Bleached – Don’t You Think You’ve Had Enough?



Bleached é uma banda formada pelas irmãs Jennifer e Jessica Clavin, após a dissolução de seu projeto anterior, Mika Miko. A dupla lança agora em 2019 seu terceiro álbum, Don’t You Think You’ve Had Enough?, sucessor do subvalorizado e excelente Welcome The Worms de 2016.

Em Don’t You Think as moças apostam em um som muito mais acessível e polido do que nos trabalhos anteriores, mas ainda mantendo suas raízes no garage rock cru e punk distorcido. O primeiro single do disco, “Hard To Kill”, me soou estranho a princípio exatamente por conta dessas mudanças. Foi apenas depois de ouvir o álbum por completo que tudo fez sentido.

Aqui, as irmãs mostram uma gama muito maior do que podem fazer, misturando ritmos diferentes daqueles que predominam nos outros dois álbuns e ao mesmo tempo criando uma obra bastante coesa, interessante e divertida. Em “Kiss You Goodbye”, com uma guitarra em staccato e bateria disco, trazem talvez o melhor single do álbum. Já em músicas como “Valley To LA” e “Daydream” elas mostram que continuam fazendo seu rock cru ainda bastante bem.

Don’t You Think You’ve Had Enough? é um álbum que mescla constantemente post-punk com os mais variados elementos e todos eles funcinam. É um disco bastante divertido e prova que Jennifer e Jessica sabem muito bem o que estão fazendo. Com certeza um dos mais inesperados e interessantes discos desse primeiro semestre.

OUÇA: “Kiss You Goodbye”, “Rebound City”, “Real Life”, “Daydream”, “Heartbeat Away” e “Hard To Kill”

Hatchie – Keepsake



Harriette Pilbeam, conhecida musicalmente como Hatchie, é uma cantora australiana que lançou seu primeiro álbum completo, Keepsake, agora no primeiro semestre de 2019. Keepsake seguiu o excelente EP Sugar & Spice ano passado e agora veio consolidar o nome de Hatchie de vez.

Seu som aqui continua com a mesma mistura de shoegaze e dream pop que ela havia apresentado em Sugar & Spice e dessa vez eleva os elementos ainda mais. Keepsake caminha livremente entre as baterias eletrônicas, refrões grudentos e as várias camadas de guitarras distorcidas. Não se trata de algo absolutamente novo de forma nenhuma. Essa combinação de shoegaze com eletrônico e pitadas de pc music já foi feita antes por inúmeros nomes, mas Keepsake é um álbum tão gostoso de se ouvir que a falta de originalidade não importa e nem atrapalha em nada.

Suas letras tratam de temas sobre relacionamentos e amores, de forma sempre doce e genuína. Hatchie também faz questão, ao longo dos 45 minutos e dez faixas do álbum, de mostrar toda a sua versatilidade indo das músicas lentas e tristes até as animadas e dançantes. Tudo isso sempre de forma bastante confiante e orgânica.

Hatchie é alguém que cita tanto My Bloody Valentine e Cocteau Twins quanto Carly Rae Jepsen e Kylie Minogue como influências e isso pode ser percebido ao longo do trabalho. Se Sugar & Spice já dava indícios do talento da moça e todo o seu potencial, aqui isso tudo é comprovado e seu som está em sua melhor forma até o momento.

Keepsake, mesmo sem incluir o excelente single ao vivo “Adored”, é um ótimo debut e o começo de uma carreira bastante promissora para a jovem artista australiana.

OUÇA: “Obsessed”, “Without A Blush”, “Keep” e “Stay With Me”

As Bahias e A Cozinha Mineira – Tarântula



Nessa altura da vida, acredito que a maravilhosa banda As Bahias e a Cozinha Mineira dispensa grandes apresentações. O trio já nos presenteou com os incríveis álbuns Mulher (2015) e Bixa (2017) e agora chegam em seu terceiro trabalho de estúdio, Tarântula. E as coisas continuam seguindo como era de se esperar, só que quase.

