Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Marissa Nadler – For My Crimes


Depois de sete álbuns, a cantora-compositora que quase sempre apostou no combo clássico voz e violão (e de vez em quando uma guitarra) pra expressar seus sentimentos, chega ao seu oitavo trabalho com um som muito mais espacial,  que reforça a característica onírica de sua voz e ajuda na imersão do ouvinte. Um time feminino de peso a acompanhou no estúdio com nomes como Eva Gardner no baixo, Mary Lattimore na harpa, Janel Leppin nas cordas, Patty Schemel na percussão e backing vocals de Kristin Control, Sharon van Etten e Angel Olsen, enriquecendo o caráter atmosférico de todo o álbum e potencializando a força de cada canção.

Por 14 anos cantando sobre a dor de corações partidos e a perda de relacionamentos falidos, Marissa Nadler atingiu um ponto de sofisticação único em que não precisa mais escancarar totalmente os elementos que compõem as histórias das personagens de suas canções mas pode apenas sugerir pequenos detalhes dessas narrativas e deixar a cabo do ouvinte completar com seus próprios sentimentos o que falta. Essa abordagem impressionista aparece em todos os componentes do álbum, desde a capa pintada pela própria artista com poucas pinceladas fortes que sugerem uma paisagem obscura e continua até os arranjos com a inserção sutil das linhas de cada instrumento pra contar cada uma de suas crônicas musicadas.

Além de todas as faixas contarem um pedaço de história em sua letra, o que chama a atenção é como Marissa parte de coisas muito específicas pra fazer canções com que todos possam se identificar.  Faixas como “I Can’t Listen to Gene Clark Anymore” que conta a dor de ouvir sozinha o artista favorito do casal e “All Out Of Catastrophes” que fala sobre a raiva que é ser chamada pelo nome de outra mulher na cama, partem de detalhes muito pessoais pra falar de situações que todos podem entender com um pouco de sensibilidade.

A estética sonora do álbum como um todo é bastante melódica e sombria, utilizando dos fraseados característicos do folk e do country como forma de amarrar todo o trabalho dentro do mesmo mood. À  primeira vista pode parecer um pouco previsível o uso de dedilhados de violão por quase todo o álbum mas os arranjos compensam  ao colocar as cordas e harpas nos momentos certos, trazendo o ouvinte de volta pra perto quando ele começa a se perder na fantasmagoria da voz e do violão. Além disso, os backing vocals ajudam a passar o sentimento que cada letra pede, “For My Crimes” que abre o álbum é um exemplo perfeito disso, com uma linha de violão constante mas que ganha força com um baixo sutil, além dos backing vocals e o complemento das cordas que acentuam as frases mais dramáticas da canção. A onipresença do violão é quebrada em poucos momentos como em “Blue Vapor” que traz uma guitarra principal mais carregada e a bateria mais potente do disco inteiro mas sem perder o caráter mais melancólico e lento das faixas que a circundam.

Como cantar por mais de uma década variações sobre um mesmo tema dentro do mesmo estilo musical e ainda assim ter sempre algo de novo para mostrar? Marissa Nadler parece encontrar a resposta para esse questionamento no refinamento dos detalhes. Uma vez que a estética e a temática já estão definidas de antemão, a artista pode encontrar a excelência dando atenção aos pequenos movimentos sonoros e focando sua lente nas particularidades ao invés de buscar as grandes cenas.

OUÇA: “Blue Vapor” e “You’re Only Harmless When You Sleep”

Liars – Titles With The Word Fountain


O lançamento de TFCF em 2017 marcou a transformação do grupo nova-iorquino de rock alternativo em um projeto solo conceitual e experimental de Angus Andrew, tendo como resultado um dos álbuns mais diferentes até então, trazendo com muito mais força a expressão calcada na excentricidade de Angus. Titles With The Word Fountain foi gravado nas mesmas sessões de estúdio que originaram seu predecessor e traz faixas um pouco mais soltas e alguns experimentos lúdicos ainda que envoltos na mesma atmosfera de sentimentos pesados de TFCF.

