Kim Gordon – No Home Record



Quais fatores definem nossa identidade? Como as coisas que fazemos ou as pessoas que temos ao redor de nós influi em quem somos? E se essas coisas estão atreladas a nós por anos, décadas, quais as marcas que deixam quando ficam para trás?

É quase inevitável pensar em questões assim quando escutamos o primeiro álbum solo de Kim Gordon. Pois não tem como a artista não ter ficado marcada por suas décadas de trabalho à frente do Sonic Youth, uma das bandas que ajudou a definir o rock alternativo desde os anos 80. O que, no entanto, não quer dizer que Gordon tenha ficado parada desde 2011. De lá para cá foram nada menos do que 3 discos lançados com projetos como Body/Head e Glitterbust, além de vários EPs, aparições na TV e no cinema e até um livro de memórias. Mas, mesmo antes do fim do Sonic Youth, Gordon já se envolvia em uma série de projetos paralelos, como a banda Free Kitten.

Talvez faça mais sentido pensar em No Home Record como uma continuação desse trabalho multifacetado de Gordon do que em buscar nele ecos do Sonic Youth. Não que não existam paralelos. Em alguns aspectos, o debute de Gordon lembra os álbuns que o Sonic Youth fez em sua era de ouro, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Os sons angulares, com uma forte pegada industrial, os vocais distantes e cool. Mas mesmo esses fatores já haviam voltado à tona nos projetos mais recentes da musicista. No Home Record pode não ser, nem de longe, o álbum mais experimental de Gordon nos últimos anos, mas compartilha do mesmo impulso desses. Da vontade de fazer coisas diferentes, de testar suas possibilidades. De todas essas coisas que a arte experimental prima por fazer.

Talvez por isso seja um disco tão variado. Vamos desde um punk relativamente simples com “Hungry Baby” até, de forma mais surpreendente, experimentações melódicas que parecem sair da mesma estrutura do trap, como na faixa “Paprika Pony”. Vindo de uma artista tão completa como Gordon, nada deveria nos surpreender. E, de fato, quando analisamos friamente, não surpreende mesmo. Pois, ainda que variado e rico, No Home Record cai em algo que volta a aproximá-lo de alguns álbuns do Sonic Youth: é um trabalho extremamente intelectual. Suas faixas são criadas em torno de estruturas bem definidas, e, a partir disso, são bem estruturadas. Colocar juntas todas essas partes exige um esforço mental, além de grande conhecimento sobre diferentes estilos musicais e sobre o que é cool. Essas são qualidades que ninguém pode negar que Kim Gordon tenha e das quais se utiliza muito bem.

O que isso significa, no entanto, é que não estamos diante de uma obra musical leve, para ouvirmos no modo aleatório. O álbum exige certa dedicação. Quase como ler um manifesto. Pois, de certa forma, é isso que é. No Home Record é uma espécie de declaração daquilo que podemos esperar da música de Gordon daqui para a frente. Não por acaso a música que fecha o disco é chamada “Get Yr Life Back”. E, julgando por aquilo que Kim reunião nessa coleção sonora, ficamos sabendo que ela não vai ignorar sua história com a banda que a tornou famosa, mas que sua identidade certamente não se resume a sua história.

OUÇA: Air BnB”, “Hungry Baby” e “Get Yr Life Back”

Boy & Bear – Suck On Light



O folk é um gênero musical que tem tudo a ver com raízes. Seu nome tem a mesma etimologia da nossa palavra folclore. O que nos traz à mente histórias e canções passadas de geração para geração, que dialogam diretamente com a história e as tradições de um povo. A transposição disso para a música contemporânea não é nunca direta. Os subgêneros de metal que se relacionam com o folk, por exemplo, costumam beber na fonte de um ideal medieval de culturas europeias, usando suas figuras mitológicas como símbolos. Já no rock mainstream e no indie, o folk começou com artistas gravando músicas que, muitas vezes, já existiam décadas antes, cujas autorias não eram fáceis de definir, se é que não eram composições que foram se moldando ao longo do tempo. Uma boa parte das primeiras gravações fonográficas foram dedicadas a esses registros, mais por seu caráter histórico do que artístico.