Em um mundo utópico, o fato de que Assucena e Raquel são travestis não deveria importar em absolutamente nada, mas a realidade não é essa. Para nós LGBTs a mera existência sendo quem é já se trata de um ato político, principalmente em nosso cenário atual, e isso é ainda mais verdade para a população T. E as duas levantam essa bandeira com muita força toda a oportunidade que têm, e isso é absurdamente necessário e algo incrível. Em sua música não é diferente, e aqui isso acontece mais do que nos trabalhos anteriores.

Mulher foi marcado por músicas épicas como “Apologia Às Virgens Mães” e “Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)”, mas é “Reticências” e “Josefa Maria” que realmente representam o álbum: uma gama gigantesca de influências e uma constante mudança de direção e ritmo, muitas vezes na mesma música. Em Bixa, foram adicionados elementos eletrônicos e uma produção mais pop acessível, mas ainda mantendo sua essência no MPB, passando por boleros e baladas. E agora em Tarântula

Tarântula tenta seguir na mesma linha do Bixa, com menos eletrônicos, mas com a mesma produção acessível e impecável. É a primeira vez em que existe uma música da banda cantada apenas pelo Rafael (a linda “Volta”), e também a primeira participação creditada de um artista de fora em um álbum das Bahias (Projota em “Tóxico Romance”). Mas mesmo se tratando de um álbum ótimo e com certeza acima da média, Tarântula peca um pouco e falta quando comparado com os outros dois.

As letras e composições continuam inteligentíssimas, com destaque para “Pipoco E Pipoca” e “Chute De Direita”, que são o tipo de música que não poderia ter vindo de nenhum outro artista. “Das Estrelas”, com um ótimo clipe estrelado pela maravilhosa Renata Carvalho, retoma o mesmo tom épico de “Uma Canção Pra Você” e um destaque bastante positivo. “Tóxico Romance”, com toda a certeza é a melhor música do trabalho, com uma letra bastante sexual sobre um encontro ilícito durante uma madrugada da vida. E quem nunca?

Existem sim músicas incríveis e destaques excelentes, mas esse é o problema de Tarântula: são destaques, e não o álbum todo. Pela primeira vez existem músicas não tão memoráveis em um disco das Bahias. Tarântula tem tudo o que “deveria” ter em um álbum das Bahias, ele só não tem no geral a mesma força que existe em seus outros dois lançamentos.

Eu já disse isso aqui mesmo no YMD em algum momento e agora repito: assistam às Bahias e a Cozinha Mineira ao vivo quando puderem, mesmo se não gostarem tanto das músicas feitas pelas moças. Elas são donas de um dos melhores shows ao vivo da música nacional.

OUÇA: “Tóxico Romance”, “Pipoco E Pipoca”, “Das Estrelas”, “Chute De Direita” e “Mátria”

Brvnks – Morri De Raiva



Escutando Morri De Raiva, ou na verdade qualquer outra música de seu primeiro EP Lanches (2016) da Bruna Guimarães, ou Brvnks, fica muito fácil de entender o porquê de a moça ter sido chamada para abrir o show da australiana Courtney Barnett no começo desse ano. Nem precisamos falar sobre a semelhança na voz das duas (evidenciada ainda mais neste excelente cover); o estilo das duas é muito parecido. Simplista, confessional, letras em forma de fluxo de consciência sobre acontecimentos ao seu redor. Uma guitarra distorcida pra juntar tudo. E pronto.

Brvnks é a cantora que a cena indie brasileira estava desesperadamente precisando, seu tipo de música não é muito comum hoje em dia aparecendo aqui. O fato é tanto que a própria Bruna disse em uma entrevista que prefere compor em inglês por que o idioma ‘combina mais’ com a estética do som do que sua língua nativa. Mas ainda sim, a moça usa do português em alguns de seus títulos – como “Tristinha” e o próprio nome do disco.

Morri De Raiva é seu primeiro álbum completo, lançado finalmente agora em maio, e é composto por dez faixas. Que se trata de um excelente trabalho, extremamente coeso e competente não deveria ser surpresa pra ninguém. Há anos a moça já vem se provando como um nome de peso, um nome de respeito. E é exatamente por não surpreender ninguém, mesmo sendo um ótimo disco, que minha nota aqui não foi um pouco mais alta.

