The Darkness – Easter Is Cancelled



Em seu primeiro conto publicado numa revista comercial, Late Night, David Foster Wallace argumenta “se você sabe de antemão que vai ser feito de ridículo, então você está um passo à frente, porque você pode fazer a si mesmo de ridículo ao invés de deixar ele fazer isso com você”. A ideia talvez seja o melhor resumo do processo criativo que orientou a banda britânica de hard rock The Darkness na composição da maioria de seus discos, e continua sendo verdade para o último lançamento do grupo: Eastern Is Cancelled.

Sexto disco de estúdio da banda, Eastern Is Cancelled compreende 53 minutos de músicas divididos em 14 músicas fundadas numa mistura de composições firmemente estabelecidas no campo do hard rock mais comercial e humor autoconsciente e às vezes autoindulgente. Muito da composição do The Darkness usa – e conscientemente – os clichês sonoros do hard rock mais farofa, inclusive os exagerando, então julgar a qualidade do trabalho da banda depende mais de analisar a qualidade das letras.do que as harmonias. 

Dentro desses critérios, Eastern Is Cancelled é um disco competente. Jogando com suas forças (às vezes até demais) o The Darkness consegue fazer o que se espera de um disco da banda. É essa a maior qualidade da  banda, mas também é sua principal fraqueza, tanto como artistas como nessa obra especificamente.

O disco não é sem seus pontos fortes, seja com “Rock And Roll Deserves To Die”, faixa que abre o disco e tem interessantes influências de folk no violão, além da teatralidade da voz de Justin Hawkins e do som dramático e triunfante da percussão na segunda metade da música, “How Can I Lose Your Love”, uma power ballad que atende todas as tropes do gênero, de novo dando destaque para a performance vocal aguda e lamuriosa de Hawkins e o solo rápido e agressivo, “Heart Explodes”, uma metabalada em que Hawkins explora a dificuldade de escrever uma música de amor e a subsequente separação em que ele reflete sobre a vida de solteiro enquanto sua ex-parceira abre um asilo para palhaços (?), a faixa tem um momento interessante no final, quando crescendo com ares de hino triunfante surpreende.

Outros pontos interessantes – mas não muito – ficam por conta de “Deck Chair”, outra balada (são muitas no disco) dessa vez sobre a perda de uma cadeira e agora com influências de valsa e “Sutton Hoo”, com uma levada country e contando sobre as experiências com abdução alienígena dos moradores de um pequeno vilarejo. 

Contudo, o disco também tem falhas, que infelizmente superam suas qualidades, e a principal e mais geral delas que pode ser estendida à maioria das faixas é: clichê. Seja nos riffs clássicos do hard rock em faixas como “Eastern Is Cancelled” e “Choke On It” ou na imensa e repetitiva quantidade de baladas que não conseguem ter personalidade o suficiente para se destacar no catálogo, a banda parece satisfeita em aproveitar e reciclar as fórmulas clássicas do gênero adicionando só humor o suficiente para reduzir qualquer expectativa que poderia se ter sobre o trabalho e deixar claro que a banda em si não leva o que faz tão a sério assim. 

O tempo de execução também age contra o disco, e 53 minutos parece um tempo longo demais para ver os mesmos tipos de piadas e personagens desfilarem de novo e de novo pelas letras das músicas.

Em resumo, não faz muito sentido ouvir a banda se você não gosta do estilo, porque as composições que você vai encontrar são bem comuns e o humor das letras é o ponto forte da banda.

Como Foster Wallace discorre no conto que abre esta resenha, saber que você vai ser feito de ridículo é uma vantagem poderosa que tira do seu interlocutor a chance de rir de você porque você tem a oportunidade de fazer isso antes dele. Em especial num gênero de fórmulas tão performáticas e exageradas quanto o hard rock, isso pode ser efetivo, e quando o The Darkness surgiu, a banda conseguiu destaque justamente pela forma descarada com que assumia o absurdo do estilo. Ao mesmo tempo, não se levar a sério demais também pode ser uma fraqueza que impede o artista de se propor algo mais ambicioso e o deixa confinado a repetir a piada constantemente.

E uma piada repetida demais ou por tempo demais acaba sempre perdendo a graça.

OUÇA: “Rock And Roll Deserves To Die”, “How Can I Lose Your Love”, “Heart Explodes” e “Sutton Hoo”

Temples – Hot Motion



Uma frase que circula pela internet, comumente atribuída a Sartre, afirma que não importa o que fizeram de você, o que importa é “o que você faz do que fizeram de você”. A frase, em que pese a indefinição sobre a autoria, resume assim o princípio de autodeterminação. Nenhum indivíduo é gerado espontaneamente, todos possuem uma origem que os antecede e afeta o seu desenvolvimento futuro. Determinar-se, então, é a capacidade de assumir a agência deste processo e ser responsável pelo próprio destino. Essa é a primeira reflexão provocada por Hot Motion, último trabalho de estúdio da banda britânica Temples.

