Julia Jacklin – Crushing



A Julia Jacklin é uma moça australiana de 28 anos, no momento dessa resenha, que você talvez nunca tenha ouvido falar. E eu sinto pena de você por seus ouvidos nunca terem cruzado o caminho dela, caso seja essa a sua situação (corrija-a imediatamente). O seu primeiro álbum, Don’t Let The Kids Win, apareceu em 2016 e não fez uma legião de novos fãs surgir para a moça naquele momento. Crushing aparece agora, em 2019, com a Jacklin em sua base de folk, sólida e cativante, destacando elementos mais pesados e interessantes que antes estavam tímidos no meio de um som com algumas camadas de sujeira.

Crushing mostra uma Jacklin fazendo um som com um ar mais polido e infinitamente mais preparada para colher os frutos que esse álbum vai render (e já está rendendo, haja visto as turnês com datas esgotadas em diversos locais do mundo, os convites para posições-chave em festivais, o lugar elevado nas paradas de sucesso da Austrália e as boas notas dadas pela crítica especializada), versando de maneira mais forte, poderosa e cheia de sua personalidade sobre problemas de relacionamentos (sejam eles amorosos ou familiares) com um toque agridoce de guitarras com uma bateria ritmada.

Na questão musical, esse segundo disco acaba não entrando em méritos muito diferentes do que ela fez no seu primeiro álbum. As guitarras estão aqui mais presentes do que no outro registro, mas é o folk interessante misturado com o indie pop cativante que deixa tudo mais aprazível. O ponto alto; a cereja do bolo, talvez, seja a voz suave da moça, completando tudo com uma maestria significativa. Crushing chega no primeiro trimestre e já desponta facilmente como um álbum que certamente veremos em listas independentes por aí, em posições de destaque.

Crushing é um álbum sensível, mas sem soar melodramático e carregado. A sua sensibilidade reside na cadência leve, mais ainda assim acelerada e o ressoar das guitarras em músicas como “Pressure To Party”; também aparece com facilidade no agudo segurado da voz doce e nas batidinhas leves de bateria em músicas como “Turn Me Down”. Ele é gostoso de ouvir em dias chuvosos e cinzas, mas também tem uma aura ensolarada que o coloca perfeitamente para um dia fresco. Sua leveza é o seu principal trunfo e quando menos percebemos já chegamos em “Comfort”, querendo repetir essa viagem dos seus quase quarenta minutos.

No fim das contas, Julia Jacklin conseguiu nos entregar um álbum com uma consistência tremenda, que não se perde e entrega um pacote completo e tocante. Começa pequeno e acanhado em “Body” e vai crescendo música após música. Julia soube entender aonde tinha entregado pouco em Don’t Let The Kids Win, apara aqui as pontas soltas e chega com os dois pés no peito com um trabalho autoral gigante e marcante.

OUÇA: “Pressure To Party”, “Don’t Know How To Keep Loving You” e “You Were Right”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | LE CORPS MINCE DE FRANÇOISE – Sad Bangers

Apesar de nunca terem oficialmente parado de lançar coisas novas, a dupla da Finlândia não lança algo em duração completa desde 2011. São por volta de sete anos de diferença entre o primeiro álbum e esse segundo, mas a animação e a música boa continuam vivas aqui como eram lá – Love & Nature com sua icônica capa de ovo frito apareceu em minha lista de melhores do ano, inclusive. Sad Bangers não é exatamente algo que soe tão fresco e interessante quanto o Love & Nature, mas tem sintetizadores bem colocados com letras feministas, pessoais e muito necessárias para o momento em que vivemos, deixando o disco temporal e propício, mesmo que lançado no susto.

OUÇA: “Another Sucker”, “Thank God I Didn’t Get To Know You At All” e “Glitter”


09 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


08 | VANCE JOY – Nation Of Two

O Vance Joy tem tudo para ser ídolo de 8 em cada 10 garotinhas indies fofas. E isso não é ruim. Vance Joy faz parte de uma entoada de artistas que está usando o folk de maneira a se aproximar do pop. Nation Of Two chega para desprender o australiano do seu maior hit até agora – “Riptide”, do primeiro disco lá de 2014 – e traz uma nova coleção de hits bastante chicletes para você cantarolar junto. Nation Of Two tem melodias fortes e cativantes e, no fim das contas, é um álbum bastante gostoso de ouvir e nada muito além disso, nada muito genial, nada com letras inteligentes, apenas um álbum de folk que tem os elementos certos para fazer do disco algo concreto e interessante.

