Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

O Terno – atrás/além



Mais um lançamento da banda paulista O Terno tomou conta da internet no fim de abril. <atrás/além>, lançado pelo selo Risco,  é o sucessor de Melhor Do Que Parece, o terceiro álbum da banda. Foram quase dois anos e meio entre o  lançamento desses dois projetos, nesse meio tempo, Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d’O Terno, lançou seu primeiro álbum solo Recomeçar. Era hora de recomeçar, de novo. Do vazio e da incerteza surgiu <atrás/além>, afinal, o que é a passagem tempo?

Maturidade e envelhecimento não significam sempre a mesma coisa, mas, neste disco, é possível que as palavras sejam utilizadas como sinônimas. O trio formado por Biel Basile, Guilherme D’Almeida e Tim Bernardes vivem uma transição temporal frenética – nem tão jovens, nem tão velhos.

O tempo é a duração das coisas que nós, seres humanos, vivemos e presenciamos. É isso que que cria a ideia de presente, passado e futuro. Todas essas fendas dão espaço para visitas intermináveis a diferentes momentos. Há uma ideia de brevidade eterna – a antítese é convocada a cada música. Tim, na primeira canção, canta que é muito cedo para parar pelo caminho, almejando a chegada da idade. Em “Pegando leve”, segunda faixa, ideias opostas são exploradas no refrão: ‘Quero descansar, mas também quero sair / Quero trabalhar, mas quero me divertir / Quero me cobrar, mas saber não me ouvir / Quero começar, mas quero chegar no fim’, a pressa adulta ziguezagueia na cabeça do ouvinte, um fluxo infindável de incertezas cotidianas pipocando.

A temática contemporânea choca-se com a melodia que parece ter sido deslocada de um cenário sonoro no fim dos anos 60. Uma viagem temporal onde as malas estão a bordo de um carro, em uma viagem à praia  – a maresia, o sol, a brisa e a nostalgia lomográfica são evocadas. Poderia fazer parte de um tempo dos Mutantes, Brian Wilson ou das canções mais melódicas dos Beatles. Há um processo de recuperação e preservação da memória, cada nota parece ser o gancho para que lembranças pipoquem na mente dos ouvintes. No quarto álbum, O Terno usou a maturidade para repensar as fusões temporais. E o que acontecerá no futuro?

OUÇA: “Atrás / Além”, “Bielzinho / Bielzinho” e “Profundo / Superficial”

The Maine – You Are OK



Ano sim, ano não, o The Maine aposta em novos projetos. São um total de sete álbuns em onze anos. Produtividade. Em março, a banda lançou You Are OK, sucessor de Lovely Little Lonely, de 2017.

São dez faixas que evidenciam uma produção mais apurada e um amadurecimento do conjunto. O The Maine aparenta ter entendido o lance de “temos que crescer”, sem perder as raízes e a independência. Antes do lançamento do álbum, três faixas já haviam sido divulgadas anteriormente,”Numb Without You”, “My Best Habit” e “Broken Parts”.

Em junho de 2019, o The Maine virá ao Brasil para uma série de shows em quatro cidades.  Em um post no Instagram, John O’Callaghan, vocalista da banda, afirmou que o lançamento do álbum é muito importante para  a banda e que, desta vez, eles estão apresentado um trabalho de forma mais ambiciosa.

“Slip The Noose”, primeira faixa do álbum, é deliciosamente nostálgica ao soar como o  My Chemical Romance. Não se trata de uma cópia, mas uma bela lembrança, uma influência. O instrumental da música é poderoso e diferente, demonstrando ao ouvinte que algo único está por vir.

“My Best Habit” e “Numb Without You” são as próximas canções de You Are OK e já haviam sido lançadas anteriormente. A primeira é rápida – talvez a velocidade seja um dos pontos geradores do álbum – e possui uma base de batida eletrônica; a segunda rememora a questão da rapidez, mas com um refrão cantado de maneira mais lenta. O’Callaghan, nesta composição, deixa claro como a paixão tomou conta de seu corpo e alma violentamente. As batidas refletem essa violência.

“I Feel It All Over” sugere aquilo que estamos acostumados a escutar nas produções sonoras dos garotos do Arizona. O contraponto do álbum fica nos ombros de “Forevermore”, faixa acústica e sólida, em que os vocais de O’Callaghan reinam supremos e convictos. Boa jogada. “Tears Won’t Cry (Shinju)” e “One Sunset” reforçam uma das características mais marcantes do projeto: baterias definidas e rápidas.

“Flowers On the Grave” encerra o álbum vagarosamente. São nove minutos que poderiam muito bem serem resolvidos em, no máximo, cinco. Não é um grande erro, mas faltou coesão.

You Are OK é urbano, sagaz e rápido. Um instrumental bem resolvido que ascende com a potência vocal de John. É, de fato, um álbum que aposta no amadurecimento e na exposição de sua força. Com o perdão da piada, eu tô mais que ok com este novo álbum.

OUÇA: “Slip The Noose”,“Numb Without You”, “Forevermore” e “Tears Won’t Cry (Shinju)”

Weezer – Weezer (The Black Album)



Lançado no primeiro dia de março deste ano, o décimo terceiro álbum do Weezer surgiu após o hype engraçadinho em cima do Teal Album, projeto de covers divertidos com visual à la Choque de Cultura. Visualmente, The Black Album soaria como roqueiros suados cobertos de gosma preta sobre um fundo infinito. Em termos sonoros,  eu não sei o que deveria parecer.

