The Japanese House – Good At Falling



Em 90% das vezes que eu menciono o nome The Japanese House mais da metade das pessoas acham que eu falei errado o nome da banda Japanese Breakfast, aquela banda que na verdade é um projeto solo da cantora e compositora americana-coreana Michelle Zauner. Já a outra metade pensa na Japan House em São Paulo. Mas não é nenhuma dessas duas coisas.

The Japanese House é o pseudônimo e, também, projeto solo de Amber Bain, cantora e compositora de Buckinghamshire, Inglaterra. Com quatro EPs na bagagem, que foram lançados pela Dirty Hit (gravadora idealizada e comandada pelo pessoal do The 1975), agora Bain resolveu sair do anonimato com seu primeiro álbum Good At Falling e mostrar que o The Japanese House não é, como muitos pensavam, um projeto paralelo do Matty Healy e George Daniel do The 1975.

As primeiras músicas lançadas sob o pseudônimo saíram em 2015 quando Bain tinha apenas 19 anos. Elas eram carregadas de auto tune, que protegiam o anonimato e brincavam com classificação de gênero, e efeitos de guitarra que soavam sim bem parecidos com algo que teria um dedinho de Healy e Daniel.

Já em Good At Falling, o auto tune ainda está presente mas são as letras e a delicadeza das palavras que entregam a vulnerabilidade que o álbum carrega. É um disco que mostra a evolução de Bain como pessoa e artista. Good at Falling é um ciclo de acontecimentos muito pessoais, como a morte de alguém próximo que você ama e o processo de luto, sobre pensar que achou salvação em um novo relacionamento e ir percebendo aos poucos que o relacionamento está se desmanchando. Bain fala muito sobre perceber que tudo passa e que, eventualmente, tudo fica bem.

Várias vezes durante o álbum são lançadas perguntas que reverberam diariamente na cabeça de quase todos os jovens Millennials. O niilismo presente em faixas como “Maybe You’re the Reason” e “Follow My Girl” com frases como “is there a point to this?”, “should I be searching for some kind of meaning?” e “nothing feels good it’s not right” refletem a realidade de uma desesperança que sonda a vida de jovens em países como os Estados Unidos, Brasil e outros.

A produção do álbum merece um destaque a parte. Produzidas por George Daniel (The 1975), BJ Burton (Bon Iver, James Blake), e pela própria Bain, as faixas com camadas de sons que parecem infinitas convidam quem escuta a cada vez que escutar uma música perceber um som novo. Os sons trazem ainda mais profundidade para um álbum tão pessoal, tão cru, mas ao mesmo tempo tão confortante. Good At Falling parece que foi encapado em um cobertor macio, pronto para se deitar em cima e enquanto escuta os vocais suaves de Bain.

São treze faixas e, de todos os quatro EPs, apenas uma música fez o corte para o álbum. A faixa “Saw You In A Dream” aparece em Good At Falling como uma versão acústica e mais pura. Sem a máscara do auto tune, Bain gravou essa versão em dois takes ao vivo e, como ela mesma disse em entrevistas, “quase dá para ouvir suas lágrimas”.

A nova versão se chama “i saw you in a dream” e fala sobre sonhar com alguém que já partiu desse mundo e a única forma de ver a pessoa de novo é sonhando. Na faixa, Bain canta “it isn’t the same but it is enough” (não é o mesmo, mas é suficiente – em tradução livre) e amarra, aparecendo como faixa final, todo o sentimento que o álbum carrega e passa. Perder um amor, seja romântico ou não, nunca é fácil, e nenhuma experiência vai ser igual a outra, mas nos resta seguir em frente e tentar aproveitar o melhor da próxima situação.

Good At Falling é muito importante, principalmente para a comunidade LGBTQ+ que quer encontrar conforto e representatividade em artistas jovens. É um disco que força uma autorreflexão sobre nossos sentimentos e relacionamentos, e a posição que eles ocupam em nossas vidas, na faixa “Worms” Bain nos mostra exatamente isso cantando “Invest yourself in something worth investing in. You keep repressing it”. Good At Falling é o melhor debut que o The Japanese House poderia ter.