Terceiro disco do grupo, Hot Motion, vem dois anos depois do último trabalho de estúdio da banda e compreende 45 minutos divididos em onze músicas. No disco, o trio inglês mantém os pés firmes nas suas origens, sendo fiel à mistura de indie e do rock sessentista (especialmente The Kinks) ao mesmo tempo em que explora elementos de outros estilos musicais, em especial art rock e post-punk. O resultado é uma sólida obra que mistura fidelidade e experimentação não se limitando nem a um nem a outro extremo para alcançar um resultado novo e refinado a partir dessas fundações.

As composições do disco são refinadas, explorando a adição precisa de elementos à base estabelecida da estética da banda para construir arranjos ora grandiosos e triunfantes, ora esquivos e cáusticos. Com uma presença que é quase um efeito de persistência de visão a banda se move pelas paisagens sonoras do disco sempre ondulando entre forçar e se recolher, nunca parando num lugar só por tempo o suficiente para que nós possamos capturá-la.

Talvez o principal elemento do disco (e o mais constante) seja as mudanças de andamento das músicas. Por ser tão básico, mesmo quando o ouvinte já se acostumou com esse jogo de sombras da banda, ainda não é o suficiente para que ele não seja surpreendido com os destinos a que a banda pode conduzi-lo. Nós sabemos que o caminho vai mudar, mas não sabemos para onde, e onde é a parte principal do trajeto. Mesmo quando você espera a queda, é impossível conter as reações físicas da perda de gravidade.

Mas só a mudança de andamento e as variações de tempo, composição e elementos das músicas não seriam o suficiente para fazer de Hot Motion um grande disco. Mais do que “o que”, o essencial é o “como”.

Seja com as guitarras ecoando em acordes cristalinos e os  corais que dão à composição grave e terrestre da faixa título “Hot Motion”; com a marcha de bateria e o groove de baixo que conduzem “You’re Either On Something” sob vocais com uma distinta influência de Beatles ou com a robustez da composição de “Holy Horses”, que mesmo sem um elemento tão distintivo, tem presença que exige ser notada, o Kinks constantemente apresenta ao ouvinte algo de novo que enriquece a(s) sonoridade(s) explorada no disco.  A variedade continua com a melodia serpenteante de “The Howl”, em que a bateria de fanfarra volta a aparecer, agora acompanhada de perto pelo vocal de James Bagshaw numa performance que tem quase a força apoteótica de um hino, passando por “Not Quite The Same” em que o groove de baixo e bateria faz dela a música mais dançante do disco ao mesmo tempo que os vocais em eco dão à música um efeito etéreo e encerrando em “Monuments”, que coincidente encerra o disco, num testemunho da incrível capacidade de Bagshaw de envolver o ouvinte com seus vocais e sua capacidade de criar refrões memoráveis.

Outras faixas excelentes do disco são “The Beam”, “Step Down” e “Context”, que enquanto menos distintas do que as citadas até aqui, merecem o reconhecimento pelo refinamento do trabalho de composição da banda.

Naturalmente (para quem fez as contas até aqui), nem todas as faixas do disco foram dignas de elogios, e a obra tem seus pontos fracos. Em particular, a dobradinha “It’s All Coming Out” e “Atomise”, enquanto não são particularmente ruins, são decididamente as faixas com menos personalidade e riqueza do disco e, ao mesmo tempo, as que perdem mais força em comparação com o resto do conjunto.

No geral, o novo disco do Temples é um sólido, refinado e variado trabalho, que consegue com sucesso explorar seu campo de referências ao mesmo tempo que mantém sua fundação firme e inabalável. Em seu terceiro trabalho, o Temples mostra que não é preciso reinventar a roda para fazer a terra girar.

OUÇA: “Hot Motion”, “You’re Either On Something”, “Holy Horses”, “The Howl”, “Now Quite The Same” e “Monuments”

Pharmakon – Devour



No universo de gêneros musicais que tendem ao experimental, como o noise, o papel da música como meio costuma sofrer uma inversão. Mais do que condutora de uma narrativa eloquente, nesse estilo, a música age como um gatilho, provocando no ouvinte sensações mais primitivas do que sentimentos ou pensamentos racionais, quase reações instintivas que se originam das distorções, efeitos e rupturas que esse gênero musical explora. Entretanto, essa direção artística pode ser uma faca de dois gumes, por que se de um lado, um experimento bem sucedido causa marcas duradouras no espectador que podem transcender até sua capacidade de as explicar de maneira razoável, um experimento mal sucedido falha até mesmo em provocar uma sensação ruim, chegando perigosamente próximo de uma experiência inócua, nula. Um exemplo desse risco pode ser encontrado em Devour, disco mais recente da artista de noise Pharmakon.