As sensações gerais que ficam depois de algumas passadas pelo álbum são de incompletude e pressa. Com poucas faixas passando dos dois minutos de duração, é difícil desenvolver algum raciocínio musical mais complexo e completo e, mesmo que  boas ideias estejam ali, parece que uma pressa de fazer a próxima música impediu ótimas ideias de serem mais trabalhadas. Temos um exemplo disso logo na segunda faixa “Face In Ski Mask Bodies To The Wind” que traz uma ideia interessantíssima de percussão num compasso pouco usual fazendo um ritmo constante, combinado com uma mistura de sintetizador e vocoder mas que é logo interrompida pra dar lugar a um synth carregado, anunciando uma boa ideia que nunca se completa. A pressa em testar uma ideia fica ainda mais evidente porque na faixa seguinte, “Murdrum”, o mesmo conceito de arranjo é feito de uma forma muito melhor, aproveitando essa ideia pra construir momentos de tensão que realmente são recompensados dentro da faixa e essa é uma constante em todo o álbum, revelando que com um pouco mais de tempo, o resultado final poderia ter sido muito mais impactante.

A ordem das faixas também é algo estranho e que parece não ter sido muito bem pensado, além da já citada repetição de arranjos em faixas subsequentes, o mood geral nunca fica muito bem definido, mesclando de forma aleatória faixas muito sombrias com outras muito lúdicas. O melhor exemplo disso é o instrumental sinistro “P/A\M” que é seguido pela quase divertida “Fantail Creeps” que brinca com um fraseado instrumental da típica música de estádios de beisebol. Mesmo com faixas curtíssimas, é absurdamente cansativo chegar até o final do álbum porque quando você está quase imerso em alguma vibe, ela é logo cortada e você é transportado pra outro estado mental nada a ver, dificultando o engajamento de prosseguir com a audição e fazendo ser mais difícil ainda querer voltar pro começo e passar por tudo isso de novo.

É difícil descartar a ideia de que Titles With The Word Fountain é apenas um compilado das sobras do processo criativo que originou TFCF, ainda mais sabendo que ambos os álbuns foram feitos na mesma época. Quase todas as faixas de Titles With The World Fountain tem um paralelo muito mais bem feito em seu predecessor e, embora a performance e arranjos de Angus Andrew sejam interessantes o suficiente pra prender a atenção por alguns instantes, a impressão que fica é de que todas as faixas desse trabalho mais recente são na verdade os rascunhos do anterior. Na melhor das hipóteses, esse álbum serve como uma “ versão do diretor” do primeiro trabalho totalmente solo de Angus Andrew à frente do Liars, apresentando pros fãs mais engajados um pequeno vislumbre se seu processo criativo.

OUÇA: “Murdrum”, “Past Future Split”, “Fantail Creeps” e “Perky Cut”.

JEFF the Brotherhood – Magick Songs


Em dezessete anos de banda, os irmãos Jake e Jamin Orrall nunca fizeram dois álbuns iguais mas uma coisa sempre se manteve constante: a presença de riffs marcantes costumava ser algo que definia o som deles. Em Magick Songs, somos apresentados a uma faceta totalmente diferente da banda, com o desaparecimento quase completo dos riffs poderosos e um trabalho muito mais focado na criação de atmosferas espaciais e de certa forma até místicas.

Uma coisa que se nota logo de cara é que, enquanto os trabalhos anteriores eram bastante claros e diretos tanto na estética instrumental quanto nas letras, Magick Songs soa muito mais enigmático e disperso. Essa diferença se reflete inclusive no processo de produção da banda, que costumava gravar todas as faixas de seus álbuns em poucos dias, mas pra esse último álbum levou em torno de cinco meses juntando pedaços de jam sessions diversas que rolaram entre eles em faixas que parecem mais colagens de experiências do que canções que se esperariam de uma típica banda de rock.

A letra curtíssima da faixa de abertura “Focus On The Magick” ao dizer que “only you can hear the sound” parece deixar claro que esse álbum é uma coisa feita pra olhar pra dentro de si mesmo e buscar entender a imensidão do universo que te cerca. O instrumental é trabalhado com uma melodia que cresce suavemente gerando expectativa pra um clímax que nunca vem pra depois cair abruptamente reforça esa característica cósmica que vai se repetir assumindo outras formas ao longo do registro. “Camel Swallowed Whole” aproveita o último acorde da primeira música e quebra brevemente o clima de viagem instrumental com uma estrutura 4/4 simples e verso-refrão bem definidos, o destaque aqui está pra fusão interessante entre duas linhas de guitarra muito diferentes entre si que acompanham uma linha de flauta doce que conduz a música inteira e some do nada nos momentos finais.

