Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.

The Drums – Brutalism



Brutalismo é um termo originado na arquitetura. Muitas pessoas acreditam, erroneamente, que é usado para definir uma tendência moderna de construções que quebrem de uma maneira violenta com as tradições e expectativas estéticas. Mas, na verdade, a palavra se refere àqueles prédios nos quais o concreto é exibido em sua forma bruta, sem um acabamento que o esconda ou proteja. Muitas vezes essas duas ideias podem estar aproximadas, afinal, o que é mais contrário às expectativas, mais chocante, do que exibir as suas entranhas dessa forma? E é isso que conduz à confusão.

Parece ser no sentido de expor aquilo que convencionalmente fica escondido que a banda The Drums batizou seu quinto álbum de estúdio de Brutalism. As canções colecionadas aqui são de uma ingenuidade quase adolescente, aquela de quem não consegue aparentar ser algo diferente daquilo que se é. Faixas como a que dá título ao disco são em um tom confessional, mas não da forma quase religiosa que acontece com tantos álbuns que tentam expor seus sentimentos, antes disso é o tipo de confissão que fazemos para o crush da juventude ou o tom natural que usamos para conversar com as pessoas de quem somos próximos. De muitas formas diferentes, Brutalism parece a obra de uma banda jovem. Alguém que escute sem saber de qual grupo se trata ou mesmo sem conhecer sua história, provavelmente pensaria ser um debute. E não dos piores.

Muito pelo contrário, a outra impressão que vem à tona ao ouvir o álbum é que ele vem da era de ouro do indie. Talvez esse trabalho se encaixasse melhor no cenário musical de uma década atrás do que o primeiro lançado pelo The Drums. A mistura de influências ainda é a mesma, com elementos do surf dos Beach Boys ao mesmo tempo que uma dose considerável de post-punk. Mas, conforme os membros-fundadores foram deixando a banda, até o ponto de fazer com que se torne quase um projeto solo do vocalista Jonathan Pierce, a crueza da sonoridade foi se revelando cada vez mais.

Brutalism tem um equilíbrio de parece cada vez mais raro de encontrar na música indie. Não há um excesso de produção, mas também não chega nem perto de ser lo-fi, são faixas que buscam abertamente ser do tipo que vão fazer as pessoas dançarem, cantarem junto, mas sem se renderem aos clichês do pop mais comercial. Acima de tudo, une a vitalidade da juventude e sua inocência a alguns momentos de desilusão, letras que, se não inteligentes, ao menos são eficientes. “Body Chemistry” é provavelmente o melhor single lançado pela banda. Ou, ao menos, pode competir de igual para igual com os seus preferidos até aqui.

OUÇA: “Body Chemistry”, “Kiss It Away” e “Brutalism”.

These New Puritans – Inside The Rose



Ninguém pode dizer que These New Puritans não é uma banda pretensiosa. Em todos os sentidos da palavra. Não basta se auto-rotular neoclássica ou se inspirar em conceitos saídos diretamente da cosmologia. Os álbuns da banda são sempre ambiciosos, tentando encaixar uma série de ideias distintas em um formato que ao menos pareça ser sofisticado. Os resultados, como era de se esperar, são variados, mas, surpreendentemente, costumam estar mais na margem positiva, ao menos no que se refere às avaliações da crítica.

O ponto alto da carreira da banda até agora foi Hidden, um álbum marcado pelo post-rock com uma pegada muito forte de música erudita. Um pouco desse espirito continuou com as produções posteriores e chega até a Inside The Rose. A estrutura do álbum como um todo pode muito bem lembrar uma sinfonia. Está bem longe de ser conceitual, ao menos no sentido de contar com uma narrativa em seu esqueleto, mas é inegavelmente um disco que foi feito para ser ouvido como uma coisa só. Ainda assim, a música clássica passa bem longe da verdadeira sonoridade que experimentamos. Antes disso, estamos escutando um exemplo do post-punk em sua vertente que se pretende mais refinada. Ao menos, é quando mais se aproxima desse gênero que o álbum tem seus melhores momentos.

