The Smashing Pumpkins – Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.


Essa é a história de um nome uma vez irretocável, mas que se erode e vai aos poucos se transformando em poeira.

Há muito tempo ninguém sabe ao certo reconhecer o que é e como aquele Smashing Pumpkins virou este Smashing Pumpkins. Categoricamente, não há nenhum exagero em afirmar que já faz 20 anos desde a última vez que a banda lançou algum material poderoso. Adore (1998) é onde o Smashing Pumpkins encontra seu limite de sanidade, após ciclos de controvérsia interna, ataques de pânico, disputas (unilaterais) de ego e overdoses; a maquinaria geniosa de William Patrick Corgan (como ele demanda ser chamado atualmente) precisou arrefecer, ou um cataclisma de consequências irreparáveis poderia ter sido o destino da banda. Com três integrantes a menos, o nome Smashing Pumpkins vira sinônimo de  William Patrick ‘Billy’ Corgan. Nesse sentido, é como se a banda fosse uma van, conduzida por um gênio, ou um lunático, que vai de nenhum lugar a lugar nenhum; esporadicamente essa van fez paradas, mudou de passageiros, mas ao final, se perdeu em rotas circulares. E acredito que o condutor também se sinta assim, ou seria uma coincidência este disco ter em seu nome “No Past. No Future”?

O anúncio da volta da “escalação” original do SP soou como a volta de Atlantis para todos, para usar uma figura oceânica – mundo sobre o qual William parece ser bastante aficionado. Era, enfim, o retorno. A ideia da reformulação do quarteto fantástico, no entanto, se despedaçou em mil fragmentos quando Corgan comunicou ao mundo que D’arcy não voltaria a banda. Tragicamente, o único elemento que o Smashing Pumpkins conseguiu reviver de seus anos dourados foi a polêmica, revelando feridas profundas, nunca de fato curadas. E claro. Mais se ouviu falar do disse-me-disse de Corgan, do que se festejou a volta de Iha e de Chamberlin como grandes músicos que são, sugerindo que a história se repetiria como farsa.

É o que acabou acontecendo. Shiny Oh So Bright, Vol.1 / LP: No Past. No Future. No Sun é uma volta frustrada, atrapalhada e pouco inspirada. Assim sendo, vale mais a pena recapitularmos a trajetória da banda e entender como chega este projeto em 2018, do que focar no dia presente. O décimo primeiro álbum da discografia do nome Smashing Pumpkins (mais um nome, do que uma banda) continua a ser o reflexo de uma casca vazia, cada dia mais fraturada, e que, se não salva da inércia, pode se despedaçar por completo ao fim dessa coletânea. O disco contém menos de 35 minutos de duração, dedicados a exposição de oito canções completamente esquecíveis. Músicas que tentam ser grandiosas, condizentes com versos do tipo “We’re gonna ride that rainbow”, mas que não produzem nenhuma impressão ao ouvinte. É apático no melhor dos cenários; a surpresa só surge mesmo no exercício da comparação: como esses são os mesmos criadores de Mellon Collie (1995) e Siamese Dream (1993)? Mesmo que seja apenas 75% da figura original, essa versão do Smashing Pumpkins é, enfim, um zumbi. E por assim o ser, não possui memória, ou passado, e tampouco aparenta ter futuro.

OUÇA: Nenhuma.

Empress Of – Us


O pop como conhecíamos há seis, sete anos atrás não existe mais. É correto dizer que a música atual perdeu alguns decibéis, de maneira que as batidas estridentes, o uso imoderado de sintetizadores e vozeirões épicos – enfim, tudo que contribua para aquela sensação de paredão sonoro – perderam espaço. E muito. De lá para cá, bastiãs (no feminino mesmo, afinal falamos de Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, Kesha, Christina Aguilera, Rihanna e outras mais) dessa sonoridade extremamente marcada do início dos anos 2010s optaram por seguir outros caminhos musicais, algumas até se afastaram da indústria musical. A lacuna é uma tragédia para uns, mas uma oportunidade Grande (rs) para outros que anseiam tomar a liderança de um novo ciclo musical. Um ciclo que já põe em prática uma repaginação do R&B dos anos 90s, aliado ao trap e ao reggaeton – as duas tendências dominantes do mercado -. Um pouco mais de um, um pouco mais do outro, às vezes uma mistura dos três, essas são as variantes postas em prática atualmente e as quais estamos nos habituando a ouvir nas rádios e demais espaços. Nesse conjunto estão as estreantes badaladas SZA, Kelela, Kali Uchis e a já queridinha de todos,  e ponta de lança da nova safra, Ariana Grande. Se essa resenha fosse escrita há três anos atrás, o nome Empress Of (Lorely Rodriguez) estaria incluído nesse grupo promissor; hoje, temos um ponto de interrogação.

