Lindstrøm – On A Clear Day I Can See You Forever



On A Clear Day I Can See You Forever é um registro que leva a experimentação de Hans-Peter Lindstrøm a um lugar diferente do que ele havia explorado nos seus trabalhos anteriores. O caráter dançante é abandonado em função de uma experiência espacial e sensorial de introspecção que reflete muito bem o momento sombrio e conturbado que o mundo vive.

O primeiro rascunho do que viria a ser On A Clear Day I Can See You Forever vem de uma performance realizada por Lindstrøm no Centro de Arte Henie Onstad e você consegue sentir bem o caráter solene e experimental que um local de arte pede na primeira faixa. Os acordes iniciais mais agudos chamam a atenção de quem está passando ou quem chega no álbum mas logo nos primeiros segundos as notas são distorcidas em modulações mais graves para realmente levar o ouvinte a um estado contemplativo.

Outro elemento importante na produção do trabalho é a característica física do som. Lindstrøm optou por não usar computadores e usar apenas drum machines e sintetizadores analógicos históricos como os primeiros modelos da Roland, da Korg e da Wurlitzer, além de um Memorymoog que tem o papel de destaque, sendo explorado até as últimas consequências com todas as suas limitações que acabam gerando uma performance física mesmo que pode ser sentida em intervalos breves de silêncio para que o músico precise se recompor das teclas e pedais pesados e mudar o timbre entre uma frase instrumental e outra.

O álbum perde a força quando vai mais fundo nas drum machines que acabam por tirar o ouvinte da imersão de um som mais orgânico com as sequências em loop das máquinas que, na sua constância mecânica, soam mais artificiais. A segunda faixa “Really Deep Show” acaba sendo menos afetada por esse elemento por ter mais camadas sonoras que preenchem os ouvidos com mais intensidade mas “As If No One Is Here” que fecha o registro e é quase toda conduzida por uma drum machine acaba se tornando quase insuportável no meio de seus quase nove minutos de duração.

On A Clear Day I Can See You Forever é uma experiência artística que, ao te tirar da realidade e te colocar num espaço amplo e cheio de camadas, deixa o vazio para que você complete mentalmente e reflita sobre a realidade que abandonou com mais clareza.

OUÇA: “On A Clear Day I Can See You Forever” e “Really Deep Show”

The Lumineers – III



III é um álbum conceitual que explora como o alcoolismo e o vício em drogas impactou três gerações da ficcional família Sparks e toma como inspiração a experiência do baterista Jeremiah Fraites que perdeu o irmão, amigo de infância do vocalista Wesley Schultz, para o alcoolismo. O álbum se divide em três atos, cada um focado em um membro da família Sparks, e foi concebido junto a um curta metragem que ajuda a contar a história, mas as músicas são igualmente impactantes sem o auxílio do recurso visual.

“Gloria” é o ponto de partida para a história e é apresentada no  capítulo I. A linha de piano similar a uma caixa de música na abertura “Donna” ajuda a passar o tom de recordação que a faixa pede apresentando a mãe de Gloria Sparks e a falta de amor que a levou a abandonar a casa para uma vida na cidade. “Life In The City” conta a dificuldade de viver sozinha na cidade e o instrumental que oscila entre algo mais animado nos versos e mais introspectivo no refrão ajuda a passar a flutuação de sentimentos entre a liberdade e a saudade de casa e entre o barato do álcool e a ressaca que vem depois. O primeiro ato fecha com “Gloria” onde a matriarca é confrontada pelos seus filhos sobre seu vício e como isso os afetou. O contraste entre uma construção musical que lembra bastante o folk alegre dos primeiros trabalhos do Lumineers com a letra pesada passa bem a total alienação de Gloria que, completamente alcoolizada e perdida, não presta atenção ao conteúdo do que lhe é dito.

