocam o tédio e a desobediência a autoridades em qualquer instância, dos pais ao governo. 

O momento mais político do álbum é em “45 (A Matter Of Time)”, que fala do 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora a letra não fuja muito do espectro simplista da média das músicas do álbum, a composição traz uma ideia interessante de lidar com a dualidade de temer o governo Trump ao mesmo tempo que o classifica como apenas um número.

Já a canção que mais destoa do hard rock predominante no álbum é “Never There”, que também é uma canção fácil de gostar de primeira. O ritmo e a letra melancólica são envolventes e apesar de destoar do ritmo do resto do álbum, casa muito bem no conjunto da obra. 

A composição da letra de “Never There” é representativa de o quanto o processo de pensar as letras foi negligenciado neste álbum. Tome-se esse trecho como exemplo:

I know that if the, the chance appears

Well I’d have no fears

We both share pain

We feel the same

Esses dois trechos da música “Out For Blood” também reforçam que não houve cuidado na elaboração das letras:

So tell me what’s real

I don’t know if I can feel

Tell me what’s right

I don’t see the light

Apesar do pouco esmero nas letras, a volta de Sum 41 é uma boa notícia porque o instrumental é usado de uma maneira excelente e o ritmo das cações tem a qualidade de agradar rápido como poucos álbuns dos anos 2000 para cá conseguem.

O Sum 41 fez uma aposta ao se distanciar do movimento pop punk pelo qual conseguiu surfar e alcançar notoriedade. Essa aposta trouxe mais resultados positivos do que negativos, pois não há nenhum problema em investir na agradabilidade instrumental e utilizar letras fáceis. Não só de composição cabeçuda vive a música.

OUÇA: “The People Vs…”, “Out For Blood”, “Never There”, “45 (A Matter of Time)”

AURORA – A Different Kind Of Human



A Different Kind Of Human (Step 2) é a sequência de Infections Of A Different Kind (Step 1), pequeno álbum de oito músicas lançado em 2018 por AURORA. Neste trabalho de 2019, a cantora de 23 anos dá continuidade ao empoderamento e sensação de desajuste presente no seu predecessor.

Os títulos e capas dos dois discos são bastante similares. No entanto, na capa de Step 1 Aurora está com as mãos fechadas e na de Step 2 as mãos se abrem. A diferença na arte dos álbuns dá pistas sobre o que muda de um trabalho para outro.

No disco de 2018, AURORA explora mais seus sentimentos interiores e o álbum deste ano é sobre a o extravasamento desses sentimentos, como a cantora tenta pôr para fora toda sua euforia, raiva, alegria  e esperança.

“Dance On The Moon” é um dos pontos altos do álbum. Esta faixa é uma das que mais realça a voz doce e que dá qualidade ao pop etéreo de Aurora. “I dance as I’m falling, but I never touch the ground [Eu danço enquanto despenco, mas nunca vou tocar no chão”, canta a artista norueguesa.

Em “Apple Tree”, a artista aposta em uma batida de hip hop misturada com seu habitual eletropop. O resultado é parecido com as músicas de Lorde, sobretudo as do álbum  Pure Heroine.

A faixa é uma das mais agitadas e divertidas de Step 2. Também representa o espírito geral do álbum de empoderamento, com a letra convocando as pessoas a se arriscarem para salvar o mundo.

Na canção que dá título ao disco, “Different Kind Of Human”, o sentimento de desajuste perante ao mundo é o tema predominante. A letra trata de uma humana ou humano considerado outsider sendo levado por alienígenas.

“Nós viemos aqui por você

E nós viemos em paz

A nave mãe levará você mais alto, mais alto

Este mundo em que você vive não é um lugar para alguém como você”

O pop etéreo de AURORA é algo prazeroso de ouvir e pode nos dar a sensação de estarmos em contato com algo místico. Ela soa como um Alt J menos experimental ou como uma Lorde menos pop, ficando no meio termo e em um certo equilíbrio na escala dos extremos do indie pop.

No entanto, esse álbum tem o defeito de dar uniformidade excessiva a suas canções. O ritmo e até a temática das letras das músicas soam repetitivos. O que não tira o mérito da artista conseguir nos transportar para outra dimensão e fazer as músicas parecerem terem sido tiradas de contos de fada medievais.

OUÇA: “Animal”, “Apple Tree”, “Dance On The Moon” e “River”

Francisco, el Hombre – RASGACABEZA



Francisco El Hombre volta depois de 3 anos de SOLTASBRUXA, primeiro álbum de estúdio e que levou o grupo a ter projeção no Brasil. Em RASGACABEZA a banda meio mexicana e meio brasileira investiu em uma mudança drástica e apostou em uma homenagem ao agito com o uso de inúmeras metáforas sobre fogo.

