Big Thief — Two Hands



Dentro da indústria musical há algumas possibilidades para que um artista lance dois álbuns no mesmo ano: o fracasso e o conceito são alguns dos cenários iminentes. E, com absoluta certeza, o flop não é a alternativa correta para o caso do Big Thief — banda do Brooklyn que lançou Two Hands, seu novo trabalho, apenas cinco meses após U.F.O.F..

A verdade é que se U.F.O.F era voltado para seres extraterrestres (sendo a explanação da sigla: “unidentified flying object friends”), Two Hands retorna a Terra para falar de nós, seres humanos. ‘I am that naked thing swimming in air / Why does that mean anything?‘ questiona a vocalista Adrianne Lenker na faixa de abertura de Two Hands. O existencialismo presente indica mais ou menos qual o tom das composições no álbum. Mais à frente da canção, Lenker abraça suas incertezas e o acaso de existir quando diz: ‘I don’t want to lock my door anymore / Hand me that cable / Plug into anything / I am unstable / Rock and sing‚ rock and sing‘, produzindo uma belíssima faixa de abertura: sensível, vulnerável e delicada.

Mas não é só sobre existencialismo que Lenker escreve. Na faixa “Forgotten Eyes” ela dialoga com questões sérias como pessoas moradoras de rua e os não ouvidos pela sociedade, segundo entrevista da própria ao Stereogum. A composição, seu refrão, ‘The wound has no direction / Everybody needs a home and deserves protection‘, juntamente aos violões, riffs e bateria mais que orgânica e energética de James Krivchenia, fazem desta canção uma das mais interessantes do trabalho. Lembra um tanto o Real Estate, pode-se dizer.

Voltando ao tema conceito, a delicada faixa-título abraça de uma vez por todas a ideia dos dois álbuns lançados em 2019 serem obras complementares. Two Hands continua a história de dois seres iniciada em U.F.O.F., uma relação entre “celestial” e “terráqueo”, porém sem os clichês de ETs criados e conhecidos por nós. A atmosfera das canções é algo tão natural que encanta. Mas especialmente em Two Hands isso é ultra trabalhado, simplesmente pelo fato do novo CD ser mais orgânico e possuir menos participações de samples e sons sintetizados. Tanto é verdade que é possível ouvir os rastejos dos dedos nas cordas do baixo de Max Oleartchik.

Ainda nos mesmos 39 minutos é possível ouvir a delicadíssima “Wolf”, o primeiro single “Not” — digno de uma performance espetacular ao vivo —, e a dark “Cut My Hair”. A verdade, no entanto, é que nada do que eu fale aqui chegará a preciosidade que é Two Hands. Big Thief é hoje uma grande banda, dedicada, talentosa e curiosa  (Adrianne Lenker é um exímia compositora, sem medo de mostrar sua vulnerabilidade) e a dupla de CDs é só a confirmação disso.

OUÇA: “Forgotten Eyes”, “The Toy”, “Two Hands” e “Not”

Teago Oliveira — Boa Sorte



Teago Oliveira ao longo de 10 anos de carreira da Maglore se mostrou ser um dos melhores compositores da atualidade e ajudou a construir o que hoje chamamos de “nova Bahia”. Em meio às comemorações da primeira década de banda, Teago conseguiu lançar seu primeiro álbum solo. Boa Sorte, lançado dia 17 de setembro pela Deck e pela Natura Musical, conta com 11 faixas repletas de saudade, de crítica e de Bahia.

