Brvnks – Morri De Raiva



Escutando Morri De Raiva, ou na verdade qualquer outra música de seu primeiro EP Lanches (2016) da Bruna Guimarães, ou Brvnks, fica muito fácil de entender o porquê de a moça ter sido chamada para abrir o show da australiana Courtney Barnett no começo desse ano. Nem precisamos falar sobre a semelhança na voz das duas (evidenciada ainda mais neste excelente cover); o estilo das duas é muito parecido. Simplista, confessional, letras em forma de fluxo de consciência sobre acontecimentos ao seu redor. Uma guitarra distorcida pra juntar tudo. E pronto.

Brvnks é a cantora que a cena indie brasileira estava desesperadamente precisando, seu tipo de música não é muito comum hoje em dia aparecendo aqui. O fato é tanto que a própria Bruna disse em uma entrevista que prefere compor em inglês por que o idioma ‘combina mais’ com a estética do som do que sua língua nativa. Mas ainda sim, a moça usa do português em alguns de seus títulos – como “Tristinha” e o próprio nome do disco.

Morri De Raiva é seu primeiro álbum completo, lançado finalmente agora em maio, e é composto por dez faixas. Que se trata de um excelente trabalho, extremamente coeso e competente não deveria ser surpresa pra ninguém. Há anos a moça já vem se provando como um nome de peso, um nome de respeito. E é exatamente por não surpreender ninguém, mesmo sendo um ótimo disco, que minha nota aqui não foi um pouco mais alta.

O maior defeito de Morri De Raiva está no fato de que, além dos singles “Tristinha”, “Yas Queen” e “Fred”, Brvnks decidiu incluir também regravações de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B. (Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be)” de seu primeiro EP, assim como finalmente nos presentear com versões em estúdio de “I Hate All Of You”, “Grey Eyes” (aqui retitulada “Your Mom Goes To College”) e “Lanches” (aqui, “Snacks”). Das dez faixas que compõe o disco, mais da metade já eram conhecidas antes por quem acompanha o trabalho da Bruna. Isso não necessariamente seria uma coisa ruim, se não fosse o fato de que as músicas realmente novas não fossem suas melhores composições até agora.

“I Am My Own Man” e “Tired”, que nunca tinham tido nenhuma versão nem ao vivo lançada ainda, são com certeza os pontos mais altos do disco. ‘I am my own man, I got my own band, I ain’t anyone’s girlfriend‘, Bruna canta sobre guitarras rápidas no melhor estilo Dum Dum Girls. ‘I work all week to hear this fucking shit, your dick is not made of gold‘, ela completa. Uma verdadeira princesa, fada sensata ela.

As composições mais antigas ganham versões novas aqui (e, no caso de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B.” perdem um pouquinho de sua força quando comparadas com às do EP), e se tratam de músicas ótimas. Mas a sensação de que quase tudo já foi ouvido antes causa uma leve decepçãozinha. Bem de leve, pois o resultado final ainda é excelente.

Em suas letras, de forma geral, Bruna exorciza todas as suas pequenas (e às vezes nem tão pequenas assim) frustrações e momentos de raiva presentes no dia a dia, coisas que são em sua maioria comuns a todos. Isso é o que torna Morri De Raiva um disco tão memorável. Alguns versos, como ‘I know you’re mad about the Misfits guy in your refrigerator‘ parecem ser direcionados a uma pessoa ou situação específica, e isso apenas instiga o ouvinte ainda mais.

Morri De Raiva é um álbum completo, ilustrando tudo o que Bruna já fez até agora e continua fazendo com maestria. Trata-se de um excelente primeiro disco, de uma mulher que ainda tem muito o que dizer e muito barulho pra fazer.

OUÇA: “I Am My Own Man”, “Tired”, “Don’t”, “Tristinha” e “Yas Queen”

Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”

An Horse – Modern Air



An Horse é uma dupla australiana formada por Kate Cooper e Damon Cox, e Modern Air lançado agora em 2019 é (finalmente) seu terceiro álbum de estúdio. Após concluirem a turnê em prol de seu maravilhoso disco Walls, a banda entrou em uma pausa e durante muitos anos não deram notícia nem sinal de vida. Nesse meio tempo, sua vocalista Kate Cooper lançou em 2015 um álbum solo sob a alcunha Cooper, e pouco depois também sumiu.

