Jade Bird – Jade Bird



Jade Bird é uma jovem e excelente cantora e compositora do interior da Inglaterra que se destacou já em seu EP de estreia, Something American de 2017. Apesar de inglesa, sua música sempre teve um forte acento norte-americano: algo entre folk, country e americana. No entanto, em seu autointitulado debut, ela adiciona elementos do rock alternativo noventista, com referências dos melhores vocais femininos da época, tornando Jade Bird ainda mais interessante em relação ao que ela já havia apresentado.

Dessa leva de novas e fantásticas cantoras e compositoras (Phoebe Bridgers, Soccer Mommy, Snail Mail, Molly Rankin e por aí vai), talvez Jade Bird seja a dona da voz mais poderosa, mais forte, crua e direta. Jade Bird, o álbum, é recheado de faixas em que ela pode mostrar todo o alcance e energia vocal que possui. Canções como “I Get No Joy”, “Uh Huh” ou “Love Has All Been Done Before” estão em um nível bastante acima do que a média dos novos artistas tem entregado.

Boa comparação para quem ainda não conhece a música de Jade Bird é Alanis Morissette. Além da voz poderosa e do tom confessional de algumas canções, Jade adicionou forte dose do rock feminino dos anos 90 em sua estreia, tendo forte influência dos primeiros registros da canadense. Mais do que isso, o estilo de escrita de Alanis, com sua repetição de palavras e frases está bem representado em “Does Anybody Know” e “If I Die”, última e mais suave canção do disco.

É impressionante que, tão jovem, ela tenha composto todas as canções sozinha. Se faz palpável toda a segurança e confiança em cada nota, em cada acorde. É comum e até perdoável que ocorram pequenos deslizes em discos de estreia, mas não é o caso aqui. Salta aos ouvidos a importância que Jade dá à sua interpretação e ao sentimento que cada canção pede, característica essencial dos grandes intérpretes, e que deixa transparecer toda a verdade de cada palavra.

Jade despontou com canções enraizadas fortemente no country norte americano, mas ao adicionar pitadas de rock alternativo à sua música, ela construiu um forte debut. Nenhum segundo é desperdiçado e sobram faixas bem escritas, musicalmente bem construídas e com bom potencial radiofônico. Jade Bird está apenas começando sua carreira, mas com este disco ela provou que está no caminho certo e sabe muito bem a artista que quer ser.

OUÇA: “Lottery”, “Does Anybody Know”, “Uh Huh” e “Love Has All Been Done Before”

PS.: O foco do texto de hoje é Jade Bird, mas já que Phoebe Bridgers foi citada, não deixem de ouvir Better Oblivion Community Center, parceria dela com Conor Oberst e um dos melhores discos do ano.

Sigrid – Sucker Punch



NSigrid é promessa já faz alguns anos. A norueguesa despontou na virada de 2016 para 2017 com o single “Don’t Kill My Vibe” e desde então vem sendo apontada como o próximo grande nome da música, ganhando inclusive uma série de prêmios no quesito artista revelação. Depois de lançar uma sequência de excelentes singles, temos em mãos seu primeiro disco: Sucker Punch. O álbum não é perfeito, mas, sem dúvidas, Sigrid se torna merecedora de todo hype que a cerca ao construir uma obra coesa, honesta e recheada de refrãos bem construídos e pegajosos.

É difícil não comparar a música feita por Sigrid e a música feita por Lorde. Além de uma sonoridade bastante próxima, com Sigrid mais enérgica, as duas dividem temas (desilusões, cotidiano e não adaptação ao convencional) e até mesmo formas de compor, trazendo descrições de cenas, pessoas e lugares. Apesar das proximidades, Sucker Punch não tem um mega hit como “Royals”, mas a explosão de cada refrão, com destaque para “Sucker Punch” e “Basic”, não perdem em nada para “Team” ou “Green Light”.

E por falar em refrãos, Sucker Punch é um desfile de potenciais hits. Mais da metade das faixas poderia ser lançada como single. Apesar do impacto nas paradas não estar sendo o esperado, cada canção gruda na sua mente após uma única audição, tal é o vigor da música criada por Sigrid e seus parceiros de composição e produção. Além das músicas feitas para pista, há espaço para algumas baladas, com destaque para “In Vain”, que revela uma intérprete que sabe rasgar a voz quando precisa e deixar todo o sentimento transparecer. Ainda nesse sentido, “Dynamite”, a faixa final de Sucker Punch, é a melhor música da Adele que a Adele não escreveu e nem gravou.

