Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

John Grant – Love Is Magic


Quase se transformando em clichê teórico no meio acadêmico, a expressão crise do masculino vem sendo utilizada para designar o mal estar vivenciado pelos homens que, situados em uma perspectiva centralizada, dominadora e hegemônica, tiveram que gradualmente se haver com as demandas do feminismo e da ascensão da mulher na economia social como um todo, na reconfiguração dos papéis de paternidade, na pluralidade de gênero, entre outros dispositivos desestabilizantes. Dessa forma, os padrões anteriores de como a subjetividade masculina deveria constituir se esboroaram, colocando em cheque ideiais preestabelecidos de masculinidade e ampliando as possibilidades de surgimento de novas maneiras de estar, pensar e sentir se como homem.

O resenhista que vos fala tem a opinião de que, na música pop atual, o cantor e compositor americano John Grant é quem melhor canaliza as angústias masculinas em um conjunto de representações (letras, sonoridade, e as transfigura em uma poética calcada no gauche, na auto-depreciação, no humor negro e ácido). Gay, ex-junkie e soropositivo, o ex-vocalista do The Czars despontou em carreira solo no ano de 2010, com o belíssimo Queen Of Denmark, um registro lo-fi dilacerado sobre suas experiências com drogas, alcool e depressão, passando pelo metálico e impassível e altamente sintetizado Pale Green Ghosts, de 2013, até o belo e mais orgânico Grey Tickles, Black Pressure, de 2015. John Grant compõe sobre a subjetividade masculina, desde sentimentos de rejeição e insegurança (“It’s Easier”, “Queen Of Denmark”, “GMF”), relacionamentos complexos entre homens (“Why don’t you love me anymore?”, “It doesn’t matter to him”); até o envelhecimento (“Grey tickles, black pressure”).

Nesse contexto, John Grant lança agora Love Is Magic, seu quarto álbum de inéditas. Mais enxuto que os anteriores, contendo apenas 10 faixas, o álbum prossegue na exploração de batidas e sons analógicos que deram a tônica de Pale Green Ghosts. Na realidade, trata-se de um Pale mais tímido, reflexivo, voltado para dentro, como um retorno a algo mais íntimo e subjetivo na paleta de sonoridades. “Metamorphosis”, “Love Is Magic” (que remete à sonoridade do Duran Duran), “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go” desenvolvem-se em camadas estratificadas de synths organizadas pelo barítono metalizado do cantor.

Love Is Magic é tão bom quanto Pale Green Ghosts, mas inferior a Queen Of Denmark e Grey Tickles, Black Pressure, álbuns mais densos e com melodias bem construídas. Mesmo assim, este belo trabalho de John Grant está entre os melhores de 2018, para o resenhista que vos fala, grande fã do cantor e compositor americano.

OUÇA: “Metamorphosis”, “Love Is Magic”, “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go”.

Suede – The Blue Hour


Em 2014, o escritor paulistano Santiago Nazarian, um dos nomes mais expressivos da literatura brasileira contemporânea, publicou Biofobia, romance que narra a história de André, um roqueiro decadente de meia-idade que, depois de todos os excessos químicos e etílicos da década de 90, e ao invés de se alinhar às pulsões conservadoras intestinais dessa segunda década de 2000 que assombram o país, volta para a casa da mãe, uma escritora que acabou de cometer suicídio. Em uma prosa modulada e ao mesmo tempo, fluída, Santiago desloca sua figura de escritor para a mãe morta e relata os acontecimentos bizarros a la Stephen King que acontecem com André durante o final de semana.

No início do romance, o narrador descreve o protagonista: “Uma viagem de sessenta minutos, de ônibus. Daí descia na estrada, quilômetro 59, e subia a pé por dois quilômetros de terra. Mochila nas costas. Tênis gastos nos pés. Camiseta do Suede. Indo para a casa da mãe. A mãe se escondia. Dificultava as coisas para quem não tinha carro, como o próprio filho.”

A referência ao Suede no livro do Santiago Nazarian (que aliás é grande fã da banda), é o mote para falarmos do oitavo álbum da banda inglesa, The Blue Hour. Como o protagonista André, o Suede retornou meio cansado à cena depois de um hiato de dez anos, interrompido com o lançamento de Bloodsports, em 2013, e posteriormente Night Thoughts (que o resenhista que vos fala ouviu e achou boring, apesar de muito bem construído).

