Allie X – Super Sunset


Allie X vem voando mais alto nos últimos anos. Especialmente depois do hit “Paper Love”, sua fanbase teve um crescimento considerável e ela entrou na categoria de cantoras Pop adotadas pelos fãs como uma grande promessa do gênero, daquelas que quando se estouram ouvimos aos quatro ventos “EU SOU FÃ DESDE PRIMEIRO EP” etc.

Super Sunset tem oito músicas com duas intros. É praticamente um EP. Acho que nem cabe uma super resenha descrevendo cada aspecto desse trabalho. A equipe de produtores acertou a mão e Allie X manteve os mesmos aspectos que fizeram CollXtion II interessante. Tecnicamente, esse é um disco perfeito. Pena que falta profundidade.

Allie X tem 33 anos e sinto como se estivesse ouvindo composições de uma mulher de 20. O erro não é da cantora, veja bem. O álbum é comercial o suficiente para ir bem nos charts de música pop e tocar em qualquer balada do gênero, mas não traz assuntos relevantes o suficiente para me prenderem a atenção. É um disco que me lembrou bastante The Fame, da Lady Gaga. Só que já se passaram 10 anos desde que ele foi lançado.

Se você está a procura de um synthpop/indie pop bem produzidos, pode ouvir Super Sunset sem medo. É uma audição gostosa e divertida. Se está procurando por algo que saia do lugar comum, é melhor procurar outras artistas.

OUÇA: Tudo. Pelo amor de Deus, são só 21 minutos.

Ariana Grande – Sweetener


Oi gente, tudo bom? Tô no meio das melhores férias da vida e esqueci completamente de ouvir o novo álbum da Ariana Grande. Me desculpem. Deus é mulher etc, mas entre ouvir as músicas novas e fazer um passeio de barco no meio de uma praia paradisíaca no Rio Grande do Norte ouvindo Furacão Love – “My Baby”.mp3 eu preferi embarcar na experiência completa da música do momento.

Gosto muito da Ariana. Da linhagem “estrelas da Disney Channel que deram certo” ela é minha favorita por ser um combo vozeirão + pop farofa. EU SEI que nem tudo que ela lança é assim, mas quem não gosta de uma farofada? “Break Free”, “Side To Side”, “Problem”, “Greedy” e tantos outros que vou deixar de fora pra esse review não parecer uma lista do buzzfeed de melhores músicas da diva pop.

Eu sou muito fã de Dangerous Woman e fiquei com medo que ela entornasse o caldo do próximo disco pra alguma coisa conceitual chata. Quando ela lançou a capa do álbum e vi que era uma foto dela de cabeça pra baixo fiquei mais preocupada ainda. Aí ela lançou o disco e… Tá bacana.

Depois de um atentado, o fim de um relacionamento de 2 anos e um noivado repentino, as grandes mudanças na vida de Ariana são sentidas em Sweetener. A sensação é que a cantora resolveu viver a vida que deseja, sem  amarras e sem remorsos, na maior vibe “O que é, O que é?”.

É isso, pessoal. Deixem a moça viver e não ter a vergonha de ser feliz. Deixem ela cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Se Ariana Grande achou sua voz, está apaixonada e quer arriscar um pouco mais com sua música, quem sou eu pra fazer um review de 10 parágrafos falando sobre o que esse disco é ou deixa de ser?

OUÇA: “God Is A Woman”, “R.E.M.”, “Successful”, “No Tears Left To Cry” e o disco todo se vocês curtirem muito a Ariana Grande.

The Carters – EVERYTHING IS LOVE


Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música.

Só temos a chance de entender o que se passa na cabeça e no coração dos Carters quando eles lançam trabalhos de estúdio ou outros projetos. Algo na linha de “Você quer saber mais sobre nós? Assine o Tidal e vá aos nossos shows”. Nesse disco, somos voyeurs por 38 minutos de um furacão familiar de drama, amor, dinheiro e luxo. É um misto de A Ursupadora, Casos de Família e Domingo Legal. Só que muito chique.

