J Mascis – Elastic Days


Mascis, o virtuoso guitarrista e líder do lendário Dinosaur Jr., acaba de lançar seu mais novo álbum solo, batizado de Elastic Days, um interessante trabalho que retoma alguns dos caminhos trilhados por Mascis no predecessor Tied To A Star (2014). Ainda mais que seu predecessor, Elastic Days é uma amostra do lado mais pessoal de J. Mascis, que reflete intensamente sobre seu passado, sobre as pessoas que estão ao redor e, principalmente sobre os caminhos que ele mesmo deve trilhar no futuro.

Elastic Days, com exceção dos inconfundíveis solos de guitarra de J Mascis que estão presentes em todas as suas faixas, é um álbum essencialmente acústico cujas faixas são conduzidas apenas por um violão, um grand piano, linhas leves de bateria e um baixo quase imperceptível. Ao contrário da agitação característica dos grandes hits do Dinosaur Jr., as faixas de Elastic Days são tranquilas, alegres e vivas e a voz de J. Mascis contribui de forma decisiva para manter essa atmosfera calma e delicada que perpassa todo o álbum. J. Mascis, como músico experiente – são mais de 30 anos de carreira – sabe muito bem explorar uma sonoridade mais calma e menos exigente que aquela vista nos principais trabalhos do Dinosaur Jr. e entrega ao ouvinte um interessante e bem executado álbum de folk-rock.

A roupagem acústica do álbum permite a J. Mascis refletir abertamente sobre sua vida pessoal, sobre seu relacionamento, sobre os caminhos que ele trilhou e ainda deseja trilhar. O álbum revela um J. Mascis mais aberto, mais honesto com suas emoções e mais emocionalmente vulnerável que em outras épocas. A atmosfera tranquila do álbum é um importante pano de fundo para J. Mascis tratar de assuntos mais tensos e emocionalmente carregados e refletir sobre episódios mais agridoces de sua caminhada. “Elastic Days”, por exemplo, mostra J. Mascis ansiando por dias mais “elásticos”e maleáveis que permitam a ele atravessar os períodos difíceis da vida. “Sometimes” revela J. Mascis buscando mais tempo para si e para refletir sobre o que ainda resta e quem ainda está presente em sua vida. Outras faixas como “Give It Off”, “Picking Out The Seeds” e “I Went Dust” são exemplos de intensas e emocionantes reflexões sobre a caminhada de J. Mascis, ainda que ele não forneça muitos detalhes extremamente pessoais.

Elastic Days à primeira vista pode parecer um conjunto quase indissociável de faixas, mas após repetidas ouvidas, é possível identificar diferentes temáticas, diferentes climas e diferentes níveis de intensidade das faixas, o que mostra a sutileza e grande habilidade de J. Mascis ao trazer um trabalho bem balanceado, leve e alegre, ainda que trate de temas difíceis.

OUÇA: “Elastic Days”, “Sometimes” e “Everything She Said”

Tom Morello – The Atlas Underground


O bem conhecido e virtuoso guitarrista estadunidense Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave, Prophets of Rage) acaba de lançar seu primeiro álbum somente sob sua assinatura, The Atlas Underground, um projeto ambicioso em que o guitarrista figura como um verdadeiro curador musical e traz participações inusitadas que vão desde o rap até as luminárias da música eletrônica. The Atlas Underground é um projeto que revela a riqueza dos caminhos musicais explorados por Tom Morello ao longo de sua carreira e também mostra com clareza que ele tem acompanhado atentamente a nova geração de artistas, embora o projeto sofra da falta de coesão entre as faixas, tendo momentos muito bons seguidos por outros não tão inspiradores.

The Atlas Underground é um álbum inteiramente sombrio, mesmo em seus momentos mais esperançosos, e todas as faixas evidenciam esse aspecto, ainda que executadas por uma multiplicidade de artistas de diferentes gêneros musicais. A sonoridade dos solos, riffs e frases executados por Tom Morello contribui para dar este aspecto ao álbum e as participações de cada faixa adicionam camadas e camadas de sombras ao quadro complexo pintado por Tom Morello neste projeto.

O aspecto sombrio do álbum também é visto na temática das faixas. “We Don’t Need You”, com participação do rapper Vic Mensa, fala da guerra ao terror e à pobreza protagonizada pelo Congresso dos EUA e sobre como o mundo inteiro sofre com as más escolhas feitas pelos congressistas; “Lead Poisoning”, que conta com os lendários membros do Wu Tang Clan GZA e RZA, fala de violência policial e sobre como a juventude negra tem morrido nas mãos de policiais despreparados e violentos.

