Jaloo – ft (pt. 1)


Ao lançar seu primeiro álbum, Jaloo botou os dois pés na porta da cena cultural do país e provou ser um artista multifacetado, criador de conceitos imagéticos, explorador de possibilidades sonoras. Mostrou também que seu som tinha lá seus hermetismos pascoais que agradou a muitos, assim como o deixou inacessível para tantos outros. Se Jaloo era pop no conceito, não o era no alcance. Agora, quase metade de uma década após o primeiro disco, o artista apresenta àquele público que se encontra na margem do mainstream um material mais palatável.

A música eletrônica dos primeiros tempos ainda dão as caras, porém sem tanta densidade. Marcam a trilha de maneira mais madura, dá até para dançar melhor. O experimental deu algum espaço a construções mais estruturadas, mais coesas. A qualidade técnica da produção chama a atenção. Assim como as letras. Em geral, falam de amor e da dor de amar. Mas falam de outro jeito: mais desinibido, mais real. Jaloo está romanticamente diferente. Eu diria que a mais poética é o samba futurista “Céu Azul”, com a MC Tha.

Neste voo, suas asas são os atuais ritmos de fácil penetração nos ouvidos da juventude momjeans-striped-balenciaga-pochete/shoulderbag. Uma espécie de brega-pop embala “Q. S. A.” cuja letra parece narrar uma dessas histórias de amor de carnaval e conta com a parceria da conterrânea Gaby Amarantos. Já os beats do trap aparecem em algumas faixas, como em “Dói d+” em que estão de mãos dadas com a sofrência e seu ritmo contemporâneo (o arrocha, claro), evidenciando que Jaloo quer preencher não só os ouvidos de seu público, mas tocar o seu coração – como bom artista que é.

Certamente, esse trabalho seria bem diferente se não contasse com parcerias como Gaby Amarantos, Dona Onete, Manoel Cordeiro, MC Tha, Céu, Karol Conká, Lia Clark, Badsista, etc. É muito interessante e agradável navegar pelas faixas do disco com as participações de tanta gente competente e talentosa.

Se a mistura enriquece, que álbum abastado! Jaloo sempre foi capaz de criar com muitas referências, mas, nesta obra, encontrou o ponto certo da dosagem. Ele é latino, rapper, brega, sambista, sem ser cansativo. Existe algo familiar ao longo das faixas desse álbum que nos toca de maneira certeira. Talvez seja cedo para se falar em hitmaker, mas Jaloo conseguiu se expressar para novos públicos, mostrando que sua música não é pop só em conceito. E tem seu valor.

OUÇA: “Q.S.A.”, “Eu Te Amei (Amo!)” e “Sem V.O.C.E”

Dona Onete – Rebujo



Dona Onete lança o seu terceiro álbum de estúdio e torna ainda mais difícil para o seu público a tarefa de escolher um favorito. Desde os seus sessenta e poucos anos, a quase octogenária artista não trai as raízes que nutrem o seu estilo e através dos ritmos paraenses segue fazendo sua festa e contando suas histórias, mas nunca com o peso de soar repetitiva. Escutar as 11 faixas de Rebujo é prestar audiência a uma sabedoria popular que é, ao mesmo tempo, secular e cotidiana disposta em timbres orgânicos e modernos.

Em seu último lançamento, a artista apresenta uma variedade rítmica ainda mais abundante. Elementos do brega paraense, da batucada de terreiro, da cumbia latina, da guitarrada, do bolero, do swing, entre outros, engrossam o caldo da mistura carimbolesca que a artista faz. “Festa De Tubarão” é o single deste disco. Tem a cara do carnaval de rua. Marchinha animada e ornamentada com flores de jambu e cheiro de tucupi, é fácil de cantar e tem sua cota de duplos sentidos. Assim como os hits “Jamburana” e “Banzeiro”, essa faixa é forte candidata a fazer o gosto popular. No entanto, outras músicas também fazem sua campanha à conquista de ouvintes, é o caso de “Mistura Pai D’égua”, “Fogo Na Aldeia” e “Balanço Do Açaí”.

Nesta última, a guitarra confere à faixa uma densidade rockeira que não se faz ruidosa, mas aumenta a tensão do contexto das inconveniências da colheita do açaí. Ainda na primeira faixa, “Mexe, Mexe”, é possível identificar elementos rítmicos do funk que reforçam o atestado de saliência da Rainha do Chamego. Já em “Musa Da Babilônia”, com a participação de BNegão, o ritmo popular paraense conversa com o samba carioca para exaltar a beleza não de uma garota de Ipanema, mas de uma sereia do Leme, “negra, negra, negra, negra”.

Em “Mexe, Mexe” e “Vem Chamegar”, enquanto convida à dança, Dona Onete faz mistério quanto a essa substância que se produziu em solos amazônicos a partir da miscelânea histórica, isso que é “coisa de branco/de índio e de negro”. Esta temática se faz presente, seja como figura ou fundo, ao longo de todo o álbum. Além disso, ela que é a rainha do assunto, ainda encontra espaço para dar provas do seu chamego, disso que resulta da riqueza cultural e folclórica que banha a artista e o Pará, e que se estende por onde passam os rios dessa terra.

Se por um lado a presença de significantes como “cacuri”, “juriti”, “iraúna”, “suí”, “tucandeira”, “tracuá”, representa uma referência identificatória para os nortistas, por outro, instiga aqueles que não estão familiarizados com o termo. A experiência de ter o toque da palavra desconhecida nos ouvidos se traduz em outra força atrativa ao disco. A novidade é sempre excitante e levanta questões: “que diabo é ‘rebujo’?”.

Rebujo é o movimento que faz subir aquilo que se assentou no fundo das águas, voltando à superfície. Pode-se dizer que é nisso que reside a sua popularidade e o sucesso do trabalho da artista. Ao exaltar as delícias rítmicas concebidas no Norte, ao cantar a cultura popular e cotidiana dos paraenses, ao construir cenários de bregas românticos, sempre usando o abastado dialeto dessas terras, Dona Onete está no front dos artistas que se dispõem ao resgate da musicalidade folclórica e regional e conta com uma gama de músicos talentosos para construir seus arranjos, incrementando estilos e ritmos que conferem robustez sonora. No entanto, isso também pode ser interpretado, do ponto de vista criativo, como uma repetição da forma; interessante enquanto novidade, mas extenuante em sua continuidade prolongada.

Assim, embora o disco seja recheado de boas e marcantes faixas, há também aquelas que passam, e só. Convido o leitor a escutar o disco e identificar por si quais são. Mesmo que possa haver divergências críticas quanto ao valor da obra de Dona Onete, dificilmente ocorrerá um debate a respeito disso em meio à folia das ruas, mais fácil seria se jogar na bagaceira. Enfim, fato é que, mais uma vez, esta senhora faceira nos mostra sua habilidade em condensar suas referências musicais com as profundezas de sua origem, construindo uma identidade artística sincera na medida em que é tradução da identidade de Ionete Gama, a professora aposentada. Ela é o que ela canta.

OUÇA: “Festa Do Tubarão”, “Balanço Do Açaí”, “Ação E Reação”