Meg Mac – Hope



Depois de um primeiro álbum que parecia ficar dividido entre querer ser intimista ou fácil de ouvir, Meg Mac volta em Hope conseguindo algo muito difícil de realizar que é unir duas vontades aparentemente conflitantes em uma única coisa muito bem feita. O álbum traz bastante vulnerabilidade sentimental ao mesmo tempo que é cativante e atraente para um público amplo.

Hope traz o melhor da voz de Meg com sua potência e expressividade e sentimos isso logo de cara com “Give Me My Name Back” uma canção que fala de auto-afirmação e identidade em tempos difíceis. A música é um R&B moderno em que a cantora traz desde a faceta mais suave até as grandes frases de fôlego e melismas característicos do gênero muito bem executados para passar a vibe que a música pede. “Sometrhing Tells Me” vem na sequência e não é uma faixa ruim mas parece reminiscente da parte mais fraca do primeiro álbum da cantora com pouca variação no canto, um piano super melódico cheio de sétimas e uma bateria simples, a música acaba obscurecida pelo que veio antes e o que vem depois no álbum.

A faixa-título é um movimento interessante porque, apesar da letra sobre acreditar num amanhã melhor, o instrumental não é super pra cima e aqui que a gente pode perceber a inventividade da artista ao cantar sobre esperança em momentos sombrios usando um instrumental mais downtempo que vai crescendo com uma voz que ganha força aos poucos, representando a vontade de sobreviver e persistir mesmo quando o ambiente em volta parece querer te derrubar.

“If You Wanted Me To Stay” é puro show off vocal no melhor sentido da coisa e lembra os momentos mais soul do primeiro álbum. É uma faixa feita com poucos elementos e bastante calcada em instrumentos orgânicos para fazer a voz de Meg Mac brilhar e conduzir a música inteira quase que sozinha e passar toda a carga de sentimento que a letra pede.

O restante do álbum traz diversas facetas da esperança e da força seja ao se libertar de um relacionamento que não serve mais, ao buscar o sucesso ou apenas sobreviver à escuridão do mundo. Hope fecha com “Before Trouble” que mostra a inventividade de Meg Mac ao usar a voz sempre num registro mais alto e experimenta bastante conduzindo a melodia em compassos pouco usuais numa faixa empolgante que faz com que você queira ouvir de novo.

Hope é tudo o que um álbum pop em 2019 deve ser: conciso, fácil de escutar, criativo dentro do que se propõe a fazer e sincero o suficiente para tocar a empatia do ouvinte.

OUÇA: “Give Me My Name Back”, “Hope”, “I’m Not Coming Back” e “Before Trouble”

Yeasayer – Erotic Reruns



Em seu quinto álbum, o Yeasayer vai fundo no repertório mais pop que apareceu timidamente ao longo dos anos e traz um álbum sem nenhuma das esquisitices e experimentações de seus antecessores com a intenção de falar de forma bem humorada sobre relacionamentos, sexo e cultura mas acaba soando infantil nas letras e repetitivo nos instrumentais.

Abraçar elementos pop não é novidade pro Yeasayer, o trio nova iorquino já havia dado pitadas de um som mais comercial em outros trabalhos mas  sempre mantendo uma pegada mais experimental e psicodélica no corpo dos registros. Em Erotic Reruns eles abandonam o experimentalismo e trazem um som mais fácil de digerir que, embora tenha algumas passagens interessantes, não cativa muito por ser repetitivo e maçante mesmo com faixas bem curtas.

“People I Loved” que abre o disco tem uma levada legal de baixo durante a música toda e alguns breaks que quase empolgam mas a dobradinha do riff com o falsete do vocal se tornam irritantes depois do primeiro break e os “na na na” que quebram uma letra que traz um questionamento sobre ser duro demais com quem se ama parecem deslocados e esvaziam uma letra e um instrumental que tinham bastante potencial.

“Ecstactic Baby” que vem na sequência sofre do mesmo problema. Conduzida por uma linha melódica de sintetizador intessante que em outro álbum do Yeasayer teria sido desenvolvida em algo mais complexo e rico musicalmente mas aqui repete os mesmos acordes até o fim com um refrão que parece ter sido pensado pra tocar em peça publicitária jovem.

A segunda metade do álbum é mais rica instrumentalmente com músicas como “Let Me Listen On You” que trabalha muito bem uma levada instrumental do pop rock setentista com um arranjo eletropop cheio de sintetizadores dissonantes e detalhes realmente instigantes que fazem o ouvinte se envolver do começo ao fim da faixa.

