Solange – When I Get Home



A consanguinidade no meio musical sempre foi matéria de fascínio, ou de fuga da neutralidade no mundo das opiniões. O mundo pop está cheio destes exemplos, onde vínculos fraternos são presas fáceis para o apetite sensacionalista, insaciável por entretenimento de seus consumidores (jornalistas, críticos, formadores de opinião e até mesmo fãs). Jogos de ciúmes, declarações atravessadas, ou a mais singela das discordâncias geraram oceanos de histórias e  implacável cobertura midiática. Que digam os Jacksons, os Jonas e – claro, numa espécie de estado apoteótico do escrutínio público – os Gallaghers. Mas o que torna esse fenômeno midiático-comunicacional contemporâneo em uma ameaça inócua no caso da toda poderosa família Knowles? “I’m not her and I’ll never be” diz a caçula, que complementa “There’s a big age gap and we are two very different characters.”  Não há como concordar mais. Beyoncé à parte, Solange Knowles é um universo criativo próprio, de influências e estilos completamente diferentes; opostos em vários sentidos. Bem é verdade, Solange nunca foi sombra de Beyoncé, e seu novo disco representa cem passos adiante dessa eventual posição conflituosa.

When I Get Home (2019), lançado de supetão (o modus operandi recente de Beyoncé) no último mês, é uma expressão de liberdade pessoal e personalista de Solange. Das coisas que ela viu e imaginara (“Things I Imagined”). Se em A Seat At The Table (2016), um dos melhores deste referido ano (junto com Lemonade), Solange reage ao exterior e se posiciona em relação às inúmeras injustiças e a doída realidade que lhe é imposta enquanto mulher negra, aqui ela parece destravar pesos, permitir-se à experimentar e, portanto, partir para uma nova fronteira de percepção e de criação. Do pouco que sabemos da vida privada de Solange, a artista passou por um processo duro de tratamento de um distúrbio nervoso pouco conhecido nos últimos dois anos. É o período que coincide com a produção deste álbum e pode ter sido o trigger  necessário deste seu novo momento. Em entrevista à VICE, a artista se debruça sobre o tópico:

“Going through a transition where things were happening to my body that were out of my control, I got to the place where there was no fear surrounding my body, and it belongs to me in a whole new way (…) It’s been a beautiful love affair that took me time. I’ve always been connected to my sexuality and sensuality, but so much of that was re-grounded during this time. The freedom I got to feel was amazing. I learned you can create those spaces; you don’t need anyone else to have your moment.”

Mesmo não conhecendo os bastidores criativos, é bem provável que a audição do álbum leve a conclusões, senão as mesmas, bem parecidas com os objetivos de Solange. Em 39 minutos, o disco é sensualidade, mas não possui exatamente a cadência que se espera do comum “disco sensual”. O que nos leva a talvez única falha deste projeto: o número enorme de interludes, principalmente na primeira metade do disco. Ao deixar correr o play, When I Get Home demora a decolar em sua própria proposta, já que o transe é sempre perturbado por um ou outro interlude de 1 minuto. Tudo fica um pouco fragmentado nessa turbulência: loopings quebrados, samples em camadas e outros artifícios. A partir da sexta faixa, “Stay Flo”, o som finalmente alça vôos mais abrangentes e entrega o potencial esperado, até chegar em seu ápice, “Binz”. Outro momento de fulgor é a trinca final, com destaque para a ótima “Sound Of Rain”, meio eletrônica, meio soul, meio tudo.

Mas não se engane, o disco passa longe de ser palatável, mesmo em seus momentos mais acomodados. Exige-se aqui atenção e detalhe com as músicas. Afinal, é do universo interior de uma pessoa e sua identidade que este álbum se faz versa e prosa. A lógica, o método não são as únicas vozes a serem levadas em consideração, especialmente quando falamos do self de Solange Knowles.

A produção assinada pelo time estrelado composto pela própria Solange, Dev Hynes (Blood Orange), Christophe Chassol (Frank Ocean) e outros é hipnótica. Os pianos elétricos soam macios, os sintetizadores e a percussão complementam a voz de Knowles como se fossem seus backing vocals. Não é nada parecido com o que vimos antes, embora esse projeto beba da mesma água do LP1 da FKA twigs: o afrofuturismo é uma grande força do disco. Mas Solange atua para trazer essa estética ao seio de sua mensagem. A mensagem de liberdade sobre a qual falei. E para ela, a liberdade está fortemente ligada ao lar. E lar para ela é Houston, TX. Como produto disso tudo, surge o conceito da cowgirl futurista texana, não só expresso imageticamente pelos clipes que acompanham as músicas nas plataformas de streaming e nos vídeos do YouTube, mas também em temas líricos escolhidos e num punhado de sonoridades diferentes. Portanto, Houston (como cidade, como espacialidade afetiva) e influências sulistas também são ingredientes importantes nesse grande bolo.