Com uma duração média que fica próxima dos 5 minutos, as faixas de Inside The Rose juntam uma atmosfera envolvente, ainda que soturna, com melodias que estão entre as mais acessíveis da banda, ao menos até agora. De vez em quando parece existir uma tentativa de exibicionismo, como se quisessem dizer “vejam só o que podemos fazer, como nossa arte é complexa”, mas, na maior parte do tempo, esses esforços conseguem passar como naturais. Se os vocais são consideravelmente fracos, as letras até que são boas, tirando um ou outro clichê ou momento de exagero. Ainda assim, é na instrumentação que These New Puritans sempre mostrou a que veio, e não é diferente com esse disco. Muitas das faixas, inclusive, poderiam ser muito bem instrumentais. A que dá título ao álbum, por exemplo.

Seguindo a analogia da sinfonia, é o “terceiro movimento”, indo de “Lost Angel” até o final do álbum o único que parece mais perdido, sendo uma espécie de esvair da obra, que acaba de uma forma um tanto xoxa. Talvez seja uma forma de contrabalancear a intensidade dos dois movimentos anteriores, cada um composto de três músicas, mas acaba parecendo um simples material que sobrou.

Se Inside The Rose não chega à catarse de Hidden, que continua sendo o melhor ponto para conhecer These New Puritans, pode agradar quem quiser algo novo da banda, ou simplesmente um post-punk atmosférico e denso, mas com certo lirismo.

OUÇA: “Into The Fire”, “Where The Trees Are On Fire” e “infinity Vibraphones”

White Lies – Five


Tocar uma composição clássica (ou que soe assim) em sintetizadores não é uma novidade. Wendy Carlos já fazia isso com suas versões de Bach e até mesmo o MGMT fez algo assim em Little Dark Age. Mas, se essa banda parecia querer emular os cravos com um ritmo mozartiano, White Lies se apropriou de uma estética totalmente distinta em “Time To Give”, faixa que abre Five, o (aptamente intitulado) quinto álbum da banda. Aqui os sintetizadores se aproximam mais de órgãos tocando uma fuga grandiloquente. É um ponto chave da canção e o mais próximo que a banda chega de transmitir sensações de êxtase em uns bons anos. Embora o recurso a uma sonoridade que reconfigure a música clássica não se restrinja a essa canção, não é utilizado em excesso, mas caracteriza muito bem o estilo e a emoção por trás de todo esse álbum.

Não é esse o único fantasma do passado que assola Five. Já há alguns discos White Lies vem se tornando cada vez mais dependentes da capacidade de seu vocalista. Se, no seu debute, há dez anos, a estética era completamente pós-punk, agora a comparação que não pode ser escapada é a com outras bandas focadas em crooners como McVeigh parece convencido a se tornar. É verdade que os vocais sempre foram uma parte importante da identidade da banda, seja por sua emulação do pós-punk ou por seu tom grave ressaltado. Mas, se em To Lose My Life o foco dos vocais parecia ser transmitir as letras, agora isso é deixado em lado em prol de uma utilização da voz por ela mesma. O que não é algo ruim, mas faz com que sintamos falta de músicas com as quais possamos cantar junto. Alguns dos melhores momentos de Five são justamente esses, quando sentimos vontade de entrar junto ao refrão. Ou aqueles em que a riqueza de camadas sonoras nos faz como que flutuar no espaço. Essas são duas características quase impossíveis de serem combinadas.

As tentativas de unir ambições tão distantes, assim como o recurso a estéticas passadas (seja no instrumental clássico ou nos vocais de big band) fazem com que Five seja uma obra profundamente pós-moderna. E fazem também com que o White Lies esteja o mais distante que já esteve de suas referências no pós-punk, ao mesmo tempo que abraçando uma melancolia ainda mais pronunciada. A euforia dançante que marcou trabalhos anteriores da banda raramente encontra espaço aqui. Difícil é só saber se isso acontece por acidente ou por uma maturidade inevitável. De modo geral, no entanto, é um álbum bem balanceado, que dificilmente desagradará quem gostou da produção da banda a partir de Ritual. Talvez fique aquém do debute, é verdade, mas quantas bandas são capazes de sobreviver a uma comparação do tipo? E, por outro lado, as composições de Five são bastante acessíveis, fáceis mesmo de ouvir.