OUÇA: “Worms”, “Follow My Girl” e ” Maybe You’re The Reason”

The 1975 – A Brief Inquiry Into Online Relationships


Vivemos em uma época em que líderes de grandes nações quase começaram uma nova Guerra Mundial por trocarem indiretas pelo Twitter e em que a propagação em massa de informações duvidosas pela internet decidiu resultados de eleições mundo a fora. Nessa mesma época, em que é tão fácil ter tudo ali, online, prontinho para ser consumido, um dos motivos (talvez o único) para você ainda manter contato constante com os seus amigos e familiares é você ter acesso a um ponto de Wi-Fi (ou talvez você só não consiga sair do grupo do “Zap”, mas nesse momento considere o Wi-Fi).

Quando pensamos em relacionamentos online a primeira coisa que nos vem à cabeça são aplicativos de relacionamentos, como o Tinder por exemplo. Mas o buraco, expressão aqui que não tem nenhuma intenção de malícia, é mais embaixo. Estamos todos conectados, o tempo todo, e é sobre isso que o terceiro álbum de estúdio do quarteto britânico The 1975 fala.

A Brief Inquiry Into Online Relationships é literalmente o que o nome diz, é um questionamento sobre como lidamos com relacionamentos online no mundo atual, com todo o acesso a informações e conteúdo que temos, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Durante a uma hora de álbum, que é quase imperceptível, quem escuta é convidado a embarcar em uma jornada que transita entre críticas à auto cobrança (“Give Yourself A Try”),  várias análises sobre comportamentos em relacionamentos amorosos atuais (“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, “Sincerity Is Scary”, “Inside Your Mind”) e até um texto narrado pela Siri (“The Man Who Married A Robot / Love Theme”) com um quê de influência do filme Her.

O mais interessante talvez seja a diferença musical entre todas as faixas, a banda permeia por vários gêneros diferentes que vão desde o jazz tradicional (“Mine”) até uma mistura de Radiohead anos 90 com um britpop estilo Oasis (“I Always Wanna Die (Sometimes)”). Apesar dessa mistura de gêneros, A Brief Inquiry… ainda é um disco que tem 100% a identidade do The 1975. A produção feita pelo vocalista Matty Healy e pelo baterista George Daniel fazem com que pequenos samples de músicas de outros álbuns da banda estejam presentes em alguma camada das novas músicas. E falando em produção, vale a pena ressaltar também os efeitos eletrônicos sutis espalhados pelo álbum. Esses efeitos complementam o conceito Digital Era e dão um toque a mais em músicas que poderiam ser cruas e sem graça, como na balada voz e violão “Be My Mistake”, que mescla um pouco de Flatsound e Ed Sheeran e lembra trabalhos antigos da banda, como a acústica “102”.

A banda também flertou com alguns clichês do Pop/Hip Hop atual como o autotune e low/high pitch (“The 1975” e “How To Draw / Petrichor”). Já a faixa “I Like America & America Likes Me” é a tentativa, falha, do The 1975 de se aproximar de figuras como Kanye West e Frank Ocean.

O ponto alto do álbum fica por conta de duas músicas. A primeira é uma das músicas mais citadas como top 10, 50, 100 músicas mais influentes e importantes de 2018: o single “Love It If We Made It” (e que tem um clipe tão influente e importante quanto). As frases gritadas por Healy, em quase desespero, parecem ser tudo o que queremos dizer sobre a situação atual do mundo inteiro, mas que fica entalado na garganta. Com crítica clara à manipulação de informações em massa, citações diretas de frases absurdas ditas pelo atual presidente dos Estados Unidos e um apelo de que, no final, a modernidade falhou a todos e só nos resta pedir por ajuda divina, a música ainda soa como uma tentativa de se manter otimista apesar de todas as barbáries que estão acontecendo pelo mundo.