Essas gravações, no entanto, cristalizaram uma imagem do que seria uma canção folk. A primeira relação que a maior parte de nós tem com essa palavra é a cena dos EUA nos anos 1960, na qual artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Johnny Cash regravaram alguns desses clássicos, muitas vezes dando traços autorais a esses novos registros. E foi através de uma afinidade com o ideal de como uma canção folk deveria soar, com toda sua história, que artistas desse período passaram a compor suas obras, que até hoje são populares mundo afora. Desde então, as nossas expectativas sobre o folk são praticamente as mesmas.

Mesmo na Austrália, do outro lado do mundo, essas expectativas não foram revolucionadas, graças à mesma matriz da língua inglesa. Ainda que o folk tenha diversos matizes regionais, sua identidade geral é fácil de reconhecer. Por isso, na década passada, quando o folk passou por um novo ciclo de retorno, as referências para quem produzia o som, assim como para quem ouvia, eram as do folk dos anos 1960, um folk infundido com muito rock, que trazia suas letras para questões contemporâneas, com guitarras mais energéticas que Dylan conquistou a tanto custo, mas mantendo uma identidade relativamente estável. Foi nesse cenário que a banda Boy & Bear surgiu, primeiro fazendo covers de seus ídolos do país dos cangurus, e depois com sua própria versão cantarolável e aconchegante do folk em seu debute Moonfire. A facilidade de conhecer e já sair acompanhando cada uma das faixas era um dos pontos mais altos do álbum.

Mas, como ocorreu com tantos artistas desse folk do novo milênio, Boy & Bear foi se debruçando cada vez mais para o rock e deixando o folk de lado. Se tornando cada vez mais hermética. Suas novas canções não convidavam quem as ouvia a aprender as letras para cantar junto. Mas o folk, como disse, é uma música de raiz. E elas sempre estão lá quando precisamos voltar. Suck On Light é um retorno às origens para a banda.

Logo de primeira audição, algumas das melodias parecem ser exatamente as mesmas que a banda toca há oito anos. Pode-se dizer, no entanto, que são versões mais maduras dos mesmos riffs. O que faz com que sintamos falta da jovialidade do primeiro álbum, mas que também tenhamos uma ideia de sua trajetória. Ainda que não sejam canções poderosas, as presentes em Suck On Light são as melhores que a banda desenvolveu desde o debute. Partindo já de como puxa o coro na faixa de abertura até como incorpora guitarras de uma forma que não faz com que percam a aparência de efeitos puramente acústicos. Ou melhor, elas são perceptíveis, mas não destoam. A equalização do álbum foi bem-feita. Fica longe do lo-fi, mas sem cair nos males da superprodução que é um dos bode-expiatórios mais comuns na crítica musical.

Mas o principal defeito do disco aparece justamente em um ponto que é essencial para qualquer obra do gênero folk: nas letras. Aquela vontade de cantar junto não surge em nenhum momento. Podemos admirar o ritmo, a execução técnica. Mas onde está a alma? Quais são as questões das quais esse álbum está tratando? O mundo pode estar precisando de um pouco do engajamento social pelo qual o folk ficou conhecido, ou, ao menos, por sua forma de colocar nossas vidas em perspectiva, cantar nossos cotidianos. Suck On Light não parece fazer nada disso. Antes ficando restrito à psicologia superficial e aos sentimentos genéricos que são tão comuns no soft rock.

OUÇA: “Work Of Art”; “Off My Head” e “Telescope”

Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.

The Drums – Brutalism



Brutalismo é um termo originado na arquitetura. Muitas pessoas acreditam, erroneamente, que é usado para definir uma tendência moderna de construções que quebrem de uma maneira violenta com as tradições e expectativas estéticas. Mas, na verdade, a palavra se refere àqueles prédios nos quais o concreto é exibido em sua forma bruta, sem um acabamento que o esconda ou proteja. Muitas vezes essas duas ideias podem estar aproximadas, afinal, o que é mais contrário às expectativas, mais chocante, do que exibir as suas entranhas dessa forma? E é isso que conduz à confusão.