Ao lado dessas faixas, destaca-se o single “Every Step That I Take”, com participação de Portugal. The Man, uma faixa que fala de caminhar pela vida, passa após passo, muitas vezes guiado por dúvidas, hesitações e incertezas. Citam-se também boas faixas como “Find Another Way”, com participação de Marcus Mumford, que descreve uma pessoa em busca de sua redenção e livramento a partir de um novo caminho, mas que ainda não sabe muito bem por onde caminhar, e “Vigilante Nocturno”, a faixa que mais se aproxima da sonoridade pela qual Tom Morello ficou famoso no Rage Against the Machine e Audioslave, que descreve um justiceiro da noite que enfrenta seus demônios e busca restaurar a justiça em um mundo caótico. Especial menção pode ser feita às faixas “Roadrunner”, que conta com o feat da misteriosa MC Leikeli47 e fala do drama vivido por imigrantes ilegais nos EUA de Donald Trump, e à efervescente “What It’s At Ain’t What It Is”, com Gary Clark Jr. e um desconhecido Nico Stadi.

Contudo, o álbum deixa a desejar principalmente por causa da forte influência do EDM popularizado por Steve Aoki (que participa da faixa “How Long”). Quase todas as faixas do álbum são recheadas de elementos de EDM e isso apenas contribui para tornar as faixas mais sonoramente confusas. A aposta de Tom Morello no EDM, um subgênero da música eletrônica em franco declínio atualmente, não tem nenhuma explicação aparente e pode tornar o álbum menos atraente para os fãs de longa data do guitarrista e dos fãs de rap ou de indie e folk que venham a se interessar pelas participações do álbum.

The Atlas Underground não é um álbum ruim, mas poderia ser muito melhor, vindo de um veterano como Tom Morello. É um projeto relevante em sua temática, mas em muitos momentos traz uma sonoridade pouco convincente.

OUÇA: “Lead Poisoning”, “Roadrunner” e “We Don’t Need You”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Mahmundi – Para Dias Ruins


A caminhada de Marcela Vale, mais conhecida pelo nome Mahmundi, não é de hoje. Desde seu primeiro EP Efeito Das Cores (2012), Mahmundi tem crescido de forma notável e a cada novo trabalho é possível enxergar claramente seu desenvolvimento como artista e como pessoa. Nesse contexto, Para Dias Ruins, segundo álbum de estúdio da cantora, é o trabalho mais bem-acabado de Mahmundi e pode ser visto tanto como a culminação dos seus trabalhos anteriores quanto como uma pequena amostra do que será sua carreira musical daqui para frente.

Para Dias Ruins, ainda mais que seu predecessor Mahmundi, nos apresenta uma Mahmundi que aposta mais nos refrões e canta de forma mais marcante do que nos trabalhos anteriores. Do ponto de vista sonoro, o álbum recupera alguns elementos do pop rock brasileiro dos anos 90, colocando em evidência, em faixas como “Outono”, uma interação mais orgânica e direta entre guitarra, baixo, bateria e ocasionalmente o piano. Ao lado dessa influência, em faixas como “Alegria” e “Imagem”, o álbum mantém o uso dos sintetizadores e drum machines, um traço característico da trajetória musical de Mahmundi. Os sintetizadores são responsáveis por toda a harmonia nessas faixas e, junto com as drums machines, não oferecem uma sonoridade desconhecida dos ouvintes de Mahmundi, mas é possível identificar um uso mais polido e robusto desses instrumentos. “Imagem”, por exemplo, em alguns momentos lembra muito a faixa “Quase Sem Querer” do EP Setembro (2013), mas é musicalmente mais interessante e bem-acabada.

O álbum também traz novidades do ponto de vista musical, pois nele Mahmundi explora novos territórios musicais como o reggae em “Qual É A Sua?”, o MPB com elementos de bossa nova em “Eu Quero Ser O Mar”, a sonoridade mais eletrônica em “Felicidade” e uma mistura de MPB e pop no single “Tempo Pra Amar”. A faixa “Tempo Pra Amar” é o maior exemplo da evolução musical de Mahmundi, já que conjuga os sintetizadores que lhe são característicos com um formato mais próximo da música pop brasileira.

