Chance the Rapper – The Big Day



Chance the Rapper, o virtuoso e multitalentoso rapper de Chicago, Illinois, finalmente retornou à cena com o lançamento de seu aguardado debut, batizado de The Big Day, sucessor de Coloring Book, a terceira mixtape do artista que o consagrou entre os grandes nomes do rap internacional e o garantiu três Grammys. 

O rapper havia anunciado alguns meses atrás em suas redes sociais que lançaria seu primeiro álbum no mês de julho deste ano e, posteriormente, revelou a data de lançamento e nome do projeto poucas semanas antes de seu lançamento. Embora não tenha lançado singles para promover o álbum, Chance mobilizou sua presença digital para promovê-lo e para gerar grande expectativa nos fãs, que aguardavam ansiosamente o sucessor de Coloring Book.

No entanto, o tão aguardado The Big Day, longe de representar o crescimento artístico de Chance the Rapper e de ser mais um trabalho inovador do artista, provou ser um álbum decepcionante e muito inferior aos trabalhos que o consagraram no cenário musical contemporâneo. 

Se em Acid Rap, considerada uma das mixtapes mais importantes da década, testemunhamos a inovação e criatividade de um jovem Chance the Rapper (apenas um ano após o lançamento de sua primeira mixtape, 10 Day), e em Coloring Book verificamos o crescimento e versatilidade de um artista que ganhou três Grammys sem vender sequer um disco, em The Big Day somos testemunha de um projeto genérico, confuso e sem apelo aos fãs originais do rapper e a qualquer ouvinte desavisado. 

The Big Day é um álbum longo que conta com 22 faixas que giram em torno do dia do casamento de Chance the Rapper, o “grande dia” – expressão que nos causa ojeriza em terras brasileiras – do artista. As faixas do álbum são alegres, festivas e animadas, adequando-se ao clima festivo de uma festa de casamento. A positividade e entusiasmo de Chance aparecem em todas as faixas e é interessante poder testemunhar um pouco do que esse momento representou a ele.

Contudo, ainda que possamos nos alegrar com as alegrias de Chance the Rapper, The Big Day não é um projeto coeso e sólido. Antes, representa uma coleção de faixas confusas com participações que vão desde Nicki Minaj até Shawn Mendes e que tentam explorar uma diversidade de sonoridades e estilos musicais como R&B dos anos 90, trap, soul, jazz, pop e dance music, mas que apresentam como resultado final um retrato cacofônico de um artista que tenta a qualquer custo se adaptar ao que está em voga no mercado musical, mesmo que isso custe a criatividade, inovação e versatilidade tão característicos de sua persona e de seus trabalhos anteriores.

Se os fãs de Chance de Rapper, nos idos de 2016, pudessem viajar para o futuro e ouvir faixas como “Hot Shower”, “Ballin Flossin”, “Roo” e “5 Year Plan”, todos teriam dificuldade em acreditar que se trataria do mesmo artista que se consagrou com faixas como “Blessings”, “Cocoa Butter Kisses”, “Favorite Song” e tantas outras. 

The Big Day é um projeto decepcionante, pois representa um ponto de regressão no catálogo de um artista que vinha apresentando projetos impecáveis e culturalmente inovadores. O álbum é um longo conjunto de faixas pouco convincentes e esquecíveis que tentam explorar, sem sucesso, as alegrias e momentos memoráveis vividos em uma festa de casamento. The Big Day nos mostra que podemos estar alegres com o momento de vida que Chance the Rapper está vivendo e ao mesmo tempo profundamente tristes pelo lançamento de um projeto tão decepcionante.

OUÇA: “All Day Long”, “Eternal” e “Let’s Go On The Run”

Flying Lotus – Flamagra



O músico, produtor, DJ e rapper norte-americano Steve Ellison, a.k.a Flying Lotus, retornou à cena com seu aguardado sexto álbum de estúdio, batizado de Flamagra, cinco anos após o lançamento do aclamado You’re Dead!. Flamagra é um trabalho ousado de Flying Lotus que, longe de ser entretecido por um conceito ou ideia que perpassa todo o álbum, nos apresenta diversas rotas musicais e conceituais espalhadas ao longo das 27 faixas que o compõem.