Quarto disco de estúdio da artista nova-iorquina, Devour vem dois anos depois do último projeto, Contact, e compreende 36 minutos de noise divididos em cinco faixas. Explorando relevos sonoros que passam por distorções, modulações vocais e sintetizadores, Pharmakon procura construir uma atmosfera opressiva e sufocante no disco, alcançando com isso resultados variados, mas que em sua maioria caem no campo da repetição e da monotonia.

Uma vez que a orientação artística de artistas de noise com essa abordagem tende a procurar causar desconforto e incômodo (e obras como Virgins, de Tim Hecker, Excavation, de Haxan Cloak, Black Vase, de Prurient, Replica, de Oneohtrix Point Never e Puce Mary surgem como excelentes exemplos de obras que exploram esse estilo), muito do sucesso do projeto vai depender ou da capacidade do artista de surpreender seu público ou de construir ambientes que provoquem a sensação de inquietação desejada, e Devour falha nas duas frentes, não sendo agressivo o suficiente para atacar a audiência e muitas vezes retornando a composições seguras que se resolvem muito próximas da monotonia.

Seja nas influências de industrial e a percussão em longos intervalos de “homeostasis”, os graves pulsantes e a sirene estridente e ondulante de “spit it out”, os guinchos e os efeitos distorcidos da voz de Pharmakon em “deprivation”, pouco na composição da obra parece ir além da exploração rasa de efeitos sonoros que tem a intenção de tirar o ouvinte da zona de conforto. Mais do que isso, a duração excessiva das faixas (a maioria passando de seis minutos) para composições de tão pouca duração e com uma agressividade tão controlada torna o resultado final especialmente cansativo e monotônico. Como uma ideia morna que apesar disso foi repetida à exaustão.

Obras de noise carregam um potencial grande de serem marcantes, justamente por sua motivação artística de propor algo desconfortável, que foge às referências seguras do ouvinte. Para isso, é essencial que as composições sejam provocadoras, de preferência dirigindo seus golpes de posições inesperadas. Devour não é um bom exemplo de nenhuma das duas coisas, mas com otimismo, quem sabe a segurança da obra leve o ouvinte a procurar outras, que o ameacem realmente.

OUÇA: “spit it out”.

Tycho – Weather



Se reduzidos às suas características mais essenciais, poderia-se dizer que o que difere o post-rock e o ambient é a atenção. Ambos os gêneros consistem de músicas instrumentais (normalmente) compostas com conjuntos de instrumentos semelhantes, mas enquanto o post-rock pretende ser um avanço nas características estéticas do rock, usando guitarras, baterias, baixos e etc para criar arranjos mais atmosféricos, de certa forma opressivos e envolventes, que exigem que sua presença seja percebida, o ambient vai no sentido contrário, numa quase anti-estética, guiando a composição para o objetivo de ser o menos presente possível, mesclada com o ambiente ao redor, ocupando apenas de maneira periférica a atenção do ouvinte. Dada a natureza contrastante dos dois gêneros, transitar entre ambos, para um artista, resume-se a uma questão de equilíbrio. É essa a proposta do artista de ambient e post-rock Tycho em seu quinto álbum, Weather.

Lançado três anos depois do último disco, Epoch, Weather marca uma nova perspectiva na carreira do artista. Enquanto Epoch marcou o fim de uma triologia de discos que exploravam a criatividade do artista dentro do ambient, com melodias voltadas para a criação de climas e arranjos minimalistas e usando bastante downtempo, Weather tem um Tycho que procura voltar à materialidade, aventurando-se mais no campo do post-rock e adicionando até mesmo vocais à boa parte das composições, tudo com a intenção de fazer do disco mais orgânico e presente que os seus anteriores.

Mas Tycho é um artista de ambient em primeiro lugar, e os elementos desse gênero não conseguem evitar sangrar para dentro das composições novas. Ao invés de rejeitar suas influências anteriores, Tycho as abraça e incluí no novo processo criativo, fazendo do disco um exercício de reflexão sobre quem se é e quem se almeja ser. Como todo exercício de exploração pessoal, este é um caminho de erros e acertos.

Seja com as guitarras ora líquidas, fluídas, que se mesclam com a bateria eletrônica para criar um efeito etéro, quase antigravitacional da faixa de abertura, “Easy”, que mostra, logo de cara, o ponto de intersecção entre o que seria o arranjo de um disco de post-rock, com um instrumental presente, impositivo, que apresenta materialidade no som e o ambient, com sua preferência por harmonias mais elusiva ou com a faixa seguinte, “Pink & Blue”, que firma sua posição ao incluir vocais e com isso revestir de presença tangível a composição. Existem  ainda os ocasionais arrebatamentos provocados pela guitarra, mas esses adquirem um significado diferente, que parece ser resultado da tomada de consciência do próprio corpo. 

