Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Local Natives – Violet Street



Há dez anos, o quinteto de Los Angeles conhecido como Local Natives lançava seu debut, Gorilla Manor, e, a partir desta data, estabelecer-se-ia como um nome importante na constituição da cena indie-pop-rock. Gosto de mesóclise da mesma forma que a banda estadunidense gosta de experimentar em seus álbuns. A priori, talvez a sonoridade de Violet Streetassemelhe-se ao que a banda vinha fazendo ao longos da última década, mas os sutis detalhes nos arranjos tornam seu som mais complexo e estruturado. Explicar-lhe-ei.

A faixa de abertura, “Vogue”, apresenta uma organização instrumental característica de músicas introdutórias: uma cacofonia melódica e sublime que quase deixa escapar um spoiler de todo o liricismo que está por vir. Segundo o guitarrista Ryan Hahn, em entrevista para a Consequence of Sound, “[…] even before the violins, we knew we wanted the song to be about the human desire to feel a connection to god or a spiritual world.”. De modo geral, o processo criativo do disco baseia-se na tentativa de organizar o caótico em busca de um certo senso estético, e Vogue faz isso com primazia ao organizar frases aleatórias com uma instrumentalização que teve influência direta de Sara Nuefield, violinista que toca na maior e melhor banda de todos os tempos, conhecida como Arcade Fire. Esse último trecho é de responsabilidade minha.

A transição da primeira para a segunda faixa merecia um parágrafo por si só. É isso que se espera de uma transição. É isso o esperado após o término da faixa introdutória. “When Am I Gonna Lose You” é uma quase obra prima – por motivos que serão retomados posteriormente. A sinfonia característica dos nativos locais faz com que o ouvinte sinta-se familiarizado com o que está ouvindo, quase como um sentimento nostálgico, ao passo que percebe o ineditismo experimental da nova faixa. De acordo com o baixista Taylor Rice: “ […] this song is me diving into murky emotions of anxiety and doubt in the middle of love and joy.”. Os dois primeiros versos sintetizam todo o sentimento de ansiedade e pânico perante os bons momentos – o que, paradoxalmente, pode estragá-los: “Wait, when am I gonna lose you? / How will I let you slip through?”

Essa sensibilidade lírica se faz presente em todo o trabalho. Em “Megaton Mile”cuja melodia saltitante é de natureza oposta ao tema sobre o qual o eu-lírico discorre: a sensação de desamparado em um contexto quase apocalíptico enquanto o baixo soa como instrumento de destaque faz com que essa faixa seja uma das melhores do álbum, de fato. Em “Shy”, por outro lado, existe uma preocupação genuína em trabalhar o conceito da masculinidade tóxica. Com influências musicais de Fleetwood Mac: Shy / What would you gave me say? / God, it’s a perfect save / It took me thirty years and now I feel right / How did we get this way?

Todavia, nem tudo são flores. Em diversos momentos, mesmo nas faixas citadas anteriormente neste texto, a tentativa de experimentação acabou extrapolando alguns pressupostos básicos que acompanharam a trajetória do quinteto nesses dez anos. Um deles, por exemplo, é não parecer com o Maroon 5. Em diversos momentos, mesmo em “When Am I Gonna Lose You” o padrão de batidas característico é substituído por uma dançante balada tosca. Em “Shy”, existe uma introdução de batidas que não funciona direito e em alguns instantes “Megaton Mile” se parece com Ed Sheeran, o que não parece ser algo bom em qualquer contexto.

Ainda assim, me parecem ossos do ofício. Levando em consideração que Local Natives não é uma banda em início de carreira, é louvável a atitude de se propor aos experimentos e conjecturas em seu quarto álbum de estúdio. Não decepcionaram os fãs saudosistas ao mesmo tempo em que conseguiram manter toda a essência do trabalho que desenvolveram ao longo desses anos, ainda que de forma inovadora.