O Suede sempre foi uma banda à margem do brit-pop que tomou conta das rádios inglesas na década de 90. Diferentemente do pop debochado e irônico da classe média inglesa feito pelo Blur, das canções épicas e majestosas do Oasis pré Brexit ou do cabeçudo Pulp, a banda sempre optou por uma sonoridade menos solar, mais subterrânea, angustiante, flertando com o industrial, um shoegaze discreto e o glam da década de 70. The Blue Hour aparece então ainda nessa perspectiva de retomada, e parece mais interessado na construção de belas melodias (“Mistress”), do que na simples instauração de uma atmosfera penumbrosa, claustrofóbica, marca da sonoridade da banda. Ela persiste, claro, mas agora parece ter várias nuances.

Assim, o dramático prólogo “As one” abre o álbum, com seus riffs, vocais e corais soturnos carmina buranescos crescendo em intensidade, sendo seguido pela linda e assoviável “Wastelands”, a faixa mais palatável do álbum. “Chalk circles” (“círculos de giz”, na tradução, mas nenhuma referência aparente ao Círculo de giz caucasiano de Brecht), com sua parede de teclados, se transforma em um canto gótico sobre uma batida marcial que se quebra repentinamente (lembra o que eu já ouvi de Einstürzende Neubauten). A balada “Life is golden” é a mais brit-pop e noventista de todas, e de alguma forma suaviza o o vocal sorumbático de Brett Anderson. O álbum melhora a partir da segunda metade, e vai ficando mais melódico e palatável, com orquestrações panorâmicas que trazem densidade às faixas, como “The invisibles”, cuja introdução e arranjos remete ao trabalho de Craig Armstrong. O álbum termina com a bela “Flytipping”.

The Blue Hour é um bom álbum, denso, emocional, que talvez peque pelo excesso de material (são 14 faixas). Talvez não agrade os fãs crackudos do Suede (olá, Santiago), mas a banda continua relevante e fazendo bons discos.

OUÇA: “Wastelands”, “Mistress”, “Life Is Golden”, “Tides”, “Flytipping”.

Colleen Green – Casey’s Tape/Harmontown Loops


Já tinha ouvido I Want To Grow Up, trabalho anterior da cantora e compositora americana Colleen Green, em 2015. A capa pink do álbum, com a artista usando um chapeuzinho de festa de aniversário já indicava o conteúdo do disco: um indie pop delicinha e colorido, honesto, direto ao ponto, sem firulas. A fórmula permanece nesse novo trabalho, talvez mais crua, mas não menos divertida.

Bebendo na fonte das grandes mulheres do rock da década de 90, de Kim Deal à Kim Gordon, de Elastica a Luscious Jackson, e no indie rock americano clássico, mais copo-de-sangria e festinha descolada possível, Casey’s Tape/Harmontown Loops não traz uma música ruim que seja. Ainda que peque na uniformidade das faixas (mas convenhamos que o indie rock de universidade não tem lá muito pra onde ir), faixas como “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes”, e a deliciosa “I wanna be ignored” (a meu ver, mais parecida com a sonoridade do álbum anterior), estruturam-se a partir de melodias assoviáveis, redondinhas, que, se estão longe de trazerem algo de novo, cumprem bem a função a que se propõem: punk pop noise bonitinho pra quem tem uma prateleira de livros legais no quarto. Além disso, contando com apenas 9 faixas, é um álbum-pílula, curtinho, que nunca fica boring.

Casey’s Tape/Harmontown Loops poderia muito bem estar na trilha de The Kids Are All Right (no Brasil, Minhas Mães, Meu Pai), filme ótimo da cineasta americana Lisa Cholodenko, lançado em 2010. Bom pra se ouvir num dia bem fresco e ensolarado de setembro.

OUÇA: “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes” e “I Wanna Be Ignored”.