Apesar das comparações, e aqui ainda caberia Chvrches, Sigrid tem voz própria, algo nem sempre comum para artistas com pegada pop em seus discos de estreia. Há uma peculiaridade em sua voz e interpretação que a torna única. Mesmo sendo comparada com artistas que estão no mercado a cinco, dez ou quinze anos, Sigrid é extremamente contemporânea, seja por suas letras ou pelas escolhas de produção. Não há espaço para saudosismo em Sucker Punch. Este é um disco do “agora”.

No entanto, nem tudo é perfeição pop em Sucker Punch. Como pequenas falhas, podemos apontar duas ou três faixas que pouco ou nada acrescentam ao trabalho. “Level Up”, com pouco mais de dois minutos, destoa completamente do restante do álbum. Com uma sonoridade que chega a lembrar Little Joy, a faixa está totalmente deslocada entre as poderosas “Don’t Feel Like Crying” e “Sight Of You”. Outra faixa que não diz a que veio é “Business Dinners”, e até por estar perto do fim do disco, soa ainda mais desnecessária.

Mesmo que comercialmente não se cumpra, Sigrid não é mais uma promessa. A artista se tornou realidade com seu robusto disco de estreia. Sucker Punch é uma sucessão de singles poderosos envoltos em uma produção totalmente contemporânea. Sigrid é ainda muito jovem e este é apenas seu disco de estreia, no entanto o poder e o talento que sobram, nos fazem ficar ansiosos por tudo que a artista ainda há de criar. Sigrid é dessas que vale a pena acompanhar de perto e Sucker Punch é seu primeiro triunfo.

OUÇA: “Strangers”, “Don’t Feel Like Crying”, “Sucker Punch”, “Don’t Kill My Vibe”, “In Vain” e “Basic”

Imagine Dragons – Origins


Dentre as chamadas bandas de rock desta década, seja lá o que “banda de rock” ou “rockstar” venha a significar em 2018, o Imagine Dragons está no grupo das mais bem-sucedidas. Presença garantida em premiações, festivais e se consolidando como um dos atos mais vitoriosos quanto se fala em streaming, o grupo liderado pelo carismático Dan Reynolds lançou seu quarto disco, Origins, no começo de novembro. O álbum reforça o que o Imagine Dragons sabe fazer de melhor, ao mesmo tempo em que os faz cair em armadilhas bastante previsíveis. Aquele tipo de armadilha que só quem está absorto no processo não é capaz de prever, apesar do restante do mundo conseguir enxergar com clareza a direção que Origins seguiria.

O Imagine Dragons conseguiu bastante destaque já com seu disco de estreia, Night Visions, em 2012. Aquele disco contava com excelentes singles (“Demons”, “It’s Time” e “Radioactive”) e trouxe a sonoridade que a banda carrega até hoje: rock de arena com uma roupagem bastante pop. Apesar dos bons singles, o disco era bastante irregular, mas longe de ser ruim. Ruim mesmo foi o segundo disco cheio Smoke + Mirrors: longo, opulento e cansativo. No ano passado eles retornaram com Evolve e acertaram em cheio ao fazer um disco mais curto, menos superproduzido e com novos singles inegavelmente fortes (“Whatever It Takes”, “Thunder” e “Believer”).

Este é o histórico que nos traz até Origins, o segundo disco em pouco mais de um ano. Este é um álbum que mergulha de vez no pop e se perde em meio a seus lugares-comuns. Aqui há espaço para influências industriais, oitentistas, de R&B e de música africana. Essa diversidade é um ponto positivo do disco, no entanto os clichês saltam aos olhos. As batidas genéricas de “Boomerang”, “Cool Out” e “Stuck” poderiam estar em qualquer um dos trabalhos mais recentes do Maroon 5. Até a forma de dividir as palavras no refrão de “Bullet In A Gun” é totalmente previsível e já soa batida dentro da curta discografia da banda. Isso sem citar as letras que em nada evoluem em relação aos discos passados.

Fica claro que a banda quer ser a nova referência quando se fala em “banda de arena” e os números mostram que eles estão perto disso. Há referências aos grandes bastiões que lotaram, e lotam, estádios ao longo das últimas décadas. “Machine”, um dos bons momentos do disco, tem a parte percussiva muito próxima de “We Will Rock You” do Queen. “Love” poderia ser a faixa de encerramento de qualquer disco do U2 pós Pop. E não seria surpresa se “Bad Liar” fosse uma sobra de estúdio do Coldplay em algum de seus últimos discos.