Como se percebeu, o álbum é uma miríade artística, ou melhor, uma instalação artística em um pavilhão gigante:são estímulos visuais, sonoros e emocionais que se entrelaçam para gerar um resultado rico, mas complicado de se enxergar através; “I can’t be a singular expression of myself, there’s too many parts, too many spaces, too many manifestations…”, denuncia “Can I Hold The Mic”. Solange assim anda entre o exagero, o artificial e a genialidade. Dessa vez acerta na dose de um e de outro, e bota seu quarto LP como seu melhor produto. Bem-vinda em casa, Solange.

OUÇA: “Down With The Clique”, “Binz” e “Sound Of Rain”

Ex Hex – It’s Real



O fato de que Mary Timony não é um nome tão instantaneamente reconhecível quanto Kathleen Hannah, Carrie Brownstein ou Kim Deal é, ao meu ver, quase um crime. A moça é uma guitarrista excepcional e está na ativa desde os anos 90, tendo tocado em bandas como Autoclave e Helium antes de se lançar em uma ótima carreira solo. Em 2011, Mary ao lado de Brownstein, Janet Weiss e Rebecca Cole, lançou o excelente Wild Flag, único álbum da banda de mesmo nome. Pouco depois ela formou o Ex Hex, seu projeto atual.

It’s Real é o segundo álbum da banda, seguindo o ótimo e subvalorizado debut Rips de 2014. O som do Ex Hex segue bastante o que o Wild Flag fez em seu único disco, e talvez ainda mais nesse álbum do que no primeiro. Trata-se de um indie rock extremamente bem feito, com influências de post-punk, garage rock e riot grrrl. It’s Real mostra os vocais de Mary mais fortes e confiantes do que nunca, ótimos riffs e solos de guitarra, e uma bateria matadora. É um álbum de rock bastante simples e sem defeitos.

Mas, por algum motivo, It’s Real falha em causar o mesmo impacto que Rips teve poucos anos atrás. Talvez por ser um disco levemente mais sério e sem tantos coros pop punk nos refrões, talvez por ser menos explosivo do que o anterior. Não há músicas como “Waterfall” ou “Beast” aqui, e esse é o seu maior defeito. O single “Tough Enough” é o mais próximo, mas o restante do disco peca pelo “excesso de seriedade”, de uma certa forma. It’s Real é mais técnico e menos espontâneo do que qualquer outra coisa já lançada por Mary.

Com certeza ainda trata-se de um álbum ótimo e muito acima da média, feito por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Timony já tem quase trinta anos de carreira, e toda essa experiência é palpável em cada riff de sua guitarra. Ex Hex segue sendo uma banda que definitivamente vale a audição, assim como tudo o que tem a mão da Mary nesses anos todos.

OUÇA: “Tough Enough”, “Radiate”, “Diamond Drive” e “Good Times”

These New Puritans – Inside The Rose



Ninguém pode dizer que These New Puritans não é uma banda pretensiosa. Em todos os sentidos da palavra. Não basta se auto-rotular neoclássica ou se inspirar em conceitos saídos diretamente da cosmologia. Os álbuns da banda são sempre ambiciosos, tentando encaixar uma série de ideias distintas em um formato que ao menos pareça ser sofisticado. Os resultados, como era de se esperar, são variados, mas, surpreendentemente, costumam estar mais na margem positiva, ao menos no que se refere às avaliações da crítica.

O ponto alto da carreira da banda até agora foi Hidden, um álbum marcado pelo post-rock com uma pegada muito forte de música erudita. Um pouco desse espirito continuou com as produções posteriores e chega até a Inside The Rose. A estrutura do álbum como um todo pode muito bem lembrar uma sinfonia. Está bem longe de ser conceitual, ao menos no sentido de contar com uma narrativa em seu esqueleto, mas é inegavelmente um disco que foi feito para ser ouvido como uma coisa só. Ainda assim, a música clássica passa bem longe da verdadeira sonoridade que experimentamos. Antes disso, estamos escutando um exemplo do post-punk em sua vertente que se pretende mais refinada. Ao menos, é quando mais se aproxima desse gênero que o álbum tem seus melhores momentos.