OUÇA: “Call If You Need Me”, “We’re Going Home”, “Saturday Sun” e “One Of These Days”


07 | CONFIDENCE MAN – Confident Music For Confident People

Eu adoro descobrir bandas do nada. Confidence Man é um exemplo disso. A banda é desconhecida do grande público, mas esse primeiro álbum é uma coletânea de pérolas da melhor estirpe. Primos longínquos do Cansei de Ser Sexy e do Natalie Portman’s Shaved Head, o Confidence Man faz música séria com cara de escrachada (ou seria o contrário?) e consegue cativar com batidas simples e letras toscas.

OUÇA: “Try Your Luck”, “Don’t You Know I’m In A Band” e “Boyfriend (Repeat)”


06 | CHVRCHES – Love Is Dead

Perdi um pouco a vontade de Chvrches depois de não ter apreciado tanto assim o segundo disco do trio, o Every Open Eye e cheguei a pensar que eles provavelmente não lançariam outra coisa tão boa ou melhor que o The Bones Of What You Believe. Ainda bem que eu estava enganado e o Chvrches entrega pra gente agora em 2018 o Love Is Dead, terceiro disco da carreira e com músicas que figuram, facilmente, entre as melhores do trio. Com uma entoada mais puxada para o pop e com uma presença de sintetizadores não tão marcantes, o Chvrches se apoia muito mais na voz de Lauren do que em todo o resto, criando um som bem distante do anterior e um pouco próximo do primeiro álbum.

OUÇA: “Graffiti”, “Get Out”, “Forever” e “Heaven/Hell”


05 | NATALIE PRASS – The Future And The Past

Foi quase que o homônimo disco de estreia da Natalie Prass apareceu na minha lista de melhores do ano lá em 2015. Com sua voz pitoresca no maior estilo musical da Disney, Natalie abandona um pouco essa persona fofinha e segue como um mulherão poderoso em The Future And The Past, revelando músicas que figuram, facilmente, nas melhores do ano. O que faltou para o primeiro disco aparecer numa lista de melhores do ano aparece de sobra aqui. Prass apara com folga e leveza as pontas soltas e faz um som com um ar menos etéreo e mais focado no indie pop cativante que ela chegou a fazer em músicas como “Bird Of Prey”, colocando a cantora num patamar próximo de contemporâneas como Courtney Barnett, Lianne La Havas e NAO.

OUÇA: “Oh My”, “Shourt Court Style”, “The Fire” e “Sisters”


04 | CAROLINE ROSE – LONER

LONER tem uma cara de primeiro disco, mas não é a primeira empreitada da interessante Caroline Rose. Depois de não ter muita atenção lançando álbuns que beiravam o country, a moça dos EUA decidiu inovar e repaginou sua carreira. LONER tem músicas escrachadas, no estilo historinha, rápidas e certeiras. É um com um humor ácido que Rose cativa uma certa audiência com seu disco, mas ainda não está fadada a ser descoberta pelo grande público, infelizmente. A pérola desse terceiro álbum da cantora parece inaugurar uma nova chance de uma carreira interessante e empolgante.

OUÇA: “More Of The Same”, “Jeannie Becomes A Mom” e “Soul No.5”


03 | GEORGE EZRA – Staying At Tamara’s

Depois de “Budapest” ficou díficil pensar que o George Ezra conseguiria se afastar de uma música tão popular. O resultado e a guinada para outra direção demoraram menos do que a gente esperava. Staying At Tamara’s é o segundo disco do jovem da Inglaterra e é muito mais bem preparado, certeiro e interessante do que o primeiro álbum que revelou o hit, mas ainda assim dentro do seu folk original. Há aqui algo muito mais sólido e bem feito do que o debut, que elevam a atmosfera do álbum em patamares que não pareciam ser conquistáveis por alguém da estirpe de Ezra. Com um disco desses, é fácil falar que agora o rapaz tem cadeira cativa no hall de grandes vozes da música britânica.