Parece ser no sentido de expor aquilo que convencionalmente fica escondido que a banda The Drums batizou seu quinto álbum de estúdio de Brutalism. As canções colecionadas aqui são de uma ingenuidade quase adolescente, aquela de quem não consegue aparentar ser algo diferente daquilo que se é. Faixas como a que dá título ao disco são em um tom confessional, mas não da forma quase religiosa que acontece com tantos álbuns que tentam expor seus sentimentos, antes disso é o tipo de confissão que fazemos para o crush da juventude ou o tom natural que usamos para conversar com as pessoas de quem somos próximos. De muitas formas diferentes, Brutalism parece a obra de uma banda jovem. Alguém que escute sem saber de qual grupo se trata ou mesmo sem conhecer sua história, provavelmente pensaria ser um debute. E não dos piores.

Muito pelo contrário, a outra impressão que vem à tona ao ouvir o álbum é que ele vem da era de ouro do indie. Talvez esse trabalho se encaixasse melhor no cenário musical de uma década atrás do que o primeiro lançado pelo The Drums. A mistura de influências ainda é a mesma, com elementos do surf dos Beach Boys ao mesmo tempo que uma dose considerável de post-punk. Mas, conforme os membros-fundadores foram deixando a banda, até o ponto de fazer com que se torne quase um projeto solo do vocalista Jonathan Pierce, a crueza da sonoridade foi se revelando cada vez mais.

Brutalism tem um equilíbrio de parece cada vez mais raro de encontrar na música indie. Não há um excesso de produção, mas também não chega nem perto de ser lo-fi, são faixas que buscam abertamente ser do tipo que vão fazer as pessoas dançarem, cantarem junto, mas sem se renderem aos clichês do pop mais comercial. Acima de tudo, une a vitalidade da juventude e sua inocência a alguns momentos de desilusão, letras que, se não inteligentes, ao menos são eficientes. “Body Chemistry” é provavelmente o melhor single lançado pela banda. Ou, ao menos, pode competir de igual para igual com os seus preferidos até aqui.

OUÇA: “Body Chemistry”, “Kiss It Away” e “Brutalism”.

These New Puritans – Inside The Rose



Ninguém pode dizer que These New Puritans não é uma banda pretensiosa. Em todos os sentidos da palavra. Não basta se auto-rotular neoclássica ou se inspirar em conceitos saídos diretamente da cosmologia. Os álbuns da banda são sempre ambiciosos, tentando encaixar uma série de ideias distintas em um formato que ao menos pareça ser sofisticado. Os resultados, como era de se esperar, são variados, mas, surpreendentemente, costumam estar mais na margem positiva, ao menos no que se refere às avaliações da crítica.

O ponto alto da carreira da banda até agora foi Hidden, um álbum marcado pelo post-rock com uma pegada muito forte de música erudita. Um pouco desse espirito continuou com as produções posteriores e chega até a Inside The Rose. A estrutura do álbum como um todo pode muito bem lembrar uma sinfonia. Está bem longe de ser conceitual, ao menos no sentido de contar com uma narrativa em seu esqueleto, mas é inegavelmente um disco que foi feito para ser ouvido como uma coisa só. Ainda assim, a música clássica passa bem longe da verdadeira sonoridade que experimentamos. Antes disso, estamos escutando um exemplo do post-punk em sua vertente que se pretende mais refinada. Ao menos, é quando mais se aproxima desse gênero que o álbum tem seus melhores momentos.

Com uma duração média que fica próxima dos 5 minutos, as faixas de Inside The Rose juntam uma atmosfera envolvente, ainda que soturna, com melodias que estão entre as mais acessíveis da banda, ao menos até agora. De vez em quando parece existir uma tentativa de exibicionismo, como se quisessem dizer “vejam só o que podemos fazer, como nossa arte é complexa”, mas, na maior parte do tempo, esses esforços conseguem passar como naturais. Se os vocais são consideravelmente fracos, as letras até que são boas, tirando um ou outro clichê ou momento de exagero. Ainda assim, é na instrumentação que These New Puritans sempre mostrou a que veio, e não é diferente com esse disco. Muitas das faixas, inclusive, poderiam ser muito bem instrumentais. A que dá título ao álbum, por exemplo.