Com uma duração média que fica próxima dos 5 minutos, as faixas de Inside The Rose juntam uma atmosfera envolvente, ainda que soturna, com melodias que estão entre as mais acessíveis da banda, ao menos até agora. De vez em quando parece existir uma tentativa de exibicionismo, como se quisessem dizer “vejam só o que podemos fazer, como nossa arte é complexa”, mas, na maior parte do tempo, esses esforços conseguem passar como naturais. Se os vocais são consideravelmente fracos, as letras até que são boas, tirando um ou outro clichê ou momento de exagero. Ainda assim, é na instrumentação que These New Puritans sempre mostrou a que veio, e não é diferente com esse disco. Muitas das faixas, inclusive, poderiam ser muito bem instrumentais. A que dá título ao álbum, por exemplo.

Seguindo a analogia da sinfonia, é o “terceiro movimento”, indo de “Lost Angel” até o final do álbum o único que parece mais perdido, sendo uma espécie de esvair da obra, que acaba de uma forma um tanto xoxa. Talvez seja uma forma de contrabalancear a intensidade dos dois movimentos anteriores, cada um composto de três músicas, mas acaba parecendo um simples material que sobrou.

Se Inside The Rose não chega à catarse de Hidden, que continua sendo o melhor ponto para conhecer These New Puritans, pode agradar quem quiser algo novo da banda, ou simplesmente um post-punk atmosférico e denso, mas com certo lirismo.

OUÇA: “Into The Fire”, “Where The Trees Are On Fire” e “infinity Vibraphones”

American Football – American Football



Em seu terceiro álbum autointitulado, o American Football supera a atmosfera de nostalgia e mostra um grande amadurecimento sonoro. Deixando para trás o clima emo do final dos anos 90, a banda mostra que segue relevante em 2019, com um som mais adulto.

o American Football, que foi um dos expoentes do emo no final dos anos 90, passou nada menos que 17 anos sem lançar álbum. Quando ressurgiram em 2016, o clima de nostalgia e retorno foram o suficiente para agradar aos fãs e a crítica. A banda que ressurgia conseguia mostrar canções igualmente profundas e consistentes, mesmo depois de tanto tempo. Porém, o terceiro álbum não vem com um intervalo de 17 anos, mas com menos de 3. Um novo disco “mais do mesmo” talvez poderia soar inerte desta vez. Aí que entra o encanto deste novo disco. A banda consegue se reinventar de uma forma impressionante, mantendo suas características passadas ao mesmo tempo que atualiza e move em frente sua sonoridade.

Já na primeira canção, “Silhouettes”, surge quase que um manifesto. A canção de mais de 7 minutos abre portas para o disco, introduzindo a atmosfera intensa e envolvente. Enquanto nos trabalhos anteriores a sonoridade do American Football misturava o emo a algo mais folk, neste disco a mudança fica clara já no início. A aproximação da banda com um som mais próximo ao shoegaze é a grande marca deste trabalho. O álbum se mostra uma combinação do emo com uma atmosfera mais barulhenta, porém minimalista, mergulhada no pós-punk e shoegaze. A aproximação com estes estilos também é reforçado pela parceria com a Rachel Goswell, do Slowdive. 

As parceirias, inclusive, são outro ponto alto deste álbum. A abertura sonora proposta neste trabalho do American Football é reforçada pelos vocais femininos nas 3 parcerias do disco. Nomes grandes como Rachel Goswell (Slowdive), Hayley Williams (Paramore) e Elizabeth Powell (Land of Talk) entraram nas gravações. Os vocais femininos funcionam muito bem na proposta da banda, aumentando o a dramaticidade e envolvimento das cações através do contraste de vocais. A ótima canção “Uncomfortably Numb”, por exemplo, mostra o belo contraponto da letra ora cantada pelo vocalista Mike Kinsella, ora repetida pela inconfundível voz da Hayley Williams.

Este terceiro álbum revela o grande potencial que sempre esteve latente no American Football. Ao deslocar a sonoridade, a banda mostra que se foi um dos expoente do emo duas décadas atrás, ela está pronta para reviver o emo nestes tempos, na sua melhor forma.

