Jon Fratelli – Night Bright Flowers


O trabalho de Jon Fratelli, tanto à frente de seu  projeto principal The Fratellis como em seu registro solo anterior, sempre teve uma relação bem forte com o country, usado como base pra subversão e criação de riffs empolgantes e dançantes. Seu segundo trabalho solo  mostra que o escocês também conhece bastante do lado mais sentimental do gênero. Combinando influências de um country mais lento e instrospectivo com toques de ‘american standards’, Night Bright Flowers traz arranjos complexos e delicados que evidenciam Fratelli como um músico experiente e versátil.

O álbum abre com “Serenade In Vain“ que diz logo de cara que estamos diante de um álbum totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha feito antes. A música é uma balada sentimental que faz um ótimo uso do timbre de Jon Fratelli como um instrumento que constrói a melodia em contraponto a levada de percussão e o piano minimalista. Alguns toques de rouquidão em algumas passagens da letra combinadas com as cordas ajudam ainda mais a passar o sentimento que a faixa pede. As guitarras com slide que vão aparecer bastante ao longo do álbum também dão as caras timidamente por aqui com uma produção que faz com que você se sinta num bar com a banda tocando bem perto. É uma faixa pra ser sentida e é impossível não se sentir afetado por ela.

A faixa-título “Bright Night Flowers”  traz na letra algo como uma reflexão sobre como ele, um rockstar que já não é mais nenhum garoto observa os jovens vivendo suas vidas à noite, cometendo seus erros e acreditando que são invencíveis e acaba se dando conta de que já viveu esses dias há muito tempo atrás. O instrumental continua na mesma pegada da abertura mas tem um arranjo menos espetacular, reduzindo o caráter orquestral. As guitarras com slide aqui são bem mais evidentes e se misturam às cordas fazendo uma cama pra um piano bem marcado com o dedilhado e Jon Fratelli aqui começa a exibir sem alcance vocal, saindo dos graves e lançando algumas notas mais agudas com bastante precisão. Em termos vocais “After A While” é a melhor perfomance do músico, variando do grave ao médio-agudo com bastante naturalidade e sendo bem expressivo nas inflexões, instrumentalmente no entanto essa faixa parece uma continuação da anterior e, mesmo com algumas passagens interessantes acaba parecendo longa demais com pouca variação além da voz.

“Evangeline” é talvez o momento em que Jon Fratelli mais se aproxima de seus trabalhos anteriores. A faixa lembra um pouco “Henrietta” do Fratellis por conta da cara de country de salloon e a conversa com uma amada na letra mas sem a afetação dos riffs e o sarcamo da primeira e é uma das faixas mais upbeat do registro.

A segunda metade do álbum não tem nenhuma faixa necessariamente ruim, muito pelo contrário, são tão bem arranjadas e tão bem escritas quanto a primeira não apresentam muita variação em relação ao começo do disco, e nenhuma canção se destaca muito com exceção de “Crazy Lovers Song”, uma balada country tradicional com o melhor trabalho de guitarra com slide do álbum todo e o piano funcionando como baixo de um jeito bem interessante. O final instrumental da música que mescla o folk escocês com o country americano através das linhas de cordas também merece ser apreciado.

Bright Night Flowers não é um álbum super inovador mas soa muito verdadeiro do começo ao fim expressando as reflexões de Jon Fratelli de forma bastante poética com arranjos e performances que revelam uma atenção e cuidado com os detalhes que vale a pena ser escutado.

OUÇA: “Serenade In Vain”, “Bright Night Flowers”, “Evangeline” e “Crazy Lovers Song”

Copeland – Blushing


A sensação geral de Blushing é algo como aquele estado entre o sono e a vigília em que você não consegue dormir à noite sonhando com os bons momentos da vida e recapitulando o que poderia ter dito ou feito para prolongá-los mas é confrontado com a realidade da solidão na madrugada. Essa característica nostálgica se reflete tanto nas letras como nos intrumentais que, embora sejam bastante diversos, revisitam alguns dos melhores momentos do passado do Copeland, desde o sinfônico e o soul do Ixora de 2014 até algumas guitarras mais rasgadas e quebras abruptas dos primeiros trabalhos.