O segundo ato traz o neto de Gloria, Junior Sparks, para a cena e abre com “It Wasn’t Easy To Be Happy For You”, uma música sobre a primeira vez que um adolescente tem seu coração partido e é o único momento em que o conceito do álbum falha em função de uma música legal. É uma ótima música, muito amigável pra tocar em rádios e playlists mas não se conecta bem com o que vem antes ou depois tematicamente. Mais adiante no arco de Junior, vemos como ver a vó perdida em seu vício o afeta profundamente em “Leader Of The Landslide” que narra como ele enxerga Gloria como a causa da dificuldade de relacionamento que ele tem com as pessoas a sua volta e seu pai, Jimmy Sparks, que será apresentado no último arco. A música é construída de tal forma que as partes mais pra cima com a bateria e o violão soam como um pedido de ajuda do rapaz, como se ele estivesse reunindo as últimas forças para expressar sua raiva e a performance vocal de Schultz passa esse desespero perfeitamente. O arco fecha com “Left For The Denver” uma música voz e violão com acordes menores e uma batida descendente que dá o tom trágico de ser abandonado pela mãe que não aguenta conviver com os conflitos dos Sparks nesse ponto da história

Jimmy Sparks é o foco do capítulo III e conhecemos sua história logo depois de ser deixado pela esposa em “My Cell” que narra os conflitos de amar uma pessoa mas ser tão quebrado a ponto de não deixar que ela se aproxime. As linhas de piano e violão que se combinam com a voz expansiva e melancólica de Schultz trazem instrumentalmente esses sentimentos conflitantes de querer um lar de amor mas acabar condenado a se sentir em uma cela. “Jimmy Sparks” prepara o ouvinte para o final de uma forma épica com uma vibe de trilha sonora de faroeste que vai ficando cada vez mais tensa conforme vemos a vida de Jimmy indo mais e mais para o fundo do poço com seus problemas e vícios em drogas até o ponto de ser abandonado por seu filho Junior e ficar totalmente sem esperança. O arco e o álbum fecha com “Salt And The Sea” que narra como algumas coisas não tem solução e algumas pessoas não tem salvação. O tom soturno do instrumental combinado a uma certa calma na performance vocal passa a ideia de que todos os membros da família Sparks aceitaram conviver com a destruição e a escuridão que existe dentro deles, uma aceitação do inevitável para que possam continuar a viver.

Com III o grupo leva a característica narrativa de suas músicas a um nível mais sombrio e pessoal, explorando e amarrando os diferentes sentimentos que uma história pesada como essa envolve. É o álbum mais ambicioso e obscuro do grupo e vale a pena ser ouvido do início até o fim com bastante atenção aos detalhes que ajudam a contar essa história.

OUÇA: “Life In The City”, “Leader Of The Landslide”, “My Cell” e “Salt And The Sea”

Caravan Palace – Chronologic



Sem lançar material novo desde 2015, os franceses do Caravan Palace retornam com a produção impecável de sempre e com uma abordagem mais pop pro seu som sem deixar de lado a aura do eletro swing com toques de jazz burlesco que consagrou o grupo.

“Miracle” abre o disco e ainda carrega bastante dos trabalhos anteriores com as linhas de metais proeminentes e a levada rítmica dançante  bastante influenciada pelo ragtime. O baixo mais carregado e a batida mostram levemente a direção que o álbum vai tomar em seguida mas ainda é uma faixa que vai agradar os fãs mais antigos. “About You” que vem na sequência traz a participação de Charles X fazendo uma linha vocal bem soul e funciona bem com o baixo sintetizado que conduz um beat numa levada hip hop. Os breaks melódicos ajudam a dar um respiro numa faixa que é bem carregada de batidas.

Uma diferença bastante notável desse trabalho para os anteriores além das construções das músicas está nas letras. Enquanto nos álbuns anteriores as letras eram mais divertidas e brincavam com o nonsense, aqui temos uma vibe bem mais nostálgica e reflexiva que se reflete mesmo em músicas animadas como “Moonshine” que é bem dançante mas carrega nas cordas e linhas de sopro uma certa tristeza que é acentuada pela textura de gravação antiga que permeia a faixa. “Melancolia” que vem na sequência continua na mesma pegada com uma construção baseada num rap lento e a linha de piano de cabaré e os backing vocals ajudam a trazer essa melancolia do título.

