Kesha – Rainbow


Depois de uma batalha judicial e midiática na qual Kesha expôs as violências mentais e sexuais impostas por seu ex-produtor, Dr. Luke, Rainbow, terceiro disco de estúdio cantora, surge como sua verdadeira estreia, um registro autêntico, que concilia algumas das características principais dos trabalhos anteriores da moça mas soa mais verdadeiro, honesto, além de uma ligação maior com o country e rock.

O diálogo com outros gêneros é resultado de um processo de aproximação com suas próprias origens. Uma das canções do disco, “Old Flames (Can’t Hold A Candle To You)”, é a regravação de um hit country dos anos 70, composto por sua mãe, Pebe Sebert. A faixa conta ainda com a participação de Dolly Parton, figura totêmica do gênero norte-americano. “Godzilla”, escrita em parceria com Nathan Chapman, antigo produtor da fase country de Taylor Swift, é outra ponto alto do registro, comprovando a versatilidade vocal de Kesha e sua adequação às paisagens cheias de violões e nostalgia.

Rainbow também flerta com o rock garageiro dos Eagle of Death Metal, em duas das faixas mais dançantes e divertidas do registro, “Let ‘Em Talk” e “Boogie Feet”. O rock garageiro em combinação com o universo autoral de Kesha soa lembra o noise pop e uma pitada de psicodelia.

Baladas de superação são, talvez, o ponto mais baixo do disco. “Praying” é um exemplo de canção acertada, mas “Hymn” e “Learn To Let Go” jogam no outro time. Por causa do forte caráter pessoal do registro, muitas vezes o material se torna monotemático. O que é até compreensível, devido terrível processo pelo qual a Kesha. O problema é que nenhuma dessas canções chega aos pés de “Bastards”, faixa de abertura, que começa lenta e ganha corpo e forma, em toda sua honestidade e violão, um hino de resistência mais interessante do qualquer uma das faixas citadas acima.

A Kesha dos outros trabalhos mostrava atitude, mas não deixava de soar uma versão artificial de si mesma. Rainbow apresenta substância, uma Kesha compositora e intérprete forte, com potência vocal e mais interessante do que todas suas antigas versões. A fantástica “Woman”, em todo seu funk e soul, é prova disso.

Rainbow não é um disco perfeito. Registro sobre superação e feminismo, traz Kesha como uma pastora pentecostal da música pop, pregando sobre aceitação, empoderamento e diversão. O pecado cometido nas faixas monotemáticas é perdoado nos vários bons momentos do registro que só reforçam o quanto Kesha ainda vai oferecer material interessante nos próximos trabalhos. Ela só está começando.

OUÇA: “Bastards”, “Let ‘Em Talk”, “Woman”, “Praying”, “Boogie Feet” e “Old Flames (Can’t Hold A Candle To You)”

Sondre Lerche – Pleasure

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As primeiras notas de Pleasure parecem saídas de um disco da fase de ouro clássica do New Order: industriais, com um vocal dúbio marcado por sintetizador, elas precedem um refrão potente e risonho. É com uma referência dessas que Sondre Lerche começa seu nono disco de estúdio, primeiro depois de Please, de 2014.

Faces Down, debut do rapaz saiu em 2001. De lá para cá ele caminhou por uma variedade de sons e gêneros: indie pop, folk, country, jazz, indie rock. Em uma audição rápida da rica discografia do norueguês é impossível encontrar um disco fraco ou que poderia ter sido pulado da tarefa retroativa.

Mas é fora da sua zona de conforto que Sondre brilha mais ricamente e é em Pleasure que podemos contemplar com mais grandeza seu trabalho. Observar um trabalho que flerta tanto com o post-punk, new wave e synthpop de maneira tão rica e com tanta maestria é prova do talento do moço e faz com que ouçamos sua discografia com a ciência disso.

