BANKS – III



Jillian Rose Banks, conhecida como Banks, lançou seu terceiro álbum III, sucessor de The Altar (2016) e Goddess (2014), o novo registro possui treze faixas e conta com a colaboração de Bj Burton, Buddy Ross, Hudson Mohawke e Francis and The Lights. Em linhas gerais, o registro caminha pelo R&B, Trap e o Pop, evidenciando a transição de Banks, o seu processo de amadurecimento/crescimento e a vontade de explorar – e de arriscar – outros caminhos musicais.

De acordo com Banks, o registro é uma janela que nos permite acessar partes distantes dela e pede para que mergulhemos profundamente em suas músicas. Além disso, a sequência das faixas se encaixa profundamente nesse processo de acesso e mergulho – e Banks alega que sequenciou da forma que ela gostaria de ouvir. Se o objetivo do álbum é mostrar toda a maturidade musical e a profundidade de Banks, podemos dizer que ela não falhou e fez de uma forma bastante genuína.

Através da audição do registro, Banks realmente consegue nos envolver através dos sentimentos expostos presentes em cada faixa, isto é, ela nos puxa para esse mergulho e nos mostra que existem questões em comum, nos conectando em cada momento desse processo. E ao nos guiar durante o mergulho em III, Banks nos permite cantar, dançar, rir, chorar, sensualizar, entre outras reações e ela realmente esperava por isso, ou seja, ela espera aproximar pessoas e fazer com que elas se sintam compreendidas nesse processo. Afinal, música é troca, é conexão e Banks fez isso de um jeito bastante sensível.

Falando em sensibilidade, Banks vivenciou altos e baixos e isso influenciou na construção da narrativa do registro, ou seja, a forma de variar e explorar as sonoridades – seja com piano, sintetizador, vocais, camadas e afins – presentes a cada faixa, bem como os temas explorados – relações, amor, partidas, negação, entrega, dependência – nos mostram o quanto III é sensorial e sensível. Banks mergulhou em seus sentimentos, experimentou outros caminhos e nos trouxe III: um registro que reflete o seu próprio amadurecimento frente às próprias fragilidades e nos convida para esse mergulho profundo em cada parte desse processo íntimo. Enfim, Banks recomendou que mergulhemos profundamente nesse registro e reforço esse pedido.

OUÇA: “Gimme”, “Contaminated”, “Stroke”, “Hawaiian Mazes” e “What About Love”

Billie Eilish – WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?

Precisamos falar sobre Billie Eilish.

Em uma simples e rápida “navegada” pelas redes, nos deparamos facilmente com o nome Billie Eilish. Vemos comentários elogiando o seu trabalho, vídeos contando um pouco mais sobre Billie e vemos alguns comentários trazendo o questionamento: quem é Billie Eilish? Essas reações podem ser justificadas pelo crescimento meteórico da jovem de 17 anos que vem atraindo a atenção musicalmente, visualmente, esteticamente, ou seja, uma coisa é fato, Billie Eilish está na boca do povo e quem ainda não conhece o seu trabalho, com toda certeza irá buscar algo sobre ela para saciar a curiosidade em torno dessa figura tão emblemática.

Assim, não é por acaso que o seu álbum WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? foi tão esperado e bastante comentado. Vale ressaltar que Billie Eilish produziu o álbum – e seus trabalhos anteriores – com o irmão Finneas O’ Connell em sua casa e a qualidade do registro – e do alcance do trabalho – mostra que essa parceria está dando muito certo. Em algumas faixas, conseguimos ouvir risadas e interações entre eles, o que mostra os momentos descontraídos da produção e a diversão, mesmo que algumas faixas possuam temáticas um pouco mais pesadas.

WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? mostra o seu potencial e reúne faixas com melodias variadas, o que aumenta a possibilidade de alcance, já que determinado público pode curtir a parte do álbum “menos estranha/pesada” e outra parte curtir o restante do álbum. Isto é, no álbum temos faixas mais sentimentais, suaves com uso do piano, violão, voz e outras faixas com sintetizadores, baixo que exploram uma faceta mais sombria, estranha do trabalho.