A produção mais pop aparece com força em “Plume” um EDM bem padrão que, se não fosse pelas linhas de sopro características do Caravan Palace e um toque de reggaetown, não teria muita identidade mas funciona bem fechando a primeira parte do registro.

A segunda metade do álbum é introduzida por “Fargo”, uma brincadeira instrumental de pouco mais de um minuto que emula uma vinheta de jazz dos anos 20 e dá a deixa para “Waterguns” que é um dos pontos altos do disco com a participação de Tom Bailey encaixando um crooning dentro de um EDM mais lento que funciona bem com o coro formado pelos integrantes do Caravan Palace e a batida que é levada com hi-hats e clap hands.

“Leena” e “Supersonics” são boas faixas mas a produção deixa o instrumental alto demais ofuscando duas das melhores performances vocais de Zoé Colotis tanto numa faixa mais lenta como a primeira quanto numa que seria ótima para cantar ao vivo em estádio como a última.

O disco fecha lindamente com “April” numa faixa que carrega tanto tristeza quanto esperança com seus versos lentos e seu refrão instrumental conduzido por metais e seu fim que desaparece aos poucos deixando saudade em quem ouve. 

Depois de se consagrarem como uma das bandas mais relevantes do eletro swing nos registros anteriores, Chronologic expande os horizontes do Caravan Palace trazendo outras influências ao seu som característico e pecando pelo excesso em alguns momentos. No entanto, o resultado final é bem coeso e mostra que o grupo consegue se sair bem explorando elementos diversos e abrindo seu som para um público mais amplo.

OUÇA: “About You”, “Moonshine”, “Waterguns” e “April”

Slaughter Beach, Dog – Safe And Also No Fear



Uma característica marcante do trabalho de Jake Ewald como Slaughter Beach, Dog é a criação de histórias de pessoas quase sempre quebradas e sua relação com o mundo mas, por se tratar de um projeto solo nos primeiros registros, essa diversidadede vivências não se refletia tão bem no instrumental. Para o terceiro álbum do Slaughter Beach, Dog Ewald trouxe como baixista Ian Farmer, seu antigo companheiro de Modern Baseball, Nick Harris do All Dogs e Zack Robbins do Superheaven e o resultado de contar com músicos diferentes no processo de criação foi um álbum em que o aspecto narrativo que o projeto pede soa mais real por ter recebido inputs musicais de outras fontes além do compositor.

Por tratar de histórias de personagens diferentes, cada música é um universo em si próprio e varia de construções mais clássicas e AOR até pitadas de post-punk, mas a cadência folk quase falada dos vocais de Jake Ewald dá coesão ao trabalho.

“One Down” que abre o álbum é um folk rock sentimental sobre viver uma rotina pacata e fazer tudo o que se espera de um adulto funcional e mesmo assim ficar ansioso ao ponto de se encolher no chão de casa. Essa faixa vai crescendo em potência instrumental até quase chegar a uma solução e para, deixando as questões inacabadas como acontece com frequência com problemas da vida real.

“Good Ones” que vem na sequência ameniza através de uma construção de rock alternativo suave uma letra pesadíssima sobre observar alguém destruindo a própria vida no vício. A linha de guitarra e a cadência de baixo e bateria se tornam mais empolgantes à medida que acompanhamos a história dessa pessoa que vai mais e mais fundo no vício como uma forma de esquecer o sofrimento. O ápice disso é o lampejo de um solo de guitarra que começa a se formar mas nunca chega a tomar força conforme você ouve os últimos versos cantando sobre o fim dessa pessoa na sarjeta tendo suas feridas lambidas por um cão.