Uma característica que chama atenção logo nos primeiros instantes é como o álbum evoca emoções muito profundas sem apelar para extremos. A cada faixa somos transportados para estados emocionais diferentes e intensos com pequenos movimentos instrumentais. Tudo acontece de uma forma coesa com uma continuidade construída de forma a não se tornar monótona, em que cada canção explora elementos diferentes e tem seu momento de brilho com algum ponto que resume a emoção que ela deveria passar entretando ainda totalmente relacionada com o que acontece nas faixas ao seu redor. Exemplo disso é “Lay Here”, uma faixa que trabalha a estrutura do R&B noventista através da batida e do baixo pra gerar uma melancolia que tem seu ápice com um pequeno movimento de sintetizador gerando uma dissonância com as cordas, a sobreposição de todos esses elementos tem um resultado poderosíssimo combinado com a voz disparando a vibe que a letra pede.

Algo que o Copeland sempre fez muito bem foi misturar elementos de gêneros diferentes de uma forma que não soe alienígena e aqui essa mistura serve pra gerar a tensão que as letras pedem, demonstrando a diferença entre o amor que você imaginou e o que aconteceu de verdade. Em “Night Figures” isso fica claro com os movimentos de soul sinfônico e hip hop envolvem os trechos que remetem à imaginação e uma agressividade controlada das guitarras e a explosão da voz mostram as partes em que o eu-lírico toma noção da sua condição na realidade no final da música.

Blushing é o sexto álbum na discografia do Copeland, o segundo álbum depois do hiato da banda e soa como uma evolução natural da estética adotada em Ixora, reforçando ainda mais o caráter onírico e melódico que começou nessa fase.

OUÇA: “Pope”, “Colorless”, “Lay Here” e “Strange Flower”

HEALTH – VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR


O HEALTH sempre foi uma banda difícil de explicar porque nos seus álbuns costumavam haver elementos de gêneros muito divergentes e um trabalho de construção de dissonâncias e atmosferas pesadas e alienígenas que perturbavam e instigavam os sentidos. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é o quarto álbum do HEALTH, o primeiro trabalho depois da saída do tecladista orignal e co-fundador Jupiter Keyes e vai fundo no peso do metal industrial mas sem a elegância da esquisitice dos registros anteriores.

Em Death Magic, o álbum anterior, o HEALTH conseguiu chegar num ponto de equilíbrio interessante entre o som pesado conceitual cheio de camadas e algo mais pop e acessível. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR traz o peso trabalhado de uma forma diferente, usando quase nada das múltiplas camadas de sintetizadores características de trabalhos anteriores e apostando mais nas distorções de guitarra e percussão pra fazer um proto-metal industrial que acaba soando achatado e repetitivo.

Um elemento que se mantém dos álbuns anteriores é uma certa coesão conceitual e o tema aqui é o medo de viver no mundo da forma como ele está. Nada parecido com as críticas ácidas à publicidade do Death Magic de 2015 ou o caráter introspectivo e sentimental do Get Color de 2009, apenas um niilismo quase infantil na forma em que aceita e apenas relata que está tudo podre e vamos todos morrer mesmo, então pra que se importar? Letras como as de “THE MESSAGE”, “LOSS DELUXE” e “STRANGE DAYS (1999)” tem reduções simplistas de temas complexos como a morte, o medo e o sofrimento e parecem poemas de um adolescente revoltado e não letras de uma banda que, embora nunca fosse reconhecida por esse aspecto, já trouxe passagens líricas muito interessantes no passado.