O novo álbum de FlyLo pode ser visto como uma grande confluência das influências musicais e dos contemporâneos do artista, um verdadeiro Panteão do atual cenário musical do jazz, hip hop e do funk, trazendo colaborações tão icônicas quanto diversas como Anderson .Paak, George Clinton, Herbie Hancock, Solange, Tierra Whack, Denzel Curry, Toro y Moi, Thundercat e até um trecho de uma fala do aclamado diretor David Lynch.

Isso explica a multiplicidade de caminhos musicais trilhados ao redor do álbum, que comunga faixas mais funkeadas e cantadas como “Burning Down The House”, com feat de George Clinton, com faixas essencialmente instrumentais como “Fire Is Coming”, que conta com o snippet icônico de David Lynch, “Inside Your Home”e “Heroes”, a excelente faixa de abertura. Mas não para por aí. O álbum também traz esforços mais ligados ao rap, como a faixa “Black Balloons Reprise” com Denzel Curry, que serve como uma continuação mais sombria do tema explorado por Curry em sua própria faixa “BLACK BALOONS” do álbum TA13OO (2018), além de explorar os temas sonoros mais caros ao R&B alternativo na faixa “Land Of Honey”, com participação de Solange Knowles, entre tantas outras influências espalhadas pelas 27 faixas do álbum.

O único ponto negativo de Flamagra é que seu tamanho pode desencorajar uma boa parcela dos ouvintes, uma vez que o álbum não tem uma célula de sentido única, nem um fio condutor evidente que prenda a atenção do ouvinte ao longo das faixas. Talvez o único elemento que liga todas as faixas é a ideia de fogo e chamas (daí o nome Flamagra), mas até isso não é tão evidente durante a audição do álbum.

Ainda que peque pela falta de coesão em alguns momentos, Flamagra é um álbum que merece ser ouvido do início ao fim, já que testemunha o imenso poder criativo de Lotus e nos brinda com participações de uns dos grandes artistas de nossa época, tanto os consolidados quanto aqueles em ascensão.

OUÇA: “The Climb”, “Fire Is Coming” e “Black Balloons Reprise”

Gang of Four – Happy Now



Os veteranos do Gang Of Four retornaram à cena com seu mais novo álbum, Happy Now, sucessor de What Happens Next (2015), lançado pelo selo alternativo do frontman Andy Gill. Happy Now, em contraste com seu antecessor, é um álbum eminentemente político por meio do qual o grupo inglês reflete sobre os principais acontecimentos da presente época: Brexit, Trump, pós-verdade e a persistente distribuição de renda ao redor do mundo.

Happy Now dificilmente representa um retorno à sonoridade pela qual o Gang of Four se tornou conhecido nos anos 80, uma sonoridade marcada pelos clássicos riffs funkeados de guitarra, linhas de baixo alucinantes e batidas pesadas e cruas de bateria, o que os tornou expoentes no que se convencionou chamar de pós-punk. Ao contrário, o álbum explora em quase toda sua extensão uma espécie de eletropop misturado com pitadas de rock industrial, recheado de sintetizadores, vozes sampleadas, drum machines e efeitos sonoros.

A sonoridade das faixas é vívida e animada, mas nem por isso deixam de ser sombrias, cruas e intensas; contudo, as faixas são interessantes, não repetitivas e envolventes.

A razão para isso reside no fato de que a formação atual grupo parece estar em maior sintonia do que no disco anterior (desde 2013, Andy Gill, o único remanescente da formação original, vem testando novas formações para o grupo) e Happy Now pode ser visto como um ponto importante para o “longo retorno” do grupo.

As letras das faixas tratam dos acontecimentos políticos da presente época. Em “Alpha Male”, o grupo critica o presidente estadunidense Donald Trump e os escândalos que acompanham seu governo (inclusive, um dos quadrantes da capa do contém o rosto do presidente) e até sampleia sua voz em alguns trechos; em “Ivanka: ‘My Names On It’”, a crítica se estende à esposa de Trump e ao resto da família do presidente, que são símbolos dos cúmplices e testemunhas coniventes de um governo marcado por escândalos, desmandos e violação de direitos. “I’m A Liar” e “White Lies” nos trazem reflexões sobre a natureza da verdade e como sua importância tem sido relativizada nos grandes territórios de embate político, notadamente as redes sociais.

Happy Now não é exatamente o expoente da arte de protesto de nossos tempos, mas representa um trabalho tematicamente interessante e sonoramente consistente de uma banda que sempre foi marcada por boas e ácidas críticas aos tempos em que esteve inserida. O mais novo trabalho da banda é louvável por não se silenciar diante de catástrofes políticas e sociais que ainda nos assolam e por nos mostrar que a música é um instrumento vital de resistência.