O que chama atenção no Imagine Dragons é que, apesar dos tropeços, não há crise de identidade, algo bastante comum em bandas por volta do quarto ou quinto disco. A banda sabe exatamente quem é, do que é capaz e no que seu público está interessado. A música criada pela banda é pegajosa, feita para ser cantada a pleno pulmões e recheada de mensagens óbvias, mas que fazem todo sentido nos momentos de catarse coletiva que permeiam as apresentações ao vivo. Nesse sentido, pode se dizer que Origins é um novo acerto, mesmo errando o alvo na maior parte das faixas.

É impossível negar que o Imagine Dragons sabe compor singles fortes e tem inegável talento em construir refrãos. É inegável também reconhecer que a banda sabe o que seu público quer ouvir. No entanto, do ponto de vista de evolução artística, Origins revela uma banda que tropeçou ao enveredar por um caminho mais pop e ainda está à sombra de suas principais referências. Talvez uma parada para respirar e lapidar mais as canções faça mais sentido para o futuro da banda do que continuar lançando novas músicas criadas no piloto automático apenas para alimentar os algoritmos das plataformas de streaming.

OUÇA: “Natural”, “Machine” e “Only”

Say Hi – Caterpillar Centipede


Após nove álbums, Eric Elbogen, único nome por trás do Say Hi, resolveu aposentar a banda. No começo do ano passado, como forma de dizer adeus, criou uma campanha de financiamento coletivo para relançar todos os discos em vinil e um novo projeto musical, o quase esquizofrênico, meio rap e meio synthpop, Werewolf Diskdrive. Com o sucesso do relançamento dos vinis e a fria recepção do Werewolf Diskdrive, Elbogen resolveu dar mais uma chance ao Say Hi ao lançar o décimo disco cheio, Caterpillar Centipede. Há quase dez anos não ouvíamos um disco realmente bom do prolífico Say Hi, e é exatamente isso que Caterpillar Centipede é: um disco verdadeiramente bom.

Com o término e recomeço, podemos dizer que o Say Hi é uma nova banda. Caterpillar Centipede é o disco mais orgânico que Elbogen já criou. Os sintetizadores e pequenos efeitos eletrônicos, abrem espaço para a sonoridade de uma banda convencional com guitarra, baixo e bateria. É justamente na presença em primeiro plano das guitarras que mora a força da música de Caterpillar Centipede. Há momentos quase punks (“Mathematicians”), quase shoegaze (“Sweaters”) e alguns solos, com destaque para o solo da parte final de “Every Gauge Is On Empty”. Essa é a forma final da sonoridade que já se anunciava nos últimos três discos da banda.

As músicas do Say Hi sempre trouxeram personagens dos mais diversos, como robôs, vampiros e fantasmas. No entanto, Caterpillar Centipede não traz personagens e é possível enxergar os sentimentos do homem por trás do nome. Letras e melodias transparecem mais fragilidade e menos ironia dessa vez. Isso fica claro já na faixa de abertura, “Don’t Go Like That, No”. Neste quesito, outro destaque é “Sweaters” com uma das letras sobre amar mais inspiradas que Elbogen já escreveu (I want you to be my stay-inside winter / I want you to be my freeze-dried goods / I want you to be my layers of sweaters / I want us to get lost in the woods / I hope I’ve opened my eyes in the nick of time).

Claro que traços do passado ainda se fazem presentes, tanto na sonoridade quanto nas letras. Por exemplo, o sintetizador de “Green With Envy” nos faz lembrar as melhores faixas do pequeno clássico Numbers & Mumbles de 2004. Já “Makin’ Faces Like (You Ate A Lemon)” e “Neon Signs” são exemplos perfeitos de como Elbogen é mestre no uso de metáforas e ironia para discutir sentimentos e cenas do cotidiano.

Caterpillar Centipede é o tipo de volta que Elbogen precisava. Um disco coeso, direto, com letras espertas como sempre e um instrumental preciso. O lado mais humano presente nas letras e na música desse disco vestiu muito bem nessa nova fase do Say Hi. Se for para manter a qualidade de Caterpillar Centipede, vamos esperar que essa volta seja definitiva e que o futuro nos reserve ainda muitos outros discos pequenos e bons do pequeno e bom Say Hi.

OUÇA: “Don’t Go Like That, No”, “Sweaters”, “Every Gauge Is On Empty”, “Green With Envy”, “Neon Signs” e “Dreaming The Day Away”.