“Ohm Death” tem mais cara do pop atual que a banda demonstrou querer fazer no começo do disco mas trabalhada de uma forma bem mais rica com um som que preenche em várias camadas, amarrado por um baixo potente e sensual combinado a linhas de teclado que dão um ar bem urbano pra faixa.

Erotic Reruns como um todo é bem conciso e bem amarrado, o álbum tem quase trinta minutos e as faixas funcionam bem juntas mas quando você presta atenção a cada uma individualmente  parece que sempre falta algo pra elas impactarem o ouvinte mesmo com um ou outro elemento bem colocado.

OUÇA: “Let Me Listen On You”, “Ohm Death” e “Fluttering In The Floodlights”

Honeyblood – In Plain Sight



In Plain Sight é o primeiro disco do Honeyblood como um projeto solo de Stina Tweeddale depois da saída da baterista Cat Myers e expande bastante o horizonte sonoro do Honeyblood em diversas direções de uma forma que gera alguns momentos isolados interessantes mas que nem sempre funcionam em conjunto. A produção de John Congleton (St. Vincent, Angel Olsen, Priests) mostra potencialidades desconhecidas e interessantes de Stina mas às vezes fica pesada demais e tira a força de algumas faixas.

“She’s A Nightmare” abre o álbum com bastante força e já aí percebemos uma faceta diferente do Honeyblood com um som bem mais polido que qualquer um de seus predecessores, a produção transforma a música num eletro-rock com toques de power pop noventista com uma letra que é ao mesmo tempo sinistra e divertida narrando cheia de auto-ironia os pesadelos de Stina com uma mulher que a estrangula  toda noite. “The Third Degree” continua na mesma pegada sonora mas acaba ficando bem repetitiva lá pela metade e uma faixa de menos de três minutos parece que dura uma eternidade.

A sequência “A Kiss From The Devil” e “Gibberish” é o momento que mais funciona no disco porque introduz bem os novos timbres de guitarra e refrões pra cantar junto com linhas de baixo com bastante reverb e baterias velozes e cruas como costumavam ser trabalhadas no primeiro registro da banda. Esse equilíbrio na produção ajuda a não alienar os fãs mais antigos e as letras trazem referências de tropes do terror noventista que aparecem em outros momentos do álbum e aqui funcionam muito bem com os arranjos.

“The Tarantella” fecha o lado A do álbum e é uma faixa bizarra no melhor sentido da coisa, tem um quê de trilha sonora de filme de terror, uma rispidez grunge, linhas de synth escondidas que fazem dobradinhas e potencializam as passagens da guitarra. A música equilibra bem as cadências mais lentas com as explosões de energia e é um dos poucos momentos em que a produção mais polida fez bem para uma faixa nesse registro.

A segunda metade do álbum é bem mais puxada pra um noise pop com toques de eletro-rock e não apresenta nada de novo, apenas truques que já vimos mais bem executados no começo do disco. “Take The Wheel” é um noise pop com mais elementos cinematográficos no som que não acrescenta muito mas coloca uma deixa pra “Touch”, que é uma música com uma letra fortíssima sobre a agonia de ser tocada por alguém que te machucou mas cujo arranjo quase dançante tira a potência que uma letra assim teria se apresentada de outra forma.

O ponto mais fora da curva nessa segunda metade do álbum é “Twisting The Aces” que trabalha bem uma produção moderna eletrônica em cima de uma base que lembra o garage rock mais sentimental com passagens orgânicas que e realçam bem pontos específicos da letra.

O que mais decepciona nesse álbum é que você sente que tanto as letras como as ideias iniciais de alguns arranjos que estão ali são muito verdadeiros mas a produção exagerada faz o resultado final parecer plástico como se tivesse sido feito apenas para empolgar a galera num show em estádio. Stina Tweeddale é uma compositora incrível e é ótimo vê-la explorando outras formas de fazer música mas seria interessante buscar um outro tipo de produção para explorar essas novas referências trazidas em In Plain Sight.

OUÇA: “She’s A Nightmare”, “Gibberish”, “The Tarantella” e “Twisting The Aces”

Circa Waves – What’s It Like Over There?



À primeira vista, What’s It Like Over There? parece uma simplificação ou uma mudança de direção no trabalho dos ingleses do Circa Waves mas com uma audição mais atenta dá pra perceber que a aparente simplificação é na verdade a consolidação do som que eles vem construindo desde o primeiro álbum e agora conseguem dizer bem mais com menos elementos.