Lembro de ter ouvido a banda tocando para um palco ainda quase vazio no Festival Planeta Terra, o primeiro que fui, tendo me mudado pouco antes para uma cidade onde poderia conferir as bandas que gostava. A banda alternava hits do primeiro álbum e músicas então recém-lançadas do segundo, o que fazia com que dançasse uma e parasse na outra. Acho que, em um show atual da banda, a quantidade de tempo parado seria muito maior.

OUÇA: “Time To Give”, “Tokyo” e “Jo?”

Esben and The Witch – Nowhere


Algumas bandas conseguem continuar as mesmas apesar de mudarem muito. Esben and the Witch é uma delas. Ao ouvir Nowhere, não podemos dizer que a sensação seja de algum modo muito distinta da que vinha lentamente se apossando de nossos ossos nos primeiros álbuns. A banda continua particularmente sombria. E isso em uma intensidade que é difícil encontrar hoje em dia, ao menos fora do campo do metal. E a raiz das mudanças que a banda encarnou podem se originar aí. Cada vez mais caminham para ser uma banda de metal. Se no começo eram uma vertente do dream pop particularmente obscura, com muitos elementos eletrônicos, mas que não abafavam a visceralidade, hoje os vocais estão menos etéreos e mais dramáticos, com uma ênfase nos instrumentos do power trio deixando de lado tudo que tinham de experimental, que fazia com que se distinguissem de centenas de outras bandas.

O correto seria avaliar Nowhere como um álbum de metal, pois é isso que ele é. Acredito que quem gosta desse estilo musical e ainda não conhece a banda deve escutar esse trabalho e, provavelmente, vai gostar do resultado. Embora talvez se decepcione com os outros discos, caso se proponha a ir mais a fundo. Como álbum de metal, Nowhere é um belo representante. Já como um disco de Esben and The Witch, deixa bastante a desejar.

Se ainda existem alguns, sutis, traços de post-rock, também é verdade que as melodias são bastante tradicionais, beirando o genérico.

Os vocais aqui tomam um destaque inédito na trajetória do grupo. E, de fato, não são ruins. Mas os melismas exagerados, encaixados numa produção que é muito clara, faz com que o resultado seja esquecivel. Tudo é muito limpo, com um espírito operático que torna difícil a conexão. A sensação é de extrema artificialidade. Se a versão do gótico presente nesse disco não chega a ser a mesma da de um filme do Tim Burton, ao menos é igualmente desprovida de emoção real, da aflição que sabemos que o trio sabe fazer tão bem.

Não são só os vocais que seguram notas mais do que deviam. As guitarras constantemente fazem o mesmo, causando uma verdadeira sensação de que o álbum se arrasta. E de que estamos ouvindo uma mesma canção, ainda que com seus altos e baixos. A parte boa disso é que, por não ser longo, Nowhere pode realmente ser experimentado como se fosse uma única faixa, uma espécie de sinfonia. Considerando as referências das quais o metal costuma se apropriar, não é difícil imaginar que essa foi exatamente a intenção.

Ou seja, se, depois de ouvir as duas primeiras músicas, ainda tiver vontade de continuar, estiver gostando, pode ter certeza de que o resto também o fará, caso contrário, melhor passar para a próxima.

OUÇA: “A Desire For Light” e “Dull Gret”

The Good, The Bad & The Queen – Merrie Land


Quando Damon Albarn reuniu um supergrupo (incluindo até o baixista do The Clash, Paul Simon) em 2007, o resultado foi um álbum único. Não foi à toa que se passaram mais de 10 anos sem que houvesse um sucessor para aquele primeiro trabalho. E é bom que algumas coisas sejam assim, afinal, capturar todo o conjunto de fatores que fizeram do disco algo tão belo é algo difícil de se fazer. Mas vivemos na época em que tudo que gera uma certa repercussão precisa ser mantido, para alimentar a fome por conteúdo que parece ser cada vez mais difícil de saciar. O que quer dizer que não chega a ser de se admirar que The Good, The Bad & The Queen tenha voltado.