OUÇA: “When Am I Gonna Lose You”, “Megaton Mile” e “Shy”

Swervedriver – Future Ruins


Há cinco anos, a banda Swervedriver anunciava seu retorno após um período de hiato de cerca de dezessete anos, contribuindo, muito antes de virar moda – e talvez dando o pontapé inicial – para um movimento repentino de retomada e renovação do gênero shoegaze em que bandas proeminentes e pioneiras como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Ride e Slowdive participaram de forma sublime. O álbum I Wasn’t Born To Lose You deixou evidente a capacidade do quarteto de Oxford de retomar sua arte de onde pararam: os riffs etéreos, os vocais nebulosos e as distorções de guitarra criam sempre uma harmoniosa atmosfera característica do som que sempre fizeram. Agora, a bola da vez é o disco Future Ruins, lançado este ano, o que me faz parar para pensar: por que os caras continuam fazendo exatamente o mesmo som que faziam há vinte e cinco anos?

Não me entenda errado, eu adorei o álbum. “The Lonely Crowd Fades In The Air” é simplesmente fantástica, uma das minhas tracks favoritas desse ano até o momento. De modo geral, mesmo reproduzindo fórmulas, o quarteto sabe o que faz: explorando do que parece ser uma inextinguível fonte de combinações diferentes dos mesmos riffs, vocais, letras e, pasmem, criando novas e boas músicas. Quando dei play e ouvi a primeira faixa, me odiei por estar curtindo-a. Digo, a impressão foi de que já havia a escutado muitas vezes antes, mas um quê de ineditismo toma conta de suas percepções e, quando se dá conta, está balançando a cabeça de forma cadenciada.

Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”deixa evidente toda a concomitância dos integrantes, quase deixando de tocar seus instrumentos de forma individual, mas, de outra maneira, concordando uns com os outros tais qual uma engrenagem, um organismo. Mesmo que praticamente seja um som instrumental, a sensação é de que estamos conversando com Adam Franklin, que influenciado pelo mundo em degradação ao seu redor e talvez pelo potencial impacto de futuro, escreveu músicas que capturam tal clima e ao mesmo tempo oferecem uma luz no fim do túnel em uma espécie de viagem nostálgica. Vale muito a pena.

Encerrando, há “Radio Silent”, faixa que sintetize o gênero shoegaze – embora, sejamos sinceros, o Swervedriver nunca realmente pôde ser definido como tal. Sincera, etérea e característica quase como uma canção de ninar, o compasso faz com que o disco encerre como um bom filme: você não vê os créditos passando, mas precisa de algum tempo para voltar à realidade. Um ouvinte familiarizado com o som da banda não se surpreenderá. Não há riscos, novas tentativas ou algo que saia do que pode ser considerado o catálogo do quarteto inglês. Isso, por outro lado, de maneira alguma significa que a decepção é certa, mas, ao contrário, aparece quase como um manifesto de existência do grupo. Para fãs saudosistas, um prato cheio, embora, convenhamos, seria interessante ver o Swervedriver saindo da zona de conforto e arriscando em algumas direções.

OUÇA: “Mary Chain”, “Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”, “The Lonely Crowd Fades In The Air” e “Drone Lover”

Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

Nas – Nasir


“I feel like I’m 18 years old again when I’m making beats for Nas”, tuitou Kanye West cerca de dois meses antes do lançamento oficial de Nasir, décimo segundo álbum de estúdio daquele que demonstrou potencial para ser um dos melhores rappers de todos os tempos ao entregar seu debut, Illmatic – que, deixando de lado critérios subjetivos inerentes a discussões como essa, é possivelmente o melhor álbum de rap já feito (e não sou eu quem afirma, google it). Essa perspectiva, porém, mostrou-se não factível com o passar dos anos. Nas, entretanto, não tinha responsabilidade nenhuma quanto a isso: talvez a expectativa dos fãs tenha sido a principal responsável por álbuns como Nastradamus ou Hip Hop Is Dead serem não tão bem vistos em relação a seus trabalhos mais aclamados.

Após quatro anos desde seu último lançamento, Nas nos entrega seu novo disco, Nasir, produzido por Kanye West e contendo apenas sete faixas, totalizando modestos vinte e seis minutos de audição. Resgatando algumas tendências líricas de Illmatic e Stillmatic ao deixar de lado temas concernentes ao gangsta rap, Nas conduz o ouvinte por reflexões sociais conscientes a respeito do racismo estrutural e genocídio da população negra, além de contemplações filosóficas sobre a natureza da humanidade e suas interpretações religiosas.

