Taylor Swift – Lover



As primeiras cenas do videoclipe de “ME!”, primeiro single da nova era de Taylor Swift, já indicavam que os tons e dramas de reputation haviam ficado para trás. A cobra transformou-se em borboletas, e as cenas que se seguiram eram lúdicas e pintadas em cores pastéis servindo de pano de fundo perfeito para a coreografia e euforia das interpretações de Taylor e Brandon Urie, seu parceiro na canção. E esse é realmente o tom que preenche quase todas as faixas de Lover: um disco leve, divertido, apaixonado, recheado de boas mensagens e que peca apenas pelo excesso de faixas.

Musicalmente, Lover não é um grande avanço em relação ao que Taylor já fez. Dessa vez, ela estreitou ainda mais a parceria com Jack Antonoff e a sonoridade fica entre 1989, reputation e Red. Não que isso seja algo ruim, mas para quem espera grandes transformações sonoras de um disco para outro, Lover pode ser uma decepção. Apesar do drama de algumas letras, vide “Miss Americana & The Heartbreak Prince” e “I Forgot That You Existed”, a grande mudança aqui é a presença de uma Taylor muito mais madura.

Lover aborda diversos assuntos com pauta presente em nossos dias. Há mensagens fortes sobre autoafirmação, feminismo, homofobia e cyber bullying. Taylor nunca havia se posicionado sobre essas questões tão incisivamente quanto ela faz aqui. Mas apesar dos assuntos com apelo social, Lover é, acima de tudo, um disco que celebra as várias formas de amor, inclusive amor próprio. A cantora não tem vergonha de se expor, de mostrar ao mundo que está apaixonada e a faixa “Lover” é o melhor exemplo.

Se em reputation, a poesia e a capacidade de contar histórias estavam reduzidas em relação a seus melhores trabalhos, estes fatores voltaram com toda força em Lover. Taylor sempre compôs descrevendo cenas, pessoas e lugares de uma forma bastante rica sem perder o mérito pop de suas composições. “It Is Nice To Have A Friend” e “Lover” são bons exemplos desta capacidade. Outra capacidade que a esta altura ninguém ousa questionar, é o talento de Taylor de construir grandes refrãos e, já na primeira audição, Lover deixa vários trechos em looping na sua cabeça, queira você ou não (alô, “Cruel Summer” e “The Man “, estou falando de vocês!).

O principal problema do disco é ser longo demais. No terço final de Lover é impossível evitar a sensação de já ter ouvido algo muito parecido em uma faixa anterior.  Com dezoito músicas, muitos temas e arranjos soam repetidos. Esse erro já havia ocorrido com reputation e mais uma vez faltou uma mão mais pesada para limar quatro ou cinco das canções que menos enriquecem o disco. Nem a estratégia de incluir os singles na reta final do álbum ajuda a finalizar a audição sem a sensação de déjà vu.

No fim das contas, a impressão que fica é que Lover poderia ser um excelente disco com doze faixas, mas acabou sendo um disco mediano e repetitivo com dezoito canções. Apesar dos pesares, quando estas canções acertam o alvo, acertam realmente em cheio. Taylor mais uma vez prova que tem a mão cheia para construir pérolas pop e para isso conta com um time que reforça suas forças. Fica apenas faltando cortar os excessos e lançar o grande disco que seu potencial promete. Em anos, Lover é o disco que passou mais perto disso.

OUÇA: “Lover”, “The Archer”, “Cruel Summer”, “You Need to Calm Down” e “Cornelia Street”

Kaiser Chiefs – Duck



O Kaiser Chiefs tem uma trajetória interessante. Despontou com força com seu debut, Employment, em 2005 no auge do post punk revival. Manteve o sucesso comercial com o disco seguinte, Yours Truly, Angy Mob, e viu as vendas diminuírem gradativamente com os discos seguintes. Ressurgiru com Education, Education, Education & War, o disco mais coeso desde o debut. Stay Together, o disco seguinte, foi o pior trabalho que a banda já fez: forçadamente pop, eletrônico, genérico e esquecível. Assim, a notícia de um novo trabalho, o sétimo, veio com uma dúvida: qual direção a banda seguiria? Seria um retorno aos bons trabalhos ou eles manteriam a mediocridade de Stay Together?

