City and Colour – A Pill For Loneliness



O natural caminho que poderia ser percorrido por City and Colour após cinco álbuns de estúdio foi, após quatro anos de espera, concretizado com A Pill For Loneliness e suas 11 faixas regadas à melancolia de forma etérea, e não mais rústica como em 2005. Desde que plugou todos os instrumentos e começou a usar sintetizadores, este é o mais perto que Dallas Green chegou, até hoje, da maturidade sonora de seu projeto solo.

O sucessor de If I Should Go Before You, um álbum controverso, pop e com pouca referência a si mesmo, tem suas raízes mais fortes em trabalhos marcantes e atuais, como The Hurry And The Harm, de 2013, e Little Hell, de 2011. São detalhes que trazem à memória os dois melhores recentes trabalhos de Dallas Green: enquanto “Living In Lightning” traz a antiga base de violão com os solos de guitarra que intercalam notas no piano, “Young Lovers” tem a energia do hit de seis anos atrás, “The Lonely Life”.

Primeiro single, “Astronaut” não é a melhor tradução do que é APFL, talvez porque o próprio disco não seja uma unidade tão clara. Apesar da música de trabalho emanar uma aura celestial presente na maioria das faixas, ela ainda é uma das mais pops. “Mountain Of Madness” era, certamente, uma escolha que agradaria muito mais os fãs por remontar àquela tristeza profunda e desesperada que só ouvimos antes no indiscutível sucesso de “Two Coins”.

Outro destaque do álbum, a tímida e curta “Me And The Moonlight” tem uma harmonia tão bonita que é impossível não querer que a faixa se estenda por, pelo menos, o dobro do tempo. No entanto, é muito provável que esta seja, com sorte, só uma intro dos shows. Em contrapartida, “Lay Me Down” se torna o destoante e triste encerramento do álbum, composta quase toda apenas por piano, sintetizador e a voz desistente de Dallas Green, clamando o verso “lay me down, I’ve had enough”.

Talvez o grande erro de A Pill For Loneliness seja realmente algumas músicas com batidas muito pops e óbvias, feitas para vender hit em rádio, e algumas experimentações destoantes,  em meio a algumas das criações mais bonitas de todo o projeto City and Colour. Mesmo assim, Dallas Green conseguiu retomar um fôlego melancólico que seus fãs estavam tanto esperando.

OUÇA: “Astronaut”, “Me And The Moonlight” e “Mountain Of Madness”

Brittany Howard – Jaime



Dona de uma das vozes mais poderosas de sua geração, Brittany Howard deixou um pouco de lado a sua aclamada banda Alabama Shakes, além de Thunderbitch e Bermuda Triangle, para dar tempo e espaço para o seu primeiro álbum solo: Jaime. E a gente não poderia ficar mais agradecido, afinal, a americana cumpriu com maestria o que se propôs a fazer, como sempre.

Com faixas curtas, o debut parece mais uma única música com interlúdios que separam mensagens diferentes. Mas isso não quer dizer que se trata de uma obra monótona. Muito pelo contrário: temos sopros de paixão, raiva, gritos políticos, ternura e saltos enérgicos entrelaçados, sempre com o mesmo intuito de se conectar intensamente com o ouvinte.

Exemplo é a sequência “Georgia” e “Stay High”: do vigor poderoso de solos de guitarra distorcidos e o vocal de Howard que passa de sussurros para altas imposições, voltamos, sem perceber, para brandura em uma viagem delicada sonorizada, a princípio, pela dupla infalível na suavidade: violão e xilofone.

De falsetes a graves incríveis, Howard segura nossa mão em “Tomorrow”, mas solta sem medo de experimentar. Os descompassos minimamente calculados estão presentes em toda a obra, que traz, com sucesso, a força e identidade da cantora americana. História que está marcada inclusive no nome do álbum — Jaime é o nome de sua irmã mais nova, a primeira que a incentivou a escrever música, e que morreu aos 13 anos.

