Charli XCX – Charli



Charlotte Aitchison, ou Charli XCX, é uma força no mundo pop atual, mesmo que em grande parte seja por trás dos holofotes. A moça escreveu músicas como “I Love It”, para a dupla Icona Pop, assim como “Tonight” para o Blondie e “Señorita”, do Shawn Mendes com a Camila Cabello. Em paralelo a isso, a moça tem seu próprio material e inúmeras participações com outros artistas.

Seu novo trabalho solo, simplesmente chamado Charli, é tecnicamente seu terceiro álbum de estúdio e o que veio seguindo Sucker de 2014. Nesse meio tempo essa moça fez de tudo menos ficar parada. Entre Sucker e Charli, a moça lançou o EP Vroom Vroom e duas mixtapes, Number 1 Angel e a maravilhosa e subvalorizada Pop 2.

Pop 2 é a obra prima das mixtapes, um trabalho extremamente variado e com participações de nomes que vão desde Carly Rae Jepsen e CupcakKe até Tove Lo, Pabllo Vittar, Kim Petras e Caroline Polachek. Desde Vroom Vroom, Charli tem apostado em produções inusitadas, que vão mais pro lado estranho do pop e pc music. Completamente diferente do que havia apresentado nos seus primeiros discos, True Romance e Sucker.

E agora Charli segue a mesma linha de pop do futuro que ela havia nos apresentado em Pop 2, com um time estonteante de colaboradores: Lizzo, Sky Ferreira, Troye Sivan, Pabllo Vittar, HAIM, Christine and the Queens e até Clairo e Yaeji. O resultado é um trabalho bastante diverso, mas que tem a voz de Charli XCX – tanto literal quanto metaforicamente – no centro o tempo todo.

De uma certa forma, esse é seu primeiro álbum pop com produção real pop desde que o mundo começou a prestar atenção nela. E o resultado não é muito o que o mundo pop estava esperando. Mas, vindo da Charli XCX, não ser o pop que se estavam esperando já era o esperado (?). Tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo nesse álbum que a coisa mais fácil de ocorrer é você se perder ou se distrair enquanto o escuta. A faixa “Click”, com Kim Petras e Tommy Cash, é talvez o maior exemplo disso. Sua produção muda de direção tantas vezes em seus quatro minutos que quando acaba parece que um trem passou por cima de você.

Um momento quase desnecessário do álbum, e me dói muito escrever isso, fica com a participação da maravilhosa Lizzo em “Blame It On Your Love”. Trata-se de uma música que já apareceu antes em Pop 2, na época chamada apenas de “Track 10”, que foi regravada, reescrita e resultou em uma versão bem menos interessante do que a original, cujo verso da Lizzo é quase desperdiçado por que não faz muito sentido e não casa com o resto.

Charli peca pelo excesso. Tudo aqui é demais, e nem sempre isso serve pra elevar as músicas. É um álbum com 15 faixas no total e muitas delas estão longe de ser o melhor que a Charli é capaz de fazer. Há momentos em que ela e seus colaboradores brilham e chega quase a ser mágico, como “Gone” (com Christine and the Queens), “Cross You Out” (com Sky Ferreira) e “Shake It” (com Big Freedia, Brooke Candy, Pabllo Vittar e CupcakKe). Mas no geral, o álbum faz com que o ouvinte perca um pouco o interesse no meio das faixas.

Charli XCX já é um nome gigantesco no mundo pop, mesmo que não esteja nunca em níveis Beyoncé de reconhecimento. Mas tudo bem. Ela faz parte de uma geração de cantoras pop que se importam e muito com a música em si, assim como Carly Rae Jepsen e Robyn. Charli é um álbum desafiador, Charli tem do começo ao fim o ponto de vista da própria Charli. Nem sempre funciona, mas é inegável que ela sabe muito bem o que está fazendo e, principalmente, o porquê de fazer o que faz da forma que faz.