OUÇA: “Silhouettes”, “Uncomfortably Numb”, “I Can’t Feel You” e “Doom In Full Bloom”

Dido – Still On My Mind



A maioria das pessoas não lembra da Dido. Só quando ouvem alguma playlists nostálgica dos anos 00, onde se encontram hits como “White Flag” e “Thank You”. Eu adoro a Dido, mas não acompanhei os últimos passos da sua carreira. Não sei muito sobre o que ela lançou nos últimos anos, mas quando descobri sobre Still On My Mind senti a chama da nostalgia se acender em meu coração.

Sem dúvidas, o maior trunfo da cantora é sua voz. Ela pode te confortar e te assombrar ao mesmo tempo. Ouvir uma música da Dido é como colocar manteiga na frigideira: além do cheiro maravilhoso que toma conta da cozinha é prazeroso ver a manteiga derreter. Só que um disco não se sustenta apenas com a voz. Eu ouvia as músicas e logo me esquecia do que tinha acabado de ouvir. Quase nada deixa um impacto ou capta sua atenção o suficiente pra te convencer que o tempo dedicado a ouvir o álbum valeu a pena.

A voz da Dido varia entre ser incompatível com as batidas sintéticas – como em “Mad Love” – e permanecer num platô enérgico baixo – como em “Walking By”. E mesmo que algumas letras sejam delicadas e sensíveis, isso não é suficiente para alavancar o disco. O que é uma pena, porque o disco abre com a maravilhosa “Hurricane”, uma das melhores músicas da carreira da cantora.

Still On My Mind tem pitadas de melancolia, uma dose emocional familiar e um cheirinho do início dos anos 00 que é inconfundível. Só que já estamos em 2019. Se o objetivo da Dido for fazer um comeback pro mercado, não sei se esse foi o melhor caminho. Ainda bem que posso me agarrar na memória afetiva de “Here With Me”.

OUÇA: “Hurricanes”, “Take You Home” e “Friends”

Benjamin Francis Leftwich – Gratitude



A aproximação do eletrônico com o folk sempre rende resultados encantadores. Gratitude de Benjamin Francis Leftwich é um exemplo perfeito dessa dinâmica e um álbum profundo em conteúdo, ao mesmo tempo.

Leftwich é um inglês que, com o novo álbum, conta com três discos na carreira. O primeiro, Last Smoke Before The Snowstorm é de 2011. O segundo veio em 2016, o After The Rain. Ele também tem três extended plays (EPs) na discografia: A Million Miles Out, Pictures e In The Open.

O lançamento mais recente traz a voz distintiva do cantor e compositor entoando 12 músicas inéditas que são reflexos de uma jornada pessoal. De forma geral este é um disco que acrescenta novos elementos ao trabalho de Leftwich ao mesmo tempo em que é uma evolução natural de sua música. É perfeito para quem gosta de ouvir Father John Misty, James Vincent McMorrow, Sufjan Stevens, Ben Howard ou Roo Panes – estes três últimos em especial.

As composições são reflexos de momentos tempestuosos que o artista viveu durante os três antes que antecederam o lançamento do novo registro e a divulgação do, até então, último trabalho. Gratitude vem de sua recuperação de problemas com álcool e aborda temas como introspecção e conforto.

É um álbum mais maduro e mais sério, certamente mais emocional, também, do que os registros antecessores. A musicalidade de sua voz, no entanto, é mantida e não há nenhum distanciamento daquilo que Leftwich já foi musicalmente falando – mesmo que existam rupturas entre o seu eu de hoje e o de antes.

Gratitude é um álbum contemplativo. Toda discografia de Benjamin Francis Leftwich o é. Este álbum, em particular, merece atenção pelo fato de ser pessoal e narrar de uma maneira muito bonita a forma como um homem pode se relacionar com suas próprias questões.

OUÇA: “Look Ma!”, “Tell Me You Started To Pray” e “Blue Dress”

The Cinematic Orchestra – To Believe



Buscar razões para acreditar olhando e ouvindo ao redor. É nessa premissa que se baseia o novo álbum do grupo de nu jazz The Cinematic Orchestra, To Believe. Era um bom tempo já: fazia 12 anos desde o entristecido Ma Fleur, último álbum completo do grupo liderado por Jason Swinscoe. O resultado da demora é um disco de sete longas faixas (a menor tem pouco mais de cinco minutos), com sonoridade ainda mais introspectiva que trabalhos anteriores, em um caminho bem seguro e fluido…

E acessível. Seja pelas participações nos vocais de nomes como o cantor de soul/folk Moses Sumney e o rapper Roots Manuva, ou mesmo pelas escolhas da produção, muito mais voltada para timbres que flertam com o ambient pop e com um clima mais nublado e morno, algo visível já na capa minimalista.