Ainda sobre sua família, Howard conta de forma literal como o seu pai sofreu um crime de ódio quando ela era apenas um bebê, em “Goat Head”. As emoções, os questionamentos e a transparência emocional da cantora continua em “Presence”, que traz a incrível frase “You make me feel so black and alive”.

O pico do álbum, no entanto, é o grito político em “13th Century Metal”, primeiro single e som visceral com frases de peso e mensagens afirmativas, como “I am dedicated to oppose those whose will is to divide us. And who are determined to keep us in the dark ages of fear”. Aqui, Howard esquece a melodia para afirmar, reafirmar, fazer valer a sua voz com força, e não com jeito.

Howard é, sem exagero, uma raridade do universo da música: ela transborda beleza não apenas de projetos maravilhosos, mas também em cada música que compõe, em cada falsete que engata, em cada grito contra a desigualdade. Quem é fã da, até então, vocalista do Alabama Shakes, tem muita sorte do ânimo e talento que a mesma tem de sobra.

OUÇA: “13th Century Metal”, “Georgia” e “Stay High”

Sebadoh – Act Surprised



Os anos 90 foram áureos para o que, hoje, chamamos de música alternativa. Numa gama de centenas de artistas, os subgêneros se recortaram cada vez mais, e hoje é impossível conhecer todos porque eles continuam se proliferando como gremlins. Mas um dos que mais ficaram conhecidos foi o lo-fi, que sempre soou ter sido gravado na garagem, com alto grau de espontaneidade, além de desafinações e microfonias que mais agradam do que atrapalham.

Não por acaso, o Sebadoh, um dos precursores do segmento junto ao Pavement e Guided By Voices, lançou seis álbuns na década, e apenas 14 anos depois eles se convenceram a gravar juntos novamente, o Defend Yourself, de 2013. Demorou, mas o sucessor pós-hiato chegou em 2019, com Act Surprised, ainda mais nostálgico que o anterior. Com sua característica sonoridade lo-fi, o álbum tem pinceladas de vários trabalhos anteriores da banda, incluindo Smash Your Head On The Punk Rock, de 1992, e The Sebadoh, de 1999.

Primeiro trabalho gravado com a Fire Records, responsável pelo memorável It’s A Shame About Ray de Lemonheads, de 1992, e outros clássicos de Teenage Fanclub e Built to Spill, o novo álbum do trio formado pelo também baixista do Dinosaur Jr Lou Barlow, ao lado do guitarrista Jason Loewenstein e do baterista Bob D’Amico, é um refresh na história do grupo, com faixas que vão do grunge, como em “Celebrate the Void”, ao indie anos 90, como em “Stunned”.

Em “Sunshine”, uma das músicas de trabalho, parece mais que estamos ouvindo a um ensaio do trio no estúdio, pela despreocupação sonora, tanto nos instrumentos, quanto na voz de Lou. E esta é a clássica fórmula de Sebadoh: soar livre e espontâneo ao cantar frases de auto sabotagem como “I need sunshine to ignore”. Funciona e faz muito sentido mesmo em faixas mais melódicas como “Medicate” e “Reykjavik”.

A energia do trio está presente em todas as músicas e faz com que Act Suprised seja um álbum completo, como uma unidade perfeita. Este é mais um trabalho que prova o poder de Sebadoh de não apenas se acostumar a estar em um furacão de referências da música alternativa, mas de ainda fazer músicas incrivelmente simples, furiosas e irregulares — e, mesmo assim, inovadoras, criativas e repletas de um coração pulsante.

OUÇA: “Stunned”, “Sunshine” e “Belief”

The Head and The Heart – Living Mirage



As primeiras produções de um artista ou de uma banda sempre estão em vantagem por dois motivos. Primeiro que não há base de comparação anterior, além de outros artistas. Segundo que, na maioria das vezes, existe uma autenticidade que raramente volta ao decorrer da carreira. E a perda da essência inicial do grupo norte-americano The Head And The Heart é, infelizmente, um ótimo exemplo desta teoria.