Com o primeiro single dessa nova empreitada, “Record Collection”, a dúvida ainda permaneceu, pois a faixa está justamente no meio do caminho entre o eletrônico e o analógico. Foi somente com o segundo single que o Kaiser Chiefs mostrou realmente qual seria o tom de Duck. “People Know How To Love One Another” é o Kaiser Chiefs fazendo o que sabe fazer de melhor: um rock pegajoso, cheio de energia e com um refrão que já nasce clássico com a repetição constante do nome da faixa, mesmo truque que eles já utilizaram com êxito em “Ruby” e “Never Miss A Beat”.

É justamente essa energia que se destaca no restante do disco. Faixas como “Golden Oldies” e “Don’t Just Stand There, Do Something” poderiam facilmente estar em Yours Truly, Angy Mob ou Employment, apesar de que a sonoridade do disco como um todo está muito mais próxima de Off With Their Heads, o não tão bem-sucedido terceiro disco. As conhecidas características da música do Kaiser Chiefs estão todas presentes em Duck: as guitarras, a bateria bem marcada, alguma intervenção eletrônica, os refrãos e a empolgação dos vocais de Ricky Wilson estão todos lá.

Mas não pense que a banda apenas repetiu truques que deram certo no passado. Há uma série de sutis novidades que podem ser citadas: os metais de sopro da terceira faixa, “Wait”, enriquecem muito seu arranjo e a tornam um dos pontos altos do disco; “The Only Ones” se aproxima bastante do rock de arena com o qual o Kaiser Chiefs já havia flertado, mas nunca executado; “Electric Heart” tem nova preocupação e maior cuidado com as harmonias vocais. No fim das contas, esses detalhes fazem com que Duck soe fresco.

Portanto, pode-se dizer que Duck é essa obra que sabe mesclar o que de melhor a banda sempre fez com sutis e boas novidades em sua música. Quem diria que depois do estrago que foi Stay Together, o Kaiser Chiefs voltaria com um bom disco? Pois foi exatamente o que eles fizeram: um bom disco. E a essa altura da carreira não dá para esperar que eles revolucionem a música, mas depois de Duck podemos continuar esperando por bons, divertidos e bem produzidos discos do Kaiser Chiefs.

OUÇA: “Wait”, “Target Market”, “People Know How To Love One Another” e “The Only Ones”

Two Door Cinema Club – False Alarm



False Alarm é o quarto disco dos queridos Two Door Cinema Club. Quem ouviu apenas o debut, quase dez anos atrás, e se deparou com alguma faixa deste novo trabalho em algum serviço de streaming deve estar se perguntando: afinal, o que houve com o Two Door Cinema Club? A verdade é que False Alarm traz uma nova banda. As guitarras espertas ficaram de lado e agora sobram teclados, sintetizadores, bases eletrônicas e até participações de rappers. Para os saudosistas, talvez essa mudança não agrade tanto, mas não dá para negar que essa mudança caiu muito bem.

A mudança apontada no disco anterior, Gameshow, é bastante aprofundada aqui. Gameshow soou como o trabalho de uma banda perdida, à procura de identidade, mesclando a sonoridade já conhecida com experimentações pouco inspiradas. Já False Alarm se mostra bem mais coeso que seu predecessor e está com os dois pés firmemente fincados na música eletrônica. Há um forte senso de álbum e não mais uma coleção de singles desconexos. Canções que isoladas poderiam soar mais fracas passam a fazer todo sentido quando ouvidas no contexto do disco.

Bandas com origem no indie com guitarras bastante presentes não costumam criar obras sólidas quando entram de cabeça na música eletrônica, vide o desastre que foi Stay Together, o último disco do Kaiser Chiefs. Mas o Two Door Cinema Club soube explorar essa sonoridade muito bem. Para os padrões da banda, pode-se até dizer que False Alarm é um disco experimental. No entanto, tudo é filtrado pela forma com que eles sempre criaram música, tornando as faixas bastante acessíveis. E isso é um grande elogio para quem tem a clara intenção de criar música pop.