Pleasure opera numa chave oposta aos famosos covers de Lerche. Vá ao Spotify e você encontrará belas versões de “Chandelier”, “Hotline Bling” e, a minha favorita, “Wrecking Ball”. Sondre transforma canções dançantes em interpretações amargas, sentimentais e catárticas. O disco atual do rapaz é um álbum extremamente abrasivo, ensolarado e, surpreendentemente feliz. A nostalgia dos anos 80 se apresenta aqui animada, etérea e sempre presente.

Recheado de canções como “I’m Always Watching”, seu início extremamente alegre e refrão potente, lembra o saudosismo do The Desired Effect, último disco solo de Brandon Flowers, principalmente na canção “Lonely Town”. Aqui, entretanto o ouvinte encontra mais experimentalismo e vocais ora presentes, ora sussurrados.

“Serenates In The Trenches”, grande hit do registro é uma feliz metáfora, grudenta, sobre os conflitos românticos e que usa o imaginário das trincheiras e das guerras. A canção recebeu ainda um clipe sexy, com seu baterista, David Heilman. Há ainda espaços para psicodelia em “I Know That Something’s Gonna Break Your Heart” e solos de guitarra em “Reminisce”.

Pleasure é um trabalho eficiente, divertido, complexo e capaz de apresentar a sonoridade de Sondre para novas audiências em mesma medida que satisfaz a sede dos antigos fãs por música de qualidade. Vale a audição.

OUÇA: “Serenates In The Trenches”, “I’m Always Watching” e “Soft Feelings”.

Sleigh Bells – Jessica Rabbit

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Tudo o que eu posso dizer sobre Sleigh Bells pode ser resumido nessa sentença: se algum dia eu dirigir um filme sobre massacres em escolas, a cena dos tiroteios e assassinatos será assim: primeiros planos focados no rosto do atirador, sem mostrar nenhuma de suas vítimas, apenas o brilho da pólvora explodindo com “Demons”, do segundo disco do duo, Reign Of Terror, ao fundo.

O som da dupla de americanos contém uma rebeldia adolescente, que faz sexo para escandalizar os pais católicos, usa roupas curtas contra o uniforme e, vez ou outra, com uma garrafa de vodca na mão, procura rituais pagãos na internet. E nem porque acredite mesmo nisso, mas porque a subversão ao Deus cristão vale o esforço e seria engraçado ver a reação dos avós.

Desde Treats, seu delicioso debut, que fez bastante sucesso na mídia musical da época, com elogios da NME e Pitchfork, a meca indie e o clipe de “Infinity Guitars” sendo exibido no repeat na VH1, ao último lançamento deles, Bitter Rivals, que pisa mais no pop radiofônico do que seus antecessores, passando pelos Keds sujos de sangue em Reign Of Terror, meu favorito, Sleigh Bells nunca produziu uma carreira ou álbuns de fato ruins. Mesmo o pior deles seguia um padrão e satisfazia o ouvinte, que sabia mais ou menos o que encontraria naquelas meia hora de audição.

Jessica Rabbit, quarto disco e que sai em novembro, é o maior de todos seus trabalhos. Talvez o mais complexo, com a assimilação de um dream pop e vocais sussurrados e sensuais (o que não é novidade aqui, se você já bateu o olho na persona de Alexis Krauss, mesmo sobrenome daquela famosa cantora de country). A atmosfera dialoga com mais gêneros musicais do que a combinação consolidada de bateria e guitarras estridentes. Há espaço, inclusive, para a adocicada “I Know Not To Count On You” com seu piano, violão e sintetizadores suaves.

O tamanho maior do registro oferece uma possibilidade maior de experimentação e de que eles lidem com outros ritmos e sentimentos, além da rebeldia agressiva dos lançamentos anteriores.

Menos dançante, Jessica Rabbit é misterioso e sensual, assim como a personagem homônima. O mistério aqui se expande, como pode ser visto nas capas de pinturas para os singles e os clipes, com um pé na metafísica. As 14 faixas passam rápido. Mas é fato que esse registro deveria ser menor, duplamente menor, as faixas poderiam ser mais curtas e o trabalho, em si, poderia se fechar com 10, 12 faixas, facilmente.