O título não mente. A vida a dois é explorada nos seus altos e baixos, desde quando e como eles se conheceram até renovar os votos após a traição que quase acabou com seu casamento. Pode parecer simples e uma ideia batida, mas isso é feito com Beyoncé entrando de cabeça no hip hop, com homenagens a artistas como Dr. Dre e diss para Kanye West e até 6ix9ine. Não faço ideia de como funciona o processo criativo de Beyoncé e Jay-Z, mas as escolhas de compositores foram muito assertivas. Recentemente, vi uma polêmica sobre se a Beyoncé realmente compõe. Isso é completamente irrelevante. Deus perdoe essas pessoas ruins.

Me despindo um pouco do frenesi em torno dos Carters, confesso que me decepcionei um pouco com algumas músicas. Com tantos lançamentos incríveis do hip hop recentemente – como o KIDS SEE GHOSTS – as faixas “FRIENDS” e “HEARD ABOUT US” tem flow genérico e poderiam ter sido  cantadas por qualquer outro rapper. Isso não quer dizer que são ruins, mas ficaram aquém de músicas como “BLACK EFFECT” e “LOVEHAPPY”, que encerram a narrativa do disco como a pincelada final de uma obra de arte.

Uma das melhores características de EVERYTHING IS LOVE são as pontes feitas com discos anteriores de Bey e Jay-Z. A vulnerabilidade de Beyoncé em “Sandcastles” (do disco Lemonade) e sua força em “Drunk In Love” (do disco Beyoncé) se conectam com “SUMMER”, primeira música desse disco. Isso se repete diversas vezes, o que enriquece a experiência, nos faz ouvir com mais atenção e abre espaço para diversas interpretações do que os artistas estão querendo dizer.

Eles fizeram de novo. Mais um discão, mais um trabalho muito bem produzido e mais ansiedade ao pensarmos no que eles vão fazem em seguida. Gostaria de ver Jay-Z saindo da zona de conforto tanto quanto a Beyoncé saiu, mas um passo de cada vez. Quem sabe no próximo anúncio surpresa? Agora, vestindo novamente o frenesi envolta dos Carters, devo dizer: AAAAA QUE ÁLBUM MARAVILHOSO LACROU TUDO MELHOR CASAL AMO MUITO JÁ VI “APESH*T” 50 VEZES PRECISO IR NA ON THE RUN II SENÃO EU VOU MORRER MEU DEUS MEU DEUS MEU DEEEEEEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER”, “NICE”.

The Magic Numbers – Outsiders


Em 2005 eu estava entrando na adolescência, aquela fase da vida em que o diabo sai das profundezas do inferno, enche nossas cabeças de dúvidas e incendeia nossos sentimentos. No mesmo ano, The Magic Numbers lançou seu primeiro disco e escolheu como single a maravilhosa “Forever Lost”. Eu ouvi muito essa música naquele ano e nos anos seguintes, voltando a ela em momentos difíceis e confusos onde eu precisava de um alento musical. É para se ouvir sozinho, viajar para dentro de si mesmo e escutar seu coração. Pode confiar em mim.

O disco representa nossa busca por identidade e libertação dos padrões. Ele começou a ser composto e gravado em 2017. Li um texto do Valkirias que fala que 2017 foi o ano dos sentimentos e Outsiders reflete perfeitamente esse processo. Mesmo a banda mantendo suas características sonoras, as composições tem um toque mais presente de blues e rock dos anos 70. Algumas das influências foram T. Rex, Bo Diddley e David Bowie. Mesmo que não tenha sido citada, algumas composições me lembraram Stevie Nicks.

Mesmo flertando com sentimentos felizes, minha sensação ao chegar no fim do álbum foi melancólica. Com 41 minutos de duração, The Magic Numbers estabeleceu uma atmosfera de incertezas. Um eu-lírico que busca sua liberdade (“Ride Against The Wind”), questiona sua fé em Deus e em si mesmo (“Sweet Divide”) e está a procura do caminho a seguir (“Sing Me A Rebel Song”). São muitos questionamentos e nenhuma resposta.

