Ex Hex – It’s Real



O fato de que Mary Timony não é um nome tão instantaneamente reconhecível quanto Kathleen Hannah, Carrie Brownstein ou Kim Deal é, ao meu ver, quase um crime. A moça é uma guitarrista excepcional e está na ativa desde os anos 90, tendo tocado em bandas como Autoclave e Helium antes de se lançar em uma ótima carreira solo. Em 2011, Mary ao lado de Brownstein, Janet Weiss e Rebecca Cole, lançou o excelente Wild Flag, único álbum da banda de mesmo nome. Pouco depois ela formou o Ex Hex, seu projeto atual.

It’s Real é o segundo álbum da banda, seguindo o ótimo e subvalorizado debut Rips de 2014. O som do Ex Hex segue bastante o que o Wild Flag fez em seu único disco, e talvez ainda mais nesse álbum do que no primeiro. Trata-se de um indie rock extremamente bem feito, com influências de post-punk, garage rock e riot grrrl. It’s Real mostra os vocais de Mary mais fortes e confiantes do que nunca, ótimos riffs e solos de guitarra, e uma bateria matadora. É um álbum de rock bastante simples e sem defeitos.

Mas, por algum motivo, It’s Real falha em causar o mesmo impacto que Rips teve poucos anos atrás. Talvez por ser um disco levemente mais sério e sem tantos coros pop punk nos refrões, talvez por ser menos explosivo do que o anterior. Não há músicas como “Waterfall” ou “Beast” aqui, e esse é o seu maior defeito. O single “Tough Enough” é o mais próximo, mas o restante do disco peca pelo “excesso de seriedade”, de uma certa forma. It’s Real é mais técnico e menos espontâneo do que qualquer outra coisa já lançada por Mary.

Com certeza ainda trata-se de um álbum ótimo e muito acima da média, feito por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Timony já tem quase trinta anos de carreira, e toda essa experiência é palpável em cada riff de sua guitarra. Ex Hex segue sendo uma banda que definitivamente vale a audição, assim como tudo o que tem a mão da Mary nesses anos todos.

OUÇA: “Tough Enough”, “Radiate”, “Diamond Drive” e “Good Times”

Amanda Palmer – There Will Be No Intermission



Amanda Palmer é uma pessoa extremamente passional em tudo o que faz, desde sempre. Sua carreira musical, com toda a certeza, não é diferente. Eu pessoalmente sou muito fã da moça desde seus tempos com o The Dresden Dolls e acompanho sua carreira solo desde o “fim” do duo. There Will Be No Intermission é seu quarto álbum solo, se contarmos o Amanda Palmer Goes Down Under, que foi gravado ao vivo, e o primeiro desde o incrível Theatre Is Evil em 2012. E Intermission é um álbum essencial da Amanda.

Trata-se, provavelmente, do álbum mais pessoal de toda a sua carreira. Lidando com temas como maternidade, morte, amor, aborto e casamento, Amanda canta todas as suas dores de forma bastante explícita e honesta sem medir suas palavras. ‘I was peeing in the bathroom and had left for just one second / ‘Cause I thought he couldn’t move and he was safe / As I came out I saw him falling in slow motion to the floor / It was probably the worst moment of my life‘, Palmer canta em “A Mother’s Confession”, a faixa mais longa com quase onze minutos de duração. ‘At least the baby didn’t die‘, ela continua em seu refrão.

There Will Be No Intermission é, também, um álbum minimalista quando comparado a seus outros. Toda a exposição emocional é feita através de músicas compostas apenas usando piano ou ukulele na maior parte do tempo. Isso, e o fato de que várias de suas músicas já eram conhecidas desde 2015, faz com que o álbum pareça em grande parte do tempo algo não muito impressionante.

É sem dúvida alguma um trabalho bastante confessional e com composições belíssimas – o maior problema aqui é que elas não necessariamente funcionam como um álbum coeso. Por se tratar de, no total, 20 faixas, em que muitas delas ultrapassam os seis minutos e são em sua grande maioria cantadas apenas por Amanda acompanhada de um único instrumento (piano ou ukulele), Intermission acaba sendo bastante monótono. Não existem grandes variações em ritmo ou composições e isso atrapalha um pouco o ouvinte – o real foco de Amanda aqui está em suas letras.

As letras, sim, são maravilhosas do começo ao fim. Lindíssimas, abordando temas complicados e universais a todos – principalmente a mulheres que são mães. There Will Be No Intermission desde sua capa, com Amanda completamente nua e segurando uma espada, mostra a força dessa mulher em todos os sentidos.

