Razorlight – Olympus Sleeping


Ah, ser jovem e ouvir Razorlight no meio da década passada! Poucas bandas conseguem ter esse espírito tão aflorado. Os dois primeiros álbuns da banda são cheios de energia, com uma sonoridade simples, mas sem serem bobos. As letras eram consideravelmente rebuscadas para esse estilo de música. O conjunto da obra despertava aquela vontade de viver, de ver tudo que o mundo tem para oferecer, de exagerar, de ir para lugares novos e dançar a noite inteira. Em resumo, sintetizavam tudo aquilo que é ser jovem, e toda aquela música que queremos escutar quando o somos. Razorlight tinha um quê de britpop, mas também agradava quem preferia o lado mais dance rock dos anos 80. Uma banda de guitarras fortes, de bateria que enfeitiçam os movimentos dos nossos pés. Não era sua banda preferida. Não era a minha. Provavelmente não era a de ninguém. Mas cabia tão perfeitamente com o que eram aqueles tempos de euforia, de possibilidades do futuro, de hormônios à flor da pele e de fingir que sabemos mais do que de fato o fazemos.

Por isso, foi um choque ver a banda amadurecer tanto no seu terceiro disco. É verdade, baladas e músicas mais lentas sempre estiveram lá, mas Slipway Fires se sustentava muito mais em cima das letras, que se tornaram ainda mais reflexivas, com muito piano e ritmo mais espaçado, difícil de acompanhar com o pé. Talvez seja porque a formação mudou muito, talvez porque simplesmente amadurecemos. Mas, apesar de ser um álbum com faixas muito fortes, não conseguiu sustentar a imagem de uma banda realmente boa. E, muito menos, a de uma banda jovem. No entanto, era de se esperar que, no futuro, fossem continuar por esse caminho, amadurecendo sua sonoridade, e a tornando cada vez mais voltada para as palavras.

Por isso mesmo é uma surpresa que esse quarto álbum, Olympus Sleeping, seja, em sua maior parte, uma tentativa de voltar às origens, àquele espírito dos dois primeiros discos. Mas será que isso é possível? Será que é algo que pode ser benéfico à banda dar passos para trás de tal forma, ao invés de caminhar adiante? “Got To Let The Good Times Back Into Your Life” literalmente parece um tipo de manifesto dizendo que sim, que podem fazer isso, que esse retorno deve ser feito. E é a faixa na qual o resultado é mais convincente. Poderia ser uma faixa presente em qualquer um dos dois primeiros álbuns da banda. Talvez, se estivesse em um deles, não se tornasse uma das melhores naquela coleção, como acontece aqui, mas se encaixaria. É, provavelmente, esse o motivo de ser a primeira canção do disco de fato (antes consta apenas uma breve introdução por Adam Green, conhecido por seu trabalho com o Moldy Peaches). Essa estratégia de colocar as melhores músicas no começo do disco é recorrente, e parece o caminho mais fácil dizer que é essa a que se destaca, mas, ao longo do álbum, a qualidade se revela oscilante.

Os melhores momentos, sempre, são aqueles em que tentam retornar ao seu espírito de juventude enquanto banda. Não só trazendo o sentimento à tona, mas mesmo as origens de classe trabalhadora da banda. Aquela coisa bem britpop de falar da realidade da juventude do Reino Unido, que hoje, em tempos de brexit, é bem diferente. É curioso ver isso em um álbum que tem influências tão distintas quanto Japandroids e Elvis Costello. Mas é a prova de que a autenticidade é sempre mais valiosa.

Já os pontos baixos são aqueles que parecem ir mais na linha do álbum anterior da banda, de dez anos atrás. Faixas como “Iceman” não conseguem ter o mesmo lirismo de “Wire to wire”, em grande parte porque as letras de Olympus Sleeping, mesmo que estejam acima da média do indie, não são tão boas. Inclusive, a faixa que dá título ao disco entra nesse bolo. Contrariando a outra estratégia do mercado fonográfico, de batizar com base numa das canções mais fortes, aqui vemos uma escolha que parece ser arbitrária. Ou talvez fosse o único título de faixa que não ficasse muito ridículo estampado na capa.