Em “Cop Shot The Kid”, por exemplo, Nas pauta duras criticas à violência policial contra a juventude negra, como nos trechos ‘Yeah, it’s hotter than July / It’s the summer when niggas die‘ ou, em outro momento, com ‘Get scared, you panic, you’re goin’ down / The disadvantages of the brown‘, só para citar algumas das muitas passagens permeadas de significado durante a faixa. Irônico, entretanto, é perceber a paradoxal performance de Kanye West como produtor e featuring do álbum – e especialmente dessa canção -, ao passo que apoia abertamente o presidente estadunidense Donald Trump.

E, por falar em ironia, Nas deixa completamente de lado as acusações de violência doméstica que recebeu de sua ex-esposa Kelis. Na verdade, fez pior que isso, como é possível constatar no trecho ‘When the media slings mud / we use it to build huts‘ presente na faixa “Everything”. Como se não bastasse, ainda na mesma música, o rapper dedica quase um verso inteiro divagando acerca de paranoias conspiracionistas antivacina, tema que já apareceu na faixa “What Goes Around”: ‘Doctors injectin’ our infants with poison‘.

A despeito de conter criticas e reflexões pertinentes, Nasir é um trabalho confuso. Ainda que se leve em consideração a separação do artista de sua obra – o que por si só já é discutível –, é importante pautar que essa é uma linha tênue quando falamos em rap e em todo o movimento hip hop. De pouco adianta a melhor produção e batidas quando a negligência em trabalhar temas importantes como violência doméstica e políticas de imigração, por exemplo, são latentes no background de Nas e Kanye West. Isso, de certa forma, tira todo o brilhantismo técnico do disco, tal como quando um filme não consegue estabelecer a suspensão de descrença necessária para a imersão do telespectador na história.

OUÇA: “Cop Shot The Kid”, “Everything” e “Adam And Eve”.

Mayday Parade – Sunnyland


É sempre bastante interessante escrever sobre pop-punk. Na maioria das vezes, as bandas entregam trabalhos muito semelhantes, desde a simples harmonia instrumental até o tema das músicas: deixar a cidade natal, desilusões adolescentes e amizades tóxicas são os pilares líricos sobre os quais o gênero se estrutura – o que não é sinônimo de pouca qualidade, vide bandas como Neck Deep e State Champs. Aliás, curioso notar a confusão que parte do senso comum cria em torno desse conceito, confundindo-o com outro que pouca coisa tem de parecido: o emocore. Bandas como Yellowcard, Paramore, My Chemical Romance e Panic! At the Disco não são bandas emo, mas aproximam-se muito mais do pop-punk (para bandas inscritas no emocore, procure por Cap’n Jazz, Brand New, Fresno e Rites of Spring).

Mayday Parade, por sua vez, iniciou sua trajetória na música vendendo EPs no estacionamento da Warped Tour, um festival de música centrado em subgêneros derivados do hardcore. Esse ano, a última e maior edição do evento, a banda tem vaga garantida e, dessa vez, no palco principal. Seu último disco, que marca a transição do selo Fearless para a Rise Records, merece sua atenção. Ao contrário de álbuns predecessores que não passam de clichês – trabalhos genéricos concentrando tudo o que há de mais recorrente no gênero – como Anywhere But Here e Monsters In The Closet, Sunnyland aparece como uma obra concisa, retomando referências dos clássicos A Lesson In Romantics e Mayday Parade – assinaturas da banda.

Quebrando o ciclo de entregar bons álbuns intercalados com álbuns descartáveis, Mayday faz com que nos sintamos escutando ao seu primeiro trabalho. De fato, não me surpreenderia se o primeiro vocalista, Jason Lancaster, aparecesse em um verso. Ainda assim, é importante ressaltar que Sunnyland não é simplesmente uma releitura de seu disco de estreia, mas tem identidade própria, quase experimental. “Piece Of Your Heart”, por exemplo, não é apenas uma das melhores faixas do álbum, mas de toda a discografia da banda. “Is Nowhere”, por sua vez, mostra toda a competência do vocalista Derek Sanders. Por fim, a faixa “Sunnyland” fecha o álbum como uma contemplativa balada acústica – aspecto que a banda explorou dessa vez como nunca antes, vide “Take My Breath Away”, “Where You Are” e “Always Leaving”.