O clima místico é retomado em “Singing Garden” que utiliza uma estética e estrutura da música tradicional japonesa pra montar uma ponte pra “Parachute”, uma canção construída a partir de tempos quebrados com diversas camadas que traduz em seu instrumental e na letra o sentimento dúbio entre a liberdade e a melancolia de ser um viajante pelo céu. Essa dubiedade é expressa pela relação entre as linhas de guitarra e baixo mais downtempo enquanto a flauta, teclado e bateria levam ao mesmo tempo uma carga mais alegre.

“Celebration” e “Locator” trazem uma pegada mais espiritual usando percussões levemente inspiradas em batidas africanas e sintetizadores e sopros com uma pegada árabe pra passar essa mensagem. “Wasted Lands” segue na mesma vibe mas a levada de baixo e bateria parece bem preguiçosa e amarra de forma bem frouxa os elementos tão diversos que constroem a faixa, parecendo mais um improviso em cima de uma mesma base sem muita relação com o que vem antes ou depois. “Relish” que vem na sequência embora com pouquíssimos elementos passa muito mais uma mensagem de desprendimento da realidade e parece que o álbum poderia ter acabado aqui mesmo de uma forma muito mais consistente e interessante mas não é isso o que acontece.

De “The Mother” até “Farewell To The Sun”, o que vemos é o JEFF The Brotherhood que já conhecíamos de álbuns anteriores, trazendo riffs como condutores e bastante peso, com a diferença de usar estruturas inspiradas no post-punk e no industrial mais pesado dos alemães dos anos 80. São músicas muito bem construídas mas essa sequência final parece simplesmente um aproveitamento de sobras de álbuns anteriores e são totalmente desconectadas do que veio antes. As letras enigmáticas continuam ali mas me pergunto qual a necessidade de trazer a sua forma habitual de fazer música num último momento se desde o começo desse álbum eles vinham em um esforço de desconstruir expectativas e marcar um novo momento pra banda.

De forma geral, em seu décimo terceiro álbum, os irmãos de Nashville parecem que pararam de procurar o riff perfeito e passaram a buscar alguma outra coisa. Mas o que eles buscam? Ainda é difícil saber.

OUÇA: “Focus On The Magick”, “Parachute” e “Relish”

Oh Sees – Smote Reverser


Explicar o som do Oh Sees é quase tão difícil quanto saber o nome atual da banda. O projeto iniciado por John Dwyer em 1997 já foi chamado The Oh Sees, OCS, Orinoka Crash Suite, Orange County Sound, Thee Oh Sees e assina o último registro simplesmente como Oh Sees, identidade adotada no álbum Orc de 2017. Smote Reverser mantém a pegada que começou com Orc, flertando com o metal e o rock progressivo setentista, tanto na forma dos arranjos como nas letras, sem deixar muito claro se é uma homenagem ou pura zoeira com os épicos sobre castelos, florestas e monstros dos primórdios do prog.

O disco abre com Sentient Oona, um garage rock simples com pitadas da psicodelia lo-fi característica dos trabalhos anteriores pra agradar o fã de longa data e introduzir quem está chegando pela primeira vez sem assustar muito. Outra característica que os fãs mais antigos vão notar logo nessa primeira faixa são alguns backing vocals e as linhas de teclado inconfundíveis de Brigid Dawson que já esteve em formações anteriores da banda. As linhas de bateria cavalgada, uma leve quebra de compasso antes do refrão instrumental e os solos de synth anunciam de forma contida o progressivo que ainda está por vir. “Enrique El Cobrador” é a primeira incursão progressiva desse disco com sua estrutura claramente baseada no prog setentista com a guitarra e o baixo servindo de cama pra um som conduzido por sintetizadores e muitos pratos, além da letra que anuncia uma batalha épica e violenta. C continua na mesma pegada medievalesca na letra mas é bem mais puxada pra um jazz fusion que reflete o processo criativo da banda tocando junto pra se divertir sem muita preocupação com o resultado. A alternância entre a guitarra e o teclado como focos do instrumental tanto nos versos como nos solos gera uma dinâmica interessantíssima pra faixa.