Coeso e consistente, Outsiders é um não-lugar. Uma obra para quem precisa parar de abraçar o mundo e ouvir a si mesmo antes de qualquer coisa. E se em 2005 a banda queria ir para onde todos estavam indo porque estavam perdidos, em 2018 eles querem seguir a direção oposta. Talvez nem eles mesmos saibam por onde começar, assim como muitos de nós. Às vezes, precisamos não pertencer para nos encontrarmos. Isso também é um caminho.

OUÇA: “Runaways”, “Sweet Divide” e “Sing Me A Rebel Song”

Charlie Puth – Voicenotes


Charlie Puth cresceu. Pelo menos essa é a mensagem que ele tenta passar com Voicenotes. Indo na direção Pop/R&B e com participações de artistas expressivos na indústria da música como Boyz II Men (!) e James Taylor (!!), o cantor me convenceu que é mais sério do que eu esperava, mas ainda está no no limbo entre um cantor pop qualquer e um artista que merece minha atenção.

Seu segundo álbum de estúdio é um misto de apostas em características que lhe renderam uma fan base sólida e riscos calculados para atrair a atenção de quem não estava de olho em seu trabalho. Com composições próprias e a gravação feita em equipamentos caseiros, confesso que esperava um trabalho de qualidade inferior ao que encontrei. Fui surpreendida positivamente, mesmo que Voicenotes tenha suas falhas.

As apostas no funk e soul dos 80 e 90 são bem distribuídas, mas a inexperiência do cantor fica evidente em duas das três nas músicas com participações de outros artistas. Em “If You Leave Me Now”, sua voz fica em segundo plano ao cantar com o Boyz II Men e em “Change”, com James Taylor, não encontrei até agora a emoção que a música deveria passar.

Felizmente, quando o cantor acerta é em cheio. Os destaques ficam com “Attention” – com seu baixo impecável – e “Done For Me”, que conta com a participação da popstar do R&B Kehlani. A voz dos dois artistas se complementou perfeitamente e a faixa ainda ganhou um clipe sensual que faz jus ao dueto. Se ele tivesse criado mais músicas como essas, teria lançado um disco mais consistente, mesmo que esse álbum tenha mais visão artística que seu debut.

Puth compõe o tipo de música que as pessoas adoram ouvir, dançar e até cantar no chuveiro – mesmo morrendo de vergonha de ouvir no modo público do Spotify. Voicenotes é repleto de letras chiclete e chichês, mas prova que o cantor está longe de ser um one hit wonder e que é capaz de fazer boa música. Estou curiosa para descobrir como ele vai contribuir para a música pop no futuro.

OUÇA: “Attention”, “Done For Me” e “How Long”.

The Aces – When My Heart Felt Volcanic


Vocês já se apaixonaram? Eu já, uma porção de vezes. Do primeiro amor até meu atual namorado se passaram tantos anos que até esqueci de algumas paixões que tive pelo caminho. Isso até ouvir When My Heart Felt Volcanic, o debut álbum do girl group The Aces. Despretensioso e divertido, a sensação é que viajei no tempo, reencontrei todos os meus amores e fiz as pazes com todos os meus desafetos.

As americanas Katie Henderson (guitarrista), Alisa Ramirez (baterista), McKenna Petty (baixista) e Cristal Ramirez (vocalista principal e guitarrista) nos presenteiam com 13 faixas de uma sonoridade leve, dinâmica e inegavelmente pop. O disco é a trilha sonora perfeita de filmes young adult e comédias românticas dos anos 90/00/10 sobre como a vida pode ser um inferno, mas tudo vai dar certo no final (ou não). Disco imperdível pra quem gosta de Haim, Charli XCX, Bleachers e Taylor Swift. E até pra quem não gosta de nenhum desses artistas, mas precisa de uma injeção de ânimo no seu dia. Exceto pelas duas últimas músicas, que encerram o trabalho com um tom mais melancólico.