Mas a monotonia de Intermission infelizmente faz com que o seu álbum mais poético e pessoal já lançado tenha um tom não muito memorável. Analisar There Will Be No Intermission enquanto uma coletânea de poesias e devaneios musicados o torna um álbum memorável, mas (por falta de outra palavra) chato de se ouvir do começo ao fim. Em suas 20 faixais, o disco percorre quase uma hora e meia e são poucos os momentos em que Amanda brilha nesse contexto – se você analisar as músicas faixa a faixa é possível se emocionar e mergulhar na proposta de Amanda. Mas essas faixas todas simplesmente não funcionam tão bem como uma obra completa e coesa.

OUÇA: “A Mother’s Confession”, “Drowning In The Sound”, “Bigger On The Inside” e “Voicemail For Jill”

Blood Red Shoes – Get Tragic


A dupla inglesa Blood Red Shoes retorna após um período de cinco anos com seu quinto álbum de estúdio, Get Tragic, após  lançarem singles soltos em 2017 e 2018. E as coisas estão bem diferentes aqui dessa vez, quase não parece se tratar da mesma banda cujo som punk e sujo permeou seus outros discos. Na maior parte do tempo, o que Laura-Mary Cartar e Steven Ansell apresentam em Get Tragic é bem mais calmo, contido e eletrônico do que estamos acostumados.

Isso não é necessariamente algo ruim, é na verdade bastante interessante ver essa mudança de direção e coisas novas e diferentes vindo dos dois. Principalmente quando se trata do punk que a banda sempre apresentou, chega uma hora em que qualquer banda com 10 anos de carreira e quatro álbuns de estúdio precisa fazer uma escolha. Ou manter-se no mesmo som confortável de sempre que sabe que agradará seus fãs; ou adicionar novos elementos, mudar seu som e correr o risco de que tal mudança não seja bem recebida. E, por isso, meus sinceros parabéns à dupla.

Em seu quinto disco eles arriscaram bastante, e conseguiram fazer isso sem perder sua identidade. Get Tragic é bastante fora de seu lugar comum, com um uso quase constante de teclados e pianos no background das composições enquanto a guitarra e bateria continuam sendo os instrumentos de destaque. Isso tudo é algo bastante interessante e maravilhoso, tentar coisas novas e surpreender seus fãs é sempre melhor do que entregar o mesmo álbum pela quinta vez. É uma pena, então, que a única coisa que faltou em Get Tragic seja a qualidade das músicas.

Como qualquer disco do Blood Red Shoes, não existem destaques óbvios – a dupla preza muito pela coexão de seus trabalhos e eles sempre mantêm o nível do começo ao fim. Mas, aqui, o nível está um pouco mais pra baixo do padrão que eles costumavam fazer. Não se trata de um trabalho exatamente ruim, se ele fosse um debut de qualquer outra banda seria um disco ótimo. Mas para a dupla, que já nos mostrou no passado álbuns muito melhores, essa reinvenção parece ter sido jogada fora. Os ótimos elementos novos adicionados são interessantes mas não o suficiente para se ignorar o fato de que simplesmente não se trata de seu melhor trabalho.

A direção que resolveram tomar aqui é uma incrível, e espero que eles continuem nessa em discos futuros. E espero que da próxima vez voltem com as composições no nível que vinham apresentando antes. Aí sim, teremos um disco excelente.

OUÇA: “Bangsar”, “Howl” e “Mexican Dress”

Better Oblivion Community Center – Better Oblivion Community Center


Better Oblivion Community Center é uma dupla de folk rock formada por ninguém menos do que Phoebe Bridgers e Conor Oberst. Ele, queridinho do indie com seu Bright Eyes e inúmeros trabalhos solo, um dos mais interessantes e prolíficos compositores de sua geração. Ela, um dos melhores nomes do so-called ‘indie folk rock’ atual, lançou seu ótimo debut Stranger In The Alps em 2017 e ano passado foi responsável, ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, pelo melhor EP de 2018: boygenius. Uma combinação que não tinha como dar errado, e realmente não deu.

Better Oblivion Community Center também é o nome do primeiro (talvez único?) álbum da dupla, uma das melhores surpesas desse ano de 2019 que mal começou. O disco foi gravado e produzido completamente em segredo ano passado, e é bem de leve um concept album sobre o fictício Better Oblivion Community Center, uma espécie de spa distópico. Não há exatamente uma grande narrativa que engloba todas as músicas, por isso dá até pra se ignorar essa pequena premissa e simplesmente apreciar o álbum.