Perto do fim da primeira parte do álbum, “Black Oak” experimenta com a narrativa ao trazer dois pontos de vista sobre a mesma história. Na primeira metade da música conhecemos um homem que, depois de beber, pega seu carro e enquanto dirige lembra dos poemas que sua amada escreveu para ele num carvalho escuro. Na segunda parte descobrimos quem é a mulher pois enquanto ela trabalhava num café, ela recebe a notícia de que o homem foi encontrado morto depois de bater em um carvalho escuro. Toda a música tem uma cara de country de rádio americano, daquele tipo que se sintoniza no meio da noite na estrada e ajuda a compor a atmosfera durante os quase sete minutos em que ficamos imersos na história.

As primeiras músicas da segunda metade do álbum tem os instrumentais mais pra cima do registro mas sem perder o caráter instrospectivo e reflexivo. Mesmo nas canções mais simples como na canção de amor indie noventista “Tangerine” há lugar para a melancolia com a guitarra que puxa o mood pra baixo quando o refrão está a ponto de explodir antes do solo de guitarra. “Heart Attack” continua na mesma pegada com um instrumental super feliz bem Beatles em começo de carreira pra falar sobre um cara que está tendo um ataque cardíaco depois de alguns dias difíceis.

Safe And Also No Fear usa histórias cotidianas e bastante comuns para observar como reagimos frente a momentos de desesperança desde coisas pequenas como procurar um cigarro no bolso e não encontrar até perder alguém amado de forma trágica. Todos os personagens estão tentando fazer seu melhor para sobreviver e serem pessoas melhores e ainda assim falham, fazendo com que o ouvinte se veja um pouco em cada história. A beleza do álbum está em suavizar a nossa identificação com momentos de sofrimento e falha através de melodias felizes e construções rítmicas nostálgicas que dizem pra gente que não há nada de errado em se sentir mal de vez em quando.

OUÇA: “One Down”, “Black Oak”, “Good Ones” e “Anything”

Meg Mac – Hope



Depois de um primeiro álbum que parecia ficar dividido entre querer ser intimista ou fácil de ouvir, Meg Mac volta em Hope conseguindo algo muito difícil de realizar que é unir duas vontades aparentemente conflitantes em uma única coisa muito bem feita. O álbum traz bastante vulnerabilidade sentimental ao mesmo tempo que é cativante e atraente para um público amplo.

Hope traz o melhor da voz de Meg com sua potência e expressividade e sentimos isso logo de cara com “Give Me My Name Back” uma canção que fala de auto-afirmação e identidade em tempos difíceis. A música é um R&B moderno em que a cantora traz desde a faceta mais suave até as grandes frases de fôlego e melismas característicos do gênero muito bem executados para passar a vibe que a música pede. “Sometrhing Tells Me” vem na sequência e não é uma faixa ruim mas parece reminiscente da parte mais fraca do primeiro álbum da cantora com pouca variação no canto, um piano super melódico cheio de sétimas e uma bateria simples, a música acaba obscurecida pelo que veio antes e o que vem depois no álbum.

A faixa-título é um movimento interessante porque, apesar da letra sobre acreditar num amanhã melhor, o instrumental não é super pra cima e aqui que a gente pode perceber a inventividade da artista ao cantar sobre esperança em momentos sombrios usando um instrumental mais downtempo que vai crescendo com uma voz que ganha força aos poucos, representando a vontade de sobreviver e persistir mesmo quando o ambiente em volta parece querer te derrubar.

“If You Wanted Me To Stay” é puro show off vocal no melhor sentido da coisa e lembra os momentos mais soul do primeiro álbum. É uma faixa feita com poucos elementos e bastante calcada em instrumentos orgânicos para fazer a voz de Meg Mac brilhar e conduzir a música inteira quase que sozinha e passar toda a carga de sentimento que a letra pede.

O restante do álbum traz diversas facetas da esperança e da força seja ao se libertar de um relacionamento que não serve mais, ao buscar o sucesso ou apenas sobreviver à escuridão do mundo. Hope fecha com “Before Trouble” que mostra a inventividade de Meg Mac ao usar a voz sempre num registro mais alto e experimenta bastante conduzindo a melodia em compassos pouco usuais numa faixa empolgante que faz com que você queira ouvir de novo.

