MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”

The Cinematic Orchestra – To Believe



Buscar razões para acreditar olhando e ouvindo ao redor. É nessa premissa que se baseia o novo álbum do grupo de nu jazz The Cinematic Orchestra, To Believe. Era um bom tempo já: fazia 12 anos desde o entristecido Ma Fleur, último álbum completo do grupo liderado por Jason Swinscoe. O resultado da demora é um disco de sete longas faixas (a menor tem pouco mais de cinco minutos), com sonoridade ainda mais introspectiva que trabalhos anteriores, em um caminho bem seguro e fluido…

E acessível. Seja pelas participações nos vocais de nomes como o cantor de soul/folk Moses Sumney e o rapper Roots Manuva, ou mesmo pelas escolhas da produção, muito mais voltada para timbres que flertam com o ambient pop e com um clima mais nublado e morno, algo visível já na capa minimalista.

Há, claro, alguns momentos minimamente mais agitados e percussivos, como na instrumental “Lessons”, mas o predomínio aqui é realmente dos arranjos etéreos. O resultado tem lá suas repetições devido à duração das músicas, mas também traz momentos sublimes. Destaque para as linhas de teclado que dão base a todas as faixas e as cordas, especialmente em “The Workers Of Art”.

Por falar em canto, a despeito do tamanho das faixas, há uma certa urgência radiofônica aqui — e que vai além da já comentada produção. A lírica gira em torno da necessidade de convicção e do companheirismo diante de um mundo repleto de dor; e, por mais que isso pareça batido, não há pieguice em nenhuma das interpretações.

Surge aqui uma trajetória conceitual que se estende desde a faixa-título até “Zero One/This Fantasy”, onde a voz aconchegante de Grey Reverend clama ‘Lay your hands on me / Everyone needs someone to believe’”. E ao final, “A Promise”, vocalizada por Heidi Vogel, encerra pedindo pelo fim da dor. A faixa de 11 minutos (nada enfadonhos, diga-se) apresenta ainda uma das melhores progressões do álbum, da tristeza lenta inicial até um andamento mais rápido com a presença marcante da bateria no encerramento da obra.

To Believe também de certa forma é um disco que também progride positivamente a cada audição. Pode até não ser das obras mais complexas e talvez nem a mais interessante da Orchestra. Contudo, também não é simplório, e guarda detalhes minuciosos para serem percebidos numa tacada só (repare no uso do estéreo, para ficar só em um exemplo). Essas características, junto com uma coesão temática e boas composições, traz um material consistente para um retorno dos cinemáticos.

OUÇA: “The Workers Of Art”, “Zero One/This Fantasy” e “A Promise”

Pond — Tasmania



A banda-irmã do Tame Impala pega emprestado o nome da famosa ilha próxima à Austrália para ambientar seu oitavo álbum de estúdio em pouco mais de dez anos. Produzido conjuntamente por Kevin Parker com o grupo, Tasmania apresenta um Pond ainda mais dançante e acessível, que parece começar justamente de onde terminou em The Weather (2017). Também aqui o rótulo de psicodelia está atrelado a uma estrutura de canção pop, seguindo a mesma trilha que Parker tem feito desde 2015 em seus projetos e produções.

Por falar na produção, de fato não se pode reclamar de uma falta de esmero. Em comparação com a fase mais rockeira da banda em álbuns como Hobo Rocket (2013), tudo soa muito mais polido aqui. Vocais, entre os mais limpos e os distorcidos, estão bem mixados com o restante do grupo, e há linhas melódicas de sintetizadores e baixos eletrônicos bem trabalhadas que dão base a toda a obra. A capa colorida engana um pouco: sim, é um som bastante solar esparso que te espera no novo trabalho, mas nem de longe tão variado quanto pode fazer parecer a fachada arco-íris.