Para o bem ou para o mal, esse é um disco representativo da carreira do duo. Representativo porque mantém os erros e acertos já apresentados ao longo dos trabalhos anteriores.

OUÇA: “I Can Only Stare”, “It’s Just Us Now”, “Crucible”, “Throw Me Down The Stairs” e “I Know Not To Count On You”.

M.I.A. – AIM

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Nunca antes da história desse país ou da música pop um gênero foi tão panfletário e político. Exageros a partir, o que se percebe em muitos dos hits lançados por vocalistas femininas nos últimos anos, de Beyoncé à Lady Gaga, são canções dançantes, convites à pista de dança, que trazem mensagens sobre gênero, raça e orientação sexual. É o pop panfletário, feito para os pés dançarem e a mente ser reformada.

Nisso, M.I.A. sempre foi boa. Conhecida pelo estilo agressivo, feroz, cheio de cores e estampas, de morena à loira, passando pelo hip hop, música eletrônica (EDM, synthpop) à world music, em seus quatro discos antecessores, M.I.A. já fez a gente dançar muito, com canções como “Boyz”, “Bucky Done Gun” ou “Bad Girls”, esbanjou sensualidade em outras como “XXXO” e sempre politizou suas atitudes, seja convidando Deize Tigrona (dona do sample original de “Bucky Done Gun”, a menos sutil “Injeção”), colocando mulheres de burca fazendo pegas no Oriente Médio ou a controvérsia do violento “Born Free” e seu o racismo reverso. Tanto musical como visualmente, consumir os produtos de M.I.A. sempre foi agradável e fácil.

AIM tinha tudo para ser mais interessante do que é. O retorno da parceria com Diplo, ex-parceiro romântico e musical da moça; a surpresa com a escalação de Zayn Malik, ex-One Direction e que agora se projeta numa espécie de The Weeknd teen. Mas nenhum desses “possíveis” atrativos funciona realmente como atrativos e o conjunto das canções, doze ao todo, soa cansativo e chato. A sonoridade continua a mesma, flertando com ritmos tradicionais na famosa wolrd beat, os sintetizadores, a língua afiada de M.I.A. e certo apelo para as pistas. Uma massa uniforme, mesmo que Borders, a uma primeira audição pareça interessante, fica perdida aqui dentro desse registro e perde a graça, mostrando um trabalho que funciona mais de maneira isolada e menos como um disco.

Não que tudo esteja perdido. É preciso culhões e autoconsciência, o que M.I.A. sempre teve, para abordar a política da maneira como ela sempre abordou em sua carreira, pra levantar as bandeiras que ela sempre levantou. Precisamos de mais artistas gravando vídeos como os de “Borders” e “Go Off”, precisamos de ativistas que cantam. O problema é que isso, em si, não garante um bom álbum nem uma boa experiência sonora.

Funciona mesmo como um avesso ao nome da cantora. Uma M.I.A. chata.

OUÇA: “Borders”, “Go Off” e “A.M.P. (All My People)”.

 

Bat for Lashes – The Bride

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A força da antítese se encontra no contrastante. É comparando duas extremidades, duas forças, que a falta de um evidencia a outra. Fogo e água, luz e sombra, bem e mal. A gente poderia gastar horas na lista de antagonistas… Assim, não é com nenhuma surpresa que a faixa que abre The Bride, quinto disco da britânica Natasha Khan, mais conhecida por seu nome de palco, Bat for lashes, seja a doce, melódica e etérea “I Do”. O caráter etéreo não é, entretanto, exclusividade da faixa de abertura,  permeia toda a carreira e registro aqui presente.

