Say Lou Lou – Immortelle


Com 7 músicas, as irmãs Say Lou Lou lançam o segundo álbum da carreira. Se nunca ouviram, é só imaginar um voz sexy sussurrando dentre batidas pop-eletrônicas. Mas, em Immortelle eles foram muito além do estereótipo noir.

Claro que toda estética de filme noir ainda é uma grande referência para dupla. Em entrevista a NME, elas dizem se inspirar assistindo filmes e clipes antigos, a partir desse contato criaram uma vibe, um mundo particular que contextualiza o álbum. Essa narrativa e estética está explícita no curta que acompanha o álbum. Immortelle é antes de mais nada um manifesto feminista, sobre como as mulheres são vistas no mundo.

As irmãs defendem que um artista não pode ficar restrito apenas a um tipo de mídia. O importante é a audiência engajar com suas produções. O curta também parte desse ponto, que as mulheres não devem ser definidas apenas por uma coisa e que são capazes de muito mais. Em “Golden Child”, a temática de liberdade também está presente, como percebemos no trecho: ‘They’re gonna cut you to the core/ Gonna try to cool you down (down)’

Com uma melodia crescente, “Ana”, o single do álbum soa como a junção perfeita entre Portishead e Lana Del Rey. Cercada por violinos intensos por toda a composição, a música é o alterego de uma mulher no topo de tudo. Depois de ouvir as outras músicas, que apesar de parecerem meio repetitivas, são muito originais ao transitar por referências desde sci-fi, retro-futurista até disco anos 70. As sete músicas do álbum acabam por ser pouco e não conseguir suprir a necessidade do ouvinte, que apesar de novo, é ávido por mais Say Lou Lou.

OUÇA: “Ana” e “Golden Child”

NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.

Bebe Rexha – Expectations


Ferrari, joelhos, autocontrole, tristeza, travesseiro. Não, essas não são as palavras que achei brincando de caça-palavras. Desculpa decepcionar suas expectativas. São apenas os nomes das faixas que a cantora Bebe Rexha escolheu para o seu primeiro álbum.

Como a própria página do seu wikipédia afirma, Bebe Rexha é mais conhecida por suas colaborações. Desde da dupla de country Florida Georgia Line, o ex-directioner, Louis Tom Linson, a DJ holandês, rapper e Rita Ora, Charli XCX e Cardi B. Essas parcerias tão diferentes indicam um artista em busca (quase que desesperada) por uma identidade no mundo pop. E por tanto buscar, Bebe Rexha não consegue passar de um pop superficial e repetitivo. Chega a ponto de ser tão brega que seu maior diferencial pode ser considerado uma marca “emo anos 2000” em suas composições.

Há músicas sobre ansiedade (“I’m A Mess”, “Sad”), outras que soam como Migos (“Mina”), e aquela que inclusive apresenta um dos Migos (“2 Souls On Fire”), a latina (“Shining Star”) e assim por diante. A única música remotamente distintiva é “Ferrari”. Nela percebemos que Rexha tem o potencial de fazer uma canção quase que autêntica.

E é mais uma vez com uma colaboração, dessa vez, com Florida Georgia Line, que Bebe Rexha alcançou seu maior sucesso. “Meant To Be” tem liderado o ranking  da Billboard desde dezembro do ano passado. O single também lidera a parada Country Streaming Songs há 31 semanas e ficou no topo da Country Digital Song Sales por 22 semanas.

OUÇA: “Ferrari” e “Meant To Be”.

Snow Patrol – Wildness


“Open Your Eyes”  e “Chasing Cars” sobreviveram ao longo dos anos e ainda pode ser emocionar muitas pessoas. Claro, que com a passagem do tempo adicionamos a famosa dose de breguice na sua recepção. São refrões explosivos, estilo “o mundo vai acabar, deixa eu ser dramático aqui”. Até o Ed Sheeran já cantou em shows.

Com uma breve pesquisa no youtube, inúmeros vídeos descitos como “hino Grey’s Anatomy” vão aparecer associado a banda irlandesa. Isso porque muitas de suas músicas foram trilhas sonoras de momentos importantes da série, provavelmente associado a morte de alguém. E com o lançamento de Wildness percebemos que Snow Patrol ainda parece ser dirigido por Shonda Rhimes.

Talvez essa explosão de breguice sentimental e sofrência de homem branco seja só a definição de dad rock. Ninguém pediu para Snow Patrol tentar explicar a dor da vida na terra, mas não foi preciso. A prepotência é maior e assim surge o nono álbum de carreira, Wildness, e com isso a repetição da mesma sonoridade ao longo de 20 anos de carreira. Sem julgamentos, porque provavelmente seja exatamente essa a base do seu sucesso.

