Peter Bjorn and John – Darker Days


Lendo a resenha do Pitchfork do Darker Days, lançado em Outubro passados dois anos do eletrônico Breakin’ Point, percebi que Peter Bjorn and John é um grupo passível do rótulo de banda de um hit só. Embora a dançante e incansável trilha sonora “Young Folks” seja o trabalho mais conhecido da banda, está longe de ser o mais profundo e complexo, estando bem atrás inclusive de faixas menos chiclete do mesmo disco, Writer’s Block.

Os três álbuns seguintes da banda foram de alguns hits e experimentações com música eletrônica (principalmente o anterior ao Darker Days, Breakin’ Point), mas seguem à sombra tanto do hit “Young Folks” quanto do disco Writer’s Block. Com um intervalo de cerca de 5 anos entre Gimme Some (2011), do qual sou muito fã, e Breakin’ Point (2016), Darker Days veio, em algum sentido, como uma surpresa pelo intervalo menor, de 2 anos. A identidade visual segue a mesma desde o Gimme Some: enquanto o disco de 2011 contou com a marcante mão azul de três polegares, Breakin’ Point trouxe a luva do Mickey e o martelo de três cabeças, Darker Days explora a temática da tríade com um triângulo feito de ossos, que remonta a identidade das mãos do Gimme Some.

Levando em conta essa relação das capas entre si, esperei escutar algo mais próximo do Gimme Some do que do Breakin’ Point e, nesse sentido, minhas expectativas foram atendidas. Como fã da banda, senti um conforto no coração nesse movimento. Depois de ouvir o álbum uma vez, pouco atenta, apenas um faixa me chamou atenção a ponto de pegar o celular e olhar o nome: “Wrapped Around The Axle”. Embora pouco impressionada, não me senti decepcionada. Insisti em ouvir mais algumas vezes e, embora o instrumental mais “de volta às raízes” não seja instigante, as letras passaram a chamar atenção.

Darker Days é uma mistura de comentário político-social com reflexões e anseios afetivos e algo de auto reflexão. Com um Bolsonaro recém-eleito, existe algum conforto em perceber que bandas da minha adolescência trazem assuntos atuais do tipo vigilância e big data (ver “Silicon Valley Blues”), embora de uma forma excessivamente explícita.

De modo geral, o retorno ao clima de Gimme Some traz algum conforto e alguma esperança de uma experimentação maior que não passe pela forçação de barra eletropop do Breakin’ Point, mas pelo reencontro com estruturas que ainda podem ser muito bem exploradas. Darker Days pode ser o prenúncio de um novo caminho bastante positivo.

OUÇA: “Heaven And Hell”, “Wrapped Around The Axle” e “Silicon Valley Blues”

The Lemon Twigs – Go To School


É difícil pensar em alguma banda formada nos anos 2000 cujas influências iniciais não sejam calcadas no cânone do rock clássico: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Pink Floyd, Queen e por aí vai. Cada grande banda da virada do milênio com sua especificidade de influências, todos os grandes nomes beberam dos clássicos: de Oasis a Arctic Monkeys no Reino Unido, de Muse a Strokes nos Estados Unidos, todo esse pessoal, em algum ponto de sua formação musical, discutiu com os colegas de banda qual era o melhor disco dos Beatles.

Isso foi especialmente marcante no início dos anos 2000 com as primeiras bandinhas de indie rock dançante, à la Fratellis, The Kooks, The Wombats, cujas raízes nos elementos retrôs desse “rockzinho” eram elementos marcantes, mas pareceu se afastar da produção mais atual no indie-rock-pop, que tira sua firmeza de elementos do início da eletrônica, do punk e de um folk não-acústico, como Hinds, Mac DeMarco, Homeshake e por aí vai. Os elementos de retrô seguem fortes, mas não mais pautados no rock de pai.