Das 8 faixas, apenas a sexta “O Tempo É Sua Morada (Celebrar)” possui um ritmo calmo e serve como respiro para o ouvinte em meio a toda fuligem do fogo das outras músicas.

No álbum de estreia as músicas de batidas reflexivas eram mais predominantes como “Sincero”, “Triste, Louca Ou Má” e “Axé, Auê, Sem Fuzuê”.

Outra mudança é o uso menos recorrente da crítica política explícita como acontecia nas canções de 2016 “Bolso Nada” e “Tá Com Dólar, Tá Com Deus”. Isso não significa que a banda tenha ficado menos engajada, mas apenas que as “críticas sociais fodas” ficaram mais nas entrelinhas.

A faixa com uma referência menos escondida é a última do disco “Se Hoje Tá Assim (Imagina o Amanhã)”. Com destaque para esses versos:  Viatura dita o medo (medo de sair) / Na moldura, retrocedo / De censura, vive o medo (medo de cair) /Criatura, surto cedo.

Com exceção de “O Tempo É Sua Morada”, a faixa mais outsider do disco, todo o álbum é uma enorme convocação para sair da zona de conforto, se mexer e tomar atitudes pró-ativas.

Um dos refrões que mais representa o espírito de RASGACABEZA é o da faixa “Parafuso Solto (Ponto Morto)”, que faz um dos convites mais fortes para sair da inércia:


Vai, acreditando que não cai
Pisa fundo até onde dá
Se essa bobina se afogar
Troca a peça e da-lhe pau
Já não arranco nem a pau
E o couro aguenta malemar
Meu sangue é óleo sujo
E minha mente rente à beira vai

Francisco El Hombre fez um movimento arriscado ao romper com a fórmula que o levou ao sucesso com SOLTASBRUXA, mas a jogada resultou em um trabalho de igual qualidade, ainda que por outros motivos.

RASGACABEZA mantém a essência das influências de MPB e raízes latinas do Francisco El Hombre, mas sai da zona de conforto ao apostar em algo que pode parecer na superfície o agito pelo agito, mas que no fundo traz a mesma veia política apresentada nas músicas de 2016.

OUÇA: “Travou (Tela Azul)”, “Encaldeirando (Aqui Dentro Tá Quente)”, “Parafuso Solto (Ponto Morto)” e “Manda Bala Fogo (Não Preciso De Você)”

Avril Lavigne – Head Above Water


Depois do maior hiato de sua carreira – 6 anos desde o lançamento do último álbum -, Avril Lavigne volta com letras reflexivas e acústicas em contraposição aos hits cheios de guitarra e refrões relativamente simples que a tornaram famosa, como “Complicated”, “Girlfriend” e “Sk8er Boi”.

Este novo trabalho é marcado pelo fato dela ter sido diagnosticada em 2015 com doença de Lyme, enfermidade comum, mas que pode ser letal se não tratada. O divórcio com o vocalista do Nickelback, Chad Kroeger, também influencia nas canções.

A faixa que faz uma referência mais direta a luta contra a doença é “Warrior”, última do disco. A música é uma balada acústica na qual Avril se abre sobre o momento em que batalhava pela vida. O refrão adota o tom de superação que marca todo o lançamento: ‘And I’m stronger, that’s why I’m alive / I will conquer, time after time / I’ll never falter, I will survive / I’m a warrior’. A mesma ideia de superar desafios está presente na faixa-título Head Above Water, na qual ela fala sobre manter “a cabeça acima da água” durante a tempestade.

Os destaques do álbum vão para as letras românticas de “Goddess” e “Crush”, que possuem uma pegada de pop misturado com soul e melodias que te pegam na primeira ouvida.

Dumb Blonde” é a mais pop do álbum. Com uma letra bem “girls with attitude”, ela faz o papel de agradar aqueles que sentem falta da Avril de “Girfriend”. As músicas possuem ritmos parecidos e as guitarras não são ignoradas como no resto do disco. Junto com a rapper Nick Minaj, a canadense se coloca como protagonista e diz que não é nenhuma loira burra. A canção pode lembrar um pouco “Hard Out Here” da Lily Allen.

Head Above Water talvez não agrade os fãs mais antigos da Avril. Por ser um trabalho predominantemente acústico e tratar das fraquezas da cantora porta-voz da rebeldia adolescente dos anos 2000, alguns podem estranhar.

No entanto, engana-se quem espera ouvir um disco pessimista, apesar dos temas difíceis abordados, todas as composições focam em transpor essas dificuldades. Ainda que muitos clichês sejam usados, como o discurso batido de “vencer batalhas” e “passar pela tempestade”, Avril  acerta em mostrar a capacidade de se reinventar e externar em suas músicas os demônios internos contra os quais ela luta há 4 anos.

OUÇA: “Goddess”, “Crush” e “Head Above Water”