Sonoramente, é muito difícil saber quando uma música acaba e começa a outra porque os power acordes aqui se repetem à exaustão sem nenhuma progressão ou nuance e a mixagem que carrega o volume pra criar peso artificialmente de uma forma que parece até amadora faz as músicas soarem ainda mais unidimensionais, achatando os instrumentos e a voz numa camada só. Os riffs que aparecem só geram peso de forma solta sem nenhum propósito narrativo e não envolvem o ouvinte, muito menos são lembrados depois que as músicas acabam.

VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é, na melhor das hipóteses, um bom álbum pra bater cabeça se você não se importar com a monotonia das construções das faixas. E se torna decepcionante porque não foi um grande ponto de ruptura ou um experimento que não funcionou. Muito pelo contrário, quase todos os elementos que aparecem  aqui já foram trabalhados de forma muito melhor por eles em álbuns anteriores o que deixa a impressão de que, mesmo tendo levado quatro anos pra sair, ainda assim é um álbum preguiçoso.

OUÇA: “PSYCHONAUT” e “BLACK STATIC”

The Dandy Warhols – Why You So Crazy


Com exceção de um ou outro hit ao longo do caminho, o Dandy Warhols nunca foi um grande sucesso comercial mesmo nos meios mais alternativos da música, mas sempre foi uma banda muito inventiva e eclética brincando e experimentando dentro das vertentes do rock alternativo com resultados muito interessantes ao longo de 10 álbuns de estúdio. Why You So Crazy vai fundo na pegada eletrônica pincelada pelos músicos em Distortland de 2016 mas sem a graça de seu predecessor e traz alguns elementos country sem muito contexto pra algumas canções.

O que mais decepciona em Why You So Crazy  é que ninguém ali parece estar usando sua capacidade total. O vocalista Courtney Taylor-Taylor que em trabalhos anteriores, embora não fosse um vocal super potente, aproveitava a característica de sua voz pra compor as harmonias, aqui fica quase escondido em sussurros e prejudicado pela mixagem que joga seu vocal por baixo do instrumental; Peter Holmstron e Brent DeBoer seguram bem a cozinha mas sem muita energia nem inventividade para dar mais corpo e vida ao som quase mecânico que se desenvolve no álbum; e Zia McCabe que já fez coisas incríveis com seus sintetizadores tanto nas músicas mais pop quanto nas mais viajadas do Dandy Warhols usa uma programação datada e simplista que não empolga muito.

O disco já começa pesando a mão num eletrônico genérico com a introdução “Fred N Ginger” e “Terraform” e a profusão de beats e efeitos especiais faz com que seja difícil entender algum conceito musical por trás delas e mais difícil ainda entender o que está sendo cantado. Ao longo do álbum essa (falta de) estrutura se repete em músicas como “Next Thing I Know”, que tenta criar uma atmosfera espacial mais obscura mas acaba se tornando assustadoramente monótona e “To The Church”, que tenta evocar a fase mais eletrônica de Bowie através de algumas levadas de baixo e violão mas não funciona muito bem por ser um tratamento puramente estético sem muita relação com algum conceito ou as faixas que a circundam. Essas faixas são carregadíssimas de efeitos e um certo experimentalismo que é até interessante em certa medida mas sem nada que realmente cative e faça você sem lembrar delas depois que o álbum acaba.

No lado menos eletrônico do álbum temos algumas coisas mais interessantes mas nada muito brilhante como “Motor City Steel” e “Highlife” que usam uma estrutura country tocada com instrumentos eletrônicos pra tirar sarro dos exageros e clichês característicos do country radiofônico americano e embora sejam sim um pouco repetitivas ainda são faixas divertidas e que expressam bem alguma intenção e não são apenas um amontoado de beats e efeitos dispersos. Perdida no começo do álbum temos “Be Alright” que saiu como primeiro single e pode ser uma terrível propaganda enganosa porque é a faixa que mais se parece com o rock alternativo que o Dandy Warhols já fez ao longo da carreira e é uma ótima música que não tem nenhum outro paralelo nesse registro.