Considerando tudo isso, é engraçado ver que, mesmo não sendo um álbum ruim, Olympus Sleeping ainda fica atrás de todas as obras do Razorlight anteriores. Mas, para uma banda que volta de um hiato de 10 anos, mostra que ainda tem vestígios daquela vitalidade da juventude para, quem sabe, nos trazerem algumas coisas boas no futuro.

OUÇA: “Got To Let The Good Times Back Into Your Life”, “Brighton Pier” e “Carry Yourself”

The Dodos – Certainty Waves


O folk está morto. Pelo menos é essa a impressão que fica quando ouvimos aos primeiros minutos do novo álbum do The Dodos. O duo tem mais de 10 anos de carreira fazendo um som que, ainda que que subvertendo algumas das convenções do gênero, sempre foi bastante reverente e consistente. O folk que apresentaram sempre foi estranho, com experimentações sonoras e conceituais, mas Certainty Waves os distancia consideravelmente de tudo que fizeram antes, trazendo um som muito mais pesado, quase industrial.

As primeiras faixas do disco têm uma forte relação com o post-punk, misturando a isso elementos mais dançantes e mesmo ligeiras passagens puxadas ao hip hop. Já na terceira música, no entanto, essa mistura começa a dar espaço a elementos mais familiares, quase esperados para um disco da dupla. Na quarta, seu espirito folk já está totalmente de volta. Não que, a partir daí, aquela mistura que apareceu anteriormente suma completamente, mas o que poderia ser o manifesto de uma sonoridade radical é deixado de lado. Talvez seja uma vontade de não alienar quem acompanha a banda há tantos anos, ou talvez seja só que o duo tem uma atração pelo folk que é quase impossível de evitar. E não dá para negar que, quando estão no seu terreno familiar, The Dodos são bem mais competentes. O equilíbrio entre letra e melodia é algo que conseguiram aperfeiçoar bem, e que atinge as notas certas, ainda que repetidas. São músicas que poderiam achar um público bastante receptivo. Dez anos atrás.

O que Certainty Waves realmente tem de bom são justamente aqueles momentos mais inesperados. Coisas que podem nem sempre ser agradáveis ao ouvido – ao menos na primeira audição – mas que agradam o cérebro, que fazem aquele sorriso de soslaio surgir de modo quase involuntário: “eu vi o que vocês fizeram aqui”, pensamos. Para quem deixa esses momentos escaparem, ou não tem um afeto especial por esse sentimento, pode ser difícil achar algo que prenda o interesse no álbum. Ou na banda, de forma geral.

OUÇA: “IF” e “Ono Fashion”

Metric – Art Of Doubt


Quanto mais tempo uma banda tem de estrada, mais difícil que aconteçam mudanças sísmicas em sua sonoridade, mas, ao longo de sua carreira, o Metric percorreu uma trajetória consistente, ainda que não necessariamente tenha trazido bons resultados em todas as suas paradas. É difícil comparar a banda de hoje com a do começo do século, pois as propostas foram se alterando com o tempo, tornando impossível dizem se o som que fazem hoje está no mesmo nível de qualidade dos primeiros álbuns. Ou se está melhor.

A banda, que há quinze anos apresentava um som eclético, hoje tem uma estética mais coesa, que depende de elementos eletrônicos (que, desde Synthetica, estão firmemente no synth-pop, e não nos seus derivados indie) mas não os utiliza de forma excessiva. É verdade que as sutilezas foram, em grande parte, relegadas à carreira solo de Emily Haines (aparecendo ainda em exemplos como “Seven Rules”), mas sua presença pode ser entrevista na maior parte das faixas. A força de Art Of Doubt está justamente em conseguir unir um lado que é sábio, maduro e suave com outro que é angustiado, violento e pesado. A maior parte do álbum consiste em reflexões sobre os tempos contemporâneos e como nossas individualidades se expressam no contemporâneo. No entanto, a mistura de tons faz com que não estejamos simplesmente frente a uma visão amargurada das coisas, mas sim que experimentemos a ambiguidade que é natural quando pensamos no momento presente. Nesse sentido, Metric parece ser uma banda muito mais jovem do que de fato é. Estão ali uma forma dramática de pensar, aliada a um uma positividade que parece incongruente frente àquilo que encara.