Trata-se de uma banda muito especial para mim, pessoalmente, que devorei seus primeiros discos uma década atrás. Rearrange Beds e Walls ainda se encontram no rol de meus discos favoritos da vida e mesmo nesses anos em que não tínhamos sinais de vida da banda, eu sempre revisitava a pequena discografia do An Horse com certa frequência. Foi, então, um prazer imensurável quando ano passado os dois voltaram a fazer shows e lançaram o ótimo single “Get Out Somehow”.

Logo no começo de 2019 Modern Air foi anunciado, juntamente com as músicas “This Is A Song” e “Ship Of Fools” e tudo parecia lindo. As músicas estavam boas, a dinâmica dos dois estava ainda mais cheia de energia do que antes, tudo se encaminhava para que seu terceiro disco fosse ainda mais maravilhoso e o melhor de sua carreira. Aí Modern Air chegou.

Não quero usar a palavra ‘decepção’, pois Modern Air se tornou também um álbum bastante querido pra mim e escutá-lo traz uma nostalgia maravilhosa. Mas Modern Air, infelizmente, é um disco fraco. Fora as músicas divulgadas antes do seu lançamento, poucas outras se destacam. Toda a energia, fogo e revitalidade dos singles não estão presentes na maior parte do álbum.

Seu som, que sempre foi bastante simples guitarra/bateria em sua maior parte do tempo e com influências shoegaze e emo bem pronunciadas, aqui em algumas partes vai quase para um lado mais punk e isso é incrível, mas esses momentos são raros. É realmente uma pena que na maior parte do disco nada disso aparece e o que nos restam são baladas calmas, tristes e pouco impressionantes.

Modern Air é um álbum bonito, bem pensado e produzido – mesmo que não seja sonicamente tão coeso quanto os outros dois. Depois de tantos anos em silêncio, Modern Air vale pelo seu ar nostálgico e para se ouvir sem grandes pretensões.

OUÇA: “This Is A Song”, “Ship Of Fools” e “Breakfast”.

CHAI – Punk



Punk é o segundo álbum completo da banda japonesa CHAI, seguindo seu debut Pink em 2017. Apenas o fato de que seu debut se chama Pink e o segundo álbum, Punk, já dá pra ter uma ideia que o senso de humor é algo bastante importante para as moças de Nagoya. O quarteto faz uma mistura interessante e inusitada de pop punk com elementos dance, eletrônicos e de girl band anos 60.

As moças do CHAI têm como propósito redefinir o que é ser ‘kawaii’ em japonês, ou seja, o que significa ser ‘cute’ em inglês; ou ‘bonitinho’/’fofo’ em português. Elas fazem isso com uma mensagem bastante simples e inclusiva de que todos podem ser kawaii, cada pessoa de sua forma, mesmo quando isso vai contra os padrões de beleza (principalmente) japoneses. Algo bastante simples mesmo e universal, mas não pouco importante e bastante feminista.

O som e mensagem das moças já atraiu atenção desde seus primeiros lançamentos, os EPs Hottakara Series e Homegoro Series, principalmente na Europa. Seu single “Gyaranboo” se encontrou no Top 50 das músicas mais ouvidas no Spotify no Reino Unido sem nenhum esforço por parte da banda. Talvez por esse motivo elas tenham sido convidadas pelos queridinhos do hype Superorganism para ser sua banda de abertura.

O CHAI realmente faz uma música bastante diferente, até mesmo para os padrões da música japonesa atual, o que as torna bem interessantes. Elas definem seu som como influenciado por Cansei de Ser Sexy, Gorillaz e Jamiroquai, assim como Chvrches e Justice. Punk traz todas essas influências e também adiciona elementos mais tradicionais pop punk resultando em um álbum divertidíssimo do começo ao fim.