Apesar de existir esses “dois lados” dentro do mesmo álbum, esses lados coexistem de forma harmoniosa e não deixam de fazer sentido, já que as letras falam sobre relacionamentos, medicamentos, feridas, mágoas, depressão, pesadelos, suicídio, ou seja, WHEN WE ALL FALL ASLEEP é sobre ser vulnerável, sobre se relacionar e acabar ferido, sobre ter pesadelos, sobre não estar bem, sobre tomar remédios, sobre saúde mental, enfim, sobre vulnerabilidades. Embora Billie Eilish possa trazer estranhamentos, precisamos falar sobre Billie Eilish e do alcance que ela possui, ela é uma artista muito jovem com um alcance enorme e muitos jovens se identificam com ela, seja musicalmente/esteticamente/visualmente, se inspiram nela e sentem/vivem boa parte de suas letras.

Por fim, WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? merece ser ouvido, seja por curiosidade ou por gosto, e devemos tentar compreender o que é a Billie Eilish para a indústria da música atual e como ela anda reverberando enquanto fenômeno para ouvintes mais jovens.  Afinal, podemos considerar Billie uma artista pop, mas ela é uma artista jovem de 17 anos – que apesar de causar um pouco de estranhamento – lançou um álbum interessante e que canta sobre pesadelos, mágoas, depressão – assuntos que tocam em muitas feridas.

OUÇA: “You Should See Me In A Crown”, “All The Good Girls Go To Hell”, “When The Party’s Over”, “My Strange Addiction” e “Bury A Friend”

MØ – Forever Neverland


A expectativa em torno de Forever Neverland foi grande, e isso, graças a qualidade de seu antecessor No Mythologies To Follow lançado em 2014. Assim, foram quatro anos para o tão esperado – e temido – segundo álbum da cantora e compositora dinamarquesa, mas durante esse intervalo foram lançados singles e o EP When I Was Young (2017).

Mesmo que a cantora não tenha ficado no completo silêncio durante esses quatro anos, sabemos bem que os anseios, medos permearam muito o lançamento do segundo disco. É óbvio que todo artista passa pelo medo do “temido segundo disco”, ainda mais quando o álbum de estréia possui uma imensa qualidade. Assim, não foi diferente com ela, temia-se que ela abandonasse completamente a sua essência e se lançasse à “plasticidade do Pop” cedendo o controle de seu trabalho aos “grandiosos da indústria”.

Assim, ao ouvir Forever Neverland percebemos o acúmulo de sonoridades que MØ buscou nesse tempo e no mergulho que deu em torno dos conhecimentos relacionados ao pop, isto é, a cantora e compositora trabalhou com cerca de trinta produtores do segmento eletrônico e experimental, o que evidencia o trabalho dela em buscar constantemente a inventividade. Além disso, vemos contribuições de Diplo – em “Sun In Our Eyes”- , de Charli XCX – em “If It’s Over” – , de What So Not And Two Feet – em “Mercy” – e de Empress Of – em “Red Wine” -, ou seja, aqui nos deparamos com as faixas mais interessantes do álbum.

No entanto, acredito que Forever Neverland divida opiniões, alguns poderão pensar que ele possui faixas rasas com batidas plásticas, que trata-se de algo mais formatado e de qualidade inferior ao álbum anterior; outros poderão pensar que trata-se de um álbum que ainda mantém a essência, mas que investiu em experimentações e sonoridades próximas ao Pop de forma profunda; e além desses, tantos outros pensamentos surgirão a cada audição desse álbum.

Na tentativa de concluir, Forever Neverland não é decepcionante, ele pode ser diferente do seu antecessor e pode não ter agradado quem esperava a mesma fórmula dele, mas podemos dizer que o registro mergulhou em segmentos experimentais e eletrônicos com o intuito de ampliar o acesso ao público. Porém, isso não significa que suas faixas são rasas, plásticas, descartáveis, isto é, o registro possui um outro tipo de apelo, mas não acredito que MØ “perdeu essência”, acredito que seja outro registro, outro contexto, com outras possibilidades, sonoridades, experimentações e devemos considerar esse  outro momento da cantora/compositora. Óbvio, o álbum possui altos e baixos em sua execução, mas concluímos que: Forever Neverland sobreviveu à tão temida “maldição do segundo disco”.

OUÇA: “I Want You”, “Blur”, “Beautiful Wreck” e “If It’s Over”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Melody’s Echo Chamber – Bon Voyage


Melody’s Echo Chamber é um projeto musical da cantora e compositora francesa Melody Prochet com uma boa dose de referências sonoras psicodélicas. Além disso, o projeto lançou o primeiro álbum também chamado de Melody’s Echo Chamber em 2012 com a produção de Kevin Parker – também integrante da tão conhecida Tame Impala. Agora, em 2018, chega aos nossos ouvidos o segundo álbum intitulado Bon Voyage.

