Foxygen – Seeing Other People


Não é justo tentar comparar minha relação com bandas e a minha relação com pessoas, mas a tentativa de forjar uma trajetória propositalmente “falida” e tornar isso uma piada praticamente não me deixam opção: talvez o Foxygen esteja Seeing Other People para fazer esse disco e tenha, dessa forma, encerrado uma relação consigo mesmo nesse processo de ampliação de referências.

Foxygen, como outras bandas tipo The Lemon Twigs, faz do rock anos 60-70 sua principal referência. Como aconteceu quando fiz a resenha do Go To School, tenho alguma preocupação pelo futuro de uma banda cujas referências estão majoritariamente em um passo que é bem exaustivamente visitado no indie rock. Não porque isso seja um problema, na verdade, é impossível fugir disso, de fato, mas porque isso coloca um limite nos trabalhos. Em alguma medida, e correndo o risco de soar especulativa, Seeing Other People parece a ida inevitável em direção ao glam rock que seria capaz de ao mesmo tempo manter uma trajetória coerente para o Foxygen (e impedir a total exaustão dos fãs caso a banda insistisse ainda mais no referencial “Velvet Undergroundesco”) e indicar o fim de uma era que define o estilo da banda como um todo.

Porém, em Seeing Other People, essa trajetória não soa natural, soa apenas inevitável e, em alguma medida, melancólica e cômica. Em alguns momentos (como na faixa-título “Seeing Other People”) isso parece extremamente caricato de si mesmo, como se o Foxygen estivesse fazendo um cover de Foxygen com um baixo forte e bem cheio de swag. Não soa nada mal quando coloco nesses termos, mas soa surpreendentemente cômico quando se escuta de fato.

Apesar de tudo isso, as músicas não são ruins e é um disco divertido. “Work” e “Face The Facts” trazem alguns elementos cômicos em suas letras e, junto da presença forte de um piano otimista e que tem sons de auto superação, montam uma imagem irônica de rockqueiros em fim de carreira para Seeing Other People.

O problema é: fica impossível saber até que ponto essa performance de fim de carreira é algo que pode ser uma piada engraçada que vai ser seguida por um próximo álbum a nível We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic ou se vai indicar, de fato, o esgotamento total do Foxygen. Vamos aguardar.

OUÇA: “Work”, “Seeing Other People” e “Face The Facts”

Avey Tare – Cows On Hourglass Pond


Em fevereiro, pude resenhar Buoys, o sexto álbum solo de um dos membros do Animal Collective, e percebi diálogos, inevitáveis, com outros processos e com a história da banda. Agora, posso resenhar Cows On Hourglass Pond, novo álbum de outro dos Animal Collective, Avey Tare (ou David Portner). Assim como foi inevitável para mim associar e comparar muito do solo Buoys a trabalhos do Animal Collective — com os quais Noah Lennox não necessariamente estava envolvido — vejo enormes paralelos possíveis entre Cows On Hourglass Pond e álbuns antigos do Animal Collective.

Mas se para a resenha de Buoys fiz algum esforço para driblar a (indevida) relação entre esse lançamento e o recente álbum visual Tangerine Reef, do Animal Collective, do qual Noah Lennox não participou, posso tomar a liberdade de comparar — e, mais importante, de distanciar — livremente o homogêneo Tangerine Reef de Cows On Hourglass Pond, novo disco de Avey Tare.

Como se mostra constante no trabalho do Animal Collective e de seus membros individualmente, existe uma preocupação, um tipo de vínculo, criado com o que se entende por natureza e Cows On Hourglass Pond não fica atrás nesse sentido. Permeado pela figura das vacas e cavalos desde a capa, título e todo o material promocional, até faixas explícitas, como “HORS_”, sinto que, ao contrário do sufocante e sem graça Tangerine Reef, uma reflexão audiovisual sobre recifes de corais, Cows On Hourglass Pond nos coloca em perspectiva.

Amplamente influenciado por beats de early techno, o disco mistura essa base ao violão meio “percurssionado” que marca outros trabalhos do Animal Collective, como Sung Tongs sendo o exemplo mais óbvio e “The Meeting of the Waters” a referência à natureza e ao etéreo mais inevitável, em contraponto a trabalhos mais frenéticos como Merriweather Post Pavilion, Paiting With ou Strawberry Jam. Em grande medida, a tentativa de Avey de criar uma atmosfera de natureza respirável é bem sucedida, principalmente, não pelo afastamento dessa onda “frenética”, mas pelo uso cuidadoso dessa possibilidade de forma não tão agressiva: com seus vocais de altos e baixos menos gritados e com o violão.

