Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

The Joy Formidable – AAARTH


Minha mente às vezes faz uns paralelos estranhos, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça quando ouvi AAARTH, novo trabalho da banda galesa The Joy Formidable, foi todo o tempo que passei ouvindo j-rock durante o colegial. Especialmente a banda the GazettE, uma das únicas que me continuaram comigo nesses dez anos e ainda fazem parte da minha playlist – não acompanho muito seu trabalho recente mas os primeiros álbuns até 2008 ainda são recorrentes em minha vida. Seu segundo disco, NIL, vai ser pra sempre um dos meus favoritos da vida toda – e se o ocidente não fosse tão preconceituoso com música oriental, com certeza mais pessoas o teriam escutado e concordariam comigo.

O que sempre me atraiu muito ao GazettE era a sua diversidade. Eles eram capazes de ir do punk ao metal, passando por pianos, orquestrações e influências de hip hop sem perderem sua identidade e com um som ainda bastante acessível. Seu terceiro álbum, Stacked Rubbish, foi quando adicionaram as batidas de hip hop e pesaram um pouco mais no baixo. Músicas como “Agony” ilustram isso perfeitamente.

E o que uma banda japonesa de visual kei tem a ver com os galeses do Joy Formidable? Em AAARTH, pra mim pelo menos, tudo. Se tivesse que comparar o quarto disco da banda com qualquer coisa, seria com o j-rock do GazettE. AAARTH apresenta o mesmo caos organizado de influências que sempre vi e me interessou no GazettE.

Seguindo o bastante morno Hitch, o Joy Formidable nos trouxe dessa vez um álbum realmente bom de novo e que mostra que a banda apenas teve um pequeno relapso em seu lançamento passado. Ao contrário da mesmice pouco criativa de Hitch, cada música em AAARTH traz uma versão diferente do mesmo Joy Formidable e isso torna o álbum bastante único e bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Meu saudosismo ainda insiste em dizer que A Balloon Called Moaning vai ser pra sempre o melhor disco do grupo, mas às vezes justamente por ter isso como ‘fato’ é possível apreciar sua nova direção como algo tão bacana quanto. Já que nada nunca vai superar, não precisamos nem levar seu primeiro mini-álbum em consideração quando falarmos do trio. E AAARTH é, talvez, a melhor coisa que veio da banda desde então. Exatamente por ser um disco bastante arriscado e aparentemente desconexo.

“Y Bluen Eira”, que abre o álbum, já mostra que o que encontraremos aqui não é a mesma coisa que já veio da banda antes. Eles também, em “All In All” principalmente, voltam ao quasi-shoegaze de músicas como “Ostrich” e isso é algo maravilhoso de se ouvir. O maior defeito de um álbum como AAARTH, aqui, se torna seu maior trunfo: a falta de coesão. As faixas não conversam exatamente entre si, então ouví-lo em sua ordem formal não importa muito. Trata-se de músicas completas, como uma compilação de singles de diferentes eras ou de um ‘best of’, não de um trabalho que pretende ter um começo, meio e fim definidos.

AAARTH, no final, deve ser reconhecido como uma ótima adição à discografia do Joy Formidable. Um álbum que vale a ouvida e que chega até a surpreender em alguns momentos, exatamente por que ele não parece se importar muito com isso.

OUÇA: “Y Bluen Eira”, “Cicada (Land On Your Back)”, “The Better Me” e “Caught On A Breeze”

E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – Fundação


No já longínquo Maio de 2013, fui a um show que realmente mudou minha vida. Foi de uma banda que eu já era fã, mas cuja apresentação me marcou tão profundamente que eu saí de lá outra pessoa – e nos anos que seguiram essa se tornou uma de minhas bandas favoritas da vida inteira. Eu nunca havia chorado e me emocionado tanto assim em um show de música. A banda em questão foi o Explosions in the Sky em seu show no Sesc Belenzinho. Desde então, já fui em inúmeros outros shows mas nenhum nunca tinha chegado perto desse. Até eu ver a banda paulistana E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante no Balaclava Fest em 2017. Coincidentemente, também no mês de Maio.