Dessa vez, a influência oitentista vem bem forte, mais especificamente do Devo, um dos criativos e talentosos patinhos feios daquela década. E aqui é possível citar diversos paralelos entre as bandas: indo do peso dos teclados e sintetizadores, dos efeitos nos vocais, da estrutura das canções até à ironia das letras e à marcada identidade visual. O Two Door Cinema Club nunca se esforçou tanto para criar uma marca visual como faz em False Alarm. A capa do disco, os pôsteres da turnê, os lyric vídeos, os videoclipes oficiais, as apresentações ao vivo… De forma louvável, tudo isso divide a mesma estética, reforçando ainda mais a coesão do disco.

“Satellite”, segundo single e penúltima faixa do disco, resume bem a essência de False Alarm. A faixa contém os elementos que caracterizam essa segunda fase do Two Door Cinema Club. Os efeitos na voz estão lá. Os sintetizadores a la Devo também. As guitarras ainda existem, mas estão em segundo, terceiro ou quarto plano. O que se mantém intacto é o talento em criar músicas para as pessoas dançarem, seja lá com qual instrumento for.

É fato que todo aquele indie pop perfeito com guitarras espertas dos dois primeiros discos ficou para trás. No entanto, essas palavras são escritas sem nenhum pesar. False Alarm é um disco muito bem resolvido. A obra é coesa e conta ainda com singles capazes de integrar os setlists sem fazer feio quando comparados aos clássicos indies da discografia da banda. False Alarm é a prova de que o Two Door Cinema Club está em constante mutação. E essa mutação lhes caiu muito bem, uma vez que está mantida a qualidade das canções que os rapazes entregam.

OUÇA: “Once”, “Satellite”, “Talk”, “Dirty Air” e “Break”

Jade Bird – Jade Bird



Jade Bird é uma jovem e excelente cantora e compositora do interior da Inglaterra que se destacou já em seu EP de estreia, Something American de 2017. Apesar de inglesa, sua música sempre teve um forte acento norte-americano: algo entre folk, country e americana. No entanto, em seu autointitulado debut, ela adiciona elementos do rock alternativo noventista, com referências dos melhores vocais femininos da época, tornando Jade Bird ainda mais interessante em relação ao que ela já havia apresentado.

Dessa leva de novas e fantásticas cantoras e compositoras (Phoebe Bridgers, Soccer Mommy, Snail Mail, Molly Rankin e por aí vai), talvez Jade Bird seja a dona da voz mais poderosa, mais forte, crua e direta. Jade Bird, o álbum, é recheado de faixas em que ela pode mostrar todo o alcance e energia vocal que possui. Canções como “I Get No Joy”, “Uh Huh” ou “Love Has All Been Done Before” estão em um nível bastante acima do que a média dos novos artistas tem entregado.

Boa comparação para quem ainda não conhece a música de Jade Bird é Alanis Morissette. Além da voz poderosa e do tom confessional de algumas canções, Jade adicionou forte dose do rock feminino dos anos 90 em sua estreia, tendo forte influência dos primeiros registros da canadense. Mais do que isso, o estilo de escrita de Alanis, com sua repetição de palavras e frases está bem representado em “Does Anybody Know” e “If I Die”, última e mais suave canção do disco.

É impressionante que, tão jovem, ela tenha composto todas as canções sozinha. Se faz palpável toda a segurança e confiança em cada nota, em cada acorde. É comum e até perdoável que ocorram pequenos deslizes em discos de estreia, mas não é o caso aqui. Salta aos ouvidos a importância que Jade dá à sua interpretação e ao sentimento que cada canção pede, característica essencial dos grandes intérpretes, e que deixa transparecer toda a verdade de cada palavra.

Jade despontou com canções enraizadas fortemente no country norte americano, mas ao adicionar pitadas de rock alternativo à sua música, ela construiu um forte debut. Nenhum segundo é desperdiçado e sobram faixas bem escritas, musicalmente bem construídas e com bom potencial radiofônico. Jade Bird está apenas começando sua carreira, mas com este disco ela provou que está no caminho certo e sabe muito bem a artista que quer ser.

OUÇA: “Lottery”, “Does Anybody Know”, “Uh Huh” e “Love Has All Been Done Before”

PS.: O foco do texto de hoje é Jade Bird, mas já que Phoebe Bridgers foi citada, não deixem de ouvir Better Oblivion Community Center, parceria dela com Conor Oberst e um dos melhores discos do ano.