Com a exceção de “Pink & Blue” e da faixa seguinte, “Japan”, entretanto, os melhores momentos do disco são os em que o vocal não se faz presente e os arranjos ganham mais espaço para respirar e flutuar livremente, se a presença do vocal é a tomada de consciência do corpo, a existência material não vem sem limitações.

Em “Japan”, o movimento continua, ainda mais terreno e corporificado por conta da ênfase do arranjo na bateria e nos vocais, a guitarra passa a dividir espaço também com o baixo que dá mais peso à música, tanto literal quanto figuradamente.As faixas instrumentais “Into The Woods” e “Weather”, a primeira logo depois de “Japan”, a segunda encerrando o disco, fecham o grupo de boas músicas da obra. Em “Into The Woods” as notas altas e claras de guitarras elevando-se sobre a bateria e preenchendo a composição num novo impulso em direção à fluidez extracorpórea. Já em “Weather” mesmo o baixo, que mantém a estrutura da música, ao invés de fixá-la no chão, apenas estabiliza o vôo conduzido pela combinação de guitarras e sintetizadores. Os efeitos emulando flautas adicionam mais uma camada à sensação de voo e encerram o disco com uma nota alta, literalmente.

Apesar disso, a experiência de adquirir corpo não vêm sem suas desvantagens, e é quando Tycho tenta assentar mais as composições na materialidade, dando ênfase a arranjos graves e à presença do vocal, que as faixas deixam a desejar, a primeira do trio é “Skate”, que traz de volta os vocais depois de “Into The Woods”, o que faz a faixa perder um pouco da sua energia e se tornam etéreos, mas sem compensar a mundaça de intensidade da faixa anterior. Logo depois de “Skate” vem “For How Long”, que se fundamenta na batida cadenciada do baixo, acompanhada da guitarra que tira parte do peso do arranjo grave, a terceira das faixas, “No Stress”, continua o movimento terreno conduzido pela voz, mas o movimento, além de ser em direção à matéria, também parece ser em direção à vulgaridade dela, com cada uma das três faixas soando menos inspirada e mais comum que a anterior.

Com um tempo de reprodução de cerca de 29 minutos divididos em oito faixas, Weather é um grande acerto pela maioria das faixas, a criação dos sentimentos, que é a maior força de um disco de ambient, é feita com cuidado e, ao mesmo tempo, desprovido de expectativa, que é a liberdade da não-presença. Por outro lado, algumas das faixas com vocais, entretanto, falham em criar a atmosfera ao mesmo tempo que a mudança de ritmo não contribui tanto para o clima geral do disco. Talvez a existência corpórea seja uma prisão forte demais para Tycho. É o tipo de disco que pode crescer com ouvidas repetidas. A vantagem do corpo é que cada experiência (mesmo uma reencenada), pode deixar marcas novas.

OUÇA: “Easy”, “Pink & Blue”, “Japan”, “Into The Woods” e “Weather”

The Mountain Goats – In League With Dragons



Em “The Wheel”, um dos melhores episódios da série Mad Men, durante uma reunião da sua equipe de propaganda com clientes que procuram uma campanha publicitária para seu projetor de slides, Don Draper começa fazendo uma comparação entre novidade e nostalgia. Segundo Don, tecnologia, novidade, é um atrativo interessante, mas existe algo que pode engajar o público em um nível mais essencial, emocional. “Nostalgia”, continua, “significa a dor de uma ferida antiga”. Enquanto Don explica, o projetor exibe fotos de seu próprio passado. “Esse nos deixa viajar ao futuro, ao passado, como uma criança viaja, e de volta para casa. Um lugar onde sabemos que somos amados”.

O mesmo pode ser dito de In League With Dragons, décimo sétimo disco de estúdio do quarteto americano The Mountain Goats. Nostalgia é o sentimento central que orienta o disco e ao redor do qual giram as histórias evocadas nas letras e arranjos que compõem seu último lançamento.

Com forte influência de art rock, art pop e folk, em especial nos pianos que iluminam faixas como “Done Bleeding” e “Possum By Night”, e no baixo e violão acolhedores e calorosos de “Younger” e “Prassiac 1975”, a banda faz coro à explicação de Draper em Mad Men. A diferença, entretanto, fica com como o Mountain Goats escolhe lidar com a nostalgia. A opção por arranjar as músicas com uma estética bucólica e solar torna a relação com a nostalgia algo prazeroso ao invés de triste. Não existe infelicidade por estes momentos mais simples terem ficados para trás, apenas a felicidade de poder olhar o passado com ternura. A temática, que busca inspirações até mesmo em jogos de tabuleiro e rpg, como Dungeons & Dragons, também reforça o sentimento, misturando-o com as fantasias de aventura de criança.  Muitas vezes a perspectiva dos anos é o meio pelo qual podemos reconhecer toda a felicidade que vivemos no passado e que não recebeu o devido valor quando era o presente, porque estávamos muito presos no momento.