O som apresentado pela dupla é um folk rock bastante básico, na verdade, sem grandes experimentações ou novidades para o gênero, mas é extremamente bem feito e produzido. Suas vozes combinam perfeitamente, algo que já sabíamos com “Would You Rather”, de Stranger In The Alps, cujos vocais de apoio de Oberst já previam tal colaboração. E agora aqui dividem completamente o holofote, já que nenhum se sobressai mais do que o outro.

Ambos cantam em suas carreiras sobre sentimentos de alienação, depressão, melancolia e solidão de forma leve, empatética e sincera, honesta. Essa honestidade é o que dá o tom predominante de Better Oblivion Community Center, cantando sobre personagens que na maioria do tempo são levados a um extremo ou outro, de forma sutil e calma. ‘All this freedom just freaks me out‘, canta Oberst em “My City”, continuando o tema de ‘nem-sempre-as-coisas-boas-são-realmente-tão-boas-assim’ que ele já fazia com o Bright Eyes desde sempre. O mais impressionante é que Bridgers não parece ofuscada, ela sempre responde à altura e completa as ideias de Oberst com uma confiança que nem sempre é comum a artistas que literalmente estão apenas começando.

Bridgers eleva Oberst da mesma forma como ele a ajuda a sair de sua zona de conforto e escrever canções-narrativa. Better Oblivion Community Center é um casamento com divisão total de bens; dois grandes artistas empurrando um ao outro a coisas novas ao mesmo tempo em que um sempre está lá para apoiar o outro. Apesar do tom calmo e confiante, a dinâmica entre os dois é de tirar o fôlego. Sem contar que Better Oblivion é o melhor trabalho de Oberst desde, talvez, The People’s Key em 2011. E Bridgers, apesar de seu pouco tempo de carreira, já sabe muito bem quem é como artista e que tem um longo e ótimo futuro pela frente.

OUÇA: “Dylan Thomas”, “Exception To The Rule”, “Sleepwakin’” e “My City”.

2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

Pabllo Vittar – Não Para Não


Não tem muito como nem pra onde fugir, Pabllo Vittar é um fenômeno. Pouquíssimo tempo se passou desde que a drag queen maranhense lançou seu primeiro EP, Open Bar, e depois seu álbum Vai Passar Mal em Janeiro de 2017. Pouco tempo, mas o suficiente para Pabllo fazer parcerias com nomes que vão desde Preta Gil e Anitta até Diplo e Charli XCX. Vai Passar Mal foi um álbum pop incrível, que cumpria exatamente o que prometia: um álbum pop chiclete, feito por uma drag queen mas que transcendeu as barreiras da comunidade LGBT e lançou Pabllo para o mainstream de uma vez por todas.

E agora a moça lança seu segundo disco, Não Para Não. E, pelo menos musicalmente, as coisas parecem ter esfriado um pouco. Bastante, na verdade. A proposta da Pabllo não é e nunca nem foi fazer música pop contemplativa e introspectiva, é verdade, mas Não Para Não peca em ser um pouquinho raso demais até para a pista. Enquanto Vai Passar Mal misturava muito bem o pop com MPB, brega e eletrônico, ele tinha momentos de vulnerabilidade como “Indestrutível” e “Irregular”, coisa que não acontece em momento algum em Não Para Não.

Em seu segundo disco, Pabllo foca muito mais a produção no tecnobrega e forró, em detrimento aos diversos outros estilos misturados que permearam o debut. Isso funciona muito bem em “Buzina”, faixa que abre o disco e com certeza a melhor do trabalho como um todo. Mas no restante, a produção muito monótona acaba se tornando repetitiva e cansa rápido demais. É possível ouvir Vai Passar Mal no repeat descontraidamente, mas Não Para Não logo se torna chato e morno – até mesmo antes do final da primeira audição completa. As participações aqui, de Ludmilla, Urias e Dilsinho, pelo menos, servem um propósito maior do que apenas repetir o que a Pabllo tinha acabado de cantar – como eram todas as presentes no debut, coisa que sempre me incomodou muito na produção de Vai Passar Mal.

Toda a representatividade de Pabllo ter chegado (e se mantido) onde chegou é maravilhosa, sem a menor sombra de dúvida – não podemos nunca nos esquecer de que gostando ou não da música, Pabllo é uma bicha afeminada nordestina que milita publicamente sempre, e isso é extremamente importante e longe de ser pouca coisa. Talvez Não Para Não, mesmo sendo musicalmente duvidoso em sua maioria, sirva exatamente para isso, para manter Pabllo na conversa. Uma conversa que histórico-social é muito mais relevante do que um álbum não muito bom. Por agora isso já é o suficiente, e que o próximo álbum seja mais interessante.