Hope é tudo o que um álbum pop em 2019 deve ser: conciso, fácil de escutar, criativo dentro do que se propõe a fazer e sincero o suficiente para tocar a empatia do ouvinte.

OUÇA: “Give Me My Name Back”, “Hope”, “I’m Not Coming Back” e “Before Trouble”

Yeasayer – Erotic Reruns



Em seu quinto álbum, o Yeasayer vai fundo no repertório mais pop que apareceu timidamente ao longo dos anos e traz um álbum sem nenhuma das esquisitices e experimentações de seus antecessores com a intenção de falar de forma bem humorada sobre relacionamentos, sexo e cultura mas acaba soando infantil nas letras e repetitivo nos instrumentais.

Abraçar elementos pop não é novidade pro Yeasayer, o trio nova iorquino já havia dado pitadas de um som mais comercial em outros trabalhos mas  sempre mantendo uma pegada mais experimental e psicodélica no corpo dos registros. Em Erotic Reruns eles abandonam o experimentalismo e trazem um som mais fácil de digerir que, embora tenha algumas passagens interessantes, não cativa muito por ser repetitivo e maçante mesmo com faixas bem curtas.

“People I Loved” que abre o disco tem uma levada legal de baixo durante a música toda e alguns breaks que quase empolgam mas a dobradinha do riff com o falsete do vocal se tornam irritantes depois do primeiro break e os “na na na” que quebram uma letra que traz um questionamento sobre ser duro demais com quem se ama parecem deslocados e esvaziam uma letra e um instrumental que tinham bastante potencial.

“Ecstactic Baby” que vem na sequência sofre do mesmo problema. Conduzida por uma linha melódica de sintetizador intessante que em outro álbum do Yeasayer teria sido desenvolvida em algo mais complexo e rico musicalmente mas aqui repete os mesmos acordes até o fim com um refrão que parece ter sido pensado pra tocar em peça publicitária jovem.

A segunda metade do álbum é mais rica instrumentalmente com músicas como “Let Me Listen On You” que trabalha muito bem uma levada instrumental do pop rock setentista com um arranjo eletropop cheio de sintetizadores dissonantes e detalhes realmente instigantes que fazem o ouvinte se envolver do começo ao fim da faixa.

“Ohm Death” tem mais cara do pop atual que a banda demonstrou querer fazer no começo do disco mas trabalhada de uma forma bem mais rica com um som que preenche em várias camadas, amarrado por um baixo potente e sensual combinado a linhas de teclado que dão um ar bem urbano pra faixa.

Erotic Reruns como um todo é bem conciso e bem amarrado, o álbum tem quase trinta minutos e as faixas funcionam bem juntas mas quando você presta atenção a cada uma individualmente  parece que sempre falta algo pra elas impactarem o ouvinte mesmo com um ou outro elemento bem colocado.

OUÇA: “Let Me Listen On You”, “Ohm Death” e “Fluttering In The Floodlights”

Honeyblood – In Plain Sight



In Plain Sight é o primeiro disco do Honeyblood como um projeto solo de Stina Tweeddale depois da saída da baterista Cat Myers e expande bastante o horizonte sonoro do Honeyblood em diversas direções de uma forma que gera alguns momentos isolados interessantes mas que nem sempre funcionam em conjunto. A produção de John Congleton (St. Vincent, Angel Olsen, Priests) mostra potencialidades desconhecidas e interessantes de Stina mas às vezes fica pesada demais e tira a força de algumas faixas.

“She’s A Nightmare” abre o álbum com bastante força e já aí percebemos uma faceta diferente do Honeyblood com um som bem mais polido que qualquer um de seus predecessores, a produção transforma a música num eletro-rock com toques de power pop noventista com uma letra que é ao mesmo tempo sinistra e divertida narrando cheia de auto-ironia os pesadelos de Stina com uma mulher que a estrangula  toda noite. “The Third Degree” continua na mesma pegada sonora mas acaba ficando bem repetitiva lá pela metade e uma faixa de menos de três minutos parece que dura uma eternidade.