OUÇA: “Alpha Male”, “Change The Locks” e “White Lies”

Juliana Hatfield – Weird


Juliana Hatfield está de volta à cena com seu mais novo álbum Weird, sucessor de Pussycat (2017), um trabalho no qual, ainda mais que em seu predecessor, a cantora e guitarrista procura conciliar a sonoridade pela qual se tornou conhecida nos anos 90 com as novas demandas da música contemporânea.

Para quem conhece Juliana Hatfield dos seus tempos de Blake Babies e de sua curta carreira solo em meados dos anos 90 sabe que a cantora tem uma voz e estilo inconfundíveis. Nesse sentido, talvez o maior trunfo de Weird seja a tradução desse estilo para os padrões do pop rock contemporâneo.

As guitarras já não são mais tão sujas como eram em Sunburn do Blake Babies e a voz de Juliana, embora ainda inconfundivelmente aguda, já não é mais tão aguda como era nos anos 90, mas podemos enxergar diversas continuidades na sonoridade e nas influências que permeiam o álbum. A forte influência de Dinosaur Jr. se faz sentir em quase todo o álbum, embora Juliana Hatfield explore um tipo de som menos sombrio e mais alegre que a sonoridade dos dinossauros.

As letras gravitam em torno da personalidade inusitada, não-confirmista e freak da cantora (daí o título do álbum, explorado na faixa “It’s So Weird”) e também trazem reflexões sobre que caminhos seguir, sobre medos e sobre a dificuldade de mudar muitas coisas (como em “Receiver” e “Broken Doll”).

Por fim, o álbum, embora animado e ensolarado, se torna por demais repetitivo em sua segunda metade, o que torna a experiencia auditiva um tanto enfadonha. Weird é um álbum decente que pode representar a continuidade da carreira solo de Juliana Hatfield e sua tentativa de caminhar pelos territórios da música contemporânea, mas ainda é falho em muitos aspectos e pouco imaginativo em várias partes.

OUÇA: “It’s So Weird”, “Staying In” e “Broken Doll”

J Mascis – Elastic Days


Mascis, o virtuoso guitarrista e líder do lendário Dinosaur Jr., acaba de lançar seu mais novo álbum solo, batizado de Elastic Days, um interessante trabalho que retoma alguns dos caminhos trilhados por Mascis no predecessor Tied To A Star (2014). Ainda mais que seu predecessor, Elastic Days é uma amostra do lado mais pessoal de J. Mascis, que reflete intensamente sobre seu passado, sobre as pessoas que estão ao redor e, principalmente sobre os caminhos que ele mesmo deve trilhar no futuro.

Elastic Days, com exceção dos inconfundíveis solos de guitarra de J Mascis que estão presentes em todas as suas faixas, é um álbum essencialmente acústico cujas faixas são conduzidas apenas por um violão, um grand piano, linhas leves de bateria e um baixo quase imperceptível. Ao contrário da agitação característica dos grandes hits do Dinosaur Jr., as faixas de Elastic Days são tranquilas, alegres e vivas e a voz de J. Mascis contribui de forma decisiva para manter essa atmosfera calma e delicada que perpassa todo o álbum. J. Mascis, como músico experiente – são mais de 30 anos de carreira – sabe muito bem explorar uma sonoridade mais calma e menos exigente que aquela vista nos principais trabalhos do Dinosaur Jr. e entrega ao ouvinte um interessante e bem executado álbum de folk-rock.

A roupagem acústica do álbum permite a J. Mascis refletir abertamente sobre sua vida pessoal, sobre seu relacionamento, sobre os caminhos que ele trilhou e ainda deseja trilhar. O álbum revela um J. Mascis mais aberto, mais honesto com suas emoções e mais emocionalmente vulnerável que em outras épocas. A atmosfera tranquila do álbum é um importante pano de fundo para J. Mascis tratar de assuntos mais tensos e emocionalmente carregados e refletir sobre episódios mais agridoces de sua caminhada. “Elastic Days”, por exemplo, mostra J. Mascis ansiando por dias mais “elásticos”e maleáveis que permitam a ele atravessar os períodos difíceis da vida. “Sometimes” revela J. Mascis buscando mais tempo para si e para refletir sobre o que ainda resta e quem ainda está presente em sua vida. Outras faixas como “Give It Off”, “Picking Out The Seeds” e “I Went Dust” são exemplos de intensas e emocionantes reflexões sobre a caminhada de J. Mascis, ainda que ele não forneça muitos detalhes extremamente pessoais.

