Jamie Cullum — Taller



“Wheels”, do Jamie Cullum, é uma música que marcou a minha adolescência na época do ensino médio. Muito cantei seu “woooooah, is this something that I never, something that I never had” — isso lá no começo dos anos 2010.

Em 2016, fui pra Buenos Aires assistir The Strypes no Personal Fest e quem foi um dos headliners da primeira noite? Ninguém menos que o tal do Jamie Cullum. Tive a chance de assistir boa parte do seu show e ouvir aquele hino adolescente ao vivo, num momento meio “full circle”, mesmo que eu desconhecesse todo o resto do seu repertório. Tudo isso para dizer que cá estou eu, em 2019, resenhando seu oitavo disco, Taller.

Mesmo tendo esse passado com o artista, ouvir Taller é como se fosse meu primeiro contato com Jamie Cullum — um momento de descoberta e mergulho no universo do multi-instrumentista que já acumula 20 anos de carreira e é considerado um dos principais nomes do jazz contemporâneo.

Já na primeira música, a homônima “Taller”, dá para entender o porquê do inglês ter se tornado uma referência em seu gênero. Sua música é bastante atual, ao mesmo tempo que carrega o peso de anos de ritmo.

“Life Is Grey” é mais lentinha, destacando os vocais de Jamie, mas cresce no final com um piano completamente apaixonante. Inclusive, o piano de todo o álbum é precioso. E talvez eu seja suspeita para falar, visto que sou apaixonada pelo instrumento, mas o piano de Cullum tem o poder de tornar qualquer música umas mil vezes mais incrível.

Seja nas mais animadas, como “Usher”, ou nas tranquilas, como “Drink”, Jamie Cullum nos mostra que está no seu elemento. É impossível passar batido pelas suas canções. Toda a mistura dos vocais do cantor, o instrumental preciso e os backing vocals — que estão presentes em grande parte do álbum — é perfeita.

“The Age of Anxiety” é uma das músicas mais bonitas (e tristes) que eu já ouvi e dá vontade de ficar ouvindo em looping — para sempre. Muito simples, em sua maior parte marcada apenas por voz e piano, é um verdadeiro hino da contemporaneidade, sendo muito fácil de se identificar. “I hope the band won’t make me sing along.”

“You Can’t Hide Away From Love” tem toda a atmosfera clássica e nos faz viajar no tempo. Poderia muito bem fazer parte de um filme antigo em preto-e-branco…

Da mesma forma que “Taller” abre o álbum brilhantemente, a calminha “Endings Are Beginnings” foi a escolha certeira para encerrar o disco. É como se o cantor sussurrasse a letra no nosso ouvido, quase que numa canção de ninar.

Taller é um dos melhores discos que eu tive o prazer de ouvir em 2019. São quase 40 minutos de melodias muito gostosas, um cosmos musical inteiro a ser explorado. É um álbum para ouvir de uma vez só — para parar tudo e ouvir. Foi feito para ser contemplado. E merece ser contemplado. É uma obra de arte!

OUÇA: “The Age Of Anxiety”, “Life Is Grey”, “Taller” e “Drink”.

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Sundara Karma — Ulfilas’ Alphabet



O Sundara Karma é uma banda que costumava aparecer nas playlists automáticas que o Spotify cria quando algum disco que eu estava ouvindo acabava. Muito escutei “Indigo Puff” e outras canções deles sem querer. E, embora isso tenha acontecido um bom número de vezes, eu nunca fui muito atrás de conhecer a banda. Então quando essa resenha caiu no meu colo, eu vi como uma boa oportunidade de conhecer uma “banda nova” e explorar mais a fundo a sua sonoridade e seu disco.

Ulfilas’ Alphabet é o segundo disco do Sundara Karma e foi lançado no dia 1º de março, dando sequência ao seu debut album Youth Is Only Ever Fun in Retrospect, que saiu em 2017.

No geral, o álbum é upbeat, com boas guitarras e uma sonoridade extremamente familiar, que para mim traz uma sensação de “rock inglês”, whatever that means. E eu não posso deixar de exaltar a voz do Oscar Pollock, com sua força no grave, que completa o combo da “nostalgia sonora” que eu senti ao ouvir o álbum.