O maior defeito de Morri De Raiva está no fato de que, além dos singles “Tristinha”, “Yas Queen” e “Fred”, Brvnks decidiu incluir também regravações de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B. (Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be)” de seu primeiro EP, assim como finalmente nos presentear com versões em estúdio de “I Hate All Of You”, “Grey Eyes” (aqui retitulada “Your Mom Goes To College”) e “Lanches” (aqui, “Snacks”). Das dez faixas que compõe o disco, mais da metade já eram conhecidas antes por quem acompanha o trabalho da Bruna. Isso não necessariamente seria uma coisa ruim, se não fosse o fato de que as músicas realmente novas não fossem suas melhores composições até agora.

“I Am My Own Man” e “Tired”, que nunca tinham tido nenhuma versão nem ao vivo lançada ainda, são com certeza os pontos mais altos do disco. ‘I am my own man, I got my own band, I ain’t anyone’s girlfriend‘, Bruna canta sobre guitarras rápidas no melhor estilo Dum Dum Girls. ‘I work all week to hear this fucking shit, your dick is not made of gold‘, ela completa. Uma verdadeira princesa, fada sensata ela.

As composições mais antigas ganham versões novas aqui (e, no caso de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B.” perdem um pouquinho de sua força quando comparadas com às do EP), e se tratam de músicas ótimas. Mas a sensação de que quase tudo já foi ouvido antes causa uma leve decepçãozinha. Bem de leve, pois o resultado final ainda é excelente.

Em suas letras, de forma geral, Bruna exorciza todas as suas pequenas (e às vezes nem tão pequenas assim) frustrações e momentos de raiva presentes no dia a dia, coisas que são em sua maioria comuns a todos. Isso é o que torna Morri De Raiva um disco tão memorável. Alguns versos, como ‘I know you’re mad about the Misfits guy in your refrigerator‘ parecem ser direcionados a uma pessoa ou situação específica, e isso apenas instiga o ouvinte ainda mais.

Morri De Raiva é um álbum completo, ilustrando tudo o que Bruna já fez até agora e continua fazendo com maestria. Trata-se de um excelente primeiro disco, de uma mulher que ainda tem muito o que dizer e muito barulho pra fazer.

OUÇA: “I Am My Own Man”, “Tired”, “Don’t”, “Tristinha” e “Yas Queen”

Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”

An Horse – Modern Air



An Horse é uma dupla australiana formada por Kate Cooper e Damon Cox, e Modern Air lançado agora em 2019 é (finalmente) seu terceiro álbum de estúdio. Após concluirem a turnê em prol de seu maravilhoso disco Walls, a banda entrou em uma pausa e durante muitos anos não deram notícia nem sinal de vida. Nesse meio tempo, sua vocalista Kate Cooper lançou em 2015 um álbum solo sob a alcunha Cooper, e pouco depois também sumiu.

Trata-se de uma banda muito especial para mim, pessoalmente, que devorei seus primeiros discos uma década atrás. Rearrange Beds e Walls ainda se encontram no rol de meus discos favoritos da vida e mesmo nesses anos em que não tínhamos sinais de vida da banda, eu sempre revisitava a pequena discografia do An Horse com certa frequência. Foi, então, um prazer imensurável quando ano passado os dois voltaram a fazer shows e lançaram o ótimo single “Get Out Somehow”.

Logo no começo de 2019 Modern Air foi anunciado, juntamente com as músicas “This Is A Song” e “Ship Of Fools” e tudo parecia lindo. As músicas estavam boas, a dinâmica dos dois estava ainda mais cheia de energia do que antes, tudo se encaminhava para que seu terceiro disco fosse ainda mais maravilhoso e o melhor de sua carreira. Aí Modern Air chegou.

Não quero usar a palavra ‘decepção’, pois Modern Air se tornou também um álbum bastante querido pra mim e escutá-lo traz uma nostalgia maravilhosa. Mas Modern Air, infelizmente, é um disco fraco. Fora as músicas divulgadas antes do seu lançamento, poucas outras se destacam. Toda a energia, fogo e revitalidade dos singles não estão presentes na maior parte do álbum.

Seu som, que sempre foi bastante simples guitarra/bateria em sua maior parte do tempo e com influências shoegaze e emo bem pronunciadas, aqui em algumas partes vai quase para um lado mais punk e isso é incrível, mas esses momentos são raros. É realmente uma pena que na maior parte do disco nada disso aparece e o que nos restam são baladas calmas, tristes e pouco impressionantes.