Elastic Days à primeira vista pode parecer um conjunto quase indissociável de faixas, mas após repetidas ouvidas, é possível identificar diferentes temáticas, diferentes climas e diferentes níveis de intensidade das faixas, o que mostra a sutileza e grande habilidade de J. Mascis ao trazer um trabalho bem balanceado, leve e alegre, ainda que trate de temas difíceis.

OUÇA: “Elastic Days”, “Sometimes” e “Everything She Said”

Tom Morello – The Atlas Underground


O bem conhecido e virtuoso guitarrista estadunidense Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave, Prophets of Rage) acaba de lançar seu primeiro álbum somente sob sua assinatura, The Atlas Underground, um projeto ambicioso em que o guitarrista figura como um verdadeiro curador musical e traz participações inusitadas que vão desde o rap até as luminárias da música eletrônica. The Atlas Underground é um projeto que revela a riqueza dos caminhos musicais explorados por Tom Morello ao longo de sua carreira e também mostra com clareza que ele tem acompanhado atentamente a nova geração de artistas, embora o projeto sofra da falta de coesão entre as faixas, tendo momentos muito bons seguidos por outros não tão inspiradores.

The Atlas Underground é um álbum inteiramente sombrio, mesmo em seus momentos mais esperançosos, e todas as faixas evidenciam esse aspecto, ainda que executadas por uma multiplicidade de artistas de diferentes gêneros musicais. A sonoridade dos solos, riffs e frases executados por Tom Morello contribui para dar este aspecto ao álbum e as participações de cada faixa adicionam camadas e camadas de sombras ao quadro complexo pintado por Tom Morello neste projeto.

O aspecto sombrio do álbum também é visto na temática das faixas. “We Don’t Need You”, com participação do rapper Vic Mensa, fala da guerra ao terror e à pobreza protagonizada pelo Congresso dos EUA e sobre como o mundo inteiro sofre com as más escolhas feitas pelos congressistas; “Lead Poisoning”, que conta com os lendários membros do Wu Tang Clan GZA e RZA, fala de violência policial e sobre como a juventude negra tem morrido nas mãos de policiais despreparados e violentos.

Ao lado dessas faixas, destaca-se o single “Every Step That I Take”, com participação de Portugal. The Man, uma faixa que fala de caminhar pela vida, passa após passo, muitas vezes guiado por dúvidas, hesitações e incertezas. Citam-se também boas faixas como “Find Another Way”, com participação de Marcus Mumford, que descreve uma pessoa em busca de sua redenção e livramento a partir de um novo caminho, mas que ainda não sabe muito bem por onde caminhar, e “Vigilante Nocturno”, a faixa que mais se aproxima da sonoridade pela qual Tom Morello ficou famoso no Rage Against the Machine e Audioslave, que descreve um justiceiro da noite que enfrenta seus demônios e busca restaurar a justiça em um mundo caótico. Especial menção pode ser feita às faixas “Roadrunner”, que conta com o feat da misteriosa MC Leikeli47 e fala do drama vivido por imigrantes ilegais nos EUA de Donald Trump, e à efervescente “What It’s At Ain’t What It Is”, com Gary Clark Jr. e um desconhecido Nico Stadi.

Contudo, o álbum deixa a desejar principalmente por causa da forte influência do EDM popularizado por Steve Aoki (que participa da faixa “How Long”). Quase todas as faixas do álbum são recheadas de elementos de EDM e isso apenas contribui para tornar as faixas mais sonoramente confusas. A aposta de Tom Morello no EDM, um subgênero da música eletrônica em franco declínio atualmente, não tem nenhuma explicação aparente e pode tornar o álbum menos atraente para os fãs de longa data do guitarrista e dos fãs de rap ou de indie e folk que venham a se interessar pelas participações do álbum.

The Atlas Underground não é um álbum ruim, mas poderia ser muito melhor, vindo de um veterano como Tom Morello. É um projeto relevante em sua temática, mas em muitos momentos traz uma sonoridade pouco convincente.