É bem verdade que o movimento de álbuns solo de grandes compositores à frente de bandas de sucesso no meio pop-alternativo brasileiro pode ter gerado grandes expectativas do público para o trabalho do músico baiano, a exemplo temos Uma Temporada Fora de Mim (2015), do Hélio Flanders, e o super elogiado Recomeçar (2017), do Tim Bernardes. Com isso, a queda do muro da espera existe, mas não chega a doer tanto. Boa Sorte bebe da música brasileira dos anos 1970: divertida, tropical, caetaneosa, jorgebenjosa, e, ainda sim, melancólica, exilada. A impressão que dá é que Teago está exilado em seu próprio país — o compositor reside, há alguns anos, sob as muralhas de concreto de São Paulo —, e esse exílio não vem de uma ditadura militar, como foi o caso dos seu conterrâneos Gil e Caetano (mesmo que, em nossa atual conjuntura política, pareça ser), ou um exílio produtivo, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (2013), mas sim um exílio do ofício de ser músico, de se manter no eixo Rio-SP para ter melhores resultados e menor burocracia. A prova maior disso é a faixa “Longe da Bahia”, que, em sonoridade, lembra “Maracangalha” (1956), de Dorival Caymmi, em um passo lento.

Em “Azul, Amarelo”, faixa de Marceleza de Castilhos, Teago colore de Nordeste o CD: araçá maduro, verão, céu, mar. Inclusive, como nordestina, Boa Sorte é tão gostoso quanto assistir Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, numa sala de cinema. Os ouvidos cansados de vocabulários sudestinos podem respirar nas faixas “Superstição”, música meio à la Marcelo Camelo, e na já citada “Longe da Bahia”, nelas palavras como “chinelo” e “mainha” são um agrado particular. Outros pontos altos do disco são “Oh, Meu Bem”, delicada, dedilhada ao começo, melódica, percussiva e orquestrada, e o primeiro single a ser lançado pelo músico: “Corações em Fúria (Meu Querido Belchior)”. Ambas as canções soam como cartas, a primeira romântica, e a segunda crítica e saudosista. “Corações em Fúria” faz uma colcha de retalhos com algumas canções do compositor-professor cearense, entre elas os clássicos “Coração Selvagem”, “Como Nossos Pais” e “Sujeito de Sorte”. A sétima faixa do disco ainda conta com uma clara menção à “Se Tiver Que Ser na Bala, Vai”, do Vanguart.

O ponto alto do álbum é também o seu ponto baixo: Boa Sorte tem MUITAS referências. A certo passo, parece ter sido difícil filtrar o que entrava no CD ou não (que tem produção do próprio Teago e de Leonardo Marques). As alusões conversam bem entre si, porém fica um pouco difícil sintetizar o que é Teago Oliveira (fora da Maglore) devido ao vasto referencial teórico-artístico. 

No mais, fico muito feliz de ver o meu país Nordeste trazendo bons frutos em tempos tão sombrios. Que mais Erasmos e Gals sejam tocados e cantem suas músicas, assim como os demais brasileiros.

OUÇA: “Oh, Meu BemX”, “Longe Da Bahia”, “Superstição” e “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)”

Lower Dens — The Competition

Quatro anos após Escape From Evil (2015), Lower Dens ressurge com um novo álbum intitulado The Competition, e, dessa vez, o duo de Baltimore parece que conseguiu chegar a um resultado coeso e encorpado. Baseado em temas como capitalismo, relacionamentos, e sentimentos como a raiva, por exemplo, a dupla não-binária (ou trans, como afirmou Jana Hunter — sobre si — no Tumblr em 2015) chegou com um trabalho instrumentalmente mais pesado que seus antecessores.

Em “Young Republicans”, Jana canta: “In every generation / There are those who just don’t fit in” e é assim que The Competition soa: como uma aceitação completa daqueles que não se encaixam nos padrões cristalizados da sociedade. Seja pelas letras, ou pelo uso provocador de sintetizadores, ou até mesmo pela uma oitava abaixo na voz de Hunter (devido ao processo de hormonização). Sendo assim, faixa citada é um extrato do que é o novo trabalho. 

Dito isto, nos 44 minutos de duração do disco há espaço para canções como “Buster Keaton”, uma balada anos 1980, com sintetizadores estelares que fala sobre um romance que surgiu numa tentativa de costurar os lábios, e, claro, não deu muito certo (imagino que nem os lábios nem o relacionamento rs); faixas como “I Drive”, repleta do começo ao fim com super saws e dançante, mesmo que de temática triste; e “In Your House”, uma surpresa simples entre as outras faixas mais recheadas de efeitos sonoros.