OUÇA: “Pretty Shining People”, “Get Away”, “Shotgun” e “Paradise”


02 | THE VACCINES – Combat Sports

Assim como o primeiro lugar, o Vaccines demorou para lançar algo tão interessante quanto o primeiro disco, mas dessa vez acertou a mão em cheio. De banda querida da NME em 2010 e 2011 a um desastre de 2012 em diante, a banda do Reino Unido acaba mostrando um som mais rápido e inteligente em seu quarto álbum, o digno Combat Sports de 2018. Justin e seus parceiros aparecem de cara mais limpa, renovados e com um hiato mais considerável entre discos – o último tinha sido em 2015 – o que deixa as coisas mais frescas e bacanas para a banda. Talvez o mundo não aprecie bandas nesse estilo tanto mais quanto apreciava lá em 2010, mas o Vaccines está voltando a fazer algo interessante e merece retomar sua coroa de volta de guitar band mais interessante da década.

OUÇA: “Put It On A T-Shirt”, “I Can’t Quit”, “Your Love Is My Favourite Band”, “Out On The Street” e “Take It Easy”


01 | MGMT – Little Dark Age

O MGMT demorou três álbuns para fazer outra coisa interessante. Demorou, demorou, mas fez com gosto. Little Dark Age não tem quase nenhum defeito e aponta o duo novamente para uma estrada cheia de oportunidades e de esperança. A banda voltou a figurar em espaços importantes em grandes festivais, fez uma turnê exaustiva ao redor do globo com as músicas novas, apareceu em programas de TV com uma roupagem mais interessante e cativou logo no primeiro single. Órfãos do Oracular Spectacular que esperavam algo tão bom quanto esse primeiro álbum podem ficar mais sossegados agora e torcer para que eles não percam a mão, novamente.

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die” e “Me And Michael”

Alessia Cara – The Pains Of Growing


A Alessia Cara cresceu, bixo. E, é claro, a Alessia Cara lançou um álbum sobre crescer, o famoso álbum “coming of age” que muita gente que começa a carreira cedo acaba fazendo em seu segundo ou terceiro disco ou ainda mais pra frente. Vimos isso recentemente com a Adele ou com o Vaccines, mas o que não faltam são exemplos de bandas ou artistas que suportam o peso da idade escrevendo sobre ele e fazendo música em cima dessa fase da vida. The Pains Of Growing não fica longe do melodrama que muita gente passa ao crescer e mudar de uma juventude caótica para uma fase adulta que precisa tomar rédeas de situações inéditas.

Aqui, Cara vai mais para o reggae e o folk, abandonando um pouco o pop e o R&B que deixaram ela tão famosa no primeiro disco – e isso, talvez, seja a primeira das falhas. A canadense abusa do violão e da sua voz que combina perfeitamente com esse tipo de som, mas não deixa essa melodia tão confortável para nossos ouvidos, criando músicas, por muitas vezes, sem muito diferencial e sem muito potencial para nos conquistar como aconteceu no seu primeiro disco – Know-It-All tem tanta coisa que é apaixonante a primeira ouvida que é difícil escrever sem parecer uma lista infinita.

Por ser longo, The Pains Of Growing acaba tendo bastante música dispensável, então, deixando o miolo do álbum bastante pobre e prolixo, o que faz o álbum se arrastar em pontos bastante críticos para que a audiência se mantenha constantemente cativada. A trinca “All We Know”, “A Little More” e “Comfortable” são bastante difíceis de aguentar, com Cara se arriscando em coisas estranhas para ela. “Nintendo Game” retoma um pouco o ritmo e entrega uma das músicas mais divertidas do disco.

Em resumo, The Pains Of Growing coloca a Alessia Cara com um álbum mediano e que não vai ter tanto burburinho da mídia especializada – além de ter sido lançado numa época ruim, foi abafado pela estrondosa popularidade do The 1975 com seu terceiro disco. Falar sobre a adolescência deu certo no primeiro álbum e, claramente, poderia ter dado certo aqui falar sobre o crescimento, mas Alessia Cara peca em muitos momentos para tornar o álbum tão cativante quanto o anterior. A vida adulta pesou bastante para ela e isso acaba ficando nítido na qualidade das músicas.