Overthrown” é o momento mais pesado do disco é quase metal na forma como a percussão e o baixo acontecem mas a forma como o solo de guitarra é conduzido é meio deslocado dessa estética metal e é bem mais parecido com o típico rock psicodélico que John Dwyer está acostumado a fazer. O vocal embora gritado também não combina muito bem com a música no geral, ficando abafado pelas baterias rápidas e se tornando incompreensível na maior parte da duração.

O álbum como um todo tem uma atmosfera bem enérgica e, mesmo nas canções mais lentas, deixa pouco espaço para o vazio, o que se deve em grande parte ao duo de bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone que trabalham freneticamente preenchendo os vazios e pausas um do outro. O trabalho de percussão acontece de uma forma tão bem arranjada que não cansa o ouvinte, mesmo jogando novas informações de ritmo literalmente o tempo todo. Bons exemplos disso são a “bluesística” “Moon Bog” em que as baterias acompanham o fraseado do baixo e da guitarra como se fossem parte integrante da melodia tanto nas estrofes quanto nos refrões instrumentais e a totalmente rítmica “Anthemic Agressor” que vem na sequência, um grande instrumental de doze minutos em que todos os outros músicos se permitem viajar e solar sem muitos limites quase que num fluxo de consciência mas a percussão se mantém constante, dando o ritmo virtuosa e consistentemente mas sem exigir atenção exclusiva pra si.

A segunda metade do álbum tem dois momentos interessantes com “Abysmal Urn” e “Nail House Needle Boys” fazendo um momento mais agressivo e simples estruturalmente enquanto “Flies Bump Against The Glass” e “Beat Quest” finalizam com uma pegada mais leve e viajada dando lugar a um som mais espacial que brinca com as referências instrumentais medievais do prog rock nos últimos minutos da faixa final.

Com exceção de uma leve semelhança temática entre algumas músicas e alguns timbres e frases característicos da guitarra de Dwyer, não tem nada que amarre muito as faixas de Smote Reverser entre si, o que não significa que o álbum soa incoerente. Cada música é muito bem construída dentro de seu próprio universo temático e juntas funcionam bem na ordem em que aparecem. O que fica de mensagem do álbum (mesmo que o líder tenha dito expressamente que não há um grande conceito ou mensagem por trás dele) é que eles se sentem confortáveis pra se divertir e entreter tocando e falando sobre qualquer coisa.

OUÇA: “Enrique El Cobrador”, “Moon Bog” e “Beat Quest”.

Laurel Halo – Raw Silk Uncut Wood


Pra quem já ouviu algum dos trabalhos anteriores de Laurel Halo, Raw Silk Uncut Wood pode parecer algo totalmente diferente e uma quebra com a linguagem diversificada recheada de componentes melódicos e rítmicos que ela tinha adotado até então. No entanto, uma audição cuidadosa revela que muitos dos elementos deste álbum já estavam presentes em menor proporção em registros anteriores e Raw Silk Uncut Wood é apenas a explicitação desse processo.

A primeira coisa que chama atenção numa primeira passada pelo álbum é a ausência da voz de Laurel ou qualquer outra ali. Num movimento conceitual, a artista retira a fala para favorecer as sensações causadas pelo instrumental e por ele somente. Outro elemento que some nesse trabalho é o eletrônico mais carregado que marcava presença nos álbuns anteriores. As baterias eletrônicas desaparecem e sintetizadores ainda são usados mas de uma forma muito mais contida, passando uma aura mais orgânica para o trabalho como um todo.

A faixa-título que abre o álbum é uma das melhores manifestações dessa característica orgânica e sensorial. Ao longo de seus dez minutos de duração somos transportados para um outro estado mental, uma espécie de transe através de suas longas sequências de cordas que constroem a cama para pequenas variações que nos trazem de volta pra realidade por alguns momentos e então nos levam de volta para outro plano. Toques graves de um baixo quase escondido e um órgão sintetizado nas notas mais agudas ressoam ao fundo, flutuando dentro da estrutura e fazendo o ouvinte flutuar junto.