A segunda música é talvez um dos grandes feitos de Healy com a ironia. Em “It’s Not Living (If It’s Not With You)” o som alegre e dançante, com guitarras cheias e um refrão que gruda na cabeça por dias, disfarça a dura realidade da música que é a luta do vocalista contra o vício em heroína. Quando você esquece o refrão grudento e começa a pensar na letra é um pouco estranho se sentir feliz cantando “collapse my veins wearing beautiful shoes”, mas o impacto passa em alguns segundos e você volta a cantar. Healy disse várias vezes em entrevistas que falar do seu vício em opioides sempre foi difícil já que era mais um clichê rockstar que ele não queria ser. Então, ao decidir ir para a reabilitação e falar disso em uma música, ele usou e abusou da ironia e se escondeu atrás de uma música em terceira pessoa porque pareceria mais “fácil”. Com o aumento alarmante do abuso de opioides nos Estados Unidos é importante que pessoas influentes como Healy falem abertamente sobre o assunto e a realidade de se tornar um viciado, e sobre superar o vício.

Muitas comparações foram feitas sobre A Brief Inquiry… e o OK Computer do Radiohead, e é possível sim em algum nível comparar os dois, talvez o álbum do The 1975 seja a versão millennial que mora com os pais e posta torrada com abacate no Instagram, mas acredito que seja mais do que isso.

 A Brief Inquiry Into Online Relationships nos convida a abraçar o nosso lado mais sincero, vulnerável e emocional, que contrasta completamente com o mundo digital, as personas que criamos online e como isso afeta os nossos relacionamentos reais. É um álbum cheio de emoções e que nos mostra que muitas vezes não sabemos lidar com elas, e está tudo bem isso, mas é importante tentar (“I Couldn’t Be More In Love”). Não é um álbum perfeito, mas talvez seja exatamente o que muitas pessoas precisem ouvir.

OUÇA: “Love It If We Made It”, “Sincerity Is Scary”, “I Couldn’t Be More In Love” e “It’s Not Living (If It’s Not With You)”

Parquet Courts – Wide Awake!


“What if I’ve grown tired of being polite?” é uma das muitas perguntas indagadas pelo Parquet Courts em seu sexto álbum de estúdio, Wide Awake!. Em uma época em que é impossível não se pegar “problematizando” tudo, expressão que nesse caso pode ser usada como sinônimo moderno de “questionando assuntos políticos que realmente deveriam ser questionados”, nesse novo álbum o Parquet Courts faz uso muito inteligente de metáforas para focar em assuntos que vão além de problemas com garotas, ansiedade e dúvidas com a carreira/o mercado de trabalho depois da faculdade.

A banda definida pela revista Rolling Stone como “the most exciting young band in America”, mostra que está, como o nome do álbum fala, “bem acordada”. Estar acordado em pleno 2018 significa mais do que só saber o que está acontecendo para fora da porta da sua casa, significa saber quais perguntas devem ser perguntadas e não ter medo de colocá-las para fora.

A faixa “Before The Water Gets Too High” mostra uma reflexão da banda sobre como os problemas ambientais, tais como o aquecimento global e o consequente aumento do nível das águas dos oceanos, estão afetando o planeta. O Parquet Courts também aproveita a faixa para fazer comentários sobre o posicionamento político de grandes nações em relação a catástrofes, por exemplo o caso do furacão Katrina em New Orleans nos Estados Unidos, e como elas não importam até que atinjam os próprios governantes ou a classe mais alta.

Ao mesmo tempo em que existe todo esse embasamento político no álbum ele está um pouco mascarado pelo tom post-punk/punk-funk-dançante das músicas. “Wide Awake”, que dá título ao álbum, é a prova clara disso. Com apresentações ao vivo muito animadas, como a que teve no programa comandado por Ellen DeGeneres, o Parquet Courts mostra que apesar de toda a tensão apresentada nas letras, o novo álbum produzido pelo Danger Mouse (Red Hot Chili Peppers, U2, Black Keys, A$AP Rocky) pode ser um disco punk de garagem com bongôs e elementos do samba que beiram o tolo e inocente.