OUÇA: “Growing Pains”, “Not Today” e “Easier Said”

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”

Miles Kane – Coup De Grace


O doce menino inglês, que já não é tão mais menino assim, chega ao auge de seus 32 anos lançando o seu terceiro disco em carreira solo. Coup De Grace mostra um retorno necessário ao britpop e ao começo da carreira solo do cantor quando ele tinha só 25 anos. A energia do álbum, que se apoia em guitarras certeiras, solos impressionantes e uma inteligência para compor músicas de fácil digestão, é surpreendentemente contagiante e mostra que a juventude pode começar a não aparecer mais nos números, mas, sim, volta a aparecer com todo o gás em sua música.

Miles Kane retorna depois de cinco longos anos com Coup De Grace, que aparece depois de dois álbuns bastante sem-graça: o seu próprio segundo registro solo, lá de 2013; e o último do The Last Shadow Puppets, lançado em 2016. Felizmente, esse disco consegue resgatar muito bem e com bastante sucesso o Kane que conseguiu segurar uma boa parcela de seu público fiel depois de fazer uma dobradinha de lançamentos no final da década passada. Logo após o estrondoso sucesso da sua parceria com Alex Turner, Miles não foi bobo e aproveitou para lançar o seu primeiro registro de estúdio, chamando bastante atenção para seu rock clássico, pitoresco e sua voz interessante, que agora era a única protagonista.

Aqui em Coup De Grace, ao contrário do álbum anterior, Kane mantém uma pose mais séria, mais bem acertada e mostra para o que veio; consegue não fugir muito do clássico do seu estilo (mostrado com gosto em Colour Of The Trap, 2011) e do clássico do rock inglês: dá um toque de memória àquelas músicas antigas do The Who, do Beatles, do The Animals e até mesmo dos Stones, fazendo poucas firulas e tocando muita guitarra em cima de tudo isso. O rapaz aposta também em solos de guitarra, que são muito raros hoje em dia, e repetições de palavras-chave, para fazer valer sua quase-gritaria, em músicas como a própria faixa-título e a acelerada “Silverscreen”.

É bonito ver que o Miles Kane está trilhando sua carreira de maneira a ser o herdeiro do trono da Inglaterra quando se fala de música, no futuro. Sua carreira solo depois do The Rascals e acompanhada de perto pelo The Last Shadow Puppets, seu projeto mais conhecido e em parceria com o Alex Turner, guina de uma maneira interessante nesse terceiro álbum, marcando o rapaz como um dos nomes mais interessantes da cena local que ainda sobrevive do britpop e do clássico indie rock.

Coup De Grace faz justiça ao seu nome, é uma ótima adição à discografia do britânico e mostra uma recarga interessante das baterias da carreira do músico, que volta de um poço que parecia quase sem fundo. A rapidez das guitarras nas horas certas, momentos para palminha e batidinhas do pé no ritmo, além de uma calmaria em horas necessárias, mostram a inteligência e a maestria de Miles Kane em fazer música. Agora boa e de qualidade.

OUÇA: “Too Little Too Late”, “Cold Light Of The Day” e “Something To Rely On”

Florence and The Machine – High As Hope


Depois do insosso e quase furioso How Big How Blue How Beautiful de 2015, Florence Welch retorna, quase como uma surpresa e sem muito alarde, com seu quarto disco de estúdio agora em 2018. High As Hope apareceu repentinamente, sem muito furdunço e sem muitas promessas a serem cumpridas depois do balde de água fria que foi o disco anterior. De qualquer maneira, mesmo sem expectativas e, ainda pior, com o curto intervalo de tempo entre o anúncio oficial e o lançamento, a internet sempre vai à polvorosa quando um álbum da cantora é anunciado – a esperança vai lá pro alto. Não foi diferente com High As Hope.