Os pontos negativos ficam por conta da tentativa excessiva de se fazer algo no estilo. O som dos anos 1980 é, hoje em dia, inegavelmente um hype e um modelo a ser seguido por muitos. Com isso, The Competition pode se perder diante de tantos e tantos CDs do gênero. No entanto admiro Jana Hunter e Nate Nelson por mostrarem ao mundo exatamente como são e a continuarem exercendo a difícil, mas não impossível, tarefa que é ser no mundo.

OUÇA: “Galapagos”, “Young Republicans”, “Real Thing” e “In Your House”

Adam Green — Engine Of Paradise



Que Adam Green é um cara particularmente “diferente” todos sabemos, contudo o que também pode ser dito dele é que seu trabalho, seja na música, nas telas de pintura ou até mesmo nas telonas do cinema é sincero a ele mesmo. Sendo assim, desde os Moldy Peaches até Engine Of Paradise — seu décimo álbum de estúdio em carreira solo, lançado no dia 6 de setembro de 2019 —, ele pinta um retrato colorido e cartunista de si e do mundo ao seu redor.

Engine Of Paradise aborda, no geral, um tema bastante atual: a relação entre o ser humano e a tecnologia. A faixa título resume essa ideia quando diz: “This world could be a paradise / a 3D model” ou até mesmo “I need you to read the world for me”, confrontando o que as novas tecnologias têm feito em nosso lugar como seres vivos pensantes e o que elas projetam em nossas vidas. O clipe da mesma canção ainda brinca — no estilo cartunista de Green — com grandes multinacionais, redes de fast foods, destruição da natureza e colonização, agregando, portanto, outras perspectivas à composição.

Outro ponto alto do CD é a orquestração em boa parte das canções, fazendo o padrão de composição de Adam Green (violão, bateria, baixo, guitarra e seu inconfundível vocal barítono) adquirir um teor mais encorpado e maduro. Isso pode ser visto na faixa “Freeze My Love”, terceira do disco, clássica ao gênero folk. A canção possui ainda uma vibe infantil (no clipe aparece, inclusive, a filha do artista), e rememora alguns dos trabalhos de Kimya Dawson, sua ex-companheira de Moldy Peaches.

Com pouco mais de 20 minutos, Engine Of Paradise conta com boas participações: Jonathan Rado (do Foxygen) e Florence Welch, queridinha do mundo millennial-alternativo. O álbum, por si, é gostosinho de ouvir. Tem boas composições, letras reflexivas e exóticas, mas não traz surpresas e, por isso, não se sobrepõe a trabalhos anteriores.

OUÇA: “Engine Of Paradise”, “Freeze My Love”, “Rather Have No Thing”.

5 a Seco — Pausa



“Onde eu possa descansar daquilo tudo que já sei / de todo ouro que busquei  / do vício de me reinventar” são os versos compostos por Tó Brandileone e Vinicius Caldeironi no último trabalho do grupo de compositores 5 a Seco após o anúncio da pausa. As linhas da canção sintetizam a decisão do conjunto e a laboração por trás do ser artista.

Pouco mais de um ano após o lançamento de Síntese (2018), o grupo (composto por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni) decidiu que “cada um vai na sua estrada”, como diz “Duas Jornadas”, terceira faixa do disco. A notícia possivelmente pegou de surpresa os admiradores e fãs, e levantou novamente a discussão sobre hiatos musicais