O quarteto paulistano já vinha construindo seu nome e reputação com EPs e singles desde 2014 e a notícia de que esse ano lançaríam seu primeiro álbum completo (e, principalmente, que se tratariam somente de composições inéditas) deixou seus fãs na expectativa. E, como era de se esperar, eles não decepcionaram. Fundação é de longe o melhor, mais variado e completo trabalho da banda e um dos – se não O – melhores álbuns do ano com toda a certeza.

Eu sempre acho estranho e levemente desconfortável escrever sobre um trabalho instrumental – a banda não precisa de palavras para passar suas emoções, quem sou eu pra tentar fazê-lo? Mas não podia deixar um disco como Fundação passar em branco, principalmente quando trata-se de uma banda que também me marcou profundamente – e aqui pertinho de casa. Em Fundação, Lucas, Luccas, Luden e Rafael nos entregam um disco extremamente bem pensado, bem produzido e com uma sutileza ímpar.

Em Fundação os meninos apresentam tudo aquilo que já haviam fazendo com perfeição e ainda nos mostram algumas novidades, como toques eletrônicos e, na última faixa, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução”, para aumentar ainda mais a catarse do álbum como um todo, eles pela primeira vez cantam em uníssono e repetem o nome da música em sua metade final. Fundação nos mostra um equilíbrio entre o peso e a leveza, entre a calmaria e a tempestade que não aparece com frequência nem mesmo entre os Grandes Nomes Consagrados do gênero como Godspeed You! Black Emperor, Sigur Rós e até mesmo o próprio Explosions in the Sky.

E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, mesmo fazendo tecnicamente parte um gênero tão específico como o post-rock, se coloca como um dos melhores nomes da música brasileira como um todo. Existe sim muita coisa boa acontecendo por aqui em qualquer vertente que quiser procurar, então aproveito esse momento pra deixar o recado: vamos valorizar mais o que é nosso, a música boa sendo feita aqui em nosso próprio país.

OUÇA: “Daiane”, “Já Não Ligo Se Tudo Der Errado”, “Se Fosse Assim, Onde Iríamos Parar?”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Karoshi”

Interpol – Marauder


É muito difícil pra mim escrever sobre Interpol, começo o texto logo admitindo isso. Trata-se de uma das minhas bandas favoritas, que sempre esteve presente na minha vida, desde boa parte da adolescência até toda a vida adulta. Cresci com eles, amadureci com eles. Sempre fui capaz de entender todas as guinadas que davam em seu som e carreira, e os defendo até hoje. Então não é fácil escrever sobre seu novo álbum.

Marauder, seu sexto álbum de estúdio e primeiro em quatro anos, está sendo falado por muitos como o melhor disco da banda em anos. Mas, na verdade, ele segue exatamente a mesma estética e influências que permearam El Pintor, criticado por tantos. Parece se tratar, inclusive, da mesma sessão de gravações – o leve clima shoegaze, o baixo mais pesado, os riffs de guitarra presentes e interessantes, mas não mais como o centro das composições (inclusive, saudades Antics). Até mesmo a voz de Paul Banks e o ritmo das músicas parece não ter envelhecido absolutamente nada.

E eu sempre achei El Pintor um álbum ótimo, ele sim foi o melhor da banda desde 2004, então por que continuar isso é um problema agora em 2018? Na verdade, nenhum. Mas é a primeira vez em sua discografia em que isso acontece. Em que não há uma real evolução, uma mudança de sentido, um nada diferente do anterior. Marauder não é ruim, mas é uma leve decepção.

O Interpol se menteve dentro de sua zona de conforto e fez um álbum explorando aquilo que sempre fizeram de melhor. A maior novidade aqui é que, pela primeira vez, há interludes separando as faixas do álbum em blocos – mas na verdade eles não servem pra muita coisa. O clima geral do álbum é o mesmo do começo ao fim. A notícia da produção assinada por Dave Fridmann talvez tenha sido a maior responsável por minha semi-frustração com Marauder. Fridmann, entre inúmeros títulos, foi o produtor do lendário The Woods do Sleater-Kinney, o álbum que mais destoa do restante da discografia das meninas do S-K por sua ferocidade, psicodelia e peso. Mas não é o caso aqui.