Não tem como não admitir e não perceber que High As Hope é um álbum cheio de infinitos muito particulares. Esse disco é o qual a Florence mais se separa e distancia de sua Machine, projetando muito de seus desejos e, dessa vez, escancarando muito suas angústias e frustrações. Ela é o centro das atenções, mas sem soar egocêntrica, e não parece se envergonhar disso, soltando-se de uma maneira exemplar. Welch sempre teve um pezinho no quase gospel, com uma voz poderosa fazendo uma presença muito forte em tudo. Dentro desse panorama, High As Hope parece entrar ainda mais nesse mérito, aonde a voz de Florence é, praticamente, o único instrumento necessário para fazer uma música.

Esse quarto disco é muito límpido, muito cristalino e sem muitas camadas e nuances como os outros anteriores – talvez “Hunger” seja a única exceção aqui – e esse é mais um dos motivos pelo qual High As Hope parece bem distante do resto da discografia – um disco muito pessoal e muito intimista e com uma única premissa: colocar a voz de Welch no maior pedestal possível dentro de tudo isso. Num rápido panorama e pente fino pelos discos já lançados, High As Hope parece ser o disco mais sereno e centrado dela. E isso soa como um leve sopro de que podemos ter toda a grandiosidade da Florence retornando muito em breve. O disco tem seus momentos, mas ainda é muito morno e sem muitos instantes memoráveis. A coesão da obra é incrível, mas ainda assim o produto final parece ter algo inexplicavelmente faltando quando se trata de Florence and The Machine.

Em resumo, High As Hope é um leve escombro do que foram os primeiros álbuns, mas é um enorme avanço e sopro de esperança de bons caminhos a serem trilhados daqui pra frente. O disco ressuscita um pouco da sonoridade da voz poderosa da britânica, esquecida e escondida na densidade de camadas de How Big How Blue How Beautiful, dando uma boa renovada para toda sua potência. São em faixas simples como “The End Of Love” que relembramos todo o brilhantismo da cantora, por exemplo, mas ao mesmo tempo temos faixas muito estranhas como “Big God” aonde ela não parece se enclausurar de uma maneira quase claustrofóbica, ou chatinhas como “Grace”, com sua abertura exagerada para o religioso.

Eu sempre fui muito crítico com a Florence porque sei que ela sempre pode mais do que entrega – temos exemplos disso de sobra. High As Hope pode não ser tão grandioso como Lungs ou até mesmo Ceremonials, mas acaba dando uma ponta de esperança de que Florence está voltando para o caminho mais certo para ela: dando mais local para sua voz e centrando mais em uma coisa mais íntima, serena; e menos popular  e mastigada de uma maneira estranha. High As Hope é muito mais facilmente digerido e apresenta uma coesão mais interessante, funcionando muito melhor como disco do que seu antecessor, mas ainda assim precisa melhorar em alguns pontos para que seja um disco genuinamente da Florence, mostrando melhor ainda o seu potencial do que mostra.

OUÇA: “Hunger”, “Patricia” e “100 Years”

Courtney Barnett – Tell Me How You Really Feel


É meio estranho começar falando numa resenha sobre um álbum da Courtney Barnett de como ela amadureceu. Ela nunca fez a pose de garotinha talentosa (até porque tem seus bem trinta anos), mas pra quem acompanha a carreira da moça desde que ela era uma senhora-ninguém nos confins da Austrália e fazia shows para 10 pessoas em cidades minúsculas da Inglaterra e que agora vê uma Courtney Barnett, não muito tempo depois, num segundo álbum concreto, depois de colher inúmeros frutos e turnês bem sucedidas em sua corrida para o estrelado e queridismo (sic), é assim que a gente fala mesmo: a moça cresceu e amadureceu.

Se o primeiro disco continuou o caminho trilhado pelos dois EPs anteriores e que foram reunidos na compilação que começou a jogar os holofotes em cima de Barnett, aqui em Tell Me How You Really Fell vemos um cenário bastante diferente refletido, fatalmente, pelo momento em que a artista se encontra. Barnett se transformou em uma referência e uma querida da cena mundial, tanto que é fácil notar e ouvir a influência direta desse peso que ela leva atualmente, o de ser um nome fortíssimo para o grande público nesse estilo e apenas em seu segundo álbum (aí você entende melhor o ‘amadureceu’).