Why You So Crazy chega até nós no ano em que o quarteto de Portland compelta 25 anos de carreira e, embora sonoramente seja bastante diferente de seus predecessores, ainda celebra de forma sutil muitos dos maneirismos de diversos momentos desse quarto de século. De toda forma, apesar de toda a estranheza e a falta de algo que seja realmente brilhante e marcante, podemos dizer que esse registro ainda está dentro do que o Dandy Warhols faz que é experimentar até as últimas consequências com toda a liberdade, não importando o resultado.

OUÇA: “Be Alright”, “Thee Elegant Bum” e “Motor City Steel”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Marissa Nadler – For My Crimes


Depois de sete álbuns, a cantora-compositora que quase sempre apostou no combo clássico voz e violão (e de vez em quando uma guitarra) pra expressar seus sentimentos, chega ao seu oitavo trabalho com um som muito mais espacial,  que reforça a característica onírica de sua voz e ajuda na imersão do ouvinte. Um time feminino de peso a acompanhou no estúdio com nomes como Eva Gardner no baixo, Mary Lattimore na harpa, Janel Leppin nas cordas, Patty Schemel na percussão e backing vocals de Kristin Control, Sharon van Etten e Angel Olsen, enriquecendo o caráter atmosférico de todo o álbum e potencializando a força de cada canção.

Por 14 anos cantando sobre a dor de corações partidos e a perda de relacionamentos falidos, Marissa Nadler atingiu um ponto de sofisticação único em que não precisa mais escancarar totalmente os elementos que compõem as histórias das personagens de suas canções mas pode apenas sugerir pequenos detalhes dessas narrativas e deixar a cabo do ouvinte completar com seus próprios sentimentos o que falta. Essa abordagem impressionista aparece em todos os componentes do álbum, desde a capa pintada pela própria artista com poucas pinceladas fortes que sugerem uma paisagem obscura e continua até os arranjos com a inserção sutil das linhas de cada instrumento pra contar cada uma de suas crônicas musicadas.

Além de todas as faixas contarem um pedaço de história em sua letra, o que chama a atenção é como Marissa parte de coisas muito específicas pra fazer canções com que todos possam se identificar.  Faixas como “I Can’t Listen to Gene Clark Anymore” que conta a dor de ouvir sozinha o artista favorito do casal e “All Out Of Catastrophes” que fala sobre a raiva que é ser chamada pelo nome de outra mulher na cama, partem de detalhes muito pessoais pra falar de situações que todos podem entender com um pouco de sensibilidade.

A estética sonora do álbum como um todo é bastante melódica e sombria, utilizando dos fraseados característicos do folk e do country como forma de amarrar todo o trabalho dentro do mesmo mood. À  primeira vista pode parecer um pouco previsível o uso de dedilhados de violão por quase todo o álbum mas os arranjos compensam  ao colocar as cordas e harpas nos momentos certos, trazendo o ouvinte de volta pra perto quando ele começa a se perder na fantasmagoria da voz e do violão. Além disso, os backing vocals ajudam a passar o sentimento que cada letra pede, “For My Crimes” que abre o álbum é um exemplo perfeito disso, com uma linha de violão constante mas que ganha força com um baixo sutil, além dos backing vocals e o complemento das cordas que acentuam as frases mais dramáticas da canção. A onipresença do violão é quebrada em poucos momentos como em “Blue Vapor” que traz uma guitarra principal mais carregada e a bateria mais potente do disco inteiro mas sem perder o caráter mais melancólico e lento das faixas que a circundam.

Como cantar por mais de uma década variações sobre um mesmo tema dentro do mesmo estilo musical e ainda assim ter sempre algo de novo para mostrar? Marissa Nadler parece encontrar a resposta para esse questionamento no refinamento dos detalhes. Uma vez que a estética e a temática já estão definidas de antemão, a artista pode encontrar a excelência dando atenção aos pequenos movimentos sonoros e focando sua lente nas particularidades ao invés de buscar as grandes cenas.