O perfil do álbum é intimista, fraternal e saudoso. Instrumentalmente enxuto, Pausa é composto de, basicamente, voz e violão — salvo algumas aparições de banjos, ukuleles percussões e um belo violoncelo em “Vai Vendo”, composição de Vinicius Calderoni. Iniciado por sua homônima reflexiva, ora misteriosa e dramática, ora envolta em tranquilidade, “Pausa”, como já mencionado, evoca a figura do médico e do monstro, do artista e da canção. “Como Quero Demonstrar”, por sua vez, como boa parte das composições de Leo Bianchini, anima após a ponderação primeira, e traz consigo a carga dos tambores e ritmos estudados por Leo. A atmosfera de despedida volta, na também já citada, “Duas Jornadas”. Seguida da doce dupla “Vai Vendo” e “Vem Ver”. A última, de Pedro Altério, tem sua melodia composta em cima do riff do violão e tem uma aura tão pueril que parece música infantil, influência também da letra — e, por favor, não leve isso como algo negativo, leitor. A metade do CD é marcada por uma canção conjunta: “Coisas Dentro das Coisas” é, possivelmente, uma das melhores do atual trabalho. A música é uma brincadeira com finais, rimas perfeitas e imperfeitas, que, sob alternadas vozes, se transforma de um quebra-cabeças da língua portuguesa a voz uníssona de seus poetas-cantores. Em “Interior”, Tô Brandileone, compositor da faixa e produtor do disco, dialoga com a dualidade dos interiores (o geográfico e o humano), como também aborda mais uma vez no CD o ato da escritura, do transformar causos, sentimentos, ideias, em canção e sobre como esse processo-resultado pode gerar em si e em outros uma espécie de catarse. Ao final do disco, tem-se, ainda, “Outro Big Bang” que representa de maneira caótica a nossa modernidade, sob a base da figura sonora da aliteração; a bossa de Pedro Viáfora, “Centro”; “Invenção”, que por influência da sua pós produção imagino, lembra coisas produzidas por Erasmo Carlos, somadas à boleros radiofônicos; e, por fim, a levíssima, porém poderosa, “O Fio E A Teia”, com sentimentos de comunidade e comunhão.

A metalinguagem, como citado anteriormente, permeia boa parte do derradeiro trabalho. E é, acredito, a perspectiva do fim (ou pausa, por se dizer) que sustenta esse crivo: a análise de cada indivíduo de si e dos outros, bem como o crescimento das composições e a edificação da banda em dez anos de carreira, com certeza, surtiram efeito na construção do disco, construindo possibilidades e temáticas dentro das canções. Com isso, o fim, ou mais corretamente, o hiato — adotado há décadas por diversas bandas nacionais e internacionais como Beach Boys, Novos Baianos e Los Hermanos — permite a grupos musicais a anestesia de novas produções por tempo indeterminado, sejam elas CDs ou turnês. Ultimamente esse recurso tem sido usado comumente para produzir capital na indústria musical, a exemplo: a já mencionada Los Hermanos que se reúne de quatro em quatro anos, mais ou menos, para novas turnês nacionais (e internacionais). Não há como prever, no entanto, se esse será o perfil da 5 a Seco, mas há de se acreditar no desenvolvimento individual desses que a compõe. E, sinceramente, é o que importa.

Por fim, é primoroso avaliar o tamanho amor pela palavra. No mais, fico feliz pelo disco, fico feliz pelo Brasil ter compositores tão bem estruturados e apaixonados nessa seção da música popular. Fiquemos curiosos pelo futuro e continuemos a acreditar no poder da canção e do amor.

OUÇA: “Pausa”, “Vem Ver”, “Coisas Dentro das Coisas” e “Interior”

Camarones Orquestra Guitarrística — Surfers



O fato é: essa vai ser uma resenha um tanto regional e pessoal. Teje dito.

Camarones Orquestra Guitarrística é uma banda de rock instrumental potiguar com mais de 10 anos de carreira, turnês mundiais, passagem pelo Rock in Rio, curtida por alguns ícones do rock brasileiro e com 7 discos de estúdio nas costas (mais 1 ao vivo!). No dia 27 de maio eles lançaram Surfers, pelo Dosol. E por que você nunca ouviu falar nela? Também não sei. 

Conheci Camarones na adolescência. Meu professor de História, na época, era baterista da banda e convidou a turma pra ouvir e tal. Eu me animei, fui a um show no (finado, mas para sempre querido) Dosol Rock Bar e achei daora meeesmo. Surf music, galera animada e apaixonada pelo que faz (grande salve para Ana Morena, rainha das 4 cordas e dos sorrisos!) e um show bem eletrizante. Ao longo do tempo a banda mudou a formação algumas vezes, mas sem perder o que há em seu ventre. A atual Camarones conta com Ana Morena, Anderson Foca (ambos integrantes originais), Yves Fernandes e Alexandre Capilé (aquele do Sugar Kane sim). 