Ólafur Arnalds – re:member


Em 2001, o escritor e jornalista Fábio Massari publicou, pela editora Conrad, Rumo à Estação Islândia, um híbrido de diário, guia de viagem e caderno cultural, que mostrava já no título certo grau de subversão ao parodiar Rumo à Estação Finlândia, petardo marxista do crítico norte-americano Edmund Wilson. O livro de Massari propunha-se a fazer um apanhado informal e despretensioso sobre a cena musical da Islândia, da pulsão punk operária da década de 70 até os minimalismos conceituais da música pop no final da década de 90. Rumo à Estação Islândia é interessante na medida em que apontava essa ilhota gelada na beirada do Circulo Polar Ártico como um centro cosmopolita e irradiador de música e cultura, como foi Seattle para o grunge, a Inglaterra para o brit-pop, e o estado de Pernambuco para o manguebeat.

A cena islandesa, dezessete anos depois, parece bem menos distante da praça global, podendo ser acompanhada com apenas um click. Com a crise na indústria fonográfica gerada pelo compartilhamento de arquivos, os streamings, o advento da informação e as redes sociais, a terra gelada e escura da pequena notável Björk sedimentou-se como um dos lugares mais interessantes quando o assunto é música. Nem mesmo a forte crise econômica que se abateu sobre o país em 2008 deslocou a Islândia de sua epítome de tudo o que é cool, cosmopolita e contemporâneo.

Na realidade, esse efeito de misticismo da Islândia também caiu por terra: descobriu-se que lá não se fazia apenas sons melancólicos e contemplativos, mas também música de várias vertentes. Artistas e bandas como Björk, Sugarcubes, Emiliana Torrini, Sigur Rós, Gus Gus, Arnór Dan, Sóley, Vök, Ásgeir, Muginson, Krauka, Kiasmos, oferecem um depoimento da variedade de sonoridades possíveis do país de origem do Nobel de Literatura Halldór Laxness, do poeta Sjón e do Montanha, de Game Of Thrones.

É nesse contexto de facilidades que se insere Re:member, novo trabalho do compositor e multi-intrumentista Ólafur Arnalds. Como seus conterrâneos Björk, Sigur Rós e Sóley, e diretamente influenciado por Steve Reich, Nico Muhly e Yann Tiersen, Ólafur também opta por uma sonoridade instrumental e experimental, que parece transmitir a atmosfera nublada e primordial dos campos de lava de seu país. No entanto, diferentemente do belo For Now I am A Winter, de 2013, a sonoridade de Re:member está calcada em timbres, texturas e fraseados de piano mais exatos e límpidos como cristais de gelo, ainda que predominantemente melancólicos.

Assim, a linda faixa-título abre o álbum, fraturando-se em dois movimentos: a primeira parte, com pianos e orquestrações reflexivas, e uma segunda, mais ágil e emulando um minimalismo clássico. A cartunística “Unfold”, que vem logo em seguida, poderia estar na trilha de algum filme indie fofinho indicado ao Oscar, tipo Juno ou Pequena Miss Sunshine. A transparência de “Brot”, com suas modulações gélidas de cordas, abre caminho para a grave “Ypsilon”, composta em uma linha de beats massudos e soturnos. A única ressalva ao álbum diz respeito à uniformidade de algumas faixas: “Saman”, “Momentary” e “Nyepi” são muito semelhantes entre si. Outros destaques são “They sink”, “Partial” e “Undir”.

Re:member é um bom álbum, dentro da sonoridade proposta por Ólafur desde seu primeiro trabalho, Eulogy for Evolution, de 2007. E dá o seu recado, numa época em que os sons da Islândia, diferentemente das décadas de 90 e 2000, estão ali, na próxima esquina.

OUÇA: “Re:member”, “Unfold”, “Brot”, “They Sink” e “Ypsilon”.

Natalie Prass – The Future And The Past


A desconfiança e sensação de déja vu podem ser inegáveis quando paramos para ouvir um álbum em cuja capa a artista, vestida de modo retrô sobre um fundo azul, ombros levemente curvados para baixo, franjinha sebosa e expressão de baixa auto-estima blasé (mas que na realidade se acha superior a todos), olha para o espectador, aparentando estar desconfortável. Tudo parece tão forçado, repetido e maçante, que é muito fácil confundi-la com a forçação de barra que é Courtney Barnett e suas camisas xadrez e cabelos espatifados, além do risco de se relegar tal álbum à redução metonímica de “ouça um e terá ouvido todos”. Este porém não é o caso de The Future And The Past, novo álbum da cantora e compositora americana Natalie Prass, cujo debut em 2015 causou certo enfado neste resenhista que vos fala, à época do lançamento. Reouvido agora três anos depois, para a feitura dessa resenha, parece muito melhor e mais bonito.