É impossível dizer que esse não seja o momento propício para o tipo de música que o grupo faz. O tempo atual precisa desse tipo de arte que se alimenta do conhecimento do seu passado para comentar o presente mais do que 2007 precisava. O fato de ser um conjunto de fatores tão particularmente britânico tinha um potencial muito forte de ressoar nesse momento em que o Reino Unido se encontra tão polarizado em torno da questão do Brexit e seus possíveis efeitos sociais e econômicos. E a faixa que dá título ao novo álbum, “Merrie Land”, se utiliza de um dos apelidos do país para traçar um esboço irônico dessa situação. Se não é tão mordaz quanto “Parklife” (da outra banda de Albarn, o Blur), ao menos consegue evocar um pouco da sensação de falta de chão, de desesperança. A linguagem é o que diferencia este dos outros projetos de Albarn. Se suas letras costumam ser diretas relacionadas ao mundo contemporâneo, o letrista que vemos aqui é mais afeito às metáforas, a uma forma poética de transmitir suas ideias. Esse é um elemento cuja continuidade em relação ao álbum de estréia é mais evidente.

Outras coisas, no entanto, mudaram bastante. Se no primeiro disco as imagens que a banda conjurava eram vitorianas, indo desde a capa até a instrumentação, aqui esses elementos são substituídos por referências bem mais recentes, que trocam a perspectiva histórica pela análise do presente. Também os vocais de Albarn se tornam ainda mais centrais nas canções, deixando pouco espaço para que seus colegas estrelados desenvolvam mais seus talentos. De muitas formas, Merrie Land parece um álbum solo. Mesmo que Simon, Tong (guitarrista do The Verve) e Tony Allen (baterista celebre do afrobeat) não tenham tanto espaço para demonstrar seus talentos, é inegável que sua presença continua a ser a arma secreta do supergrupo. Particularmente o baixo é uma presença que agrada sempre que presente, de forma simples mas eficiente.

Não dá para falar que quem gostou de The Good, The Bad & The Queen vá gostar de Merrie Land. O Segundo é bastante inferior ao primeiro. Nunca conseguindo chegar ao elevado patamar que estabeleceram na sua estréia. Os completistas da obra de Albarn definitivamente devem escutar, especialmente se gostaram de Everyday Robots, seu único álbum solo oficial, e que tem algumas similaridades com esse disco. Os anglófonos de carteirinha também devem se agradar, seja para ter uma ideia do ambiente cultural no Reino Unido atual, como pela simples natureza extremamente britânica que perpassa Merrie Land. É a versão sonora de uma xícara de earl gray. Para os demais, talvez ouvir apenas algumas das faixas já seja suficiente.

OUÇA: “Merrie Land”, “The Truce Of Twilight” e “The Poison Three”

Razorlight – Olympus Sleeping


Ah, ser jovem e ouvir Razorlight no meio da década passada! Poucas bandas conseguem ter esse espírito tão aflorado. Os dois primeiros álbuns da banda são cheios de energia, com uma sonoridade simples, mas sem serem bobos. As letras eram consideravelmente rebuscadas para esse estilo de música. O conjunto da obra despertava aquela vontade de viver, de ver tudo que o mundo tem para oferecer, de exagerar, de ir para lugares novos e dançar a noite inteira. Em resumo, sintetizavam tudo aquilo que é ser jovem, e toda aquela música que queremos escutar quando o somos. Razorlight tinha um quê de britpop, mas também agradava quem preferia o lado mais dance rock dos anos 80. Uma banda de guitarras fortes, de bateria que enfeitiçam os movimentos dos nossos pés. Não era sua banda preferida. Não era a minha. Provavelmente não era a de ninguém. Mas cabia tão perfeitamente com o que eram aqueles tempos de euforia, de possibilidades do futuro, de hormônios à flor da pele e de fingir que sabemos mais do que de fato o fazemos.