“I Do”, lançada em meados de janeiro como princípio da divulgação do disco, causou certo estranhamento e funciona como um convite ou o aceite de um. As cordas e os toques eletrônicos da canção abrem caminho para um mundo de sonho, com imagens enevoadas, o canto de uma sereia prestes a afogar os marinheiros. A certeza e a entrega da moça, dessa noiva em especial, que aceitará o contive de seu amado é também um convite para que o ouvinte aceite as convenções desse jornada e peguem a moça pela mão. Ela diz que sim e espera de nós a mesma cortesia.

Composto inteiramente por ela, com exceção de três faixas, nas quais ela escreve com apoio de terceiros e a produção dela mesma, com Jacknife Lee e Dan Carey, o trabalho marca também o fim da colaboração de David Kosten, parceiro sempre presente desde o primeiro disco, Fur And Gold, de 2006, The Bride é um disco conceitual e narrativo cuja a protagonista é, justamente, uma noiva. Usando a narrativa e a ficção, como todos os bons contadores de história, para elaborar conceitos abstratos como o amor, a morte e o luto, essa é a jornada de uma noiva que perde seu futuro esposo num acidente de carro, à caminho da igreja.

Sonoramente, a guitarra marcada em “Joe’s Dream” ou a bateria acelerada em “Sunday Love” mostram que a paisagem sonora já construída de Bat for Lashes pode sim flertar nos limites além de seu território tradicional, abarcando as fronteiras com o art rock e o desert rock, esse último, principalmente no que tange o imaginário e os vídeos já feitos para as outras canções, que encontram ecos nas obras de David Lynch.

A trajetória é completa: passa pela concretização do sonho de matrimônio, o sonho premonitório (“Joe’s Dream”), a entrada na igreja (“In God’s House”), a lua de mel sozinha (“Honeymooning alone”), a busca pelo amado que não está no plano dos vivos (“Sunday Love” e “Close Encounters”), o luto e, por fim, a superação (“I Will Love Again”). Embora a protagonista seja a noiva, ela pode ser qualquer um de nós; a noiva é o artifício que Khan encontrou para falar sobre amor, morte, luto e cura. Em maior ou menor escala, a trajetória dessa personagem pode também ser e entendida como a nossa.

OUÇA: “Sunday Love”, “In God’s House” e “Honeymooning Alone”

Beyoncé – Lemonade

BEYONCE

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Um conceito importante e atual é o “Lugar de fala”. Preciso discorrer sobre ele antes de escrever qualquer coisa sobre o disco mais recente da Beyoncé, uma espécie de mea culpa. Sou um homem branco. No máximo pardo. Minha vó era negra. Isso garante a mim muitos privilégios e, enquanto ouvi esse disco e vi certos clipes, isso me pareceu necessário de ser dito. Beyoncé é uma mulher negra. Minha avó e Beyoncé compartilham uma diversidade de problemas próprios que não são estendidos a mim. É com muito respeito que empreendo essa crítica (ou a tentativa de uma).

Dito isso, começo do começo: eu não faço ideia o que Beyoncé está fazendo.

Isso é bom, muito bom. Sexto disco solo da ex-Destiny’s Child, Lemonade é mais um passo na carreira da moça rumo ao estrelato. Convenhamos: no cenário pop atual não há ninguém que se compare à ela. Uma figura pública exemplar, o orgulho de qualquer assessor, é difícil criticar qualquer aspecto da vida dessa mulher. Sucesso comercial implacável, ela também é um marco, uma metonímia que canta e dança, sobre uma revolução e algo muito maior do que está acontecendo.

Beyoncé é maior do que ela mesma. Ela é uma cantora e um símbolo.

O R&B do seu grupo anterior gerou uma série de sucessos, começando de seu debut solo, Dangerously In Love, de 2003. Com mais de dez anos de uma carreira  invejável é preciso pensar na sua sucessão de hits. “Crazy In Love”, “Baby Boy”, “Irreplacable”, “Single Ladies”, “Halo”… a Sasha Fierce de Beyoncé estourou ao redor do mundo. Ela nunca fez o tipo de música que escuto, mas, como insiste em lembrar um amigo em situações inoportunas, ela esteve até no meu nick do MSN. Baita saudade do plug-in para o media player que permitia mostrar o que ouvíamos.