De todo modo, é difícil fazer música atualmente. Mais difícil ainda se você fizer parte de uma banda de pop-punk ou qualquer outro gênero derivado do hardcore. Aqueles que escutavam Brand New ou La Dispute há dez anos, provavelmente escutam Kendrick Lamar e Frank Ocean atualmente. Isso se deve há milhares de fatores. Entre eles, o fato de que bandas como Counterparts ou Touché Amoré ainda fazem o mesmo tipo de som – maravilhoso, verdade seja dita -, ao passo que o apelo de gêneros como rap e indie são muito maiores. O pop-punk e seus primos tornaram-se subgêneros de nicho. Se você frequenta shows dessas bandas, sabe que encontra sempre as mesmas pessoas. Diante desse contexto, Mayday Parade teve de resgatar aquilo que faz com que sejam bons ao passo que arriscam-se como músicos para criar novas composições em um esforço para consolidar sua identidade. Se conseguiram ou não, é outra história e outro texto. Fato é que os meninos da Flórida sabem o que estão fazendo. Coloque seu all star e aproveite.

OUÇA: “Piece Of Your Heart”, “Is Nowhere” e “Sunnyland”

Dr. Dog – Critical Equation


Há dois anos, Dr. Dog lançava o disco surpresa The Psychedelic Swamp. Um ano depois, veio Abandoned Mansion. Agora, temos Critical Equation. Essa breve tradição de soltar um álbum anualmente pode parecer preocupante numa análise superficial – ora, não seria a pressa inimiga da perfeição? Fato é que o quinteto americano parece não se importar com inovações ou em sair de sua zona de conforto. Salvo por dégradés em floreios psicodélicos e influências countries variando de um trabalho ao outro, as músicas dos três últimos álbuns poderiam ser todas misturadas sem perda da identidade de cada trabalho. Apesar de ser bastante perceptível a falta de um encadeamento conceitual estruturante em cada disco – que mais parecem mixtapes -, as melodias são sempre bem definidas e cativantes e as letras funcionam muito bem no aparato instrumental.

Não obstante, nem só de termos técnicos sobrevive uma banda. O primeiro single liberado foi também a primeira faixa do disco, “Listening In”. Minimalista, a melodia fornece o pilar para o eu-lírico expor toda sua indiferença perante fatores externos (animals, dead in the night, eletric lights). Apesar de escutá-los conversar, não se sente contemplado. O mesmo não acontece com seus demônios internos: ‘I can hear the fear in me talking / And it’s talking ‘bout me’. “Buzzing In The Light” aparece como uma das melhores faixas do disco, particularmente. Modesta, as letras são simples e a melodia – com fortes influências dos Beatles e uma pitada de Cornershop -, é melancólica, mas alegre. “Virginia Please”, por sua vez, com certeza entra na lista das melhores composições da banda. Aqui, o eu-lírico tenta retomar relações com Virgínia (o estado americano ou uma pessoa?), mesmo que o preço seja alto: ‘Baby, look, why ain’t you calling me? / I’ll give it up and you can have all of me’.

É importante destacar o trabalho de McMicken (e Toby Leaman) nos vocais. Durante todo o disco, há sobreposições, variações de tons e notas, falsetes e diversos outros aparatos que enriquecem a experiência do ouvinte e qualidade do álbum. Ainda que, retomando, não existam inovações técnicas e tudo não passe de uma reorganização do que já fizeram antes, os veteranos do Dr. Dog entregam boas músicas e não decepcionam. Preguiçosos, talvez, mas sair da zona de conforto pode causar certo mau estar na comunidade de fãs, especialmente por parte daqueles mais saudosistas. No caso de Dr. Dog, são raros aqueles que dizem gostar apenas dos antigos álbuns. Ainda que os primeiros conservem uma pegada mais acústica, são todos muito parecidos, afinal.

