Guided by Voices – Zeppelin Over China


Com 36 anos de existência, o Guided by Voices é uma banda que não tem clichê nenhum para apresentar, além de sua própria fórmula e o único integrante original, Robert Pollard. A veterana lançou 12 álbuns nos últimos 10 anos, mais do que a maioria de jovens grupos que têm esse tempo de carreira, apostam sempre no bom e velho indie lo-fi, sem alterar sua identidade, e possui um vocalista que até possui uma carreira solo, mas (quase) nunca abandonou o barco.

Em 2019, o vigésimo sexto filho dessa longa jornada, iniciada em 1987 com Devil Between My Toes, foi lançado. Um dos trabalhos mais longos do grupo, Zeppelin Over China tem 32 faixas curtas, incluindo interlúdios, e uma alta diversificação sonora dentro do universo GBV. Os 75 minutos de álbum funcionam como uma imersão aos momentos de composição e gravação do álbum.

Essa sensação de estar imerso no ambiente de produção não é novidade para os fãs. Isso acontece, principalmente, porque o som da banda de Ohio é fresco. As letras são escritas rapidamente e as gravações acontecem sem tempo para super produções. Isso é uma marca registrada de Pollard, que hoje, aos 61 anos, acumula mais de cem álbuns gravados e 1.600 composições entre carreira solo, GBV e projetos paralelos.

Um dos trabalhos que contribuíram para este número, Zeppelin Over China começa com as boas-vindas energéticas de “Good Morning Sir” passa por guitarras mais clássicas, como em “Step For The Wave”, e uma vibe britpop anos 90, como em “Carapace” e “The Rally Boys”. Entre a leveza de sempre, estão faixas mais pesadas, com pedais que sujam as guitarras, como em “Blurring the Contats”, “Holy Rhythm” e “Charmless Peters”, que pode, tranquilamente, te levar a “Motor Away”, de Alien Lanes, 1995.

O novo trabalho do grupo também salva um espaço para belas acústicas, como “Bellicose Starling” — que nos leva, imediatamente, a auto referências como “Hold On Hope”, de Do The Collapse, 1999  —,  e experimentações mais pop que podem ser ouvidas em faixas como “Jam Warsong”, “My Future in Barcelona” e “You Own The Night”, relembrando a boa época de clássicos como “Glad Girls”, de Isolation Drills, 2001.

O álbum, que parece muito menos pop e animado que muitas obras anteriores, certamente não é um daqueles que resume a obra da banda, até pelas inúmeras mudanças de integrantes durante os quase 40 anos de carreira. No entanto, a atual formação, que se estabeleceu em 2016, parece saber canalizar maravilhosamente o talento de Pollard para descrever emoções. Apesar que, aquele professor de Dayton que eventualmente tocava com sua banda de garagem, consegue, até hoje, se virar bem e criar obras incríveis, não importa com quem esteja.

OUÇA: “You Own The Night”, “Jam Warsong”, “Jack Tell” e “My Future In Barcelona”

Young the Giant – Mirror Master


A globalização e a indústria cultural podem democratizar a arte. Por outro lado, o efeito massificador cria artistas iguais, obras iguais, famas, sucessos, dinheiros iguais. Quando Jim Carrey desejou que todo mundo fosse rico e famoso, foi exatamente por esse motivo: não há nada de novo para fazer ou almejar se você não se despadroniza e sai de sua zona de conforto. Você só muda de prioridades, escolhe uma marca de tênis diferente e muda o destino das suas viagens.

É nesta fuga que Young the Giant pautou seu quarto álbum de estúdio, Mirror Master. Após um longo período obedecendo às demandas do mercado, e em busca de sua própria identidade, a banda entrou em um processo de criação puro, o mais longe possível das tendências norte-americanas do indie e, segundo o vocalista Sameer Gadhia, sobre sua história de imigrante na terra do Tio Sam.

Logo na primeira faixa, “Superposition”, os elementos indianos ficam claros. Cordas agudas, coros marcantes e leves e a letra sobre a química entre duas pessoas (ou universos?) levam ao ouvinte entender que o grupo está trabalhando para produzir novos clássicos e não pretende, necessariamente ou por obrigação, ter vínculo com o passado. Mesmo assim, aquela fórmula super manjada de “vamos viver o amor, o futuro nos espera” reencontra a banda em “Simplify”, que poderia ter sido vendida para o Coldplay.