As letras são um ponto forte do disco. Elas estão num nível de refinamento que lembra bastante os melhores momentos de sua carreira. E, mais do que isso, a combinação dessas com instrumentações que ressaltam sua força é algo relativamente raro no meio desse estilo musical, onde, muitas vezes, a música acaba afogando as palavras ou vice-versa. O título do álbum foi bem escolhido pois a faixa que carrega o mesmo nome encapsula bem o que está presente em todo o trabalho. Marcada por momentos tranquilos que fazem curvas bruscas numa combinação pesada de sintetizadores e guitarras, todas as facetas estão lá, inclusive uma série de pensamentos que nos fazem pensar sobre o mundo para além dos nossos fones de ouvido. Essa combinação consiste na linha que une todas as faixas do álbum. Assim como toda a estética do Metric.

Nos aspectos técnicos, é difícil ser crítico de Art of Doubt. Tudo que precisava, está ali. E numa combinação eficiente, para não dizer bonita. O álbum deve (e merece) ser ouvido do começo ao fim. Tanto porque são várias as canções que se destacam, como também porque apresentam uma narrativa que vale ser acompanhada do começo ao fim. Ainda assim, não se pode dizer que é uma obra perfeita, pois dificilmente conseguirá satisfazer tudo aquilo que alguém procura na música. É mais um disco inteligente do que carismático. O que quer dizer que dificilmente entrará nas playlists de baladas ou mesmo grudará no cérebro dos ouvintes, ainda que não tenha defeitos que possam ser apontados. Talvez sejam muito complexas, ou a mistura de espectros sonoros distintos não se dê muito a esses resultados.

OUÇA: “Dressed To Supress”, “Risk”, “Die Happy”.

Teleman – Family Of Aliens


Quando escutei Teleman pela primeira vez, lá pelo fim de 2013 ou começo de 2014, a banda me conquistou já de primeira. E acredito que, caso ainda não conheça a banda, pode acontecer o mesmo com você. Porque a sonoridade tem uma personalidade muito característica, é uma mistura de elementos que parecem muito familiares com outros completamente idiossincráticos.

É fácil imaginar que Teleman vem de um outro tempo, àquela virada do milênio que causou tantas convulsões no mundo da música que continuam a reverberar até hoje. Parte disso se deve ao fato de que a banda é, na verdade, uma espécie de ressureição da cultuada Pete and the Pirates. Mas mesmo essa encarnação anterior não era tão antiga assim. E, se os vocais com uma enunciação peculiar, ao mesmo tempo tão britânica e tão indefinível, são um dos elementos que herdaram, outros elementos estão menos proeminentes. As guitarras, que antes eram o que moviam a música, de uma forma bastante afinada com os hits da década passada, agora dão espaço a uma maior harmonia entre os instrumentos, com uma gama e utilização que está mais próxima do indie escandinavo.

É difícil encontrar uma banda que possa ser comparada a Teleman atualmente. Não porque sejam melhores do que os outros, mas simplesmente porque estão tentando fazer algo diferente. Se você gosta de elementos tão distintos quanto os vocais do último disco do Wolf Parade, ou as melodias dos primeiros álbuns de Peter, Bjorn and John, pode valer a pena conhecer o trabalho desses britânicos. No entanto, as comparações não fazem justiça. A mistura dessas coisas que citei acima não deveria ser, necessariamente, algo que funcionasse. Ainda menos se considerarmos uma inesperada aura de britpop que surge nas entrelinhas, conforme vamos nos acostumando à audição.