Diversão, mas com um propósito, parece ser o objetivo final das moças do CHAI o tempo todo e isso é bastante perceptível. As letras oscilam o tempo todo entre o japonês e o inglês, e o sotaque da vocalista principal Mana é tão carregado que nem sempre é possível distinguir entre os dois idiomas. E isso, nem de longe, é um problema ao longo da audição do disco.

Sempre houveram alguns nomes orientais que conseguiram se manter no mundo musical ocidental, como o X-Japan e o Shonen Knife, e agora com a explosão de k-pop acontecendo no mundo pop, o preconceito ocidental com músicas e línguas orientais parece estar um pouco mais leve. E isso é tudo o que as meninas do CHAI precisam para poderem se firmar como um nome relevante dentro da esfera alternativa. Talento e qualidade musical para isso elas já mostraram que têm.

OUÇA: “Choose Go!”, “Fashionista”, “I’m Me”, “Feel The Beat” e “This Is Chai”

Ex Hex – It’s Real



O fato de que Mary Timony não é um nome tão instantaneamente reconhecível quanto Kathleen Hannah, Carrie Brownstein ou Kim Deal é, ao meu ver, quase um crime. A moça é uma guitarrista excepcional e está na ativa desde os anos 90, tendo tocado em bandas como Autoclave e Helium antes de se lançar em uma ótima carreira solo. Em 2011, Mary ao lado de Brownstein, Janet Weiss e Rebecca Cole, lançou o excelente Wild Flag, único álbum da banda de mesmo nome. Pouco depois ela formou o Ex Hex, seu projeto atual.

It’s Real é o segundo álbum da banda, seguindo o ótimo e subvalorizado debut Rips de 2014. O som do Ex Hex segue bastante o que o Wild Flag fez em seu único disco, e talvez ainda mais nesse álbum do que no primeiro. Trata-se de um indie rock extremamente bem feito, com influências de post-punk, garage rock e riot grrrl. It’s Real mostra os vocais de Mary mais fortes e confiantes do que nunca, ótimos riffs e solos de guitarra, e uma bateria matadora. É um álbum de rock bastante simples e sem defeitos.

Mas, por algum motivo, It’s Real falha em causar o mesmo impacto que Rips teve poucos anos atrás. Talvez por ser um disco levemente mais sério e sem tantos coros pop punk nos refrões, talvez por ser menos explosivo do que o anterior. Não há músicas como “Waterfall” ou “Beast” aqui, e esse é o seu maior defeito. O single “Tough Enough” é o mais próximo, mas o restante do disco peca pelo “excesso de seriedade”, de uma certa forma. It’s Real é mais técnico e menos espontâneo do que qualquer outra coisa já lançada por Mary.

Com certeza ainda trata-se de um álbum ótimo e muito acima da média, feito por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Timony já tem quase trinta anos de carreira, e toda essa experiência é palpável em cada riff de sua guitarra. Ex Hex segue sendo uma banda que definitivamente vale a audição, assim como tudo o que tem a mão da Mary nesses anos todos.

OUÇA: “Tough Enough”, “Radiate”, “Diamond Drive” e “Good Times”

Amanda Palmer – There Will Be No Intermission



Amanda Palmer é uma pessoa extremamente passional em tudo o que faz, desde sempre. Sua carreira musical, com toda a certeza, não é diferente. Eu pessoalmente sou muito fã da moça desde seus tempos com o The Dresden Dolls e acompanho sua carreira solo desde o “fim” do duo. There Will Be No Intermission é seu quarto álbum solo, se contarmos o Amanda Palmer Goes Down Under, que foi gravado ao vivo, e o primeiro desde o incrível Theatre Is Evil em 2012. E Intermission é um álbum essencial da Amanda.