Enquanto os elementos mais eletrônicos aparecem em “Call Me Back”, as guitarras mais abertas e harmonias mais energéticas são bem-vindas em “Heat Of The Summer”, “Brother’s Keeper” e “Oblivion”, destaque da obra. Mas as composições que mais falam sobre o álbum em si são “Glory” — que, segundo Gadhia, é uma música discreta e vulnerável que afronta tudo o que os artistas fazem há tempos para vender — e  “Tightrope” — que questiona justamente uma identidade e existência.

Mirror Master encerra com sua música homônima e que também resume a obra. Com refrão que começa com a frase “você é mestre do espelho”, Gadhia explica do que se tratam todas as 12 faixas: autoconhecimento é essencial para você também conhecer e até mudar a realidade ao seu redor. A certeza que fica, até agora, é que Mirror Master é essencial para mudar o Young The Giant e a sua realidade.

OUÇA: “Superposition”, “Heat Of The Summer” e “Oblivion”

You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Hippo Campus – Bambi


O que acontece quando você se desprende de qualquer obrigação com o passado e se concentra nas suas vontades do presente? O novo álbum do Hippo Campus, Bambi, é, de certa forma, a resposta certa em todos os níveis e nuances. Das letras que encaram a excessiva preocupação com tempos incontroláveis – passado e futuro – até o processo de composição melódica, dramática e atual.

Essa foi justamente a proposta do produtor BJ Burton, que também assina discos de Bon Iver, Low e Francis and the Lights: no início do processo, ele fez a banda escolher entre compor mais um “disco do Hippo Campus” ou se abrir enquanto músicos para novas tendências e influências. A escolha por viver o presente foi em unânime empolgação.

Antes do lançamento, enquanto o vocalista Jake Luppen publicava alguns spoilers em seu Twitter com as novas letras e possíveis mudanças na sonoridade, o grupo testou o público com a primeira música de trabalho, “Bambi”, e um videoclipe cheio de conceito. Segundo a própria banda, o single foi a última composição escrita para o álbum, feita para resumir sua temática: a luta pela saúde mental e o quanto isso, muitas vezes, cansa e altera seu humor, amizades e relacionamentos.

Estamos no presente, com traumas do passado e medo do futuro. Esse papo é familiar para você? Sim, o disco é um abraço a todos ansiosos, aquele que mostra que você não está sozinho nessa. A introdutória “Mistakes” já prepara os ouvidos e a emoção com um sintetizador e coro bem etéreo. A faixa, que inicialmente não encaixava em nenhuma parte e acabou como a perfeita introdução, carrega uma letra que não deixa por menos ao citar uma possível culpa cristã em não conseguir ser bom o tempo todo para todo mundo.

Para deixar ainda mais claro o assunto aqui tratado, Anxious dá continuação com um piano clássico de background, guitarra desplugada e sintetizadores animados. A dinâmica se mistura entre a entrada explosiva da bateria e versos sobre ansiedade social. Ela foi escrita pelo baixista Zach Sutton, que estreou nas letras do grupo com rascunhos do passado para mostrar como ainda se sente no presente. Esse sentimento é natural e faz parte de um crescimento ou tem mais coisa escondida aí?

Mais enérgica, “Doubt” é o paradoxo entre o que era o Hippo Campus e o que agora é com as suas novas influências, já que se contrapõe sozinha com versos mais felizes e mornos, até um refrão mais dramático, que remonta à sua essência. Ela questiona o que sempre queremos saber antes da hora: como saber se é amor ou não é? Segundo a banda, foi a primeira música de sua história feita baseada em um solo de teclado.

Já a “Why Even Try” não apenas volta, mas mergulha de cabeça às raízes com leveza e vocal baixinho. Escrita pelo guitarrista Nathan Stocker, ela narra uma amizade fracassada e o ciclo natural dos sentimentos. A mesma relação serviu de inspiração para a faixa “Bubbles”, com som mais moderno e estouro de guitarra no refrão, que lembra, vagamente, os nova iorquinos do Dirty Projectors.