Para Dias Ruins é um álbum essencialmente alegre, pois celebra o amor e a calma, nos pede leveza em um cenário nacional pesado e duro, nos oferece um momento de tranquilidade e aponta para nossos amores, para aquilo que está por trás da tensão do nosso dia-a-dia, nos urge a valorizar quem está ao nosso lado em nossas vidas. É um álbum que traz um pouco da cara da nova música brasileira e pode ser ouvido em qualquer momento, inclusive e especialmente nos dias ruins, como sugere seu título. Mahmundi o lançou em um momento oportuno e nos chama a ouvi-lo com o coração aberto.

OUÇA: “Tempo Pra Amar”, “Eu Quero Ser O Mar”, “Alegria”

Kamasi Washington – Heaven And Earth


O grandioso saxofonista estadunidense Kamasi Washington volta à cena com o lançamento do aguardado Heaven And Earth, álbum duplo sucessor do debut The Epic (2015) e do EP The Harmony Of Difference (2017), um ambicioso e complexo projeto que confirma Washington não somente como um dos grandes nomes do jazz contemporâneo, mas como um dos grandes artistas e instrumentistas dessa geração.

Heaven And Earth, lançado pelo selo britânico independente Young Turks (Sampha, FKA Twigs, The xx), é o resultado de dois anos de trabalho intenso de Kamasi Washington, de sua banda chamada The Next Stepdo coletivo de jazz The West Coast Get Down de Los Angeles e de estrelas como Thundercat e Terrace Martin.

O projeto é composto por dois álbuns de oito músicas cada: o primeiro é chamado de Earth e o segundo Heaven. Segundo o próprio Kamasi Washington, Earth representa o mundo exterior como ele mesmo o vê e Heaven representa o mundo interior do músico, sendo que, combinados, formam um belíssimo retrato da mente e das inspirações artísticas de Kamasi Washington. Earth é mais agitado, mais frenético, mais urgente. Heaven é mais espacial, introspectivo e espiritual. Mas, não bastasse o grande esforço de lançar um álbum nesses moldes, o projeto é acompanhado de um terceiro CD com 5 faixas, que inclui dois covers: “Will You Love Me Tomorrow” e “Ooh Child”.

Nesse contexto, a proposta do álbum pode ser resumida nas palavras do músico em seu Facebook: “O mundo em que minha mente vive, vive na minha mente”. Essa “dualidade” entre dois mundos nos permite caminhar pelos diversos territórios criativos espalhados ao longo das 16 faixas do álbum, todas produzidas e arranjadas pelo próprio Kamasi Washington e executadas por ele e o time extraordinário que o acompanha fielmente. No entanto, apesar de Washington ser a mente criativa por trás do álbum, todos os músicos envolvidos com o projeto têm seus momentos de destaque e são parte indispensável na feitura desse belo projeto.

À mesma maneira do antecessor The Epic, Heaven and Earth retoma diversos elementos clássicos e indispensáveis do jazz como a aposta na improvisação, a interação orgânica do saxofone tenor de Washington com o contrabaixo, piano e bateria, além dos vertiginosos e inconfundíveis solos de Kamasi Washington e faixas longas que giram em torno de 10 minutos. Contudo, também traz um forte elemento (já visto em The Epic) que é a orquestração da maioria das faixas, o que é percebido já na faixa de abertura, “Fists Of Fury”, uma releitura politizada do tema do filme “Fúria do Dragão” (ou Fist Of Fury) de Bruce Lee (1972). Kamasi dotou as faixas de largas camadas de cordas e vocais celestiais, o que dá ao ouvinte a impressão de que o álbum foi produzido para ser tocado com apoio de uma grande orquestra (algo que não é estranho às performances ao vivo de Washington). Além disso, faixas como “Testify” e “Journey” são cantadas pela excelente Patrice Quinn, outras são salpicadas por ritmos latinos e caribenhos e elementos da música africana e há ainda faixas como “Street Fighter Mas” que revisitam a tradição do G-Funk.

Ainda que seja possível identificar suas grandes influências e temáticas, talvez seja uma tarefa impossível representar Heaven And Earth em palavras, pois este é um álbum feito para ser experimentado, sentido, vivido. Heaven And Earth é um projeto que pode ser ouvido sozinho e também pode ser ouvido entre amigos, pois as dimensões pessoais e comunitárias se sobrepõem ao longo do álbum, bem como a dialética entre os mundos interior e exterior nos fornecem ricas percepções sobre a própria obra – e sobre nossas próprias vidas – a cada nova audição.