Além disso, é claro, a influência do seu projeto bem sucedido com o Kurt Vile, lançado no ano passado, parece fazer um pouco de sol aqui em cima de Tell Me How You Really Feel e, quiçá, até apagando um pouco o estilo mais característico de Barnett. Esse segundo disco vê uma artista mais tímida, introspectiva e reprimida do que as suas alçadas anteriores e é um pouco estranho enxergar Barnett sob essa luz e se prestando a esse papel não tão corajoso.

Courtney continua uma letrista impecável, fazendo músicas maravilhosas e casando-as com melodias interessantes e que não mudaram muito em relação ao resto de sua carreira – a guitarra está ali e seu jeito mais falando-do-que-cantando, também. Mesmo assim, Tell Me How You Really Feel não impressiona e não tem tantos momentos brilhantes e sacadas geniais quanto o que se esperava dela (talvez aqui seja o exato ponto de pressão para a musicista e que ela reflete tanto nesse álbum?); e a ausência de músicas que carreguem o peso do nome da australiana e levantem e levem o álbum pra frente é gritante. Não adianta o quanto eu ouça algumas faixas e tente encaixar ela em algo como a Barnett faria, a tentativa é mal sucedida. A própria Barnett chegou a comentar que o álbum (e o seu título) reflete uma situação que veio à tona com a fama e as angústias que esse peso da responsabilidade tão repentina causou.

O disco é parelho, sem muitos altos, com alguns baixos e bem linear – quase apagado. Courtney passa aquele sentimento de que fez um trabalho mediano e entregou só pra se manter aí na ativa, numa coceira insistente de se fazer presente que não parece a deixar sossegar. A entoada workaholic em sua carreira parece ter culminado em um ponto chave: talvez seja a hora de Barnett dar uma descansada de sua imagem e parar de desgastá-la tanto assim em tão pouco tempo. Tell Me How You Really Feel, no final das contas, serviu para mostrar que Barnett não é a deusa que todos pensam e colocam lá em cima: ela também tem suas fraquezas e vulnerabilidades, precisa respirar e precisa descansar.

OUÇA: “Charity”, “Nameless, Faceless” e “Crippling Self Doubt And A General Lack Of Self Confidence”

Brazilian Girls – Let’s Make Love


Eu achei que nunca fosse fazer uma resenha para o Brazilian Girls. Há quase dez anos que a banda lançava o seu terceiro e melhor álbum, o excelente New York City e embarcava numa extensa divulgação do mesmo. Anos passaram e finalmente começamos a ter sinais da banda, mais alguns anos depois e agora temos em nossos ouvidos Let’s Make Love, o quarto disco. E eu estou aqui fazendo a resenha de uma banda que parecia morta há pouco tempo.

Parece que Let’s Make Love, apesar da distância; e do tempo; e do amadurecimento do Brazilian Girls como banda, começa exatamente aonde o New York City parou. Eles ainda estão divertidos, fazendo piadas e contando historietas cheias de picardia aqui e ali, ainda estão misturando uma quantidade gigantesca de ritmos e ainda estão fazendo músicas com uma quantidade ímpar de texturas e nuances, sempre guiadas pela ótima Sabina, vocalista icônica da banda.

Fato é que o Brazilian Girls, apesar de ter seu público fiel e ter sido indicado ao Grammy com o último disco, nunca teve um apelo enorme no meio da música. Seu estilo não é tão acessível até para os fãs mais assíduos da música eletrônica e, às vezes, conseguem beirar um jazz ambient que não faz muito sentido até para quem conhece a banda há um tempo. É difícil de classificá-los numa caixinha dada a sua grande gama de nuances e estilos – e esse é exatamente o diferencial do quarteto. Let’s Make Love é exatamente isso: difícil de ser encaixado em algum rótulo, mas, felizmente e ao contrário dos primeiros álbuns do grupo, de fácil apreciação e digestão – mas eles ainda continuarão sem muito apelo no meio da música.