Sem um gênero específico essa mulher abraçou o pop, o hip hop. Num salto de grandeza ela subiu um patamar com a complexidade sonora de 4. O disco de 2011 é o início de uma nova fase na carreira dela. Uma nova Beyoncé, mais complexa, mais madura. Mas o mundo não estava preparado para o que viria a seguir.

Beyoncé lançou Beyoncé, o início e o fim de sua carreira, o renascimento e o nascimento de uma estrela. Não é sobre esquecer o que ela havia feito até então mas lançar um novo olhar sobre aquilo e perceber aquela persona poderosa mais poderosa ainda. Esqueça Sasha Fierce. Ela não precisa de mais um alter ego agora. Ela é o próprio alter ego, em carne e osso, ela encarna, encorpora nela mesma um discurso político de maneira que poucas, pouquíssimas de suas contemporâneos o fazem. Um registro que também é visual. A paisagem sonora permanece dançante e ela mantem as influências que a levaram até ali de maneira sombria. A escuridão, a urbanidade de seu registro, a língua afiada. Devemos todos ser gratos por músicas como “***Flawless”.

Lemonade continua com a mesma proposta, com diversos clipes, lançados em um especial para a HBO. O sexto disco, vindo logo após uma reafirmação da identidade da cantora, com o objetivo de manter as inovações de seu antecessor, consolidando essa nova fase. O maior feito desse trabalho é transformar cada gesto, cada composição, em uma dimensão política, um gesto de rebeldia a um sistema branco, o grito de fúria de uma mulher negra que não aceita ser enquadrada como a mídia deseja. “Meus ancestrais beberam limonada para ficar brancos”, ela brada. Ela própria sofreu com esses limões, basta procurar um artigo que mostra o processo de embranquecimento que ela sofreu em editoriais ao longo dos anos.

Se a vida oferece limões, o que fazer com eles? A Beyoncé faz discos. E faz dos discos, tratados.

Você pode se esbaldar na balada com “Formation” mas essa não é uma música sobre você. Ela é sobre a formação de uma cultura e identidade negra nos estados unidos. Um registro que traz colaboradores tão heterogêneos, como Jack White, James Blake, The Weeknd e Kendrick Lamar. De novo: político em cada gesto. A traição ou a possível traição sofrida aqui é potencializada, os holofotes são utilizados por ela para se projetar e lançar seu discurso. Ela não é uma só mulher, ela é uma legião. Sonoramente, não sei o que esse disco é. Ouvi mais de dez vezes e ainda não cheguei a uma conclusão. O country, o rock, o trap, o hip hop, soul, reggae, blues. todos estão aqui. Não é um gênero em especial. Até os samples mostram uma variedade, que vai de Led Zeppelin à Yeah Yeah Yeahs sem destoar ou parecer forçado.

Esse é o gênero Beyoncé, um gênero sem convenções. É dela que emana tudo isso.

A traição, que não sei se é de fato verídica ou não (e também pouco importa, se for uma criação ficcional funciona da mesma maneira, oferecendo uma plataforma para outras diversas discussões) é onipresente no registro. Ela anuncia na faixa de abertura que sente o cheiro da desonestidade no hálito de seu homem, no dueto com White avisa que se ele tentar algo parecido vai perder sua mulher e relembra os avisos que recebeu de seu pai quanto a esse tipo de espécime masculino.

Beyoncé canta por si e por todas as mulheres. A aclamação dessa obra, ainda que prematura, é alta. Talvez daqui a alguns anos consideramos esse burburinho todo um estardalhaço desnecessário. A chance dessa situação, a meu ver, é minúscula. E explico o porquê: Eu não sei o que ela está fazendo.

Mas ela sabe.

OUÇA: “Don’t Hurt Yourself (feat. Jack White)”, “Daddy Lessons”, “Freedom (feat. Kendrick Lamar)”, “Formation” e “Sandcastles”.