A sequência “A Kiss From The Devil” e “Gibberish” é o momento que mais funciona no disco porque introduz bem os novos timbres de guitarra e refrões pra cantar junto com linhas de baixo com bastante reverb e baterias velozes e cruas como costumavam ser trabalhadas no primeiro registro da banda. Esse equilíbrio na produção ajuda a não alienar os fãs mais antigos e as letras trazem referências de tropes do terror noventista que aparecem em outros momentos do álbum e aqui funcionam muito bem com os arranjos.

“The Tarantella” fecha o lado A do álbum e é uma faixa bizarra no melhor sentido da coisa, tem um quê de trilha sonora de filme de terror, uma rispidez grunge, linhas de synth escondidas que fazem dobradinhas e potencializam as passagens da guitarra. A música equilibra bem as cadências mais lentas com as explosões de energia e é um dos poucos momentos em que a produção mais polida fez bem para uma faixa nesse registro.

A segunda metade do álbum é bem mais puxada pra um noise pop com toques de eletro-rock e não apresenta nada de novo, apenas truques que já vimos mais bem executados no começo do disco. “Take The Wheel” é um noise pop com mais elementos cinematográficos no som que não acrescenta muito mas coloca uma deixa pra “Touch”, que é uma música com uma letra fortíssima sobre a agonia de ser tocada por alguém que te machucou mas cujo arranjo quase dançante tira a potência que uma letra assim teria se apresentada de outra forma.

O ponto mais fora da curva nessa segunda metade do álbum é “Twisting The Aces” que trabalha bem uma produção moderna eletrônica em cima de uma base que lembra o garage rock mais sentimental com passagens orgânicas que e realçam bem pontos específicos da letra.

O que mais decepciona nesse álbum é que você sente que tanto as letras como as ideias iniciais de alguns arranjos que estão ali são muito verdadeiros mas a produção exagerada faz o resultado final parecer plástico como se tivesse sido feito apenas para empolgar a galera num show em estádio. Stina Tweeddale é uma compositora incrível e é ótimo vê-la explorando outras formas de fazer música mas seria interessante buscar um outro tipo de produção para explorar essas novas referências trazidas em In Plain Sight.

OUÇA: “She’s A Nightmare”, “Gibberish”, “The Tarantella” e “Twisting The Aces”

Circa Waves – What’s It Like Over There?



À primeira vista, What’s It Like Over There? parece uma simplificação ou uma mudança de direção no trabalho dos ingleses do Circa Waves mas com uma audição mais atenta dá pra perceber que a aparente simplificação é na verdade a consolidação do som que eles vem construindo desde o primeiro álbum e agora conseguem dizer bem mais com menos elementos.

O álbum abre com a vinheta-título que parece bastante sem propósito dada a estética que o trabalho como um todo tem. Mas “Sorry I’m Yours” que vem na sequência soa mais como a verdadeira abertura e vem com uma grande força trazendo a energia característica co Circa Waves numa faixa que é ao mesmo tempo potente e sentimental. A música alterna bem a explosão de um riff de guitarra poderoso e abafado com uma levada de baixo e bateria que passa a vibe mais sentimental. O refrão cantado é desses simples e gostosos de cantar e o refrão instrumental fica na cabeça bem depois que a música acaba e essa é uma característica que vai aparecer em diversos outros momentos do álbum.

Na sequência temos “Times Won’t Change Me” que introduz um piano marcando o ritmo e combinado com a bateria com uma pegada militar mais lenta e que explode no refrão é uma ótima faixa pra cantar junto e deve funcionar muito bem ao vivo. “Movies” aparece logo depois e é uma faixa que saiu como single antes do álbum e dividiu a opinião dos fãs na época por se tratar de uma faixa abertamente mais pop do que tudo que o Circa Waves já tinha apresentado. É com certeza uma faixa mais comercial e de certa forma até genérica mas é agradável de ouvir e está bem posicionada no álbum entre duas ótimas faixas e funciona bem como transição.