Talvez Family Of Aliens não seja a melhor das introduções a Teleman.  É verdade que esse é, provavelmente, o álbum no qual flertam de forma mais descarada com o pop, mas, ainda que algumas faixas resultem muito boas (o destaque sendo “Twisted Heart”), o conjunto não se revela tão atraente quanto seu debute, Breakfast. A personalidade não está presente de forma tão forte, impedindo que as peculiaridades que fazem dessa uma banda que vale a pena ser ouvida fiquem submersas em composições mais ordinárias. Os sintetizadores parecem estar ligeiramente exagerados, as letras (com algumas exceções) não são tão memoráveis. Os ritmos ainda são bem estruturados, e as canções têm coração, mas esses elementos não serão suficientes para conquistar um público abrangente. Embora Teleman provavelmente vá ser (se já não é) mais conhecida do que a banda que lhe deu origem, as chances de que vá agradar um espectro muito grande de pessoas são poucas. É uma típica banda cult.

OUÇA: “Twisted Heart”, “Family of Aliens” e “Fun Destruction”.

Neko Case – Hell-On


Desde suas primeiras notas, Hell-On mostra que Neko Case não está para brincadeiras. O álbum é um dos melhores que a cantora já fez, se não o melhor. E isso não é dizer pouco de uma artista que tem mais de vinte anos em uma carreira sólida em suas costas. Seria muito compreensível se, nessa situação, ela se acomodasse e fizesse apenas mais do mesmo, contente em tocar para os fãs que já tem, criar canções que dessem a essas pessoas o senso de familiaridade que é aquilo que costuma agradar quem acompanha artistas ao longo dos anos.

No entanto, não é o que vemos nesse álbum. Neko Case parece ter justamente saído do seu caminho para fazer coisas diferentes, ainda que não deixando para trás o seu espírito, e essa vontade de ousar é o tipo de coisa que atrai mesmo que nunca foi muito próximo de sua obra, como é o meu caso. A colaboração case/lang/veirs, na qual ela se uniu a k.d. lang e Laura Veirs em 2016 parece ter rejuvenescido a música de Case, que procura aqui expressar o seu poder de forma bruta. A Neko Case desse álbum é uma mistura poderosa de cantora country com Kate Bush, especialmente em seus momentos mais transcendentes.

A voz de Case está tão vigorosa quanto poderia estar, e suas letras estão afiadas. Nas duas faixas que abrem do disco, esses elementos se unem também a uma produção elaborada sem excessos, que faz com que as palavras da artista cheguem a nós como se através dos séculos, vindas de um outro mundo. Esse início é um dos mais fortes que 2018 nos deu até agora (comparável talvez apenas ao do MGMT, numa categoria muito diferente), e é de se esperar que, nessas condições o resto do álbum não conseguisse manter o passo.

Um dos elementos que prejudica esse desenvolvimento é um exagero na quantidade de country que a cantora-compositora injeta nas suas músicas. Talvez, nesse sentido, a colaboração de 2016 tenha deixado marcas mais profundas do que o necessário, embora a tendência ao country seja algo que já surgiu em trabalhos anteriores da artista. Para quem gosta do estilo, é um álbum imperdível. Para quem não curte tanto assim, deve conferir ao menos algumas faixas, pois algum nível de embriaguez com o poder de Neko Case nesse disco será impossível de evitar.

OUÇA: “Hell-On”, “Last Lion Of Albion” e “Curse Of The I-5 Corridor”

Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.

A Place to Bury Stangers – Pinned


Desde 2012, com Worship, o APTBS vem se aproximando de melodias mais tradicionalmente harmônicas. Uma tendência que se intensificou no disco seguinte e atinge o ápice em Pinned. Ainda podemos ouvir aqui aquela banda dos primeiros discos, mas é inegável que as prioridades da banda mudaram. Simplesmente fazer uma parede sonora com a força mais abrasiva possível não parece mais ser suficiente, e é fácil imaginar que alguns fãs mais apegados aos dois álbuns iniciais da banda sintam que está faltando algo. Realmente, o som de Pinned parece distante, mais abafado do que o normal. Como se, para não exagerar na violência, tivessem gravado atrás de uma retenção acústica, ou como se ouvíssemos um ruído altíssimo, mas de longe.