Há, claro, alguns momentos minimamente mais agitados e percussivos, como na instrumental “Lessons”, mas o predomínio aqui é realmente dos arranjos etéreos. O resultado tem lá suas repetições devido à duração das músicas, mas também traz momentos sublimes. Destaque para as linhas de teclado que dão base a todas as faixas e as cordas, especialmente em “The Workers Of Art”.

Por falar em canto, a despeito do tamanho das faixas, há uma certa urgência radiofônica aqui — e que vai além da já comentada produção. A lírica gira em torno da necessidade de convicção e do companheirismo diante de um mundo repleto de dor; e, por mais que isso pareça batido, não há pieguice em nenhuma das interpretações.

Surge aqui uma trajetória conceitual que se estende desde a faixa-título até “Zero One/This Fantasy”, onde a voz aconchegante de Grey Reverend clama ‘Lay your hands on me / Everyone needs someone to believe’”. E ao final, “A Promise”, vocalizada por Heidi Vogel, encerra pedindo pelo fim da dor. A faixa de 11 minutos (nada enfadonhos, diga-se) apresenta ainda uma das melhores progressões do álbum, da tristeza lenta inicial até um andamento mais rápido com a presença marcante da bateria no encerramento da obra.

To Believe também de certa forma é um disco que também progride positivamente a cada audição. Pode até não ser das obras mais complexas e talvez nem a mais interessante da Orchestra. Contudo, também não é simplório, e guarda detalhes minuciosos para serem percebidos numa tacada só (repare no uso do estéreo, para ficar só em um exemplo). Essas características, junto com uma coesão temática e boas composições, traz um material consistente para um retorno dos cinemáticos.

OUÇA: “The Workers Of Art”, “Zero One/This Fantasy” e “A Promise”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Amanda Palmer – There Will Be No Intermission



Amanda Palmer é uma pessoa extremamente passional em tudo o que faz, desde sempre. Sua carreira musical, com toda a certeza, não é diferente. Eu pessoalmente sou muito fã da moça desde seus tempos com o The Dresden Dolls e acompanho sua carreira solo desde o “fim” do duo. There Will Be No Intermission é seu quarto álbum solo, se contarmos o Amanda Palmer Goes Down Under, que foi gravado ao vivo, e o primeiro desde o incrível Theatre Is Evil em 2012. E Intermission é um álbum essencial da Amanda.

Trata-se, provavelmente, do álbum mais pessoal de toda a sua carreira. Lidando com temas como maternidade, morte, amor, aborto e casamento, Amanda canta todas as suas dores de forma bastante explícita e honesta sem medir suas palavras. ‘I was peeing in the bathroom and had left for just one second / ‘Cause I thought he couldn’t move and he was safe / As I came out I saw him falling in slow motion to the floor / It was probably the worst moment of my life‘, Palmer canta em “A Mother’s Confession”, a faixa mais longa com quase onze minutos de duração. ‘At least the baby didn’t die‘, ela continua em seu refrão.

There Will Be No Intermission é, também, um álbum minimalista quando comparado a seus outros. Toda a exposição emocional é feita através de músicas compostas apenas usando piano ou ukulele na maior parte do tempo. Isso, e o fato de que várias de suas músicas já eram conhecidas desde 2015, faz com que o álbum pareça em grande parte do tempo algo não muito impressionante.

É sem dúvida alguma um trabalho bastante confessional e com composições belíssimas – o maior problema aqui é que elas não necessariamente funcionam como um álbum coeso. Por se tratar de, no total, 20 faixas, em que muitas delas ultrapassam os seis minutos e são em sua grande maioria cantadas apenas por Amanda acompanhada de um único instrumento (piano ou ukulele), Intermission acaba sendo bastante monótono. Não existem grandes variações em ritmo ou composições e isso atrapalha um pouco o ouvinte – o real foco de Amanda aqui está em suas letras.

As letras, sim, são maravilhosas do começo ao fim. Lindíssimas, abordando temas complicados e universais a todos – principalmente a mulheres que são mães. There Will Be No Intermission desde sua capa, com Amanda completamente nua e segurando uma espada, mostra a força dessa mulher em todos os sentidos.