Apesar de funcionar musicalmente, essa máscara utilizada no Wide Awake! faz com que seja um pouco difícil de levar em consideração a parte séria do disco numa primeira impressão. Parecendo só um álbum barulhento de punk rock e muito, muito, diferente do seu antecessor Human Performance. Mas isso também não é necessariamente ruim, já que um dos vocalistas, A. Savage, disse em entrevista à revista GQ que um dos propósitos da banda era produzir um álbum que fosse “um tipo de rock para aumentar e extravasar a raiva e aflição que sentimos sobre o que acontece no mundo.”

Wide Awake! é um álbum extremamente necessário na situação atual que o mundo inteiro está enfrentando. O Parquet Courts levanta questões muito importantes e que já estão na hora de serem debatidas abertamente, como meio ambiente, violência, alienação, entre outras. Talvez não seja um disco fácil de gostar no início, mas vale a pena prestar atenção no que os vocalistas A. Savage e Austin Brown estão cantando, ou gritando.

OUÇA: “Wide Awake”, “Tenderness.”, “Freebird II” e “Before the Water Gets Too High”, ou todas.

The Fratellis – In Your Own Sweet Time


Quando fui escrever essa resenha fiz o de praxe: pesquisar sobre a banda em questão para saber o que aconteceu desde o último lançamento. O curioso no caso do The Fratellis é que não tem quase nada sobre o quinto álbum da banda. É estranho pensar que uma banda que já foi muito grande no cenário indie acabou caindo no esquecimento de fãs e até veículos grandes de comunicação da aérea musical. Caiu até no meu próprio esquecimento, já que meu último contato com a banda tinha sido lá em 2013 com o We Need Medicine, e que ainda assim só ouvi uma faixa.

Considerando a falta de conteúdo sobre o novo álbum, In Your Own Sweet Time, me sinto com a missão de mostrar para as pessoas que a banda escocesa liderada por John Lawler (Jon Fratelli) voltou, ou que pelo menos ainda continua por aí, e agora deu as caras com um álbum significantemente bom, se comparado com os últimos materiais que a banda lançou.

In Your Own Sweet Time parece a versão madura do Costello Music e Here We Stand. É muito mais coerente com som inicial do The Fratellis do que o seu antecessor Eyes Wide, Tong Tied. Não é um álbum excelente, mas é bom o bastante para lembrar a essência da banda.

As letras do álbum continuam com a fórmula clássica do Fratellis de ter tons debochados e potencialmente problemáticos, falando sobre relacionamentos em sua grande maioria. A impressão que fica é que o tempo passou e os garotos mencionados nas letras viraram homens, mas continuam agindo como os garotos das primeiras músicas. “The Next Time We Wed” é a prova clara disso.

Apesar de nas letras continuarem agindo como garotos, no quesito instrumental e produção o álbum mostra bastante maturidade e mais coerência entre as faixas. Os grandes destaques do álbum ficam por conta de “Told You So” e “I’ve Been Blind”. Essas duas faixas são bem diferentes de quase tudo que o The Fratellis já produziu, tirando os vocais que são praticamente impossíveis de não reconhecer. “I’ve Been Blind” tem quase um quê de influência do The Killers no refrão, com vocais crescentes que flertam com o rock de arena, a música mostra que até que não seria tão ruim se a banda seguisse por esse caminho no futuro.

Em resumo, o título do álbum até parece ser um conselho para a própria banda: In Your Own Sweet Time, que em tradução livre ficaria uma versão mais poética de “no seu próprio tempo”. A frase mostra que, apesar de terem sido esquecidos por muita gente, eles não estão muito preocupados com isso, ou que não deveriam estar, e o que realmente importa é respeitar seu próprio tempo e limites.