O arranjo musical de estranheza sutil e delicada combina com muito do que se traz nas letras, em um acordo com a contemporaneidade que só Avey, sozinho ou com o Animal Collective, consegue trazer sem soar forçado. Avey estabelece diálogos com a natureza não por uma negação do contraponto a ela, mas por pequenas interferências reflexivas sobre o a complexidade do descanso, evidente em “Saturdays (Again)”, sobre máquinas, robôs em “K.C. Yours”, e muito sobre memória, amizade, nostalgia. Anseios muito subjetivos misturados a anseios muito coletivos que, por algum motivo, funcionam e se equilibram.

É fácil para mim elogiar qualquer coisa que qualquer membro do Animal Collective faça. É um som que me pega em um nível que poucos outros conseguem. São essas pequenas estranhezas, piadas equinas, referências cômicas entrelaçadas com melodias emotivas, complexas e cheias de camadas que criam um ambiente ao qual é fácil me entregar. Então, entregue de novo, escutem Cows On Hourglass Pond e aproveitem.

OUÇA: “HORS_”, “What’s The Goodside?” e “Saturdays (Again)”

Xiu Xiu – Girl With Basket Of Fruit



Há algumas semanas escutei pela primeira vez Girl With Basket Of Fruit. Desde então tenho ensaiado como começar essa resenha, inevitavelmente passando por uma fase de “se você odeia barulhos desesperadores NÃO ESCUTE ESSE DISCO”. Acabei me impedindo de fazer isso porque, claro, seria desonesto com o trabalho do duo californiano Xiu Xiu: o trabalho experimental deles é, essencialmente, barulhos desesperadores.

Isso não é uma crítica fechada em si. Eu adoro barulhos desesperadores em muitos outros contextos — e outros álbuns do Xiu Xiu. Mas dessa vez alguma coisa desandou.

Fundada em 2002 e com 14 discos lançados, Xiu Xiu começou sua carreira musical apostando na desconstrução da formação musical tradicional de uma banda da cena alternativa: a base era feita por uma bateria eletrônica e complementada por instrumentos não convencionais, como instrumentos indígenas norte-americanos, violões mexicanos e por aí vai. Tudo isso permeado por uma dose de letras e performances tristes, desoladoras e devastadoras, que beiram uma espécie de violência não-física.

Sabendo de tudo isso, aceitando tudo isso, gostando de tudo isso, escutei a Girl With Basket Of Fruit esperando pelo Xiu Xiu altamente aclamado de Angel Guts, aquele que me fez escutar e aceitar e gostar de vivenciar esse desespero e tristeza que permeiam a trajetória da banda — e a trajetória pessoal do fundador Jamie Stewart.

Composto por 9 faixas somando tímidos 36 minutos, Girl With Basket Of Fruit é muito menos melódico e pop do que seu antecessor FORGET, trazendo os barulhos digitais frenéticos como espinha dorsal do disco, não apenas como um elemento, como em FORGET. A consistência, beirando a repetitividade, das faixas entre si faz com que o disco soe como um bloco de barulho e informação, como se por 36 minutos fossemos sugados por um vortex — e saíssemos dele intactos, só um pouco tontos.

Girl With Basket Of Fruit impressiona pela violência e intensidade musical, como Xiu Xiu já impressionou antes (os vocais da saturadíssima “I Luv the Valley OH!” ainda me impressionam depois de anos). Mas tudo que a agressividade do disco possibilita de violência quando se escuta, ela deixa de lado em termos de não se fazer esquecer. Depois de escutá-lo pela primeira vez há algumas semanas, precisei escutar mais duas vezes enquanto escrevia a resenha para ter certeza de que não deixaria detalhes de lado.

Para além da leve tontura, Girl with Basket of Fruit é um disco que não me causou muita coisa. Não causou boas impressões, não possibilitou boas reflexões e será rapidamente esquecido. O disco não traz a profundidade que marca a trajetória das letras e composições do Xiu Xiu, costumeiramente marcadas por comentários crus sobre política contemporânea e isolamento social e emocional e se perde em si mesmo.

Para uma banda como Xiu Xiu, que não tem constrangimentos ou amarras em se utilizar do que existe de mais visceral na música e composição experimental para fazer uma impressão livre da necessidade de apenas impressionar e desafiar, esse disco é perturbador. Mas vazio. É como uma pancada na cabeça: vai doer. E vai passar.