The Kooks – Let’s Go Sunshine


The Kooks é o tipo de banda que dispensa introduções para o público brasileiro. Amados e velhos conhecidos, seguem como fortes sobreviventes da cena indie rock das bandas com guitarras espertas nascidas na metade da primeira década dos anos 00. Let’s Go Sunshine é o quinto disco da banda e representa um movimento comum às bandas com um pouco mais de dez anos de carreira: este é o disco que traz de volta a sonoridade dos primeiros álbuns, Inside In/Inside Out (2006) e Konk (2008). Infelizmente, nem a banda e nem nós somos tão ingênuos quanto éramos naquela época, portanto as falhas  e a irregularidade de Let’s Go Sunshine ficam bastante aparentes com apenas algumas audições.

Ouvir as músicas que saíram junto com o anúncio do disco foi um afago na alma, principalmente “No Pressure”. A faixa trouxe aquela sensação de segurança que só o que nos é familiar é capaz de trazer. Ensolarada, “No Pressure” é recheada com violões e a voz característica de Luke Pritchard, ressaltando o que o The Kooks sabe fazer de melhor. E talvez esse seja o grande problema com Let’s Go Sunshine: a banda repete demais truques que já realizou melhor no passado. Este problema é ainda agravado com a quantidade de canções presentes no disco. São quinze faixas que se parecem entre si e se parecem ainda com tantas outras da discografia passada da banda. Com quatro ou cinco canções a menos, a experiência de ouvir Let’s Go Sunshine seria bem menos cansativa.

O disco anterior mesclava uma banda aparentemente perdida e outra banda que se arriscava sem medo de errar. Listen, de 2014, trouxe uma banda saindo de sua zona de conforto. Esse movimento trouxe alguns erros, mas principalmente acertos e novo ânimo para os trabalhos vindouros. Infelizmente, em Let’s Go Sunshine, eles resgataram a sonoridade dos primeiros anos, ficando quase no piloto automático, e o resultado não foi dos melhores. A mágica presente em Inside In/Inside Out não está de volta aqui. Ouvir “Four Leaf Clover”, quarta faixa divulgada deste novo trabalho, não fez com que eu me lembrasse do refrão no dia seguinte e, para uma banda com apelo radiofônico como é o The Kooks, isso não é nem de longe um bom sinal.

Claro que existem bons momentos. “No Pressure” e “All The Time” realmente nos fazem lembrar porque gostamos tanto da banda. Estas faixas também pisam em território conhecido, mas trazem o The Kooks no auge do seu jogo. No entanto, Let’s Go Sunshine é irregular demais. Para cada bom momento existe um equivalente negativo, e aqui podemos citar “Tesco Disco” e “Initials for Gainsbourg”. Se estas faixas, juntamente com “Swing Low” e “Weight Of The World”, fossem limadas, ajudariam muito a elevar a qualidade da audição completa do disco. Claramente, a primeira metade do álbum é muito superior à sua metade final.

Infelizmente, o The Kooks errou a mão neste 2018. Let’s Go Sunshine é um disco irregular. É até triste notar que as melhores faixas do disco são aquelas que nos remetem ao que de melhor a banda já fez, mas um disco não pode se sustentar apenas em nostalgia. Com um repertório já consolidado, forte presença em festivais mundo afora e shows ainda muito cativantes, a carreira da banda se manterá com sucesso apesar desse deslize. Esperamos então que este futuro garantido nos traga um disco realmente consistente em alguns anos.

OUÇA: “No Pressure”, “All The Time” e “Fractured And Dazed”

Years & Years – Palo Santo


Em 2015 foi difícil escapar de “King”, o primeiro grande sucesso do Years & Years. A música era realmente boa e tocou em todos os lugares, desde o som ambiente de lojas de departamento até os mais alternativos ambientes mundo afora. Com a chegada do disco de estreia, Communion, ainda em 2015, o sucesso foi repetido, mas não havia nada com tanto potencial quanto “King”. Assim, foi impossível esconder a sensação de que a banda marcaria apenas aquele verão, estando sempre apoiada na fama anterior de seu homem de frente, o ator Olly Alexander. Mas eis que em 2018, o Years & Years lança Palo Santo e prova que veio para ficar. O novo trabalho é imensamente mais consistente que seu predecessor e mescla conceito, boas letras e um eletropop pegajosíssimo.