Ida Maria – Scandalize My Name

IDA

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A norueguesa Ida Maria é uma figura e tanto. O punk rock, gênero nativo da rebeldia e agressividade, ganha nos vocais da moça mais uma camada de inconformidade, com sua voz grave. Quatro discos, é o que ela tem. Seu segundo, Katla, contou com a produziu inclusive de Butch Walker, figurão e que tem no currículo músicas da Pink, Avril Lavigne, Carly Rae Jepsen, Taylor Swift. As três primeiras conhecidas por seu misto de doçura e agressividade, uma metáfora visual para as munhequeiras rosas que eram de costuma na sétima série.

O que então aconteceu com ela? Scandalize My Name, lançado esse ano, tem escândalo só no nome. Em uma busca rápida por inspirações e outras análises para nortear minhas impressões sobre o trabalho, cheguei a um consenso: os fãs da moça não gostaram muito do trabalho. A princípio essa série uma resenha somente com memes da internet, mas decidi que não justo fazer isso com o trabalho de Ida. Mas aqui vai um, imortalizado por uma das melhores participantes do reality A Fazenda ‘Não tem como te defender’.

Duas frases (que não foram ditas por mim) marcaram minhas impressões sobre o disco: “A voz de Ida não combina com esse gênero. Parece a ida de Courtney Love para a Broadway.” e “Ida Maria virou padre cantor.” Até concordo, mas com muito distanciamento. A influência mais perceptível aqui é de Nina Hagen. Depois de viver loucamente os anos 80 e fazendo na época o que deixaria muita gente assustada ainda hoje e se converter, Hagen orientou-se para canções religiosas. Mas ela teve um vislumbre certeiro: não é porque você acredita em algo, que deva cantar apenas sobre aquilo. A beleza da fé e da arte é mostrar, através de suas obras e vida, como a fé as afeta. A fé o caminho, as mediações e não o ponto final.

Composto inteiramente canções religiosas e que fazem menção ao divino, com uma visão judaico-cristã, o registro destoa de tudo o que poderia se esperar de Ida. São canções e hinos tradicionais, re-interpretados, que você poderia ouvir na igreja ou em ritos religiosos. Cadê as guitarras apressadas? Cadê seu vocal debochado? Por que temos um banjo ao fundo? A atmosfera acústica e catequizante é o mais forte aqui. Sua performance enquanto cantora é interessante. Teatral, exagerada, sua voz que não parece combinar tanto com as letras, funciona de maneira interessante, como uma apresentação infantil antes do culto.

É meio difícil levar a sério esse registro, principalmente quando lembro de “I Like You So Much Better When You’re Naked”. Há quem ache forçado, eu não. Vejo até certa sinceridade e boas intenções nesse trabalho. Essa é a versão 2016 de Personal Jesus, da Nina Hagen.  A diferença é que Ida Maria não é Nina Hagen.

OUÇA: Personal Jesus, da Nina Hagen.

Foxes – All I Need

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As raposas não vivem em bandos. Assim, não existe um coletivo para elas. A palavra usada para indicar uma quantidade grande de raposas é raposada. Já os lobos vivem em bandos e por isso uma grande quantidade de lobos tem um nome específico: alcateia. Esse parágrafo introdutório pode parecer meio desnecessário mas combina bem com a metáfora sobre o segundo disco da inglesa Foxes.

All I Need parece um conjunto de canções que serviriam perfeitamente para outras cantores mas que por algum motivo foram agrupadas num registro de doze faixas e empacotadas com a foto da moça na capa. Poderia ser um coletivo uniforme ou com traços de uniformidade, assim como uma alcateia. O fato da moça, entretanto, ter o nome de raposa é uma curiosidade óbvia e falha, mas aponta para um problema muito maior e recorrente no seu trabalho: o individualismo, cada canção parecer única e descolada do registro não é talento ou prova da versatilidade da moça. São provas sim, de quanto ela é genérica.