Já podemos dizer que Bon Voyage não perde a característica “psicodélica”, ou seja, Melody Prochet retoma seu projeto musical não perdendo essa essência que vimos no álbum anterior, mas essa essência se mostra bastante transformada no registro atual e nos deparamos com variações sonoras bastante interessantes. Dessa forma, diferente do álbum anterior que foi produzido por Kevin Parker, no novo álbum – produzido por  Fredrik Swahn (The Amazing) e Reine Fiske (Dungen) – vemos um emaranhado de referências não tão óbvias, ou seja, apesar de continuar em  uma “linha psicodélica”, a densidade do registro e as sensações propiciadas pelas colagens sonoras existentes nele, podem conduzir quem ouve para um caminho agradável e nada óbvio, com faixas um pouco mais  distantes da tão conhecida sonoridade “tameimpaliana” presente no registro anterior.

Sendo assim, Bon Voyage é uma viagem curta, mas é mesmo uma boa viagem, uma viagem que surpreende, uma viagem que não é tão óbvia e nada enjoativa. Uma viagem muito bem conduzida por Melody Prochet, que claramente se transforma nesse registro e caminha para caminhos e experiências não tão explorados no trabalho anterior. Assim, Melody nos presenteia com fragmentos sonoros com colagens psicodélicas e lisérgicas bastante agradáveis, e além disso, as variações vocais tão distintas se encaixam perfeitamente nessas colagens instrumentais tão incertas, mas bastante coerente com tudo que é proposto na execução deste registro.

Por fim, Bon Voyage representa muito bem a nova entrega sonora de Melody’s Echo Chamber, caminhando pela lisergia e psicodelia de um jeito transformado e encantador, nos conduzindo para uma viagem curta, torta e profunda de novos ruídos eletrônicos, de novas variações vocais, de novas variações instrumentais sob a forma de sete fragmentos muito bem executados de camadas sonoras que demonstram muito bem a criatividade e a versatilidade de Melody Prochet em sua retomada. Sem sombra de dúvidas, Bon Voyage é um segundo álbum que não merece ficar “atrás” de seu antecessor.

OUÇA: “Cross My Heart”, “Desert Horse” e  “Shirim”.

Chvrches – Love Is Dead


Chvrches, o trio escocês formado por Lauren Mayberry, Iain Cook e Martin Doherty lança seu novo álbum intitulado Love Is Dead. A banda que já possui em sua trajetória álbuns como The Bones Of What You Believe (2013) e Every Open Eye (2015), acaba de chegar em seu terceiro álbum com um título que nos chama atenção Love Is Dead, mas não é só o título que nos chama atenção, não é mesmo? Chvrches costumava produzir seus próprios álbuns, mas dessa vez chamaram o produtor Greg Kurstin para o novo registro e isso pode ser uma forte evidência de que a banda agora deseja mostrar uma outra faceta e buscar uma determinada audiência que não víamos nos registros anteriores.

Mas, qual faceta é essa? Bom, Love Is Dead chega mais Pop do que nunca, mostrando descaradamente a vontade de emplacar de algum modo, de circular, de embalar, ou seja, aqui vemos um Chvrches com vontade de circular, de buscar uma outra projeção, de ser mais acessível de algum modo, e por isso, de modo geral, as faixas soam menos como o Chvrches que conhecemos em trabalhos anteriores. De algum modo, a banda começa a se despir da imagem “mais indie” construída ao longo de sua trajetória, distanciando de algum modo do fazer artístico para se aproximar de um fazer mais comercial.

Em Love Is Dead vemos um Chrvches que se maximiza, com faixas explosivas, vocais muito mais altos do que o habitual, sintetizadores mais estridentes, repetições, trechos que grudam, ou seja, Love Is Dead possui todos os elementos de uma “fórmula Pop” e isso faz com que as faixas sejam mais acessíveis, ou melhor, as faixas do registro podem chegar facilmente aos ouvidos de qualquer ouvinte e gerar uma satisfação imediata, uma identificação.  Logo, Love Is Dead nos mostra um Chvrches “para todos os públicos”, um Chvrches que se desnuda de uma identidade mais intimista para assumir uma faceta mais maximizada e acessível, e óbvio, não existe nenhum problema nisso!