Apesar de todo o conceito intencionalmente criado pela banda por trás do disco (‘Palo Santo’ seria uma sociedade em que as noções de gênero não se aplicam, com a sexualidade sendo tema recorrente nas canções), esqueça a presunção e a chatice que permeiam boa parte dos discos conceituais. Ao contrário, Palo Santo vem recheado de uma das melhores misturas de eletrônica, pop e R&B que você irá ouvir este ano. É muito forte a influência da música e até do visual dos anos 90. As batidas, a dinâmica e até o timbre de Olly podem ser comparados aos bons momentos de Michael Jackson naquela década, e isso, nem de longe, é uma comparação descabida.

A trinca de abertura do disco com “Sanctify”, “Hallelujah” e “All For You” tem um nível de energia tão alto que é até difícil encontrar outro competidor para este quesito neste ano. São músicas imediatas, daquelas que te capturam na primeira audição, mas despertam a vontade de ouvir repetidas vezes e a cada vez descobrem-se novas camadas e detalhes que haviam passado despercebidos. Outros momentos comparáveis são as ótimas “Rendezvous” e “Preacher”. Claro que há momentos em que a energia diminui e surgem faixas mais intimistas, mas que não deixam o nível do disco diminuir. Neste quesito o maior destaque é “Hypnotised”, estrategicamente posicionada no meio do tracklist.

As letras são um destaque à parte. A primeira faixa divulgada, “Sanctify”, é extremamente dançante e pegajosa, e possui uma das letras mais interessantes do disco ao misturar sexualidade e imagens religiosas. Aliás metáforas e palavras com alusão à religião não faltam. Outros exemplos ficam por conta de “Karma” e “Hallelujah”. Boa parte das letras também carregam experiências pessoais de Olly e isso enriquece por demais a temática do disco. Assim Palo Santo se apresenta um disco com muito mais representatividade e personalidade do que a maior parte das canções de Communion.

Só nos resta agradecer o fato de que a ambição de fazer um disco conceitual não destruiu a perfeição pop que é Palo Santo. O álbum mostra maturidade e crescimento enorme em relação ao disco anterior, ao mesmo tempo que soa divertido, sensual e inovador. Palo Santo pode até não ter um single tão forte quanto “King”, mas a força do conjunto de canções prova que o Years & Years veio para ficar, enterrando de vez a suspeita de que a banda duraria apenas um verão. Olly Alexander não é mais reconhecido apenas por ter atuado em Skins, sem dúvidas, o Years & Years é seu projeto de mais êxito e Palo Santo é o ponto mais alto desta trajetória.

OUÇA: “Sanctify”, “Hallelujah”, “All For You”, “If You’re Over Me”, “Hypnotised” e “Palo Santo”

The Vines – In Miracle Land


Entre alguns altos e muitos baixos, o The Vines sobreviveu. No fim de junho deste ano, a banda lançou In Miracle Land, seu sétimo álbum, mantendo praticamente intacta a sonoridade que os alçou ao patamar de “salvadores do rock” junto de Strokes, The Hives e Libertines em um já longínquo 2001. Entre os tais “salvadores”, seguramente o The Vines foi o que teve a trajetória menos estável, mas talvez sua mistura de grunge, harmonias e psicodelias sessentistas fosse a mistura mais interessante daquela leva. Essa dualidade na sonoridade segue firme no novo trabalho, mas até pela repetição exaustiva da fórmula, o resultado final ficou tediosamente mediano.

Após uma sequência de discos anêmicos, em 2014 o The Vines ensaiou um retorno à forma com o bom Wicked Nature. Esse disco foi responsável por novo ânimo frente ao que a banda viria a criar. Banda que na verdade pode ser resumida em Craig Nicholls, mente criativa e único membro remanescente da formação original. No entanto, In Miracle Land é um passo para trás em relação ao disco anterior. Falta inventividade e consistência, enquanto sobra a sensação de que o The Vines, ao invés de mostrar força para retomar a posição de destaque que um dia teve, parece estar acomodado com a criação de músicas no piloto automático.

A bipolaridade e a dualidade presente no som da banda sempre foram pontos chaves para o entendimento da proposta trazida por Nicholls, mas desta vez, estes elementos simplesmente não funcionam. A sequência das faixas no disco não faz sentido algum: a sequência de faixas quase grunges, gritadas, seguidas por faixas acústicas quase sussurradas sem uma boa transição, deixa as peças desconexas e faz as faixas parecerem várias sobras colocadas juntas sem a menor preocupação com o resultado final.