Mesmo uma faixa de clima mais sombrio, como “Clemency For The Wizard King”, com sua bateria pesada acompanhando o baixo e dando solenidade e imponência ao arranjo, não torna a música intimidadora. Ao invés disso, a sensação é a de ouvir uma história grandiosa e reconhecer sua própria pequenez. Existe algo no disco sobre as fantasias de criança e olhar o mundo com olhos mais inocentes, sempre fascinados com tudo que existe por descobrir.

In League With Dragons é uma obra triunfante. As belas progressões de acordes, que evocam imagens claras e luminosas, o sentimento acolhedor de encontrar memórias felizes quando se pensa no passado, tudo isso combinado por uma produção limpa e, embora minimalista, refinada. A beleza dos arranjos compostos pelo Mountain Goats é, por fim, coroada com as letras e as construções líricas escolhidas pela banda. Mesmo em versos em que se fala em cadáveres, o cuidado na escolha das palavras faz da narrativa algo a ser admirado.

Os únicos destaques negativos ficam nas faixas “Waylon Jennings Live!” e “Going Invisible 2”, que, enquanto são faixas boas por si, ficam aquém do nível de produção e cuidado que o resto das composições do disco exibe. Não chega sequer a ser um decréscimo que justifique não tê-las no disco, apenas uma nota mais baixa no catálogo.

Ao final da apresentação de Don no episódio, Harry Crane, um de seus colegas, levanta-se correndo e deixa a sala, tentando segurar o choro. Essa também é a potência da nostalgia: ela age como um espelho. Confrontados com as reminiscências de outros, nós nos conectamos com as nossas. Encontramos ressonância nas emoções alheias e nas experiências do nosso passado e o vínculo entre o nosso eu de agora e o eu de antigamente. Esse é poder de In League With Dragons: nos levar de volta a um lugar que ansiamos voltar.

Esse disco é uma máquina do tempo.

OUÇA: “Younger”, “Passaic 1975”, “Clemency For The Wizard King”, “Possum By Night”, “In League With Dragons” e “Cadaver Sniffing Dog”

Sun Kil Moon – I Also Want To Die In New Orleans



Num universo paralelo, Mark Kozelek ganharia a vida como narrador de audiobooks.

Essa é a primeira constatação que o novo disco de Sun Kil Moon, nome com o qual Kozelek assina seu projeto solo, desperta ao fim – ou até mesmo durante – a sua primeira audição. Intitulado I Also Want To Die In New Orleans (e daqui em diante referido no texto como IAWTDINO) é o décimo trabalho de estúdio solo do ex-vocalista do Red House Painters e compreende uma hora e meia de músicas divididas em sete diferentes faixas do estilo minimalista e ao mesmo tempo verborrágico de Kozelek.

Quem é familiar com o trabalho de Sun Kil Moon sabe o que vai encontrar no corpo desse disco: canções longas, arranjos simples e muitas vezes despojados que servem mais como uma plataforma sobre a qual Kozelek expõe suas narrativas complexas e prolixas que giram ao redor de qualquer tema, desde o mais recente tiroteio em uma escola nos Estados Unidos (que agora, infelizmente, soa próximo demais) até a interação com os vizinhos e a chegada de um novo membro da vizinhança do vocalista. Não há nada muito inovador nas músicas de Sun Kil Moon, nem é trabalho delas que haja.

O problema é que esse estilo pode ser extremamente volátil em termos de resultados, e é isso que acontece em IAWTDINO. Enquanto a maioria das músicas não é objetivamente ruim, a verborragia de Kozelek em histórias que oferecem pouco e termos de payoff, reviravoltas, punchlines ou algum tipo de conclusão torna a experiência de ouvir a maior parte delas repetitiva e pouco satisfatória. As narrativas de Kozelek falham mesmo em alcançar um resultado como anticlimax, uma vez que para isso é preciso que o andamento da história gere uma expectativa que não vai ser alcançadas no final. Essa não parece ser sequer a preocupação do artista, que soa satisfeito em contar as histórias sobre um arranjo musical como se estivesse narrando as páginas do próprio diário.