OUÇA: “Stand Up Tragedy”, “Told You So”, “Sugartown” e “I’ve Been Blind”

The Horrors – V


Para quem conhece o The Horrors desde o debut deles em 2007, o quinto álbum pode ser um pouco chocante. V é completamente diferente de tudo que a banda já fez, mas é a prova de que eles amadureceram nesses 10 anos de estrada e que seguem em busca de um espaço entre bandas maiores.

O The Horrors não é mais uma banda de garagem, com sons sujos e vocais desajeitados. As guitarras nunca estiveram tão limpas, muito mais cheias de sintetizador do que no álbum anterior Luminous, mas limpas.

A faixa que abre o álbum, “Hologram” traz um quê de The Killers com o vocalista Faris Badwan se questionando “Are we hologram? Are we vision?”, a faixa era para ter 25 minutos (sim, quase meia hora em uma única faixa) mas foi cortada e, sinceramente, deveria ter sido cortada mais.

V é o álbum do Horrors que aparenta ser o mais bem produzido em questões instrumentais, a bateria e as batidas eletrônicas se misturam tão bem que parecem a mesma coisa, e os vocais de Badwan ficaram mais fortes e imponentes do que nunca. As letras, no entanto, ainda parecem vazias, secas e fracas quando comparadas à riqueza dos arranjos das faixas, tirando “Point Of No Reply” que é calma o suficiente para a letra se destacar e até que traz uma composição que lembra The Cure.

Trazendo pela primeira vez produtores de fora para trabalhar no álbum, e mirando alto porque a banda trabalhou com nomes que trazem no portifólio colaborações com U2 e Adele, o The Horrors mostrou que a ideia é crescer. Eles não são mais uma banda indie que quer tocar em casas escuras, com paredes suadas e o chão melado de cerveja, eles querem algo maior, arenas talvez? Eles já abriram shows para o Depeche Mode esse ano em Londres, e parece que o gosto pelo som de arena refletiu no quinto álbum da banda.

Mesmo as faixas sendo muito compridas a ponto de ficarem um pouco entediantes, o V é um álbum muito bom, para mim o melhor deles até agora. Mas talvez seja por todo o amor que eu tenho por Depeche Mode e New Order. A faixa que fecha o álbum, “Something To Remember Me By” é uma das melhores coisas que a banda já fez e abre infinitas possibilidades para eles explorarem, caso um sexto álbum esteja nos planos.

O The Horrors de 2017 está cada vez mais distante do The Horrors de 2007, mas cada vez melhor e seguindo um caminho em que as chances de sucesso são muito grandes. Fico na torcida para que daqui 10 anos, 2027, meus filhos ou os filhos dos meus amigos escutem o sétimo, oitavo, nono álbum da banda e falem “nossa eu queria tanto ter vivido em 2017”, como eu faço ouvindo Depeche Mode com o meu pai.

OUÇA: “Point Of No Reply”, “Something To Remember Me By” e “Machine”.

Cut Copy – Haiku From Zero


Haiku From Zero, quinto álbum de estúdio do Cut Copy, veio para mostrar que o verão e as batidas tropicais podem continuar, mas que o fim de relacionamentos são inevitáveis. Diferente do antecessor, Free Your Mind, as músicas do novo álbum não são super positivas, mas escondem letras mais tristes em meio ao clima de festa na beira da piscina com camisa florida, picolés e boias de flamingo.

Apesar de Dan Whitford, vocalista do quarteto australiano, não cantar mais sobre como você tem que ser good vibes para coisas boas acontecerem na sua vida, as músicas do Haiku From Zero ainda passam a sensação de que mesmo que tudo esteja dando errado ainda é possível dançar até que seus problemas sumam.

Com 13 anos de caminhada no mundo musical, o Cut Copy lançou seu álbum mais curto desde o começo da carreira, são apenas 9 músicas (menos da metade do penúltimo álbum que teve 19 faixas na versão deluxe). Mas, mesmo sendo relativamente curto, acredito que pode ser considerado um dos melhores da banda até agora. O clima de ambiguidade criado pelas batidas felizes e dançantes e pelas letras melancólicas sobre um amor perdido e como lidar com o término das situações funciona tão bem que pela primeira vez eu realmente senti vontade de prestar atenção nas letras do Cut Copy, que antes eram sufocadas pela parte instrumental. São em faixas como “Airbone” e “Memories We Share” que Whitford mostra que o Cut Copy continua se inspirando nos grandes hits dos anos 80 em que era comum misturar letras tristes com batidas extremamente dançantes.