OUÇA: “Gone”, “Cross You Out”, “Next Level Charli”, “Shake It”, “February 2017”, “White Mercedes” e “1999”

Lizzo – Cuz I Love You



É meio impossível ter chegado até esse momento do ano de 2019 sem nunca ter ouvido falar nessa força da natureza que é a cantora/rapper/flautista Lizzo. Cuz I Love You é seu terceiro álbum de estúdio e o primeiro lançado por uma grande gravadora. Em seus trabalhos anteriores, Lizzobangers, Big GRRRL Small World e, principalmente, no EP Coconut Oil, Lizzo já mostrava seu talento para misturar o rap, hip hop e pop com elementos vão do rock ao soul e até mesmo seu treinamento em música clássica. E Cuz I Love You é a culminação disso tudo.

Uma grande característica do trabalho da Lizzo é seu senso de humor, muitas vezes ácido, e também sua mensagem de positividade e aceitação do próprio corpo como uma mulher negra e gorda. Pessoas como a Lizzo são extremamente importantes; e em cima de tudo isso a música feita pela moça, principalmente aqui, é excelente.

Cuz I Love You é o trabalho mais variado e versátil dela até o momento, misturando tudo o que ela já havia feito e ainda adicionando coisas novas. Cuz I Love You é forte do começo ao fim, com singles maravilhosos e nenhum filler no meio. De “Truth Hurts”, lançada originalmente em 2017, até “Juice”, “Tempo” e “Like A Girl”; não existe uma música dispensável.

Um dos maiores destaques fica com “Soulmate”; um hino ao amor próprio. ‘Cause I’m my own soulmate, I know how to love me‘. Em “Jerome”, ela usa do gospel, funk e trap de uma forma bastante interessante e talvez o maior exemplo da sua versatilidade. “Tempo”, uma ode às mulheres gordas, Lizzo consegue tanto encaixar um mini solo de flauta e um verso da Missy Elliott sem que nada pareça estar fora do lugar.

Cuz I Love You é um álbum extremamente bem escrito, produzido e performado por uma das melhores e mais complexas cantoras de sua geração. ‘Complexo’ é talvez a palavra que melhor defina Cuz I Love You e a Lizzo como um todo. É um álbum pop vendável e mainstream cuja qualidade é inegável. Lizzo pode não ter começado agora e já carregar um excelente passado, mas aqui é quando o mundo começou a prestar atenção nela. E com razão.

OUÇA: “Cuz I Love You”, “Jerome”, “Juice”, “Like A Girl”, “Truth Hurts”, “Soulmate” e “Better In Color”

Apeles – Crux



Após a dissolução do excelente duo Quarto Negro, o vocalista Eduardo Praça se lançou com um novo projeto solo chamado Apeles e Crux é seu segundo álbum completo de estúdio. Crux chega agora e segue o ótimo Rio Do Tempo de 2017, mas é apenas agora em Crux que a impressão geral do álbum é que ele se trata de uma quase continuação do que Eduardo fazia com o Quarto Negro.

Rio Do Tempo é um álbum excelente, e é claro que por se tratar da mesma pessoa ele já tinha um ar de conhecido, em músicas como “Clérigo” e “Imensamente Sutil” isso ficava bastante claro. Os mesmos pianos e clima semi-shoegaze de sempre, mas em Rio Do Tempo eles eram utilizados de uma outra maneira. Mas CruxCrux, sonora e liricamente, parece se tratar da continuação de Amor Violento, o excepcional último álbum do Quarto Negro lançado em 2015.

O single “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços” é a maior prova disso. Um dos vários pontos altos de Crux e com certeza uma das melhores músicas lançadas nesse ano de 2019, ela poderia facilmente integrar Amor Violento como nada que o Eduardo fez como Apeles até agora poderia.

Nunca é divertido quando uma banda da qual você é fã encerra as atividades, e com muita frequência isso é seguido por outros trabalhos de seus membros (falando nisso, Yatho o projeto atual de Thiago Klein, outra metade do Quarto Negro, também vale e muito a audição), mas em Crux Eduardo anda por uma linha bastante tênue e complicada, muito mais do que foi em Rio Do Tempo.