Enquanto o álbum propõe que está tudo bem sentir o que for, desde que você se permita sentir, “Think It Over” vem tranquila para avisar que não é preciso, necessariamente, fazer algo a partir dos mesmos sentimentos. Sente-se, pense, use seu tempo a seu favor, assim como fez Luppen ao criar esta música inteiramente em um DAW, também pela primeira vez.

A sequência das últimas três faixas é um bom momento para lembrar as pessoas que ainda há humanos por trás da música. Enquanto “Honestly”, mais uma volta ao velho Hippo Campus, é a “mais metalinguística impossível” ao deixar o erro de gravação no começo, “Golden” – densa, cheia de elementos, pop e leve – tem uma série de perguntas dentro do longo relacionamento de Luppen e sua namorada. O contraponto chega dramático com a última música, Passenger, lenta, groove e com acordes complexos.

Muitos elementos são constantes em Bambi. Apesar de falar de um velho problema, o álbum se mantém atual por conta de todas as “primeiras vezes” da banda. A primeira vez de se desprender do passado, a primeira vez de compor inicialmente em sintetizadores e, principalmente, a primeira vez de falar sobre aceitar a ansiedade tal como ela é e aparece.

E já que o principal problema é não saber lidar com os tempos incontroláveis, nada melhor que fazer um ode ao presente, aos problemas contemporâneos, às novas sonoridades. Nada mais atual do que aceitar o inevitável. Nada mais inevitável, pelo menos para o grupo de Minnesota, de se propor a ser atual. Nada melhor do que ser o novo, e não o velho, Hippo Campus.

OUÇA: “Bambi”, “Bubbles”, “Golden” e “Passenger”

Kodaline – Politics Of Living


Alguns anos atrasada para a sonoridade que propõe, a banda irlandesa Kodaline acaba de lançar o Politics Of Living, seu terceiro álbum de estúdio, com toda atmosfera etérea e sintética que Coldplay, OneRepublic e até, se forçar um pouquinho, Imagine Dragons, outrora produziram. Quando esperávamos o mesmo caminho que Seafret ou Hozier trilharam, a pesada na mão do sintetizador que aconteceu em Coming Up For Air, de 2015, foi irreversível e o violão, praticamente abandonado.

Os singles que antecederam o lançamento oficial já previam essa, duas vezes metafórica, virada de disco. Um exemplo é a “Follow Your Fire”, primeira faixa e, em todas as camadas, sintética, com direito a um refrão chiclete, autotune e agudos altíssimos e desnecessários — coisa que o Maroon 5 já muito fez no universo pop. Aliás, “Born Again” parece ter sido ‘altamente inspirada’ em “Animals”, sucesso da banda de Adam Levine.

Com fórmulas que até a própria banda já abusou em outros trabalhos, a produção soa repetitiva, chata e mais do mesmo. Em “Hide And Seek”, por exemplo, o coro em “O” volta lá de “All I Want”, hit do único álbum interessante da banda, o debut In A Perfect World, de 2013. Cinco anos e mais um álbum esquecido depois, a única referência que temos do velho e bom Kodaline em 2018 é “Angel”, mais lenta e com vocal mais limpo, feita para um fã que morreu em uma turnê do grupo.

De acordo com o vocalista Steve Garrigan, a produção tinha que ser “grande ou nada”. E essa aposta incluiu a arriscada “Head Held High”, que tem sonoridade feliz e positiva e uma batida marcada com violão que destoa do restante da produção, lembrando como “Love Like This” funcionou no debut da banda. A pseudo acapella “I Wouldn’t Be” também se destaca no material, desta vez como uma grata surpresa, com vozes, piano, gaita de fole e uma vibração arrepiante. Finalmente, aqui, as vozes em conjunto não pareceram clichê, mas sim parte de uma nova ideia.

Em suma, Politics Of Living, depois de seu antecessor Coming Up For Air, foi mais um passo em direção à sinteticidade e batidas pop. Se desse para resumir em uma metáfora, poderia-se dizer que o álbum mais parece um aqueles remixes eletrônicos estilo house que os DJs colocam nas festas para ativar memória afetiva do público. A única coisa que ainda salva o Kodaline são os belos clipes, que continuam incríveis.