Um dos diferenciais de Snow Patrol é a voz de Gary Lightbody. O vocal aveludado e contido consegue criar uma atmosfera essencial de embasamento das letras. Músicas como “Wild Horses” e “Life On Earth” parecem ser mais acabadas. Mas ainda é bizarro pensar que mesmo cara que implora por simplicidade, compõe um álbum cujas letras não podem passar um verso sem se enfiar em um refrão com jogo de palavras explosivo e  forçado. ‘Now slip the tattoo on/Serenity it scorns your every mood’, ele insiste em “Wild Horses”.

Wildness é só mais um dos álbuns pós-Trump. Os famosos “cabeças de dinossauro”. Homens brancos salvadores que sofrem diante da miséria do mundo, bem à la U2, e que ainda acham que fazem rock.

OUÇA: “What If This Is All the Love You Will Ever Get?”

Janelle Monáe – Dirty Computer


Pirulitos, roupa de couro, homens, mulheres, vaginas, Tessa Thompson, trono. Insuficientes são as palavras capazes de descrever o álbum visual de Janelle Monáe, Dirty Computer (2018). No terceiro de sua carreira, Janelle faz um tributo à liberdade. Liberdade como mulher, negra e queer. Liberdade que exige luta, vulnerabilidade e esperança.

“Dirty computer, walk in line

If you look closer you’ll recognize

I’m not that special, I’m broke inside”

Com essa estrofe, Janelle abre Dirty Computer. Pela primeira vez, a cantora não faz uso da personagem androide Cindi Mayweather, introduzida em seu primeiro lançamento, em 2008. Apesar de manter a estética futurista presente desde The ArchAndroid (2010), Janelle deixa a figura de androide, ou melhor assume para ela mesma essa figura simbólica, em uma jornada de autoconhecimento e aceitação.  A metáfora do computador sujo, quebrado é uma alusão a como a sociedade e a própria artista se enxergava – a margem da normalidade branca heteronormativa.

Esse disco, quase manifesto, não é apenas seu coming out (e declaração de amor a Tessa Thompson para aqueles que acreditam no amor), mas também a afirmação de seu lugar como artista. Como disse em entrevista a Rolling Stone, as músicas são o reconhecimento de como lidar e aceitar o que significa ser um dirty computer. É sobre sofrer racismo, machismo e homofobia pela primeira vez.

Divulgado em conjunto com um filme, batizado por Janelle como uma “emotion picture”, o álbum visual Dirty Computer traz a história de uma sociedade distópica, onde seres considerados “fora da norma” são computadores sujos. E como tudo que foge da norma em uma sociedade constantemente vigiada e sitiada, precisa ser normalizado, pasteurizado, assim, esses computadores sujos passam por uma limpeza de suas memórias. E cada uma dessas lembranças é uma música, uma experiência “freak”, considerada “fora da lei”. Nem que o crime seja se amar.

Em muitas faixas, Janelle opta por retratar as injustiças que mulheres negras sofreram e sofrem na Era Trump, colocando o orgulho nos holofotes e não o sofrimento. O hino pop, “Crazy, Classic, Life” é um bom exemplo. Em  “Django Jane”, a abordagem é a ainda mais forte. Um rap ou seria o mais novo hino mundial feminista? Ah e não esqueçam: Let the vagina have a monologue.

Desde do lançamento do videoclipe de “Django Jane”, seguido por “Make Me Feel”  e “Pynk”, a comunidade queer foi a loucura, conspirando sobre a possível sexualidade da Janelle, mas principalmente por sentirem-se representados em produto cultural (algo bem raro). Resta questionarmos se a indústria pop está disposta a dar espaço para mulheres negras. Ouvir Dirty Computer é muito menos sobre analisar a qualidade técnica do álbum e sim se perguntar o que significa uma mulher negra e queer fazer um álbum pop em 2018? Ela vai conseguir ocupar os mesmos espaços que artistas brancos? Aqui o conceito de superestimado ou subestimado passa antes pelo prisma racial de uma sociedade branca. Será que se a Taylor Swift cantasse “Pynk” o sucesso seria maior?

O objetivo de Janelle Monaé com Dirty Computer era mostrar para jovens, gays, bisexuais, trans, não binários, negros, que se sentem errados, sujos em afirmar a sua sexualidade, em lidar com a sua identidade que ela está lá, que ela nos vê e sente orgulho.  E essa jornada como um dirty computer não vai ser fácil. Vamos ter medo até de amar, mas podemos ter certeza que nunca estamos sozinhos. Caso esse sentimento surja na bad solidão domingal, recomendo ouvir esse álbum.