Por isso, foi um choque ver a banda amadurecer tanto no seu terceiro disco. É verdade, baladas e músicas mais lentas sempre estiveram lá, mas Slipway Fires se sustentava muito mais em cima das letras, que se tornaram ainda mais reflexivas, com muito piano e ritmo mais espaçado, difícil de acompanhar com o pé. Talvez seja porque a formação mudou muito, talvez porque simplesmente amadurecemos. Mas, apesar de ser um álbum com faixas muito fortes, não conseguiu sustentar a imagem de uma banda realmente boa. E, muito menos, a de uma banda jovem. No entanto, era de se esperar que, no futuro, fossem continuar por esse caminho, amadurecendo sua sonoridade, e a tornando cada vez mais voltada para as palavras.

Por isso mesmo é uma surpresa que esse quarto álbum, Olympus Sleeping, seja, em sua maior parte, uma tentativa de voltar às origens, àquele espírito dos dois primeiros discos. Mas será que isso é possível? Será que é algo que pode ser benéfico à banda dar passos para trás de tal forma, ao invés de caminhar adiante? “Got To Let The Good Times Back Into Your Life” literalmente parece um tipo de manifesto dizendo que sim, que podem fazer isso, que esse retorno deve ser feito. E é a faixa na qual o resultado é mais convincente. Poderia ser uma faixa presente em qualquer um dos dois primeiros álbuns da banda. Talvez, se estivesse em um deles, não se tornasse uma das melhores naquela coleção, como acontece aqui, mas se encaixaria. É, provavelmente, esse o motivo de ser a primeira canção do disco de fato (antes consta apenas uma breve introdução por Adam Green, conhecido por seu trabalho com o Moldy Peaches). Essa estratégia de colocar as melhores músicas no começo do disco é recorrente, e parece o caminho mais fácil dizer que é essa a que se destaca, mas, ao longo do álbum, a qualidade se revela oscilante.

Os melhores momentos, sempre, são aqueles em que tentam retornar ao seu espírito de juventude enquanto banda. Não só trazendo o sentimento à tona, mas mesmo as origens de classe trabalhadora da banda. Aquela coisa bem britpop de falar da realidade da juventude do Reino Unido, que hoje, em tempos de brexit, é bem diferente. É curioso ver isso em um álbum que tem influências tão distintas quanto Japandroids e Elvis Costello. Mas é a prova de que a autenticidade é sempre mais valiosa.

Já os pontos baixos são aqueles que parecem ir mais na linha do álbum anterior da banda, de dez anos atrás. Faixas como “Iceman” não conseguem ter o mesmo lirismo de “Wire to wire”, em grande parte porque as letras de Olympus Sleeping, mesmo que estejam acima da média do indie, não são tão boas. Inclusive, a faixa que dá título ao disco entra nesse bolo. Contrariando a outra estratégia do mercado fonográfico, de batizar com base numa das canções mais fortes, aqui vemos uma escolha que parece ser arbitrária. Ou talvez fosse o único título de faixa que não ficasse muito ridículo estampado na capa.

Considerando tudo isso, é engraçado ver que, mesmo não sendo um álbum ruim, Olympus Sleeping ainda fica atrás de todas as obras do Razorlight anteriores. Mas, para uma banda que volta de um hiato de 10 anos, mostra que ainda tem vestígios daquela vitalidade da juventude para, quem sabe, nos trazerem algumas coisas boas no futuro.

OUÇA: “Got To Let The Good Times Back Into Your Life”, “Brighton Pier” e “Carry Yourself”

The Dodos – Certainty Waves


O folk está morto. Pelo menos é essa a impressão que fica quando ouvimos aos primeiros minutos do novo álbum do The Dodos. O duo tem mais de 10 anos de carreira fazendo um som que, ainda que que subvertendo algumas das convenções do gênero, sempre foi bastante reverente e consistente. O folk que apresentaram sempre foi estranho, com experimentações sonoras e conceituais, mas Certainty Waves os distancia consideravelmente de tudo que fizeram antes, trazendo um som muito mais pesado, quase industrial.