Quem vai na contramão dessa onda são os irmãos D’Addario que, sob nome artístico de The Lemon Twigs, lançam seu segundo álbum, Go To School. Fortemente pautado nesse rock clássico, o som dos meninos de 19 e 21 anos me transporta para minha própria adolescência e início de formação musical: discussões pautadas em Beatles x Rolling Stones e uma influência estética forte de Swinging London, uma busca forte por bandas de rock dos anos 70.

Fortemente apoiado em melodias simples, com muito violino, piano e vocais afinados, Go To School aposta em uma narrativa que se estende pelo disco inteiro: a de um macaco adolescent criado por humanos que passa por todos os processos de questionamento (de si, da sociedade, do mundo) que adolescentes humanos. Em letras (e melodias) pouco grudentas, os meninos D’Addario navegam pelas referências de rock clássico com bom humor e leveza, fazendo um disco confortável. Por vezes, a construção do menino macaco se torna um pouco cansativa — e afasta algumas melodias que poderiam ser mais hits pela necessidade de firmar uma progressão narrativa.

A mistura da metáfora simples dos embates sociais e existenciais do macaco e da volta à natureza com o conforto do instrumental “conhecido” por qualquer um que tenha o rock clássico como referência cria um disco que, como foi posto pelo Pitchfork, é perfeitamente adequado à idade e período de vida dos meninos. De caráter performático e meio glamuroso, eles trazem um contraponto interessante à cultura do despojado “feito em casa” que reina na música independente há quase duas décadas — apesar de a gravação do álbum ter ocorrido essencialmente no porão da casa dos pais dos D’Addario, que participam na produção do álbum.

Desde a estréia da dupla com Do Hollywood, em 2016, que já vinha com essa proposta “saudosista” forte, adotada com outras referências por bandas como Whitney, Foxygen e as próprias meninas HAIM, os Lemon Twigs se mostram bastante promissores. Go To School é o encaminhamento do que foi iniciado há dois anos: jovens em busca de uma voz própria em meio a muitas referências variadas e ricas. Porém, assim como o experimentalismo pelo experimentalismo pode ser cansativo, o retrô em excesso é limitado. E, a julgar pelo repeteco de Go To School, pode ser um desafio para os D’Addario vislumbrar novos horizontes e formular uma identidade pautada, bem, neles mesmos.

OUÇA: “The Fire” e “Wonderin’ Ways”

Matt and Kim – Almost Everyday


É sempre um pouco engraçado escutar um disco com letras pesadas sobre morte acompanhadas de melodias alegres. É um estranhamento que parece colocar os assuntos pesados das letras no espectro da positividade, coisa que nem toda banda é capaz de fazer. Por sorte, o duo Matt and Kim, conhecido como uma banda “de festa” justamente pelo instrumental alegre e dançante, conseguiu refletir sobre a vida (e a morte) com leveza no sexto álbum de estúdio, Almost Everyday.

Matt e Kim se conheceram na faculdade, no Brooklyn, e começaram a namorar antes que ela soubesse tocar bateria e que ele soubesse tocar teclado. Foi no segundo álbum da banda, Grand, de 2009, que alcançaram mais sucesso. O duo começou a fazer turnês e se apresentar em grandes festivais, como o Coachella e Bonnaroo. Almost Everyday vem depois da maior pausa que o duo já teve que tirar, consequência de um acidente de Kim durante uma das performances da banda.

Talvez o acidente seja fonte das reflexões das letras de Almost Everyday: já na segunda faixa, “Forever”, Matt, canta a plenos pulmões ‘Não quero viver para sempre nesse mundo de merda‘. Na quarta faixa, “I’d Rather”, Matt canta uma alusão direta ao acidente de Kim no verso ‘I’d rather regret the jumps I’ve made‘, refletindo sobre criar memórias em vez de remoer o passado. Na mesma temática estão “Like I Used To Be”, “Glad I Tried” e “Youngest I Will Be”, tornando o álbum um pouco repetitivo em termos de letra. Músicas como “Happy If You’re Happy”, bem menos carregadas no instrumental que as outras, dão certo respiro ao disco, mas não o suficiente para que não se torne cansativo, apesar de durar apenas 28 minutos.