OUÇA: “Django Jane”, “So Afraid” e “Pynk”

Frankie Cosmos – Vessel


Para Greta Kline, vocalista da banda Frankie Cosmos, escrever músicas é um ato contínuo de conversar com ela mesma. São mais de 50 álbuns no band camp e dois produzidos em estúdio. E em seu terceiro álbum, Vessel, somos mais uma vez convidados  a entrar nesse diálogo de crescer, chorar e amadurecer. É como uma conversa com um amigo ou com nós mesmos.

Quando ouvimos Frankie Cosmos parece que nada existe além daquela música. O universo lírico de letras nos transporta para o profundo sentimento de “relatable”.  O track Being Live é quase que um resumo lírico do álbum. Nos deparamos com um verso que com certeza já repetimos em momentos silenciosos, talvez no transporte público, provavelmente em uma segunda-feira.

Being alive

Matters quite a bit

Even when you

Feel like shit

Os dois primeiros discos do Frankie Cosmos, Zentropyand  e Next Thing, eram masterclasses de rock indie de dois minutos ou menos. Já em Vessel, sentimos falta de um indie um pouco mais obscuro e melancólico, como temos na música, quase hino, Fool. Com batidas animadas e rápidas, a parte instrumental capta o ritmo frenético, as mudanças de humor, a honestidade de uma vida urbana agitada, como se fosse um microcosmos de nosso pensamentos: fazendo mil coisas, pensando mil coisas, enquanto tentamos não desistir.

Com um som mais polido, com guitarras mais trabalhadas e elementos eletrônicos meticulosos, Vessel não é uma reinvenção de Frankie Cosmos. Pelo contrário, é uma expansão tanto em nível musical quanto em lírico. Tanto que a diferença mais imediata entre o Vessel e os álbuns anteriores é o nível de experimentação composicional. Greta Kline sempre foi capaz de transpor profundos significados em letras aparentemente simples e em seu terceiro álbum isso se torna ainda mais evidente.

Greta é uma adolescente apaixonada perdendo sua linha de raciocínio em Duet. Já em Camaralize, primeiro track do álbum, em meio a uma psicodelia típica do fim dos anos 60, seu coração fica muito sensível e é melhor devolvê-lo (“When the heart gets too tender/ Return it to the sender”). Dificilmente existiria uma forma mais exata de descrever um o amor perdido.

Vessel traduz as interações pessoais e impessoais que compõem a vida moderna com um background musical frenético, a melhor representação dos pensamentos e emoções que passam em uma cabeça millennial . E como todo millennial pode ser taxadode chato, repetitivo, infantil, imaturo. Mas, são esses “defeitos” que permitem uma interpretação da vida e do amor de forma completamente honesta. Frankie Cosmos tem a coragem de ser vulnerável.

OUÇA: “Being Alive”, “Jesse”, “Duet” e “Being Alive”.

Inara George – Dearest Everybody


No primeiro verso de “Young Adult”, música que abre o terceiro álbum de carreira, Inara George canta ‘I was the daughter of my father‘. Filha de Lowell George, famoso integrante da banda de rocks dos anos 70, Little FeatInara constrói o album como uma íntima e amorosa carta de despedida ao seu pai. Não é um album de luto, mas sim de  amadurecimento, aprendizado e resistência.

Dearest Everybody (2018) é o seu primeiro álbum solo desde de 2009, no qual ela desnuda décadas de experiências, enquanto processava a morte de seu pai, cuidava de sua mãe e três filhos e ainda lidava com a sua própria discórdia interna, aquela de sentir tudo intensamente. Como resultado, uma música como “Young Adult” não soa egoísta, mas, em vez disso, auto-consciente do egocêntrismo natural do ser humano. Os arranjos superpostos com toques de teclados harmonizados com a voz de George tornam a canção cada vez mais  sensível e resoluta.

Da mesma forma, a simplicidade de um arranjo  com guitarra acústica em”Crazy” reflete uma conexão emocional franca e decidida que perpassa todo o álbum. Em músicas como “Somewhere New”, sua aceitação terrena é tão explícita que o instrumental torna-se um suporte, quase supérfluo. À medida que o álbum progride, mais envolvente as faixas ficam, como em “Slow Dance”, só que mais  genérico é o resultado final. O que faz com o que se perda todo potencial de originalidade e conexão com o ouvinte.