Modern Air é um álbum bonito, bem pensado e produzido – mesmo que não seja sonicamente tão coeso quanto os outros dois. Depois de tantos anos em silêncio, Modern Air vale pelo seu ar nostálgico e para se ouvir sem grandes pretensões.

OUÇA: “This Is A Song”, “Ship Of Fools” e “Breakfast”.

CHAI – Punk



Punk é o segundo álbum completo da banda japonesa CHAI, seguindo seu debut Pink em 2017. Apenas o fato de que seu debut se chama Pink e o segundo álbum, Punk, já dá pra ter uma ideia que o senso de humor é algo bastante importante para as moças de Nagoya. O quarteto faz uma mistura interessante e inusitada de pop punk com elementos dance, eletrônicos e de girl band anos 60.

As moças do CHAI têm como propósito redefinir o que é ser ‘kawaii’ em japonês, ou seja, o que significa ser ‘cute’ em inglês; ou ‘bonitinho’/’fofo’ em português. Elas fazem isso com uma mensagem bastante simples e inclusiva de que todos podem ser kawaii, cada pessoa de sua forma, mesmo quando isso vai contra os padrões de beleza (principalmente) japoneses. Algo bastante simples mesmo e universal, mas não pouco importante e bastante feminista.

O som e mensagem das moças já atraiu atenção desde seus primeiros lançamentos, os EPs Hottakara Series e Homegoro Series, principalmente na Europa. Seu single “Gyaranboo” se encontrou no Top 50 das músicas mais ouvidas no Spotify no Reino Unido sem nenhum esforço por parte da banda. Talvez por esse motivo elas tenham sido convidadas pelos queridinhos do hype Superorganism para ser sua banda de abertura.

O CHAI realmente faz uma música bastante diferente, até mesmo para os padrões da música japonesa atual, o que as torna bem interessantes. Elas definem seu som como influenciado por Cansei de Ser Sexy, Gorillaz e Jamiroquai, assim como Chvrches e Justice. Punk traz todas essas influências e também adiciona elementos mais tradicionais pop punk resultando em um álbum divertidíssimo do começo ao fim.

Diversão, mas com um propósito, parece ser o objetivo final das moças do CHAI o tempo todo e isso é bastante perceptível. As letras oscilam o tempo todo entre o japonês e o inglês, e o sotaque da vocalista principal Mana é tão carregado que nem sempre é possível distinguir entre os dois idiomas. E isso, nem de longe, é um problema ao longo da audição do disco.

Sempre houveram alguns nomes orientais que conseguiram se manter no mundo musical ocidental, como o X-Japan e o Shonen Knife, e agora com a explosão de k-pop acontecendo no mundo pop, o preconceito ocidental com músicas e línguas orientais parece estar um pouco mais leve. E isso é tudo o que as meninas do CHAI precisam para poderem se firmar como um nome relevante dentro da esfera alternativa. Talento e qualidade musical para isso elas já mostraram que têm.

OUÇA: “Choose Go!”, “Fashionista”, “I’m Me”, “Feel The Beat” e “This Is Chai”

Ex Hex – It’s Real



O fato de que Mary Timony não é um nome tão instantaneamente reconhecível quanto Kathleen Hannah, Carrie Brownstein ou Kim Deal é, ao meu ver, quase um crime. A moça é uma guitarrista excepcional e está na ativa desde os anos 90, tendo tocado em bandas como Autoclave e Helium antes de se lançar em uma ótima carreira solo. Em 2011, Mary ao lado de Brownstein, Janet Weiss e Rebecca Cole, lançou o excelente Wild Flag, único álbum da banda de mesmo nome. Pouco depois ela formou o Ex Hex, seu projeto atual.

It’s Real é o segundo álbum da banda, seguindo o ótimo e subvalorizado debut Rips de 2014. O som do Ex Hex segue bastante o que o Wild Flag fez em seu único disco, e talvez ainda mais nesse álbum do que no primeiro. Trata-se de um indie rock extremamente bem feito, com influências de post-punk, garage rock e riot grrrl. It’s Real mostra os vocais de Mary mais fortes e confiantes do que nunca, ótimos riffs e solos de guitarra, e uma bateria matadora. É um álbum de rock bastante simples e sem defeitos.