OUÇA: “Listening In”, “Buzzing In The Light”, “Virginia Please”, “Heart Killer” e “Coming Out Of The Darkness”

Lebanon Hanover – Let Them Be Alien


Cá estamos. É um prazer escrever sobre Lebanon Hanover. Há alguns meses, um amigo me apresentou a banda She Past Away e, desde então, resgatei meu eu fã de Joy Division e enveredei mais uma vez pelos caminhos do post-punk e darkwave. Dentre as diversas bandas que atingiram-me os tímpanos, devo dizer que Lebanon Hanover conquistou seu lugar ao sol em minha playlist. Devorei a discografia da dupla europeia em pouquíssimo tempo e não preciso dizer que fiquei extremamente ansioso com o anuncio do lançamento previsto para abril deste ano, o álbum Let Them Be Alien.

A última vez que o duo deu as caras foi há dois anos com o single “Babes Of The 80s”, cuja versão original ficou um tanto ofuscada pelo remix de Tobias Bernstrup – um tanto destoante do som que a banda costuma fazer, do ponto de vista técnico. Agora, Larissa Iceglass e William Maybelline embarcam mais uma vez em uma jornada de inquietação e desânimo em seu quinto álbum de estúdio. Prova da influência de Lebanon Hanover na onda atual do gênero pode ser verificada ao constatar que, em um mês, foram vendidas todas as mil cópias disponíveis do disco em vinil somente na pré-venda e em plena era do streaming – isso tudo antes de ser disponibilizado sequer o primeiro single, “Alien”.

Em uma primeira audição, o ouvinte desatento pode inferir que a música permanece em um continuo mais do mesmo. Não poderia estar mais enganado. Tecnicamente, é verdade que os vocais permanecem graves e sombrios, o baixo se mantém repetitivo e o teclado com fortes influências industriais. O contexto lírico, porém, muda completamente o cenário e estética da coisa. Dessa vez, o álbum trata de temas que tangenciam principalmente a inquietação social, a alienação e a miséria de viver em um mundo decadente. Ainda que nenhuma dessas asserções sejam necessariamente inéditas, é claramente perceptível a mudança de ênfase em relação aos trabalhos anteriores.

A primeira música, “Alien”, consegue sintetizar todo o álbum e sua filosofia em apenas cinco minutos, como o episódio piloto de uma série que promete ser bastante promissora. Partindo do conceito exposto no título e aliado à uma atmosfera instrumental inebriante e concomitantemente contagiosa, o eu lírico deixa evidente toda uma condição de alienação em relação ao resto da sociedade ‘and until then my desolation / will be my trademark / Iʼll always remain alien‘.

Em “Kiss Me Until My Lips Fall Off”, particularmente presente entre as minhas favoritas de toda a discografia, o duo mistura requintes de romantismo ao cotidiano obscuro e inerente a condição humana nos versos ‘I’ve tried everything to block out the pain / But it just seems to haunt me / In every possible way / Kiss me until my lips fall off / Kiss me until I start to rot’.

Encerrando com “Petals”, há uma ressignificação do conceito de escuridão – aqui, abarcando todo o espectro designado por ‘darkness’- , agora não mais como incerteza, tristeza ou pesar e sofrimento, mas, ao contrário, como terra natal, o único lugar confortável para aqueles que são alienígenas sociais e julgam-se a sós ‘deathly are my day / alone in my chamber / absent is joy when you’re not around / the dark has never been so dark / without you my sweetheart’.

Em linhas gerais, pode-se dizer que a música de Lebanon Hanover personifica e dá forma ao estado de espírito que caracteriza o gênero. Os riffs elegantes mesclados aos sintetizadores e graves profundos da dupla designam uma atmosfera intimista ao mesmo tempo que conversam com milhares de pessoas, uma de cada vez. As letras incorporam as insatisfações e ensejos daqueles que não sentem-se contemplados na vida em sociedade. Let Them Be Alien carrega tudo isso e muito mais em um registro ímpar de um som que todos que apreciam boa música fariam bem em dar uma chance.