As referências de Inara do “cliché melódico”em “All For All” ainda são clichês. Infelizmente, ela repete a forma desgastada do sentimentalismo barato, como fica claro em “Stars”. Independentemente disso, o álbum consegue ter momentos de delicadesa e intimidade, como uma honesta carta de admiração ao seu pai.

OUÇA: “Young Adult”, “Crazy” e “Slow Dance”.

Carla Bruni – French Touch


Um dos melhores fatos sobre Carla Bruni é que ela é francesa e canta “Quelqu’un m’a dit”. Nada disso está presente em seu último álbum French Touch, no qual ela decidiu fazer covers de músicas já consagradas com um “toque [clichê] francês”. Talvez ela tenha conseguido alcançar o ápice da breguice musical, isso porque ainda não citei o cover de “Highway to Hell” (não ouçam).

Além de ser gravado no emblemático estúdio da Capitol Records em Los Angeles, o álbum French Touch foi produzido por David Foster, vencedor de 16 Grammys. Seus arranjos souberam adaptar-se ao tom de voz suave e melódico de Bruni, quase um cochicho nos nossos ouvidos. Praticamente todos os covers receberam o mesmo tratamento com um fundo de jazz e uma melodia francesa blase sem emoção, o que talvez seja algo positivo. Carla retira quase que cirurgicamente todos os gritos e aquela emoção “fake”, típica dos românticos apaixonados dos anos 80, mas isso, no entanto, não impede que ela caia em outra outra armadilha – o estereótipo da música francesa.

Ela abre com “Enjoy the Silence” de Depeche Mode, como uma balada pungente acompanhado por um piano fantasma e guitarras deslizantes, essa que já se tornou a mais ouvida no Spotify do seu álbum novo. Bruni, depois segue com uma releitura do “Jimmy Jazz” do Clash, transformando-o em um típico jazz dos anos 30. Um dos destaques é a nova roupagem que Bruni e Foster dão para “Miss You” dos Rolling Stones, a música fica ainda mais sexy em sua voz.

Carla afirma em vídeo introdutório do álbum que inicialmente achava impossível fazer novas versões de músicas que já considerava perfeitas, então optou por aquelas que mais amava. O álbum, portanto, ainda conta com covers de “The Winner Takes It All” da ABBA, uma versão meio cabaret do “Perfect Day” de Lou Reed e a ousada [no sentido negativo] reinvenção de “Highway to Hell”. O cover da clássica música do AC/DC escancara a falta de criatividade que perpassa todo o álbum.

OUÇA: “Miss You” e “Enjoy The Silence”.

Ringo Starr – Give More Love


Dizem que não se deve julgar um livro ou mesmo um álbum por sua capa. Mas como não ficar no mínimo impactado pela “criação artística” do disco do Ringo Starr. Se você é um ser humano com muita empatia, a primeira coisa que vem na sua cabeça é: “aí que brincadeirinha do Ringo”, “é zoeira”. Agora se sua fé na humanidade é pouca, provavelmente você vai soltar um palavrão espontâneo e se negar a ouvir. E não há símbolo de “paz e amor” que mude isso.

O 19º álbum de carreira – Give More Love – era para ser um disco country gravado em Nashville. Mas com há apenas duas faixas que entram nesse perfil – “So Wrong For So Long” e “Don’t Pass Me By”, a ideia inicial parece não ter se concretizado. Assim, o álbum virou um grande encontro com colegas que participam das músicas.

Só que não podemos esquecer que estamos falando de Ringo Starr. Ringo Starr, ex-baterista dos Beatles, o não beatle mais amado, por isso seus colegas não são ninguém mesmo que o ex-companheiro de banda Paul McCartney no baixo em duas faixas, Jeff Lynne do ELO, Greg Leisz, Joe Walsh do Eagles e Don Was.

Todas as não expectativas esperadas desse álbum foram cumpridas: músicas melódicas, daddy rock, tentativas de reggae. Algumas nunca precisaríamos termos ouvidos como “King Of The Kingdom”, outras até que estão dentro da margem do considerável “ok.” A faixa do título, por exemplo, já está em outra margem – a do incompreensível. Parece que alguém pegou faixas B dos Beatles e colocou em looping em um gravador . Pode também ter sido chamado de “Fuck It, That’ll Do”.

Durante todo o álbum há essa certa prepotência nostálgica de produzir músicas como nos anos 80/90. Parece que estou ouvindo clássicos dessa época, só que há apenas um porém – não são clássicos, são músicas inéditas – o que faz com que tudo fique extremamente brega e sem nenhum potencial criativo.

OUÇA: “We’re On The Road Again”, “Electricity” e “Don’t Pass Me By”