Escute When My Heart Feels Volcanic e prepare-se para nada extraordinário. Nem sempre a música precisa ser revolucionária, destemida e inovadora. Às vezes, um estilo já explorado pode trazer boas memórias e suscitar sentimentos esquecidos. Qualquer música desse disco pode servir para dar o tom certo a algum momento importante da sua vida. É isso que o faz valer a pena.

The Aces acertou a mão e fez um excelente álbum de estreia. Apesar de não ter músicas impactantes, viscerais ou singles memoráveis, isso não é impeditivo para não se apaixonar por essa girl band.  Separe seu fone de ouvido, estique sua toalha sob a grama e aproveite os 47 minutos dessa delícia pop embaixo de um sol de outono. Eu prometo que vai valer cada minuto.

OUÇA: “Stuck”, “Fake Nice”, “Just Like That” e “Holiday”.

Justin Timberlake – Man Of The Woods


“Casa simplesinha / Rede pra dormir / De noite um show no céu / Deito pra assistir / Deus e eu no sertão.”

Esse é um trecho de “Deus e Eu no Sertão”, música da dupla sertaneja Victor e Léo. Ela poderia facilmente estar inclusa na tracklist do último trabalho de Justin Timberlake, Man Of The Woods. Nele, o cantor quer mostrar seu universo particular inspirado por sua família e suas origens em Memphis. Me parece ser uma vida pacata, repetitiva e muito desgostosa. Eu quase dormi ouvindo o disco pela primeira vez.

O quinto álbum do cantor é uma grande confusão sonora. É um Country/Pop/R&B que quer comunicar simplicidade e se conectar com seus fãs – falhando em todas as tentativas. Man Of The Woods é um projeto de reciclagem do quinto ano da Escola da Dona Lindaura que só ganhou o primeiro prêmio por ter sido feito pelo aluno queridinho da diretora. O que DIABOS aconteceu com Justin Timberlake nesse hiato de cinco anos?!

Com Pharrell, Timbaland e The Neptunes entre os produtores, fica difícil entender como ninguém se opôs a canções fracas como “Man Of The Woods”. Fica ainda pior ao lembrar que ela foi single. A sensação é que muitas ideias foram discutidas durante a produção do disco e, por falta de objetividade, todas foram apresentadas ao público. O pop inovador e cativante ficou para trás, dando lugar a um desânimo generalizado. A aura de príncipe do pop desaparece com o passar do tempo.

O desenvolvimento de Man Of The Woods decepciona na mistura caótica de estilos proposta pelo artista. Como se isso não bastasse, Timberlake se apresenta como um Lumbersexual do Pop. Um homem que corta a lenha, caça e te pede em casamento no alto de uma montanha, como descrito na canção “Montana”. Essa ideia de que ele é o macho alfa da natureza somada a mistura de gêneros musicais mal feita não é nem um pouco atraente.

A capa do álbum mostra um homem dividido: um que o público vê e o outro que mostra seu verdadeiro eu. Eu preferiria desconhecer as inspirações do cantor e permanecer com referências como “TKO”, “Suit & Tie”, “SexyBack” e “Cry Me a River”. Até mesmo nas parcerias com Alicia Keys em “Morning Light” e com Chris Stapleton em “Say Something”, artistas excelentes que seriam bons trunfos, Timberlake parece hesitar em fazer o que sabe de melhor: smash hits.

Em “Hers (interlude)”, a esposa do cantor – Jessica Biel – descreve como se sente quando usa a camisa do marido no interlude mais piegas que ouvi em anos: And the little holes and tears / And shreds on it are, are, are the, the memories of the past.”. Memórias do passado?! Justin Timberlake precisa mandar essa camisa para a costureira. Seria bom se ele aproveitasse a viagem para costurar os retalhos do pior disco de sua carreira.