O restante do álbum mantém, claro, o mesmo clima mas Eduardo segue adicionando guitarras e violões distorcidos o suficiente para diferenciá-los de sua banda anterior. Seus temas e letras, entretanto, aproximam Crux muito mais a Amor Violento do que a Rio Do Tempo; com seu clima de pessimismo esperançoso, se isso faz algum sentido.

Crux no geral se mostra como um ótimo álbum, vindo de alguém que já fez coisas excelentes no passado e se encontra no caminho para atingir tal excelência de novo. Crux mostra que o passado do Eduardo com o Quarto Negro não foi esquecido e que ele está sabendo muito bem aglutinar elementos em seu novo projeto. Crux mostra um Eduardo ainda mais confiante do que antes e não decepciona, é um álbum muito bem feito e produzido, e com certeza uma das coisas mais interessantes do ano até agora.

OUÇA: “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços”, “Deságua”, “Reflexo Turvo” e “Pele”

Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold



I need something pretty to help me ease my pain‘. Esse é o primeiro verso da faixa-título, que abre o nono álbum de estúdio da lendária banda americana Sleater-Kinney. ‘But I’m broken in two, cause I’m broken inside‘ é o verso que o encerra. Não se trata em momento algum de um álbum fácil, leve e divertido.

É impossível falar de The Center Won’t Hold sem comentar sobre o fato de que ele foi inteiramente produzido pela Annie Clark, também conhecida como St. Vincent. E sua influência no trabalho final já era perceptível desde a capa e a música “Hurry On Home“, primeira divulgada pela banda para promover o álbum. Trata-se da música mais explicitamente sexual já gravada pela banda, e sonoramente mistura o tradicional som do S-K com uma produção bastante urgente e moderna quase robótica, característica principalmente do último álbum da Annie, o excelente MASSEDUCTION. Mas as coisas param por aí. O restante do álbum todo é Sleater-Kinney do começo ao fim.

Também é impossível falar desse disco sem citar a saída de Janet Weiss, a melhor baterista de rock da história, que anunciou que estava deixando a banda faltando pouco mais de um mês para o lançamento de The Center Won’t Hold. “The band is heading in a new direction and it is time for me to move on.“, seu anúncio no twitter dizia. The Center Won’t Hold é o nono álbum da banda e o sétimo gravado e composto com Janet nas baquetas, e essa notícia veio como um baque para Deus e o mundo. Tudo o que o S-K sempre fez em toda a sua carreira foi seguir em direções novas a cada trabalho, indo do punk cru de Dig Me Out ao psicodélico The Woods. Poderia a mudança dessa vez ser tão drástica a ponto de sua baterista há 24 anos querer sair da banda? Bom, não. Mas também sim.

The Center Won’t Hold é com certeza o álbum menos acessível da banda até hoje, o mais difícil e o mais controverso. Ele também marca a primeira vez em que as guitarristas e vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker escreveram separadamente e isso é bastante claro. A diferença entre as músicas da Corin e as da Carrie são bastante evidentes, causando uma certa disparidade e idiosincrasia que nunca antes apareceu. Aquela sua tradicional dinâmica de tirar o fôlego de uma começar um verso ou riff em sua guitarra e a outra terminar quase passando por cima não está presente em nenhum momento aqui. De uma certa forma, apesar de tudo, The Center Won’t Hold têm as composições e músicas mais estruturalmente tradicionais de sua carreira como S-K também.

Mas nada disso necessariamente é uma coisa ruim, pelo contrário. O que o álbum falta de coesão ele compensa com toda a certeza em qualidade. Os mais diversos humores se entrelaçam e se encavalam e resultam, por vezes, em transições incríveis como da sombria “RUINS” para a leve “LOVE”. E “LOVE”… Outro ponto que é impossível de se ignorar nesse disco.