Para uma banda que já foi capaz de fazer profundas cicatrizes com sua humanidade crua e visceral, uma pancada na cabeça com uma bateria eletrônica frenética é pouco demais para se levar em consideração.

OUÇA: “Amargi ve Moo”, “Pumpkin Attack on Mommy and Daddy”, “Normal Love”, “The Worst Thing”

Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”

Peter Bjorn and John – Darker Days


Lendo a resenha do Pitchfork do Darker Days, lançado em Outubro passados dois anos do eletrônico Breakin’ Point, percebi que Peter Bjorn and John é um grupo passível do rótulo de banda de um hit só. Embora a dançante e incansável trilha sonora “Young Folks” seja o trabalho mais conhecido da banda, está longe de ser o mais profundo e complexo, estando bem atrás inclusive de faixas menos chiclete do mesmo disco, Writer’s Block.

Os três álbuns seguintes da banda foram de alguns hits e experimentações com música eletrônica (principalmente o anterior ao Darker Days, Breakin’ Point), mas seguem à sombra tanto do hit “Young Folks” quanto do disco Writer’s Block. Com um intervalo de cerca de 5 anos entre Gimme Some (2011), do qual sou muito fã, e Breakin’ Point (2016), Darker Days veio, em algum sentido, como uma surpresa pelo intervalo menor, de 2 anos. A identidade visual segue a mesma desde o Gimme Some: enquanto o disco de 2011 contou com a marcante mão azul de três polegares, Breakin’ Point trouxe a luva do Mickey e o martelo de três cabeças, Darker Days explora a temática da tríade com um triângulo feito de ossos, que remonta a identidade das mãos do Gimme Some.

Levando em conta essa relação das capas entre si, esperei escutar algo mais próximo do Gimme Some do que do Breakin’ Point e, nesse sentido, minhas expectativas foram atendidas. Como fã da banda, senti um conforto no coração nesse movimento. Depois de ouvir o álbum uma vez, pouco atenta, apenas um faixa me chamou atenção a ponto de pegar o celular e olhar o nome: “Wrapped Around The Axle”. Embora pouco impressionada, não me senti decepcionada. Insisti em ouvir mais algumas vezes e, embora o instrumental mais “de volta às raízes” não seja instigante, as letras passaram a chamar atenção.

Darker Days é uma mistura de comentário político-social com reflexões e anseios afetivos e algo de auto reflexão. Com um Bolsonaro recém-eleito, existe algum conforto em perceber que bandas da minha adolescência trazem assuntos atuais do tipo vigilância e big data (ver “Silicon Valley Blues”), embora de uma forma excessivamente explícita.

De modo geral, o retorno ao clima de Gimme Some traz algum conforto e alguma esperança de uma experimentação maior que não passe pela forçação de barra eletropop do Breakin’ Point, mas pelo reencontro com estruturas que ainda podem ser muito bem exploradas. Darker Days pode ser o prenúncio de um novo caminho bastante positivo.

OUÇA: “Heaven And Hell”, “Wrapped Around The Axle” e “Silicon Valley Blues”

The Lemon Twigs – Go To School


É difícil pensar em alguma banda formada nos anos 2000 cujas influências iniciais não sejam calcadas no cânone do rock clássico: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Pink Floyd, Queen e por aí vai. Cada grande banda da virada do milênio com sua especificidade de influências, todos os grandes nomes beberam dos clássicos: de Oasis a Arctic Monkeys no Reino Unido, de Muse a Strokes nos Estados Unidos, todo esse pessoal, em algum ponto de sua formação musical, discutiu com os colegas de banda qual era o melhor disco dos Beatles.

Isso foi especialmente marcante no início dos anos 2000 com as primeiras bandinhas de indie rock dançante, à la Fratellis, The Kooks, The Wombats, cujas raízes nos elementos retrôs desse “rockzinho” eram elementos marcantes, mas pareceu se afastar da produção mais atual no indie-rock-pop, que tira sua firmeza de elementos do início da eletrônica, do punk e de um folk não-acústico, como Hinds, Mac DeMarco, Homeshake e por aí vai. Os elementos de retrô seguem fortes, mas não mais pautados no rock de pai.