As baladas com harmonias vocais que remetem às bandas dos anos 60 sempre foram pontos fortes mesmo em discos fracos, mas dessa vez salva-se pouco das canções com este estilo. “Emerald Ivy” e a primeira parte de “Gone Wonder” soam bastante arrastadas e repetem truques que Nicholls já executou de forma melhor no passado. Mas eis que na reta final do disco surge uma das canções mais fortes da discografia da banda: “Annie Jane”. A faixa se aproxima bastante da quase homônima “Mary Jane”, outra das melhores baladas da banda e presente no disco de estreia, Highly Evolved.

Há sim outros momentos de brilhantismo em In Miracle Land. “Annie Jane” é mesmo o ponto mais alto, mas existem outras faixas que merecem destaque. Vale a pena também exaltar o trecho instrumental final da segunda faixa, “Broken Heart”, com seu solo de guitarra nada óbvio para os padrões do The Vines. Já “Sky Gazer” é uma das faixas mais interessantes do disco com suas diversas mudanças de andamento e pequenas orquestrações. No entanto, estes bons momentos não são uma constante no disco e, dessa forma, o resultado final é bastante irregular.

In Miracle Land é um disco de rock como poucas das bandas surgidas no começo dos anos 2000 ousam em continuar fazendo. É um som direto e cheio de simplicidade, mas as falhas presentes no disco, nem de longe, moram aí. A verdade é que faltou capricho e inventividade na criação das faixas, assim como faltou um cuidado maior para finalizar o álbum. Talvez até tenha chegado a hora de assumir que Nicholls não é o geniozinho que pintaram quase vinte anos atrás. Se Wicked Nature despertou interesse sobre o futuro da banda, In Miracle Land é um passo forte em direção ao esquecimento definitivo.

OUÇA: “Annie Jane”, “Sky Gazer” e “Broken Heart”

James Bay – Electric Light


Três anos após o vitorioso debut Chaos And The Calm, James Bay retorna com um novo disco. Dessa vez o pop rock acústico tão característico do artista abre espaço às mais diversas sonoridades, chegando a flertar com R&B e música eletrônica. O James Bay de 2018 parece mesmo fazer todo o possível, inclusive mudar de visual, para se afastar do James Bay de 2015. Certamente se afastar de algo que deu tão certo não é uma decisão fácil, mas teria sido mesmo uma boa aposta?

O choque com a nova sonoridade veio em fevereiro, quando Bay disponibilizou o primeiro single de Electric Light, “Wild Love”. A faixa parece estar no extremo oposto do espectro musical de Chaos And The Calm ao apresentar uma produção eletrônica bastante afinada com a música de Jack Garrat. Passado o susto, a verdade é que “Wild Love” apontou para uma direção muito interessante para a música de Bay. Sua voz e interpretação casaram muito bem com o tom sensual que a música e a produção pedem.

Com a segunda faixa divulgada antes do disco, “Pink Lemonade”, veio novo choque. Nada de violões dedilhados e nada de bases eletrônicas também. “Pink Lemonade” tem a mesma sonoridade das bandas que queriam soar como os Strokes na metade dos anos 2000 mas não tinham o mesmo frescor. Se “Wild Love” aumentou as expectativas para o que viria, “Pink Lemonade” foi um balde de água fria. Como essas músicas coexistiriam no mesmo disco e manteriam a coesão do trabalho? Essa realmente seria uma missão difícil.

Com o lançamento do disco completo, fica claro que a tarefa de manter a coesão ficou mesmo longe de ser cumprida. É normal a busca por uma nova sonoridade. Mais até do que normal, é louvável! No entanto, em Electric Light, Bay atirou para todos os lados e acabou errando mais o alvo do que acertando. Parece ter faltado foco na hora de juntar esse grupo de canções: há outras faixas que podem ser comparadas a Jack Garrat; “In My Head” lembra algo que Mika poderia ter feito; Há espaço para gospel em “I Found You”, mais R&B e por aí vai. Electric Light é mesmo um caldeirão de vertentes que parecem não se encaixar tão naturalmente quanto o esperado. Existem ainda uma introdução e um interlúdio desnecessários: não destoam, mas pouco ou nada acrescentam à narrativa do disco.

Sem dúvidas, a característica mais forte do disco é a interpretação de Bay. Dessa vez ele está muito mais seguro de si. O carisma tão intensamente mostrado no debut foi fortalecido com uma boa dose de sensualidade. Há um tom sensual na sua voz que se faz principalmente presente quando o cantor se utiliza de falsetes, como em “Wasted On Each Other” e “Fade Out”. Nesses momentos é possível ver todo o potencial que Bay nos mostrou três anos atrás.