Lorely Rodriguez empaca em Us (2018), seu segundo álbum e objeto de análise dessa resenha. Empaca, pois não consegue trabalhar com a mesma inventividade que conseguira em seu debut extremamente bem conceituado, Me (2015). É interessante notar que Lorely, inclusive, tenha contribuído para armar o terreno atual a partir da sua estreia, tamanha a impressão que tal possuiu à época. O disco apresentava uma coerência interna muito bem definida (muitos o reverenciavam como um trabalho conceitual, inclusive), aliado a uma crueza lírica e sonora impossível de enjoar. É exatamente o oposto nesse segundo disco: são 10 faixas, das quais as 4 iniciais são completamente esquecíveis. Puxa esse  bloco, a segunda faixa “Just The Same” – que é, de fato, apenas o mesmo – pois se vale de um instrumental “reggaetonesco”- dance hall e com algum quê de Chainsmokers & Kygo. Pouco empolgante para dizer o mínimo. Para aqueles que possuem uma forma sinestésica de ouvir, tentem imaginar a música que toca no fundo daqueles takes de lugares paradisíacos, de gente surfando, ou de festas de gente muito rica em qualquer lugar hiper-gentrificado do mundo em um programa de rotas de viagem cara na GNT. É essa faixa. E “Love Me” é um bis para os mais aficionados nessa vibe, já que há gosto para tudo nesse mundo.

O panorama se modifica significativamente com “I Don’t Even Smoke Weed”,  o ponto forte do disco, e que abre uma segunda metade cambaleante, mas de maior qualidade. Os elementos aqui trabalhados são completamente diferentes daqueles demonstrados inicialmente: a música é dinâmica, colorida, a letra divertida e a voz de Lorely cai muito bem com os arranjos. Embora recaia com “Timberlands”, “I’ve Got Love” e “When I’m With Him” são bons destaques também dessa segunda metade, que é praticamente um novo disco, o qual gostaria de ouvir mais. Nessas músicas, a produção é bem mais arriscada e diversa. Menos formulaica. A balada “Again” termina o álbum e não causa qualquer emoção, porque também peca pelo convencional, embora seja a única música produzida em um formato mais etéreo. No geral, o álbum é inconsistente, turbulento e de impressões pouco claras. Sob o ponto de vista lírico, não há muito para ser agregado, embora a cantora tenha afirmado em entrevista que o álbum é um pedido por ajuda, por aproximação, amor e coletividade. Parece que não apenas por ela, mas pelo mundo. Um apelo à la We Are The World. Como reflexo, é como se a pessoalidade imputada com grande competência em Me tenha sofrido um grave corte orçamentário. Sob o argumento do pragmatismo, de uma mensagem positiva para unir as pessoas, Lorely peca pela falta. Há espaços vagos, incompletos e pouco significantes, que tornam a obra fraca.

Por fim, Lorely cai em um limbo de relevância, onde atualmente está Alessia Cara, por exemplo. Uma vez creditadas a ascender e liderar um pelotão de frente da música, o sinal amarelo é aceso. No caso de Lorely, o problema tem muito mais a ver com as escolhas de efetivo pessoal (produtores, escritores, etc.) e temáticas, por assim dizer, do que das suas próprias limitações; vale ressaltar que, nesse quesito, enquanto o primeiro álbum é autoproduzido totalmente, o segundo conta com um pelotão envolvido,  cujas pessoas envolvidas trabalharam com diferentes tipos de artistas (indo do Kanye West ao The xx). E, bem, escolhas são risco e sorte. Mas para provar essa tese aqui proposta, a artista precisa demonstrar que pretende retomar domínio sobre seus próprios caminhos, ou a percepção de que o resultado de Us tenha sido mais responsabilidade de outros do que dela pode se turvar. De todo modo, esperamos que Lorely Rodriguez tenha mais sorte na próxima vez.

OUÇA: “I Don’t Even Smoke Weed”, “When I’m With Him” e “I’ve Got Love”.