O que começou com um indie folk em 2009, com músicas contemplativas e doces, transformou-se, dez anos depois, em um som plástico, pop rock e repetitivo com o lançamento de Living Mirage. É estranho constatar que o grupo passou um tempo em um deserto da Califórnia para se concentrar apenas na produção de seu álbum mais pop e tão desconectado com o que um cenário natural e uma produção tão imersa poderia sugerir.

Para assinar definitivamente essa virada, a banda escolheu a chiclete “Missed Connection” para divulgar, pela primeira vez, o novo trabalho. No videoclipe, há cenas dos integrantes no deserto e, ao mesmo tempo, a música não conversa nem um pouco com atmosfera proposta. A medida que as imagens indicam uma intimidade dos músicos, grandes descobertas e boas nostalgias, a música super produzida está ao fundo mostrando que são apenas filtros, miragens e efeitos colocados propositalmente para vender uma fotografia do que a banda já foi.

Mas não dá pra enganar os ouvidos. Talvez para quem conheça a banda hoje em alguma loja de departamento ou no Uber, “See You Through My Eyes” e “Brenda” sejam músicas que trazem um bem-estar (que qualquer outro artista pop poderia trazer no momento). O problema é de quem já ouviu as simples, orgânicas e até imperfeitas primeiras gravações de THATH. Fica difícil acompanhar.

Uma das melhores músicas da banda, “Let’s Be Still” é incrível justamente pela dicotomia dispersão e encontro de vozes de Jonathan Russell e Charity Rose Thielen, que até murmura algumas vezes. Em Living Mirage, eles fizeram questão de criar quase uníssonos nos coros, deixando as vozes puras e perfeitas, como na faixa “People Need A Melody”, que parece uma versão masterizada do primeiro trabalho do grupo.

Fique claro que o problema não é a mudança sonora do grupo, mas sim a execução dessa virada. Na faixa “Honeybee”, por exemplo, é possível ver um caminho interessante que o restante do álbum poderia ter seguido, com uma atmosfera anos 80 e um pouco de desapego às repetitivas mensagens motivacionais, uma forte característica essencial da banda.

No entanto, é apenas neste momento que o grupo conseguiu cumprir o combinado de ter um novo começo, após três anos sem lançamentos, e agradar os ouvidos, de fato. Infelizmente, efeitos visuais nos videoclipes, capas nostálgicas e imersões no deserto não compram a autenticidade que um dia THATH já teve.

OUÇA: “People Need A Melody” e “Honeybee”

Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”

JAWS – The Ceiling



Segunda cidade mais habitada da Inglaterra e Reino Unido, depois de Londres, Birmingham é a terra do new wave de Duran Duran, do heavy metal do Black Sabbath e do mathcore de Blakfish — o que, numa análise rápida, podemos descrever como um local de diversidade sonora dentro do rock, experimental e alternativo. É neste cenário que nasceu, em 2012, a banda JAWS e o seu característico dream pop, que ficou conhecido em 2014 com o álbum Be Slowly e seu hit “Think Too Much, Feel Too Little”.

Dois anos depois, Simplicity trazia ainda mais referências a elementos pop e shoegazer ao mesmo tempo. Toda a ambientação e aura atmosférica foi produzida por Gethin Pearson, que acompanharia o trio, pelo menos, até o próximo álbum, o atual lançamento The Ceiling, de 2019. O trabalho sequencial mostrou que a sinergia entre grupo e produtor segue das melhores.

Terceiro álbum de estúdio de JAWS, esse novo complexo sonoro e lírico é explicado pelo vocalista como resultado da sensação de deslocamento frente às rápidas mudanças que acontecem ao nosso redor o tempo todo, seja com amigos, família ou relacionamentos. Isso fica claro logo em “Driving at Night”, com o vocal ora longe, ora próximo de Connor Schofield e a frase “but they’re alright, I don’t know where I’d rather be”.

As melodias mais adocicadas continuam com o seu espaço garantido e dentro da aura contemplativa das faixas. Mas, como a própria banda pontuou, The Ceiling é o trabalho com uma gama maior de diversidade musical. Em relação à experimentação sintética, “Fear” se destaca por ser uma música quase puramente eletrônica. Aqui, o vocal e os coros se resumem a mais um instrumento, e não a líder.