Sigrid – Sucker Punch



NSigrid é promessa já faz alguns anos. A norueguesa despontou na virada de 2016 para 2017 com o single “Don’t Kill My Vibe” e desde então vem sendo apontada como o próximo grande nome da música, ganhando inclusive uma série de prêmios no quesito artista revelação. Depois de lançar uma sequência de excelentes singles, temos em mãos seu primeiro disco: Sucker Punch. O álbum não é perfeito, mas, sem dúvidas, Sigrid se torna merecedora de todo hype que a cerca ao construir uma obra coesa, honesta e recheada de refrãos bem construídos e pegajosos.

É difícil não comparar a música feita por Sigrid e a música feita por Lorde. Além de uma sonoridade bastante próxima, com Sigrid mais enérgica, as duas dividem temas (desilusões, cotidiano e não adaptação ao convencional) e até mesmo formas de compor, trazendo descrições de cenas, pessoas e lugares. Apesar das proximidades, Sucker Punch não tem um mega hit como “Royals”, mas a explosão de cada refrão, com destaque para “Sucker Punch” e “Basic”, não perdem em nada para “Team” ou “Green Light”.

E por falar em refrãos, Sucker Punch é um desfile de potenciais hits. Mais da metade das faixas poderia ser lançada como single. Apesar do impacto nas paradas não estar sendo o esperado, cada canção gruda na sua mente após uma única audição, tal é o vigor da música criada por Sigrid e seus parceiros de composição e produção. Além das músicas feitas para pista, há espaço para algumas baladas, com destaque para “In Vain”, que revela uma intérprete que sabe rasgar a voz quando precisa e deixar todo o sentimento transparecer. Ainda nesse sentido, “Dynamite”, a faixa final de Sucker Punch, é a melhor música da Adele que a Adele não escreveu e nem gravou.

Apesar das comparações, e aqui ainda caberia Chvrches, Sigrid tem voz própria, algo nem sempre comum para artistas com pegada pop em seus discos de estreia. Há uma peculiaridade em sua voz e interpretação que a torna única. Mesmo sendo comparada com artistas que estão no mercado a cinco, dez ou quinze anos, Sigrid é extremamente contemporânea, seja por suas letras ou pelas escolhas de produção. Não há espaço para saudosismo em Sucker Punch. Este é um disco do “agora”.

No entanto, nem tudo é perfeição pop em Sucker Punch. Como pequenas falhas, podemos apontar duas ou três faixas que pouco ou nada acrescentam ao trabalho. “Level Up”, com pouco mais de dois minutos, destoa completamente do restante do álbum. Com uma sonoridade que chega a lembrar Little Joy, a faixa está totalmente deslocada entre as poderosas “Don’t Feel Like Crying” e “Sight Of You”. Outra faixa que não diz a que veio é “Business Dinners”, e até por estar perto do fim do disco, soa ainda mais desnecessária.

Mesmo que comercialmente não se cumpra, Sigrid não é mais uma promessa. A artista se tornou realidade com seu robusto disco de estreia. Sucker Punch é uma sucessão de singles poderosos envoltos em uma produção totalmente contemporânea. Sigrid é ainda muito jovem e este é apenas seu disco de estreia, no entanto o poder e o talento que sobram, nos fazem ficar ansiosos por tudo que a artista ainda há de criar. Sigrid é dessas que vale a pena acompanhar de perto e Sucker Punch é seu primeiro triunfo.

OUÇA: “Strangers”, “Don’t Feel Like Crying”, “Sucker Punch”, “Don’t Kill My Vibe”, “In Vain” e “Basic”

Imagine Dragons – Origins


Dentre as chamadas bandas de rock desta década, seja lá o que “banda de rock” ou “rockstar” venha a significar em 2018, o Imagine Dragons está no grupo das mais bem-sucedidas. Presença garantida em premiações, festivais e se consolidando como um dos atos mais vitoriosos quanto se fala em streaming, o grupo liderado pelo carismático Dan Reynolds lançou seu quarto disco, Origins, no começo de novembro. O álbum reforça o que o Imagine Dragons sabe fazer de melhor, ao mesmo tempo em que os faz cair em armadilhas bastante previsíveis. Aquele tipo de armadilha que só quem está absorto no processo não é capaz de prever, apesar do restante do mundo conseguir enxergar com clareza a direção que Origins seguiria.