Apesar disso, o disco tem bons momentos. “Day In America” é uma música de forte comentário político sobre a política de armas nos Estados Unidos bem pontuada pelo arranjo mais grave e a presença de saxofones, que dão à música o tom de uma poesia noir. As mudanças de andamento no primeiro tom da música também contribuem para não deixar o ouvinte muito confortável e oferecer alguma imprevisibilidade. “Cows” é outra música em que Kozelek passa por reflexões sobre deixar de comer carne, viagens por estradas vincinais e felicidade na Terra conduzido pelo arranjo mais grave do disco acompanhado de um saxofone que faz lembrar cool jazz antes de uma quebra em que o saxofone toma a frente da música de forma tão abrupta que parece até acidente e é o melhor momento do disco.

Infelizmente os momentos de mais cor e vibração do disco são poucos em uma paisagem que é majoritariamente desprovida de cor, de uma maneira que parece ser até intencional para Sun Kil Moon. Também pesa contra o disco que este é o segundo projeto de uma hora e meia lançado por Kozelek em dois anos, o que faz surgir a pergunta: você realmente precisa de dois discos de histórias sem payoff com noventa minutos cada?

Só não pergunte a Kozelek, porque a resposta pode ser longa.

OUÇA: “Day In America” e “Cows”


The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

Sun Kil Moon – This Is My Dinner


A primeira conclusão que se tem ao ouvir This Is My Dinner, nono disco de estúdio de Sun Kil Moon, projeto solo do ex-vocalista e líder criativo do Red House Painters, Mark Kozelek, é de que é um disco frio. Não só por tratar principalmente das experiências de Kozelek em turnês no norte da Europa, mas também por ser o tipo de clima que mais parece em sintonia com o humor transmitido pelas músicas. Frio também, de certo modo, por que muitas vezes falha em alcançar alguma reação do ouvinte.

Com um tempo de execução de 89 minutos divididos em 10 faixas, This Is My Dinner apresenta o já conhecido e esperado estilo de composição que Kozelek adotou como sua marca em Sun Kil Moon: músicas longas, lentas, com narrativas detalhistas, algo melancólicas e de certo modo guiadas livremente pelo fluxo de pensamento de Kozelek que são recitadas sobre um instrumental muitas vezes reduzido e repleto de espaços abertos para a voz. O verdadeiro instrumento de Kozelek é a palavra, o resto é consequência.

Ao longo do disco, as músicas transitam por temas sempre presentes na narrativa do cantor, seja diretamente ou marginalmente, como a saudade de casa, um certo cinismo em relação à vida, a sensação de alienação das coisas ao seu redor, como se mesmo fora de seu trabalho artístico, Kozelek fosse sempre um observador do mundo em volta. Das viagens para o norte europeu, Kozelek se transporta para o passado, de viaja adiante no tempo e continua a ver e a contar.

Kozelek ainda consegue, por vezes, incluir elementos e influências novos nas músicas, mesmo que a estrutura geral continue a mesma e seja em primeiro lugar, uma plataforma onde pode sustentar todos os relatos das suas experiências cotidianas.

É nesses momentos que o álbum consegue alcançar algum brilho. Já na música de abertura, “This Is Not Possible”, temos o tradicional vocal de Kozelek temperado com um groove de jazz conduzido por um baixo limpo e pausas instrumentais na entrada dos refrões. Outra faixa que foge do estilo constante do projeto é “Linda Blair”, que tem como destaque os teclados que quebram o ritmo do resto do instrumental, numa influência que traz à mente algo math rock. Ao final, a faixa ainda acelera e o tom da música se torna mais grave, fazendo de “Linda Blair” possivelmente a melhor faixa do disco. O terceiro bom destaque no disco é “David Cassidy”. Mais curta que a média das músicas do Sun Kil Moon, a faixa traz uma interessante influência de country e um forte protagonismo do baixo, que consegue, com uma composição simples, ser envolvente sem ser repetitivo.

Infelizmente, outras faixas do disco, como “This Is My Dinner”, “Copenhagen” e “Candles”, embora boas músicas e envolventes, evidenciam o hábito de Kozelek de se deixar levar pela narrativa, e não oferecem nada de novo musicalmente para quem já está acostumado com o estilo musical de Sun Kil Moon, o que as impede de alcançar o nível de sucesso que teriam se, além da letra interessante, fossem mais inventivas musicalmente.

O estilo característico de Kozelek é um dos pontos mais divisivos em sua obra. O engajamento do ouvinte se torna diretamente depende da qualidade de Kozelek como contador de histórias, e quanto mais o vocalista se estende, maior o risco de perder a atenção do público. Kozelek é um hábil contador de histórias, e consegue subverter esse risco, mas por vezes esbarra na própria prolixidade e faz das músicas que começam interessantes, uma repetição enfadonha de ritmos enquanto a voz murmurante de Kozelek se perde em mais um detalhe das suas aventuras cotidianas.