“LOVE” é, literalmente, uma declaração de amor da Carrie Brownstein à banda como um todo e a tudo o que já passaram e viveram (talvez à Corin um pouquinho mais). Citando em sua letra toda a sua trajetória e trabalhos passados, ela nos conta como foi o começo de tudo e conclui onde estão agora. ‘There’s nothing more frightening and nothing more obscene than a well-worn body demanding to be seen‘, uma crítica ferrenha ao fato de que mulheres após uma certa idade (as três já passaram dos 40 anos) são colocadas de lado por que ‘envelhecer é feio’.

Outra música que merece um destaque especial é “The Dog/The Body”, penúltima faixa. É a mais próxima da velha dinâmica do S-K, seus versos quase proféticos ‘If you wanna go, can’t find a reason not to leave‘ seguem o refrão mais ‘todos-juntos-com-seus-isqueiros-e-celulares’ da carreira da banda.

Quem me conhece minimamente sabe que esta se trata da minha banda favorita, trago em minha pele uma homenagem permanente a elas e ao que significam pra mim. E The Center Won’t Hold foi com certeza um dos álbuns mais difíceis de se resenhar, pra mim, em todos esses anos de You! Me! Dancing!. E o resultado é que, sim, elas foram para uma nova direção. Talvez a mais drástica que já tomaram até hoje. Mas eu ainda estou aqui com elas. Agora apenas com Carrie e Corin. Call the doctor, dig me out of this mess.

OUÇA: “LOVE”, “Hurry On Home”, “The Center Won’t Hold”, “The Dog/The Body”, “Bad Dance” e “RUINS”

Bleached – Don’t You Think You’ve Had Enough?



Bleached é uma banda formada pelas irmãs Jennifer e Jessica Clavin, após a dissolução de seu projeto anterior, Mika Miko. A dupla lança agora em 2019 seu terceiro álbum, Don’t You Think You’ve Had Enough?, sucessor do subvalorizado e excelente Welcome The Worms de 2016.

Em Don’t You Think as moças apostam em um som muito mais acessível e polido do que nos trabalhos anteriores, mas ainda mantendo suas raízes no garage rock cru e punk distorcido. O primeiro single do disco, “Hard To Kill”, me soou estranho a princípio exatamente por conta dessas mudanças. Foi apenas depois de ouvir o álbum por completo que tudo fez sentido.

Aqui, as irmãs mostram uma gama muito maior do que podem fazer, misturando ritmos diferentes daqueles que predominam nos outros dois álbuns e ao mesmo tempo criando uma obra bastante coesa, interessante e divertida. Em “Kiss You Goodbye”, com uma guitarra em staccato e bateria disco, trazem talvez o melhor single do álbum. Já em músicas como “Valley To LA” e “Daydream” elas mostram que continuam fazendo seu rock cru ainda bastante bem.

Don’t You Think You’ve Had Enough? é um álbum que mescla constantemente post-punk com os mais variados elementos e todos eles funcinam. É um disco bastante divertido e prova que Jennifer e Jessica sabem muito bem o que estão fazendo. Com certeza um dos mais inesperados e interessantes discos desse primeiro semestre.

OUÇA: “Kiss You Goodbye”, “Rebound City”, “Real Life”, “Daydream”, “Heartbeat Away” e “Hard To Kill”

Hatchie – Keepsake



Harriette Pilbeam, conhecida musicalmente como Hatchie, é uma cantora australiana que lançou seu primeiro álbum completo, Keepsake, agora no primeiro semestre de 2019. Keepsake seguiu o excelente EP Sugar & Spice ano passado e agora veio consolidar o nome de Hatchie de vez.

Seu som aqui continua com a mesma mistura de shoegaze e dream pop que ela havia apresentado em Sugar & Spice e dessa vez eleva os elementos ainda mais. Keepsake caminha livremente entre as baterias eletrônicas, refrões grudentos e as várias camadas de guitarras distorcidas. Não se trata de algo absolutamente novo de forma nenhuma. Essa combinação de shoegaze com eletrônico e pitadas de pc music já foi feita antes por inúmeros nomes, mas Keepsake é um álbum tão gostoso de se ouvir que a falta de originalidade não importa e nem atrapalha em nada.