O Imagine Dragons conseguiu bastante destaque já com seu disco de estreia, Night Visions, em 2012. Aquele disco contava com excelentes singles (“Demons”, “It’s Time” e “Radioactive”) e trouxe a sonoridade que a banda carrega até hoje: rock de arena com uma roupagem bastante pop. Apesar dos bons singles, o disco era bastante irregular, mas longe de ser ruim. Ruim mesmo foi o segundo disco cheio Smoke + Mirrors: longo, opulento e cansativo. No ano passado eles retornaram com Evolve e acertaram em cheio ao fazer um disco mais curto, menos superproduzido e com novos singles inegavelmente fortes (“Whatever It Takes”, “Thunder” e “Believer”).

Este é o histórico que nos traz até Origins, o segundo disco em pouco mais de um ano. Este é um álbum que mergulha de vez no pop e se perde em meio a seus lugares-comuns. Aqui há espaço para influências industriais, oitentistas, de R&B e de música africana. Essa diversidade é um ponto positivo do disco, no entanto os clichês saltam aos olhos. As batidas genéricas de “Boomerang”, “Cool Out” e “Stuck” poderiam estar em qualquer um dos trabalhos mais recentes do Maroon 5. Até a forma de dividir as palavras no refrão de “Bullet In A Gun” é totalmente previsível e já soa batida dentro da curta discografia da banda. Isso sem citar as letras que em nada evoluem em relação aos discos passados.

Fica claro que a banda quer ser a nova referência quando se fala em “banda de arena” e os números mostram que eles estão perto disso. Há referências aos grandes bastiões que lotaram, e lotam, estádios ao longo das últimas décadas. “Machine”, um dos bons momentos do disco, tem a parte percussiva muito próxima de “We Will Rock You” do Queen. “Love” poderia ser a faixa de encerramento de qualquer disco do U2 pós Pop. E não seria surpresa se “Bad Liar” fosse uma sobra de estúdio do Coldplay em algum de seus últimos discos.

O que chama atenção no Imagine Dragons é que, apesar dos tropeços, não há crise de identidade, algo bastante comum em bandas por volta do quarto ou quinto disco. A banda sabe exatamente quem é, do que é capaz e no que seu público está interessado. A música criada pela banda é pegajosa, feita para ser cantada a pleno pulmões e recheada de mensagens óbvias, mas que fazem todo sentido nos momentos de catarse coletiva que permeiam as apresentações ao vivo. Nesse sentido, pode se dizer que Origins é um novo acerto, mesmo errando o alvo na maior parte das faixas.

É impossível negar que o Imagine Dragons sabe compor singles fortes e tem inegável talento em construir refrãos. É inegável também reconhecer que a banda sabe o que seu público quer ouvir. No entanto, do ponto de vista de evolução artística, Origins revela uma banda que tropeçou ao enveredar por um caminho mais pop e ainda está à sombra de suas principais referências. Talvez uma parada para respirar e lapidar mais as canções faça mais sentido para o futuro da banda do que continuar lançando novas músicas criadas no piloto automático apenas para alimentar os algoritmos das plataformas de streaming.

OUÇA: “Natural”, “Machine” e “Only”

Say Hi – Caterpillar Centipede


Após nove álbums, Eric Elbogen, único nome por trás do Say Hi, resolveu aposentar a banda. No começo do ano passado, como forma de dizer adeus, criou uma campanha de financiamento coletivo para relançar todos os discos em vinil e um novo projeto musical, o quase esquizofrênico, meio rap e meio synthpop, Werewolf Diskdrive. Com o sucesso do relançamento dos vinis e a fria recepção do Werewolf Diskdrive, Elbogen resolveu dar mais uma chance ao Say Hi ao lançar o décimo disco cheio, Caterpillar Centipede. Há quase dez anos não ouvíamos um disco realmente bom do prolífico Say Hi, e é exatamente isso que Caterpillar Centipede é: um disco verdadeiramente bom.

Com o término e recomeço, podemos dizer que o Say Hi é uma nova banda. Caterpillar Centipede é o disco mais orgânico que Elbogen já criou. Os sintetizadores e pequenos efeitos eletrônicos, abrem espaço para a sonoridade de uma banda convencional com guitarra, baixo e bateria. É justamente na presença em primeiro plano das guitarras que mora a força da música de Caterpillar Centipede. Há momentos quase punks (“Mathematicians”), quase shoegaze (“Sweaters”) e alguns solos, com destaque para o solo da parte final de “Every Gauge Is On Empty”. Essa é a forma final da sonoridade que já se anunciava nos últimos três discos da banda.