A “fórmula Pop” não é um erro, não é um problema, não é motivo para vergonha, não é mesmo? E justamente por isso, mesmo com toda a construção desse registro em busca de uma maior circulação ainda conseguimos ver algo de Chvrches nisso tudo, porque ao mesmo tempo que há a busca por essa projeção um tanto mais maximizada, existe a vontade de manter aquilo que caracteriza o fazer artístico anterior e isso fica evidente em faixas que soam mais desconexas com a proposta “Pop” do registro.

Sendo mais direta, Chvrches em Love Is Dead deixa evidente a vontade de soar um pouco mais “mainstream, pero no mucho!”, isto é, sabemos bem que a banda sempre flertou com um sonoridade mais Pop, mas só agora assume de uma vez por todas essa faceta. Porém, mesmo com um “shape mais Pop” – considerando toda a produção envolvida – Chvrches ainda é Chvrches e não veremos aqui nada de extrovertido, ou seja, as faixas podem ser mais acessíveis, mais maximizadas, mais altas, mas ainda há essa dimensão mais “cinza” no álbum, mais amarga, mais triste atrás de toda essa faceta “energizante”.  Me atrevo a dizer que ao mesmo tempo que o registro soa “pop”, ele também pode soar intimista, e por isso, ele pode dividir algumas sensações durante as audições, possibilitando momentos de “ok, quero dançar, mas quero chorar”, sabe?

Por fim, com melodias boas, refrãos marcantes – e também grudentos – sintetizadores estridentes, participações (Matt, The National), vocais mais altos, e de modo geral, com timbres eletrônicos que soam mais sintéticos, Love Is Dead  não é grandioso, mas ele chega com força, com energia, com vontade de se projetar sonoramente, e por isso, assume uma sonoridade mais pegajosa/grudenta para os nossos ouvidos, mas ele não desagrada. Assim, aqui vemos um Chvrches com menos profundidade do que antes, mas que ainda soa agradável e potente ao explorar estruturas tão diferentes das habituais.

OUÇA: “Deliverance”, “Miracle”, “Never Say Die” e “My Enemy”

Yo La Tengo – There’s A Riot Going On


Antes tarde do que nunca, não é mesmo? Sendo assim, aqui estamos para falar sobre o novo registro da banda Yo La Tengo, batizado como There’s A Riot Going On e lançado no mês de março pela Matador Records. Porém, antes de mergulharmos um pouco no novo registro da banda, convém relembrar que a banda Yo La Tengo – composta atualmente por Georgia Hubley, Ira Kaplan e James McNew – possui uma trajetória musical que já somam algumas décadas, isto é, o primeiro álbum de estúdio da banda – intitulado Ride The Tiger – foi lançado em 1986, e sendo assim, o novo álbum There’s A Riot Going On nada mais é do que o 15° registro do trio de Nova Jersey!

Sendo assim, matematicamente falando, de 1986 até 2018, podemos colocar na conta da banda cerca de 32 anos entre o primeiro registro – Ride The Tiger –  e o registro recente – There’s A Riot Going On, então podemos afirmar que a banda possui bastante material sonoro para agradar – ou desagradar – muitos ouvidos.  No entanto,  convém ressaltar que a trajetória da banda mesmo contabilizando três décadas, não foi marcada por grandes hiatos, isto é, os antecessores de There’s A Riot Going On foram Fade – lançado em 2013 – e Stuff Like That There – lançado em 2015.

Diante dessas breves informações, podemos ir ao que interessa: There’s A Riot Going On. Se eu fosse sintetizar o álbum todo com uma só palavra, eu facilmente usaria a palavra “tranquilo”, ou seja, trata-se de um álbum extremamente tranquilo, ou melhor, embriagadamente tranquilo, relaxante, capaz de nos “desconectar”, “desligar”, “hipnotizar”, a trilha sonora ideal para nos deitarmos em algum canto, fechar os olhos e mergulharmos na “embriaguez-zen” do registro. No entanto, descrever como “tranquilo” não significa dizer que não exista camadas sonoras interessantes no álbum, ao mesmo tempo que temos camadas de leveza, sussurros, sobreposições, também nos deparamos com elementos que nos parecem “pouco articulados” diante da tranquilidade expressa no registro, ou seja, encontramos momentos de quebras, mas de quebras sutis, momentos mais  “psicodélicos” que  nos tiram da zona de conforto enquanto ouvintes, mas que ainda nos mantém em um estado quase hipnótico, ou de transe.