Assim, depois do elogiado Natalie Prass (2015), considerado um dos 50 melhores daquele ano pelo Pitchfork, a cantora retorna com este The Future And The Past (2018). Como Jano, deus da Roma Antiga cuja face dupla olha ao mesmo tempo para o futuro e o passado, Natalie também parece estar numa posição ambígua entre olhar o que já foi feito e experimentar sonoridades novas. Se o álbum anterior pautava-se na construção de um cancioneiro delicado que flertava com o folk, o indie e o brit-pop, neste a cantora optou por uma mescla de estilos, sedimentando uma sonoridade calcada no soul, funk, pop e R&B. Trata-se de uma opção arriscada, se pensarmos que desde sempre há a maldição do segundo álbum (que na minha opinião passou a se concentrar nos quartos álbuns, mas isso é assunto pra outra resenha).

Apesar deste esforço de investigação de uma nova estética, muitas faixas terminam soando genéricas demais. Logo, as melhores são aquelas que escapam dessa problemática. “Oh My”, faixa que abre o álbum, com sua batida funkeada, remete ao que de melhor fez Prince na década de 80. “Short Court Style”, com baixo e riffs objetivos constroem a base de uma faixa groovada e deliciosamente pop. Em “Sisters”, Natalie parece ter aprendido com Jill Scott o modus operandi de canções pautadas na sutileza e sensualidade da soul music. Ironicamente, o ponto alto do álbum está na bela “Lost”, uma balada que lembra Joan As Policewoman, com seu DNA country e panorama fluído de cordas, e portanto mais parecida com a estreia de Natalie. Outros destaques são a oitentista “Fire” e a interessante “Hot for The Mountains”.

The Future And The Past é um bom álbum pop, que talvez peque na construção de uma sonoridade óbvia, näif demais, como na faixa “Never Too Late” (que poderia muito bem estar na nulidade que é Joanne, último álbum da Lady Gaga). “Nothing To Say” traz pianos datados que os efeitos moderninhos da faixa não conseguem apagar. Natalie Prass também não é exatamente uma grande cantora, mas é uma boa vocalista a seu modo. Sua voz doce e quase teen remete à cantoras da década de 90 que entraram no ostracismo, como Jewel, Sheryl Crow e Paula Abdul. Apesar de excessivamente genérico, vale uma audição.

OUÇA: “Oh My”, “Short Court Style”, “Lost”.

Alexis Taylor – The Beautiful Thing


Franz Kline, terceiro componente da trindade action-painting do expressionismo abstrato americano, ao lado de Jackson Pollock e Willem de Kooning, estruturou grandes telas nas quais as pinceladas largas e imponentes na cor negra estão assentadas sobre fundos brancos, em desenhos toscos influenciados pela pintura oriental que formam pequenos cosmos tortuosos e grotescos, dentro dos espaços de representação. São traços brutos, energéticos e obsessivos, como se Maman (1999), uma das aranhas gigantescas da francesa Louise Bourgeois tivesse se transformado em representações angulosas mais ou menos (des) organizadas. A obra de Kline é conflituosa e intimidante, calcada em um vazio aparente que na realidade se descortina como lugar de construção, de sedimentação da geometria dos sentidos e das percepções, em telas como New York, de 1953, ou Orange Outline, de 1955.

A energia emanada como um dínamo dos murais de Kline funcionaria perfeitamente como representação imagética das batidas, texturas e efeitos gordurosos (em um bom sentido) de The Beautiful Thing, novo álbum solo de Alexis Taylor, o nerd esquisitão por trás da produção e dos vocais do ótimo Hot Chip. Alexis nunca deixou de produzir seu synth pop esquizoide e nem sempre de fácil deglutição, tendo engendrado em carreira-solo Rubbed Out (2008), Await Barbarians (2014), Piano (2016), e agora The Beautiful Thing (2018).

Toda a estrutura sonora do álbum parece calcada em duas dimensões: um plano narrativo mais linear, amparado por batidas e baixos bem marcados, e que encontra espelhamento nas faixas mais tranquilas do álbum. Mas há também uma outra realidade, subjacente à primeira, caótica, desorganizada, barulhenta, e estas duas dimensões se sobrepõem em um palimpsesto coeso de sons.