De modo geral, Almost Everyday não é uma ruptura com a sonoridade usual de Matt and Kim, nem com a estrutura de letra e música, nem uma experimentação em nenhum sentido. Mesmo falando sobre vida, morte, envelhecimento e memória, Matt and Kim não surpreendem. Eles são uma banda que insiste em alguns elementos do indie pop que estão um pouco desgastados: sintetizadores carregados, elementos infantis (pianinho, sons meio escolares, contagens), vocais muito “gritados” e uma necessidade de fazer toda a qualquer canção ser dançante. Passados 14 anos e 6 álbuns, Matt and Kim parecem estão envelhecendo mal, principalmente, por tentar não envelhecer.

OUÇA: “Intro”, “Happy If You’re Happy” e “All In My Head”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.

Gengahr – Where Wildness Grows


Saída da mesma leva de bandas londrinas de meados de 2013 que nos trouxe Wolf Alice, Gengahr é algo como o primo de menos sucesso e trabalho parecido. Com o primeiro álbum lançado em 2015, mesmo ano de lançamento do debut do Wolf Alice, Gengahr — cujo nome é, ao que tudo indica, realmente pensado a partir do Pokémon Gengar — conseguiu uma crítica bastante positiva da NME e uma média de 79 de 100 no Metacritic.

Em 2015, A Dream Outside já vinha com notas de ressaca do indie rock britânico que passamos os anos 2000 escutando: som simples, fortemente apoiado em guitarras e uma voz de falsetto gostosa de ouvir. Mesmo sem trazer nenhuma novidade musical, Gengahr toou certo status e fez algum sucesso.

Três anos depois, Gengahr volta com “Where Wildness Grows”, um álbum com 48 minutos de duração distribuídos em 12 faixas que apostam nessa exata mesma fórmula de guitarra e falsetto. Só que agora a ressaca do indie bateu forte.

Com poucas faixas marcantes, Where Wildness Grows é mais um álbum de indie rock com tons de psicodelia que veio ao mundo pronto pra ser irrelevante em menos de um ano. Apesar de não trazer elementos novos em comparação ao “A Dream Outside”, não é um álbum ruim: as letras são bastante ok, os arranjos não irritam os ouvidos, o falsetto delicado continua agradável. Mas essa fórmula não é mais suficiente para me fazer querer ouvir um álbum mais de uma vez.

Em 2015 o combo guitarra-falsetto parecia ter tomado um fôlego que rendeu alguns hits chiclete para toda essa leva de bandas (She’s a Witch pro Gengahr, Bros para Wolf Alice), mas isso não foi suficiente para sustentar mais um álbum enquanto peça relevante por si. Where Wildness Grows não me fez querer outro álbum do Gengahr.

Talvez os meninos do Gengahr precisassem apostar para além da cena indie e tentar emplacar algo mais pop à la Wolf Alice. Talvez eles precisassem mudar o som e tentar algo menos saturado. Talvez a gente precise reconhecer que nem todo ovo que a NME babou em 2015 mereça atenção ainda hoje.

OUÇA: “Before Sunrise” e “Rising Tides”

Bahamas – Earthtones


É sempre um pouco engraçado quando escutamos músicas alegres com letras tristes. Como se numa aceitação de que é tudo bem ficar triste e melancólico, o quarto álbum de Afie Jorvanen sob o nome artístico de Bahamas é perfeito como trilha sonora de uma tarde de sol bem preguiçosa com alguns momentos dançantes. Earthtones, lançado 4 anos depois do álbum anterior de Jorvanen, Bahamas Is Afie, é perpassado por um groove bem suave, por um coro em harmonia relaxante e por letras melancólicas.