O fim em reverb da primeira faixa faz uma boa transição para “Mercury”, que traz elementos de jazz através de uma cadência simples de piano e uma percussão acelerada e indefnida. Assim como no jazz, somos surpreendidos mas não atavés do virtuosismo de algum dos instrumentistas e sim pela quebra do compasso e a inserção de dissonâncias e flutuações às vezes escondidas atrás da percussão e em outras mais evidentes, silenciando o piano.

A vibe mais dedilhada continua nas duas canções seguintes “Quietude” e “The Sick Mind”, a primeira com uma cadência de xilofone contínua que ao mesmo tempo que marca a melodia, também gera um caráter percursivo e a última com um piano também repetindo uma cadência constante, acentuado por uma textura de sintetizador e baixo acústico que constroem uma atmosfera quase subaquática em alguns momentos.

“Supine” é um rápido lampejo do eletrônico mais carregado de trabalhos anteriores com pouco mais de um minuto e parece totalmente deslocada do restante do trabalho, um corpo estranho que não condiz com a atmosfera criada até aqui.

O álbum encerra com uma “Nahbarkeit” que resgata o caráter orgânico do início do álbum com uma belíssima linha de violoncelo e uma percussão com um toque tribal bem ao fundo. A faixa cresce em alguns momentos tanto em volume quanto em complexidade através da inclusão de pratos e algumas linhas espaciais de synth. A faixa traz uma complexidade difícil de apreender ouvindo apenas uma vez embora tenha pouquíssimos elementos que a constituem. É o momento mais melódico do disco, com quase nenhuma dissonância e um trajeto que evoca nascimento, ascenção, dispersão e luto que continuam ecoando mesmo depois que o álbum acaba.

Utilizando poucos recursos nos momentos certos, Laurel Halo potencializa o caráter sensorial de sua obra. Raw Silk Uncut Wood marca um momento de simplificação na sua linguagem experimental. Despindo o seu som de tudo que poderia ser supérfluo, a artista chega a um estágio de sofisticação elevado construído ao longo de anos de investigação musical.

OUÇA: “Raw Silk Uncut Wood”, “Mercury” e “Nahbarkeit”.

Girls Names – Stains On Silence


Depois de um último álbum visivelmente mais comercial e da saída do baterista Gib Cassidy, os norte-irlandeses do Girls Names haviam dado uma parada, abandonando o protótipo do que viria a se tornar Stains On Silence. Com uma postura de nada a perder, os músicos remanescentes decidiram retomar o projeto, regravar as faixas engavetadas usando uma drum machine pra substituir o baterista e, com arranjos bem mais sombrios, lançaram um dos álbuns mais diferentes da banda.

Esqueça os acordes rápidos e riffs empolgantes dos trabalhos anteriores. Aqui eles mergulham fundo na parte mais pesada do post-punk que já influenciou o som deles no passado. A voz de Cathal Cully aqui fica sempre nas oitavas mais graves e às vezes até se confunde com o baixo tamanho o peso. Outra coisa que quase não aparece nesse álbum são refrões, as letras são grandes e densas e deixam pouco espaço pra algo que possa ser repetido junto. O mais próximo disso são algumas passagens de “The Impaled Mystique” e “Fragments Of A Portrait”.

O álbum tem uma atmosfera pesada e suja desde o primeiro momento. “25” que abre o disco te coloca em um lugar escuro com a cadência de bateria e o piano quase teatral. Tudo isso associado ao vocal profundo e a cama de cordas sintetizadas deixa o ar ainda mais pesado. A forma abrupta como a faixa termina reforça ainda mais essa ideia de perigo e medo. Na sequência, “Haus Proud” subverte a expectativa do ouvinte com uma linha de baixo, synths e bateria eletrônica típicos de um pop mais dançante mas tocados com acordes menores, brincando com esses elementos pra continuar com o clima soturno da faixa. A mixagem dessa canção em alguns momentos é bizarrísima, abafando em momentos aparentemente aleatórios alguns instrumentos e a voz sem nenhum controle e fica a dúvida se tudo isso faz parte do conceito ou se foi um erro grosseiro mesmo.