Seguindo a analogia da sinfonia, é o “terceiro movimento”, indo de “Lost Angel” até o final do álbum o único que parece mais perdido, sendo uma espécie de esvair da obra, que acaba de uma forma um tanto xoxa. Talvez seja uma forma de contrabalancear a intensidade dos dois movimentos anteriores, cada um composto de três músicas, mas acaba parecendo um simples material que sobrou.

Se Inside The Rose não chega à catarse de Hidden, que continua sendo o melhor ponto para conhecer These New Puritans, pode agradar quem quiser algo novo da banda, ou simplesmente um post-punk atmosférico e denso, mas com certo lirismo.

OUÇA: “Into The Fire”, “Where The Trees Are On Fire” e “infinity Vibraphones”

White Lies – Five


Tocar uma composição clássica (ou que soe assim) em sintetizadores não é uma novidade. Wendy Carlos já fazia isso com suas versões de Bach e até mesmo o MGMT fez algo assim em Little Dark Age. Mas, se essa banda parecia querer emular os cravos com um ritmo mozartiano, White Lies se apropriou de uma estética totalmente distinta em “Time To Give”, faixa que abre Five, o (aptamente intitulado) quinto álbum da banda. Aqui os sintetizadores se aproximam mais de órgãos tocando uma fuga grandiloquente. É um ponto chave da canção e o mais próximo que a banda chega de transmitir sensações de êxtase em uns bons anos. Embora o recurso a uma sonoridade que reconfigure a música clássica não se restrinja a essa canção, não é utilizado em excesso, mas caracteriza muito bem o estilo e a emoção por trás de todo esse álbum.

Não é esse o único fantasma do passado que assola Five. Já há alguns discos White Lies vem se tornando cada vez mais dependentes da capacidade de seu vocalista. Se, no seu debute, há dez anos, a estética era completamente pós-punk, agora a comparação que não pode ser escapada é a com outras bandas focadas em crooners como McVeigh parece convencido a se tornar. É verdade que os vocais sempre foram uma parte importante da identidade da banda, seja por sua emulação do pós-punk ou por seu tom grave ressaltado. Mas, se em To Lose My Life o foco dos vocais parecia ser transmitir as letras, agora isso é deixado em lado em prol de uma utilização da voz por ela mesma. O que não é algo ruim, mas faz com que sintamos falta de músicas com as quais possamos cantar junto. Alguns dos melhores momentos de Five são justamente esses, quando sentimos vontade de entrar junto ao refrão. Ou aqueles em que a riqueza de camadas sonoras nos faz como que flutuar no espaço. Essas são duas características quase impossíveis de serem combinadas.

As tentativas de unir ambições tão distantes, assim como o recurso a estéticas passadas (seja no instrumental clássico ou nos vocais de big band) fazem com que Five seja uma obra profundamente pós-moderna. E fazem também com que o White Lies esteja o mais distante que já esteve de suas referências no pós-punk, ao mesmo tempo que abraçando uma melancolia ainda mais pronunciada. A euforia dançante que marcou trabalhos anteriores da banda raramente encontra espaço aqui. Difícil é só saber se isso acontece por acidente ou por uma maturidade inevitável. De modo geral, no entanto, é um álbum bem balanceado, que dificilmente desagradará quem gostou da produção da banda a partir de Ritual. Talvez fique aquém do debute, é verdade, mas quantas bandas são capazes de sobreviver a uma comparação do tipo? E, por outro lado, as composições de Five são bastante acessíveis, fáceis mesmo de ouvir.

Lembro de ter ouvido a banda tocando para um palco ainda quase vazio no Festival Planeta Terra, o primeiro que fui, tendo me mudado pouco antes para uma cidade onde poderia conferir as bandas que gostava. A banda alternava hits do primeiro álbum e músicas então recém-lançadas do segundo, o que fazia com que dançasse uma e parasse na outra. Acho que, em um show atual da banda, a quantidade de tempo parado seria muito maior.

OUÇA: “Time To Give”, “Tokyo” e “Jo?”

