As Bahias e A Cozinha Mineira – Tarântula



Nessa altura da vida, acredito que a maravilhosa banda As Bahias e a Cozinha Mineira dispensa grandes apresentações. O trio já nos presenteou com os incríveis álbuns Mulher (2015) e Bixa (2017) e agora chegam em seu terceiro trabalho de estúdio, Tarântula. E as coisas continuam seguindo como era de se esperar, só que quase.

Em um mundo utópico, o fato de que Assucena e Raquel são travestis não deveria importar em absolutamente nada, mas a realidade não é essa. Para nós LGBTs a mera existência sendo quem é já se trata de um ato político, principalmente em nosso cenário atual, e isso é ainda mais verdade para a população T. E as duas levantam essa bandeira com muita força toda a oportunidade que têm, e isso é absurdamente necessário e algo incrível. Em sua música não é diferente, e aqui isso acontece mais do que nos trabalhos anteriores.

Mulher foi marcado por músicas épicas como “Apologia Às Virgens Mães” e “Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)”, mas é “Reticências” e “Josefa Maria” que realmente representam o álbum: uma gama gigantesca de influências e uma constante mudança de direção e ritmo, muitas vezes na mesma música. Em Bixa, foram adicionados elementos eletrônicos e uma produção mais pop acessível, mas ainda mantendo sua essência no MPB, passando por boleros e baladas. E agora em Tarântula

Tarântula tenta seguir na mesma linha do Bixa, com menos eletrônicos, mas com a mesma produção acessível e impecável. É a primeira vez em que existe uma música da banda cantada apenas pelo Rafael (a linda “Volta”), e também a primeira participação creditada de um artista de fora em um álbum das Bahias (Projota em “Tóxico Romance”). Mas mesmo se tratando de um álbum ótimo e com certeza acima da média, Tarântula peca um pouco e falta quando comparado com os outros dois.

As letras e composições continuam inteligentíssimas, com destaque para “Pipoco E Pipoca” e “Chute De Direita”, que são o tipo de música que não poderia ter vindo de nenhum outro artista. “Das Estrelas”, com um ótimo clipe estrelado pela maravilhosa Renata Carvalho, retoma o mesmo tom épico de “Uma Canção Pra Você” e um destaque bastante positivo. “Tóxico Romance”, com toda a certeza é a melhor música do trabalho, com uma letra bastante sexual sobre um encontro ilícito durante uma madrugada da vida. E quem nunca?

Existem sim músicas incríveis e destaques excelentes, mas esse é o problema de Tarântula: são destaques, e não o álbum todo. Pela primeira vez existem músicas não tão memoráveis em um disco das Bahias. Tarântula tem tudo o que “deveria” ter em um álbum das Bahias, ele só não tem no geral a mesma força que existe em seus outros dois lançamentos.

Eu já disse isso aqui mesmo no YMD em algum momento e agora repito: assistam às Bahias e a Cozinha Mineira ao vivo quando puderem, mesmo se não gostarem tanto das músicas feitas pelas moças. Elas são donas de um dos melhores shows ao vivo da música nacional.

OUÇA: “Tóxico Romance”, “Pipoco E Pipoca”, “Das Estrelas”, “Chute De Direita” e “Mátria”

and when the body finally starts to let go, let it all go at once not piece by piece, but like a whole bucket of stars dumped into the universe

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