A verdade é que a banda pode ser sintetizada por duas palavras já ditas: rock e energia. O sétimo álbum não é diferente. O cd já se inicia com uma vibe à la batman surfista, com a faixa-título, num conjunto de guitarra + baixo na mesma linha + bateria dançante. Aliás, baixo e bateria fazem a cozinha do Camarones um lugar muito vibrante, coeso, apaixonante (e apaixonado!). “Tromba D’água” lhe deixa com o riff na cabeça, e é perfeita pra meter aquele headbanging no bar inferninho da sua cidade. Para os fãs de Weezer e afins, a mais legal vai ser “Buddy Holliday” (com espaço pra trocadilho com a banda californiana). Em seguida, vem a surpresinha do álbum: “Cartagena”, imersa na América Latina com uma mistura de ska, cumbia, guitarrada e, quem sabe, carimbó. Certamente essa faixa foi criada ou inspirada em uma das passagens da banda pelo norte brasileiro. Ainda pertencem ao cd a faixa com jeitão de RG da Camarones: “Stinky Skunk”; a suingada “Ultralevel”; a alternativa “Ian”; e ”Fortim Auors”, fechando o trabalho. 

E por que escutar Surfers — ou qualquer outro trabalho da Camarones? É fato que a música instrumental vem ganhando, cada vez mais, um espaço no coração dos brasileiros. A exemplo disso temos a também de surf music Beach Combers, a também natalense Mahmed etc. Essa abertura permite um maior dinamismo na música autoral do país, bem como uma maior gratificação e reconhecimento dos selos e gravadoras independentes. E, por último, é um bom álbum! Veloz (20 minutos de duração), caseiro, mas sem deixar de ter seus charmes. Então, vida longa a Camarones!

OUÇA: “Ian”, “Buddy Holiday” e “Cartagena”

Heather Woods Broderick — Invitation



Heather Woods Broderick pode não ser muito conhecida por seu trabalho solo, mas deveria. A multi-instrumentista nascida no Maine já acompanhou muitos artistas, entre eles Lisa Hannigan, Horse Fathers e, sua amiga, Sharon Van Etten. No dia 19 de abril, Broderick lançou seu 3º álbum: Invitation, pela gravadora Western Vinyl.

O trabalho recente brinca com o folk e a música ambiente. Algo que já havia sido explorado no em Glide (2013). A música de abertura — “A Stilling Wind” —, ecoa como o prelúdio do mergulho profundo no universo de Heather. Inicia-se com teclas distorcidas, quase aquáticas, e então surgem camadas e camadas de som: violão de aço dedilhado em looping, a voz serena de Broderick, guitarras e pedais que a reverberam, bumbo marcante, surdo, violoncelo, baixo, violinos etc etc. Tudo cresce e se transforma numa belíssima harmonia.

Aliás, harmonia é que não falta em Invitation, o cd soa como um sonho. Em vezes celestial, outras vezes mais obscuro. A exemplo, temos a já citada “A Stilling Wind” e “A Daydream”, preenchidas de arpejos que nos dão aquele sentimento de maré, levando e trazendo o som e suas sensações. A impressão de mar inerente não é à toa, o álbum foi produzido na costa do Oregon — onde habita a cantora —, conhecido por fazer fronteira com o Oceano Pacífico, por suas pedras e montanhas. Cenário perfeito para a feitura do disco.

Voltando às faixas, “I Try” poderia ser uma música da sua fiel escudeira Sharon Van Etten, tanto do excelente Are We There (2014) ou do atual Remind Me Tomorrow (2019) devido ao combo grand piano + sintetizador + refrão simples e pegajoso. “Quicksand” mostra o quanto Heather é talentosa no seu instrumento de origem, é quase 1 minuto de solo de piano beirando ao etéreo, sustentado por uma orquestra. “Invitation” termina a obra com som de grilos ao fundo e com a narração de um suposto sonho, refletindo a necessidade de aceitação pelo acaso, pelo que se está por vir na vida: “A dream took me last night / into the deeps of the darker satellite / I accepted the invitation”.