É o que pode ser verificado principalmente ao fim do disco, principalmente nas duas faixas finais, “Soap For Joyful Hands” e “Chapter 87 Of He”. Ambas são uma demonstração escancarada do principal defeito de Kozelek: a prolixidade, que eventualmente se torna tédio, e que talvez é o principal fator o impedindo de criar uma obra incrível. É sempre um risco tentar estender ao máximo qualquer obra artística, como disse Chuck Palahniuk em Clube da Luta: “numa linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero.”

OUÇA: “This Is Not Possible”, “Linda Blair”, “David Cassidy” e “Copenhagen”.

Mudhoney – Digital Garbage


Existem dois resultados para uma obra de arte politicamente carregada e politicamente motivada: caso o conteúdo da obra consiga ser ao mesmo tempo convincente e emocionalmente potente, o resultado é inflamar o público que se vê representado nas músicas. Mas, caso o conteúdo da obra falhe em atingir esse ponto muito subjetivo da audiência, mais do que soar mentirosa, a obra soa inócua, estéril, ainda que a intenção seja boa, ela aterrissa fora do campo emocional do público e é incapaz de provocar uma resposta sentimental.

Esse é o grande risco de uma obra que, ao invés de partir da experiência pessoal do artista, parte de uma vontade abstrata de tocar em temas políticos. É preciso ao mesmo um grau de especificidade que torne o tema claro, caso contrário ele se torna vago, e um generalismo que permita a pessoas de diferentes origens se identificarem com o tema apresentado pelo artista. Tudo isso amarrado por uma proposta estética que consegue a resposta emocional do público. Curiosamente, nos últimos meses, o rock teve um exemplo de cada uma das duas obras: o novo disco do Idles, Joy As An Act Of Resistance, consegue ao mesmo tempo tratar de questões políticas e/ou sociais, como a crise migratória e a toxicidade masculina, de maneira bem sucedida, humanizando a política e tornando-a viva e vibrante, provocativa. Por outro lado, o disco mais recente do monumento grunge Mudhoney, Digital Garbage, é tristemente o exemplo do contrário, ficando muito aquém das intenções do grupo. Já dizia a sabedoria popular que de boas intenções…

26  Sempre dirigindo ataques a um “eles” difuso e sempre adotando uma perspectiva de superioridade moral em relação aos seus criticados, o disco muitas vezes soa como um adolescente rebelde se posicionando contra os todos já conhecidos bastiões-da-sociedade-capitalista-ocidental. Ainda que o sentimento seja válido, a performance deixa a desejar, em especial nos bons momentos de arranjos do disco.

Outro ponto decepcionante do disco está nos arranjos. Embora algumas músicas surpreendam com idéias que soam interessantes, como a distorção de sludge rock das guitarras de “Nerve Attack”, ou a ironia das letras e o baixo forte e volumoso de “Paranoid Core”, que são dois dos principais pontos altos do disco, essas idéias ainda perdem em volume numérico para os pontos fracos como as letras pouco inspiradas de Kill Yourself Live e 21st Century Pharisees. Outro ponto de destaque, embora mais baixo, é a faixa Please Mr Gunman, que alia uma boa condução de garage rock a uma letra ironizando a mentalidade americana na relação entre armas e religião.

Night And Fog”, com sua performance vocal inspirada em Nick Cave e a condução cadenciada de bateria, é outro ponto positivo do disco, o último antes de uma sequência de músicas mornas que se não soam ruins, têm contra si a generalidade que faz delas desinteressantes.

A conclusão é que Digital Garbage é um disco com algumas boas idéias, que talvez tenha entre suas motivações a necessidade sentida pelo Mudhoney de demarcar uma posição crítica diante dos conflitos que têm permeado a vida atual, mas que teria sido beneficiado com mais agressividade e objetividade por parte da banda.

Mas tudo bem, ao que tudo indica, nos próximos anos não vão faltar motivos para discos políticos e agressivos existirem.

OUÇA: “Nerve Attack”, “Paranoid Core”, “Please Mr. Gunman” e “Night And Fog”

Deafheaven – Ordinary Corrupt Human Love


Estar na vanguarda é uma posição desconfortável. Ao se colocar na dianteira de qualquer movimento, acontece um processo duplo: os sucessos são tratados com maior indiferença por aqueles que vêm atrás, enquanto as falhas ficam mais evidentes, já que é na ponta da fila que se concentra toda atenção. Enquanto a posição de liderança pode ser vista como o reconhecimento do mérito alcançado pela figura, não existe muito de desejável em ser o alvo de toda a crítica que sucede cada ato. Este é o ônus diante do qual se coloca o quinteto americano Deafheaven com o lançamento do quarto disco de estúdio da banda: Ordinary Corrupt Human Love.