Em entrevista à Entertainment Weekly, Rivers Cuomo disse que alguns  fãs disseram imaginar que seria um álbum de heavy metal, super pesado. Cuomo afirmou que é justamente o contrário. Há  pouca guitarra e todas as músicas foram baseadas no piano.

O álbum é composto por dez faixas são, em média, trinta e oito minutos de um projeto produzido por  Dave Sitek e capitaneado por Rivers Cuomo e dizer isso me machuca – eu acho Weezer uma preciosidade e, uma vez por semana, ao menos, escuto o The Blue Album e agradeço – mas, cara, eis um álbum cujo destaque é não possuir destaque.

Mudança e renovação são admiráveis e importantes, mas saber fazê-los da melhor forma também é. Não se trata de um álbum mal feito ou com baixa qualidade, e sim, um álbum sem propósito, ou melhor, sem ideia definida. Não há recorte, pauta ou norte. Parece que eles apenas se juntaram e falaram: “vamos!”.

Por se tratar de Weezer, isso não torna The Black Album a experiência mais horrível e cruel do mundo. Há toques de pop, um leve flerte com hip hop, animação e até melancolia. Uma salada de frutas com muitos elementos e pouca coesão, seja na ligação de uma faixa à outra, seja no álbum como um conceito.

“High As A Kite” e  “Piece Of Cake” são bons exemplos dessa junção de melancolia e alegria. Em  “Piece Of Cake”, Cuomo parece cantar sobre se entregar – e talvez se iludir  – em contato com uma paixão, há o uso das drogas para consertar os problemas e até espaço para um gato chamado Baudelaire, como o poeta francês. Essa melancolia musical da faixa, por sua vez, soa mística e individualista, como uma busca pelo absoluto.

O jogo de contrastes do Weezer entre luzes e sombras é feito pela relação entre letra e melodia. Parece existir, nas entrelinhas, algo de sombrio ou de quebra de expectativa nas letras, como se Cuomo mostra-se que não dá a mínima para o que esperam do Weezer.

É difícil saber para onde o Weezer está indo, principalmente quando o trabalho, como um todo, soa tão fácil de esquecer. Qual a próxima cor que o Weezer irá explorar?N

OUÇA: “High As A Kite”, “Piece Of Cake”, “I’m Just Being Honest” e “Byzantine”


El Toro Fuerte – Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos


Afeto em primeiro lugar. Amizade transbordando. Os mineiros da El Toro Fuerte entregaram, logo no fim de janeiro para o público, o segundo trabalho da banda, nomeado Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos. O álbum possui 13 faixas, três a mais que o álbum de estreia da banda, Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo.

O grupo oriundo de Belo Horizonte é formado por João Carvalho (vocais, guitarra e baixo), Gabriel Martins (bateria), Fábio de Carvalho (guitarra, baixo, vocais) e Diego Soares (baixo, guitarra e vocais). O novo projeto da banda soa como algo mais experimental e ousado. O NALV é a caminhada em direção ao que a banda projeta, onde o disco é a forma material consolidada desta transição. Mesclando math rock, rock alternativo e emo, o álbum reflete a personalidade de sua capa. Colagens, montagens, ideias e resoluções poéticas e instrumentais, objetos singulares formando um conjunto diverso.

Abrindo com “Aniversários São Difíceis”, o álbum já demonstra seu viés sentimental, melancólico e analítico. Nostalgia sonora e narrada. Além dos arranjos instrumentais, a El Toro Fuerte conta com narrativas líricas dignas dos mais próximos amigos. É como se os ouvintes fossem amigos próximos e, junto com a banda, todos estivessem em um bar contando casos da vida. Histórias de amigos e lugares, aventuras contemporâneas.

Há, no álbum, várias contribuições de amigos próximos para compor e gravar o material. Fazem parte do disco Nicole Patrício (Alambradas), Laura Vilela e Raquel Batista. “Nos Seus Movimentos”, faixa com participação de Vilela nos vocais é um dos destaques do NALV. A melodia trabalha a favor da letras, falando sobre amizade, pertencimento e amadurecimento. É uma canção com momentos de calmaria e explosão muito bem utilizados. “Fim do Inverno”, lançada ainda em 2018, explora a sensibilidade e apresenta uma atmosfera que parece rememorar o disco anterior.

“Hidra”, sétima faixa, possui uma das melodias que flerta com algo psicodélico — algo meio triste, chapado, flutuando. É uma das músicas mais curtas do projeto e parece soar como uma continuação melódica da deliciosa faixa “Aquários”. A pluralidade sonora, entretanto, pode não agradar aos que esperam certa concisão.

Hidra, na mitologia grega, era uma espécie de monstro com um corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos segue uma lógica semelhante ao monstro mitológico. É um projeto com uma ideia central bem definida, mas que é amplificada em diversas figuras sonoras ao longo do álbum, um projeto coletivo e interessante.

OUÇA: “Aquários”, “Fim Do Inverno”, “Nos Seus Movimentos” e “Corações Tranquilos Dormem Cedo”

James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”