Se a banda peca aqui, é justamente pela repetição e pela artificialidade. Isso já fica evidente nos seis minutos de “Daisy”, primeira faixa e um dos singles do álbum. Ela inicia com uma criativa mudança de andamento de uma introdução mais relaxante para um ambiente festivo, porém logo redunda em um mar de timbres pouco originais e uma cozinha que remete à psicodelia dançante surgida em fins dos anos 80, sem muito a acrescentar. Sem falar na coda arrastada que parece perdida, ocupando quase dois minutos ao final…

Esse tipo de escolhas sonoras permeia basicamente todo o trabalho, que alterna muito pouco entre os dois climas apresentados na abertura. Não é de todo ruim: a tentativa gera canções que isoladamente tem seus méritos, como nos questionamentos sobre pertencimento da título “Tasmania”, na transitória “Goodnight, P.C.C.” (atenção especial para a linha percussiva) e em “Burnt Out Star”, maior música do disco em duração e grandiosidade. Contudo, essa alternância pequena faz os 48 minutos parecerem maiores do que são, por puro excesso do mesmo.

Liricamente falando, o disco pode parecer bobo ou nonsense em uma primeira audição; contudo, há temas profundos ocultos em vários momentos. Crueldade social (“The Boys Are Killing Me”), a busca/cobrança por politização nas letras (“Hand Mouth Dancer”) e a fama (“Burnt Out Star”) são alguns dos tópicos discorridos, principalmente por Nick Allbrook, que co-assina nove das dez faixas. Não há passagens muito memoráveis, mas também não existe contraste agressivo entre letra e música, o que garante fluidez na escuta ao menos nesse aspecto. E assim, Tasmania se encerra trazendo um Pond em terreno sonoro conhecido e bem produzido, mas com pouca inventividade e diferenciação entre as canções.

OUÇA: “Goodnight, P.C.C.” e “Burnt Out Star”

Jards Macalé – Besta Fera


Passados quase oito anos desde o último trabalho do tipo, Jards Anet da Vida, da Selva, da Silva, ou simplesmente Macalé, retorna com um novo álbum de estúdio. Mas diferentemente daquele Jards (2011, registrado também de forma audiovisual no documentário de mesmo nome de Eryk Rocha), o foco em Besta Fera (2019) não é em regravações dele próprio, muito menos em versões de outros artistas. As 12 faixas de autoria ou coautoria do Maldito (“é a mãe!”) que aparecem aqui são tocadas em parceria com um grupo afiado – ao todo, são 18 músicos creditados além de Macalé, com a produção de Kiko Dinucci (Passo Torto, Metá Metá) e Thomas Harres.

Para encadear tudo isso, Jards mergulha na obscuridade. É claro que a morbidez e as sombras não apareceram em sua obra hoje; porém, muito provavelmente esse é o seu trabalho mais enfático em todas essas características. Talvez a situação do país tenha ajudado também… O breu, o fundo, a cidade noturna, a experiência-limite: tudo aparece de cara na capa, a última feita pelo fotógrafo Cafi. E surge nos arranjos, como no instrumental e coro desesperado de “Vampiro de Copacabana”, abrindo o disco.

Dentro das demais faixas, essas escolhas são próximas entre si e até em certos aspectos e timbres funcionam como algo já esperado, ao pensar em outros trabalhos dos participantes do álbum (os dois últimos álbuns de Elza Soares e os do Metá Metá, por exemplo). Isso pode causar alguma decepção, mas não se pode dizer que as tentativas são caricaturais ou monótonas. Evidente que não seria justo com o homem que já fez coisas como Contrastes (1977) se não houvesse variedade.

E há. Por aqui, Jards recita com a rouquidão habitual, ao som de cavaquinhos e metais, um Gregório de Matos que parece falar dele mesmo, que cantou nas últimas décadas como o Boca do Inferno os vícios do Brasil. Já ali, canta um Ezra Pound borbulhando água, afogado pela guitarra abrasiva de Guilherme Held e por uma bateria sensacional de Harres. Acolá, ele já está praticamente numa psicodelia nordestina, falando de cidades malvadas e acordos escusos, nessa que é talvez o ponto alto do disco (“Pacto De Sangue”, parceria com Capinam). Só voz e violão, tropeçando em “Obstáculos”. E assim por diante, o compositor apresenta um caminho sonoro com significados amorosos, políticos e existenciais, provavelmente próprio de quem já viveu três quartos de século.

Engana-se quem espera saudosismo barato. Ou mesmo um pessimismo exagerado. É possível dizer isso não apenas pelas parcerias consistentes com artistas mais novos — e que, ainda assim, são de gerações bem distintas entre si, como Juçara Marçal e Tim Bernardes —, mas sobretudo pela capacidade de Jards de extrair da adversidade força, amor e graça. Ao final, o disco até parece traçar uma espécie de testamento. Em “Valor”, gravada em 1981, o músico vem com uma voz muito menos afônica questionar a longevidade de seu legado. Isso no mesmo disco em que, chamando o vento e enfrentando o sol, mostra encontrar a resistência pessoal. Diante de todas as décadas entre o sucesso de suas músicas e o relativo ostracismo de sua carreira, mais um ciclo se fecha.