OUÇA: “Angel” e “I Wouldn’t Be”

The Sea and Cake – Any Day


A eterna busca pela novidade sempre trouxe transformações imprevisíveis na música, principalmente no indie. Surpreendentemente, podemos dizer que há, sim, artistas do nicho que nunca perderam sua essência. É o caso dos americanos The Sea and Cake. Desde 1994, a banda produz trabalhos que, mesmo quando diferentes, colaboram a uma singularidade que poucos grupos conseguem atingir.

Depois de seis anos sem novidades, eles lançaram seu 11º álbum, Any Day, com as típicas 10 faixas da maioria de seus discos. Este é o primeiro trabalho a não contar com o baterista Eric Claridge, que deixou a banda após a turnê de Runner, de 2012. Baterista também do Tortoise, John McEntire assumiu a grande responsabilidade que são as baquetas do grupo, que sempre se destacou pela incrível sinergia entre melodia e percussão.

Mesmo nesta área de risco, o trio tomou as rédeas e voltou a produzir composições com sua sonoridade e textura inconfundíveis, traduzidas em um trabalho consistente e com boas experimentações. Logo na primeira faixa, “Cover The Montain”, Sam Prekop não deixa espaço para introdução e estreia seu vocal angelical nos primeiros segundos de uma batida rápida e melodia aveludada.

Para quem gosta da vibe sinestésica característica das melhores composições da história da banda, pode deitar, fechar os olhos e se deixar levar pela faixa-título “Any Day”, com suas nuances românticas e o típico ritmo com bases jazz. Também com a intenção de flutuar e deslizar pelo ambiente, “Paper Window” cumpre esse papel com a ajuda de um delicado solo de flauta e sua tendência instrumental.

A ondulação de ritmos rápidos, como em “I Should Care”, “Starling” e “Day Moon”, para melodias mais melancólicas, como em “Occurs” e “Into Rain”, criam um contexto de diversas expressões. As oportunidades de imersão estão em qualquer uma das novas composições, assim como em seus trabalhos anteriores. Any Day funciona mesmo para qualquer dia, para todo mundo, com qualquer humor, em qualquer situação. É maleável, fácil e prazeroso de ouvir.

Ficou claro, mais uma vez, que o objetivo do The Sea and Cake é traduzir sentimentos genuínos, livres e, por vezes, inesperados. Com versos como ‘I feel it, don’t notice, all of a sudden the visions are going by‘, a valsinha “These Falling Arms” pode confirmar essa teoria ao encerrar um dos trabalhos mais sofisticados e belos do grupo de Chicago.

OUÇA: “Any Day”, “Paper Window” e “These Falling Arms”.

SOFI TUKKER – Treehouse


I don’t give a fuck about they. A frase que introduz o primeiro álbum de estúdio da dupla norte-americana SOFI TUKKER não parece ter sido uma escolha aleatória. Ao longo das 10 faixas – a maioria, é verdade, já lançada fora da produção –, o público é convidado a reviver o espírito da infância e a explodir em um espaço amigável, sem regras e sem julgamentos. Este é, inclusive, o grande argumento que Sophie Hawley-Weid e Tucker Halpern defendem em entrevistas sobre Treehouse, sucessor do EP Soft Animals.

Com a receita perfeita para atiçar a curiosidade, não apenas, mas principalmente dos brasileiros – por conta das letras em português do Brasil –, o duo alcançou a fama internacional após o lançamento de “Drinkee”, um dos grandes hits atuais da música eletrônica. Este, inclusive, foi reconhecido na indústria com uma indicação ao Grammy de Melhor Gravação de Dance em 2017. Um ano e outros singles de sucesso depois, os nova iorquinos decidiram aumentar o repertório e entrar em estúdio.

Se por um lado é verdade que há pouca novidade, já que a maioria das músicas são bem conhecidas do público, por outro o que há de novo amplia a esfera criativa no trabalho dos americanos, sem perder a unidade e referência. A inédita “Benadryl”, por exemplo, mostra o lado mais melódico e dramático de Sofi Tukker, que, ao longo da breve carreira, não explorou tanto esse lado mais introspectivo nas composições.