Pense nas cantoras de pop e indie pop dos últimos cinco, seis anos. Foxes tem uma voz forte e provavelmente canta bem ao vivo. O que não a exime de produzir um trabalho que lembra Ellie Goulding, Tove Lo, Rihanna, Pixie Lott, Robyn, Sia, Katy Perry, Jessie J e tantas outras que um ouvido mais afinado e conhecedor de divas pop vai identificar melhor do que eu. Cada faixa poderia ter sido incorporada a discos de outras cantoras sem causar prejuízo nenhum à elas. Não soaria estranho.

A culpa pode estar na quantidade de colaboradores presentes no registro, na instrumentalização genérica (que envolve um violino batido e coral negro), a estrutura das músicas, com refrões e pontes marcadas ou no próprio gênero (embora um gênero musical nunca seja responsável diretamente por trabalhos ruins). A produção é consideravelmente melhor que o anterior e o deixa mais audível, já que Glorious era bem chatinho.

Apesar das críticas duras, o trabalho tem bons momentos e músicas divertidas. “Better Love” com sua percussão e coral óbvios tem um refrão potente, “Amazing” com o teclado inicial e a mensagem positiva (de alguma propaganda colorida de refrigerante) e “Devil Side” (que fica no limite entre a tensão e a breguice). No outro time temos músicas que não são necessariamente ruins mas mostram falta de originalidade, como “Body Talk” (chega de músicas pop com esse nome!), “Money” (“Price Tag” 2.0), “If You Leave Me Now” (a balada pop sofrida que todo disco precisa) e “Cruel” (lembra um ritmo mais étnico, coisa de Major Lazer com MØ).

Não é o pior disco do ano. Não é também o melhor. O problema é ficar no limbo, sem alcançar nem céu ou inferno.

OUÇA: “Body Talk”, “Better Love”, “Amazing” e “Devil Side”

Grimes – Art Angels

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Caminhando nas trilhas de um pop autoral, Claire Boucher, mais conhecida como Grimes, lança seu quarto disco, Art Angels, um registro que parece uma progressão óbvia em sua discografia ao mesmo tempo que soa tão pop e radiofônico quanto possível.

Seguindo firme nesse subgênero, se é que podemos chamá-lo assim, ela une o máximo do excêntrico já visto em Halfaxa e Visions, com vocais cheios etéreos cheios de escuridão, quase intraduzíveis que amoldam-se para músicas indiscutivelmente pop, com refrões redondinhos e ponte. A paisagem sonora criada por Grimes que antes, era uma tradução de seus vocais sombrios e criada principalmente por sintetizadores também ganha novos contornos, uma dimensão mais orgânica. Claire fez questão de tocar e mixar cada instrumento presente em Art Angels (e, em alguns casos, ela precisou aprender a tocar) que inclui uma pequena lista com violão, baterias, teclados, violino e ukuelelê, criando uma atmosfera mais acessível e acolhedora, capaz de fisgar a atenção de quem ainda não conhecia a moça.

Em entrevista ao The Fader, Grimes confessou que seus trabalhos anteriores eram tristes e que Art Angels é feliz. Mas não uma felicidade tola. É uma felicidade marcada também por certa rebeldia, lembrando o imaginário do ensino médio, com suas panelinhas previamente delimitadas e a busca urgente por aprovação. Depois de tentar participar da indústria fonográfica e perceber o machismo que acaba sufocando cantores e produtoras, Claire decidiu voltar para seu modo artesanal de produção.