“Me, Myself And Hollywood” é uma faixa bastante sentimental e transmite bem a atmosfera cinematográfica que e a letra pede através de uma construção que mescla uma guitarra mais pra cima com uma cadência de baixo e bateria mais lentas e os breaks da cozinha fazem bem a transição entre moods como cortes de câmera numa faixa bem curta.

A segunda metade do álbum é quase toda pra ser cantada em estádios com bons refrões e leves quebradas de tempo pra empolgar a galera no show. O melhor exemplo disso é “Be Somebody Good” com a sua bateria entrecortada no refrão e o melhor solo de guitarra do álbum inteiro.

What’s It Like Over There prova que e possível fazer fazer um som abertamente mais pop sem perder a energia do rock alternativo construída ao longo dos trabalhos anteriores.

OUÇA: “Times Won’t Change Me”, “Me, Myself and Hollywood” e “Be Somebody Good”

Helado Negro – This Is How You Smile



NSe você é familiarizado com a obra de Roberto Carlos Lange como Helado Negro, uma coisa que chama a atenção logo numa primeira passada por este álbum é que ele é muito mais “certinho” do que os anteriores. A estética aqui é muito mais melódica e bem amarrada do começo ao fim, e já nos primeiros momentos dá pra perceber que esse som mais despido das viagens de arranjo e do experimentalismo acentuado dos registros anteriores serve a um propósito narrativo muito claro que é o de evocar memórias.

Instrumentalmente, temos alguns poucos relapsos do Helado Negro de sempre pesando a mão nos sintetizadores e baterias eletrônicas como na abertura “Please Won’t Go” mas o piano em reverb acaba suavizando a faixa. Essa é uma dinâmica interessante que aparece em todo o álbum, quando ele chega muito perto do experimentalismo eletrônico dos trabalhos anteriores, algum instrumento tradicional vem e compensa isso, fazendo a música soar mais amigável. A produção de Roberto Carlos Lange é impecável e dosa bem os momentos em que um trabalho mais acústico e tradicional é o melhor caminho ou quando o som eletrônico ajuda a passar a mensagem de uma forma mais precisa.

Um ponto interessante é que o trabalho como um todo grita latinidade sem apelar pra clichês que poderiam passar essa mensagem de forma equivocada. Essa expressão da cultura latina é colocada algumas vezes de forma bem sutil como no fraseado de violão de “Imagining What To Do”  ou bem mais explícita como na belíssima “Pais Nublado” que com um ritmo dançante relata a conversa um pai e um filho latinos que tentam ganhar a vida nos os Estados Unidos e conversam com o pai falando em espanhol e o filho respondendo nos versos em inglês relatando a dualidade de sentimentos e cultura que uma vivência dentro da névoa que é a situação dos latinos nos EUA atual.

A forma como as faixas são colocadas equilibram bem esse aspecto mais social com algo mais íntimo e pessoal que evoca uma nostalgia agridoce por diversos momentos da vida como a memória do amor em “Running” ou as memórias de infância como em “My Name Is For Friends”. Seja através dos arranjos ou das letras, cada faixa deixa uma sensação de saudade e distância depois que acaba mesmo nas faixas mais upbeat como “Seen My Aura”, as frases de guitarra e até mesmo os vazios da batida te levam pra um lugar nostálgico.

This Is How You Smile toma seu título emprestado de uma passagem do pequeno conto “Girl” da autora antiguana Jamaica Kincaid que narra conselhos de uma mãe imigrante para sua filha sobre a melhor forma de se comportar para poder viver em paz em solo estadunidense. Além do título, o que Roberto Carlos Lange pega do conto é o conflito de sentimentos que ele, como descendente de imigrantes, conhece bem que é crescer como latino na América do Norte, tentando conservar tradições ao mesmo tempo em que tenta se encaixar num outro meio e trabalha isso de uma forma que une poesia e confissão, falando de algo ultrapessoal e específico para atingir sentimentos universais como a solidão, a saudade e o não-pertencimento.