OUÇA: “Blue Vapor” e “You’re Only Harmless When You Sleep”

Liars – Titles With The Word Fountain


O lançamento de TFCF em 2017 marcou a transformação do grupo nova-iorquino de rock alternativo em um projeto solo conceitual e experimental de Angus Andrew, tendo como resultado um dos álbuns mais diferentes até então, trazendo com muito mais força a expressão calcada na excentricidade de Angus. Titles With The Word Fountain foi gravado nas mesmas sessões de estúdio que originaram seu predecessor e traz faixas um pouco mais soltas e alguns experimentos lúdicos ainda que envoltos na mesma atmosfera de sentimentos pesados de TFCF.

As sensações gerais que ficam depois de algumas passadas pelo álbum são de incompletude e pressa. Com poucas faixas passando dos dois minutos de duração, é difícil desenvolver algum raciocínio musical mais complexo e completo e, mesmo que  boas ideias estejam ali, parece que uma pressa de fazer a próxima música impediu ótimas ideias de serem mais trabalhadas. Temos um exemplo disso logo na segunda faixa “Face In Ski Mask Bodies To The Wind” que traz uma ideia interessantíssima de percussão num compasso pouco usual fazendo um ritmo constante, combinado com uma mistura de sintetizador e vocoder mas que é logo interrompida pra dar lugar a um synth carregado, anunciando uma boa ideia que nunca se completa. A pressa em testar uma ideia fica ainda mais evidente porque na faixa seguinte, “Murdrum”, o mesmo conceito de arranjo é feito de uma forma muito melhor, aproveitando essa ideia pra construir momentos de tensão que realmente são recompensados dentro da faixa e essa é uma constante em todo o álbum, revelando que com um pouco mais de tempo, o resultado final poderia ter sido muito mais impactante.

A ordem das faixas também é algo estranho e que parece não ter sido muito bem pensado, além da já citada repetição de arranjos em faixas subsequentes, o mood geral nunca fica muito bem definido, mesclando de forma aleatória faixas muito sombrias com outras muito lúdicas. O melhor exemplo disso é o instrumental sinistro “P/A\M” que é seguido pela quase divertida “Fantail Creeps” que brinca com um fraseado instrumental da típica música de estádios de beisebol. Mesmo com faixas curtíssimas, é absurdamente cansativo chegar até o final do álbum porque quando você está quase imerso em alguma vibe, ela é logo cortada e você é transportado pra outro estado mental nada a ver, dificultando o engajamento de prosseguir com a audição e fazendo ser mais difícil ainda querer voltar pro começo e passar por tudo isso de novo.

É difícil descartar a ideia de que Titles With The Word Fountain é apenas um compilado das sobras do processo criativo que originou TFCF, ainda mais sabendo que ambos os álbuns foram feitos na mesma época. Quase todas as faixas de Titles With The World Fountain tem um paralelo muito mais bem feito em seu predecessor e, embora a performance e arranjos de Angus Andrew sejam interessantes o suficiente pra prender a atenção por alguns instantes, a impressão que fica é de que todas as faixas desse trabalho mais recente são na verdade os rascunhos do anterior. Na melhor das hipóteses, esse álbum serve como uma “ versão do diretor” do primeiro trabalho totalmente solo de Angus Andrew à frente do Liars, apresentando pros fãs mais engajados um pequeno vislumbre se seu processo criativo.

OUÇA: “Murdrum”, “Past Future Split”, “Fantail Creeps” e “Perky Cut”.

JEFF the Brotherhood – Magick Songs


Em dezessete anos de banda, os irmãos Jake e Jamin Orrall nunca fizeram dois álbuns iguais mas uma coisa sempre se manteve constante: a presença de riffs marcantes costumava ser algo que definia o som deles. Em Magick Songs, somos apresentados a uma faceta totalmente diferente da banda, com o desaparecimento quase completo dos riffs poderosos e um trabalho muito mais focado na criação de atmosferas espaciais e de certa forma até místicas.