Nessa necessidade de buscar o novo, Bay acabou se perdendo no caminho e entregou um trabalho pouco coeso. O artista que parecia ter nascido pronto em Chaos and the Calm, parece estar à procura de identidade em Electric Light. Isoladamente, as faixas funcionam muito melhor, mas colocadas lado a lado, não são capazes de formar um disco robusto. Bay tem voz, carisma e consegue interpretar canções como poucos de seus contemporâneos do mainstream o fazem. Com foco e uma sonoridade mais bem definida, o rapaz será capaz de nos entregar um disco forte de verdade. Infelizmente, não foi dessa vez.

OUÇA: “Wild Love”, “Us”, “Slide” e “Wasted On Each Other”

Blossoms – Cool Like You


Os rapazes do Blossoms conquistaram a Inglaterra e posições de destaque em festivais mundo afora com seu homônimo debut em 2016. A estreia soava mais como uma coletânea de singles do que como um disco de banda iniciante devido ao tamanho talento que eles demonstraram em construir faixas pegajosas e bons refrões. A sonoridade indie pop esperta com guitarras e mão pesada nos teclados foi o que marcou aquele disco e está de volta em Cool Like You, nova empreitada dos ingleses. O novo registro vem mais uma vez com refrões pegajosos e a difícil missão de manter a curva ascendente do Blossoms e garantir ainda maior destaque para a banda nos line-ups do verão europeu.

A primeira música divulgada nessa empreitada, “I Can’t Stand It”, aumentou as expectativas para o que viria. A faixa, tão forte quanto os singles do debut, é uma evolução do que eles haviam feito. Apesar de manter a temática sobre relacionamentos, o som é mais encorpado e mais camadas foram adicionadas à típica sonoridade da banda. No entanto, ao ouvir Cool Like You por inteiro, não há muitas novidades além disso. O som está mais encorpado, mais dançante, existem vocais a la Daft Punk e a influência oitentista está ainda mais forte, vide “Stranger Still”. Mas isso não é nada novo para a banda, uma vez que todas essas características já eram identificáveis no disco de estreia.

Enquanto algumas faixas são tão dançantes que parecem até o remix feito por algum artista mais alternativo (a faixa título, por exemplo, soa muito como um remix que o pessoal do Black Kids faria), a canção que mais mostra evolução e, talvez o ponto mais forte do disco, é a faixa de encerramento, “Love Talk”. Trata-se de uma música mais lenta, mais madura e aponta uma direção que, se seguida em trabalhos futuros, renderá excelentes resultados. Com essa faixa fica fácil imaginar o que Blossoms estará fazendo em quinze anos, quando seus integrantes estarão com trinta e poucos e cantar sobre amor com o viés de aprendizes não fará mais tanto sentido.

A grande fraqueza de Cool Like You é justamente um de seus acertos: os rapazes descobriram a fórmula mágica do indie pop perfeito e a usaram à exaustão. Por esse motivo não se aventuraram muito em novos territórios. E, apesar de mestres nessa fórmula, não há aqui uma nova “Charlemagne” ou uma nova “Getaway”. Quem chega mais perto disso é mesmo o primeiro single “I Can’t Stand It” que deve garantir um dos momentos mais animados das apresentações ao vivo, mas ainda assim não tem o mesmo charme daquelas canções de dois anos atrás.

Na soma de erros e acertos, o Blossoms sai vitorioso. Em Cool Like You, a banda adicionou pequenos detalhes em sua sonoridade e soube manter, majoritariamente, o que havia dado certo na estreia. No entanto, apesar de coeso, o disco não é uma coletânea de singles, mas a missão de manter a curva ascendente está garantida. É bem provável que após Cool Like You, o nome Blossoms ganhe fontes cada vez maiores nos cartazes de festivais do verão europeu. E é ainda provável que essa curva ascendente se mantenha pelos próximos verões. O Blossoms é, sem dúvida, um nome promissor para a música inglesa e o sucesso de Cool Like You só reforça isso.

OUÇA: “I Can’t Stand It”, “Love Talk”, “There’s A Reason Why (I Never Returned Your Calls)” e “Cool Like You”.