Esben and The Witch – Nowhere


Algumas bandas conseguem continuar as mesmas apesar de mudarem muito. Esben and the Witch é uma delas. Ao ouvir Nowhere, não podemos dizer que a sensação seja de algum modo muito distinta da que vinha lentamente se apossando de nossos ossos nos primeiros álbuns. A banda continua particularmente sombria. E isso em uma intensidade que é difícil encontrar hoje em dia, ao menos fora do campo do metal. E a raiz das mudanças que a banda encarnou podem se originar aí. Cada vez mais caminham para ser uma banda de metal. Se no começo eram uma vertente do dream pop particularmente obscura, com muitos elementos eletrônicos, mas que não abafavam a visceralidade, hoje os vocais estão menos etéreos e mais dramáticos, com uma ênfase nos instrumentos do power trio deixando de lado tudo que tinham de experimental, que fazia com que se distinguissem de centenas de outras bandas.

O correto seria avaliar Nowhere como um álbum de metal, pois é isso que ele é. Acredito que quem gosta desse estilo musical e ainda não conhece a banda deve escutar esse trabalho e, provavelmente, vai gostar do resultado. Embora talvez se decepcione com os outros discos, caso se proponha a ir mais a fundo. Como álbum de metal, Nowhere é um belo representante. Já como um disco de Esben and The Witch, deixa bastante a desejar.

Se ainda existem alguns, sutis, traços de post-rock, também é verdade que as melodias são bastante tradicionais, beirando o genérico.

Os vocais aqui tomam um destaque inédito na trajetória do grupo. E, de fato, não são ruins. Mas os melismas exagerados, encaixados numa produção que é muito clara, faz com que o resultado seja esquecivel. Tudo é muito limpo, com um espírito operático que torna difícil a conexão. A sensação é de extrema artificialidade. Se a versão do gótico presente nesse disco não chega a ser a mesma da de um filme do Tim Burton, ao menos é igualmente desprovida de emoção real, da aflição que sabemos que o trio sabe fazer tão bem.

Não são só os vocais que seguram notas mais do que deviam. As guitarras constantemente fazem o mesmo, causando uma verdadeira sensação de que o álbum se arrasta. E de que estamos ouvindo uma mesma canção, ainda que com seus altos e baixos. A parte boa disso é que, por não ser longo, Nowhere pode realmente ser experimentado como se fosse uma única faixa, uma espécie de sinfonia. Considerando as referências das quais o metal costuma se apropriar, não é difícil imaginar que essa foi exatamente a intenção.

Ou seja, se, depois de ouvir as duas primeiras músicas, ainda tiver vontade de continuar, estiver gostando, pode ter certeza de que o resto também o fará, caso contrário, melhor passar para a próxima.

OUÇA: “A Desire For Light” e “Dull Gret”

The Good, The Bad & The Queen – Merrie Land


Quando Damon Albarn reuniu um supergrupo (incluindo até o baixista do The Clash, Paul Simon) em 2007, o resultado foi um álbum único. Não foi à toa que se passaram mais de 10 anos sem que houvesse um sucessor para aquele primeiro trabalho. E é bom que algumas coisas sejam assim, afinal, capturar todo o conjunto de fatores que fizeram do disco algo tão belo é algo difícil de se fazer. Mas vivemos na época em que tudo que gera uma certa repercussão precisa ser mantido, para alimentar a fome por conteúdo que parece ser cada vez mais difícil de saciar. O que quer dizer que não chega a ser de se admirar que The Good, The Bad & The Queen tenha voltado.

É impossível dizer que esse não seja o momento propício para o tipo de música que o grupo faz. O tempo atual precisa desse tipo de arte que se alimenta do conhecimento do seu passado para comentar o presente mais do que 2007 precisava. O fato de ser um conjunto de fatores tão particularmente britânico tinha um potencial muito forte de ressoar nesse momento em que o Reino Unido se encontra tão polarizado em torno da questão do Brexit e seus possíveis efeitos sociais e econômicos. E a faixa que dá título ao novo álbum, “Merrie Land”, se utiliza de um dos apelidos do país para traçar um esboço irônico dessa situação. Se não é tão mordaz quanto “Parklife” (da outra banda de Albarn, o Blur), ao menos consegue evocar um pouco da sensação de falta de chão, de desesperança. A linguagem é o que diferencia este dos outros projetos de Albarn. Se suas letras costumam ser diretas relacionadas ao mundo contemporâneo, o letrista que vemos aqui é mais afeito às metáforas, a uma forma poética de transmitir suas ideias. Esse é um elemento cuja continuidade em relação ao álbum de estréia é mais evidente.