Uma coisa que se nota logo de cara é que, enquanto os trabalhos anteriores eram bastante claros e diretos tanto na estética instrumental quanto nas letras, Magick Songs soa muito mais enigmático e disperso. Essa diferença se reflete inclusive no processo de produção da banda, que costumava gravar todas as faixas de seus álbuns em poucos dias, mas pra esse último álbum levou em torno de cinco meses juntando pedaços de jam sessions diversas que rolaram entre eles em faixas que parecem mais colagens de experiências do que canções que se esperariam de uma típica banda de rock.

A letra curtíssima da faixa de abertura “Focus On The Magick” ao dizer que “only you can hear the sound” parece deixar claro que esse álbum é uma coisa feita pra olhar pra dentro de si mesmo e buscar entender a imensidão do universo que te cerca. O instrumental é trabalhado com uma melodia que cresce suavemente gerando expectativa pra um clímax que nunca vem pra depois cair abruptamente reforça esa característica cósmica que vai se repetir assumindo outras formas ao longo do registro. “Camel Swallowed Whole” aproveita o último acorde da primeira música e quebra brevemente o clima de viagem instrumental com uma estrutura 4/4 simples e verso-refrão bem definidos, o destaque aqui está pra fusão interessante entre duas linhas de guitarra muito diferentes entre si que acompanham uma linha de flauta doce que conduz a música inteira e some do nada nos momentos finais.

O clima místico é retomado em “Singing Garden” que utiliza uma estética e estrutura da música tradicional japonesa pra montar uma ponte pra “Parachute”, uma canção construída a partir de tempos quebrados com diversas camadas que traduz em seu instrumental e na letra o sentimento dúbio entre a liberdade e a melancolia de ser um viajante pelo céu. Essa dubiedade é expressa pela relação entre as linhas de guitarra e baixo mais downtempo enquanto a flauta, teclado e bateria levam ao mesmo tempo uma carga mais alegre.

“Celebration” e “Locator” trazem uma pegada mais espiritual usando percussões levemente inspiradas em batidas africanas e sintetizadores e sopros com uma pegada árabe pra passar essa mensagem. “Wasted Lands” segue na mesma vibe mas a levada de baixo e bateria parece bem preguiçosa e amarra de forma bem frouxa os elementos tão diversos que constroem a faixa, parecendo mais um improviso em cima de uma mesma base sem muita relação com o que vem antes ou depois. “Relish” que vem na sequência embora com pouquíssimos elementos passa muito mais uma mensagem de desprendimento da realidade e parece que o álbum poderia ter acabado aqui mesmo de uma forma muito mais consistente e interessante mas não é isso o que acontece.

De “The Mother” até “Farewell To The Sun”, o que vemos é o JEFF The Brotherhood que já conhecíamos de álbuns anteriores, trazendo riffs como condutores e bastante peso, com a diferença de usar estruturas inspiradas no post-punk e no industrial mais pesado dos alemães dos anos 80. São músicas muito bem construídas mas essa sequência final parece simplesmente um aproveitamento de sobras de álbuns anteriores e são totalmente desconectadas do que veio antes. As letras enigmáticas continuam ali mas me pergunto qual a necessidade de trazer a sua forma habitual de fazer música num último momento se desde o começo desse álbum eles vinham em um esforço de desconstruir expectativas e marcar um novo momento pra banda.

De forma geral, em seu décimo terceiro álbum, os irmãos de Nashville parecem que pararam de procurar o riff perfeito e passaram a buscar alguma outra coisa. Mas o que eles buscam? Ainda é difícil saber.