Haiku From Zero é a essência dos anos 80, do verão tropical e do Cut Copy. O Cut Copy sempre foi sobre recriar sons e fazer releituras. O Haiku From Zero é o “copiar e colar” perfeito. É a prova de que se existisse, e talvez exista mesmo, uma lista para sucessores do New Order nos tempos atuais, o Cut Copy estaria disparado em primeiro lugar.

OUÇA: Todas.

Rostam – Half-Light


Antes de qualquer coisa: eu sei que Half-Light é o projeto solo do Rostam, ex-Vampire Weekend, e eu imagino o quão importante foi lançar o primeiro projeto solo e sair da banda para se dedicar a outros projetos como produtor. Mas mesmo assim, o que eu senti ouvindo esse álbum foi que o Rostam não saiu do VW, ou o VW não saiu do Rostam. Já aviso que esse texto vai ter mais comparações entre os dois do que você gostaria de ler.

Durante todo o processo de ouvir o álbum para escrever essa resenha eu percebi o quanto a gente pode influenciar os outros, principalmente nossos amigos mais próximos, em questão de gostos, jeito de se portar e como fazer as coisas. Isso já era uma questão evidente para mim no meu circulo de amizade, onde grande parte está envolvido com algum tipo de arte e é muito fácil perceber a influência de traços e estética nas obras produzidas.

Half-Light não é um álbum ruim, não mesmo, ele só é esquisito de ouvir. Esquisito talvez justamente por parecer TANTO com algo que o Vampire Weekend produziria, e por fazer você ficar esperando a voz do Ezra (Koenig, vocalista do VW) cantar alguma letra sobre tweed ou campus de faculdade ou algo do tipo que remeta à elite de Nova York.

Antes que você pense “Ah, mas parece um álbum do VW porque era o Rostam que produzia os álbuns deles etc”: Não. Esse poderia sim ser um motivo mas não se encaixa nesse caso, justamente porque o Rostam já produziu material para outros artistas (HAIM, Carly Jae Rapsen, Charli XCX, Frank Ocean, Declan McKenna, entre outros) e nenhum desses materiais tem essa semelhança assustadora com os trabalhos do Vampire Weekend.

É evidente que Half-Light é bem menos upbeat do que os álbuns do Vampire, mas ainda assim parece muito com as músicas mais lentas da banda. Apesar de tudo isso, felizmente, a semelhança fica apenas na sonoridade e nos vocais (já que maioria dos backing vocals do VW eram feitos pelo Rostam). As letras, apesar de ele ter trabalhado como coautor com o Ezra, não são o material característico do Vampire, são menos poéticas e trabalham menos com a linguística… Finalmente um traço de identidade no álbum que nos faz perceber que esse realmente não tem o Koenig envolvido.

Para falar a verdade, Half-Light é bem maçante, é um tipo de álbum que não dá para ouvir seguido, é aquele álbum que você escuta, vai achando suas preferidas e serão essas que você vai ouvir sempre. Algumas, na verdade muitas, faixas são experimentais demais e é cansativo ouvir até o final. Mas algumas se salvam, como “Half-Light” (feat com Kelly Zutrau, que canta um dos hinos da bad “Don’t Wanna Be Your Girl”) “Rudy” e “Warning Intruders”.