Mas, por algum motivo, It’s Real falha em causar o mesmo impacto que Rips teve poucos anos atrás. Talvez por ser um disco levemente mais sério e sem tantos coros pop punk nos refrões, talvez por ser menos explosivo do que o anterior. Não há músicas como “Waterfall” ou “Beast” aqui, e esse é o seu maior defeito. O single “Tough Enough” é o mais próximo, mas o restante do disco peca pelo “excesso de seriedade”, de uma certa forma. It’s Real é mais técnico e menos espontâneo do que qualquer outra coisa já lançada por Mary.

Com certeza ainda trata-se de um álbum ótimo e muito acima da média, feito por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Timony já tem quase trinta anos de carreira, e toda essa experiência é palpável em cada riff de sua guitarra. Ex Hex segue sendo uma banda que definitivamente vale a audição, assim como tudo o que tem a mão da Mary nesses anos todos.

OUÇA: “Tough Enough”, “Radiate”, “Diamond Drive” e “Good Times”

Amanda Palmer – There Will Be No Intermission



Amanda Palmer é uma pessoa extremamente passional em tudo o que faz, desde sempre. Sua carreira musical, com toda a certeza, não é diferente. Eu pessoalmente sou muito fã da moça desde seus tempos com o The Dresden Dolls e acompanho sua carreira solo desde o “fim” do duo. There Will Be No Intermission é seu quarto álbum solo, se contarmos o Amanda Palmer Goes Down Under, que foi gravado ao vivo, e o primeiro desde o incrível Theatre Is Evil em 2012. E Intermission é um álbum essencial da Amanda.

Trata-se, provavelmente, do álbum mais pessoal de toda a sua carreira. Lidando com temas como maternidade, morte, amor, aborto e casamento, Amanda canta todas as suas dores de forma bastante explícita e honesta sem medir suas palavras. ‘I was peeing in the bathroom and had left for just one second / ‘Cause I thought he couldn’t move and he was safe / As I came out I saw him falling in slow motion to the floor / It was probably the worst moment of my life‘, Palmer canta em “A Mother’s Confession”, a faixa mais longa com quase onze minutos de duração. ‘At least the baby didn’t die‘, ela continua em seu refrão.

There Will Be No Intermission é, também, um álbum minimalista quando comparado a seus outros. Toda a exposição emocional é feita através de músicas compostas apenas usando piano ou ukulele na maior parte do tempo. Isso, e o fato de que várias de suas músicas já eram conhecidas desde 2015, faz com que o álbum pareça em grande parte do tempo algo não muito impressionante.

É sem dúvida alguma um trabalho bastante confessional e com composições belíssimas – o maior problema aqui é que elas não necessariamente funcionam como um álbum coeso. Por se tratar de, no total, 20 faixas, em que muitas delas ultrapassam os seis minutos e são em sua grande maioria cantadas apenas por Amanda acompanhada de um único instrumento (piano ou ukulele), Intermission acaba sendo bastante monótono. Não existem grandes variações em ritmo ou composições e isso atrapalha um pouco o ouvinte – o real foco de Amanda aqui está em suas letras.

As letras, sim, são maravilhosas do começo ao fim. Lindíssimas, abordando temas complicados e universais a todos – principalmente a mulheres que são mães. There Will Be No Intermission desde sua capa, com Amanda completamente nua e segurando uma espada, mostra a força dessa mulher em todos os sentidos.

Mas a monotonia de Intermission infelizmente faz com que o seu álbum mais poético e pessoal já lançado tenha um tom não muito memorável. Analisar There Will Be No Intermission enquanto uma coletânea de poesias e devaneios musicados o torna um álbum memorável, mas (por falta de outra palavra) chato de se ouvir do começo ao fim. Em suas 20 faixais, o disco percorre quase uma hora e meia e são poucos os momentos em que Amanda brilha nesse contexto – se você analisar as músicas faixa a faixa é possível se emocionar e mergulhar na proposta de Amanda. Mas essas faixas todas simplesmente não funcionam tão bem como uma obra completa e coesa.

OUÇA: “A Mother’s Confession”, “Drowning In The Sound”, “Bigger On The Inside” e “Voicemail For Jill”