5 a Seco — Pausa



“Onde eu possa descansar daquilo tudo que já sei / de todo ouro que busquei  / do vício de me reinventar” são os versos compostos por Tó Brandileone e Vinicius Caldeironi no último trabalho do grupo de compositores 5 a Seco após o anúncio da pausa. As linhas da canção sintetizam a decisão do conjunto e a laboração por trás do ser artista.

Pouco mais de um ano após o lançamento de Síntese (2018), o grupo (composto por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni) decidiu que “cada um vai na sua estrada”, como diz “Duas Jornadas”, terceira faixa do disco. A notícia possivelmente pegou de surpresa os admiradores e fãs, e levantou novamente a discussão sobre hiatos musicais

O perfil do álbum é intimista, fraternal e saudoso. Instrumentalmente enxuto, Pausa é composto de, basicamente, voz e violão — salvo algumas aparições de banjos, ukuleles percussões e um belo violoncelo em “Vai Vendo”, composição de Vinicius Calderoni. Iniciado por sua homônima reflexiva, ora misteriosa e dramática, ora envolta em tranquilidade, “Pausa”, como já mencionado, evoca a figura do médico e do monstro, do artista e da canção. “Como Quero Demonstrar”, por sua vez, como boa parte das composições de Leo Bianchini, anima após a ponderação primeira, e traz consigo a carga dos tambores e ritmos estudados por Leo. A atmosfera de despedida volta, na também já citada, “Duas Jornadas”. Seguida da doce dupla “Vai Vendo” e “Vem Ver”. A última, de Pedro Altério, tem sua melodia composta em cima do riff do violão e tem uma aura tão pueril que parece música infantil, influência também da letra — e, por favor, não leve isso como algo negativo, leitor. A metade do CD é marcada por uma canção conjunta: “Coisas Dentro das Coisas” é, possivelmente, uma das melhores do atual trabalho. A música é uma brincadeira com finais, rimas perfeitas e imperfeitas, que, sob alternadas vozes, se transforma de um quebra-cabeças da língua portuguesa a voz uníssona de seus poetas-cantores. Em “Interior”, Tô Brandileone, compositor da faixa e produtor do disco, dialoga com a dualidade dos interiores (o geográfico e o humano), como também aborda mais uma vez no CD o ato da escritura, do transformar causos, sentimentos, ideias, em canção e sobre como esse processo-resultado pode gerar em si e em outros uma espécie de catarse. Ao final do disco, tem-se, ainda, “Outro Big Bang” que representa de maneira caótica a nossa modernidade, sob a base da figura sonora da aliteração; a bossa de Pedro Viáfora, “Centro”; “Invenção”, que por influência da sua pós produção imagino, lembra coisas produzidas por Erasmo Carlos, somadas à boleros radiofônicos; e, por fim, a levíssima, porém poderosa, “O Fio E A Teia”, com sentimentos de comunidade e comunhão.

A metalinguagem, como citado anteriormente, permeia boa parte do derradeiro trabalho. E é, acredito, a perspectiva do fim (ou pausa, por se dizer) que sustenta esse crivo: a análise de cada indivíduo de si e dos outros, bem como o crescimento das composições e a edificação da banda em dez anos de carreira, com certeza, surtiram efeito na construção do disco, construindo possibilidades e temáticas dentro das canções. Com isso, o fim, ou mais corretamente, o hiato — adotado há décadas por diversas bandas nacionais e internacionais como Beach Boys, Novos Baianos e Los Hermanos — permite a grupos musicais a anestesia de novas produções por tempo indeterminado, sejam elas CDs ou turnês. Ultimamente esse recurso tem sido usado comumente para produzir capital na indústria musical, a exemplo: a já mencionada Los Hermanos que se reúne de quatro em quatro anos, mais ou menos, para novas turnês nacionais (e internacionais). Não há como prever, no entanto, se esse será o perfil da 5 a Seco, mas há de se acreditar no desenvolvimento individual desses que a compõe. E, sinceramente, é o que importa.

Por fim, é primoroso avaliar o tamanho amor pela palavra. No mais, fico feliz pelo disco, fico feliz pelo Brasil ter compositores tão bem estruturados e apaixonados nessa seção da música popular. Fiquemos curiosos pelo futuro e continuemos a acreditar no poder da canção e do amor.

OUÇA: “Pausa”, “Vem Ver”, “Coisas Dentro das Coisas” e “Interior”

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