“The Impaled Mystique” lá no meio do álbum é ainda bastante densa mas é o menos sombrio que o álbum consegue chegar com seu quase refrão com um sintetizador, o vocalista atingindo as notas mais altas que ele vai fazer no disco todo e um riff que fica menos focado em reverbs e usa mais notas isoladas do meio pro final da faixa. Este é um dos momentos em que a falta de uma bateria real incomoda pois a dinâmica de solos entre os instrumentos é bem interessante mas o loop da baterial eletrônica é duro demais e quebra o som orgânico que acontece em volta.

As faixas “Fragments Of A Portrait”/”A Moment And A Year” são complementares, a primeira uma repetição incessante de um riff e algumas frases, a segunda um instrumental conceitual performada com sons pouco comuns mas organizada por alguns poucos acordes da faixa anterior. É um dos momentos esquisitos do álbum com longos momentos de silêncio e dissonâncias mas que casam bem com a proposta do álbum.

“Stains On Silence” é uma faixa interessante com sua melodia quase toda construída pela linha vocal em conjunto com um sintetizador. No entanto a repetição dessas poucas linhas de sintetizador, o loop da bateria que não casa muito bem com o que está acontecendo em volta e o comprimento exagerado pra uma faixa que poderia ser bem melhor se fosse menor, acabam fazendo com que o ouvinte perca o interesse lá pela metade dela.

Encerrando o álbum temos “Karoline” a faixa que mais lembra os trabalhos anteriores do Girls Names com a linha de bateria constutuída por muitos pratos e melodias construídas por arpejos de teclado e guitarra ainda bastante sujos mas bem menos pesados que as canções anteriores. Parece um pouco deslocada do restante do álbum mas é um momento isolado criativo onde os músicos deixam pouco espaço para o vazio numa dinâmica que alterna um instrumento por vez fazendo reverb enquanto os outros preenchem os compassos do meio com as notas do acorde arpejadas.

Em Stains On Silence vemos que os músicos estão bastante confiantes e fizeram o que quiseram nesse disco sem muita preocupação com o retorno do público. Mesmo com as dificuldades técnicas aparentes no álbum, temos aqui uma exploração de temas e estruturas do post-punk que, para além de trazer uma estética sombria, revela todo o potencial dos músicos de assumir riscos e tentar produzir algo conceitualmente interessante com poucos elementos à disposição.

OUÇA: “25”, “The Impaled Mystique” e “Karoline”

Taken by Trees – Yellow To Blue


Uma coisa que salta logo na primeira passada pelo álbum é o ar de esperança que ele carrega. Tanto nos arranjos bastante trabalhados em cadências nostálgicas, quanto nas letras, Victoria Bergsman traz um pouco de confiança de que as coisas podem melhorar. É um olhar pra dentro de si e das coisas positivas que todo mundo carrega pra fazer acreditar nem que seja por um instante que as coisas conturbadas do lado de fora podem ser algo diferente um dia. “Wait” que abre o álbum deixa isso bem claro e dá o tom pro resto do álbum. Os acordes de teclado com reverb e a batida simples 4/4 com uma pequena sincopação constroem uma atmosfera melancólica nos versos que é contornada pela crescente de alguns claphands associados às cordas performadas pelos sintetizadores nos refrões, dando leveza e tentando acessar aquele lugar no meio do caminho entre a tristeza e a euforia.

“Vibrant Colors” que vem na sequência é totalmente solar, com um arranjo de guitarras que lembra um pop nos moldes de cantoras como Cyndi Lauper e Madonna, mais uma vez brincando com as nossas lembranças e usando esses arranjos pra evocar algum lugar feliz na memória.

“Once” foi o primeiro single desse álbum e a forma como os sintetizadores são arranjados com a voz de Victoria contrastando com um baixo mais pesado e os beats do refrão fazem um passeio por diversas emoções como se estivesse colocando você de cara com o que te aflige pra depois vir e te dar um abraço dizendo que vai ficar tudo bem.