Assim, na primeira ouvida, There’s A Riot Going On  nos mostra como  embriagadamente tranquilo, mas também “desarticulado”. Mas, essa suposta desarticulação vem da nossa necessidade de buscar um fio condutor na primeira ouvida, queremos compreender a organização, a concepção do álbum de forma imediata. Porém, o registro da banda merece ser ouvido sem pressa e com bastante atenção, o que também é um desafio para nós ouvintes. Particularmente falando, a primeira audição que fiz do álbum dividiu sensações, não conseguia definir imediatamente se gostei ou não do álbum, ou seja, podemos dizer que é possível que ocorra alguns estranhamentos iniciais diante da disposição das faixas, mas podemos dizer com toda certeza que esse registro é oriundo da grande bagagem que Yo La Tengo possui enquanto banda, que todos esses elementos e essa concepção do álbum estão imbricados nos mais de 32 anos  de experiência.

De modo geral,  o registro pode ser considerado bastante sereno, sutil e etéreo em muitos momentos, principalmente nas faixas instrumentais que nos desconectam, nos hipnotizam e nos levam para algum lugar tão tranquilo, tão embriagadamente tranquilo quanto There’s A Riot Going On.  Mesmo com as quebras sutis, as “desarticulações” ao utilizarem outros ritmos no decorrer do álbum – como é o caso de alguns tipicamente brasileiros e facilmente reconhecíveis como na faixa “Esportes Casual” –  ele não perde a sensibilidade e acabamos mergulhando nessa pequena viagem para descobrir o que há nas próximas faixas. Mergulhamos e somos conduzidos à um estado quase hipnótico, mas com guitarras sujas, sussurros poéticos, ritmos/batidas que se misturam, e ainda assim, melódico.

Podemos dizer que cada faixa é um fragmento e que na primeira audição esses fragmentos podem parecer desarticulados, mas percebemos  que há uma estrutura e que esses fragmentos dialogam instrumentalmente, poeticamente, melodicamente, e mais do que nunca, hipnoticamente. Parece que não é por acaso que a primeira faixa seja chamada de “You Are Here” e a última faixa seja chamada de “Here You Are”, como se fizesse uma alusão bastante sutil sobre o início dessa “viagem hipnótica” e seu desfecho. Por fim, There’s A Riot Going On  é uma dose bastante desarticulada de tranquilidade, ou seria uma tranquilidade improvisada?  Porém, posso dizer que é um álbum que suscita sensações e que nos desafia, mas isso não significa que ele seja o “melhor” ou o “pior” registro,  posso dizer que existiram momentos em que simpatizei com alguns  “fragmentos sonoros” dessa “viagem hipnótica” e em outros momentos não tanto, e que talvez, eu ainda esteja digerindo todos esses momentos/fragmentos.

OUÇA: “You Are Here”,  “For You Too”,  “Dream Dream Away” e “Shortwave”.

Fever Ray – Plunge


Apesar de 2017 ser considerado um “ano-de-ranço” em diversas esferas, é inegável que esse ano foi marcado positivamente para a esfera musical.  Isto é, o ano foi marcado por inúmeros retornos e aqui estamos para falar de mais uma volta surpreendente: Fever Ray. Fever Ray é o projeto solo da produtora/compositora Karin Dreijer Andersson e foi iniciado em 2009, e agora, após oito anos, Karin marca seu retorno ao projeto com seu segundo álbum de inéditas: Plunge.

Convém dizer que Karin Dreijer também faz parte do The Knife, um duo sueco – sendo que o outro integrante é o irmão dela Olof Dreijer – criado em 1999, com quatro álbuns lançados, mas que teve seu fim decretado também nesse ano, mesmo após o lançamento do álbum e da turnê Shaking The Habitual estar em andamento. Se por um lado, o fim repentino de The Knife é uma grande perda musical e que provavelmente muitos fãs ficaram tristes com a notícia, por outro lado, temos o retorno após oito anos de Karin Dreijer com Fever Ray/Plunge mostrando que o projeto nunca esteve enterrado e que está mais vivo do que nunca!