As primeiras faixas do disco têm uma forte relação com o post-punk, misturando a isso elementos mais dançantes e mesmo ligeiras passagens puxadas ao hip hop. Já na terceira música, no entanto, essa mistura começa a dar espaço a elementos mais familiares, quase esperados para um disco da dupla. Na quarta, seu espirito folk já está totalmente de volta. Não que, a partir daí, aquela mistura que apareceu anteriormente suma completamente, mas o que poderia ser o manifesto de uma sonoridade radical é deixado de lado. Talvez seja uma vontade de não alienar quem acompanha a banda há tantos anos, ou talvez seja só que o duo tem uma atração pelo folk que é quase impossível de evitar. E não dá para negar que, quando estão no seu terreno familiar, The Dodos são bem mais competentes. O equilíbrio entre letra e melodia é algo que conseguiram aperfeiçoar bem, e que atinge as notas certas, ainda que repetidas. São músicas que poderiam achar um público bastante receptivo. Dez anos atrás.

O que Certainty Waves realmente tem de bom são justamente aqueles momentos mais inesperados. Coisas que podem nem sempre ser agradáveis ao ouvido – ao menos na primeira audição – mas que agradam o cérebro, que fazem aquele sorriso de soslaio surgir de modo quase involuntário: “eu vi o que vocês fizeram aqui”, pensamos. Para quem deixa esses momentos escaparem, ou não tem um afeto especial por esse sentimento, pode ser difícil achar algo que prenda o interesse no álbum. Ou na banda, de forma geral.

OUÇA: “IF” e “Ono Fashion”

Metric – Art Of Doubt


Quanto mais tempo uma banda tem de estrada, mais difícil que aconteçam mudanças sísmicas em sua sonoridade, mas, ao longo de sua carreira, o Metric percorreu uma trajetória consistente, ainda que não necessariamente tenha trazido bons resultados em todas as suas paradas. É difícil comparar a banda de hoje com a do começo do século, pois as propostas foram se alterando com o tempo, tornando impossível dizem se o som que fazem hoje está no mesmo nível de qualidade dos primeiros álbuns. Ou se está melhor.

A banda, que há quinze anos apresentava um som eclético, hoje tem uma estética mais coesa, que depende de elementos eletrônicos (que, desde Synthetica, estão firmemente no synth-pop, e não nos seus derivados indie) mas não os utiliza de forma excessiva. É verdade que as sutilezas foram, em grande parte, relegadas à carreira solo de Emily Haines (aparecendo ainda em exemplos como “Seven Rules”), mas sua presença pode ser entrevista na maior parte das faixas. A força de Art Of Doubt está justamente em conseguir unir um lado que é sábio, maduro e suave com outro que é angustiado, violento e pesado. A maior parte do álbum consiste em reflexões sobre os tempos contemporâneos e como nossas individualidades se expressam no contemporâneo. No entanto, a mistura de tons faz com que não estejamos simplesmente frente a uma visão amargurada das coisas, mas sim que experimentemos a ambiguidade que é natural quando pensamos no momento presente. Nesse sentido, Metric parece ser uma banda muito mais jovem do que de fato é. Estão ali uma forma dramática de pensar, aliada a um uma positividade que parece incongruente frente àquilo que encara.

As letras são um ponto forte do disco. Elas estão num nível de refinamento que lembra bastante os melhores momentos de sua carreira. E, mais do que isso, a combinação dessas com instrumentações que ressaltam sua força é algo relativamente raro no meio desse estilo musical, onde, muitas vezes, a música acaba afogando as palavras ou vice-versa. O título do álbum foi bem escolhido pois a faixa que carrega o mesmo nome encapsula bem o que está presente em todo o trabalho. Marcada por momentos tranquilos que fazem curvas bruscas numa combinação pesada de sintetizadores e guitarras, todas as facetas estão lá, inclusive uma série de pensamentos que nos fazem pensar sobre o mundo para além dos nossos fones de ouvido. Essa combinação consiste na linha que une todas as faixas do álbum. Assim como toda a estética do Metric.