Por fim, o grande mérito de Heaven And Earth reside na maestria com que os diversos temas e as diversas escolas musicais são representados e executados ao longo do álbum. Em Heaven And Earth, Kamasi Washington consegue conciliar sua enorme gama de influências, ao mesmo tempo em que aperfeiçoa temas e ideias já apresentadas ao mundo em The Epic. Heaven And Earth é um exemplo perfeito de como o jazz contemporâneo tem enorme relevância no cenário musical atual e tem trazido mais inovações do que qualquer outro gênero em evidência hoje.

OUÇA: “Fists Of Fury”, “Testify”, “Street Fighter Mas” e “Journey”

Kali Uchis – Isolation


Após alguns anos de espera, chega às ruas o Isolation, o tão aguardado debut de Kali Uchis, a cantora colombiana-estadunidense que ganhou maior reconhecimento após sua participação no elogiado (Scum Fuck) Flower Boy do rapper Tyler, The Creator.

Antes de Isolation, Kali Uchis havia lançado apenas um EP de nome Por Vida, que já contava com faixas produzidas por Tyler, The Creator, Kaytranada e BADBADNOTGOOD. Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon.

A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas.

A cantora navega tranquilamente pelas águas do pop contemporâneo em faixas como “Dead To Me” e “Just A Stranger”, passando pelo R&B clássico em “Flight 22”, “Killer” e “Feel Like a Fool”, pelo R&B alternativo como em “Your Teeth In My Neck”, “Tomorrow” e “Gotta Get Up – Interlude”, pelo eletropop/indie em “In My Dreams” e desembocando no reggaeton e dancehall com “Nuestro Planeta” e “Tyrant”.

As letras das faixas descrevem de forma rica quem é Kali Uchis, seu passado nas ruas colombianas, sua ida para os EUA e as dificuldades de se estabelecer como uma cantora estrangeira em terras norte-americanas, relacionamentos passados e até canções empoderadas e motivacionais como o hit “After The Storm”.

O que impressiona em Isolation é a extrema qualidade de todas as faixas, mesmo navegando entre diversos estilos musicais. O resultado é um álbum sólido, muito bem produzido e capaz de figurar entre os melhores álbuns do ano. Com toda certeza, Kali Uchis é um nome que veio para ficar.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”.

Albert Hammond, Jr. – Francis Trouble


Albert Hammond, Jr., o virtuoso guitarrista do The Strokes, volta à cena com seu quarto álbum de estúdio Francis Trouble, pelo selo Red Bull Records. O nome do álbum é uma alusão a Francis, seu irmão gêmeo que teria morrido no útero de sua mãe, e esse fato inspira Albert a refletir intensamente sobre os efeitos que a morte de seu irmão causaram em sua vida e em sua carreira. Francis Trouble é um trabalho que nos mostra um Albert Hammond Jr. mais focado, mais alegre e mais desejoso de explorar novas sonoridades, embora na maior parte do tempo ainda se atenha religiosamente às mesmas fórmulas musicais que o consagraram como músico e artista, dentro e fora do The Strokes.

Francis Trouble é mais uma mostra da grande virtuosidade de Albert Hammond Jr., pois em todas as faixas podemos ouvir seus excelentes arranjos e harmonizações com a guitarra, embora ele não tenha apostado muito em solos e tenha preferido se manter com riffs e a progressão padrão de acordes.

Nesse contexto, o álbum vem reafirmar dois fatos: o primeiro, de que a guitarra de Albert Hammond Jr. ainda se destaca mais que seus vocais e suas letras, ainda que o músico tenha cantado de forma decente durante todo o álbum; o segundo, de que a sonoridade que Albert Hammond Jr. desenvolveu ao longo de sua carreira é quase indissociada daquela presente no catálogo do The Strokes. Em verdade, o álbum demonstra como grande parte da sonoridade do The Strokes deve sua existência à mente criativa de Albert Hammond Jr.

Assim, faixas como “Far Away Truths”, “Strangers” e o single “Muted Beatings” nos remetem instantaneamente aos tempos áureos do The Strokes e nos fazem tentar encaixá-las em alguma das fases da banda novaiorquina. Por outro lado, Albert Hammond Jr. explora novas sonoridades em faixas como “ScreaMER” e “Tea For Two”, embora possamos identificar o “germe strokiano” por trás dessas músicas.

Liricamente, Albert Hammond Jr. traz diversas reflexões sobre si mesmo, sobre sua vida, seus relacionamentos e o impacto de sua própria existência na Terra. O fato de ter sido o irmão sobrevivente é um fato que impacta seu percurso específico neste álbum, embora isso não esteja explícito nas letras.