Suas letras tratam de temas sobre relacionamentos e amores, de forma sempre doce e genuína. Hatchie também faz questão, ao longo dos 45 minutos e dez faixas do álbum, de mostrar toda a sua versatilidade indo das músicas lentas e tristes até as animadas e dançantes. Tudo isso sempre de forma bastante confiante e orgânica.

Hatchie é alguém que cita tanto My Bloody Valentine e Cocteau Twins quanto Carly Rae Jepsen e Kylie Minogue como influências e isso pode ser percebido ao longo do trabalho. Se Sugar & Spice já dava indícios do talento da moça e todo o seu potencial, aqui isso tudo é comprovado e seu som está em sua melhor forma até o momento.

Keepsake, mesmo sem incluir o excelente single ao vivo “Adored”, é um ótimo debut e o começo de uma carreira bastante promissora para a jovem artista australiana.

OUÇA: “Obsessed”, “Without A Blush”, “Keep” e “Stay With Me”

As Bahias e A Cozinha Mineira – Tarântula



Nessa altura da vida, acredito que a maravilhosa banda As Bahias e a Cozinha Mineira dispensa grandes apresentações. O trio já nos presenteou com os incríveis álbuns Mulher (2015) e Bixa (2017) e agora chegam em seu terceiro trabalho de estúdio, Tarântula. E as coisas continuam seguindo como era de se esperar, só que quase.

Em um mundo utópico, o fato de que Assucena e Raquel são travestis não deveria importar em absolutamente nada, mas a realidade não é essa. Para nós LGBTs a mera existência sendo quem é já se trata de um ato político, principalmente em nosso cenário atual, e isso é ainda mais verdade para a população T. E as duas levantam essa bandeira com muita força toda a oportunidade que têm, e isso é absurdamente necessário e algo incrível. Em sua música não é diferente, e aqui isso acontece mais do que nos trabalhos anteriores.

Mulher foi marcado por músicas épicas como “Apologia Às Virgens Mães” e “Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)”, mas é “Reticências” e “Josefa Maria” que realmente representam o álbum: uma gama gigantesca de influências e uma constante mudança de direção e ritmo, muitas vezes na mesma música. Em Bixa, foram adicionados elementos eletrônicos e uma produção mais pop acessível, mas ainda mantendo sua essência no MPB, passando por boleros e baladas. E agora em Tarântula

Tarântula tenta seguir na mesma linha do Bixa, com menos eletrônicos, mas com a mesma produção acessível e impecável. É a primeira vez em que existe uma música da banda cantada apenas pelo Rafael (a linda “Volta”), e também a primeira participação creditada de um artista de fora em um álbum das Bahias (Projota em “Tóxico Romance”). Mas mesmo se tratando de um álbum ótimo e com certeza acima da média, Tarântula peca um pouco e falta quando comparado com os outros dois.

As letras e composições continuam inteligentíssimas, com destaque para “Pipoco E Pipoca” e “Chute De Direita”, que são o tipo de música que não poderia ter vindo de nenhum outro artista. “Das Estrelas”, com um ótimo clipe estrelado pela maravilhosa Renata Carvalho, retoma o mesmo tom épico de “Uma Canção Pra Você” e um destaque bastante positivo. “Tóxico Romance”, com toda a certeza é a melhor música do trabalho, com uma letra bastante sexual sobre um encontro ilícito durante uma madrugada da vida. E quem nunca?

Existem sim músicas incríveis e destaques excelentes, mas esse é o problema de Tarântula: são destaques, e não o álbum todo. Pela primeira vez existem músicas não tão memoráveis em um disco das Bahias. Tarântula tem tudo o que “deveria” ter em um álbum das Bahias, ele só não tem no geral a mesma força que existe em seus outros dois lançamentos.

Eu já disse isso aqui mesmo no YMD em algum momento e agora repito: assistam às Bahias e a Cozinha Mineira ao vivo quando puderem, mesmo se não gostarem tanto das músicas feitas pelas moças. Elas são donas de um dos melhores shows ao vivo da música nacional.