Transitando por gêneros de música extrema de uma maneira particular, o Deafheaven alcançou seu reconhecimento e posição com o lançamento do seu segundo disco de estúdio, Sunbather, que apresentava uma mistura até então pouco (ou nunca) vista de black metal, shoegaze e post-metal. Com o reconhecimento, o Deafheaven vinha a encabeçar um gênero quase que próprio, chamado de blackgaze. O trabalho seguinte do grupo, New Bermuda, apresentou uma distância relativa de alguns dos elementos que haviam marcado o estilo da banda em favor de uma sonoridade mais crua de black metal, que apesar de bom, deixava algo a desejar em relação à criatividade do disco anterior.

Chega então o momento de Ordinary Corrupt Human Love que, enquanto não é exatamente uma volta à estética de sucesso do Sunbather, também procura variar mais os seus elementos do que o black metal homogêneo do New Bermuda, obtendo com isso variados graus de sucesso. Dividido em sete faixas que se estendem por um tempo de reprodução de aproximadamente uma hora, o quarto disco da banda flerta com sonoridades próximas, como o post-hardcore aos moldes de Touché Amoré e Title Fight e distantes, como o hard rock e as baladas radiofônicas dos anos 80.

O primeiro elemento que chama a atenção no disco é o piano, o que, junto com o nome do álbum e as letras e nomes de músicas, escancara a busca por uma temática mais emotiva por parte da banda. Talvez seja esse também o motivo por trás da decisão da produção de abafar os vocais das faixas, por vezes misturando-os com os arranjos e reduzindo a agressividade do som do Deafheaven. Entretanto, se a vulnerabilidade recém-descoberta da banda é um acerto, e os pianos e algumas das misturas oscilam entre acerto e erro, a escolha por reduzir a importância dos vocais é com certeza um erro que tira os holofotes de um dos pontos mais fortes da banda.

Essa é a vida na posição dianteira. As intenções são indiferentes, nenhuma boa ação sairá sem ser punida. Todo erro será cobrado em dobro.

Assim, Ordinary Corrupt Human Love é um pêndulo entre esses dois extremos.

De um lado o trio de faixas pouco inspirado de “You Without End”, com um piano e uma condução de bateria e guitarra que parece uma balada de rádio oitentista, num clichê que peca pela execução brega; “Near”, que soa pouco inventiva e com um vocal sem brilho que falha em dar à faixa personalidade, ao ponto que talvez uma opção melhor seria excluir os vocais da música e deixar os competentes arranjos serem os protagonistas em uma faixa instrumental; e “Night People”, que tem participação pouco inspirada de Chelsea Wolfe num dueto que soa forçado e artificial, a aposta da banda por uma sonoridade mais suave alcança um resultado monótono, em que o arranjo repetitivo parece apenas o cenário para uma história encenada pelo dueto que não tem nada muito interessante a dizer.

Do outro lado, quatro boas músicas de sucesso variável. A dupla sólida (embora não fantástica), de “Glint” e “Worthless Animal”. A primeira apostando em arranjos de guitarra tremulantes e baixo encorpado que, junto com vocais e bateria com bumbo duplo, soa como se o Deafheaven estivesse fazendo uma homenagem a si mesmo, com o detalhe extra do solo flertando com o hard rock no final. Já a segunda volta a apostar no contraste entre linhas de guitarra mais agudas e luminosas com o vocal rasgado e gutural de George Clarke. As duas faixas mostram que é possível executar um clichê com sucesso.

A redenção da banda no disco vem com as incríveis faixas “Honeycomb” e “Canary Yellow”. Ambas encontram com sucesso o equilíbrio entre explorar novos elementos e se manter fiel à sua personalidade. Honeycomb mantém os elementos tradicionais do black metal e do post-rock enquanto adiciona a eles o timbre e as progressões de guitarra que se aproximam do post-hardcore encontrado em bandas como Touché Amoré. Ademais, se existe uma faixa que pode ser a culminação do leque de influências explorado pelo Deafheaven no disco, esta é “Canary Yellow”, com um andamento de guitarra que volta a se aproximar de baladas, desta vez mantendo a relação com o post-hardcore, “Canary Yellow” soa como uma amálgama do processo criativo da banda. A passagem emocional da melodia parece simular o fluir de sentimentos, de uma tristeza ainda inerte para a raiva explosiva, que o disco procurava capturar.

No geral, Ordinary Corrupt Human Love é um disco de qualidade, mas oscilante, que sofre mais por ter que responder a expectativas muito altas. Tem erros e acertos que poderiam ser encarados com mais gentileza, não fossem cometidos por alguém que ocupa uma posição dianteira. As legiões que seguem são muito pouco tolerantes quando a figura na liderança decide procurar um novo caminho – e errar no processo – mesmo quando a função desses erros seja lembrar o que todos somos: humanos.

OUÇA: “Glint”, “Worthless Animal”, “Honeycomb” e “Canary Yellow”.