OUÇA: “Focus On The Magick”, “Parachute” e “Relish”

Oh Sees – Smote Reverser


Explicar o som do Oh Sees é quase tão difícil quanto saber o nome atual da banda. O projeto iniciado por John Dwyer em 1997 já foi chamado The Oh Sees, OCS, Orinoka Crash Suite, Orange County Sound, Thee Oh Sees e assina o último registro simplesmente como Oh Sees, identidade adotada no álbum Orc de 2017. Smote Reverser mantém a pegada que começou com Orc, flertando com o metal e o rock progressivo setentista, tanto na forma dos arranjos como nas letras, sem deixar muito claro se é uma homenagem ou pura zoeira com os épicos sobre castelos, florestas e monstros dos primórdios do prog.

O disco abre com Sentient Oona, um garage rock simples com pitadas da psicodelia lo-fi característica dos trabalhos anteriores pra agradar o fã de longa data e introduzir quem está chegando pela primeira vez sem assustar muito. Outra característica que os fãs mais antigos vão notar logo nessa primeira faixa são alguns backing vocals e as linhas de teclado inconfundíveis de Brigid Dawson que já esteve em formações anteriores da banda. As linhas de bateria cavalgada, uma leve quebra de compasso antes do refrão instrumental e os solos de synth anunciam de forma contida o progressivo que ainda está por vir. “Enrique El Cobrador” é a primeira incursão progressiva desse disco com sua estrutura claramente baseada no prog setentista com a guitarra e o baixo servindo de cama pra um som conduzido por sintetizadores e muitos pratos, além da letra que anuncia uma batalha épica e violenta. C continua na mesma pegada medievalesca na letra mas é bem mais puxada pra um jazz fusion que reflete o processo criativo da banda tocando junto pra se divertir sem muita preocupação com o resultado. A alternância entre a guitarra e o teclado como focos do instrumental tanto nos versos como nos solos gera uma dinâmica interessantíssima pra faixa.

Overthrown” é o momento mais pesado do disco é quase metal na forma como a percussão e o baixo acontecem mas a forma como o solo de guitarra é conduzido é meio deslocado dessa estética metal e é bem mais parecido com o típico rock psicodélico que John Dwyer está acostumado a fazer. O vocal embora gritado também não combina muito bem com a música no geral, ficando abafado pelas baterias rápidas e se tornando incompreensível na maior parte da duração.

O álbum como um todo tem uma atmosfera bem enérgica e, mesmo nas canções mais lentas, deixa pouco espaço para o vazio, o que se deve em grande parte ao duo de bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone que trabalham freneticamente preenchendo os vazios e pausas um do outro. O trabalho de percussão acontece de uma forma tão bem arranjada que não cansa o ouvinte, mesmo jogando novas informações de ritmo literalmente o tempo todo. Bons exemplos disso são a “bluesística” “Moon Bog” em que as baterias acompanham o fraseado do baixo e da guitarra como se fossem parte integrante da melodia tanto nas estrofes quanto nos refrões instrumentais e a totalmente rítmica “Anthemic Agressor” que vem na sequência, um grande instrumental de doze minutos em que todos os outros músicos se permitem viajar e solar sem muitos limites quase que num fluxo de consciência mas a percussão se mantém constante, dando o ritmo virtuosa e consistentemente mas sem exigir atenção exclusiva pra si.

A segunda metade do álbum tem dois momentos interessantes com “Abysmal Urn” e “Nail House Needle Boys” fazendo um momento mais agressivo e simples estruturalmente enquanto “Flies Bump Against The Glass” e “Beat Quest” finalizam com uma pegada mais leve e viajada dando lugar a um som mais espacial que brinca com as referências instrumentais medievais do prog rock nos últimos minutos da faixa final.

Com exceção de uma leve semelhança temática entre algumas músicas e alguns timbres e frases característicos da guitarra de Dwyer, não tem nada que amarre muito as faixas de Smote Reverser entre si, o que não significa que o álbum soa incoerente. Cada música é muito bem construída dentro de seu próprio universo temático e juntas funcionam bem na ordem em que aparecem. O que fica de mensagem do álbum (mesmo que o líder tenha dito expressamente que não há um grande conceito ou mensagem por trás dele) é que eles se sentem confortáveis pra se divertir e entreter tocando e falando sobre qualquer coisa.