E aqui estamos nós, com onze faixas novas para explorarmos e degustarmos após oito anos e já posso dizer que o álbum está alicerçado em três pilares: amor, perdas e caos. Em linhas bem gerais, esses são os três ingredientes de Plunge, já que Karin escancara suas perdas, a sensibilidade, o amor em quase todas as faixas, mostrando que a ideia de “mergulho” – que remete ao nome do álbumpoderia facilmente remeter ao mergulho dentro de si mesma, dos próprios sentimentos, das próprias relações e da possibilidade de pensar/repensar o seu lugar no mundo, assumindo que do amor e das perdas também podem surgir o caos.

Plunge é caótico, é instável, é incerto, é intenso, ele é o acúmulo de repertórios e vivências de Karin sendo expostos durante todo o álbum – e ainda contamos com a colaboração de Paula Temple, Deena Abdelwahed, Nídia Minaj, Tami T, Peder Mannerfelt e Johannes Berglund na construção/reconstrução do álbum. Temos faixas sonoramente mais leves, outras extremamente caóticas, ou seja, o álbum é um mergulho nos sentimentos, nas relações e nos pensamentos de Karin – que também podem incomodar e/ou sensibilizar quem ouve – mostrando como todos esses itens estão emaranhados e como todos eles agem/reagem na mente dela – e também na nossa.

E de certa forma, nós conseguimos sentir/viver esses turbilhões, conseguimos perceber o que é leve, o que é pesado, o que dói, o que revolta durante a organização do álbum. Assim, ele não segue uma linearidade, é uma desconstrução, um emaranhado de sensações/vivências, ele pode ser doloroso, mas também pode ser dançante, ele pode ser insano, mas também pode fazer sentido. Plunge pode ser considerado um álbum de “som torto” ou “som estranho”, mas ele tem muito de intimista, ele grita as perdas e o amor de formas diferentes, fala sobre distanciamentos amorosos, fala sobre maternidade, fala sobre se sentir suficiente, fala sobre acolhimento, fala sobre fraqueza,  mas também grita questões sobre a condição da mulher e sobre o aborto em trechos como esses: ‘Free abortions and clean water/ Destroy nuclear/Destroy boring’ e ‘This house makes it hard to fuck” (canção “This Country”) e também possui suas doses de sensualidade/erotismo.

Por fim, Plunge é um mergulho em tudo isso, ele é um registro sonoro de vivências e essas vivências são intensas, elas são caóticas, elas são insanas, elas são tristes, elas incomodam, mas elas também podem ser leves/dançantes, ou seja, é um álbum extremamente confessional, sincero e creio que os conteúdos/vivências exposto por Karin não podem ser julgados. Da mesma forma que os nossos sentimentos/reações/relações não são lineares e podem ser caóticas/insanas, Plunge é a materialização disso tudo, Karin conseguiu registrar sonoramente a desorganização de pensamentos/sentimentos que tanto caracterizam a nossa condição humana, ou seja, ele é sim perturbador, intenso e cru, mas as nossas mentes e a de Karin também podem ser perturbadoras/caóticas/intensas.

OUÇA: “Mustn’t Hurry”, “Falling”, “This Country” e “Red Trails”

Beach Fossils – Somersault

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Em 2009, Dustin Payseaur inicia um projeto musical no Brooklyn chamado Beach Fossils. Inicialmente, ele toca todos os instrumentos e grava, lançando o primeiro álbum intitulado Beach Fossils (2010), e somente mais tarde, outros músicos entram no projeto e isso colabora para que a banda realize tours pelos EUA e divulgue o trabalho realizado. A banda ainda lançou o EP What A Pleasure (2011) e o segundo álbum Clash The Truth (2013), mas após um hiato, lançam o terceiro álbum chamado Somersault, ou seja, Beach Fossils é mais uma banda que estava em hiato e que escolheu o ano de 2017 como um bom momento para mostrar as inéditas, e ainda contar com as participações de Rachel Goswell (Slowdive) e do rapper Cities Aviv.

Em linhas gerais, não é difícil sentirmos que Beach Fossils – não especificamente nesse registro – nos lembre bandas como DIIV, Wild Nothing ou Real State, mas essa impressão pode ser justificada pelos reverbs e pela atmosfera lo-fi, elementos bastante comuns entre eles. Mas, a banda também é conhecida por sua sonoridade mais dream pop – apesar de caracterizarem o registro anterior como mais próximo do post-punk .