Completamente oposta a sua faixa anterior, “Feel”, um indie pop nublado que poderia muito bem estar nos trabalhos anteriores do trio, “Do You Remember?” foi o que eles acreditam ser a fusão de The Cure e Title Fight, segundo a sua leitura. O peso do som não impediu a letra de tratar do delicado tema de ansiedade social, auto sabotagem e comparação com outras pessoas.

Outra contraposição é feita na pesada “End of the World” frente a leveza da maioria das faixas. A mais longa do álbum é também a que mais leva o ouvinte a um lugar obscuro e, por isso, confunde The Ceiling como uma unidade. Mas o peso emocional imposto nas composições continua na criativa “Patience”, em sua bateria enérgica e sua mistura de ambientes eletrônicos com guitarras mais pesadas.

Duas canções lentas também diferenciam harmonicamente do álbum: “Looking / Passing” e “January” são donas de instrumentos raros na discografia do grupo. Enquanto a primeira se pinta com um piano de background, a segunda é quase acústica e incrementa outros instrumentos aos poucos, como uma construção sonora em que a voz de Schofield nunca esteve tão distante.

Enquanto a envolvente “Please Be Kind” é a romântica de toda a sequência com seu refrão “you are on my mind, so darling, please, be kind”, a que pode resumir toda a criatividade e diversidade da terceira aposta do trio britânico é justamente a faixa-título “The Ceiling”, um pedido quase desesperado ao fim de pensamentos claustrofóbicos, depressivos e ansiosos. Um clamor pela saúde mental.

Com a premissa de “just keep going, there’s no ceiling”, The Ceiling é a prova do crescimento e habilidade de JAWS na forma como coloca suas experimentações, temas abordados e sonoridades que são sua marca registrada, apesar do pouco tempo de estrada. No fundo, o trio segue o próprio conselho de seguir o que quer fazer, falando o que gostaria de falar, mesmo sem se sentir adequado.

OUÇA: “Driving At Night”, “Feel” e “The Ceiling”

Guided by Voices – Zeppelin Over China


Com 36 anos de existência, o Guided by Voices é uma banda que não tem clichê nenhum para apresentar, além de sua própria fórmula e o único integrante original, Robert Pollard. A veterana lançou 12 álbuns nos últimos 10 anos, mais do que a maioria de jovens grupos que têm esse tempo de carreira, apostam sempre no bom e velho indie lo-fi, sem alterar sua identidade, e possui um vocalista que até possui uma carreira solo, mas (quase) nunca abandonou o barco.

Em 2019, o vigésimo sexto filho dessa longa jornada, iniciada em 1987 com Devil Between My Toes, foi lançado. Um dos trabalhos mais longos do grupo, Zeppelin Over China tem 32 faixas curtas, incluindo interlúdios, e uma alta diversificação sonora dentro do universo GBV. Os 75 minutos de álbum funcionam como uma imersão aos momentos de composição e gravação do álbum.

Essa sensação de estar imerso no ambiente de produção não é novidade para os fãs. Isso acontece, principalmente, porque o som da banda de Ohio é fresco. As letras são escritas rapidamente e as gravações acontecem sem tempo para super produções. Isso é uma marca registrada de Pollard, que hoje, aos 61 anos, acumula mais de cem álbuns gravados e 1.600 composições entre carreira solo, GBV e projetos paralelos.

Um dos trabalhos que contribuíram para este número, Zeppelin Over China começa com as boas-vindas energéticas de “Good Morning Sir” passa por guitarras mais clássicas, como em “Step For The Wave”, e uma vibe britpop anos 90, como em “Carapace” e “The Rally Boys”. Entre a leveza de sempre, estão faixas mais pesadas, com pedais que sujam as guitarras, como em “Blurring the Contats”, “Holy Rhythm” e “Charmless Peters”, que pode, tranquilamente, te levar a “Motor Away”, de Alien Lanes, 1995.