Assim, “Dreaming About Another Life”, a primeira faixa, abre o álbum com uma linha de baixo eletrônico da qual ramificam-se galhos de texturas que se desmancham. Em seguida o baixo se solidifica em uma bateria perpassada por efeitos espaciais e meio analógicos. Um riff viajante e meio cinematográfico amarra o conjunto. “Beautiful Thing” é a mais synth pop do álbum, com tecladinhos de plástico e sons rugosos que se derramam sobre uma batida ácida, somada ao piano e teclados panorâmicos a partir da metade, colorindo o crescendo da faixa. Soa como um Toro y Moi mais sujo.

A linda “Deep Cut”, resvala do synth pop para uma balada esquizofrênica e propositalmente monótona, trazendo teclados orgânicos, enquanto “Roll On Blank Tapes” soa como um trip-hop feito em 2018, repleto de batidas trôpegas que se encavalam, uma das melhores faixas do álbum.  Outros destaques são “Oh Baby”, um rock indie delicinha de cores sessentistas, e a linda “Out of Time”, que traz riffs distorcidos e viajantes de fundo enquanto Alexis se pergunta: ‘What am I supposed to be?’ Não sabemos, Alexis. Ninguém sabe. Como Pollock, Kline e De Kooning, as batidas e synths parecem mobilizadas de maneira aleatória, sob o plano determinado do acaso. Dessa substância pululante, dessa tectônica sonora, Alexis Taylor surge sem dúvida como um dos melhores álbuns de 2018.

OUÇA: “Dreaming About Another Life”, “Beautiful Thing”, “Roll On Blank Tapes” e “Out Of Time”.

ionnalee – Everyone Afraid To Be Forgotten


Uma estátua branca de mulher nua no meio de uma floresta, imobilizada na metade de um gesto. Esta é a fotografia que estampa a capa do novo álbum da cantora, compositora e performer sueca ionnalee. Analisando-se a imagem, o tronco de árvore à esquerda indica a perspectiva da descoberta por parte do espectador, da revelação inusitada desse objeto cultural moldado por mãos humanas, contrastando com a natureza ao redor, como metáfora do inumano e do inconsciente.

ionnalee é uma artista que teria todos os pré-requisitos para ser fascinante, e arrebanhar uma legião de seguidores hipnotizados. Nascida na gelada e escura Suécia, traz imbuída em sua origem todo o misticismo e melancolia comumente associados à Escandinávia. A própria figura da cantora, fantasmagórica, não-terrena, quase albina, apesar de cuidadosamente construída, agrega mais um componente de interesse nos ouvintes de música ávidos de sonoridades pretensamente novas, contemporâneas, conceituais, avant-garde. Trazendo os mecanismos conceituais da arte contemporânea, para um contexto massificado de produção e consumo de música (olá, Walter Benjamin), quase tudo nos dias de hoje necessita de um conceito que respalde. Apresentando-se ora como iamamiwhoami, ora como ionnalee, a cantora tenta imprimir uma persona protéica e mutante ao seu trabalho, já tendo produzido álbuns como os bons Kin (2012), Blue (2014) e agora este Everyone Afraid To Be Forgotten (2018).

Ionna Lee é talentosa, sem nenhuma dúvida. E muito bem intencionada, musicalmente falando. O problema é que todos os conceitos concebidos para vender Everyone Afraid To Be Forgotten (a insegurança e a impermanência), caem por terra quando se discute a música em si. É como se a cantora se perdesse na tensão real versus imaginário, ou seja, entre o que ela é e o que gostaria de ser, entre o que ela gostaria de realizar, e o que efetivamente pode fazer.

Everyone Afraid To Be Forgotten sofre com essa ambiguidade, inevitavelmente. A faixa de abertura, “Watches watches” começa muito bem, com teclados cristalinos e ondulantes imprimindo a identidade sonora da faixa, plus o inglês macarrônico cheio de sotaque de ionnalee. Mas dura pouco. Em 1:10, a faixa descamba para um refrão e melodia genéricos, como se a artista não soubesse continuar. O tipo de sonoridade calcada no rock continua na segunda faixa, a terrível “Joy”, um pesadelo monótono híbrido de Fever Ray com aquela confusão pós-punk típica, sempre desagradável aos ouvidos, quando mal-feita. Esse hibridismo entre pop genérico e e art pop, entre Pink e Jenny Hval , perdura na maioria das faixas, como “Work”, “Temple” e “Not Humans”.