OUÇA: “Please Won’t Please”, “Pais Nublado”, “Todo Lo Que Me Falta” e “My Name Is For Friends”

OUÇA:

Jon Fratelli – Night Bright Flowers


O trabalho de Jon Fratelli, tanto à frente de seu  projeto principal The Fratellis como em seu registro solo anterior, sempre teve uma relação bem forte com o country, usado como base pra subversão e criação de riffs empolgantes e dançantes. Seu segundo trabalho solo  mostra que o escocês também conhece bastante do lado mais sentimental do gênero. Combinando influências de um country mais lento e instrospectivo com toques de ‘american standards’, Night Bright Flowers traz arranjos complexos e delicados que evidenciam Fratelli como um músico experiente e versátil.

O álbum abre com “Serenade In Vain“ que diz logo de cara que estamos diante de um álbum totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha feito antes. A música é uma balada sentimental que faz um ótimo uso do timbre de Jon Fratelli como um instrumento que constrói a melodia em contraponto a levada de percussão e o piano minimalista. Alguns toques de rouquidão em algumas passagens da letra combinadas com as cordas ajudam ainda mais a passar o sentimento que a faixa pede. As guitarras com slide que vão aparecer bastante ao longo do álbum também dão as caras timidamente por aqui com uma produção que faz com que você se sinta num bar com a banda tocando bem perto. É uma faixa pra ser sentida e é impossível não se sentir afetado por ela.

A faixa-título “Bright Night Flowers”  traz na letra algo como uma reflexão sobre como ele, um rockstar que já não é mais nenhum garoto observa os jovens vivendo suas vidas à noite, cometendo seus erros e acreditando que são invencíveis e acaba se dando conta de que já viveu esses dias há muito tempo atrás. O instrumental continua na mesma pegada da abertura mas tem um arranjo menos espetacular, reduzindo o caráter orquestral. As guitarras com slide aqui são bem mais evidentes e se misturam às cordas fazendo uma cama pra um piano bem marcado com o dedilhado e Jon Fratelli aqui começa a exibir sem alcance vocal, saindo dos graves e lançando algumas notas mais agudas com bastante precisão. Em termos vocais “After A While” é a melhor perfomance do músico, variando do grave ao médio-agudo com bastante naturalidade e sendo bem expressivo nas inflexões, instrumentalmente no entanto essa faixa parece uma continuação da anterior e, mesmo com algumas passagens interessantes acaba parecendo longa demais com pouca variação além da voz.

“Evangeline” é talvez o momento em que Jon Fratelli mais se aproxima de seus trabalhos anteriores. A faixa lembra um pouco “Henrietta” do Fratellis por conta da cara de country de salloon e a conversa com uma amada na letra mas sem a afetação dos riffs e o sarcamo da primeira e é uma das faixas mais upbeat do registro.

A segunda metade do álbum não tem nenhuma faixa necessariamente ruim, muito pelo contrário, são tão bem arranjadas e tão bem escritas quanto a primeira não apresentam muita variação em relação ao começo do disco, e nenhuma canção se destaca muito com exceção de “Crazy Lovers Song”, uma balada country tradicional com o melhor trabalho de guitarra com slide do álbum todo e o piano funcionando como baixo de um jeito bem interessante. O final instrumental da música que mescla o folk escocês com o country americano através das linhas de cordas também merece ser apreciado.

Bright Night Flowers não é um álbum super inovador mas soa muito verdadeiro do começo ao fim expressando as reflexões de Jon Fratelli de forma bastante poética com arranjos e performances que revelam uma atenção e cuidado com os detalhes que vale a pena ser escutado.

OUÇA: “Serenade In Vain”, “Bright Night Flowers”, “Evangeline” e “Crazy Lovers Song”