Um dos trabalhos antigos do duo e baseada em poemas de Paulo Leminski, “Johny” é a faixa que anuncia uma série de sonoridades mais celestiais, por vezes tensas, e com batidas menos comprometidas do álbum – caso de “The Dare” e “Baby I’m A Queen”. Essa sequência não tem a proposta mais divertida do contexto e, por isso, pode causar estranhamento, afinal, faltam efeitos over nos vocais, gritos histéricos ou diálogos – elementos que estão presentes na maioria das músicas lançadas pelo dupla até hoje.

Como poucos artistas de música eletrônica pop, SOFI TUKKER mantém sua proposta de refrescar o segmento. E esse trabalho é admirável não apenas porque é diferente, mas também pelos instrumentos inusitados, letra e poesia brasileira e diálogos imprevisíveis. Toda essa criatividade deu espaço para mais um ápice de sucesso para a dupla com o hit “Best Friend”, outra faixa antiga, e que encerra o disco, feita em parceria com NERVO, The Knocks & Alisa Ueno.

Se sua ideia é transcender, se libertar, celebrar a infância, se empoderar, ocupar um espaço de libertação ou todas as anteriores, Treehouse definitivamente é o melhor álbum que você pode ouvir agora. A troca de energia – nome, inclusive, da segunda faixa do disco – é garantida na casa da árvore dos nova iorquinos.

OUÇA: “Fuck They”, “Energia” e “Best Friend”.

Geowulf – Great Big Blue


Os milhares de players nas músicas e videoclipes da então misteriosa dupla Geowulf indicavam um público curioso para saber mais sobre esses australianos que possuíam apenas um EP, chamado Relapse. Demorou, mas Stark Kendrick e Toma Banjanin conseguiram lançar seu primeiro álbum de estúdio, mesmo com as dificuldades que implicavam as mudanças geográficas da vocalista. Kendrick conseguiu algum tempo entre suas viagens de Londres para Austrália, Berlim e Suécia para finalizar o tão esperado Great Big Blue com Banjanin.

O resultado não fugiu muito da proposta que já se ouvia nos antigos singles, como “Saltwater” e “Get You”, os grandes hits entre as novas faixas. Enquanto os antigos sucessos são mais adocicados e energéticos, as novas composições trazem um pouco mais de peso e melancolia, mas sem perder a fórmula pop sintética original. No caso do duo, a receita consiste em explorar refrões repetitivos e abusar de reverbe nos vocais, o que confunde os coros com o instrumental.

As faixas mais criativas, que dão um respiro em toda essa repetição, ficam por conta de “Drink Too Much”, comandada por uma linha de baixo, e a de encerramento “Work In Progress”, que traz melodias em xilofone e vocais mais elaborados. Mas, em suma, é muito difícil ouvir o álbum todo sem enjoar das músicas que parecem apenas variação da primeira faixa, “Sunday”, elementar para praticamente todas as composições seguintes.

Talvez o que faltou para nascer um trabalho mais criativo tenha sido realmente a falta de sinergia resultante da distância geográfica da dupla, que mais pareceu se preocupar para lançar logo um álbum antes que seus singles caíssem no esquecimento. No fim, fica a impressão que todo o charme que Great Big Blue possui com sua aura sintética, praiana e nostálgica é apenas um ponto esticado entre 11 faixas, de forma insistente e insuficiente.

OUÇA: “Saltwater”, “Drink Too Much” e “Work In Progress”

Julien Baker – Turn Out The Lights


“Talvez tudo ficará bem. E eu sei que não vai, mas eu preciso acreditar que vai”. Esta foi uma das primeiras frases que o público pôde ouvir do novo álbum de Julien Baker. Em “Appointments”, primeiro single de Turn Out The Lights, as palavras criam uma construção existencial de fácil identificação – o que era, na época de seu lançamento, um sinal de que o segundo álbum de estúdio da norte-americana de Tennessee viria com ainda mais peso do que o debut Sprained Ankle, de 2015.