Os destaques do álbum aparecem quando ionnalee opta pela simplicidade. “Like Hell” é um mantra glacial e onírico que rapidamente degela em batidas adiposas, trazendo sustentação à música. “Samaritan”, de longe a melhor das 15 faixas, traz uma batida potente quase r&b conduzida por um refrão bem chiclete, no melhor estilo anos 80. “Blazing” emula o melhor Röyksopp de álbuns como Junior, enquanto “Memento” constrói uma atmosfera desagregada para em seguida desenvolver-se em um tipo de compasso binário e dançante, pontuado por micro-sons abstratos.

Everyone Afraid To Be Forgotten é um álbum apenas mediano, que traz uma ionnalee mais prometendo do que entregando. Robyn, Röyksopp, The Knife, Karin Andersson e seu Fever Ray (para ficarmos apenas na Escandinávia), produzem álbuns muito melhores, algumas vezes sem qualquer pretensão conceitual, ou persona por trás (e quando o fazem, são mais bem-sucedidos, Karin é o maior exemplo). Perdida nessas ambiguidades conceituais desnecessárias, ionnalee periga se tornar a estátua da capa de seu álbum, emparedada na lacuna que separa Taylor Swift de Marina Abramovic.

OUÇA: “Samaritan”, “Like Hell” e “Memento”.

Buffalo Tom – Quiet And Peace


Uma das possibilidades que a passagem do tempo traz para um artista ou banda é a auto-reflexão: da sequência temporal inicial até o estado onde se está, cria-se uma lacuna para qual o artista pode olhar e avaliar onde chegou em suas premissas estéticas, se foi bem sucedido em suas propostas, se atingiu o maior número de pessoas, etc (caso seja esse o objetivo). É esse percurso tantas vezes inglório que o Buffalo Tom, a mítica banda americana formada em 1987 por Bill Janovitz, Chris Colbour e Tom Maginnis, está fazendo agora: do homônimo álbum de estreia lançado em 1988, até o clássico Sleepy Eyed  (1995), passando Three Easy Pieces (2007), até Quiet and Peace (2018), novo álbum de inéditas após um hiato de mais de dez anos. No álbum, o mesmo garage rock hesitante (em um ótimo sentido) entre a tradição do rock americano alternativo standard, as tintas country, e um apreço pelo melódico, oriundo do folk.

A faixa de abertura, a excelente “All Be Gone” emula a fase ligeira do R.E.M da década de 80 e poderia ser abertura de um seriado juvenil bacana. “Overtime” traz corais gospel, emprestando uma atmosfera redentora à faixa. O belo vocal de Bill Janovitz, oscilando entre Bruce Springsteen, Bob Mould, Michael Stipe e até mesmo um Willie Nelson, talvez mais suave e límpido na modulação das letras. Outros destaques são “Roman Cars” e “Freckles”.

Quiet and Peace é um bom álbum, na categoria mais do mesmo, e não tem nada de mal nisso. É o rock alternativo americano clássico com substância e ‘Hüsker Dü DNA’ fazendo o que faz de melhor. Rock bem estruturado, estradeiro, on the road nas Grandes Planícies Centrais.

OUÇA: “All Be Gone”, “Overtime” e “Roman Cars”

Joan as Police Woman – Damned Devotion


O termo adult contemporary music tem sido usado, nos últimos anos, para designar bandas e artistas cujo apelo radiofônico, operando em clave sonora das décadas de 60 e 70, trazem influências de rock, soul, rhythm & blues, pop, e até mesmo de jazz, ainda que um tanto suspeito. Esta categorização musical se ramifica em várias outras denominações (soft adult contemporary, smooth adult contemporary, etc), tentando dar conta de um espectro amplo de ouvintes de música, na faixa dos 25 a 50 anos.