Apesar de ser carregado de memórias e referências, que remetem às mais variadas décadas, o álbum é muito “novo”. Tem um frescor de novidade, ainda que busque em “recursos clássicos” a solução para fazer um hit.

A primeira música, “A Song For My Future Self” já estabelece o tom do disco e é uma das minhas canções favoritas do álbum. Tem boas camadas sonoras, uma pegada meio setentista, distorções e um excelente instrumental — que você vai ouvir através de todo o álbum.

A combinação de “Symbols Of Joy & Eternity” e “Higher States” é, para mim, preciosa. São duas músicas com cara de hit que trazem uma sensação de que eu já as conheço a vida toda — sem soar como se fossem uma cópia barata ou rip-off de outros artistas, mas que apresentam características musicais que soam confortáveis aos ouvidos.

A cada nova música vamos descobrindo uma nova faceta do quarteto, como na canção “The Changeover”, mais lenta que o resto do álbum e onde podemos apreciar toda a potência dos vocais — que, por momentos, lembra até o vozeirão de David Bowie. Preciso destacar, também, “Illusions” e “Duller Days”, canções meio dark e que tem um quê de Franz Ferdinand, trazendo uma vibe muito gostosa ao disco.

Depois de toda a viagem de Ulfilas’ Alphabet, “Home (There Was Never Any Reason To Feel So Alone)” acalma os ânimos e encerra o álbum brilhantemente, com seus beats e elementos eletrônicos.

Eu não consigo ouvir o álbum sem pensar, “bah, essa é uma banda inglesa”. Além do sotaque, a banda carrega a identidade britânica nas nuances de suas canções e, também, no visual. Da terra do renomado Reading Festival, a banda está na ativa desde 2011 e, se continuar nesse caminho terá uma carreira bem próspera pela frente.

Assim como a capa do disco propõe, Ulfila’s Alphabet é um disco bom de mexer o esqueleto. Se você gosta de conhecer bandas novas e curte um bom indie rock, o Sundara Karma é uma ótima pedida!

OUÇA: “A Song For My Future Self”, “Symbols Of Joy & Eternity”, “Duller Days” e “Higher States”

FIDLAR — Almost Free


Depois de quase 4 anos, o FIDLAR voltou de um jeito inesperado. Inesperado pelo menos pra mim. Como alguém que não ouviu nenhum dos singles lançados antes do álbum sair, eu fui pega de surpresa ao dar o primeiro play em Almost Free.

Este é um álbum diferente, como é de se esperar de qualquer banda que acumula 10 anos de estrada. Enquanto fã, confesso que demorei algumas ouvidas para me acostumar ao novo “ritmo”. Não que não tenha gostado, foi mais um sentimento de “o que está acontecendo aqui?”. Entretanto, não se engane pensando que trata-se de algo disruptivo, totalmente experimental, fora da casinha. Eles continuam os mesmos “garotos punk rock” dos dois álbuns anteriores, mas agora eles estão experimentando outras ondas. Neste álbum, utilizam os discursos que já conhecemos de outros carnavais em diferentes formatos, que vão além das “pedreiras” que estamos acostumados — ainda, é claro, que elas estejam presentes, como é o caso de “Get Off My Rock”, que abre o disco.

De álcool e drogas, críticas ao comportamento do estadunidense médio, términos de namoro, com influências de The Clash a Red Hot Chili Peppers, Almost Free é um baita álbum. Pra quem se acostumou ouvindo ao homônimo FIDLAR, de 2013, pode ser que estranhe, em um primeiro momento, quando ouvir toda a miscelânea que temos aqui. Dentre todas as camadas que existem no álbum, dá pra sentir que este foi um trabalho em que os caras chegaram no estúdio e realmente tocaram o que estavam com vontade. Tem sonoridades bem diferentes entre si e, também, seus altos e baixos, mas é um disco autêntico.

Destaque para a instrumental faixa-título, “Almost Free”, que aconteceu quase “por acidente”, já que a banda tentou escrever uma letra pra ela. Mas acabou que nenhuma das letras combinou o suficiente e, por falta de tempo, ela acabou entrando nua e crua mesmo. E, pra mim, esse é um dos melhores acertos do álbum. A música é um respiro em meio a toda loucura “fidlaresca” e ainda demonstra o talento em potencial que o quarteto tem.

OUÇA: “By Myself”, “Can’t You See” e “Almost Free”.