Trata-se, provavelmente, do álbum mais pessoal de toda a sua carreira. Lidando com temas como maternidade, morte, amor, aborto e casamento, Amanda canta todas as suas dores de forma bastante explícita e honesta sem medir suas palavras. ‘I was peeing in the bathroom and had left for just one second / ‘Cause I thought he couldn’t move and he was safe / As I came out I saw him falling in slow motion to the floor / It was probably the worst moment of my life‘, Palmer canta em “A Mother’s Confession”, a faixa mais longa com quase onze minutos de duração. ‘At least the baby didn’t die‘, ela continua em seu refrão.

There Will Be No Intermission é, também, um álbum minimalista quando comparado a seus outros. Toda a exposição emocional é feita através de músicas compostas apenas usando piano ou ukulele na maior parte do tempo. Isso, e o fato de que várias de suas músicas já eram conhecidas desde 2015, faz com que o álbum pareça em grande parte do tempo algo não muito impressionante.

É sem dúvida alguma um trabalho bastante confessional e com composições belíssimas – o maior problema aqui é que elas não necessariamente funcionam como um álbum coeso. Por se tratar de, no total, 20 faixas, em que muitas delas ultrapassam os seis minutos e são em sua grande maioria cantadas apenas por Amanda acompanhada de um único instrumento (piano ou ukulele), Intermission acaba sendo bastante monótono. Não existem grandes variações em ritmo ou composições e isso atrapalha um pouco o ouvinte – o real foco de Amanda aqui está em suas letras.

As letras, sim, são maravilhosas do começo ao fim. Lindíssimas, abordando temas complicados e universais a todos – principalmente a mulheres que são mães. There Will Be No Intermission desde sua capa, com Amanda completamente nua e segurando uma espada, mostra a força dessa mulher em todos os sentidos.

Mas a monotonia de Intermission infelizmente faz com que o seu álbum mais poético e pessoal já lançado tenha um tom não muito memorável. Analisar There Will Be No Intermission enquanto uma coletânea de poesias e devaneios musicados o torna um álbum memorável, mas (por falta de outra palavra) chato de se ouvir do começo ao fim. Em suas 20 faixais, o disco percorre quase uma hora e meia e são poucos os momentos em que Amanda brilha nesse contexto – se você analisar as músicas faixa a faixa é possível se emocionar e mergulhar na proposta de Amanda. Mas essas faixas todas simplesmente não funcionam tão bem como uma obra completa e coesa.

OUÇA: “A Mother’s Confession”, “Drowning In The Sound”, “Bigger On The Inside” e “Voicemail For Jill”

Blood Red Shoes – Get Tragic


A dupla inglesa Blood Red Shoes retorna após um período de cinco anos com seu quinto álbum de estúdio, Get Tragic, após  lançarem singles soltos em 2017 e 2018. E as coisas estão bem diferentes aqui dessa vez, quase não parece se tratar da mesma banda cujo som punk e sujo permeou seus outros discos. Na maior parte do tempo, o que Laura-Mary Cartar e Steven Ansell apresentam em Get Tragic é bem mais calmo, contido e eletrônico do que estamos acostumados.

Isso não é necessariamente algo ruim, é na verdade bastante interessante ver essa mudança de direção e coisas novas e diferentes vindo dos dois. Principalmente quando se trata do punk que a banda sempre apresentou, chega uma hora em que qualquer banda com 10 anos de carreira e quatro álbuns de estúdio precisa fazer uma escolha. Ou manter-se no mesmo som confortável de sempre que sabe que agradará seus fãs; ou adicionar novos elementos, mudar seu som e correr o risco de que tal mudança não seja bem recebida. E, por isso, meus sinceros parabéns à dupla.

Em seu quinto disco eles arriscaram bastante, e conseguiram fazer isso sem perder sua identidade. Get Tragic é bastante fora de seu lugar comum, com um uso quase constante de teclados e pianos no background das composições enquanto a guitarra e bateria continuam sendo os instrumentos de destaque. Isso tudo é algo bastante interessante e maravilhoso, tentar coisas novas e surpreender seus fãs é sempre melhor do que entregar o mesmo álbum pela quinta vez. É uma pena, então, que a única coisa que faltou em Get Tragic seja a qualidade das músicas.