“Adulto”, no caso, parece referir-se mais à faixa etária dos consumidores desse tipo de música, do que à construção de um repertório de referências mais aprofundado, à apuração dos ouvidos com obras de teor mais complexo, e à capacidade de real espelhamento e imersão interior que a boa música nos possibilita. Se “maturidade” para o adult contemporary significa ouvir Céline Dion, Michael Bublé, Air Supply e Lionel Ritchie (alguns dos artistas identificados com o gênero), então sofre-se na verdade de uma síndrome de Peter Pan, já que a obra destes artistas, a despeito do talento que possuem, consiste em uma permanente e alienante fuga do tema, articulada à indústria, números e streamings.

Artistas como John Grant, Fiona Apple, Tori Amos, Anohni e Sharon Van Etten, emparedados pelo imaginário de suas tragédias particulares, da anorexia à violência sexual, do fim de um relacionamento abusivo a ser um estigmatizado portador do HIV, possibilitam que um ouvinte atento de seus álbuns alcance a experiência de sentir-se adulto, no sentido estrito do termo, já que eles transformaram suas dores pessoais em composições que buscam um tipo de transfiguração poética e estética, atrelada à catarse promovida pela identificação do ouvinte com suas dores privadas. Amadurecer não é uma coisa bonita, e nem fácil. É nessa chave de leitura que se insere Damned Devotion, (2018), o novo e belíssimo álbum da americana Joan Wasser aka Joan As Police Woman, e toda a sua obra.

Joan Wasser é um dos nomes mais significativos do prisma de artistas queer e weird movement, surgidos a partir do início dos anos 2000. Compositores e bandas que discutem sexualidade, fluídez de gênero, etnia, feminismo, e o mundo como praça global híbrida de influências, tendo em artistas como Rufus Wainwright, Devendra Banhart, Anohni e Joanna Newsom, alguns de seus nomes mais importantes. Eles chutam as portas e amarras identitárias e reivindicam espaços, vozes e discursos, respaldados por sonoridades camp, estranhas e únicas.

Damned Devotion, sétimo trabalho de Joan As Police Woman, é um álbum muito bem estratificado, no qual a fusão de influências do indie, soul, urban, folk e jazz conferem arrojo à sonoridade proposta. Baterias bem marcadas, teclados pontudos e programações eletrônicas sujas permeiam todo o álbum, imprimindo gravidade, penumbra e sexualidade melancólica ao conjunto de 12 faixas. Introspecção já prenunciada na bela capa, que apresenta uma perplexa Joan Wasser sobre um fundo negro, encarando o espectador, enquanto segura um ramalhete de flores.

“Wonderful”, faixa de abertura, assenta-se em uma batida quebrada meio trip-hop, como um soul urbano e meio paranoide para ser ouvido num apartamento às escuras. ‘Wonder if I’m ready?’ é o que se pergunta uma Joan propositalmente entediada. “Tell me”, desenvolve-se sobre uma bateria simples e uniforme, flertando com o country-folk e texturas eletrônicas que trazem cor à faixa. Já a linha marcada de baixo da funkeada “Steed (for Jean Genet)” encheria de orgulho o autor de Nossa Senhora das Flores. Mais pianos sorumbáticos e bateria acidentada na linda “Valid Jagger”, cujos backing-vocals preparam um final de faixa condensado em efeitos e texturas.

O álbum se adensa sonoramente a partir da jazzística “Silence”, com seus fraseados graves de piano, e sua dramaticidade atmosférica. O vocal carente e fragilizado de Joan emula Joni Mitchell, Sarah McLahlan, Beth Orthon e até mesmo Nina Simone na envolvente “What It Was Like”, uma das melhores faixas do álbum. Tecnicamente, não há nenhuma faixa ruim, exceto que há momentos nos quais um e outro efeito eletrônico se repete, ou sobram e são preguiçosos como em “Rely On” e “Don’t mind”, faixa que encerra o álbum.

Damned Devotion é um álbum escuro, sensual e reflexivo, para ser ouvido em um jantar com amigos, sofá, vinho, e boa conversa. Mas também em momentos de solidão e algum desespero, tão comuns quando finalmente crescemos e nos tornamos adultos, seja aos 28 ou aos 58. Esses momentos não tardam a chegar.

OUÇA: “Wonderful”, “Tell Me”, “Steed (for Jean Genet)”, “Silence” e “What Was It Like”.