Oh Sees – Face Stabber



O psychedelic rock não é uma novidade para ninguém. O estilo percorreu um célebre caminho desde a sua concepção há 59 anos, com contribuição de Frank Zappa, e bandas que, hoje, são clássicos incontestáveis: The Seeds, The Gamblers, The Jimi Hendrix Experience, The Beatles, entre outros. São esses artistas que trouxeram pela primeira vez escolhas de produção musical que muito seriam referenciados e reverenciados no decorrer de todos os anos que atam o momento presente e essa época tão mitificada/mistificada pela maioria das pessoas. Falamos aqui de efeitos de estúdio elaborados tais quais reverb, echo, phasing, loopings em duração, panning e distorção; presença de jams extensos para todos os instrumentos envolvidos; elementos emprestados do free-jazz; sintetizadores…ater-se meticulosamente a todas as características dessa escola musical tomaria extenso tempo e muitas palavras, o que aqui não convém. O fato é que o psych rock ainda está conosco. E a prova disso é a norte-americana, (já) veterana Oh Sees, que com seu novo disco, presta reverência aos grandes dos anos lisérgicos.

Com Face Stabber (Castle Face Records, 2019), a banda atinge a impressionante marca de 22 discos de estúdio, se considerarmos todos os outros quinhentos nomes que a banda já possuiu. Se dividirmos a carreira dos moços em duas fases, é justo dizer que entre 2003 e 2014 a produção musical não se destaca à causa da aposta em um jogo de referências demasiadamente amplo, porém superficial. A partir do disco Mutilator Defeated At Last (2015) a banda apresenta uma evolução concreta, um álbum mais funky que o comum, com experimentações rítmicas interessantes e diminui excessos. Encaixa, por três anos consecutivos, 2015-2017, bons discos, portanto, com destaque para o ótimo  Orc (2017). Após o morno Smote Reverser (2018), a banda chega com o novo disco tentando retomar a montante. Porém, mesmo que seja uma máquina muito bem lubrificada, a banda volta a patinar.  

O Oh Sees opta por um Face Stabber com uma hora de vinte minutos de duração, com duas músicas que ultrapassam a marca dos dez minutos, agindo no conjunto do disco como conclusões de duas partes. São elas a faixa 6 “Scutum & Scorpium” e a derradeira “Henchlock” (o álbum tem 14 faixas…).  Longas músicas levam, novamente, a um álbum de excessos, o  que aparenta ser o calcanhar de aquiles do carreira deste grupo particular. 

Em Face Stabber você verá a cartilha do psych rock, mencionada no primeiro parágrafo. Não é só isso. Há também no álbum doses abusivas de ambient rock e prog rock. O trio mistura tudo nos numerosos e longos jams  presentes em mais de 60% do disco, configurando a principal característica desse lançamento. Estes grandes segmentos de improvisação trazem consigo solos de guitarras embebidas em efeitos, teclados esquizofrênicos, percussão bem acelerada. Adicione a esse caldeirão de coisas, os efeitos engraçados nos vocais de John Dwyer, como durante a fraca abertura “The Daily Heavy”. O caos reina absoluto, o que não necessariamente significa algo de positivo, afinal  são vários os trechos onde o caos mais se assemelha a uma grande bagunça do que, efetivamente, a uma catarse musical. 

Em geral, não se trata de um álbum ruim. Que fique registrado. O talento da banda e a coragem em arriscar um disco com a envergadura pretendida devem ser levados em consideração. Mas não há como escapar. Ao final, fica a impressão de que as músicas poderiam ser construídas de uma maneira melhor: a banda poderia ter reduzido (drasticamente em alguns casos) a duração das músicas,  conferindo-lhes concisão e melhor acabamento. Curiosamente, a “correção” dos erros praticados no disco estão também no mesmo. É o caso da soturna “Snickersee” e das pancadarias “Gholü” e “Heartworm”, as faixas mais breves da tracklist. Se o destaque positivo fica por conta dessas, são as maiores que deixam a experiência do disco mais fatigada e menos interessante; não que a escolha de faixas mais longas seja de toda sorte uma escolha ruim, mas progressões e composições melódicas sem objetivo, junto de decisões estilísticas jogadas com certo desleixo exagerado não ajudam. Seguramente, o clichê “menos é mais” é de bom tom nessa conversa toda.  

Há um desencantamento com essa banda, na medida que se sabe muito bem do que são capazes. Nasce então uma frustração, principalmente, porque o grupo de John Dwyer já trilhou erros parecidos, senão iguais muitas vezes anteriormente. Mas tudo bem, ano que vem daremos a vigésima terceira chance para ver o Oh Sees acertar em cheio.

OUÇA: “Snickersee”, “Gholü” e “Heartworm”

Shura – forevher



Um grito contra a intolerância e a falta de empatia. Assim é forevher: um enredo otimista sobre a sorte e o revés de amar e ser livre.

Depois de chamar atenção com seu debut Nothing Is Real, Shura retorna sem medo de ser vulnerável, sem amarras para viver a euforia de estar ao lado de uma paixão por uma garota, sem importer-se com a distância ou nenhuma outra barreira imposta pela homofobia.

Revivendo suas batidas de retro-pop de seu primeiro trabalho com arranjos mais refinados, forevher é levado por baladas mais sóbrias em ritmo mas não menos intensas em suas composições. Já na intro crua e sem grandes edições, “that´s me, just sweet melody” Shura declara sua entrega incondicional, como  também na faixa seguinte “side effects”: “I got out, I got free, you don´t got no hold on me” ou em “flyin´” –  “Scared of flying, but I´ll fly for you. Scared of dying, but I´m dying to see you”.