“Charlie” que fecha o lado A do álbum traz um pouco de algumas cadências mais complexas trabalhadas nos álbuns anteriores mas numa roupagem bem encaixada com a proposta desse álbum, focando em harmonias mais pra cima e beats mais vibrantes e faz uma boa transição para o segundo momento do registro.

A segunda parte do álbum é bem menos limpa que a primeira. A vibe de mergulhar um pouco na melancolia pra depois te trazer esperança persiste em todas as músicas mas, enquanto a primeira parte traz sintetizadores bem mais focados nos reverbs, poucos acordes e estruturas mais simples, nesse momento aparecem mais elementos como 3 ou 4 linhas de synth ao mesmo tempo, harpejos e alguns tempos quebrados que fazem a coisa ficar mais interessante. “Tell Me Lies” é um exemplo interessante disso, a faixa é bem mais dreamy com uma linha de percussão que transita entre uma batida simples e algo mais espacial, uma segunda linha de voz que fica escondida e é realçada por alguns movimentos e as cordas do sintetizador que fazem uma cama interessante pra uma dobradinha entre um teclado simples e uma guitarra com uma pegada quase ska. Essa faixa se torna grande pelo bom posicionamento de todos esses elementos que em nenhum momento se torna maçante mas engrandece as passagens importantes da letra.

“Break It Down” é um dos momentos mais criativos dessa segunda parte, uma faixa que resgata um pouco de uma vibe quase tropical que já apareceu no seus trabalhos anteriores, mas ainda jogando com a percepção das memórias. Uma faixa chill cheia de elementos e compassos diferentes de batidas entre cada trecho da música que são conduzidos perfeitamente pela linha vocal e um pequeno gesto das cordas que funcionam muito bem.

“Lights Go Out” que fecha o álbum infelizmente é o ponto mais fraco, tentando misturar  a vibe mais solares do primeiro momento com as cadências complexas do segundo, a faixa é um híbrido esquisito que não funciona muito bem, apesar de ter uma linha de baixo carregado interessante e uma ótima letra.

Desde 2012  sem material novo, a antiga vocalista do Concretes, Victoria Bergsman está de volta, resgatando elementos das experiências realizadas nos trabalhos anteriores para trazer uma linguagem bem mais coesa, deixando de lado um pouco os experimentalismos dos anteriores pra focar mais na mensagem e em construir atmosferas interessantes em cada faixa, mostrando que todo esse tempo sem lançar um álbum foi bem utilizado no amadurecimento e consolidação de uma estética que a representa com mais clareza e força.

OUÇA: “Once”, “Man Enough” e “Break It Down”.

Plan B – Heaven Before All Hell Breaks Loose


Sem lançar um álbum desde 2012, Ben Drew volta com um álbum que parece um momento de transição pra algo que ainda está por vir. O cantor que se lançou como um rapper de rimas ácidas e agressivas e passou pelo soul sem perder a fúria, reaparece mais calmo e ainda bastante calcado nas vertentes da black music com uma nova estética um tanto quanto indefinida, experimentando com elementos de R&B, EDM e até uns toques de reggae em algumas músicas. Liricamente ele também parece realizar experimentos pra sair da sua zona de conforto ao cantar sobre temas além dos relatos autobiográficos que permearam os álbuns anteriores e inclusive cantando letras de outros compositores, algo inédito até então.

A voz de Ben Drew é cativante e se encaixa muito bem na proposta mais pop desse trabalho, com um bom alcance e melismas bem executados. Tecnicamente, o álbum é muito bem feito com boas linhas instrumentais e bons arranjos, ainda que genéricos em alguns momentos. “Grateful” que abre o disco mostra muito bem a mudança de direção que o cantor busca, a música reflete muito bem o momento da vida dele com toda a alegria e amor de ser pai pela primeira vez e o arranjo e a letra refletem muito bem esse estado de espírito de gratidão. “Stranger” que vem na sequência é um R&B noventista com uma das melhores performances vocais do álbum e com um trabalho de teclado e baixo interessante mas sem muita identidade, soando mais como um cover de Michael Jackson.