Mas a monotonia de Intermission infelizmente faz com que o seu álbum mais poético e pessoal já lançado tenha um tom não muito memorável. Analisar There Will Be No Intermission enquanto uma coletânea de poesias e devaneios musicados o torna um álbum memorável, mas (por falta de outra palavra) chato de se ouvir do começo ao fim. Em suas 20 faixais, o disco percorre quase uma hora e meia e são poucos os momentos em que Amanda brilha nesse contexto – se você analisar as músicas faixa a faixa é possível se emocionar e mergulhar na proposta de Amanda. Mas essas faixas todas simplesmente não funcionam tão bem como uma obra completa e coesa.

OUÇA: “A Mother’s Confession”, “Drowning In The Sound”, “Bigger On The Inside” e “Voicemail For Jill”

Sigrid – Sucker Punch



NSigrid é promessa já faz alguns anos. A norueguesa despontou na virada de 2016 para 2017 com o single “Don’t Kill My Vibe” e desde então vem sendo apontada como o próximo grande nome da música, ganhando inclusive uma série de prêmios no quesito artista revelação. Depois de lançar uma sequência de excelentes singles, temos em mãos seu primeiro disco: Sucker Punch. O álbum não é perfeito, mas, sem dúvidas, Sigrid se torna merecedora de todo hype que a cerca ao construir uma obra coesa, honesta e recheada de refrãos bem construídos e pegajosos.

É difícil não comparar a música feita por Sigrid e a música feita por Lorde. Além de uma sonoridade bastante próxima, com Sigrid mais enérgica, as duas dividem temas (desilusões, cotidiano e não adaptação ao convencional) e até mesmo formas de compor, trazendo descrições de cenas, pessoas e lugares. Apesar das proximidades, Sucker Punch não tem um mega hit como “Royals”, mas a explosão de cada refrão, com destaque para “Sucker Punch” e “Basic”, não perdem em nada para “Team” ou “Green Light”.

E por falar em refrãos, Sucker Punch é um desfile de potenciais hits. Mais da metade das faixas poderia ser lançada como single. Apesar do impacto nas paradas não estar sendo o esperado, cada canção gruda na sua mente após uma única audição, tal é o vigor da música criada por Sigrid e seus parceiros de composição e produção. Além das músicas feitas para pista, há espaço para algumas baladas, com destaque para “In Vain”, que revela uma intérprete que sabe rasgar a voz quando precisa e deixar todo o sentimento transparecer. Ainda nesse sentido, “Dynamite”, a faixa final de Sucker Punch, é a melhor música da Adele que a Adele não escreveu e nem gravou.

Apesar das comparações, e aqui ainda caberia Chvrches, Sigrid tem voz própria, algo nem sempre comum para artistas com pegada pop em seus discos de estreia. Há uma peculiaridade em sua voz e interpretação que a torna única. Mesmo sendo comparada com artistas que estão no mercado a cinco, dez ou quinze anos, Sigrid é extremamente contemporânea, seja por suas letras ou pelas escolhas de produção. Não há espaço para saudosismo em Sucker Punch. Este é um disco do “agora”.

No entanto, nem tudo é perfeição pop em Sucker Punch. Como pequenas falhas, podemos apontar duas ou três faixas que pouco ou nada acrescentam ao trabalho. “Level Up”, com pouco mais de dois minutos, destoa completamente do restante do álbum. Com uma sonoridade que chega a lembrar Little Joy, a faixa está totalmente deslocada entre as poderosas “Don’t Feel Like Crying” e “Sight Of You”. Outra faixa que não diz a que veio é “Business Dinners”, e até por estar perto do fim do disco, soa ainda mais desnecessária.

Mesmo que comercialmente não se cumpra, Sigrid não é mais uma promessa. A artista se tornou realidade com seu robusto disco de estreia. Sucker Punch é uma sucessão de singles poderosos envoltos em uma produção totalmente contemporânea. Sigrid é ainda muito jovem e este é apenas seu disco de estreia, no entanto o poder e o talento que sobram, nos fazem ficar ansiosos por tudo que a artista ainda há de criar. Sigrid é dessas que vale a pena acompanhar de perto e Sucker Punch é seu primeiro triunfo.

OUÇA: “Strangers”, “Don’t Feel Like Crying”, “Sucker Punch”, “Don’t Kill My Vibe”, “In Vain” e “Basic”