O álbum abre com a vinheta-título que parece bastante sem propósito dada a estética que o trabalho como um todo tem. Mas “Sorry I’m Yours” que vem na sequência soa mais como a verdadeira abertura e vem com uma grande força trazendo a energia característica co Circa Waves numa faixa que é ao mesmo tempo potente e sentimental. A música alterna bem a explosão de um riff de guitarra poderoso e abafado com uma levada de baixo e bateria que passa a vibe mais sentimental. O refrão cantado é desses simples e gostosos de cantar e o refrão instrumental fica na cabeça bem depois que a música acaba e essa é uma característica que vai aparecer em diversos outros momentos do álbum.

Na sequência temos “Times Won’t Change Me” que introduz um piano marcando o ritmo e combinado com a bateria com uma pegada militar mais lenta e que explode no refrão é uma ótima faixa pra cantar junto e deve funcionar muito bem ao vivo. “Movies” aparece logo depois e é uma faixa que saiu como single antes do álbum e dividiu a opinião dos fãs na época por se tratar de uma faixa abertamente mais pop do que tudo que o Circa Waves já tinha apresentado. É com certeza uma faixa mais comercial e de certa forma até genérica mas é agradável de ouvir e está bem posicionada no álbum entre duas ótimas faixas e funciona bem como transição.

“Me, Myself And Hollywood” é uma faixa bastante sentimental e transmite bem a atmosfera cinematográfica que e a letra pede através de uma construção que mescla uma guitarra mais pra cima com uma cadência de baixo e bateria mais lentas e os breaks da cozinha fazem bem a transição entre moods como cortes de câmera numa faixa bem curta.

A segunda metade do álbum é quase toda pra ser cantada em estádios com bons refrões e leves quebradas de tempo pra empolgar a galera no show. O melhor exemplo disso é “Be Somebody Good” com a sua bateria entrecortada no refrão e o melhor solo de guitarra do álbum inteiro.

What’s It Like Over There prova que e possível fazer fazer um som abertamente mais pop sem perder a energia do rock alternativo construída ao longo dos trabalhos anteriores.

OUÇA: “Times Won’t Change Me”, “Me, Myself and Hollywood” e “Be Somebody Good”

Helado Negro – This Is How You Smile



NSe você é familiarizado com a obra de Roberto Carlos Lange como Helado Negro, uma coisa que chama a atenção logo numa primeira passada por este álbum é que ele é muito mais “certinho” do que os anteriores. A estética aqui é muito mais melódica e bem amarrada do começo ao fim, e já nos primeiros momentos dá pra perceber que esse som mais despido das viagens de arranjo e do experimentalismo acentuado dos registros anteriores serve a um propósito narrativo muito claro que é o de evocar memórias.

Instrumentalmente, temos alguns poucos relapsos do Helado Negro de sempre pesando a mão nos sintetizadores e baterias eletrônicas como na abertura “Please Won’t Go” mas o piano em reverb acaba suavizando a faixa. Essa é uma dinâmica interessante que aparece em todo o álbum, quando ele chega muito perto do experimentalismo eletrônico dos trabalhos anteriores, algum instrumento tradicional vem e compensa isso, fazendo a música soar mais amigável. A produção de Roberto Carlos Lange é impecável e dosa bem os momentos em que um trabalho mais acústico e tradicional é o melhor caminho ou quando o som eletrônico ajuda a passar a mensagem de uma forma mais precisa.

Um ponto interessante é que o trabalho como um todo grita latinidade sem apelar pra clichês que poderiam passar essa mensagem de forma equivocada. Essa expressão da cultura latina é colocada algumas vezes de forma bem sutil como no fraseado de violão de “Imagining What To Do”  ou bem mais explícita como na belíssima “Pais Nublado” que com um ritmo dançante relata a conversa um pai e um filho latinos que tentam ganhar a vida nos os Estados Unidos e conversam com o pai falando em espanhol e o filho respondendo nos versos em inglês relatando a dualidade de sentimentos e cultura que uma vivência dentro da névoa que é a situação dos latinos nos EUA atual.

A forma como as faixas são colocadas equilibram bem esse aspecto mais social com algo mais íntimo e pessoal que evoca uma nostalgia agridoce por diversos momentos da vida como a memória do amor em “Running” ou as memórias de infância como em “My Name Is For Friends”. Seja através dos arranjos ou das letras, cada faixa deixa uma sensação de saudade e distância depois que acaba mesmo nas faixas mais upbeat como “Seen My Aura”, as frases de guitarra e até mesmo os vazios da batida te levam pra um lugar nostálgico.