Em geral, Francis Trouble é um bom álbum, alegre e musicalmente interessante, ainda que Albert Hammond Jr. não tenha trazido muitos elementos novos neste trabalho. O trabalho tem seus méritos e pode ser um grande exemplo do que o The Strokes foi em seus tempos de ouro.

OUÇA: “Far Away Truths”, “Strangers” e “Tea For Two”

Miguel – War & Leisure


O cantor e compositor estadunidense Miguel acaba de voltar à cena com o lançamento do seu quarto álbum de estúdio, War & Leisure, pelo selo da RCA. Sucessor de Wildheart, lançado em 2015, War & Leisure é sem dúvidas o álbum mais político da carreira do cantor e nos proporciona uma reflexão sobre o atual estado de coisas na sociedade norte-americana, embora ainda contenha as faixas que falam de amor, festas e drogas, tão comuns em seus trabalhos anteriores.

War & Leisure representa uma evolução na carreira de Miguel, pois nele vemos que o cantor soube aliar o que de melhor há na música pop à sonoridade do R&B contemporâneo. É possível dizer que Miguel, junto com Kelela e SZA, é um dos artistas que tem trazido grande variedade e sofisticação ao R&B contemporâneo e War & Leisure é um bom exemplo desse fato. Por outro lado, War & Leisure é especial por sua ligação íntima com o rap, como pode ser visto nas participações de Rick Ross, Travis Scott e J. Cole, três grandes rappers que não raro são feats em músicas de outros artistas. As faixas que contam com estas participações são, respectivamente, “Criminal”, e os singles “Sky Walker” e “Come Through And Chill”, e apresentam sonoridade bem diferente entre si, embora sejam três das melhores faixas do álbum.

O álbum nos apresenta uma mistura de política e curtição, guerra e prazer, combate e amor, enfim, elementos que geralmente não são misturados em um álbum. Essa dinâmica pode ser vista ao longo de todo álbum, mas os exemplos mais fortes dessa realidade estão em “Criminal” e “Pineapple Skies”. Enquanto em “Criminal” Miguel nos relembra de diversos episódios trágicos da história dos EUA (o tiroteio em Columbine, o atentado de 11 de Setembro e exemplos de tensão racial no país), em “Pineapple Skies” o cantor nos garante de forma alegre que tudo ficará bem, mesmo que vivamos dias obscuros. “Pineapple Skies” interpola “Sexual Healing”, famosa canção de Marvin Gaye, que ironicamente também era um cantor que aliava canções de amor com aquelas de conteúdo mais político. A faixa “Now”´, que encerra o álbum, também apresenta um teor de reflexão sobre o atual cenário político norte-americano, embora traga em si a melosidade de uma canção de amor.

Em geral, as faixas são tranquilas e bem animadas, o que faz com que a audição do álbum seja bem agradável. O clima laid back e dançante da maioria das faixas se encaixa bem com os vocais de Miguel, que se destaca por suas habilidades com a voz. Faixas como “Banana Clip” e “Caramelo Duro” são bons exemplos disso.

War & Leisure é um bom trabalho e vale a pena desfrutar de tudo o que ele tem a nos oferecer. Embora o álbum tenha algumas faixas inexpressivas, certamente ajudará na projeção de Miguel como um dos grandes nomes do R&B atual.

OUÇA: “Pineapple Skies”, “Criminal” e “Banana Clip”

Bibio – Phantom Brickworks


Phantom Brickworks, o novo álbum do virtuoso músico inglês Bibio, veio como uma surpresa inesperada para os ouvintes mais atentos à trajetória do músico e acostumados com suas faixas expansivas, funkeadas e cantadas. Diferentemente do seu predecessor A Mineral Love, Phantom Brickworks é um álbum totalmente instrumental e etéreo que mais se assemelha àquelas músicas feitas para longas sessões de meditação, totalmente ambientes e suaves. Phantom Brickworks, por representar uma mudança tão radical na trajetória musical de Bibio, nos desafia a repensar os limites da música na forma que a consumimos hoje e nos convida a uma reflexão sobre o papel das sonoridades mais etéreas, incompreensíveis e complexas no vasto mundo da música contemporânea.