O sentimento final que eu tenho quanto ao álbum é de espera. Toda vez que eu escuto alguma música fica aquela ansiedade de quando vai entrar a voz do Ezra, você fica esperando, esperando, esperando, mas não vem, e não vai vir, afinal é um álbum solo, não tem mais ninguém. Eu entendo que o Rostam queria sair da banda, ter novas experiências e se descobrir como artista fora da bolha do Vampire Weekend, mas isso ainda não aconteceu. E está tudo bem, falhar é normal, sabemos o quão difícil é ter essa separação de identidade e ‘eus’ logo de cara. Quando você trabalha com pessoas que te influenciam muito e te ajudam a construir o seu ‘eu’ fica difícil se distanciar e criar algo novo e totalmente diferente do que você e o seu círculo estava acostumado.

Acredito que tudo que eu escrevi aqui vai fazer com que você que está lendo essa resenha não tenha muita vontade de ouvir o álbum em questão, mas não me leve tão a sério… Meu trabalho aqui é criticar, e o álbum merece uma chance, apesar dos pesares. Como eu disse antes, não é um material ruim. Só é esquisito, mas vamos lá né… esquisito pode ser bom também.

OUÇA: “Warning Intruders”, “Bike Dream” e “Gwan”

Toro y Moi – Boo Boo

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“Don’t try to make it more than it is”. É com essa frase da faixa “Don’t Try” que o vocalista Chaz Bear consegue definir perfeitamente o quinto álbum de estúdio do Toro Y Moi. Boo Boo é, até agora, o álbum mais pessoal e calmo dele, tão calmo que quase beira a catarse se você não estiver atento à mudança das faixas. Inclusive, é completamente plausível pensar que todas as músicas do álbum poderiam tocar baixinho em um elevador ou na sala de espera de um consultório de dentista. Mas, ao mesmo tempo, elas também se encaixam naquele final de uma festa em casa quando todos já estão largados no sofá enquanto reclamam que a tarifa dinâmica do Uber está cara demais para voltar para casa.

A dualidade do álbum está presente até nas letras, fica a mercê de quem está ouvindo decidir se Chaz está falando do pré-término de um relacionamento ou se a última cartada já foi dada. Sendo sobre um coração já partido ou prestes a partir é evidente que existe um sentimento “preso” no álbum, e esse sentimento conversa com todos os arranjos impecavelmente oitentistas. E essa acaba sendo a graça do álbum: ele não pertence ao presente.

Boo Boo é claramente uma viagem no tempo. A faixa “Labyrinth” e “You and I” são a prova perfeita disso e acabam sendo algumas das pérolas do álbum junto com “Mirage”, que por sua vez parece ser uma amostra de como seria se o Daft Punk se juntasse com o Neon Indian.  Entretanto, mesmo com todo o sentimento presente e de ser um álbum completamente pessoal, algumas músicas como “Mona Lisa” e “No Show” poderiam muito bem trabalhar de modo mais banal e estar no trailer de algum filme dos anos 80, ou até mesmo na trilha sonora de uma série como Stranger Things.

Boo Boo é ambíguo em todos os aspectos. Não é uma masterpiece, mas talvez seja. Talvez seja o melhor álbum do Toro Y Moi até agora, mas talvez não seja. Fica a critério de cada um. Mas, independentemente do que você sentir quando ouvir o álbum, mantenha na cabeça o que eu disse no começo do texto: não tente fazê-lo ser mais do que ele já é. Sendo bom ou ruim esse é o máximo que você vai conseguir do Toro Y Moi por enquanto, então só deixe tocar e aproveite a catarse.

OUÇA: “Labyrinth”, “Girl Like You” e “Mirage”

Bleachers – Gone Now

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Quando uma das suas bandas favoritas anuncia o famoso “comeback” é normal que as suas expectativas sejam jogadas lá para o alto. As minhas com o Bleachers foram tão alto que eu jurava que teria que colar meus pés no chão para escrever essa resenha. Mas não foi necessário.

Se a “maldição do segundo álbum” realmente existe ela pode ser representada pelo Gone Now, o segundo álbum de estúdio do Bleachers. Eu não sei se essa afirmação é culpa minha, por ter criado expectativas muito altas, ou se é do Jack Antonoff, vocalista/compositor/produtor/faz tudo do Bleachers, por ter feito grande parte dos fãs (e pessoas num geral) cair na conversa de que esse seria o melhor álbum do ano, ou pelo menos o melhor da banda.