Essa distância, no entanto, traz um elemento que enriquece a sonoridade que a banda se propõe a construír. É mais fácil ouvir e entender a riqueza de detalhes quando nos afastamos um pouco. Com isso, APTBS se aproxima ainda mais das suas influências no shoegaze, dream pop e, particularmente, no post-punk. Qualquer uma dessas três categorizações parecem ser mais apropriadas para Pinned do que o noise rock com o qual eram rotulados anteriormente.

O conjunto de faixas é bastante coeso e de qualidade. Mesmo os elementos mais inesperados, como uns bons segundos ao som de uma furadeira, não parecem estar fora de lugar, mas antes lembram acenos à sua fase mais experimental. E representam momentos de inflexão no álbum, já que a estrutura da maior parte agora dá uma guinada a sonoridades mais palatáveis. Não que vá chegar às rádios que só tocam pop, longe disso, mas Pinned pode ser um bom ponto de entrada para quem não conhece a banda, ou quem tinha alguma ojeriza pelo excesso de ruído e de volume. Os riffs tem um espaço maior aqui do que em qualquer trabalho da banda, o que os torna, se não cantaroláveis, ao menos marcantes.

Esse quinto álbum reforça a impressão de que A Place to Bury Strangers é uma espécie de Jesus & Mary Chain dos anos 2000. Não só porque os experimentalismos de ambas fazem parte de um mesmo ramo que une o post-punk ao indie contemporâneo, mas porque agora podemos ver paralelos também na sua carreira. Assim como os J&MC acabou por se encantar das melodias mais convencionais, ainda que sem deixar sua identidade por completo, APTBS também parece ter atingido uma fase mais preocupada com o que podem fazer com sua música além de exprimir o caos e quebrar paradigmas. Pode ser uma forma de maturidade perceber que não podem continuar fazendo a mesma coisa de sempre, mas, felizmente, sem deixar de serem quem são.

A fraqueza de Pinned talvez seja até a de não se entregar tanto à harmonia e cultivar a dissonância. Falta uma faixa com a força que “You Are The One” teve em 2012, por exemplo. Um dos fatores fundamentais para isso é que as letras não estão particularmente fortes, tendendo a ficar num campo muito genérico. Ainda assim, provavelmente é o melhor álbum da banda até aqui. E, para os fãs, vale a pena ouvir a versão estendida, de mais de uma hora, que tem mais elementos que remetem à fase pré-Worship.

OUÇA: “I Know I’ve Done Bad Things”, “Situations Changes”, “Act Your Age” e “There’s Only One Of Us”

Her – Her


O R&B é um dos gêneros musicais mais sexies de todos. Entre as grandes obras que marcaram sua história estão algumas das mais sensuais de todos os tempos, seja no suave Marvin Gaye ou no maximalista Prince. Nesse sentido, talvez Her seja a natural evolução desse estilo para a geração Tinder, que faz amor pela tela do celular. Porque naquilo que o gênero costumava cultivar de orgânico, aqui vemos substituído por uma versão digital, impessoal, fria.