Father John Misty – God’s Favorite Customer


Em pouco mais de um ano, Josh Tillman, sob a alcunha de Father John Misty, retorna com mais um disco cheio. God’s Favorite Customer pode até ser considerado um passo inesperado para o artista, uma vez que o álbum despe-se de boa parte da pretensão que recheava o disco anterior, Pure Comedy. Tillman é desses artistas moldados para a época que vivemos: sarcástico, irônico e cínico, como a maioria de nós se comporta nas mais diversas redes sociais e, que no fundo, utiliza destes artifícios para camuflar fraquezas.  Se o ácido Pure Comedy foi o auge deste sarcasmo, em God’s Favorite Customer o artista expõe seu lado mais frágil, sem, contudo, deixar de utilizar cinismo e incluir críticas sociais.

Pure Comedy trouxe algumas das melhores canções já feitas por Tillman, como a própria faixa título e “Total Entertainment Forever”, no entanto, o disco se afoga em seus excessos. São canções longas demais, pretensiosas demais e autoindulgentes demais. Já em God’s Favorite Customer, Tillman retoma o que havia iniciado com I Love You, Honeybear e faz um disco com menores proporções, mais simples, mais curto e mais direto ao ponto. Desta vez, a cativante persona que lhe é natural (não forçada como a nova encarnação de Alex Turner) resolve olhar mais para dentro de si do que para o mundo como feito em Pure Comedy, e o resultado são belas e tristes canções sobre amor, desilusão, depressão, solidão e até suicídio.

Antes de discorrer sobre os temas e a abordagem de God’s Favorite Customer, se faz preciso conhecer um pouco sobre o processo de criação do trabalho. Neste período, Tillman se viu acuado pela depressão e se isolou em um hotel por cerca de dois meses. Tempo suficiente para compor as dez faixas que compõe o álbum. O hotel tornou-se então figura importante dentro da narrativa do disco: o primeiro single “Mr. Tillman” é cantado do ponto de vista de um concierge do hotel e “The Palace” é sobre sua vontade de não voltar, sobre seu medo de sair do quarto do hotel, o palácio do título, e encarar o mundo real.

O disco abre com a ácida “Hangout At The Gallows” em que Tillman questiona a si mesmo: “What’s your politics? What’s your religion? What’s your intake? Your reason for living?”. Interessante notar como ele questiona a vida aqui: qual a sua razão para viver? Mais interessante ainda é notar que o disco se encerra com “We’re Only People (And There’s Not Much Anyone Can Do About That)”, na qual, como o título sugere, Tillman reflete sobre a imperfeição que nos forma (afinal somos apenas seres humanos que erram, sofrem e fazem sofrer), mas isso não nos impede de seguir em frente. Não nos impede de encontrar um sentido para a vida e sair do palácio.

God’s Favorite Customer soa muito como a continuação natural de I Love You, Honeybear, tanto que “Just Dumb Enough To Try” funciona como a sequência exata de “The Night Josh Tillman Came To Our Apartment” do disco de 2015. “Just Dumb Enough To Try” é sobre não entender o amor e ainda assim insistir, sentimento constante em I Love You, Honeybear. Assim como naquele disco, sua esposa também é figura importante na nova narrativa. “The Songwriter” coloca sua mulher como criadora e Tillman como inspiração. Já “Please Don’t Die” é cantada sob a perspectiva de sua mulher e as preocupações dela com a depressão e suicídio do marido.

Quanto à sonoridade, há continuidade em relação às características dos discos anteriores. Não há muita novidade e a mistura de folk rock e alt. country com pitadas de megalomania segue imperando. Há presença maior de pianos e um flerte com a gospel music na faixa título, mas nada que possa ser apontado como experimentações. A música acaba se tornado secundária em relação aos temas e às letras de Tillman. A produção do disco reforça este aspecto ao dar ainda mais realce à voz e à interpretação do artista.

Com God’s Favorite Customer, Tillman ultrapassa sua camada de ironia e expõe sua fragilidade, o que faz do disco um excelente trabalho. Dessa vez, as discussões levantadas por ele são mais profundas do que seu verniz de cinismo deixa transparecer. Sentimentos como desilusão, solidão, depressão e um amor real e pouco romantizado prevalecem com muita sinceridade ao longo do álbum. Talvez o curto espaço entre lançamentos tenha pouco a ver com o mercado da música e muito com a necessidade de Tillman de colocar essas composições para fora. Além de excelente música, God’s Favorite Customer parece ser parte importante da terapia do artista.

OUÇA: “Just Dumb Enough To Try”, “Please Don’t Die”, “God’s Favorite Customer”, “Mr. Tillman” e “Disappointing Diamonds Are The Rarest Of Them All”