OUÇA: The 20/20 Experience e FutureSex/LoveSounds

Kelly Clarkson – Meaning Of Life


2017 é o ano da reinvenção no Pop. Taylor Swift, Katy Perry, Kesha e Demi Lovato são algumas das artistas que resolveram lançar trabalhos que mostrassem vertentes inexploradas de suas personalidades. Outros artistas também fizeram isso nos últimos tempos, mas nem sempre essas tentativas são bem recebidas pelos fãs e/ou têm sucesso comercial. O discurso é quase sempre o mesmo: “Não me importo com os charts! Estou falando a minha verdade”. É nesse cenário que Kelly Clarkson lança seu novo álbum de estúdio, Meaning Of Life.

Mesmo sendo seu oitavo disco, ele é o primeiro lançado pelo selo da Atlantic Records. Clarkson tinha contrato com a RCA Records desde que venceu o American Idol, em 2002. A artista descreveu seu relacionamento com a gravadora como “casamento arranjado” e, além disso, a cantora foi obrigada pela RCA a trabalhar com o produtor Dr. Luke (conhecido pelo abuso físico, sexual e psicológico da cantora Kesha). A não renovação do acordo, portanto, não foi um choque. Finalmente livre após 15 anos anos, ela pode se colocar em primeiro lugar.

A voz da cantora é um de seus maiores trunfos. Se compararmos Meaning Of Life e Thankfull – lançado em 2003 – fica bem claro que o tempo foi um presente para Clarkson. O potencial sempre esteve lá, só foi lapidado com o passar dos anos. Sua voz chegou a seu auge. Isso, somado a liberdade que ganhou ao não renovar com a RCA, deu a força necessária para este ser um dos melhores trabalhos de sua carreira. O que não significa que ele é excelente.

A investida numa sonoridade mais soul – inspirada especialmente em Aretha Franklin, uma das maiores inspirações da cantora – prova que Clarkson é uma artista dinâmica e versátil, mas é só. Músicas como “Move You”, cheia de metáforas e “fáceis aos ouvidos”, não garantem nem um arrepio sequer. Outro tiro no escuro é a faixa “Go High”, escrita em homenagem a Michelle Obama, que destoa completamente das outras canções do disco e, pior, é a música que o encerra. A intenção da cantora podia ser a melhor, mas isso não garantiu um trabalho de qualidade.

É muito bom ver Kelly Clarkson se divertindo, pela primeira vez em anos, ao lançar um álbum. Meaning Of Life é uma mescla de Soul, R&B e Pop que diverte e sai um pouco do lugar comum onde a cantora fez tanto sucesso. Pena que é mais um disco repleto de clichês. Felizmente, com as mudanças recentes na vida da cantora, há esperança por lançamentos melhores. Vamos aguardar.

OUÇA: “Meaning Of Life”, “Whole Lotta Woman” e “Didn’t I”.

Jessie Ware – Glasshouse


É possível morrer de amor? Eu nunca vi isso acontecer. Conheço várias histórias como as do tio do amigo da colega de trabalho que perdeu a esposa e definhou até seus últimos dias, mas isso nunca é o que de fato aconteceu. Normalmente, a pessoa só pega uma pneumonia no hospital ou cai do sofá e sofre um aneurisma. Ninguém morre de amor. Isso é só um jeito bonito e melancólico de dizer que, sem amor, é muito triste viver. E isso é muito explorado em Glasshouse, terceiro disco de estúdio da britânica Jessie Ware.

Assim como o amor tem múltiplas facetas, cada canção do álbum compõe uma imagem maior, onde podemos enxergar tanto a luz como a escuridão de relacionamentos: o medo da rejeição, a angústia causada por discussões, a saudade que incendeia e só é contida quando há o reencontro… Tudo pode ser muito maior sob a lente de aumento sentimental. Basta ter amado ao menos uma vez para se identificar com alguma música – ou com todas.

Jessie Ware canta com delicadeza ímpar sobre amores conturbados, paixões vazias e como amar alguém nos deixa vulnerável. Isso vale para qualquer relacionamento, seja ele amoroso ou materno – Ware teve sua primeira filha algumas horas depois de finalizar a composição de “Alone” – e do seu casamento recente com seu amor de infância.