Oneohtrix Point Never – Age Of


Os meandros da arte são inconstantes, desconhecidos, ora acalentadores, ora agressivos. Esses adjetivos parecem muito bem colocados quando nos referimos ao mundo lúdico das narrativas fantásticas, isto é, quando deparamos com aventuras de príncipes prometidos entremeio reinos de escuridão. Mas o que música e a fantasia literária tem a ver? Tudo. E ouse convencer Daniel Lopatin, o nome por detrás do projeto eletrônico-experimental Oneohtrix Point Never, do contrário. Sua extensa discografia, já composta de dez assinaturas, comprova que Daniel é um obstinado mago em busca de uma chamada música abstrata, o seu reino procurado. Age Of (2018) é o novo capítulo dessa saga. E dessa vez Daniel parece trilhar veredas mais ensolaradas, uma assunção bastante óbvia dado o denso, apocalíptico, mas genial antecessor Garden Delete (2015).

Age Of aparenta ser um disco de cisões. Há a incorporação de colaboradores mais pop-friendly e uma presença mais contundente da voz humana como um instrumento de incursão, agora tão importante quanto o clavecino (é de coisas como essas que estamos falando quando nos referimos ao portfólio do OPN) e dos incontáveis sintetizadores. Mas ainda assim, de algum modo, a opção de trazer estruturas mais assimiláveis em suas músicas não propõe previsibilidade alguma. E nesse sentido, também é possível falar em quebras. Se há uma linearidade na obra toda, essa certamente é o caos. Os pedaços do álbum são dotados de rebeldias particulares, inconciliáveis ao todo, traduzidas por sons dissonantes, reverberações de objetos no espaço e demais sensações que atuam no limite de escape da compreensão. Um bom exemplo disto é faixa We´ll Take It. Como experiência, o disco parece em nenhum momento permitir que o ouvinte se anteponha, ou presuma com alguma assertividade o que vai acontecer; desta forma, paradoxalmente a escolha de uma estética mais “concreta”, ONP promove confusão generalizada. Esse é o mundo mágico abstrato arquitetado e imaginado por Lopatin.

ONP vaga, porém simultaneamente não vaga sem rumo. A faixa myriad.industries, a mais curta do álbum, é um acrônimo de My Record = Internet Addiction Disorder, o que aliado a declarações do próprio artista sobre o tema (mesmo satiricamente) indica que a abstração em Age Of tem cores de uma distopia, uma possível crítica a forma como a música é consumida nos dias de hoje, ou de uma maneira mais genérica, critica a forma como se vive. Se tomarmos esse enfoque, a ansiedade projetada pelo disco para o ouvinte é parelha, talvez, aquela suscitada por esse modo de vida “aprisionador”.  Se é de fato essa a intenção, poucos são os elementos visíveis dentro da obra que levam a alguma conclusão. Daí o fascínio e desagrado da abstração procurada pelo Oneohtrix em Age Of.

De todo modo, Daniel Lopatin traz uma obra desafiadora, mas menos densa e um pouco menos completa que aquela representada pelo disco anterior. A fragmentação entre treze faixas e falta de coerência entre as mesmas frente a um conceito não muito bem estipulado acaba tornando alguns dos estímulos criados pelo álbum pouco significativos. É difícil entender o que se pode assimilar pessoalmente a partir de Age Of, mas o seu grande mérito passa pela sua capacidade de, a partir de seu escutar, dissolução do real. Completada a travessia para os domínios do disco, o que nos deparamos lá talvez seja a o arquétipo do processo criativo de Daniel, ou uma releitura sobre o problema do vício da internet. Tudo parece muito mais impressão, como encerra a faixa Last Known Picture Of A Song (o ponto alto do disco). Ao final, dado o jeito fantasioso, Age Of não se trata do que é, mas sim o que pode ser.

OUÇA: “Last Known Picture Of A Song” e “We’ll Take It”

Superorganism – Superorganism


“Quê?” Pronto. Aí está sua primeira provável reação ao debut self-titled do Superorganism. Não coincidentemente, essa também foi, com boas chances, a sua primeira reação quando achou pelos cantos do YouTube os epiléticos videoclipes de “Reflections on The Screen”, “Something for your M.I.N.D”, “Everybody Wants To Be Famous” e das mais antigas (o que são seis meses na internet, não é mesmo?) “It’s All Good” e “Nobody Cares”.  O famoso “quê”, despido de toda sua nuance ontológica, torna a aparecer escrito com letras cada vez mais garrafais conforme adentramos no processo de conhecimento da banda.