Marauder é um ótimo álbum, mas um passo bastante seguro para o Interpol. Sem grandes novidades, sem grandes surpresas, sem grandes mudanças. O Interpol segue sendo a banda mais consistente de sua época, com seis álbuns nas costas e nenhuma grande decepção. A banda continua com trabalhos fortes e impecáveis, feitos por e para quem cresceu junto com eles e entende que já fazem 15 anos desde o Turn On The Bright Lights e a banda não é mais a mesma. Assim como seus fãs também não são. Marauder vale a ouvida, talvez até várias e várias vezes, mas a falta de inovação – nem para o melhor nem para o pior – faz com que, pela primeira vez em sua carreira, o Interpol talvez tenha um álbum fácil de ser esquecido.

OUÇA: “Mountain Child”, “Number 10”, “If You Really Love Nothing” e “NYSMAW”

Mitski – Be The Cowboy


Após uma carreira lançando discos cada vez melhores que culminaram em seu magnum opus Puberty 2 em 2016, a moça nippo-americana Mitski Miyawaki nos presenteia com Be The Cowboy, seu sexto disco de estúdio. A expectativa era grande, não tinha como ser diferente, e Mitski nos apresenta uma coletânea impecável de 14 músicas, totalizando menos de 33 minutos. Indo das agitadas e quase dançantes às introspectivas, Mitski faz tal façanha parecer ridiculamente fácil. Em apenas meia hora.

Sonoramente, Mitski dessa vez se afasta um pouco do som que predominou em Puberty 2 e nos mostra composições e guitarras muito mais limpas, polidas e claras do que da última vez. São raras as distorções, dando lugar às baladas, orquestrações e toques eletrônicos. Be The Cowboy afirma, mais uma vez, Mitski como uma das melhores compositoras de sua geração – se não a melhor.

Os temas predominantes em suas letras são os de solidão e relacionamentos de todos os tipos, e isso vai desde seu título – sendo a figura do ‘cowboy’ uma famosa por sua vida bastante agitada, insegura e perigosa mas também solitária. Em “A Pearl”, Mitski canta no refrão ‘I fell in love with a war, nobody told me it ended‘ representando um relacionamento bastante conturbado e possivelmente abusivo/quase Síndrome de Estocolmo; o primeiro single “Geyser”, como a própria cantora disse à NPR, fala sobre sua relação pessoal com sua carreira no mundo da música; e em “Me And My Husband” Mitski canta sobre a conformidade na qual a maior parte dos casamentos/relacionamentos a longo prazo acabam caindo.

Be The Cowboy peca, apenas, em não ter uma Grande Música nele como “Your Best American Girl”, de Puberty 2 e “Townie” de Bury Me At Makeout Creek. O mais próximo que temos aqui é a ótima “Nobody” que canta e representa de uma vez toda a solidão que o restante do disco também fala, mas ela não tem a mesma força que os singles citados.

Be The Cowboy, no geral, é uma excelente adição à estelar discografia da Mitski sem a menor dúvida. Um dos melhores lançamentos desse ano, mas que ainda fica na sombra de Puberty 2. Mas, sendo justo, é quase impossível comparar a qualidade de Puberty 2 com qualquer outra coisa, vindo da Mitski ou não, então o importante é que Be The Cowboy faz um ótimo trabalho em seguir o seu melhor trabalho. E que muita coisa boa ainda vai vir dessa moça.

OUÇA: “Why Didn’t You Stop Me?”, “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser” e “Pink In The Night”.

Lily Allen – No Shame


Lily Allen, lá em 2006 com seu primeiro disco, conseguiu algo que não é muito comum: estava no topo das paradas ao mesmo tempo em que era a queridinha da crítica e público – tanto o indie quanto o mainstream. Isso grande em parte por causa de seu single “Smile”, no qual Lily canta sobre o quanto ela sorri quando vê o ex-namorado que a traiu chorando. Esse senso de humor ácido e irreverente permeou todo o seu primeiro álbum – na verdade, todo o seu trabalho como um todo -, e Alright, Still acabou se tornando e sendo reconhecido como um dos melhores álbuns daquele ano.

Lily seguiu Alright, Still com o também ótimo It’s Not Me, It’s You que trouxe elementos mais eletrônicos ao seu som e, após um hiato de cinco anos, Lily lançou Sheezus e foi aí que a coisa desandou de vez. Um álbum fraco com letras pseudofeministas que, com a desculpa de fazerem parte da sua persona de ‘humor negro e ácido’, acabavam na verdade instigando a competição entre mulheres e desvalorização de umas em comparação a outras. Sheezus foi um desastre completo.