Talvez isso se dê pela forma que as canções da banda são construídas. São estruturas sonoras que, se não chegam a ser minimalistas, são bastante angulares, compostas simplesmente de sintetizadores e uma linha de baixo. O efeito criado é rítmico, mas de forma a se manter sempre na fronteira entre o agradável e o desconfortável. Mais do que isso, no entanto, não é estimulante. Os vocais se propões elegíacos, com claras influências do gospel, que ajudou a moldar o R&B. São muitas sílabas puxadas exageradamente no fim das frases, sempre com um tom de quem fala com os céus, mesmo quando a letra é algo extremamente pedestre. Assim como na parte instrumental, a voz não é ruim, muito pelo contrário, mas parece artificial, forçada, como se faltasse algo. Não por coincidência o ponto alto do álbum é “On & On”, que conta com uma participação para lhe dar mais vitalidade. Ao ouvi-la quase podemos perceber o que a banda realmente deveria ter feito com mais frequência ao longo do álbum. Que, aliás, é mais longo do que o necessário. Fosse um EP, seria completamente justificável. Existem faixas boas em numero adequado para isso, mas não para um álbum com mais de 45 minutos (53 com as faixas bônus).

Quando mais contida, como em “Quite Like”, os resultados também são mais agradáveis, ainda que não particularmente marcantes. Essa faixa deixa entrever uma faceta mais confessional, mais humana da banda. Mas parece que o medo de faltarem singles para tocar nas rádios ou baladas ou listas mais dançantes do Spotify forçou a banda numa direção mais setentista, que acaba por se tornar genérica. E, sem dúvida, não é tão difícil encontrar R&Bs genéricos que se saiam melhor enquanto canções por si só.

Existem elementos interessantes, especialmente a forma que a banda tem de se utilizar do som do estalar de dedos. Que, de certa forma, encapsula muito de sua estética. As técnicas estão todas nos seus lugares, exercendo bem seus papéis. Mas o que isso quer dizer quando por trás de todo esse trabalho falta a alma humana?

OUÇA: “Five Minutes”, “Quite Like” e “On & On”.

Lucy Dacus – Historian


Existem muitas ideias sobre o que é a História. Normalmente o que aprendemos na escola é aquela versão mais tradicional, focada em grandes eventos políticos e militares, uma história comandada e protagonizada por homens “importantes”, e já podemos considerar uma relativa sorte que hoje em dia não seja mais tão comum que o ensino dessa matéria esteja centrado em decorar as datas desses combates ou de quando morreram esses homens. Dentre as ideias do que é história que se opõem a essa, no entanto, está aquela que foca na vida das pessoas comuns, em pequenos acontecimentos que podem ser considerados banais, ou mesmo em como essas grandes mudanças macropolíticas influenciaram as vidas de quem tinha que aprender a conviver com elas. É esse o tipo de história que preocupa Lucy Dacus nesse seu segundo álbum.

Ou melhor, mais do que se preocupar com o que é história e com essas questões abstratas, a cantora e compositora prefere antes assumir o papel de historiadora. Ao contrário de muitas das canções que contam histórias, portanto, Lucy Dacus parece estar nos levando a ouvir sua música não como literatura no seu estilo dylanesco, mas sim como história, como uma narração da realidade, ainda que focada sempre nesse nível da microhistória. No caminho do seu debute para o segundo álbum, Dacus parece ter passado a considerar que o aspecto mais importante de sua arte são as letras, e mesmo quando elas não contam uma história no sentido tradicional, com começo, meio e fim, é perceptível que os mecanismos estão ali, os personagens, em geral em primeira ou segunda pessoa, sentem, vivem, fazem coisas, como num conto, ou como na vida real.

O que não quer dizer que a melodia seja completamente abandonada. É verdade que não vemos aqui nada de muito novo ou revolucionário, Lucy Dacus está naquele longo espectro de uma sonoridade particular que vai de Angel Olsen a Torres, embora mais simples do que ambas. Não há uma mudança muito grande daquilo que havia sido apresentado por ela inicialmente em No Burden, e os crescendo de guitarra continuam a povoar, sendo presentes em quase todas as faixas, o que, no entanto, não faz com que seus resultados sejam menos agradáveis para quem curte esse estilo musical, essas distorções, essa mistura entre o peso e o etéreo.

Ainda que, em seu som, as faixas criem um conjunto bastante homogêneo, o álbum não fica chato em nenhum momento, e os 47 minutos de audição passam rápido, e se encaixam tão bem como música de fundo para alguma leitura quanto para quando você colocar os fones, aumentar o volume, e fechar os olhos em um momento catártico, embora dificilmente seriam recomendáveis para a pista de dança, apesar de alguns momentos positivos e animados.