Como lidar com um álbum de mais de uma hora que contém faixas em sua maioria longas, muito parecidas entre si e totalmente ambientes? Existiria valor artístico em um álbum tão etéreo, tão incompreensível, tão fora da realidade material? Phantom Brickworks possui nove faixas intermediadas pelas faixas “Phantom Brickworks I, II e III”, que servem de guia para o ouvinte, embora tenham o mesmo clima suave e calmante. Toques suaves de piano aparecem aqui e ali e efeitos sonoros que imitam ambientes abertos e retratam sonoramente as mais misteriosas manifestações da natureza estão presentes em todas as faixas, o que forma um belíssimo e ao mesmo tempo assustador retrato, uma espécie de sinfonia fantasmagórica.

Bibio parece querer mostrar a nós todos, tão acostumados com o barulho e a agitação, o que significa recolher-se do caos e nos dirigir à natureza e à introspecção. É por isso que a experiência de ouvir Phantom Brickworks é totalmente diferente se estivermos focados em outra coisa ao ouvi-lo. Se não estivermos inteiramente imersos no universo do álbum, as faixas servirão apenas de pano de fundo tépido, sem nenhuma expressividade. Bibio sempre foi um grande experimentador no que toca à sonoridade e o músico levou essa filosofia à última consequência em Phantom Brickworks: o experimento é parte da música e não há como ser um bom ouvinte sem antes entender a própria música como uma experiência que nos eleva e nos leva a lugares antes desconhecidos. Será que a música pode ser uma oportunidade de nos recolhermos a lugares mais profundos do nosso ser? Será que a música pode ser um veículo que nos leve de volta à natureza, ao silêncio, enfim, a nós mesmos? A proposta de Bibio parece nos indagar exatamente essas coisas.

Por fim, Phantom Brickworks não é um álbum para todos, é necessário dizê-lo. E está tudo bem. O catálogo musical de Bibio apela, felizmente, a um vasto número de ouvintes e Phantom Brickworks com certeza terá seu lugar no coração de um tipo específico de ouvintes. O clima fantasmagórico e etéreo do álbum é mais um convite do que uma afirmação e que bom que há pessoas que aceitam tal convite. A música jamais exclui.

OUÇA: “Phantom Brickworks II”, “Capel Bethania” e “09:13”.

Weaves – Wide Open


O ano de 2017 marca o retorno da banda canadense Weaves com o lançamento do álbum Wide Open, sucessor do primeiro álbum de estúdio da banda, que levou o mesmo nome do grupo. Wide Open representa uma grande evolução na sonoridade da banda e na personalidade dos seus integrantes, com especial destaque para as letras mais conscientes e perspicazes da frontwoman Jasmyn Burke e para a atitude carismática que permeia todo o álbum.

Wide Open nos traz um Weaves mais maduro e polido, que aprendeu a ser pop ao mesmo tempo que preserva sua sonoridade indie. Boa parte das faixas são permeadas por confiantes e quase onipresentes guitarras, acompanhadas por linhas simples (mas sinceras) de baixo e uma bateria enérgica, embora por vezes bem quadrada. Contudo, o que mais chama atenção são os vocais expressivos e confiantes da frontwoman Jasmyn Burke, que, embora possam ser exaustivos perto do final do álbum, são no geral agradáveis e aconchegantes. A voz jovem de Burke, aliada à sonoridade da indie pop da banda, nos transporta à sonoridade de bandas do início dos anos 90 como o Blake Babies, liderada pela sempre-jovem Juliana Hatfield. Faixas como “Walkaway”, “La La” e alguns elementos de “Grass” são evocativas do indie de garagem do começo dos 90’s.

Contudo, o álbum não apresenta uma sonoridade unívoca, o que torna a experiência auditiva mais interessante, embora pouco concisa. Faixas como “Slicked”, “Gasoline” e até a introspectiva “Wide Open” se aproximam do indie mais atual, recheada de riffs de guitarra (com efeitos), várias onomatopeias e gritinhos, mudanças de tempo e uma atitude semi-hostil. Já a faixa Scream, com participação da cantora canadense Tanya Tagaq, destoa de todo o resto do álbum e contém algo que poderia ser chamado de “scream pop”, trazendo ao ouvinte um desagradável e inexplicável canto gutural que está francamente dissociado da sonoridade do restante das faixas.

No geral, Wide Open é um álbum interessante e representa grande evolução da banda, mas ainda diz muito pouco sobre se de fato o Weaves se firmará como um nome de peso no cenário musical atual e se realmente trilhará um caminho próspero na floresta obscura da música popular contemporânea.

OUÇA: “Walkaway”, “Wide Open” e “La La”.