O resultado desse encontro entre a autoralidade e o comercial não se dá apenas na esfera instrumental do registro. Muitas músicas tem um caráter fortemente ambíguo: elas podem servir tanto para ilustrar fins de relacionamentos e questões pessoais quanto para ilustrar a dimensão mais política da cantora, a necessidade de figuras como ela, mulheres fortes e independentes, com completa liberdade criativa. Trechos como ‘Every morning there are mountains to climb, taking all my time’ podem até parecer Paramore das antigas (mandando indireta) mas foram na verdade escritos por Boucher; “Flesh Without Blood” (de longe a melhor faixa do disco e uma das melhores ano) escrita de forma tão honesta, encaixando-se como uma carta sobre o fim de um relacionamento opressivo ou o desencantamento com um sistema industrial que poda a criatividade de muitos artistas. É o DNA puro da canadense aplicado a um corpo pré fabricado de um gênero.

Fugindo também de uma homogeneidade Art Angels é um disco que bebe em muitas fontes: há influência do punk e rock (afetados claramente pela música pop) que ela ouvia na adolescência, do country em faixas como “California”, das personas como Taylor Swift (da qual Grimes é fã) além da presença sempre eclética dos vocais de Janelle Monáe e da rapper tailandesa Aristophanes.

Claire Boucher vai de Ravena para Jubileu em sua curta e precisa discografia sem causar estranhamento, afinal, essa continua sendo a boa e velha Grimes de quem gostamos.

OUÇA: “California”, “Flesh Without Blood”, “Kill V. Maim”, “REALiTi” e “Butterfly”.

Editors – In Dream

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Tudo é ficção. A realidade é complexa demais para ser apreendida em sua selvageria. Precisamos ficcionalizá-la, criar narrativas e pequenas histórias, que, consumidas em doses homeopáticas podem gerar compreensão do todo. Um relato é apenas uma faixa de um todo muito maior. A metáfora pomposa serve para exemplificar a natureza dos registros feitos em In Dream, que combinamos elementos orgânicos e eletrônicos, nas dez faixas que compõem o registro. A natureza perene das guitarras, baixos e violinos sofre um processo de compressão e transformação por parte dos sintetizadores: os sons se transmutam em algo diferente, mais obscuro e sombrio do que antes.

Quinto disco dos britânicos que começaram lá em 2005, nessa coisa que a gente não entende muito bem mas ama conhecida como post punk revival, nas palavras do vocalista, Tom Smith é uma progressão do terceiro trabalho da banda. Para mim, que acompanha de fora, a linearidade não é percebida com tanta clareza. Descobri Editors jogando Song Pop tempo atrás e o refrão de “An End Has A Start” ficou ecoando em minha cabeça durante um bom tempo. Não dá pra negar, em contramão, de que a sonoridade da banda foi se tornando mais densa e pretensiosa (com sucesso) ao passar do tempo, culminando nesse conjunto de músicas, em especial, que é sombrio e desolador, assim como o próprio universo adulto.

Depois de perder Chris Urbanowicz, antigo guitarrista do grupo e da recepção apreensiva de The Weight Of Your Love em 2013 por parte da crítica especializada, Editors volta mais seguro do que nunca, com a tentativa de criar um registro capaz de mesclar o caráter pop das músicas com a possibilidade de experimentação. E acertam em cheio. Autoproduzido pela primeira vez, o disco é recheado de músicas que que dosam melodias faceis ou letras acessíveis mesmo sem abrir mão da escuridão e vocais graves de Smith, além de um instrumental bastante cíclico.

É difícil também apontar as inspirações desde trabalho, que poderia ser a trilha de Crusing, 8MM ou qualquer filme de detetive, moderno ou contemporâneo, que lide com um submundo. Nesse mapa astral, lua ou ascendente estão em Escorpião. Ou ambos. Não dá pra negar a inspiração que vem de Joy Division, New Order e até um bom e velho Depeche Mode.

A cada audição o registro ganha forma e nuances. Há espaço para canções leves  e doces como a balada regada a piano “Ocean Of Night”a faixa de abertura, futurística e etérea, “No Harm”, “Salvation” cíclica e marcada pelas percussões ou a urgência da dark wave em “Life Is A Fear”

Com certeza um dos lançamentos favoritos do ano.

OUÇA: O disco todo. De preferência, mais de uma vez.