“Pirates” é a faixa de abertura e já dita o tom do quarto disco: muita alegria e muita celebração por conta do retorno. Conseguimos ver isso claramente em quase todas as faixas e o ritmo de festa e felicidade entoa boa parte das faixas. Até que a banda soube manter o Let’s Make Love coeso e interessante, mas ele é uma verdadeira montanha-russa: ora temos uma faixa incrível como “World Wide Web”, ora vemos uma menos cativante como “Sunny”. Entretanto, vale a pena falar aqui, o Brazilian Girls não faz nenhuma música ruim ou entediante por aqui – eles vão do morno para o excelente em questão de uma faixa ou duas e mantêm esse ritmo muito bem, não fazendo com que o interesse pelo álbum seja perdido ao longo de sua quase uma hora – duração um pouco diferente do habitual nos dias de hoje.

Fatalmente esse álbum não vai aparecer em muitas listas ou menções honrosas por aí como um álbum que revolucionou as paradas, mas é bom ter essa banda e seu preciosismo único de voltas. Eu particularmente acho que essa mescla de ritmos feita de uma maneira tão acessível e que está presente em todo Let’s Make Love fez o retorno do Brazilian Girls ser memorável e muito bom. E o clichê: não demorem para lançar mais um álbum!

OUÇA: “Pirates”, “World Wide Web”, “Let’s Make Love” e “The Critic”

Fickle Friends – You Are Someone Else


Tenho um carinho bastante especial por essa banda. Conheci eles da maneira mais despretensiosa e acessível possível: em um show num festival quase desconhecido que acontece na cidade de Leeds, Inglaterra (a saber: o Live at Leeds). Eles não eram nem de perto uma das bandas que eu estava indo no festival por e nem de perto headliners do dia, mas decidi conferir o show mesmo assim e a paixão foi instantânea: o som cativante e as batidas dançantes eram um frescor extremamente interessante para aquela época. Esse é apenas o primeiro disco do Fickle Friends. Estamos em 2018. O festival que eu fui foi em 2014…

Para bom entendedor, meia sentença talvez baste, mas deixando claro: a escala de tempo é a principal inimiga para uma banda mais voltada para o pop (ainda que esteja bem inserida no indie), como é o caso do Fickle Friends. E essa inimiga foi um pouco impiedosa com a banda de Brighton. Se tem um adjetivo pejorativo que caiba aqui para esse disco é que ele é ‘datado’. E pelo dicionário temos que ‘datado’, em seu sentido desagradável, entende-se como algo fora de moda, ultrapassado e antiquado.

Aí temos o principal problema de You Are Someone Else: o Fickle Friends passou um pouco o prazo de validade de lançar um álbum e acabaram lançando uma coletânea de colagens que, em boa parte do tempo, perde no fator coesão. Isso puxa outro fator que não funciona bem aqui: o álbum fica desnecessariamente longo – o reaproveitamento de faixas antigas acaba jogando o disco para quase uma hora de duração – e poderia ser melhor composto e coerente se reduzido. Mas é curioso ver como essas músicas antigas – que já estão rodando na carreira da banda há um bom tempo – funcionam bem aqui, ainda assim (como “Brooklyn”, “Hello Hello”, “Paris”, “Glue” e “Swim”, por exemplo).

Então, por mais que o Fickle Friends tenha momentos brilhantes aqui nesse álbum, eles acabam ficando numa mesmice estranha e esses momentos se resumem em músicas sem um frescor necessário para uma banda como essa, um pouco repetitivas e sem muita novidade – como era lá em 2014, quando os conheci. As músicas que são novidade para o álbum não adicionam muito – salvo, talvez, por “Rotation” e “Wake Me Up” – e acabam apresentando synths e linhas graves consideráveis, mas pouco memoráveis.

Talvez essa resenha seja lida como um disco que eu tinha grandes expectativas e elas não foram correspondidas. E aí vem à tona o fato de que a culpa – por falta de palavra melhor – aqui é toda minha por colocar as esperanças neles, né? Mas fato é que mesmo entregando um trabalho que eu acho que não seja tão digno deles, o Fickle Friends consegue agradar em vários momentos, só não faz isso da maneira tão brilhante assim que eu estava acostumado. É um bom disco para começar uma carreira, mas ainda falta algo aqui que eu sei que eles são capazes de mostrar.