As músicas do Say Hi sempre trouxeram personagens dos mais diversos, como robôs, vampiros e fantasmas. No entanto, Caterpillar Centipede não traz personagens e é possível enxergar os sentimentos do homem por trás do nome. Letras e melodias transparecem mais fragilidade e menos ironia dessa vez. Isso fica claro já na faixa de abertura, “Don’t Go Like That, No”. Neste quesito, outro destaque é “Sweaters” com uma das letras sobre amar mais inspiradas que Elbogen já escreveu (I want you to be my stay-inside winter / I want you to be my freeze-dried goods / I want you to be my layers of sweaters / I want us to get lost in the woods / I hope I’ve opened my eyes in the nick of time).

Claro que traços do passado ainda se fazem presentes, tanto na sonoridade quanto nas letras. Por exemplo, o sintetizador de “Green With Envy” nos faz lembrar as melhores faixas do pequeno clássico Numbers & Mumbles de 2004. Já “Makin’ Faces Like (You Ate A Lemon)” e “Neon Signs” são exemplos perfeitos de como Elbogen é mestre no uso de metáforas e ironia para discutir sentimentos e cenas do cotidiano.

Caterpillar Centipede é o tipo de volta que Elbogen precisava. Um disco coeso, direto, com letras espertas como sempre e um instrumental preciso. O lado mais humano presente nas letras e na música desse disco vestiu muito bem nessa nova fase do Say Hi. Se for para manter a qualidade de Caterpillar Centipede, vamos esperar que essa volta seja definitiva e que o futuro nos reserve ainda muitos outros discos pequenos e bons do pequeno e bom Say Hi.

OUÇA: “Don’t Go Like That, No”, “Sweaters”, “Every Gauge Is On Empty”, “Green With Envy”, “Neon Signs” e “Dreaming The Day Away”.

The Kooks – Let’s Go Sunshine


The Kooks é o tipo de banda que dispensa introduções para o público brasileiro. Amados e velhos conhecidos, seguem como fortes sobreviventes da cena indie rock das bandas com guitarras espertas nascidas na metade da primeira década dos anos 00. Let’s Go Sunshine é o quinto disco da banda e representa um movimento comum às bandas com um pouco mais de dez anos de carreira: este é o disco que traz de volta a sonoridade dos primeiros álbuns, Inside In/Inside Out (2006) e Konk (2008). Infelizmente, nem a banda e nem nós somos tão ingênuos quanto éramos naquela época, portanto as falhas  e a irregularidade de Let’s Go Sunshine ficam bastante aparentes com apenas algumas audições.

Ouvir as músicas que saíram junto com o anúncio do disco foi um afago na alma, principalmente “No Pressure”. A faixa trouxe aquela sensação de segurança que só o que nos é familiar é capaz de trazer. Ensolarada, “No Pressure” é recheada com violões e a voz característica de Luke Pritchard, ressaltando o que o The Kooks sabe fazer de melhor. E talvez esse seja o grande problema com Let’s Go Sunshine: a banda repete demais truques que já realizou melhor no passado. Este problema é ainda agravado com a quantidade de canções presentes no disco. São quinze faixas que se parecem entre si e se parecem ainda com tantas outras da discografia passada da banda. Com quatro ou cinco canções a menos, a experiência de ouvir Let’s Go Sunshine seria bem menos cansativa.

O disco anterior mesclava uma banda aparentemente perdida e outra banda que se arriscava sem medo de errar. Listen, de 2014, trouxe uma banda saindo de sua zona de conforto. Esse movimento trouxe alguns erros, mas principalmente acertos e novo ânimo para os trabalhos vindouros. Infelizmente, em Let’s Go Sunshine, eles resgataram a sonoridade dos primeiros anos, ficando quase no piloto automático, e o resultado não foi dos melhores. A mágica presente em Inside In/Inside Out não está de volta aqui. Ouvir “Four Leaf Clover”, quarta faixa divulgada deste novo trabalho, não fez com que eu me lembrasse do refrão no dia seguinte e, para uma banda com apelo radiofônico como é o The Kooks, isso não é nem de longe um bom sinal.