Esse groove, puxando o folk de Jorvanen para um R&B, ficou por conta da participação de Pino Palladino e James Gadson, que colaboraram com D’Angelo. As batidas são bem simples e limpas, remetendo a um funk suave gostoso de ouvir. Soa bastante como um Vulfpeck mais light com letras que vão de coração partido à crítica social engraçadinha, que dá um tom mais atual ao álbum, como na faixa “Opening Act” (‘Now the music is free and you can’t blame me/ Blame the internet‘). Com letras e ritmos simples e suaves, é bem difícil se incomodar com qualquer elemento desse álbum.

Talvez por isso, apesar de bom, não seja um trabalho particularmente memorável. Com 11 faixas distribuídas em 45 minutos de disco, Earthtones é bem morno: fora o pseudorap “Bad Boys Need Love Too” é bem difícil diferenciar uma faixa da outra e o álbum não tem pontos particularmente altos. É uma vibe gostosa, o som é bem feito, é relaxante. Em comparação com trabalhos anteriores, principalmente Barchords, de 2012, soa mais profissional e adulto. Não que isso seja um ponto necessariamente positivo.

OUÇA: “Opening Act”, “No Expectations” e “So Free”

Viva Brother – II


Lembro que escutei o som do Viva Brother pela primeira vez 2012, sem criar grandes vínculos com a banda. Por um tempão fiquei com “Darling Buds Of May” na cabeça, mas nunca fui muito além disso. Naquela época eu não me ligava muito em acompanhar bandas por álbuns, muito menos em ler resenhas de álbuns escritas em NME, Spin e Pitchforks da vida.

Em 2017, votei pra resenhar o Viva Brother numa proposta de ouvir o primeiro álbum direito e entender melhor qual era a da banda pra além do hit de 2011. Embora o II, lançado depois de um período de separação da banda, demonstre avanços consideráveis em relação ao Famous First Words, segue a fórmula de ser uma releitura sem grandes novidades do que foi o britpop do Pulp e Blur.

II não recebeu atenção de praticamente nenhum veículo de música. Depois de Famous First Words conseguir ser classificado abaixo de 3 de 10 pontos no Pitchfork, II sequer ganhou resenhas. A NME também escolheu ignorar a tentativa de reunião dos ingleses de Slough.

Com 11 músicas em sua maioria curtas em uma pegada ainda bem firme de britpop, II não traz novidades, nem grandes hits: a mais tocada do Spotify, “Bastardo”, mal passa os 75 mil streams. As outras mais ouvidas mal batem os 10 mil streams. Não que a popularidade necessariamente indique que uma banda é boa ou ruim, mas, para a proposta de um rock acessível, faz sentido que ele seja minimamente acessado. Nesse sentido, II deixa a desejar: não tem a inovação musical que justificaria a impopularidade e não faz o sucesso que justificaria a fórmula cansada do rock britânico do fim do século passado.

Com uma fórmula batida e uma composição geral bem genérica, o melhor é fingir que a reunião do Viva Brother não aconteceu e focar nas outras (muitas) coisas legais lançadas em 2017.

OUÇA: “Womankind”. É divertidinha.

Charlotte Gainsbourg – Rest


Apesar de nascida no berço de ouro das artes, Charlotte Gainsbourg teve uma vida familiar permeada por tragédias e polêmicas. Filha de ninguém menos que Serge Gainsbourg e Jane Birkin, a atriz e cantora perdeu o pai aos 19 anos e uma das irmãs, vítima de suicídio, em 2013. Rest, seu quinto álbum de estúdio, é, de certa forma, uma descarga das tristezas causadas por esses episódios.

Produzido pelo DJ francês SebastiAn e com colaborações de Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk) e Paul McCartney, Rest é com certeza o álbum mais honesto e pessoal de Charlotte. Pela primeira vez, a artista optou por fazer ela mesma as letras da maioria das músicas. Embora tenha afirmado em entrevistas que a produção do álbum não foi em si um processo terapêutico, faixas como “Lying With You”, “Rest” e “Kate” abordam diretamente as mortes de seu pai, Serge, e sua irmã Kate.