This Is How You Smile toma seu título emprestado de uma passagem do pequeno conto “Girl” da autora antiguana Jamaica Kincaid que narra conselhos de uma mãe imigrante para sua filha sobre a melhor forma de se comportar para poder viver em paz em solo estadunidense. Além do título, o que Roberto Carlos Lange pega do conto é o conflito de sentimentos que ele, como descendente de imigrantes, conhece bem que é crescer como latino na América do Norte, tentando conservar tradições ao mesmo tempo em que tenta se encaixar num outro meio e trabalha isso de uma forma que une poesia e confissão, falando de algo ultrapessoal e específico para atingir sentimentos universais como a solidão, a saudade e o não-pertencimento.

OUÇA: “Please Won’t Please”, “Pais Nublado”, “Todo Lo Que Me Falta” e “My Name Is For Friends”

OUÇA:

Jon Fratelli – Night Bright Flowers


O trabalho de Jon Fratelli, tanto à frente de seu  projeto principal The Fratellis como em seu registro solo anterior, sempre teve uma relação bem forte com o country, usado como base pra subversão e criação de riffs empolgantes e dançantes. Seu segundo trabalho solo  mostra que o escocês também conhece bastante do lado mais sentimental do gênero. Combinando influências de um country mais lento e instrospectivo com toques de ‘american standards’, Night Bright Flowers traz arranjos complexos e delicados que evidenciam Fratelli como um músico experiente e versátil.

O álbum abre com “Serenade In Vain“ que diz logo de cara que estamos diante de um álbum totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha feito antes. A música é uma balada sentimental que faz um ótimo uso do timbre de Jon Fratelli como um instrumento que constrói a melodia em contraponto a levada de percussão e o piano minimalista. Alguns toques de rouquidão em algumas passagens da letra combinadas com as cordas ajudam ainda mais a passar o sentimento que a faixa pede. As guitarras com slide que vão aparecer bastante ao longo do álbum também dão as caras timidamente por aqui com uma produção que faz com que você se sinta num bar com a banda tocando bem perto. É uma faixa pra ser sentida e é impossível não se sentir afetado por ela.

A faixa-título “Bright Night Flowers”  traz na letra algo como uma reflexão sobre como ele, um rockstar que já não é mais nenhum garoto observa os jovens vivendo suas vidas à noite, cometendo seus erros e acreditando que são invencíveis e acaba se dando conta de que já viveu esses dias há muito tempo atrás. O instrumental continua na mesma pegada da abertura mas tem um arranjo menos espetacular, reduzindo o caráter orquestral. As guitarras com slide aqui são bem mais evidentes e se misturam às cordas fazendo uma cama pra um piano bem marcado com o dedilhado e Jon Fratelli aqui começa a exibir sem alcance vocal, saindo dos graves e lançando algumas notas mais agudas com bastante precisão. Em termos vocais “After A While” é a melhor perfomance do músico, variando do grave ao médio-agudo com bastante naturalidade e sendo bem expressivo nas inflexões, instrumentalmente no entanto essa faixa parece uma continuação da anterior e, mesmo com algumas passagens interessantes acaba parecendo longa demais com pouca variação além da voz.

“Evangeline” é talvez o momento em que Jon Fratelli mais se aproxima de seus trabalhos anteriores. A faixa lembra um pouco “Henrietta” do Fratellis por conta da cara de country de salloon e a conversa com uma amada na letra mas sem a afetação dos riffs e o sarcamo da primeira e é uma das faixas mais upbeat do registro.

A segunda metade do álbum não tem nenhuma faixa necessariamente ruim, muito pelo contrário, são tão bem arranjadas e tão bem escritas quanto a primeira não apresentam muita variação em relação ao começo do disco, e nenhuma canção se destaca muito com exceção de “Crazy Lovers Song”, uma balada country tradicional com o melhor trabalho de guitarra com slide do álbum todo e o piano funcionando como baixo de um jeito bem interessante. O final instrumental da música que mescla o folk escocês com o country americano através das linhas de cordas também merece ser apreciado.

Bright Night Flowers não é um álbum super inovador mas soa muito verdadeiro do começo ao fim expressando as reflexões de Jon Fratelli de forma bastante poética com arranjos e performances que revelam uma atenção e cuidado com os detalhes que vale a pena ser escutado.