OUÇA: “Lead Poisoning”, “Roadrunner” e “We Don’t Need You”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Mahmundi – Para Dias Ruins


A caminhada de Marcela Vale, mais conhecida pelo nome Mahmundi, não é de hoje. Desde seu primeiro EP Efeito Das Cores (2012), Mahmundi tem crescido de forma notável e a cada novo trabalho é possível enxergar claramente seu desenvolvimento como artista e como pessoa. Nesse contexto, Para Dias Ruins, segundo álbum de estúdio da cantora, é o trabalho mais bem-acabado de Mahmundi e pode ser visto tanto como a culminação dos seus trabalhos anteriores quanto como uma pequena amostra do que será sua carreira musical daqui para frente.

Para Dias Ruins, ainda mais que seu predecessor Mahmundi, nos apresenta uma Mahmundi que aposta mais nos refrões e canta de forma mais marcante do que nos trabalhos anteriores. Do ponto de vista sonoro, o álbum recupera alguns elementos do pop rock brasileiro dos anos 90, colocando em evidência, em faixas como “Outono”, uma interação mais orgânica e direta entre guitarra, baixo, bateria e ocasionalmente o piano. Ao lado dessa influência, em faixas como “Alegria” e “Imagem”, o álbum mantém o uso dos sintetizadores e drum machines, um traço característico da trajetória musical de Mahmundi. Os sintetizadores são responsáveis por toda a harmonia nessas faixas e, junto com as drums machines, não oferecem uma sonoridade desconhecida dos ouvintes de Mahmundi, mas é possível identificar um uso mais polido e robusto desses instrumentos. “Imagem”, por exemplo, em alguns momentos lembra muito a faixa “Quase Sem Querer” do EP Setembro (2013), mas é musicalmente mais interessante e bem-acabada.

O álbum também traz novidades do ponto de vista musical, pois nele Mahmundi explora novos territórios musicais como o reggae em “Qual É A Sua?”, o MPB com elementos de bossa nova em “Eu Quero Ser O Mar”, a sonoridade mais eletrônica em “Felicidade” e uma mistura de MPB e pop no single “Tempo Pra Amar”. A faixa “Tempo Pra Amar” é o maior exemplo da evolução musical de Mahmundi, já que conjuga os sintetizadores que lhe são característicos com um formato mais próximo da música pop brasileira.

Para Dias Ruins é um álbum essencialmente alegre, pois celebra o amor e a calma, nos pede leveza em um cenário nacional pesado e duro, nos oferece um momento de tranquilidade e aponta para nossos amores, para aquilo que está por trás da tensão do nosso dia-a-dia, nos urge a valorizar quem está ao nosso lado em nossas vidas. É um álbum que traz um pouco da cara da nova música brasileira e pode ser ouvido em qualquer momento, inclusive e especialmente nos dias ruins, como sugere seu título. Mahmundi o lançou em um momento oportuno e nos chama a ouvi-lo com o coração aberto.

OUÇA: “Tempo Pra Amar”, “Eu Quero Ser O Mar”, “Alegria”

Kamasi Washington – Heaven And Earth


O grandioso saxofonista estadunidense Kamasi Washington volta à cena com o lançamento do aguardado Heaven And Earth, álbum duplo sucessor do debut The Epic (2015) e do EP The Harmony Of Difference (2017), um ambicioso e complexo projeto que confirma Washington não somente como um dos grandes nomes do jazz contemporâneo, mas como um dos grandes artistas e instrumentistas dessa geração.

Heaven And Earth, lançado pelo selo britânico independente Young Turks (Sampha, FKA Twigs, The xx), é o resultado de dois anos de trabalho intenso de Kamasi Washington, de sua banda chamada The Next Stepdo coletivo de jazz The West Coast Get Down de Los Angeles e de estrelas como Thundercat e Terrace Martin.

O projeto é composto por dois álbuns de oito músicas cada: o primeiro é chamado de Earth e o segundo Heaven. Segundo o próprio Kamasi Washington, Earth representa o mundo exterior como ele mesmo o vê e Heaven representa o mundo interior do músico, sendo que, combinados, formam um belíssimo retrato da mente e das inspirações artísticas de Kamasi Washington. Earth é mais agitado, mais frenético, mais urgente. Heaven é mais espacial, introspectivo e espiritual. Mas, não bastasse o grande esforço de lançar um álbum nesses moldes, o projeto é acompanhado de um terceiro CD com 5 faixas, que inclui dois covers: “Will You Love Me Tomorrow” e “Ooh Child”.