A faixa de abertura, “Ring-A-Ring O’Roses”, é uma preparação arrastada para a carga dramática que a primeira metade do álbum nos reserva. Com sintetizadores bem marcados, me pergunto se, apesar de extremamente pessoal em suas letras, Rest não passou por uma produção excessiva.

As cinco faixas em seguida da abertura dão o tom do álbum: algumas totalmente em francês, como a marcante “Kate”, outras alternando o francês com trechos de inglês, sintetizadores que seguem dramáticos e pesados e o tom autobiográfico nunca antes visto nos trabalhos de Charlotte.

A proposta bilíngue chama a atenção. A jogada que sintetiza esse trabalho está na faixa que dá título ao álbum, “Rest”. Se em inglês a palavra rest evoca o descanso, remetendo às mortes de seu pai e irmã, na faixa “Rest”, Charlotte pede: ‘Reste avec moi s’il te plâit’, no que se traduz “fique comigo por favor”. Os sussurros que embalam a faixa me remeteram imediatamente a “Je t’Aime… Moi Non Plus”, trabalho mais famoso feito em conjunto pelos pais da cantora.

Mesmo permeado por questões familiares vinculadas com perdas e mortes, Rest tem pontos mais alegres, como as dançantes “Sylvia Says” e “Songbird In A Cage”, refletindo sobre maternidade e outras celebrações daquilo que ficou.

Porém nem sempre a tristeza é garantia de profundidade. Rest, mesmo sendo o trabalho mais autoral e honesto de Charlotte até agora, soa forçado, superficial. Talvez as colaborações de peso tenham sido, bem, excessivamente pesadas. Depois de uma vida repleta de música e vários álbuns lançados, Rest poderia ser mais refinado e representativo de quem é Charlotte Gainsbourg.

OUÇA: “Ring-a-Ring O’Roses”, “Kate”, “Deadly Valentine” e “Sylvia Says”.

And So I Watch You from Afar – The Endless Shimmering


O som dos irlandeses da And So I Watch You From Afar nunca foi meu estilo. Não sou fã do instrumental principalmente baseado em guitarras mais pesadas, nem do clima geral das músicas. Além disso, depois de um primeiro álbum fortíssimo, a banda lançou dois álbuns mornos e um completamente frio. Fui ouvir o quinto, The Endless Shimmering, com um pé atrás e preguiça.

E fui pega de surpresa.

Como mencionei, desde 2009 ASIWYFA lançou 5 discos: um forte, dois medianos, um fraco e The Endless Shimmering. Se a trajetória da banda fosse mais sólida, The Endless Shimmering não seria uma surpresa. Mas além de ser um bom álbum em comparação com os anteriores, é um bom álbum por si.

Ao longo das 9 faixas distribuídas em 44 minutos, The Endless Shimmering é carregado de camadas e de intensidade nos arranjos. Por conta disso é o tipo de álbum que dá para ouvir mais de uma vez sem se tornar repetitivo. Ao mesmo tempo, traz um ar de que foi feito entre amigos, sem a necessidade de impressionar terceiros – o que é bastante impressionante levando em consideração os trabalhos anteriores.

Gravado ao vivo durante um retiro de 9 dias, The Endless Shimmering foi definido pelo And So I Watch You From Afar como um “retorno à forma”. Em algum grau, talvez eles mesmos reconheçam que os três álbuns anteriores a esse foram um desvio das intenções iniciais do projeto. Porém, faixas como “Mullally” ficam perigosamente na linha tênue entre o retorno e a repetição da fórmula. Felizmente, a grandiosidade de outras músicas, como “Dying Giants”, afasta essa possibilidade.

De modo geral, The Endless Shimmering não é explosivo, nem uma obra de arte imperdível. É um álbum sólido que pode anunciar o retorno às (boas) raízes de uma banda que tem tudo para se estabelecer como referência de post-rock.