Quem vai na contramão dessa onda são os irmãos D’Addario que, sob nome artístico de The Lemon Twigs, lançam seu segundo álbum, Go To School. Fortemente pautado nesse rock clássico, o som dos meninos de 19 e 21 anos me transporta para minha própria adolescência e início de formação musical: discussões pautadas em Beatles x Rolling Stones e uma influência estética forte de Swinging London, uma busca forte por bandas de rock dos anos 70.

Fortemente apoiado em melodias simples, com muito violino, piano e vocais afinados, Go To School aposta em uma narrativa que se estende pelo disco inteiro: a de um macaco adolescent criado por humanos que passa por todos os processos de questionamento (de si, da sociedade, do mundo) que adolescentes humanos. Em letras (e melodias) pouco grudentas, os meninos D’Addario navegam pelas referências de rock clássico com bom humor e leveza, fazendo um disco confortável. Por vezes, a construção do menino macaco se torna um pouco cansativa — e afasta algumas melodias que poderiam ser mais hits pela necessidade de firmar uma progressão narrativa.

A mistura da metáfora simples dos embates sociais e existenciais do macaco e da volta à natureza com o conforto do instrumental “conhecido” por qualquer um que tenha o rock clássico como referência cria um disco que, como foi posto pelo Pitchfork, é perfeitamente adequado à idade e período de vida dos meninos. De caráter performático e meio glamuroso, eles trazem um contraponto interessante à cultura do despojado “feito em casa” que reina na música independente há quase duas décadas — apesar de a gravação do álbum ter ocorrido essencialmente no porão da casa dos pais dos D’Addario, que participam na produção do álbum.

Desde a estréia da dupla com Do Hollywood, em 2016, que já vinha com essa proposta “saudosista” forte, adotada com outras referências por bandas como Whitney, Foxygen e as próprias meninas HAIM, os Lemon Twigs se mostram bastante promissores. Go To School é o encaminhamento do que foi iniciado há dois anos: jovens em busca de uma voz própria em meio a muitas referências variadas e ricas. Porém, assim como o experimentalismo pelo experimentalismo pode ser cansativo, o retrô em excesso é limitado. E, a julgar pelo repeteco de Go To School, pode ser um desafio para os D’Addario vislumbrar novos horizontes e formular uma identidade pautada, bem, neles mesmos.

OUÇA: “The Fire” e “Wonderin’ Ways”

Matt and Kim – Almost Everyday


É sempre um pouco engraçado escutar um disco com letras pesadas sobre morte acompanhadas de melodias alegres. É um estranhamento que parece colocar os assuntos pesados das letras no espectro da positividade, coisa que nem toda banda é capaz de fazer. Por sorte, o duo Matt and Kim, conhecido como uma banda “de festa” justamente pelo instrumental alegre e dançante, conseguiu refletir sobre a vida (e a morte) com leveza no sexto álbum de estúdio, Almost Everyday.

Matt e Kim se conheceram na faculdade, no Brooklyn, e começaram a namorar antes que ela soubesse tocar bateria e que ele soubesse tocar teclado. Foi no segundo álbum da banda, Grand, de 2009, que alcançaram mais sucesso. O duo começou a fazer turnês e se apresentar em grandes festivais, como o Coachella e Bonnaroo. Almost Everyday vem depois da maior pausa que o duo já teve que tirar, consequência de um acidente de Kim durante uma das performances da banda.

Talvez o acidente seja fonte das reflexões das letras de Almost Everyday: já na segunda faixa, “Forever”, Matt, canta a plenos pulmões ‘Não quero viver para sempre nesse mundo de merda‘. Na quarta faixa, “I’d Rather”, Matt canta uma alusão direta ao acidente de Kim no verso ‘I’d rather regret the jumps I’ve made‘, refletindo sobre criar memórias em vez de remoer o passado. Na mesma temática estão “Like I Used To Be”, “Glad I Tried” e “Youngest I Will Be”, tornando o álbum um pouco repetitivo em termos de letra. Músicas como “Happy If You’re Happy”, bem menos carregadas no instrumental que as outras, dão certo respiro ao disco, mas não o suficiente para que não se torne cansativo, apesar de durar apenas 28 minutos.

De modo geral, Almost Everyday não é uma ruptura com a sonoridade usual de Matt and Kim, nem com a estrutura de letra e música, nem uma experimentação em nenhum sentido. Mesmo falando sobre vida, morte, envelhecimento e memória, Matt and Kim não surpreendem. Eles são uma banda que insiste em alguns elementos do indie pop que estão um pouco desgastados: sintetizadores carregados, elementos infantis (pianinho, sons meio escolares, contagens), vocais muito “gritados” e uma necessidade de fazer toda a qualquer canção ser dançante. Passados 14 anos e 6 álbuns, Matt and Kim parecem estão envelhecendo mal, principalmente, por tentar não envelhecer.