Nesse contexto, a proposta do álbum pode ser resumida nas palavras do músico em seu Facebook: “O mundo em que minha mente vive, vive na minha mente”. Essa “dualidade” entre dois mundos nos permite caminhar pelos diversos territórios criativos espalhados ao longo das 16 faixas do álbum, todas produzidas e arranjadas pelo próprio Kamasi Washington e executadas por ele e o time extraordinário que o acompanha fielmente. No entanto, apesar de Washington ser a mente criativa por trás do álbum, todos os músicos envolvidos com o projeto têm seus momentos de destaque e são parte indispensável na feitura desse belo projeto.

À mesma maneira do antecessor The Epic, Heaven and Earth retoma diversos elementos clássicos e indispensáveis do jazz como a aposta na improvisação, a interação orgânica do saxofone tenor de Washington com o contrabaixo, piano e bateria, além dos vertiginosos e inconfundíveis solos de Kamasi Washington e faixas longas que giram em torno de 10 minutos. Contudo, também traz um forte elemento (já visto em The Epic) que é a orquestração da maioria das faixas, o que é percebido já na faixa de abertura, “Fists Of Fury”, uma releitura politizada do tema do filme “Fúria do Dragão” (ou Fist Of Fury) de Bruce Lee (1972). Kamasi dotou as faixas de largas camadas de cordas e vocais celestiais, o que dá ao ouvinte a impressão de que o álbum foi produzido para ser tocado com apoio de uma grande orquestra (algo que não é estranho às performances ao vivo de Washington). Além disso, faixas como “Testify” e “Journey” são cantadas pela excelente Patrice Quinn, outras são salpicadas por ritmos latinos e caribenhos e elementos da música africana e há ainda faixas como “Street Fighter Mas” que revisitam a tradição do G-Funk.

Ainda que seja possível identificar suas grandes influências e temáticas, talvez seja uma tarefa impossível representar Heaven And Earth em palavras, pois este é um álbum feito para ser experimentado, sentido, vivido. Heaven And Earth é um projeto que pode ser ouvido sozinho e também pode ser ouvido entre amigos, pois as dimensões pessoais e comunitárias se sobrepõem ao longo do álbum, bem como a dialética entre os mundos interior e exterior nos fornecem ricas percepções sobre a própria obra – e sobre nossas próprias vidas – a cada nova audição.

Por fim, o grande mérito de Heaven And Earth reside na maestria com que os diversos temas e as diversas escolas musicais são representados e executados ao longo do álbum. Em Heaven And Earth, Kamasi Washington consegue conciliar sua enorme gama de influências, ao mesmo tempo em que aperfeiçoa temas e ideias já apresentadas ao mundo em The Epic. Heaven And Earth é um exemplo perfeito de como o jazz contemporâneo tem enorme relevância no cenário musical atual e tem trazido mais inovações do que qualquer outro gênero em evidência hoje.

OUÇA: “Fists Of Fury”, “Testify”, “Street Fighter Mas” e “Journey”

Kali Uchis – Isolation


Após alguns anos de espera, chega às ruas o Isolation, o tão aguardado debut de Kali Uchis, a cantora colombiana-estadunidense que ganhou maior reconhecimento após sua participação no elogiado (Scum Fuck) Flower Boy do rapper Tyler, The Creator.

Antes de Isolation, Kali Uchis havia lançado apenas um EP de nome Por Vida, que já contava com faixas produzidas por Tyler, The Creator, Kaytranada e BADBADNOTGOOD. Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon.

A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas.

A cantora navega tranquilamente pelas águas do pop contemporâneo em faixas como “Dead To Me” e “Just A Stranger”, passando pelo R&B clássico em “Flight 22”, “Killer” e “Feel Like a Fool”, pelo R&B alternativo como em “Your Teeth In My Neck”, “Tomorrow” e “Gotta Get Up – Interlude”, pelo eletropop/indie em “In My Dreams” e desembocando no reggaeton e dancehall com “Nuestro Planeta” e “Tyrant”.

As letras das faixas descrevem de forma rica quem é Kali Uchis, seu passado nas ruas colombianas, sua ida para os EUA e as dificuldades de se estabelecer como uma cantora estrangeira em terras norte-americanas, relacionamentos passados e até canções empoderadas e motivacionais como o hit “After The Storm”.

O que impressiona em Isolation é a extrema qualidade de todas as faixas, mesmo navegando entre diversos estilos musicais. O resultado é um álbum sólido, muito bem produzido e capaz de figurar entre os melhores álbuns do ano. Com toda certeza, Kali Uchis é um nome que veio para ficar.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”.