Com composição integralmente autoral, o novo trabalho da cantora e guitarrista vem com o selo da Matador Records, responsável por grandes clássicos do universo indie, e carrega discussões densas que rodeiam não apenas relacionamentos interpessoais, mas também a dor, sofrimento, morte e Deus. Por isso, inevitavelmente, Baker esbarrou na temática do suicídio em “Claws In Your Back”, em que rotula o ato como “a saída fácil e a parte mais difícil”.

Ainda com a sua poderosa e, ao mesmo tempo, doce voz, a cantora deixou para trás as músicas que davam muito mais destaque para os vocais, combinados com riffs ou bases bem marcadas, e trouxe composições mais complexas. Logo na canção de introdução, “Over”, Baker deixa claro que, ao contrário de seu álbum anterior, Turn Out The Lights é um trabalho que traz muito piano, inclusive órgão.

Somado a novidades como linhas dramáticas de violino, guitarra plugada e coros de múltiplos vocais, o novo álbum de Baker é, com certeza, passível de estranhamento para o público que gostava justamente do minimalismo de suas composições. Em “Hurt Less”, por exemplo, chegamos ao momento em que uma voz masculina acompanha a cantora, fazendo parte do coro que narra um acidente de carro.

Com o emocional ligado na última frequência, Baker mostra em Turn Out The Lights que a sua voz, guitarra, piano e violão, principalmente quando isolados, não são mais suficientes para expressar suas piores angústias. A parte boa de toda essa mudança, tormentas e demônios é ter o prazer de ouvir músicas que extravasam a dor e que te fazem se sentir compreendido. Afinal, às vezes podemos achar que estamos sozinhos, mas todo mundo já quis apagar as luzes, nem que por alguns breves minutos.

OUÇA: “Appointments”, “Sour Breath”, “Turn Out The Lights” e “Hurt Less”.

Alvvays – Antisocialites


Três anos foi o suficiente para a banda canadense Alvvays guardar e drenar uma energia que tornaria seu novo álbum, Antisocialites, ainda melhor que seu debut autointitulado. Ao longo das 10 faixas de seu novo trabalho, é possível sentir flertes com novas sonoridades que foram além de seu jangle dream pop característico para criar composições criativas e com mais peso, sem abandonar seu lado intenso e emocional.

“In Undertow” foi o primeiro single que o grupo de Toronto escolheu, incluindo um videoclipe lúdico que faz jus sinestésico ao seu estilo, feito para uma faixa que é uma das mais fortes e bonitas do lançamento. Uma das características das novas músicas é a velocidade – meio punk, meio garage-rock – que aparece logo na terceira faixa, “Plimsoll Punks”, um som doce e agitado digno de ganhar espaço na trilha sonora de Clube dos Cinco (1985).

Mais um videoclipe chegou pouco depois, com “Dreams Tonite”, uma balada romântica e um vídeo ambientado nos anos 60, momento afetivo certo para uma banda que tem no jangle pop – sonoridade que torna o trabalho do quinteto canadense nostálgico e aveludado – sua maior referência. A expectativa dos trabalhos audiovisuais do grupo – que vão além do complemento, são parte fundamental do universo Alvvays – é sempre à espera desse casamento de som e imagem capaz de nos transmitir para uma realidade paralela.

As batidas mais rápidas reaparecem em “Your Type” e “Hey”, faixa com menos reverb e pura de Antisocialites. Uma clara referência da banda, que traz todo o ambiente shoegaze em sua sonoridade, é Jesus and Mary Chain, com quem Alvvays dividiu o palco este ano. Para retribuir a parceria com seus, aparentemente, ídolos, o grupo canadense homenageou o vocalista Jim Reid em “Lollipop (Ode to Jim)”.

Os falsetes ainda mais altos e intensos da vocalista Molly Rankin também são um ponto marcante do álbum. E essa voz alçando novas escalas complementa a ideia de que alguns limites claros da estreia da banda realmente foram ultrapassados em nome de não apenas uma nova experimentação, mas também de uma nova fase que permitiu e, provavelmente, permitirá combinações ainda mais interessantes que fomentam o universo do chamado indie pop.

OUÇA: “In Undertow”, “Dreams Tonite”, “Your Type” e “Lollipop (Ode to Jim)”