De qualquer maneira, You Are Someone Else, apesar de ter parado no tempo, é um disco mais do que necessário para a banda ter algo mais sólido e conseguir alçar vôos mais compridos e consolidar ainda mais sua carreira de sucesso. A banda tem aquela cara de que vai conquistar muita coisa ainda e esse cartão de boas vindas é algo preciso. Mesmo que boa parte do álbum tenha perdido seu frescor e soe datado. No final das contas, eu agradeço a conspiração do universo pra ter me colocado na apresentação deles há quase quatro anos e permitir que eles se tornassem uma das minhas bandas favoritas desde então. Apesar dessa estreia ter sido um pouco decepcionante, mal posso esperar para ver qual será o próximo capítulo na vida dessa banda.

OUÇA: “Glue”, “Swim”, “Rotation” e “Brooklyn”

The Wombats – Beautiful People Will Ruin Your Life


Quando você está acostumado com álbuns excelentes vindos de uma banda, com um trabalho bastante dedicado para sair algo incrível para ser apreciado por você, as suas expectativas acabam indo para o alto, automaticamente e sem você querer. Basta apenas ler que determinada banda lançará um álbum em breve (ou até mesmo se preparando para), que seu cérebro já sabe: vai ser bom. Independente de você ter ouvido singles, ter lido notícias, visto fotos ou clipes; ou consumido qualquer outro material relacionado ao lançamento do futuro disco Pois é, esse sentimento pode acabar se provando, às vezes, um grande tiro no pé.

O The Wombats acaba sendo um ótimo exemplo do que eu explicitei no páragrafo anterior. Acompanhando a carreira dos Wombats desde o comecinho lá em 2007, sempre estive acostumado com discos simples, mas excelentes em sua humildade. Um material muito bem trabalhado, com músicas que se conversavam muito bem entre si e ritmos excelentes. Álbuns simples, mas tão cheios de significado e conteúdo, que acabavam ficando ricos em sua beleza. Beautiful People Will Ruin Your Life, quarto álbum dos ingleses, acaba por quebrar um pouco esse encanto.

Esse álbum é mais calmo e acústico do que os anteriores – isso não é ruim. Os sintetizadores foram aposentados e aqui predominam a percussão mais calma e o violão (como em “Lethal Combination” e o primeiro single, “Lemon To A Knife Fight”), além de algumas guitarras reverberando aqui e acolá (como o solo de “Dip You In Honey”) que são todos elementos bastante novos para as músicas mais conhecidas deles. Eles arriscaram dar uma mudada bem de leve em seu som e isso acaba deixando uma impressão meio estranha – algo de errado não está certo aqui!. O Wombats acabou de mexer bem pouquinho em sua fórmula de sucesso, fugir bem pouquinho de sua zona de conforto e acabou entregando um disco que é agradável, mas também, bem pouquinho.

O trio nunca teve letras e harmonias elaboradas demais (apesar de suas metáforas ótimas), jogos de instrumento mirabolantes e sacadas geniais não é com eles; e sempre foi nessa simplicidade que eles acabavam conquistando os nossos ouvidos – não é a toa que os três álbuns anteriores sempre apareceram por aí nas listas de melhores álbuns do ano. Muito melhor um arroz e feijão bem feito do que um prato de cozinha gourmet super enfeitado que não supre o que você precisa, certo? Pois é. A fórmula deu certo muito bem até então, mas aqui parece que faltou tempero e aquecimento na entrega desse prato e o Wombats, ao esquecer o sal e um pouco de sua animação, deixa suas músicas um pouco sem graças, bastante cansativas e repetitivas.

No fim das contas, Beautiful People Will Ruin Your Life é uma bela surpresa, mas de maneira não tão boa quanto a gente esperava – e de maneira automática, aquela que o cérebro faz por associação: álbuns bons, continuarão bons. É mais um lembrete e choque de realidade que até mesmo essas bandas mais redondinhas e com carreiras impecáveis conseguem escorregar e lançar deslizes de vez em quando, normal, faz parte do jogo. Esse quarto álbum não é tão ruim quanto eu possa estar fazendo parecer ao escrever tudo isso, mas é morno e insosso, como eu mesmo disse anteriormente e é esse o ponto: não crie expectativas, mesmo que elas sejam automáticas.

OUÇA: “Lemon To A Knife Fight”, “Black Flamingo” e “White Eyes”