Claro que existem bons momentos. “No Pressure” e “All The Time” realmente nos fazem lembrar porque gostamos tanto da banda. Estas faixas também pisam em território conhecido, mas trazem o The Kooks no auge do seu jogo. No entanto, Let’s Go Sunshine é irregular demais. Para cada bom momento existe um equivalente negativo, e aqui podemos citar “Tesco Disco” e “Initials for Gainsbourg”. Se estas faixas, juntamente com “Swing Low” e “Weight Of The World”, fossem limadas, ajudariam muito a elevar a qualidade da audição completa do disco. Claramente, a primeira metade do álbum é muito superior à sua metade final.

Infelizmente, o The Kooks errou a mão neste 2018. Let’s Go Sunshine é um disco irregular. É até triste notar que as melhores faixas do disco são aquelas que nos remetem ao que de melhor a banda já fez, mas um disco não pode se sustentar apenas em nostalgia. Com um repertório já consolidado, forte presença em festivais mundo afora e shows ainda muito cativantes, a carreira da banda se manterá com sucesso apesar desse deslize. Esperamos então que este futuro garantido nos traga um disco realmente consistente em alguns anos.

OUÇA: “No Pressure”, “All The Time” e “Fractured And Dazed”

Years & Years – Palo Santo


Em 2015 foi difícil escapar de “King”, o primeiro grande sucesso do Years & Years. A música era realmente boa e tocou em todos os lugares, desde o som ambiente de lojas de departamento até os mais alternativos ambientes mundo afora. Com a chegada do disco de estreia, Communion, ainda em 2015, o sucesso foi repetido, mas não havia nada com tanto potencial quanto “King”. Assim, foi impossível esconder a sensação de que a banda marcaria apenas aquele verão, estando sempre apoiada na fama anterior de seu homem de frente, o ator Olly Alexander. Mas eis que em 2018, o Years & Years lança Palo Santo e prova que veio para ficar. O novo trabalho é imensamente mais consistente que seu predecessor e mescla conceito, boas letras e um eletropop pegajosíssimo.

Apesar de todo o conceito intencionalmente criado pela banda por trás do disco (‘Palo Santo’ seria uma sociedade em que as noções de gênero não se aplicam, com a sexualidade sendo tema recorrente nas canções), esqueça a presunção e a chatice que permeiam boa parte dos discos conceituais. Ao contrário, Palo Santo vem recheado de uma das melhores misturas de eletrônica, pop e R&B que você irá ouvir este ano. É muito forte a influência da música e até do visual dos anos 90. As batidas, a dinâmica e até o timbre de Olly podem ser comparados aos bons momentos de Michael Jackson naquela década, e isso, nem de longe, é uma comparação descabida.

A trinca de abertura do disco com “Sanctify”, “Hallelujah” e “All For You” tem um nível de energia tão alto que é até difícil encontrar outro competidor para este quesito neste ano. São músicas imediatas, daquelas que te capturam na primeira audição, mas despertam a vontade de ouvir repetidas vezes e a cada vez descobrem-se novas camadas e detalhes que haviam passado despercebidos. Outros momentos comparáveis são as ótimas “Rendezvous” e “Preacher”. Claro que há momentos em que a energia diminui e surgem faixas mais intimistas, mas que não deixam o nível do disco diminuir. Neste quesito o maior destaque é “Hypnotised”, estrategicamente posicionada no meio do tracklist.

As letras são um destaque à parte. A primeira faixa divulgada, “Sanctify”, é extremamente dançante e pegajosa, e possui uma das letras mais interessantes do disco ao misturar sexualidade e imagens religiosas. Aliás metáforas e palavras com alusão à religião não faltam. Outros exemplos ficam por conta de “Karma” e “Hallelujah”. Boa parte das letras também carregam experiências pessoais de Olly e isso enriquece por demais a temática do disco. Assim Palo Santo se apresenta um disco com muito mais representatividade e personalidade do que a maior parte das canções de Communion.