O objetivo de escutar Historian, no entanto, é passar todas as camadas sonoras e focar nas palavras de Dacus, em como ela constrói seu universo. Em alguns momentos isso é particularmente fácil, e essas faixas acabam por se tornar as melhores do álbum, mas é uma pena que não aconteça com todas. Se essa escolha pelo foco nas letras foi algo tão consciente, não existiria a necessidade de deixa-las escondidas sob camadas de guitarras em momento algum. Mas manter a qualidade do debute já é uma virtude num segundo álbum, e com dois discos como os que Lucy Dacus fez até agora, qualquer pessoa que goste da combinação de guitarras e letras estaria perdendo se não acompanhasse o desenvolvimento dessa carreira.

OUÇA: “Night Shift”, “Pillar Of Truth” e “Nonbeliever”

MGMT – Little Dark Age


Ao ouvir o primeiro meio minuto ou algo assim do quarto álbum do MGMT fora de contexto, o ouvinte poderia, de modo muito justo, imaginar se tratar de uma faixa de vaporwave. Mais especificamente do subgênero future funk. As batidas e mesmo o sample, que parece saído de um VHS para quem quer fazer exercício sem sair de casa, corroboram essa sensação. Se isso não é bem o que vem em mente quando pensamos na banda indie que fez sucesso com os singles de seu primeiro disco, há mais de dez anos, também não chega a ser uma surpresa, pois toda a obra que MGMT vem construindo ao longo de sua carreira se fundamenta nessa disparidade entre a música do passado e a do futuro. Mas em nenhum dos seus discos anteriores isso fica tão óbvio quanto em Little Dark Age.

Uma parte disso se dá por aqui as referências estarem sendo anunciadas da forma mais evidente possível. A faixa que dá título ao disco, por exemplo, é um new wave como se faziam nos anos 80, e a década é o ponto pivotal do álbum, contribuindo com seu synthpop mas também com algumas tendências post-punk. Talvez por terem trazido sua intertextualidade para décadas mais recentes, a psicodelia do duo, ainda que se mantenha como um elemento central de sua estética e sonoridade, está muito mais controlado do que nos álbuns anteriores. Ela acaba se revelando não tanto nas composições, mas sim nas letras e nos vídeos que são usados para divulgar os singles. Os sintetizadores presentes aqui são muito diferentes daqueles que ficaram conhecidos em singles como “Kids” e “Electric Feel”, eles não tentam tomar todos os holofotes das canções, o que acaba fazendo com que pareçam muito mais orgânicos.

A sequência que vai de “She Works Out Too Much” até “Me and Michael” não é apenas aquela que concentra as melhores faixas de Little Dark Age, mas também aquilo que há de mais coeso entre tudo que o duo nos apresentou até agora. Se o álbum anterior pareceu ele inteiro como um grande erro, a intenção parece ser, ao agrupar essas músicas, mostrar que ainda existe potencial a se explorar. A faixa-título, embora não tenha o potencial de hit dos singles de Oracular Spectacular, é a faixa mais madura que já produziram. Ela tem um controle rítmico admirável, é referencial sem ser derivativa, e, acima de tudo, é esteticamente eficiente em evocar uma atmosfera e um sentimento.

Se a partir de “TSLAMP” a qualidade cai (com uma breve recuperação em “When You’re Small”), é apenas porque o nível de comparação é um tanto desonesto, ao menos dentro das limitações que MGMT enfrentou até agora. E porque se torna um tanto repetitivo, como se o gás de emular sonoridades desse lugar a imitações de si mesmo. Falta aí um pouco do experimentalismo que tentaram com Congratulations, mas infelizmente a recepção daquele segundo disco foi tão ruim que talvez tenha matado qualquer possibilidade de ver MGMT experimentar naquela direção.

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die” e “Me And Michael”.