OUÇA: “Alien”, “Kiss Me Until My Lips Fall Off”, “Petals” e “My Favorite Black Cat”

The Voidz – Virtue


Eu não acredito que estou gostando tanto de um álbum do The Voidz. Esse foi o primeiro pensamento deste que vos fala ao ouvir, pela primeira vez, o novo trabalho de Julian e companhia, Virtue. Quando me questionaram sobre a escolha que resultaria nesse texto, respondi que o tinha feito para falar mal. Acontece. Fato é que você deve dar o braço a torcer para Casablancas. Talvez não por sua performance como frontman e diretor criativo do Strokes ou mesmo por seus trabalhos solo – estes últimos, convenhamos, passam longe do melhor momento do rapaz. Mas tal reconhecimento provém, em grande parte, de sua invejável habilidade de literalmente não dar a foda para qualquer opinião que não a sua própria.

A razão da existência do The Voidz parece ser justamente provar esse ponto, ainda que de forma indireta: no fim das contas, o cara faz o que quer. Em janeiro deste ano, o sexteto americano liberou o single “Leave It In My Dreams” e, em menos de um dia depois, foi lançada o que seria a segunda faixa do álbum, “Qyurryus”. Mais três singles foram soltos até o lançamento oficial de Virtue, em Março. O primeiro poderia facilmente se passar por uma música do Strokes, desde a letra até o arranjo e harmonia dos instrumentos. “Leave It In My Dreams” larga todo aquele traço experimental insuportável de Tyranny e aposta em riffs sutis e letras contemplativas como ‘Searching for me in a combination of love, don’t overthink it‘. A despeito de não nos fazer torcer o rosto, não apresenta nada novo: mais do mesmo, mas com outro nome.

Agora, eu queria falar um pouco sobre a segunda faixa. Pare de ler este texto e vá ouvir, depois volte aqui.

Não sei você, leitor e ouvinte, mas eu não tenho a mínima ideia do que Julian tentava fazer – ou dizer, especificamente nesse som – e não sei se esse resultado era o objetivo ou se tudo deu incrivelmente errado. Fato é que não consigo parar de escutar. Esse texto poderia ser todo apenas sobre a segunda faixa. “Qyurruys” traz algo curioso – perdoe o trocadilho – divertido e experimental ao mesmo tempo. Tenho consciência de que falar dessa forma do Voidz – que tem um debut horrível e ao vivo é ainda pior – despertará desconfiança naqueles que ouviram os trabalhos prévios. E, sinceramente, talvez você discorde de mim com todas as forças, mas Virtue simplesmente não acontece para todo mundo – diria até que o público é bem especifico. Se você for esse público, por outro lado, sentir-se-á contemplado.

Não pretendo dizer, como alguns fãs o fazem, que a música é complexa e que o frontman é um gênio à frente de seu tempo – até porque essa faixa, especificamente, é uma espécie de ode oitentista – mas que, para certas pessoas, a despeito de todo o esforço para digerir a banda, a coisa não funciona. E tudo bem, na verdade. Porém, abençoados aqueles que conseguem perceber a influencia 808s & Heartbreak nos trechos finais permeados de autotunes, a melhor coisa que o The Voidz já fez. Public is confused.

“Pointlessness”, terceiro single e última faixa, é uma mistura de grande parte do arcabouço técnico que Casablancas adquiriu em sua carreira: uma mescla de influencias de Comedown Machine e First Impressions Of Earth. É um som extasiado e absorto em suas divagações: ‘I think I’m wasted, but I’m ready‘. “Pyramid Of Bones”, por sua vez, é exatamente o que sempre foi esperado do The Voidz: ‘…the guy from the 11th dimension‘ confortável em seu processo criativo e suportado por músicos competentes e versados. E, a despeito de toda essa divagação sobre Virtue, Casablancas e The Voidz, nos resta indagar até que ponto uma recepção positiva é proveniente do sucesso alcançado pelo trabalho com o The Strokes.