E agora, depois de mais quatro anos, Lily Allen retorna com No Shame, seu quarto registro de estúdio. Mas não estamos mais em 2006, não é mesmo? Isso é evidente a cada segundo do álbum. No Shame, pelo menos, se difere de Sheezus nesse sentido das letras. Elas não seguem no mesmo feminismo branco e elitista que Lily pregava no seu anterior, mas continuam sendo bastante rasas.

Lily começa o disco com “Come On Then”, uma crítica bastante pertinente sobre a impressão que a mídia tem de sua vida pessoal – ‘I’m a bad mother, I’m a bad wife. You saw it on the socials, you read it online‘. Mas daí em diante poucas coisas se destacam. As letras que até seriam interessantes acabam se perdendo no instrumental repetitivo e nem um pouco original, causando uma sensação de mesmice o álbum inteiro.

No Shame é tão monótono que é complicado em alguns momentos diferenciar uma faixa da outra, mesmo sendo a primeira vez em sua carreira que a cantora conta com feats oficiais em algumas músicas – Biggs em “Trigger Bang”, Burna Boy em “Your Choice” e Lady Chann em “Waste”.  No Shame parece no geral um álbum preguiçoso, com uma produção bem mais ou menos, feito apenas para que as pessoas não se esqueçam de que Lily Allen existe – ou já existiu no passado. No Shame serve exatamente pra isso, lembrar que Lily Allen existe. Faziam anos que eu, pessoalmente, não ouvia tanto seus primeiros dois álbuns.

OUÇA: “Trigger Bang” e “Come On Then”.

Lykke Li – so sad so sexy


Muito mais do que qualquer sertanejo universitário, uma coisa que é muito clara quando se olha para a discografia da cantora e multi-artista sueca Lykke Li é que, ao longo de seus primeiros álbuns, ela é a real oficial rainha da sofrência. A moça, que parece estar triste o tempo todo em suas músicas, tem o dom de tornar seu sofrimento universal e nos convida a compartilhar desse momento de dor com ela. E nós aceitamos.

Seu primeiro disco, lá de 2008, é o que menos se encaixa nessa categoria e é até hoje seu trabalho mais interessante (“Breaking It Up” e “I’m Good, I’m Gone”, gente. Quem lembra?). Mas seguindo Youth Novels com o ótimo Wounded Rhymes e depois o honesto I Never Learn, Lykke parece estar cada vez mais afundada na tristeza e depressão. E a coisa não é diferente agora em so sad so sexy, dessa vez o próprio título do disco já confirma isso.

E é nisso que as coisas ficam meio monótonas… so sad so sexy apresenta, dessa vez, a mesma sofrência de sempre mas repaginada em uma produção muito mais eletrônica do que ela já havia feito antes e essa é a melhor parte do disco. Seu quarto trabalho nos mostra sons nunca antes explorados pela moça, resultando em trabalhos e faixas que podem ser comparadas sonicamente a nomes como FKA twigs sem a menor forçação de barra.

“deep end”, de longe a melhor faixa do disco, é um eletrônico extremamente interessante cheio de mudanças e nuances, parelhado também com a melhor letra do álbum. Mas infelizmente são poucos esses momentos, na maior parte do tempo so sad so sexy mesmo com uma produção diferente continua bem de onde I Never Learn parou quatro anos atrás. Sem muitas novidades.

so sad so sexy é um bom álbum, não me entendam errado. É um disco muito bem feito que com toda a certeza merece ser escutado. Essa nova produção eletrônica combina muito mais com a Lykke Li do que qualquer pessoa poderia ter imaginado, e não existem faixas ruins. Talvez, apenas, algumas mornas e repetitivas como “better alone”.

O disco termina com a sequência “bad woman” e “utopia”, que tentam mudar um pouco esse pessimismo que permeia o restante sendo faixas bastante esperançosas e bonitas. ‘I’m a bad woman, but I’m still your woman‘, Lykke suplica após o verso ‘Just don’t go before I show you what’s behind all of my sorrow‘. É uma música lindíssima, um pedido de desculpas a alguém por algo não-especificado, e isso é o que o torna universal a todos.

so sad so sexy peca, apenas, em não ousar um pouco mais. Toda a novidade do álbum se encontra na produção, pois o restante é em sua maioria um gigantesco ‘mais do mesmo’. Nos momentos em que Lykke foge disso, ela brilha como nunca antes. Mas, aqui, eles são raros.