Uma banda como a Superorganism soa como trombetas do apocalipse millenial. Todo aspecto referente a composição da banda está vestido com as cores, formas e discursos da atual famosa – e controversa – geração. Superorganism acerta tão em cheio em seu público alvo, que provavelmente até aquela pessoa que construiu seu perfil musical no início dos anos 2010’s se sentirá desconfortável, ou invariavelmente velho ao escutá-lo. Nada de errado tem com os novos velhinhos da nossa década, muito menos com os personagens desse artigo.  Toda estranheza associada ao primeiro contato com a banda decorre de um trabalho que, conceitualmente, flerta com megalomanias em distintas qualidades (estética, som, letras, etc.).  O resultado é complexo como um superorganismo o é. Mas toda pompa dessa suposta complexidade escorre por água baixo no som deliciosamente despretensioso da banda. Para todos os efeitos, é bom advertir que níveis obscenos de pop estão presentes na obra, logo, escute sem qualquer moderação.

O projeto contém dez faixas, dentre as quais, cinco não são exatamente uma novidade para os ouvintes mais atentos ao mundo internetês/da garotada (sorry, not sorry).  É o caso da abertura “It’s All Good” e das outras quatro citadas no primeiro parágrafo. Sabendo que 50% do disco ganha alguma produção audiovisual,  uma outra característica da banda é evidenciada: seu nítido apelo imagético.  E, obviamente, nada parece combinar melhor com o esforço conceitual da banda do que memes, a suprema linguagem universal. Na verdade, Superorganism por si só parece ser um grande meme flutuante. Em suas incursões criativas, o grupo brinca com seus ouvintes em inúmeras oportunidades. Por exemplo, seria a vocalista, Orono Noguchi, um holograma? Ao assistir “Everybody Wants To Be Famous” assumimos que sim, embora essa inferência possa também ter um valor mais geral.  Parece crível que Orono tenha de fato  sua origem no reino da Internet sem que exista em carne e osso.  Há um grandioso poder camaleônico da jovem, capaz de misturar-se entre o real e o virtual, ordenar pretensiosa ou aleatoriamente camadas de múltiplas referências pop no objetivo de construir a presença do grupo nas telas dos aparelhos por aí.

Apesar de uma presença quase etérea no mundo concreto do Superorganism, as letras que acompanham a estreia do grupo estão diretamente relacionadas a tópicos comuns da vida de um adolescente real de 17 anos. Mais ou menos a idade média de Orono e seus outros sete companheiros de banda.  Um outro ponto interessante é que a banda dispõe de membros de quatro nacionalidades diferentes que, pelos mecanismos do mundo moderno, conversavam pelo Skype, trocavam e-mails com produções rudimentares e acabaram por formar essa criatura pulsante.

Extremamente jovem e globalizada,  a banda esbanja internacionalismos. Em “Something For Your M.I.N.D” há frases em francês, inglês, o refrão tem sublinhas em coreano. Em outras palavras, é a torre de Babel bíblica repaginada por uma adolescente em menos de três minutos.  Aqui, a voz mais falada do que cantada de Orono traz uma história de desilusão amorosa, baseada na criação de um estereótipo sobre ela pelo seu par.  Em “It’s All Good”, na faixa de abertura, Superorganism traz um retrato sutil, mas feroz de um mal dito contemporâneo: a depressão (“Good morning Orono, you are awake/ the weather today is dark/ Would you like to get up? Or perhaps, do nothing, nothing/ It is an easy one”).  Daqui em diante, é curioso notar que todas as canções estão carregadas com mensagens amargas e de cunho bastante pessimista, seja na esfera pessoal, seja no posicionamento quanto à problemas de ordem sociopolítica. Mirando em um apelo social, vê-se uma agoniante indiferença descrita em “The Prown Song” (“Oh, have you ever woke up from a daydream/ And realized that the world’s gone crazy?/ You people are all the same going blah blah blah, going bang bang bang”), sendo esta um dos grandes destaques do álbum.

De toda maneira, a atmosfera mais pesada sugerida pelas letras é completamente anulada pela produção brincalhona da banda. Rara é a faixa que não se vale de sons prosaicos, mas exóticos: usa-se a mordida de uma maçã, o abrir de uma lata de refrigerante, uma caixa registradora, o cantarolar de pássaros, o barulho da chuva, vozes robotizadas, etc. O Superorganism abusa desses recursos com uma inventividade pouco vista no cenário atual, mas que tem certos paralelos nos trabalhos de bandas como The Go! Team, Glass Animals e The Avalanches.  As canções são extremamente fáceis de ouvir, são curtas também, configurando ao álbum  aproximadamente trinta minutos de duração. Assim como nos vídeos, as faixas possuem vários elementos em que vale apena prestar atenção. Se sozinho o tom vocal de Orono nada impressiona, acrescentado ao conjunto dos samples criativos, efeitos diversos, synths dissonantes, riffs suaves, a avaliação passa a ser outra.  O resultado, enfim, é um caos deliciosamente posto e assertivamente dosado entre as faixas;  recomendado para os dias em que se entreter com divertimentos na cabeça é o remédio ideal para evitar entrar em parafusos obscuros.