Nos aspectos técnicos, é difícil ser crítico de Art of Doubt. Tudo que precisava, está ali. E numa combinação eficiente, para não dizer bonita. O álbum deve (e merece) ser ouvido do começo ao fim. Tanto porque são várias as canções que se destacam, como também porque apresentam uma narrativa que vale ser acompanhada do começo ao fim. Ainda assim, não se pode dizer que é uma obra perfeita, pois dificilmente conseguirá satisfazer tudo aquilo que alguém procura na música. É mais um disco inteligente do que carismático. O que quer dizer que dificilmente entrará nas playlists de baladas ou mesmo grudará no cérebro dos ouvintes, ainda que não tenha defeitos que possam ser apontados. Talvez sejam muito complexas, ou a mistura de espectros sonoros distintos não se dê muito a esses resultados.

OUÇA: “Dressed To Supress”, “Risk”, “Die Happy”.

Teleman – Family Of Aliens


Quando escutei Teleman pela primeira vez, lá pelo fim de 2013 ou começo de 2014, a banda me conquistou já de primeira. E acredito que, caso ainda não conheça a banda, pode acontecer o mesmo com você. Porque a sonoridade tem uma personalidade muito característica, é uma mistura de elementos que parecem muito familiares com outros completamente idiossincráticos.

É fácil imaginar que Teleman vem de um outro tempo, àquela virada do milênio que causou tantas convulsões no mundo da música que continuam a reverberar até hoje. Parte disso se deve ao fato de que a banda é, na verdade, uma espécie de ressureição da cultuada Pete and the Pirates. Mas mesmo essa encarnação anterior não era tão antiga assim. E, se os vocais com uma enunciação peculiar, ao mesmo tempo tão britânica e tão indefinível, são um dos elementos que herdaram, outros elementos estão menos proeminentes. As guitarras, que antes eram o que moviam a música, de uma forma bastante afinada com os hits da década passada, agora dão espaço a uma maior harmonia entre os instrumentos, com uma gama e utilização que está mais próxima do indie escandinavo.

É difícil encontrar uma banda que possa ser comparada a Teleman atualmente. Não porque sejam melhores do que os outros, mas simplesmente porque estão tentando fazer algo diferente. Se você gosta de elementos tão distintos quanto os vocais do último disco do Wolf Parade, ou as melodias dos primeiros álbuns de Peter, Bjorn and John, pode valer a pena conhecer o trabalho desses britânicos. No entanto, as comparações não fazem justiça. A mistura dessas coisas que citei acima não deveria ser, necessariamente, algo que funcionasse. Ainda menos se considerarmos uma inesperada aura de britpop que surge nas entrelinhas, conforme vamos nos acostumando à audição.

Talvez Family Of Aliens não seja a melhor das introduções a Teleman.  É verdade que esse é, provavelmente, o álbum no qual flertam de forma mais descarada com o pop, mas, ainda que algumas faixas resultem muito boas (o destaque sendo “Twisted Heart”), o conjunto não se revela tão atraente quanto seu debute, Breakfast. A personalidade não está presente de forma tão forte, impedindo que as peculiaridades que fazem dessa uma banda que vale a pena ser ouvida fiquem submersas em composições mais ordinárias. Os sintetizadores parecem estar ligeiramente exagerados, as letras (com algumas exceções) não são tão memoráveis. Os ritmos ainda são bem estruturados, e as canções têm coração, mas esses elementos não serão suficientes para conquistar um público abrangente. Embora Teleman provavelmente vá ser (se já não é) mais conhecida do que a banda que lhe deu origem, as chances de que vá agradar um espectro muito grande de pessoas são poucas. É uma típica banda cult.

OUÇA: “Twisted Heart”, “Family of Aliens” e “Fun Destruction”.