Seria um final? Ele mesmo reflete e responde num samba mais tradicional, “Tempo E Contratempo”, e despista mais uma vez. A resenha começou falando que Jards Macalé estava de volta. É mais provável que ele simplesmente estava, e assim continue. “E essa que é a graça.”

OUÇA: “Pacto De Sangue” e “Tempo E Contratempo

Sharon Van Etten – Remind Me Tomorrow


O novo álbum de Sharon Van Etten é uma questão de tempo. Dez anos depois do seu primeiro trabalho de estúdio oficial e cinco depois do último, a artista estadunidense volta em Remind Me Tomorrow. E entrega um estilo, que, em contraste com a bagunça na capa, é consistente: há aqui métodos de composição diferentes do habitual, mas ainda assim em sintonia com o restante da sua obra e com as suas memórias e projeções de futuro.

Aqui, as faixas guiadas pelo violão e guitarra sumiram. E sabe aqueles arranjos de banda de folk rock, que havia em discos como Epic (2010) e Are We There (2014)? Pois é, também não estão presentes. No lugar disso tudo, brilham teclas e baterias, em uma produção mais eletrônica feita por John Congleton, que já trabalhou com artistas como St. Vincent e Angel Olsen. Da parte de Sharon, esse novo rumo não veio do nada: prenúncios podem ser encontrados em faixas mais antigas (“Taking Chances”, “Break Me”), mas só em Remind esse contexto sonoro se tornou padrão. Longe de ser por formalidade, uma das faixas, “Jupiter 4”, leva o nome de um modelo de sintetizador, instrumento que em paralelo ao piano compõe a base de todas as composições.

É um álbum sonoramente coeso, portanto. E agradável: Van Etten já sabia criar ambientes confortáveis para o ouvinte, e conseguiu transportar bem essa característica para os arranjos. Surgem timbres que remetem a paisagens mais úmidas ou etéreas, sobretudo com o uso de reverberação na voz. E os melhores momentos do trabalho surgem quando essa habilidade é utilizada para gerar um crescendo, como na já citada “Jupiter 4” e no single “Seventeen”, no qual a compositora conversa com seu eu de vinte anos atrás na melhor interpretação vocal do disco.

Talvez nem todas as escolhas se encaixem perfeitamente. Quanto aos arranjos, exceto por poucos elementos aparentemente deslocados — final abrupto em “No One’s Easy To Love”, bateria eletrônica estranha na introdução de “Comeback Kid” —, eles de fato foram bem escolhidos e trabalhados nessa mudança de som. Negativamente falando, o que pega mais é a simplificação da estrutura das faixas, com letras e motivos sonoros mais repetitivos do que em trabalhos anteriores.

É justo dizer que essa preferência, com seções mais pegajosas, como em “Comeback Kid”, “You Shadow” e “Hands”, tem a virtude da acessibilidade e da persistência da canção no ouvinte. Contudo, no caso isso compromete a exploração de outras características de Van Etten, como as harmonias vocais e mudanças de dinâmica ao longo da faixa. Essas marcas ainda estão ali, mas menos presentes, chamando inclusive mais atenção quando aparecem, seja de forma mais visceral (“Seventeen”) ou introspectiva (“Malibu”).

Nos temas líricos, a compositora mantém a sua força de sempre. Há repetições, mas nada é bobo ou raso. Aparecem memórias ásperas e afetuosas de relacionamentos atuais e passados, desafios da sua adolescência e considerações sobre o futuro dela e de seu filho, nascido em 2017. Em um disco marcado por mudanças e transitoriedade em vários sentidos, é uma escolha singular terminar o trabalho olhando para o que é permanente na sua relação materna: ‘You love me either way / You stay‘. E de certa forma, o que fica para o ouvinte é que apesar de todas as diferenças, este é ainda um trabalho de Sharon Van Etten — de ontem e do amanhã; mas, sobretudo, um trabalho do agora.

OUÇA: “Seventeen” e “Malibu”.