Outras coisas, no entanto, mudaram bastante. Se no primeiro disco as imagens que a banda conjurava eram vitorianas, indo desde a capa até a instrumentação, aqui esses elementos são substituídos por referências bem mais recentes, que trocam a perspectiva histórica pela análise do presente. Também os vocais de Albarn se tornam ainda mais centrais nas canções, deixando pouco espaço para que seus colegas estrelados desenvolvam mais seus talentos. De muitas formas, Merrie Land parece um álbum solo. Mesmo que Simon, Tong (guitarrista do The Verve) e Tony Allen (baterista celebre do afrobeat) não tenham tanto espaço para demonstrar seus talentos, é inegável que sua presença continua a ser a arma secreta do supergrupo. Particularmente o baixo é uma presença que agrada sempre que presente, de forma simples mas eficiente.

Não dá para falar que quem gostou de The Good, The Bad & The Queen vá gostar de Merrie Land. O Segundo é bastante inferior ao primeiro. Nunca conseguindo chegar ao elevado patamar que estabeleceram na sua estréia. Os completistas da obra de Albarn definitivamente devem escutar, especialmente se gostaram de Everyday Robots, seu único álbum solo oficial, e que tem algumas similaridades com esse disco. Os anglófonos de carteirinha também devem se agradar, seja para ter uma ideia do ambiente cultural no Reino Unido atual, como pela simples natureza extremamente britânica que perpassa Merrie Land. É a versão sonora de uma xícara de earl gray. Para os demais, talvez ouvir apenas algumas das faixas já seja suficiente.

OUÇA: “Merrie Land”, “The Truce Of Twilight” e “The Poison Three”

Razorlight – Olympus Sleeping


Ah, ser jovem e ouvir Razorlight no meio da década passada! Poucas bandas conseguem ter esse espírito tão aflorado. Os dois primeiros álbuns da banda são cheios de energia, com uma sonoridade simples, mas sem serem bobos. As letras eram consideravelmente rebuscadas para esse estilo de música. O conjunto da obra despertava aquela vontade de viver, de ver tudo que o mundo tem para oferecer, de exagerar, de ir para lugares novos e dançar a noite inteira. Em resumo, sintetizavam tudo aquilo que é ser jovem, e toda aquela música que queremos escutar quando o somos. Razorlight tinha um quê de britpop, mas também agradava quem preferia o lado mais dance rock dos anos 80. Uma banda de guitarras fortes, de bateria que enfeitiçam os movimentos dos nossos pés. Não era sua banda preferida. Não era a minha. Provavelmente não era a de ninguém. Mas cabia tão perfeitamente com o que eram aqueles tempos de euforia, de possibilidades do futuro, de hormônios à flor da pele e de fingir que sabemos mais do que de fato o fazemos.

Por isso, foi um choque ver a banda amadurecer tanto no seu terceiro disco. É verdade, baladas e músicas mais lentas sempre estiveram lá, mas Slipway Fires se sustentava muito mais em cima das letras, que se tornaram ainda mais reflexivas, com muito piano e ritmo mais espaçado, difícil de acompanhar com o pé. Talvez seja porque a formação mudou muito, talvez porque simplesmente amadurecemos. Mas, apesar de ser um álbum com faixas muito fortes, não conseguiu sustentar a imagem de uma banda realmente boa. E, muito menos, a de uma banda jovem. No entanto, era de se esperar que, no futuro, fossem continuar por esse caminho, amadurecendo sua sonoridade, e a tornando cada vez mais voltada para as palavras.

Por isso mesmo é uma surpresa que esse quarto álbum, Olympus Sleeping, seja, em sua maior parte, uma tentativa de voltar às origens, àquele espírito dos dois primeiros discos. Mas será que isso é possível? Será que é algo que pode ser benéfico à banda dar passos para trás de tal forma, ao invés de caminhar adiante? “Got To Let The Good Times Back Into Your Life” literalmente parece um tipo de manifesto dizendo que sim, que podem fazer isso, que esse retorno deve ser feito. E é a faixa na qual o resultado é mais convincente. Poderia ser uma faixa presente em qualquer um dos dois primeiros álbuns da banda. Talvez, se estivesse em um deles, não se tornasse uma das melhores naquela coleção, como acontece aqui, mas se encaixaria. É, provavelmente, esse o motivo de ser a primeira canção do disco de fato (antes consta apenas uma breve introdução por Adam Green, conhecido por seu trabalho com o Moldy Peaches). Essa estratégia de colocar as melhores músicas no começo do disco é recorrente, e parece o caminho mais fácil dizer que é essa a que se destaca, mas, ao longo do álbum, a qualidade se revela oscilante.

