Alpine – Yuck

alpine

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O território do pop é grande e nada homogêneo. E é isso o que o torna interessante: caso contrário, seria apenas puro entretenimento. Nada contra isso, mas culturalmente estimulante e, por isso, bom, quando o experimental abre alas para reflexões – sejam elas quais forem – e para a sinestesia. Aqui, entenda sinestesia como adaptar a trilha às sensações que ela te proporciona. Por exemplo: ouvir o novo álbum da banda australiana Alpine, para mim, foi como mergulhar em um quarto coberto de tintas candy color com alguns objetos de metal e materiais enferrujados.

Ao mesmo tempo, é bom simplesmente dançar e cantar refrões chiclete como se não houvesse amanhã. Estou me repetindo? Bom, o ponto aqui é: o álbum Yuck é mais um passo no amadurecimento do chamado indie pop. Parece audacioso para um grupo vizinho geograficamente ao Tame Impala querer seguir seus passos inventivos e conceituais? Talvez. Mas comparações assim nunca são justas, afinal.

Com faixas difíceis, como a introdutória “Come On” ou “Standing Not Sleeping” (talvez esses sejam os objetos de metal), e hits de baladas, tal qual o single “Foolish” e “Damn Baby”, o álbum traz diferentes referências musicais e abre mais espaço para o experimental do que o anterior A Is For Alpine. Mais bateria, mais guitarra, mais violão, mais violino – ainda que tudo isso, no final, soe repetitivo e seja fácil de decorar. Mas é por isso que chamamos de pop, não é?

Por ter duas vocalistas, Phoebe Baker e Lou James e suas vozes doces, a Alpine poderia ter explorado muito melhor diferentes linhas de vocais em seus trabalhos anteriores. E é por isso que o sexteto australiano ganhou muito com o novo álbum: a inserção de falsetes, coros, sussurros e interessantes lógicas tonais mostram que um trabalho refinado foi feito para trabalhar as duas vozes.

Além da maior exploração de instrumentos analógicos e novos efeitos de sintetizadores (aqueles materiais já enferrujados, que batem carteirinha em festivais  como SXSW e Lollapalooza), Yuck sofre ora picos energéticos, ora picos que beiram estranheza. E isso é tanto positivo – o ouvinte realmente se prende nas faixas e pode mergulhar nelas profundamente –, quanto negativo – seria o álbum apenas um teste para novas sonoridades?

Apesar de criar um universo único em cada faixa e menos unidade de álbum, Yuck parece uma intenção geral de experimentação e trilha pelo caminho mais previsível, porém mais justo de qualquer disco de indie pop: misturar e testar elementos para trazer ouvintes, e não cair no esquecimento após seu hit de balada ficar no passado.

OUÇA: “Foolish”, “Jellyfish” e “Standing Not Sleeping”

paulista, jornalista, cantora de karaokê e psicóloga de boteco.

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