OUÇA: “Terrors Of Pleasure”, “Dying Giants”, “All I Need Is Space” e “The Endless Shimmering”.

St. Vincent – MASSEDUCTION


Não lembro por que motivo votei (no YMD a gente decide as resenhas no voto) para fazer a resenha do MASSEDUCTION. Acho que foi empolgação por voltar a escrever pro blog depois de uns anos fora. Mas a real é que, além de não ser fã de St. Vincent, eu não tinha ouvido nenhum álbum dela com atenção. Mas, sei lá, várias pessoas votaram nesse álbum, nunca que eu ia acabar fazendo essa resenha.

Risos. Cá estamos.

Talvez seja muito bom eu ser a pessoa que faz uma resenha da St. Vincent justamente por não ser fã dela (até agora). Eu não tinha nenhum apego com a obra e ouvi o MASSEDUCTION antes dos outros álbuns.

Marcando 10 anos desde o lançamento do primeiro álbum enquanto St. Vincent, MASSEDUCTION é o quinto álbum de estúdio da multi-instrumentista Anne Clark. Com uma média de 88/100 no site Metacritic, um ponto atrás do homônimo St. Vincent, lançado em 2014 e vencedor do Grammy de Melhor Álbum Alternativo, eu esperava por um álbum bem mais experimental e complexo do que encontrei, dado o histórico.

Se até agora Annie Clark era aclamada como nome do “art-rock” — vi veículos como Pitchfork e New York Times a compararem com o camaleão David Bowie — MASSEDUCTION cria uma distância significativa em direção ao pop — e bem mais caótico.

Produzido por Jack Antonoff, nomão do pop por trás do Fun. e do Melodrama, MASSEDUCTION é composto por 13 faixas de letras bem mais diretas e confessionais que os trabalhos anteriores de Clark. Conectadas mais pela mensagem das letras que pelo som, as músicas são o recado de Anne sobre a entrada no mundo pop. Antes considerada bem “fechada”, a artista se viu no centro dos holofotes a partir de 2015, por namorar as atrizes Cara Delevigne e Kristen Stewart, ambas assunto recorrente em tablóides. A esperteza do álbum entra nessa jogada meio metalinguística de usar do som escandalosamente pop para criticar o mundo pop.

Se o som ficou mais pop e cheio de elementos, as letras ficaram mais diretas e mais tristes. Não acho que essa tristeza tenha adicionado complexidade e profundidade às letras e aos arranjos, mas deixa clara a mensagem: a fama trouxe o caos à obra de Clark. Em “New York”, ela discorre sobre a solidão e o abandono — tema que retorna em “Los Ageless”. Em “Pills”, faixa de som mais brincalhão do álbum, Clark fala sobre o uso de medicamentos em todas e qualquer circunstância, temática que volta em “Young Lover”, com a alusão a uma overdose causada por essas mesmas pílulas.

Como mencionei no começo do texto, até fazer a resenha, eu não era particularmente fã da St. Vincent, da Annie Clark e nem tinha ouvido nada dela com atenção. Me senti na obrigação de escutar o resto da discografia dela depois do MASSEDUCTION e acho que foi isso que causou meu desconforto com o álbum. É um salto bem grande do St. Vincent, que achei uma obra de arte. É um salto em uma direção paralela ao que costuma me agradar de primeira.

MASSEDUCTION, porém, é um salto que aprofunda a mensagem que Clark parece querer passar com a sua obra como um todo: é possível ser um indivíduo hoje, mesmo que suas dores e ansiedades venham dos mesmos lugares que as de todos os outros.

Talvez não apesar disso, mas principalmente por isso, mesmo indo em direção a um pop mais genérico, St. Vincent tenha entregado (mais um) trabalho único, mas universal.

OUÇA: “Pills”, “Savior”, “Los Ageless”, “Slow Disco”.