OUÇA: “Tóxico Romance”, “Pipoco E Pipoca”, “Das Estrelas”, “Chute De Direita” e “Mátria”

Brvnks – Morri De Raiva



Escutando Morri De Raiva, ou na verdade qualquer outra música de seu primeiro EP Lanches (2016) da Bruna Guimarães, ou Brvnks, fica muito fácil de entender o porquê de a moça ter sido chamada para abrir o show da australiana Courtney Barnett no começo desse ano. Nem precisamos falar sobre a semelhança na voz das duas (evidenciada ainda mais neste excelente cover); o estilo das duas é muito parecido. Simplista, confessional, letras em forma de fluxo de consciência sobre acontecimentos ao seu redor. Uma guitarra distorcida pra juntar tudo. E pronto.

Brvnks é a cantora que a cena indie brasileira estava desesperadamente precisando, seu tipo de música não é muito comum hoje em dia aparecendo aqui. O fato é tanto que a própria Bruna disse em uma entrevista que prefere compor em inglês por que o idioma ‘combina mais’ com a estética do som do que sua língua nativa. Mas ainda sim, a moça usa do português em alguns de seus títulos – como “Tristinha” e o próprio nome do disco.

Morri De Raiva é seu primeiro álbum completo, lançado finalmente agora em maio, e é composto por dez faixas. Que se trata de um excelente trabalho, extremamente coeso e competente não deveria ser surpresa pra ninguém. Há anos a moça já vem se provando como um nome de peso, um nome de respeito. E é exatamente por não surpreender ninguém, mesmo sendo um ótimo disco, que minha nota aqui não foi um pouco mais alta.

O maior defeito de Morri De Raiva está no fato de que, além dos singles “Tristinha”, “Yas Queen” e “Fred”, Brvnks decidiu incluir também regravações de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B. (Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be)” de seu primeiro EP, assim como finalmente nos presentear com versões em estúdio de “I Hate All Of You”, “Grey Eyes” (aqui retitulada “Your Mom Goes To College”) e “Lanches” (aqui, “Snacks”). Das dez faixas que compõe o disco, mais da metade já eram conhecidas antes por quem acompanha o trabalho da Bruna. Isso não necessariamente seria uma coisa ruim, se não fosse o fato de que as músicas realmente novas não fossem suas melhores composições até agora.

“I Am My Own Man” e “Tired”, que nunca tinham tido nenhuma versão nem ao vivo lançada ainda, são com certeza os pontos mais altos do disco. ‘I am my own man, I got my own band, I ain’t anyone’s girlfriend‘, Bruna canta sobre guitarras rápidas no melhor estilo Dum Dum Girls. ‘I work all week to hear this fucking shit, your dick is not made of gold‘, ela completa. Uma verdadeira princesa, fada sensata ela.

As composições mais antigas ganham versões novas aqui (e, no caso de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B.” perdem um pouquinho de sua força quando comparadas com às do EP), e se tratam de músicas ótimas. Mas a sensação de que quase tudo já foi ouvido antes causa uma leve decepçãozinha. Bem de leve, pois o resultado final ainda é excelente.

Em suas letras, de forma geral, Bruna exorciza todas as suas pequenas (e às vezes nem tão pequenas assim) frustrações e momentos de raiva presentes no dia a dia, coisas que são em sua maioria comuns a todos. Isso é o que torna Morri De Raiva um disco tão memorável. Alguns versos, como ‘I know you’re mad about the Misfits guy in your refrigerator‘ parecem ser direcionados a uma pessoa ou situação específica, e isso apenas instiga o ouvinte ainda mais.

Morri De Raiva é um álbum completo, ilustrando tudo o que Bruna já fez até agora e continua fazendo com maestria. Trata-se de um excelente primeiro disco, de uma mulher que ainda tem muito o que dizer e muito barulho pra fazer.

OUÇA: “I Am My Own Man”, “Tired”, “Don’t”, “Tristinha” e “Yas Queen”

Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”