Os melhores momentos, sempre, são aqueles em que tentam retornar ao seu espírito de juventude enquanto banda. Não só trazendo o sentimento à tona, mas mesmo as origens de classe trabalhadora da banda. Aquela coisa bem britpop de falar da realidade da juventude do Reino Unido, que hoje, em tempos de brexit, é bem diferente. É curioso ver isso em um álbum que tem influências tão distintas quanto Japandroids e Elvis Costello. Mas é a prova de que a autenticidade é sempre mais valiosa.

Já os pontos baixos são aqueles que parecem ir mais na linha do álbum anterior da banda, de dez anos atrás. Faixas como “Iceman” não conseguem ter o mesmo lirismo de “Wire to wire”, em grande parte porque as letras de Olympus Sleeping, mesmo que estejam acima da média do indie, não são tão boas. Inclusive, a faixa que dá título ao disco entra nesse bolo. Contrariando a outra estratégia do mercado fonográfico, de batizar com base numa das canções mais fortes, aqui vemos uma escolha que parece ser arbitrária. Ou talvez fosse o único título de faixa que não ficasse muito ridículo estampado na capa.

Considerando tudo isso, é engraçado ver que, mesmo não sendo um álbum ruim, Olympus Sleeping ainda fica atrás de todas as obras do Razorlight anteriores. Mas, para uma banda que volta de um hiato de 10 anos, mostra que ainda tem vestígios daquela vitalidade da juventude para, quem sabe, nos trazerem algumas coisas boas no futuro.

OUÇA: “Got To Let The Good Times Back Into Your Life”, “Brighton Pier” e “Carry Yourself”

The Dodos – Certainty Waves


O folk está morto. Pelo menos é essa a impressão que fica quando ouvimos aos primeiros minutos do novo álbum do The Dodos. O duo tem mais de 10 anos de carreira fazendo um som que, ainda que que subvertendo algumas das convenções do gênero, sempre foi bastante reverente e consistente. O folk que apresentaram sempre foi estranho, com experimentações sonoras e conceituais, mas Certainty Waves os distancia consideravelmente de tudo que fizeram antes, trazendo um som muito mais pesado, quase industrial.

As primeiras faixas do disco têm uma forte relação com o post-punk, misturando a isso elementos mais dançantes e mesmo ligeiras passagens puxadas ao hip hop. Já na terceira música, no entanto, essa mistura começa a dar espaço a elementos mais familiares, quase esperados para um disco da dupla. Na quarta, seu espirito folk já está totalmente de volta. Não que, a partir daí, aquela mistura que apareceu anteriormente suma completamente, mas o que poderia ser o manifesto de uma sonoridade radical é deixado de lado. Talvez seja uma vontade de não alienar quem acompanha a banda há tantos anos, ou talvez seja só que o duo tem uma atração pelo folk que é quase impossível de evitar. E não dá para negar que, quando estão no seu terreno familiar, The Dodos são bem mais competentes. O equilíbrio entre letra e melodia é algo que conseguiram aperfeiçoar bem, e que atinge as notas certas, ainda que repetidas. São músicas que poderiam achar um público bastante receptivo. Dez anos atrás.

O que Certainty Waves realmente tem de bom são justamente aqueles momentos mais inesperados. Coisas que podem nem sempre ser agradáveis ao ouvido – ao menos na primeira audição – mas que agradam o cérebro, que fazem aquele sorriso de soslaio surgir de modo quase involuntário: “eu vi o que vocês fizeram aqui”, pensamos. Para quem deixa esses momentos escaparem, ou não tem um afeto especial por esse sentimento, pode ser difícil achar algo que prenda o interesse no álbum. Ou na banda, de forma geral.

OUÇA: “IF” e “Ono Fashion”