Como qualquer disco do Blood Red Shoes, não existem destaques óbvios – a dupla preza muito pela coexão de seus trabalhos e eles sempre mantêm o nível do começo ao fim. Mas, aqui, o nível está um pouco mais pra baixo do padrão que eles costumavam fazer. Não se trata de um trabalho exatamente ruim, se ele fosse um debut de qualquer outra banda seria um disco ótimo. Mas para a dupla, que já nos mostrou no passado álbuns muito melhores, essa reinvenção parece ter sido jogada fora. Os ótimos elementos novos adicionados são interessantes mas não o suficiente para se ignorar o fato de que simplesmente não se trata de seu melhor trabalho.

A direção que resolveram tomar aqui é uma incrível, e espero que eles continuem nessa em discos futuros. E espero que da próxima vez voltem com as composições no nível que vinham apresentando antes. Aí sim, teremos um disco excelente.

OUÇA: “Bangsar”, “Howl” e “Mexican Dress”

Better Oblivion Community Center – Better Oblivion Community Center


Better Oblivion Community Center é uma dupla de folk rock formada por ninguém menos do que Phoebe Bridgers e Conor Oberst. Ele, queridinho do indie com seu Bright Eyes e inúmeros trabalhos solo, um dos mais interessantes e prolíficos compositores de sua geração. Ela, um dos melhores nomes do so-called ‘indie folk rock’ atual, lançou seu ótimo debut Stranger In The Alps em 2017 e ano passado foi responsável, ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, pelo melhor EP de 2018: boygenius. Uma combinação que não tinha como dar errado, e realmente não deu.

Better Oblivion Community Center também é o nome do primeiro (talvez único?) álbum da dupla, uma das melhores surpesas desse ano de 2019 que mal começou. O disco foi gravado e produzido completamente em segredo ano passado, e é bem de leve um concept album sobre o fictício Better Oblivion Community Center, uma espécie de spa distópico. Não há exatamente uma grande narrativa que engloba todas as músicas, por isso dá até pra se ignorar essa pequena premissa e simplesmente apreciar o álbum.

O som apresentado pela dupla é um folk rock bastante básico, na verdade, sem grandes experimentações ou novidades para o gênero, mas é extremamente bem feito e produzido. Suas vozes combinam perfeitamente, algo que já sabíamos com “Would You Rather”, de Stranger In The Alps, cujos vocais de apoio de Oberst já previam tal colaboração. E agora aqui dividem completamente o holofote, já que nenhum se sobressai mais do que o outro.

Ambos cantam em suas carreiras sobre sentimentos de alienação, depressão, melancolia e solidão de forma leve, empatética e sincera, honesta. Essa honestidade é o que dá o tom predominante de Better Oblivion Community Center, cantando sobre personagens que na maioria do tempo são levados a um extremo ou outro, de forma sutil e calma. ‘All this freedom just freaks me out‘, canta Oberst em “My City”, continuando o tema de ‘nem-sempre-as-coisas-boas-são-realmente-tão-boas-assim’ que ele já fazia com o Bright Eyes desde sempre. O mais impressionante é que Bridgers não parece ofuscada, ela sempre responde à altura e completa as ideias de Oberst com uma confiança que nem sempre é comum a artistas que literalmente estão apenas começando.

Bridgers eleva Oberst da mesma forma como ele a ajuda a sair de sua zona de conforto e escrever canções-narrativa. Better Oblivion Community Center é um casamento com divisão total de bens; dois grandes artistas empurrando um ao outro a coisas novas ao mesmo tempo em que um sempre está lá para apoiar o outro. Apesar do tom calmo e confiante, a dinâmica entre os dois é de tirar o fôlego. Sem contar que Better Oblivion é o melhor trabalho de Oberst desde, talvez, The People’s Key em 2011. E Bridgers, apesar de seu pouco tempo de carreira, já sabe muito bem quem é como artista e que tem um longo e ótimo futuro pela frente.

OUÇA: “Dylan Thomas”, “Exception To The Rule”, “Sleepwakin’” e “My City”.

2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”