OUÇA: “Intro”, “Happy If You’re Happy” e “All In My Head”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.

Gengahr – Where Wildness Grows


Saída da mesma leva de bandas londrinas de meados de 2013 que nos trouxe Wolf Alice, Gengahr é algo como o primo de menos sucesso e trabalho parecido. Com o primeiro álbum lançado em 2015, mesmo ano de lançamento do debut do Wolf Alice, Gengahr — cujo nome é, ao que tudo indica, realmente pensado a partir do Pokémon Gengar — conseguiu uma crítica bastante positiva da NME e uma média de 79 de 100 no Metacritic.

Em 2015, A Dream Outside já vinha com notas de ressaca do indie rock britânico que passamos os anos 2000 escutando: som simples, fortemente apoiado em guitarras e uma voz de falsetto gostosa de ouvir. Mesmo sem trazer nenhuma novidade musical, Gengahr toou certo status e fez algum sucesso.

Três anos depois, Gengahr volta com “Where Wildness Grows”, um álbum com 48 minutos de duração distribuídos em 12 faixas que apostam nessa exata mesma fórmula de guitarra e falsetto. Só que agora a ressaca do indie bateu forte.

Com poucas faixas marcantes, Where Wildness Grows é mais um álbum de indie rock com tons de psicodelia que veio ao mundo pronto pra ser irrelevante em menos de um ano. Apesar de não trazer elementos novos em comparação ao “A Dream Outside”, não é um álbum ruim: as letras são bastante ok, os arranjos não irritam os ouvidos, o falsetto delicado continua agradável. Mas essa fórmula não é mais suficiente para me fazer querer ouvir um álbum mais de uma vez.

Em 2015 o combo guitarra-falsetto parecia ter tomado um fôlego que rendeu alguns hits chiclete para toda essa leva de bandas (She’s a Witch pro Gengahr, Bros para Wolf Alice), mas isso não foi suficiente para sustentar mais um álbum enquanto peça relevante por si. Where Wildness Grows não me fez querer outro álbum do Gengahr.

Talvez os meninos do Gengahr precisassem apostar para além da cena indie e tentar emplacar algo mais pop à la Wolf Alice. Talvez eles precisassem mudar o som e tentar algo menos saturado. Talvez a gente precise reconhecer que nem todo ovo que a NME babou em 2015 mereça atenção ainda hoje.

OUÇA: “Before Sunrise” e “Rising Tides”

Bahamas – Earthtones


É sempre um pouco engraçado quando escutamos músicas alegres com letras tristes. Como se numa aceitação de que é tudo bem ficar triste e melancólico, o quarto álbum de Afie Jorvanen sob o nome artístico de Bahamas é perfeito como trilha sonora de uma tarde de sol bem preguiçosa com alguns momentos dançantes. Earthtones, lançado 4 anos depois do álbum anterior de Jorvanen, Bahamas Is Afie, é perpassado por um groove bem suave, por um coro em harmonia relaxante e por letras melancólicas.

Esse groove, puxando o folk de Jorvanen para um R&B, ficou por conta da participação de Pino Palladino e James Gadson, que colaboraram com D’Angelo. As batidas são bem simples e limpas, remetendo a um funk suave gostoso de ouvir. Soa bastante como um Vulfpeck mais light com letras que vão de coração partido à crítica social engraçadinha, que dá um tom mais atual ao álbum, como na faixa “Opening Act” (‘Now the music is free and you can’t blame me/ Blame the internet‘). Com letras e ritmos simples e suaves, é bem difícil se incomodar com qualquer elemento desse álbum.

Talvez por isso, apesar de bom, não seja um trabalho particularmente memorável. Com 11 faixas distribuídas em 45 minutos de disco, Earthtones é bem morno: fora o pseudorap “Bad Boys Need Love Too” é bem difícil diferenciar uma faixa da outra e o álbum não tem pontos particularmente altos. É uma vibe gostosa, o som é bem feito, é relaxante. Em comparação com trabalhos anteriores, principalmente Barchords, de 2012, soa mais profissional e adulto. Não que isso seja um ponto necessariamente positivo.

OUÇA: “Opening Act”, “No Expectations” e “So Free”