OUÇA: “Serenade In Vain”, “Bright Night Flowers”, “Evangeline” e “Crazy Lovers Song”

Copeland – Blushing


A sensação geral de Blushing é algo como aquele estado entre o sono e a vigília em que você não consegue dormir à noite sonhando com os bons momentos da vida e recapitulando o que poderia ter dito ou feito para prolongá-los mas é confrontado com a realidade da solidão na madrugada. Essa característica nostálgica se reflete tanto nas letras como nos intrumentais que, embora sejam bastante diversos, revisitam alguns dos melhores momentos do passado do Copeland, desde o sinfônico e o soul do Ixora de 2014 até algumas guitarras mais rasgadas e quebras abruptas dos primeiros trabalhos.

Uma característica que chama atenção logo nos primeiros instantes é como o álbum evoca emoções muito profundas sem apelar para extremos. A cada faixa somos transportados para estados emocionais diferentes e intensos com pequenos movimentos instrumentais. Tudo acontece de uma forma coesa com uma continuidade construída de forma a não se tornar monótona, em que cada canção explora elementos diferentes e tem seu momento de brilho com algum ponto que resume a emoção que ela deveria passar entretando ainda totalmente relacionada com o que acontece nas faixas ao seu redor. Exemplo disso é “Lay Here”, uma faixa que trabalha a estrutura do R&B noventista através da batida e do baixo pra gerar uma melancolia que tem seu ápice com um pequeno movimento de sintetizador gerando uma dissonância com as cordas, a sobreposição de todos esses elementos tem um resultado poderosíssimo combinado com a voz disparando a vibe que a letra pede.

Algo que o Copeland sempre fez muito bem foi misturar elementos de gêneros diferentes de uma forma que não soe alienígena e aqui essa mistura serve pra gerar a tensão que as letras pedem, demonstrando a diferença entre o amor que você imaginou e o que aconteceu de verdade. Em “Night Figures” isso fica claro com os movimentos de soul sinfônico e hip hop envolvem os trechos que remetem à imaginação e uma agressividade controlada das guitarras e a explosão da voz mostram as partes em que o eu-lírico toma noção da sua condição na realidade no final da música.

Blushing é o sexto álbum na discografia do Copeland, o segundo álbum depois do hiato da banda e soa como uma evolução natural da estética adotada em Ixora, reforçando ainda mais o caráter onírico e melódico que começou nessa fase.

OUÇA: “Pope”, “Colorless”, “Lay Here” e “Strange Flower”

HEALTH – VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR


O HEALTH sempre foi uma banda difícil de explicar porque nos seus álbuns costumavam haver elementos de gêneros muito divergentes e um trabalho de construção de dissonâncias e atmosferas pesadas e alienígenas que perturbavam e instigavam os sentidos. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é o quarto álbum do HEALTH, o primeiro trabalho depois da saída do tecladista orignal e co-fundador Jupiter Keyes e vai fundo no peso do metal industrial mas sem a elegância da esquisitice dos registros anteriores.

Em Death Magic, o álbum anterior, o HEALTH conseguiu chegar num ponto de equilíbrio interessante entre o som pesado conceitual cheio de camadas e algo mais pop e acessível. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR traz o peso trabalhado de uma forma diferente, usando quase nada das múltiplas camadas de sintetizadores características de trabalhos anteriores e apostando mais nas distorções de guitarra e percussão pra fazer um proto-metal industrial que acaba soando achatado e repetitivo.

Um elemento que se mantém dos álbuns anteriores é uma certa coesão conceitual e o tema aqui é o medo de viver no mundo da forma como ele está. Nada parecido com as críticas ácidas à publicidade do Death Magic de 2015 ou o caráter introspectivo e sentimental do Get Color de 2009, apenas um niilismo quase infantil na forma em que aceita e apenas relata que está tudo podre e vamos todos morrer mesmo, então pra que se importar? Letras como as de “THE MESSAGE”, “LOSS DELUXE” e “STRANGE DAYS (1999)” tem reduções simplistas de temas complexos como a morte, o medo e o sofrimento e parecem poemas de um adolescente revoltado e não letras de uma banda que, embora nunca fosse reconhecida por esse aspecto, já trouxe passagens líricas muito interessantes no passado.