OUÇA: “Enrique El Cobrador”, “Moon Bog” e “Beat Quest”.

Laurel Halo – Raw Silk Uncut Wood


Pra quem já ouviu algum dos trabalhos anteriores de Laurel Halo, Raw Silk Uncut Wood pode parecer algo totalmente diferente e uma quebra com a linguagem diversificada recheada de componentes melódicos e rítmicos que ela tinha adotado até então. No entanto, uma audição cuidadosa revela que muitos dos elementos deste álbum já estavam presentes em menor proporção em registros anteriores e Raw Silk Uncut Wood é apenas a explicitação desse processo.

A primeira coisa que chama atenção numa primeira passada pelo álbum é a ausência da voz de Laurel ou qualquer outra ali. Num movimento conceitual, a artista retira a fala para favorecer as sensações causadas pelo instrumental e por ele somente. Outro elemento que some nesse trabalho é o eletrônico mais carregado que marcava presença nos álbuns anteriores. As baterias eletrônicas desaparecem e sintetizadores ainda são usados mas de uma forma muito mais contida, passando uma aura mais orgânica para o trabalho como um todo.

A faixa-título que abre o álbum é uma das melhores manifestações dessa característica orgânica e sensorial. Ao longo de seus dez minutos de duração somos transportados para um outro estado mental, uma espécie de transe através de suas longas sequências de cordas que constroem a cama para pequenas variações que nos trazem de volta pra realidade por alguns momentos e então nos levam de volta para outro plano. Toques graves de um baixo quase escondido e um órgão sintetizado nas notas mais agudas ressoam ao fundo, flutuando dentro da estrutura e fazendo o ouvinte flutuar junto.

O fim em reverb da primeira faixa faz uma boa transição para “Mercury”, que traz elementos de jazz através de uma cadência simples de piano e uma percussão acelerada e indefnida. Assim como no jazz, somos surpreendidos mas não atavés do virtuosismo de algum dos instrumentistas e sim pela quebra do compasso e a inserção de dissonâncias e flutuações às vezes escondidas atrás da percussão e em outras mais evidentes, silenciando o piano.

A vibe mais dedilhada continua nas duas canções seguintes “Quietude” e “The Sick Mind”, a primeira com uma cadência de xilofone contínua que ao mesmo tempo que marca a melodia, também gera um caráter percursivo e a última com um piano também repetindo uma cadência constante, acentuado por uma textura de sintetizador e baixo acústico que constroem uma atmosfera quase subaquática em alguns momentos.

“Supine” é um rápido lampejo do eletrônico mais carregado de trabalhos anteriores com pouco mais de um minuto e parece totalmente deslocada do restante do trabalho, um corpo estranho que não condiz com a atmosfera criada até aqui.

O álbum encerra com uma “Nahbarkeit” que resgata o caráter orgânico do início do álbum com uma belíssima linha de violoncelo e uma percussão com um toque tribal bem ao fundo. A faixa cresce em alguns momentos tanto em volume quanto em complexidade através da inclusão de pratos e algumas linhas espaciais de synth. A faixa traz uma complexidade difícil de apreender ouvindo apenas uma vez embora tenha pouquíssimos elementos que a constituem. É o momento mais melódico do disco, com quase nenhuma dissonância e um trajeto que evoca nascimento, ascenção, dispersão e luto que continuam ecoando mesmo depois que o álbum acaba.

Utilizando poucos recursos nos momentos certos, Laurel Halo potencializa o caráter sensorial de sua obra. Raw Silk Uncut Wood marca um momento de simplificação na sua linguagem experimental. Despindo o seu som de tudo que poderia ser supérfluo, a artista chega a um estágio de sofisticação elevado construído ao longo de anos de investigação musical.

OUÇA: “Raw Silk Uncut Wood”, “Mercury” e “Nahbarkeit”.