O novo trabalho do grupo também salva um espaço para belas acústicas, como “Bellicose Starling” — que nos leva, imediatamente, a auto referências como “Hold On Hope”, de Do The Collapse, 1999  —,  e experimentações mais pop que podem ser ouvidas em faixas como “Jam Warsong”, “My Future in Barcelona” e “You Own The Night”, relembrando a boa época de clássicos como “Glad Girls”, de Isolation Drills, 2001.

O álbum, que parece muito menos pop e animado que muitas obras anteriores, certamente não é um daqueles que resume a obra da banda, até pelas inúmeras mudanças de integrantes durante os quase 40 anos de carreira. No entanto, a atual formação, que se estabeleceu em 2016, parece saber canalizar maravilhosamente o talento de Pollard para descrever emoções. Apesar que, aquele professor de Dayton que eventualmente tocava com sua banda de garagem, consegue, até hoje, se virar bem e criar obras incríveis, não importa com quem esteja.

OUÇA: “You Own The Night”, “Jam Warsong”, “Jack Tell” e “My Future In Barcelona”

Young the Giant – Mirror Master


A globalização e a indústria cultural podem democratizar a arte. Por outro lado, o efeito massificador cria artistas iguais, obras iguais, famas, sucessos, dinheiros iguais. Quando Jim Carrey desejou que todo mundo fosse rico e famoso, foi exatamente por esse motivo: não há nada de novo para fazer ou almejar se você não se despadroniza e sai de sua zona de conforto. Você só muda de prioridades, escolhe uma marca de tênis diferente e muda o destino das suas viagens.

É nesta fuga que Young the Giant pautou seu quarto álbum de estúdio, Mirror Master. Após um longo período obedecendo às demandas do mercado, e em busca de sua própria identidade, a banda entrou em um processo de criação puro, o mais longe possível das tendências norte-americanas do indie e, segundo o vocalista Sameer Gadhia, sobre sua história de imigrante na terra do Tio Sam.

Logo na primeira faixa, “Superposition”, os elementos indianos ficam claros. Cordas agudas, coros marcantes e leves e a letra sobre a química entre duas pessoas (ou universos?) levam ao ouvinte entender que o grupo está trabalhando para produzir novos clássicos e não pretende, necessariamente ou por obrigação, ter vínculo com o passado. Mesmo assim, aquela fórmula super manjada de “vamos viver o amor, o futuro nos espera” reencontra a banda em “Simplify”, que poderia ter sido vendida para o Coldplay.

Enquanto os elementos mais eletrônicos aparecem em “Call Me Back”, as guitarras mais abertas e harmonias mais energéticas são bem-vindas em “Heat Of The Summer”, “Brother’s Keeper” e “Oblivion”, destaque da obra. Mas as composições que mais falam sobre o álbum em si são “Glory” — que, segundo Gadhia, é uma música discreta e vulnerável que afronta tudo o que os artistas fazem há tempos para vender — e  “Tightrope” — que questiona justamente uma identidade e existência.

Mirror Master encerra com sua música homônima e que também resume a obra. Com refrão que começa com a frase “você é mestre do espelho”, Gadhia explica do que se tratam todas as 12 faixas: autoconhecimento é essencial para você também conhecer e até mudar a realidade ao seu redor. A certeza que fica, até agora, é que Mirror Master é essencial para mudar o Young The Giant e a sua realidade.

OUÇA: “Superposition”, “Heat Of The Summer” e “Oblivion”

You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Hippo Campus – Bambi


O que acontece quando você se desprende de qualquer obrigação com o passado e se concentra nas suas vontades do presente? O novo álbum do Hippo Campus, Bambi, é, de certa forma, a resposta certa em todos os níveis e nuances. Das letras que encaram a excessiva preocupação com tempos incontroláveis – passado e futuro – até o processo de composição melódica, dramática e atual.

Essa foi justamente a proposta do produtor BJ Burton, que também assina discos de Bon Iver, Low e Francis and the Lights: no início do processo, ele fez a banda escolher entre compor mais um “disco do Hippo Campus” ou se abrir enquanto músicos para novas tendências e influências. A escolha por viver o presente foi em unânime empolgação.