Só nos resta agradecer o fato de que a ambição de fazer um disco conceitual não destruiu a perfeição pop que é Palo Santo. O álbum mostra maturidade e crescimento enorme em relação ao disco anterior, ao mesmo tempo que soa divertido, sensual e inovador. Palo Santo pode até não ter um single tão forte quanto “King”, mas a força do conjunto de canções prova que o Years & Years veio para ficar, enterrando de vez a suspeita de que a banda duraria apenas um verão. Olly Alexander não é mais reconhecido apenas por ter atuado em Skins, sem dúvidas, o Years & Years é seu projeto de mais êxito e Palo Santo é o ponto mais alto desta trajetória.

OUÇA: “Sanctify”, “Hallelujah”, “All For You”, “If You’re Over Me”, “Hypnotised” e “Palo Santo”

The Vines – In Miracle Land


Entre alguns altos e muitos baixos, o The Vines sobreviveu. No fim de junho deste ano, a banda lançou In Miracle Land, seu sétimo álbum, mantendo praticamente intacta a sonoridade que os alçou ao patamar de “salvadores do rock” junto de Strokes, The Hives e Libertines em um já longínquo 2001. Entre os tais “salvadores”, seguramente o The Vines foi o que teve a trajetória menos estável, mas talvez sua mistura de grunge, harmonias e psicodelias sessentistas fosse a mistura mais interessante daquela leva. Essa dualidade na sonoridade segue firme no novo trabalho, mas até pela repetição exaustiva da fórmula, o resultado final ficou tediosamente mediano.

Após uma sequência de discos anêmicos, em 2014 o The Vines ensaiou um retorno à forma com o bom Wicked Nature. Esse disco foi responsável por novo ânimo frente ao que a banda viria a criar. Banda que na verdade pode ser resumida em Craig Nicholls, mente criativa e único membro remanescente da formação original. No entanto, In Miracle Land é um passo para trás em relação ao disco anterior. Falta inventividade e consistência, enquanto sobra a sensação de que o The Vines, ao invés de mostrar força para retomar a posição de destaque que um dia teve, parece estar acomodado com a criação de músicas no piloto automático.

A bipolaridade e a dualidade presente no som da banda sempre foram pontos chaves para o entendimento da proposta trazida por Nicholls, mas desta vez, estes elementos simplesmente não funcionam. A sequência das faixas no disco não faz sentido algum: a sequência de faixas quase grunges, gritadas, seguidas por faixas acústicas quase sussurradas sem uma boa transição, deixa as peças desconexas e faz as faixas parecerem várias sobras colocadas juntas sem a menor preocupação com o resultado final.

As baladas com harmonias vocais que remetem às bandas dos anos 60 sempre foram pontos fortes mesmo em discos fracos, mas dessa vez salva-se pouco das canções com este estilo. “Emerald Ivy” e a primeira parte de “Gone Wonder” soam bastante arrastadas e repetem truques que Nicholls já executou de forma melhor no passado. Mas eis que na reta final do disco surge uma das canções mais fortes da discografia da banda: “Annie Jane”. A faixa se aproxima bastante da quase homônima “Mary Jane”, outra das melhores baladas da banda e presente no disco de estreia, Highly Evolved.

Há sim outros momentos de brilhantismo em In Miracle Land. “Annie Jane” é mesmo o ponto mais alto, mas existem outras faixas que merecem destaque. Vale a pena também exaltar o trecho instrumental final da segunda faixa, “Broken Heart”, com seu solo de guitarra nada óbvio para os padrões do The Vines. Já “Sky Gazer” é uma das faixas mais interessantes do disco com suas diversas mudanças de andamento e pequenas orquestrações. No entanto, estes bons momentos não são uma constante no disco e, dessa forma, o resultado final é bastante irregular.

In Miracle Land é um disco de rock como poucas das bandas surgidas no começo dos anos 2000 ousam em continuar fazendo. É um som direto e cheio de simplicidade, mas as falhas presentes no disco, nem de longe, moram aí. A verdade é que faltou capricho e inventividade na criação das faixas, assim como faltou um cuidado maior para finalizar o álbum. Talvez até tenha chegado a hora de assumir que Nicholls não é o geniozinho que pintaram quase vinte anos atrás. Se Wicked Nature despertou interesse sobre o futuro da banda, In Miracle Land é um passo forte em direção ao esquecimento definitivo.

OUÇA: “Annie Jane”, “Sky Gazer” e “Broken Heart”