A estreia do Superorganism competirá com toda certeza como um dos melhores debuts de 2018, e quem sabe até entre nas principais listas de melhores álbuns do ano. Espere ouvi-los nas baladas e nos festivais. Eles são o Superorganism.  São em oito e estão se multiplicando.  Eles se tornaram conscientes.

OUÇA: “Everybody Wants To Be Famous”, “Reflections On The Screen” e “The Prawn Song”.

BØRNS – Blue Madonna


Com o lançamento de Born To Die (2012), Lana Del Rey se tornou a guardiã e guia de um mundo enfeitiçado, onde os dias são quentes, vertiginosos e as noites que escorrem paixões erráticas mas que desaguam quase sempre em melancolia.  A voz em suspiros da cantora confessa aventuras de uma terra de sempre verão,  a parte ensolarada e empoeirada do sonho americano, a costa oeste. O sucesso chegou. Lana realizou  uma série de recortes para seu projeto e para a sua persona, trouxe do Lo-Fi insurgente da época apenas a estética para seus clipes, samples esquecidos, batidas do R&B,  mas nada disfarça o resultado final: um disco assumidamente pop. Lana fervia, enfim, e seu delírio abriu precedentes  para queridos, ou consideravelmente odiados, do público. Seja o The Neighbourhood, seja o The 1975, a criação de personas parece ainda ditar a tônica de parte do mundo da música que faz muita questão de falar sobre amor, principalmente, sob sua faceta mais rebelde.  BØRNS leva esse esforço a um outro patamar.

Blue Madonna é um título bem sugestivo e indica bem a direção que o jovem Garrett Clark rascunhou para seu segundo disco.  O pop e a vibe oitentista acompanham todo o trabalho.  Foi nos anos 80 e com o pop que Madonna encontrou a sua consagração. Lidando com tais elementos, BØRNS consegue no máximo estacionar em seu próprio esforço criativo.

Recheado por composições que remetem, imageticamente, a cenários idílicos iluminados à luz do sol ou no neon dos bares de saguões de hotel, expondo ilusões e desilusões, BØRNS escreve o disco à beira de uma piscina (Blue Madonna down by the pool / Just want to make her like a virgin). A semelhança estética com a sua mentora – Lana Del Rey – é resultado não apenas de uma admiração mútua já declarada, mas também de uma amizade na vida real. O reflexo dessa boa relação aparece no single principal do trabalho e faixa de abertura do álbum, “God Save Our Young Blood“, e na faixa-título Blue Madonna. Ambas com participação de Lana. Entretanto, a colaboração pouco torna as faixas mais distintivas no projeto. Pelo contrário, basta o decorrer de dois minutos para tornar-se difícil não se fatigar com o andamento pegajoso de ambas as músicas. Em “Faded Heart“, BØRNS impõe um ritmo mais acelerado, um lampejo do indie-pop mais eufórico do debut Dopamine, mas a faixa não induz nenhum grande entusiasmo ainda assim. O resto da obra passa, num geral, alternando entre espasmos enérgicos e momentos mais etéreos, sugeridos pelos arranjos suaves de sintetizadores, guitarras ali e acolá, e a sussurrada, doce voz do jovem cantor.  Nesses momentos BØRNS tem seus momentos mais sublimes, sendo a faixa “I Don’t Want U Back” o maior destaque do disco.

Não. Não se trata de um disco ruim. O disco não proporciona nenhum desafeto claro a experiência do ouvinte, é bem produzido e traz algumas boas faixas que levam o ouvinte aonde BØRNS provavelmente objetivava: junto com ele, à beira de uma piscina, sonhando acordado sobre paixões perdidas. Apesar de parecer conceitualmente sedutor, o disco não empolga, pois é escasso em inventividade. É de se reconhecer que a fórmula pop+1980s já está um tanto quanto desbotada, e utilizá-la sem cair em lugares comuns tem se mostrado, e será cada vez mais, um grande desafio a ser superado (feito competentemente executado pelo Tame Impala em Currents (2015), por exemplo). Pecando pela previsibilidade, a persona tentativamente misteriosa e charmosa de BØRNS perde boa parte do seu encanto. Teria o verão terminado?

OUÇA: “I Don’t Want U Back”, “Iceberg” e “Bye Bye Darling”.