Ao longo do álbum, algumas faixas parecem tentativas de emular outros artistas como “Pursuit Of Happiness” que parece algo que o Justin Timberlake faria ou “Queue Jumping” que tem um arranjo muito parecido com as coisas que o Major Lazer faz. “Wait So Long” é uma música dançante com uma guitarra reggae e um quê de soul estruturado de forma parecida com o que o Avicii fazia mas os diversos elementos acabam não funcionando muito bem juntos nessa faixa, sendo uma das mais fracas do trabalho.

“Guess Again” relembra os tempos de rap do cantor com uma boa letra que resgata um pouquinho da agressividade dos trabalhos anteriores ao criticar os esforços dos poderosos em dividir o povo em facções distintas com o intuito de enfraquecê-la. No entanto, o arranjo é bem fraco e traz elementos bem datados do rap do começo dos anos 2000.

Os melhores momentos deste trabalho são a faixa-título e “Flesh & Bone” que estão de certa forma na zona de conforto do artista por trazerem o soul e o rap com os quais ele já está habituado mas que ainda assim parecem bem mais originais e com arranjos bem mais criativos do que o restante do álbum.

Por estar vivendo um momento de transição artística, creio que seja normal não saber pra onde direcionar seus esforços e experimentar em vertentes tão diversas como acontece aqui. O álbum vale ser ouvido pra conhecer como funciona o processo de evolução artística e entender essa transformação na estética sonora do Plan B. Encaro como bastante positivo o fato de Ben Drew estar revendo suas influências e experimentando outras formas de se expressar e, dado o histórico do artista, acredito que ele venha com algo mais coeso no futuro.

OUÇA: “Grateful”, “Heaven Before All Hell Breaks Loose”, “Flesh & Bone” e “Sepia”.

Bishop Briggs – Church Of Scars


Church Of Scars é o primeiro álbum completo da britânica Bishop Briggs. Vindo depois de dois EPs traz no tracklist muitas faixas já conhecidas por quem já acompanhava o trabalho da cantora e esteticamente pouca variação no estilo que adotou pra si.

Estruturalmente, o álbum quase todo segue bastante na linha do R&B mais pop com toques de trap e dubstep em algumas batidas e transições. “Tempt My Trouble” que abre o álbum tem exatamente essa estrutura, é uma faixa super gostosinha e cativante de ouvir, principalmente pelo baixo carregado e o refrão grudento. “River” que vem na sequência tem uma pegada bastante parecida, um pouco mais carregada no dubstep e com uns claphands mas basicamente a mesma coisa. E a fórmula aparece mais algumas vezes durante o álbum dando a impressão de que ela é uma artista de um único truque. São músicas ótimas pra serem ouvidas isoladamente e pra animar qualquer festa, mas no contexto do álbum se tornam repetitivas e previsíveis.

Um problema comum em cantores que tem uma potência e um alcance vocal amplos é que eles costumam ficar sempre over the top nas suas performances. Com Bishop Briggs não é diferente, nas canções mais animadas ela está sempre nas notas mais elevadas, cantando sempre na potência máxima, deixando pouco espaço para o ouvinte absorver toda a sua técnica e a sua mensagem. No entanto, nas canções mais lentas, os arranjos mais simples favorecem a exploração de outros timbres e outras formas de harmonizar, demonstrando o total controle que a cantora tem sobre o quê e como está cantando.

Ainda sobre as canções um pouco mais lentas, embora a estrutura blues-trap-pop ainda apareça, ela é bem menos carregada deixando brecha pra expressão de outras influências como os traços de pop-folk que aparecem em “Dream” ou ainda o gospel um pouco disfarçado em “Lyin’” mas escancarado em “Water”, um dos momentos mais bonitos e impressionantes do disco.

Todas as letras demonstram bastante sinceridade e vulnerabilidade emocional e, mesmo que as estruturas sejam repetitivas elas se encaixam muito bem com a vibe que cada letra pede. Como dito anteriormente, todas as canções isoladas são tecnicamente perfeitas e ótimas como singles, mas talvez por virem sendo trabalhadas desde 2016, algumas estruturas e referências que inicialmente foram inovadoras à época, já foram incorporadas e saturadas por outros artistas e ao aparecerem no álbum, acabam perdendo um pouco da força.

OUÇA: “Tempt My Trouble”, “Lyin’”, “Water” e “Hi-Lo (Hollow)”