Weezer – Weezer (The Black Album)



Lançado no primeiro dia de março deste ano, o décimo terceiro álbum do Weezer surgiu após o hype engraçadinho em cima do Teal Album, projeto de covers divertidos com visual à la Choque de Cultura. Visualmente, The Black Album soaria como roqueiros suados cobertos de gosma preta sobre um fundo infinito. Em termos sonoros,  eu não sei o que deveria parecer.

Em entrevista à Entertainment Weekly, Rivers Cuomo disse que alguns  fãs disseram imaginar que seria um álbum de heavy metal, super pesado. Cuomo afirmou que é justamente o contrário. Há  pouca guitarra e todas as músicas foram baseadas no piano.

O álbum é composto por dez faixas são, em média, trinta e oito minutos de um projeto produzido por  Dave Sitek e capitaneado por Rivers Cuomo e dizer isso me machuca – eu acho Weezer uma preciosidade e, uma vez por semana, ao menos, escuto o The Blue Album e agradeço – mas, cara, eis um álbum cujo destaque é não possuir destaque.

Mudança e renovação são admiráveis e importantes, mas saber fazê-los da melhor forma também é. Não se trata de um álbum mal feito ou com baixa qualidade, e sim, um álbum sem propósito, ou melhor, sem ideia definida. Não há recorte, pauta ou norte. Parece que eles apenas se juntaram e falaram: “vamos!”.

Por se tratar de Weezer, isso não torna The Black Album a experiência mais horrível e cruel do mundo. Há toques de pop, um leve flerte com hip hop, animação e até melancolia. Uma salada de frutas com muitos elementos e pouca coesão, seja na ligação de uma faixa à outra, seja no álbum como um conceito.

“High As A Kite” e  “Piece Of Cake” são bons exemplos dessa junção de melancolia e alegria. Em  “Piece Of Cake”, Cuomo parece cantar sobre se entregar – e talvez se iludir  – em contato com uma paixão, há o uso das drogas para consertar os problemas e até espaço para um gato chamado Baudelaire, como o poeta francês. Essa melancolia musical da faixa, por sua vez, soa mística e individualista, como uma busca pelo absoluto.

O jogo de contrastes do Weezer entre luzes e sombras é feito pela relação entre letra e melodia. Parece existir, nas entrelinhas, algo de sombrio ou de quebra de expectativa nas letras, como se Cuomo mostra-se que não dá a mínima para o que esperam do Weezer.

É difícil saber para onde o Weezer está indo, principalmente quando o trabalho, como um todo, soa tão fácil de esquecer. Qual a próxima cor que o Weezer irá explorar?N

OUÇA: “High As A Kite”, “Piece Of Cake”, “I’m Just Being Honest” e “Byzantine”


El Toro Fuerte – Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos


Afeto em primeiro lugar. Amizade transbordando. Os mineiros da El Toro Fuerte entregaram, logo no fim de janeiro para o público, o segundo trabalho da banda, nomeado Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos. O álbum possui 13 faixas, três a mais que o álbum de estreia da banda, Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo.

O grupo oriundo de Belo Horizonte é formado por João Carvalho (vocais, guitarra e baixo), Gabriel Martins (bateria), Fábio de Carvalho (guitarra, baixo, vocais) e Diego Soares (baixo, guitarra e vocais). O novo projeto da banda soa como algo mais experimental e ousado. O NALV é a caminhada em direção ao que a banda projeta, onde o disco é a forma material consolidada desta transição. Mesclando math rock, rock alternativo e emo, o álbum reflete a personalidade de sua capa. Colagens, montagens, ideias e resoluções poéticas e instrumentais, objetos singulares formando um conjunto diverso.

Abrindo com “Aniversários São Difíceis”, o álbum já demonstra seu viés sentimental, melancólico e analítico. Nostalgia sonora e narrada. Além dos arranjos instrumentais, a El Toro Fuerte conta com narrativas líricas dignas dos mais próximos amigos. É como se os ouvintes fossem amigos próximos e, junto com a banda, todos estivessem em um bar contando casos da vida. Histórias de amigos e lugares, aventuras contemporâneas.

Há, no álbum, várias contribuições de amigos próximos para compor e gravar o material. Fazem parte do disco Nicole Patrício (Alambradas), Laura Vilela e Raquel Batista. “Nos Seus Movimentos”, faixa com participação de Vilela nos vocais é um dos destaques do NALV. A melodia trabalha a favor da letras, falando sobre amizade, pertencimento e amadurecimento. É uma canção com momentos de calmaria e explosão muito bem utilizados. “Fim do Inverno”, lançada ainda em 2018, explora a sensibilidade e apresenta uma atmosfera que parece rememorar o disco anterior.

“Hidra”, sétima faixa, possui uma das melodias que flerta com algo psicodélico — algo meio triste, chapado, flutuando. É uma das músicas mais curtas do projeto e parece soar como uma continuação melódica da deliciosa faixa “Aquários”. A pluralidade sonora, entretanto, pode não agradar aos que esperam certa concisão.

Hidra, na mitologia grega, era uma espécie de monstro com um corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos segue uma lógica semelhante ao monstro mitológico. É um projeto com uma ideia central bem definida, mas que é amplificada em diversas figuras sonoras ao longo do álbum, um projeto coletivo e interessante.

OUÇA: “Aquários”, “Fim Do Inverno”, “Nos Seus Movimentos” e “Corações Tranquilos Dormem Cedo”

James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”