O ponto negativo de Invitation pode até não ser tão negativo assim, se comparado lado a lado com a proposta de música ambiente do cd. A voz da cantora é muito delicada e pode soar como insegura às vezes, ou se perder diante da grandiosidade instrumental que ela propõe. Entretanto, não chega a ser insuportável e se encaixa bem no vazio e no eco que é ofertado pelo álbum.

Se você curte Sharon Van Etten, Angel Olsen, Volcano Choir, Julian Baker, você possivelmente irá curtir Heather Woods Broderick em Invitation e nos seus demais álbuns.

OUÇA: “A Stilling Wind”, “A Daydream”, “Quicksand”, “Invitation”


Teen Daze — Bioluminescence



Bioluminescência é a produção de luz por organismos vivos. Peixes, bactérias e vagalumes possuem essa característica, no entanto seria o homem capaz de realizar tal acontecimento? Talvez seja isso que Teen Daze estivesse propondo quando compôs Bioluminescence, seu novo álbum de inéditas.

Que Jamison Isaak tem a natureza como tema principal (nos últimos anos) nós já sabemos. O músico canadense vem explorando o meio em que vivemos em suas faixas desde Glacier (2013) — que para mim, Bárbarah, foi a descoberta deste artista e do gosto pela música eletrônica. Na época eu estava em crise de insônia e ansiedade e o universo chillout de Teen Daze me ajudava a relaxar e a dormir. Mas deixando de falar de mim, Bioluminescence é estritamente instrumental. Diferente do que aconteceu em trabalhos anteriores, em que houve empréstimo de vozes de alguns artistas — como em Themes For A Dying Earth (2017) e em A Silent Planet (2018).

O novo cd começa forte com “Near” e suas sobreposições de strings. E de repente você se imagina assistindo um cardume de peixes passeando magnificamente em um programa como Blue Planet (BBC). Após a efervescência sonora, a faixa vai desaparecendo com o barulho de espuma do mar que dá lugar a solar “Spring”, faixa um pouco mais orgânica devido ao uso de guitarra e — imagino — de uma bateria acústica. Em seguida vem a suingada “Hidden Worlds” e “Ocean Floor” (filha do house), falo já já dela. “Longing” inicia a segunda parte da obra e retorna a vibe da faixa de abertura: acordes em looping, snares tensionados e uma sensibilidade quase etérea. O mesmo acontece com as celestiais “An Ocean on the Moon” e “Drifts”. Por fim, temos “Endless Light” delicada, gotejante e esperançosa.

É admirável o trabalho de Isaak em Bioluminescence, mesmo que esta nova fase esteja mais voltada para o house. Porém é no house que o cd dá uma enjoada. Enquanto na parcela calma as repetições funcionam como mantras, a parcela mais animada soa reincidente demais. A exemplo disso temos a faixa “Ocean Floor” (eu disse que ia falar dela!). Com 7 min e 47 seg, a canção parece exageradamente grande, aos 3 min já dá uma vontadezinha de pular para a próxima.

Em termos de conceito, o trabalho se faz muito coeso. Em diversas faixas podemos perceber centelhas luminosas provenientes da natureza, seja no ambiente terrestre ou no aquático. Isso se reproduz também na capa do disco: a mesma imagem justaposta de um lago e sua vegetação característica. O que poderia ser, muito bem, os habitats naturais desses ecossistemas bioluminescentes.

Teen Daze pra mim é a exemplificação de que música feita no computador com um monte de plug-ins pode ser tão sensível quanto uma orquestra, basta se deixar ouvir. Sendo assim, voltamos à questão inicial do texto: seria o ser humano capaz de produzir luz por si próprio? Devo dizer-lhe que, metaforicamente falando, a música (por mais brega que essa afirmação seja!) é luz, e Jamison Isaak parece estar no caminho certo: produzindo um material de qualidade e sintetizando toda a vida que nos rodeia.

OUÇA: “Near”, “An Ocean On The Moon” e “Drifts”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”