Gone Now é morno. É aquele copo de leite que você colocou no microondas tempo suficiente para esquentar mas quando você coloca o Nescau e mistura ele ainda está meio gelado meio quente, uma coisa esquisita. Não chega a ser um álbum ruim, longe disso, mas também não traz aquela sensação de realização, uma euforia e vontade de cantar até seu pulmão explodir, que o antecessor, Strange Desire, consegue passar em todas as músicas.

A impressão que fica é que Antonoff queria TANTO se provar como músico solo, talvez para se distanciar da imagem de produtor pop que caiu em seu colo depois do lançamento do 1989 da Taylor Swift, que o tiro acabou saindo pelo lado errado. Gone Now tem músicas ótimas, como “Hate That You Know Me” e “Everybody Lost Somebody”, mas também tem um revival de uma jogada típica do Bleachers e que dessa vez acabou ficando forçada e chata: a repetição de partes específicas de uma única música, como se fosse um sample dele mesmo. Fazer isso é ok, e até legal em alguns casos, mas não em mais de 4 faixas diferentes. Isso deixa quem está ouvindo o álbum no shuffle muito confuso, já que maioria das músicas parecem ser a mesma.

Infelizmente o desejo de um álbum melhor, ou tão bom quanto o Strange Desire vai permanecer, junto com a torcida de que o nosso amigo Jack traga para o projeto do Bleachers toda a dedicação que ele jogou no 1989 e no Melodrama (álbum da Lorde em que ele leva o crédito de coprodutor e coautor). Eu me lembro muito bem do show do Bleachers que eu assisti, eu cantei cada palavra até a minha garganta ficar rouca, porque elas significavam muito, era quase que um manifesto do final da minha adolescência. Mas agora, 3 anos depois, tudo que posso cantar é “Goodbye”, “I Miss Those Days” e “I’m Ready To Move On”.

OUÇA: “Hate That You Know Me”, “Everybody Lost Somebody” e “Don’t Take The Money”.

Wavves – You’re Welcome

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A sensação de liberdade, depois de se passar certo tempo preso em alguma situação, pode ser renovadora. O Wavves realmente parece leve, revitalizado, agora que lançou seu sexto álbum com selo próprio, Ghost Ramp, depois do período conturbado com a antiga gravadora. Mas, toda essa liberdade que uma gravadora própria proporciona, é uma benção ou uma maldição?

Definitivamente, não responder para ninguém trouxe um novo leque de possibilidades. Ter total controle criativo do material lançado foi como uma injeção de adrenalina: muita euforia e muitas ideias. O sexto álbum de estúdio da banda, You’re Welcome, é eclético, bagunçado e vibrante, mas funciona assim. É uma bagunça boa e é compreensível, muitas vezes estamos animados demais para criar algo novo e acabamos nos atropelando e fazendo coisa demais em meio a tantas possibilidades. Acontece com todo mundo, mas o importante é se o resultado é bom ou não.

No caso do Wavves o resultado foi positivo. O som da banda não parecia tão vivo e tão “surf” há tempos, e é bom saber que eles estão empolgados em fazer música de novo. Entretanto, algumas faixas como “Come to the Valley” e “Under” não se encaixam nessa categoria por serem quase como aquele almoço em que você mistura tudo que tem na geladeira e no final não cai muito bem. Muita mistura de estilos, batidas e efeitos faz com que essas duas músicas, em especial, sejam tão confusas que não é nem possível ouvir até o final.

You’re Welcome é bom. Mas é só isso. Ainda falta a banda se acostumar com a liberdade conquistada e aprender a trabalhar melhor com ela. Eu não quero citar aquela famosa frase de super-herói, que diz alguma coisa sobre grandes poderes e responsabilidades, para não ficar clichê, mas acho que deu pra entender né? You’re welcome, Wavves.

OUÇA: “Daisy”, “Stupid In Love” e “Dreams Of Grandeur”