Glasshouse é um disco coeso, com predominância de R&B dos anos 90 e 2000, alguns toques de Jazz e acenos pontuais para seu passado synthpop (Cashmere Cat produziu uma das faixas do disco). Wate soube explorar suas habilidades vocais ao máximo, com destaque especial para “Midnight”, onde Ware alterna falsetes com um refrão explosivo, e para “Selfish Love” sua voz acompanha os altos e baixos de um relacionamento fadado ao fracasso. Algumas composições deixam a desejar e tiram um pouco do brilho do tom confessional do álbum, mas este ainda é um trabalho mais interessante do que seus antecessores.

Com seu disco mais íntimo até então, Jessie Ware abre as portas de sua vida privada para exibição ao público. Glasshouse é uma forma da cantora fazer as pazes com tudo o que tem vivido nos últimos três anos e mostrar ao mundo que nenhuma conexão com outro ser humano, por mais  profunda que seja, é fácil e pacífica. É prazeroso ouvir um disco celebrar essas relações e sem romantizar a solidão e a tristeza. Não é fácil, mas fique em paz: ninguém morre de amor.

OUÇA: “Stay Awake, Wait For Me”, “Selfish Love” e “Midnight”

Ibeyi – Ash


Eu sei que Ibeyi parece ser uma dessas duplas alternativas que tocam num festival diferentão e configuram nas listas de próximas queridinhas dos indies. Quase sempre me decepciono quando ouço um artista relativamente novo que é a salvação de um determinado estilo. É um Festival Promessas atrás do outro e eu não sei como, em 2017, as pessoas ainda compram esses discursos. Eu tento deixar isso de lado quando faço uma resenha, mesmo que seja impossível escapar totalmente. Ibeyi é formado por duas mulheres (!) – Lisa-Kaindé e Naomi Díaz – franco-cubanas (!!), filhas de um percussionista do Buena Vista Social Club (!!!) e cantam em inglês e iorubá (!!!!). Sentiu o hype?

A música pode significar muitas coisas e seu sentido só pode ser definido por quem a escuta. É uma relação individual, já que a forma como interpretamos sons, formas, vozes e mensagens muda a medida das nossas experiências e do nosso envelhecimento. Ash, o segundo álbum de estúdio da dupla, faz alusão às transformações e marcas que as vivências imprimem em nós. Essas bagagens emocionais afetam diretamente a forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo.

Isso fica claro logo na primeira faixa do disco. “I Carried This for Years” é como um mantra, dele pouco a pouco elas destrincham suas experiências pessoais em busca de libertação. Em “Deathless”, Lisa conta sobre uma abordagem policial racista que sofreu a caminho de sua aula de música, quando tinha apenas 16 anos. Ao cantar sobre isso, ela transforma um acontecimento passado em resistência, não só para ela como para outras mulheres negras. Podemos ver algo semelhante em “No Man Is Big Enough for My Arms”, onde ouvimos trechos de um discurso em que Michelle Obama condena a forma como Donald Trump trata mulheres. Ash repete esse trajeto – dor/resiliência/absolvição – várias vezes durante seus 40 minutos de duração.

Mesmo com um álbum consistente, algumas músicas não mantém a mesma força lírica que a maioria. Essas faixas acabam sendo esquecidas entre pérolas como, por exemplo, “Transmission/Michaelion”, onde Ibeyi faz referência a Frida Kahlo: “Piés, para qué los quiero si tengo alas pa’ volar?”.

O corpo físico é apenas uma limitação mundana. Nossos sonhos, crenças e desejos podem não ser tão tangíveis para alguns, mas fazem parte do mistério que é a vida. É essa força que nos faz seguir em frente, mesmo diante do medo e terror causado pelos acontecimentos políticos e sociais recentes. Pés não levarão a lugar algum se não nos despirmos do receio para alçar voos mais altos. Essa é a mensagem que Ibeyi deixa com Ash e eu torço para que ressoe por muito tempo.

OUÇA: “I Carried This for Years”, “Deathless”, “Valé”, “Me Voy”