Será que esse mesmo álbum lançado por uma banda desconhecida teria o mesmo buzz por parte dos fãs de Julian? O quão bom é o The Voidz? Talvez o frontman esteja ainda surfando no sucesso de Is This It e Room On Fire. Acredito que não, mas essa é uma discussão paralela em que a resposta não cabe neste texto.

Descrito como um futuristic prison-jazz – seja lá o que isso signifique (não é futurístico e nem jazz) – os americanos do Voidz entregam, genuinamente, algo que deveria soar como uma bagunça feita por várias bandas diferentes que compartilham o mesmo vocalista, mas que, de alguma forma, repercute de maneira ordenada. Já diria o eu-lírico: hot track, hot dress, undressing this hot mess.

OUÇA: “Pointlessness”, “Qyurryus”, “All Wordz Are Made Up” e “Leave It In My Dreams”

Slaves – Beautiful Death


Jonny Craig faz sempre o mesmo arquétipo de música. O trabalho junto ao Slaves difere em pouca coisa com o som que costumava fazer em sua passagem pelas bandas Emarosa e Dance Gavin Dance. Aliás, mais que isso: se todas as músicas dos três álbuns de seu grupo atual fossem embaralhadas, seria tarefa quase impossível organizá-las novamente em suas respectivas obras. Dito isso, é claro que o atual lançamento do trio californiano Slaves, Beautiful Death, constitui mais do mesmo: apenas mais uma reorganização de todas as ferramentas musicais que o grupo dispunha.

O álbum foi anunciado em agosto do ano passado e sua trajetória foi extremamente conturbada, marcada especialmente por problemas de saúde do frontman até controversas com o selo. Após ter seu lançamento adiado diversas vezes, finalmente o trabalho foi liberado em fevereiro deste ano. É difícil responder se a espera valeu a pena. Essencialmente, o post-hardcore aparece como uma vertente difícil de se reinventar. As fórmulas e protótipos bem-sucedidos são usufruídos sempre até a exaustão e não seria prudente dizer que isso constitui preguiça por parte dos artistas ou se, de fato, o gênero já deu o que tinha que dar. Apesar de incluir elementos provenientes do emo e até do metalcore, Slaves não entrega nada que já não tenha sido feito outros zilhões de vezes por bandas como Blessthefall, Emarosa, Escape the Fate e Silverstein, só para citar algumas proeminentes.

O ouvinte que parar por alguns instantes e prestar atenção às letras com certeza se mostrará incrédulo ao constatar que foram escritas por um homem de trinta anos. A primeira faixa, “I’d Rather See Your Star Explode”, empolgaria uma criança de doze anos: ‘I know you’ll write me off, I know you’re always gonna cut me out, you think I’m always gonna let you down. Just wait.‘. Em seguida, o eu-lírico demonstra toda a obviedade possível em “Patience Is The Virtue” ao constatar que cometeu erros e paciência é a chave para retomar o caminho e manter o foco no objetivo – seja lá o que isso signifique. Daí para frente é ladeira abaixo, culminando com a faixa final “The Pact”, em que Craig reflete sobre os erros e demônios do passado (de novo.)

A despeito de tais constatações desanimadores, vá lá, há sempre algo que possa ser aproveitado. Produzido por Erik Ron (Panic! at the Disco, Set it Off e Hands Like Houses) os vocais limpos e rasgados são excepcionais – característica que Craig sempre cultivou em sua trajetória pela música -, e os riffs de guitarra são cativantes, ainda que quase sempre limitados. A capa do álbum e os clipes também estão bem bonitos – ainda que Jonny esteja se esforçando para parecer com o biólogo brasileiro Richard Rasmussen. Nesse aspecto, ao menos, tem encontrado sucesso.

Beautiful Death é o melhor que Slaves entregou até o momento. Não seria um álbum ruim no início do século, quando o post-hardcore se estruturava da forma que conhecemos. Esse preceito, porém, foi passado para trás em tantos sentidos que nos parece, aos ouvintes, quase obsceno apostar novamente em tal modelo. Talvez a banda tenha realmente cavado sua própria cova para uma morte não tão bonita, com o perdão do trocadilho.

OUÇA: “I’d Rather See Your Star Explode”, “The Pact”, “Patience Is The Virtue”