Antes do lançamento, enquanto o vocalista Jake Luppen publicava alguns spoilers em seu Twitter com as novas letras e possíveis mudanças na sonoridade, o grupo testou o público com a primeira música de trabalho, “Bambi”, e um videoclipe cheio de conceito. Segundo a própria banda, o single foi a última composição escrita para o álbum, feita para resumir sua temática: a luta pela saúde mental e o quanto isso, muitas vezes, cansa e altera seu humor, amizades e relacionamentos.

Estamos no presente, com traumas do passado e medo do futuro. Esse papo é familiar para você? Sim, o disco é um abraço a todos ansiosos, aquele que mostra que você não está sozinho nessa. A introdutória “Mistakes” já prepara os ouvidos e a emoção com um sintetizador e coro bem etéreo. A faixa, que inicialmente não encaixava em nenhuma parte e acabou como a perfeita introdução, carrega uma letra que não deixa por menos ao citar uma possível culpa cristã em não conseguir ser bom o tempo todo para todo mundo.

Para deixar ainda mais claro o assunto aqui tratado, Anxious dá continuação com um piano clássico de background, guitarra desplugada e sintetizadores animados. A dinâmica se mistura entre a entrada explosiva da bateria e versos sobre ansiedade social. Ela foi escrita pelo baixista Zach Sutton, que estreou nas letras do grupo com rascunhos do passado para mostrar como ainda se sente no presente. Esse sentimento é natural e faz parte de um crescimento ou tem mais coisa escondida aí?

Mais enérgica, “Doubt” é o paradoxo entre o que era o Hippo Campus e o que agora é com as suas novas influências, já que se contrapõe sozinha com versos mais felizes e mornos, até um refrão mais dramático, que remonta à sua essência. Ela questiona o que sempre queremos saber antes da hora: como saber se é amor ou não é? Segundo a banda, foi a primeira música de sua história feita baseada em um solo de teclado.

Já a “Why Even Try” não apenas volta, mas mergulha de cabeça às raízes com leveza e vocal baixinho. Escrita pelo guitarrista Nathan Stocker, ela narra uma amizade fracassada e o ciclo natural dos sentimentos. A mesma relação serviu de inspiração para a faixa “Bubbles”, com som mais moderno e estouro de guitarra no refrão, que lembra, vagamente, os nova iorquinos do Dirty Projectors.

Enquanto o álbum propõe que está tudo bem sentir o que for, desde que você se permita sentir, “Think It Over” vem tranquila para avisar que não é preciso, necessariamente, fazer algo a partir dos mesmos sentimentos. Sente-se, pense, use seu tempo a seu favor, assim como fez Luppen ao criar esta música inteiramente em um DAW, também pela primeira vez.

A sequência das últimas três faixas é um bom momento para lembrar as pessoas que ainda há humanos por trás da música. Enquanto “Honestly”, mais uma volta ao velho Hippo Campus, é a “mais metalinguística impossível” ao deixar o erro de gravação no começo, “Golden” – densa, cheia de elementos, pop e leve – tem uma série de perguntas dentro do longo relacionamento de Luppen e sua namorada. O contraponto chega dramático com a última música, Passenger, lenta, groove e com acordes complexos.

Muitos elementos são constantes em Bambi. Apesar de falar de um velho problema, o álbum se mantém atual por conta de todas as “primeiras vezes” da banda. A primeira vez de se desprender do passado, a primeira vez de compor inicialmente em sintetizadores e, principalmente, a primeira vez de falar sobre aceitar a ansiedade tal como ela é e aparece.

E já que o principal problema é não saber lidar com os tempos incontroláveis, nada melhor que fazer um ode ao presente, aos problemas contemporâneos, às novas sonoridades. Nada mais atual do que aceitar o inevitável. Nada mais inevitável, pelo menos para o grupo de Minnesota, de se propor a ser atual. Nada melhor do que ser o novo, e não o velho, Hippo Campus.

OUÇA: “Bambi”, “Bubbles”, “Golden” e “Passenger”