Sonoramente, é muito difícil saber quando uma música acaba e começa a outra porque os power acordes aqui se repetem à exaustão sem nenhuma progressão ou nuance e a mixagem que carrega o volume pra criar peso artificialmente de uma forma que parece até amadora faz as músicas soarem ainda mais unidimensionais, achatando os instrumentos e a voz numa camada só. Os riffs que aparecem só geram peso de forma solta sem nenhum propósito narrativo e não envolvem o ouvinte, muito menos são lembrados depois que as músicas acabam.

VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é, na melhor das hipóteses, um bom álbum pra bater cabeça se você não se importar com a monotonia das construções das faixas. E se torna decepcionante porque não foi um grande ponto de ruptura ou um experimento que não funcionou. Muito pelo contrário, quase todos os elementos que aparecem  aqui já foram trabalhados de forma muito melhor por eles em álbuns anteriores o que deixa a impressão de que, mesmo tendo levado quatro anos pra sair, ainda assim é um álbum preguiçoso.

OUÇA: “PSYCHONAUT” e “BLACK STATIC”

The Dandy Warhols – Why You So Crazy


Com exceção de um ou outro hit ao longo do caminho, o Dandy Warhols nunca foi um grande sucesso comercial mesmo nos meios mais alternativos da música, mas sempre foi uma banda muito inventiva e eclética brincando e experimentando dentro das vertentes do rock alternativo com resultados muito interessantes ao longo de 10 álbuns de estúdio. Why You So Crazy vai fundo na pegada eletrônica pincelada pelos músicos em Distortland de 2016 mas sem a graça de seu predecessor e traz alguns elementos country sem muito contexto pra algumas canções.

O que mais decepciona em Why You So Crazy  é que ninguém ali parece estar usando sua capacidade total. O vocalista Courtney Taylor-Taylor que em trabalhos anteriores, embora não fosse um vocal super potente, aproveitava a característica de sua voz pra compor as harmonias, aqui fica quase escondido em sussurros e prejudicado pela mixagem que joga seu vocal por baixo do instrumental; Peter Holmstron e Brent DeBoer seguram bem a cozinha mas sem muita energia nem inventividade para dar mais corpo e vida ao som quase mecânico que se desenvolve no álbum; e Zia McCabe que já fez coisas incríveis com seus sintetizadores tanto nas músicas mais pop quanto nas mais viajadas do Dandy Warhols usa uma programação datada e simplista que não empolga muito.

O disco já começa pesando a mão num eletrônico genérico com a introdução “Fred N Ginger” e “Terraform” e a profusão de beats e efeitos especiais faz com que seja difícil entender algum conceito musical por trás delas e mais difícil ainda entender o que está sendo cantado. Ao longo do álbum essa (falta de) estrutura se repete em músicas como “Next Thing I Know”, que tenta criar uma atmosfera espacial mais obscura mas acaba se tornando assustadoramente monótona e “To The Church”, que tenta evocar a fase mais eletrônica de Bowie através de algumas levadas de baixo e violão mas não funciona muito bem por ser um tratamento puramente estético sem muita relação com algum conceito ou as faixas que a circundam. Essas faixas são carregadíssimas de efeitos e um certo experimentalismo que é até interessante em certa medida mas sem nada que realmente cative e faça você sem lembrar delas depois que o álbum acaba.

No lado menos eletrônico do álbum temos algumas coisas mais interessantes mas nada muito brilhante como “Motor City Steel” e “Highlife” que usam uma estrutura country tocada com instrumentos eletrônicos pra tirar sarro dos exageros e clichês característicos do country radiofônico americano e embora sejam sim um pouco repetitivas ainda são faixas divertidas e que expressam bem alguma intenção e não são apenas um amontoado de beats e efeitos dispersos. Perdida no começo do álbum temos “Be Alright” que saiu como primeiro single e pode ser uma terrível propaganda enganosa porque é a faixa que mais se parece com o rock alternativo que o Dandy Warhols já fez ao longo da carreira e é uma ótima música que não tem nenhum outro paralelo nesse registro.

Why You So Crazy chega até nós no ano em que o quarteto de Portland compelta 25 anos de carreira e, embora sonoramente seja bastante diferente de seus predecessores, ainda celebra de forma sutil muitos dos maneirismos de diversos momentos desse quarto de século. De toda forma, apesar de toda a estranheza e a falta de algo que seja realmente brilhante e marcante, podemos dizer que esse registro ainda está dentro do que o Dandy Warhols faz que é experimentar até as últimas consequências com toda a liberdade, não importando o resultado.

OUÇA: “Be Alright”, “Thee Elegant Bum” e “Motor City Steel”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”