OUÇA: “deep end”, “sex money feelings die” e “bad woman”

Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel & Casino


Há muito tempo um álbum não me deixava tão confuso quanto Tranquility Base Hotel & Casino, o tão aguardado sexto álbum do Arctic Monkeys. Simplesmente dizer ‘Não tem nada a ver com Arctic Monkeys é ruim saudades Favourite Worst Nightmare volta meu Arctic Monkeys’ e dar uma nota zero seria muito fácil, mas também muito errado. Tranquility Base não é tão simples assim.

Vamos começar com os pontos positivos, por que sim eles existem:

  • Essa influência David Bowie anos 70 é sempre maravilhosa, e um passo arriscado para a pequena grande banda de Sheffield. Nunca ninguém esperava um álbum dos macacos seguindo tanto nessa direção, calmo e cheio dos pianos em sua maior parte do tempo. Guitarras espaçadas e nem um pouco focado em riffs grudentos. Algo novo e surpreendente. E esse é meu segundo ponto;
  • O Arctic Monkeys conseguiu trazer algo novo pra dentro da sua discografia depois de cinco outros álbuns. Novo e coerente. O último álbum deles que fez qualquer coisa assim, realmente, foi o Suck It And See – AM pode ter sido cheio de experimentações mas seus resultados eram previsíveis e o álbum não tem coesão nenhuma. Tranquility Base é novo e tem coesão.

Mas, infelizmente, os elogios param por aí.

O Arctic Monkeys foi de uma das bandas mais amadas e aclamadas da esfera indie para uma das mais polarizadoras. Em 2018, existem ainda tantos que os amam mas também existe o mesmo número de pessoas que os odeiam. Eu, pessoalmente, ainda me considero um fã da banda mas caio em algum lugar aí no meio – o amor que tenho por seus primeiros discos não é o suficiente pra me ofuscar das cagadas e coisas ruins que eles já lançaram nesses quase quinze anos de carreira.

E é aí que a coisa pega: os pontos positivos encontrados em Tranquility Base são fortes o suficiente pra se ignorar os negativos? Sendo bem curto e grosso, não. E vamos lá então para as negativas:

  • Trata-se de um álbum conceitual, e isso explica bastante sua coesão, mas a premissa do álbum é ridícula. Toda essa história de ser um hotel na lua ou whatever é bastante forçada, e eu sou um ávido fã do gênero sci-fi.
  • Não existe uma única música forte que se sustente sozinha. Pegue qualquer uma das músicas e a retire do álbum – ela simplesmente não funciona, não importa qual. Na verdade, esse conceito do álbum faz com que passem despercebidas as piores e mais fracas letras que o Alex Turner já escreveu.
  • Tranquility Base Hotel & Casino é um álbum raso e repetitivo. Mal dá pra diferenciar uma faixa da outra, e a desculpa do ‘álbum conceitual’ não justifica isso. De The Black ParadeTommy, passando por The Dark Side Of The Moon, DAMN. e até mesmo I Am… Sasha Fierce provam que é possível ter um álbum conceitual em qualquer gênero e ele não precisa ser monótono. Comparar Tranquility Base com literalmente qualquer outro apenas evidencia ainda mais sua fraqueza.

A tão esperada volta do Arctic Monkeys foi, na verdade, uma bastante decepcionante. Meus sinceros aplausos pela reinvenção, mas ainda falta e falta muito.

OUÇA: “Four Out Of Five”.

The Longshot – Love Is For Losers


The Longshot é uma banda semi-misteriosa, começamos daí. Trata-se do projeto novo solo (?) do vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong. A banda surgiu sem grandes avisos de uma hora pra outra com um EP de três músicas e, apenas uma semana depois, lançou seu primeiro álbum completo, Love Is For Losers.

O álbum é um exemplo primordial de o que Billie Joe sempre soube fazer com maestria: um pop punk cheio de riffs, refrões e letras grudentas. Na real, as músicas de Love Is For Losers se mostram muito melhores e mais interessantes do que o último álbum de sua banda principal.