OUÇA: “Buzina”, “Problema Seu” e “Não Vou Deitar”.

Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

The Joy Formidable – AAARTH


Minha mente às vezes faz uns paralelos estranhos, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça quando ouvi AAARTH, novo trabalho da banda galesa The Joy Formidable, foi todo o tempo que passei ouvindo j-rock durante o colegial. Especialmente a banda the GazettE, uma das únicas que me continuaram comigo nesses dez anos e ainda fazem parte da minha playlist – não acompanho muito seu trabalho recente mas os primeiros álbuns até 2008 ainda são recorrentes em minha vida. Seu segundo disco, NIL, vai ser pra sempre um dos meus favoritos da vida toda – e se o ocidente não fosse tão preconceituoso com música oriental, com certeza mais pessoas o teriam escutado e concordariam comigo.

O que sempre me atraiu muito ao GazettE era a sua diversidade. Eles eram capazes de ir do punk ao metal, passando por pianos, orquestrações e influências de hip hop sem perderem sua identidade e com um som ainda bastante acessível. Seu terceiro álbum, Stacked Rubbish, foi quando adicionaram as batidas de hip hop e pesaram um pouco mais no baixo. Músicas como “Agony” ilustram isso perfeitamente.

E o que uma banda japonesa de visual kei tem a ver com os galeses do Joy Formidable? Em AAARTH, pra mim pelo menos, tudo. Se tivesse que comparar o quarto disco da banda com qualquer coisa, seria com o j-rock do GazettE. AAARTH apresenta o mesmo caos organizado de influências que sempre vi e me interessou no GazettE.

Seguindo o bastante morno Hitch, o Joy Formidable nos trouxe dessa vez um álbum realmente bom de novo e que mostra que a banda apenas teve um pequeno relapso em seu lançamento passado. Ao contrário da mesmice pouco criativa de Hitch, cada música em AAARTH traz uma versão diferente do mesmo Joy Formidable e isso torna o álbum bastante único e bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Meu saudosismo ainda insiste em dizer que A Balloon Called Moaning vai ser pra sempre o melhor disco do grupo, mas às vezes justamente por ter isso como ‘fato’ é possível apreciar sua nova direção como algo tão bacana quanto. Já que nada nunca vai superar, não precisamos nem levar seu primeiro mini-álbum em consideração quando falarmos do trio. E AAARTH é, talvez, a melhor coisa que veio da banda desde então. Exatamente por ser um disco bastante arriscado e aparentemente desconexo.

“Y Bluen Eira”, que abre o álbum, já mostra que o que encontraremos aqui não é a mesma coisa que já veio da banda antes. Eles também, em “All In All” principalmente, voltam ao quasi-shoegaze de músicas como “Ostrich” e isso é algo maravilhoso de se ouvir. O maior defeito de um álbum como AAARTH, aqui, se torna seu maior trunfo: a falta de coesão. As faixas não conversam exatamente entre si, então ouví-lo em sua ordem formal não importa muito. Trata-se de músicas completas, como uma compilação de singles de diferentes eras ou de um ‘best of’, não de um trabalho que pretende ter um começo, meio e fim definidos.

AAARTH, no final, deve ser reconhecido como uma ótima adição à discografia do Joy Formidable. Um álbum que vale a ouvida e que chega até a surpreender em alguns momentos, exatamente por que ele não parece se importar muito com isso.

OUÇA: “Y Bluen Eira”, “Cicada (Land On Your Back)”, “The Better Me” e “Caught On A Breeze”

E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – Fundação


No já longínquo Maio de 2013, fui a um show que realmente mudou minha vida. Foi de uma banda que eu já era fã, mas cuja apresentação me marcou tão profundamente que eu saí de lá outra pessoa – e nos anos que seguiram essa se tornou uma de minhas bandas favoritas da vida inteira. Eu nunca havia chorado e me emocionado tanto assim em um show de música. A banda em questão foi o Explosions in the Sky em seu show no Sesc Belenzinho. Desde então, já fui em inúmeros outros shows mas nenhum nunca tinha chegado perto desse. Até eu ver a banda paulistana E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante no Balaclava Fest em 2017. Coincidentemente, também no mês de Maio.

O quarteto paulistano já vinha construindo seu nome e reputação com EPs e singles desde 2014 e a notícia de que esse ano lançaríam seu primeiro álbum completo (e, principalmente, que se tratariam somente de composições inéditas) deixou seus fãs na expectativa. E, como era de se esperar, eles não decepcionaram. Fundação é de longe o melhor, mais variado e completo trabalho da banda e um dos – se não O – melhores álbuns do ano com toda a certeza.