Em Somersault, a banda acrescenta piano, violino saxofone e flauta, criando uma outra atmosfera, e alegando que é necessário reinventar e expandir. Assim, o novo registro nos mostra uma atmosfera mais leve, mostrando uma fase da banda mais leve, ensolarada e colorida, como se fosse a descrição sonora de uma viagem à praia com os amigos vestindo bermudas e camisas floridas. Ou seja, Beach Fossils sai da sua atmosfera “obscura” e dá lugar para uma atmosfera mais leve e vibrante, experimentando e buscando outros caminhos.

Basicamente, Somersault poderá ser uma surpresa para os fãs da banda que esperam a mesma sonoridade. Mas, ressalto que mesmo criando uma nova atmosfera e incluindo novos instrumentos, ainda é possível notar que a “assinatura” da banda está ali coexistindo com os novos caminhos e com a sutil necessidade de criar uma nova identidade. E sem dúvidas, Somersault é um marcador importante para a trajetória da banda, pois é um registro com bons arranjos e muito bem produzido. Enfim, apesar de toda a leveza, simpatia e a maturidade apresentada no registro, ele pode ser considerado coeso e agradável, mas não é um registro extremamente marcante.

OUÇA: “Tangerine”, “Rise”, “Sugar”, “Be Nothing” e “Social Jetlag”.

Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex

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A banda de origem texana Cigarettes After Sex formada em 2008 – e que agora reside no Brooklyn – carrega na trajetória musical o EP I. (2012) e os singles “Affection” (2015) e “K.” (2016), e acabou de lançar seu primeiro álbum intitulado Cigarettes After Sex. Aparentemente, a banda “repentinamente” caiu na graça do público via youtube – alguns usuários receberam recomendações e a música “Nothing’s Gonna Hurt You Baby” alcançou muitas visualizações – o que colaborou para a disseminação das belíssimas canções do grupo e para a formação de ouvintes viciados/sedentos pela “fórmula Cigarettes After Sex”.

Assim, o novo álbum e o material produzido anteriormente pela banda pode ser caracterizado por uma palavra: viciante. Eu, por exemplo, antes de pensar em escrever sobre o álbum, me rendi e cai no limbo das 10 canções tristes/românticas, me joguei na fossa musical por semanas de forma não-intencional.

Então, posso falar com bastante propriedade que esse disco é bastante envolvente, ainda mais se o momento da sua vida for propício. O álbum soa bastante melancólico, do começo ao fim, canta romances e está carregado daquele sentimento de abandono, mas ao mesmo tempo que ele nos deixa naquele estado contemplativo e de calmaria por conta da sonoridade, ele também nos faz mergulhar na tristeza.

Afinal, romances rendem boas canções, mas ao mesmo tempo que a voz doce de Greg Gonzalez nos embala com momentos apaixonados como esse: “Holding you until you fall asleep/ it’s just as good as I knew it would be/Stay with me/I don’t want you to leave…” (Trecho de “K.”), ele também nos joga esse balde de água fria aqui: “Each time you fall in love/ it’s clearly not enough” (Trecho de “Each Time You Fall In Love”).

É um álbum que traduz o que é estar apaixonado: a sensação de “ apocalipse” quando os lábios se juntam com o do ser amado; romantizar o pôr do sol; fazer poesia com os detalhes do corpo de quem amamos; as lembranças; a sensação ruim de não ser suficiente; a sensação do amor à primeira vista; a presença da sensualidade; e a sensação de amar muito e não saber o que fazer.

Bom, eu sei muito bem que fazer um álbum sobre amor/estar apaixonado pode parecer o mais clichê possível, mas o álbum de estréia Cigarettes After Sex realmente vale a pena. E digo isso pela junção de delicadeza, simplicidade e sensualidade presentes no registro, resultado de linhas de baixo envolventes, bases simples de guitarra/bateria/teclado e vocais adocicados/sussurrados.

Logo, o fazer musical da banda é simples, mas isso não faz com que o álbum seja ruim, pelo contrário, a simplicidade dele é bastante favorável e muitas vezes o menos é mais, não é mesmo? Por fim, Cigarettes After Sex soa onírico, é bastante suave e simples, mas consegue nos hipnotizar e nos cativar com sua profundidade, com sua delicadeza e com sua doçura que está longe de ser enjoativa.

OUÇA: “Each Time You Fall In Love”, “Sunsetz”, “Flash”, “Sweet” e “Opera House”.