Talvez tenha a ver com o fato de que desde o American Idiot em 2004, as pessoas esperam que trabalhos novos do Green Day acabem indo pra um lado mais político e que envolvam críticas sociais e ao governo, mesmo que subentendidas. E, de uma certa forma, foi isso o que o Green Day fez nos últimos dez anos ou mais – mesmo a trilogia ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! de 2012, que mostravam as mais diversas influências que o Green Day pode ter, ainda acabam com o mesmo cunho político. Mas, seguindo a trajetória não-tão-impressionante-assim do Green Day nos últimos anos, por que lançar essas músicas como uma banda separada?

E é aí que chegamos: a política em Love Is For Losers é zero, praticamente. Tratam-se apenas de músicas boas compostas por um dos melhores compositores de pop punk de todos os tempos. Com zero pretensão, com zero pessoas olhando atenciosamente e criticando qualquer riff falho. Love Is For Losers é uma catarse, é Billie Joe escrevendo e cantando as músicas que quiser sem medo de que seja um álbum muito criticado quando levada em conta a reputação de sua banda principal.

Mas, mesmo que Love Is For Losers tivesse sido lançado como um álbum do Green Day, ele seria o melhor álbum do Green Day em anos. Todos os elementos estão aqui, um Green Day das antigas sem preocupações e sem pretensões, apenas escrevendo e tocando por diversão. Tudo isso está aqui, faltando apenas dois terços da banda Green Day.

The Longshot pode, talvez, ser considerado um projeto solo de Billie Joe. Não sabemos quando e se haverá algum segundo disco para essa banda, mas o que importa é o que estamos ouvindo aqui e hoje. E Love Is For Losers é um forte candidato a Melhor do Ano, exatamente por que foi feito sem essa pretensão.

Ao longo de sua carreira, o Green Day já lançou vários álbuns ótimos usando outros nomes – como Money Money 2020 como The Network e Stop Drop And Roll!!! como Foxboro Hottubs – talvez como uma forma de extravasar algo que não caberia direito no som da banda como um todo. E, sempre, após esses álbuns, o próximo do Green Day Oficial veio ótimo. Então nos resta apenas esperar ver o que Green Day nos aguarda, mas mesmo que a banda acabe lançando um disco horrível, ainda teremos a maravilha que é Love Is For Losers.

OUÇA: “The Last Time”, “Soul Surrender”, “Chasing A Ghost” e “Love Is For Losers”.

Hinds – I Don’t Run


Conheci Hinds quando as moças lançaram seu primeiro álbum, Leave Me Alone, e o resenhei aqui para o site dois anos atrás. Acabei descobrindo uma banda bastante divertida e despretensiosa que me cativou desde o início e a admiração só aumentou depois de vê-las ao vivo ano passado. As moças são divertidíssimas, carismáticas e sabem como poucas bandas ‘novas’ prender seu público do começo ao fim do espetáculo, contando histórias e fazendo piadas e, é claro, com a sua música.

Seu segundo disco, I Don’t Run, chegou finalmente e ele é uma continuação direta do anterior, sem mais nem menos. Seu lo-fi continua o mesmo, a dinâmica dos vocais misturados e confusos com sotaque espanhol bastante carregado também é a mesma. I Don’t Run é a continuação de Leave Me Alone, e ponto.

Dessa segunda vez, as meninas não resolveram apostar em grandes mudanças e experimentalismos, mas sim em se aprimorar no que já faziam antes. E o resultado é exatamente isso. I Don’t Run peca, no entanto, pelo quase excesso de músicas lentas. As que são mais parecidas com o que já conhecíamos antes das moças, como “New For You” e “Tester” acabam se tornando os pontos mais altos do álbum.

I Don’t Run não é um álbum que fará com que o mundo preste atenção nas espanholas, dificilmente ele estará em alguma lista de melhores do ano e realmente quem o ouvirá é quem já conhece o trabalho delas do debut. Nesse contexto, I Don’t Run é um álbum ótimo que serve seu propósito lindamente. Um prato cheio pra quem é fã do gênero lo-fi, mas previsível do começo ao fim. E digo isso com a melhor das intenções.

OUÇA: “Tester”, “Finally Floating” e “New For You”