Eu sempre acho estranho e levemente desconfortável escrever sobre um trabalho instrumental – a banda não precisa de palavras para passar suas emoções, quem sou eu pra tentar fazê-lo? Mas não podia deixar um disco como Fundação passar em branco, principalmente quando trata-se de uma banda que também me marcou profundamente – e aqui pertinho de casa. Em Fundação, Lucas, Luccas, Luden e Rafael nos entregam um disco extremamente bem pensado, bem produzido e com uma sutileza ímpar.

Em Fundação os meninos apresentam tudo aquilo que já haviam fazendo com perfeição e ainda nos mostram algumas novidades, como toques eletrônicos e, na última faixa, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução”, para aumentar ainda mais a catarse do álbum como um todo, eles pela primeira vez cantam em uníssono e repetem o nome da música em sua metade final. Fundação nos mostra um equilíbrio entre o peso e a leveza, entre a calmaria e a tempestade que não aparece com frequência nem mesmo entre os Grandes Nomes Consagrados do gênero como Godspeed You! Black Emperor, Sigur Rós e até mesmo o próprio Explosions in the Sky.

E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, mesmo fazendo tecnicamente parte um gênero tão específico como o post-rock, se coloca como um dos melhores nomes da música brasileira como um todo. Existe sim muita coisa boa acontecendo por aqui em qualquer vertente que quiser procurar, então aproveito esse momento pra deixar o recado: vamos valorizar mais o que é nosso, a música boa sendo feita aqui em nosso próprio país.

OUÇA: “Daiane”, “Já Não Ligo Se Tudo Der Errado”, “Se Fosse Assim, Onde Iríamos Parar?”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Karoshi”

Interpol – Marauder


É muito difícil pra mim escrever sobre Interpol, começo o texto logo admitindo isso. Trata-se de uma das minhas bandas favoritas, que sempre esteve presente na minha vida, desde boa parte da adolescência até toda a vida adulta. Cresci com eles, amadureci com eles. Sempre fui capaz de entender todas as guinadas que davam em seu som e carreira, e os defendo até hoje. Então não é fácil escrever sobre seu novo álbum.

Marauder, seu sexto álbum de estúdio e primeiro em quatro anos, está sendo falado por muitos como o melhor disco da banda em anos. Mas, na verdade, ele segue exatamente a mesma estética e influências que permearam El Pintor, criticado por tantos. Parece se tratar, inclusive, da mesma sessão de gravações – o leve clima shoegaze, o baixo mais pesado, os riffs de guitarra presentes e interessantes, mas não mais como o centro das composições (inclusive, saudades Antics). Até mesmo a voz de Paul Banks e o ritmo das músicas parece não ter envelhecido absolutamente nada.

E eu sempre achei El Pintor um álbum ótimo, ele sim foi o melhor da banda desde 2004, então por que continuar isso é um problema agora em 2018? Na verdade, nenhum. Mas é a primeira vez em sua discografia em que isso acontece. Em que não há uma real evolução, uma mudança de sentido, um nada diferente do anterior. Marauder não é ruim, mas é uma leve decepção.

O Interpol se menteve dentro de sua zona de conforto e fez um álbum explorando aquilo que sempre fizeram de melhor. A maior novidade aqui é que, pela primeira vez, há interludes separando as faixas do álbum em blocos – mas na verdade eles não servem pra muita coisa. O clima geral do álbum é o mesmo do começo ao fim. A notícia da produção assinada por Dave Fridmann talvez tenha sido a maior responsável por minha semi-frustração com Marauder. Fridmann, entre inúmeros títulos, foi o produtor do lendário The Woods do Sleater-Kinney, o álbum que mais destoa do restante da discografia das meninas do S-K por sua ferocidade, psicodelia e peso. Mas não é o caso aqui.

Marauder é um ótimo álbum, mas um passo bastante seguro para o Interpol. Sem grandes novidades, sem grandes surpresas, sem grandes mudanças. O Interpol segue sendo a banda mais consistente de sua época, com seis álbuns nas costas e nenhuma grande decepção. A banda continua com trabalhos fortes e impecáveis, feitos por e para quem cresceu junto com eles e entende que já fazem 15 anos desde o Turn On The Bright Lights e a banda não é mais a mesma. Assim como seus fãs também não são. Marauder vale a ouvida, talvez até várias e várias vezes, mas a falta de inovação – nem para o melhor nem para o pior – faz com que, pela primeira vez em sua carreira, o Interpol talvez tenha um álbum fácil de ser esquecido.

OUÇA: “Mountain Child”, “Number 10”, “If You Really Love Nothing” e “NYSMAW”