Além dos bos singles forevher trás boas surpresas nas inéditas “skyline, be mine”, “pricess leia” e “control”.

Com uma vibe de fim de tarde no parque na companhia de alguém especial numa tarde de verão, Shura firma mais um bom trabalho, colocando sua referência como artista pop atual tanto pelo refresh no gênero, como por sua visibilidade LGBTQ+ em primeira pessoa com um álbum forte sobre um amor puro.

OUÇA: “side effects”, “flin’”, “skyline”, “be mine”, “BRKYLNDN” e “control”

The Regrettes — How Do You Love?



Já na introdução, uma declaração do poema “Are You In Love?”, já se pode saber que o segundo disco do grupo punk norte-americano The Regrettes, How Do You Love?, se trata de um trabalho divertido e cheio de energia. Ao longo de quinze faixas, o álbum embala um ritmo frenético e aborda questões românticas a partir de um ponto de vista juvenil.

O rock entusiasmado do The Regrettes remete a uma sonoridade retrô, e a união dessa musicalidade com canções que apontam “fazer uma playlist juntos” como a prova definitiva de amor é uma mistura que agrada e diverte. A guitarra elétrica parece perfeita para animar uma festa adolescente, uma atmosfera moderna que a lírica do grupo consegue imitar com exatidão. Canções como o single “I Dare You” são impossíveis de se ouvir sem, no mínimo, bater o pé no chão de acordo com a batida.

No entanto, em um disco que parece não ter tempo para descansar, o ritmo festivo pode soar bobo e repetitivo em momentos. Isso faz com que o disco pareça mais longo do que de fato é, com seus 44 minutos de duração. Além disso, as menções insistentes a esse universo colegial, como na faixa “Coloring Book” e “Dress Up”, criam um ar pretensioso com suas metáforas e throwbacks um tanto quanto óbvios.

How Do You Love? é um disco alegre que anda na corda-bamba entre a doçura e a ironia. Liricamente, lida com as complexidades da vida romântica nos anos 2010, e as escolhas sonoras remetentes aos anos 1960 oferecem uma contradição deliciosa de se ouvir. Por mais que o pique de batidas por minuto possa cansar o ouvido, é um trabalho cheio de personalidade.

OUÇA: “Pumpkin”, “I Dare You” e “California Friends”

Bon Iver – i,i



Já faz mais de uma década desde o debut do Bon Iver, For Emma, Forever Ago (2007). Nestes anos, o Bon Iver se consagrou como essa entidade quase mística liderada pelo estadunidense Justin Vernon. Chegando ao seu quarto álbum da melhor forma possível, o Bon Iver se mostra uma banda madura cujos discos veem crescendo e amadurecendo com o passar dos anos.

i,i não poderia ser um álbum mais adequado para este momento de mais de uma década de banda. Ele chega neste clima de celebração do Bon Iver, expondo características da sua discografia como colagens ao longo do disco. Nos lembra dos diversos fragmento de encantamento que levou o Bon Iver a ser tão aclamado pela crítica. Aqui, nos deparamos tanto com a sonoridade folk de For Emma, Forever Ago (2007) e Bon Iver (2011), quanto com a experimentação e texturas eletrônicas de 22, A Million (2016). 

A atmosfera do álbum se encaixa exatamente após 22, A Million, onde todos os ensaios do trabalho passado mostram frutos grandiosos. Enquanto o álbum anterior surpreendia pela excentricidade e experimentação, i,i consegue transpor tudo isso para ou outro patamar. Os sintetizadores e elementos eletrônicos já soam de forma mais natural ao se misturarem com o folk e as variações de volume tão características do Bon Iver. É justamente ao dosar estas texturas eletrônicas com momentos serenos que surgem os grandes encantos de i,i. O álbum evolui de desta maneira intimista, envolvente e calorosa, criando um clima familiar e inovador ao mesmo tempo.

i,i representa um fechamento de ciclo para o Bon Iver. Faz a amarração dos três álbuns anteriores ao conseguir sintetizar anos de amadurecimento em um trabalho sólido. É uma verdadeira celebração de mais de uma década de banda. Um trabalho que ainda apresenta a mesma beleza de For Emma, Forever Ago, somada com anos de amadurecimento e experimentações. 

OUÇA: “Hey, Ma”, “U (Man Like)”, “Naeem”, “Faith” e “Marion”

Clairo – Immunity



Nessa mesma época em 2017, se você procurasse por Clairo ou ouvisse alguém falando sobre, era bem provável que a primeira informação que chegaria até você seria algo sobre “bedroom pop” ou que ela, Clairo, era a responsável pelas músicas chiclete (“Pretty Girl” e “Flaming Hot Cheetos”) que volta e meia o Spotify insistia em colocar na sua lista de músicas recomendadas.

Assim como muitos nomes do bedroom pop, Clairo construiu sua carreira musical em meio ao Soundcloud e Tumblr, com videoclipes gravados na webcam do computador e melodias de 3 ou 4 acordes feitas no Garageband. Agora, dois anos depois, ao lado de nomes como Cuco e Rex Orange County (que também vieram do bedroom pop) e com algumas parcerias de peso (SG Lewis, Mura Masa, Wallows), a nova realidade é que Clairo, Claire Cottrill, é o que melhor representa a mistura do pop e soft rock jovem em grandes festivais de música mundo afora.

Em seu primeiro álbum de estúdio, Immunity, Cottrill reforça o que a faixa “4EVER” do EP diary 001 (2018) já anunciava: uma nova era de produção, com vocais mais claros e arranjos mais elaborados, mas sem perder a essência lo-fi e chill beats que marcavam as músicas anteriores.

Não é à toa que a excelente produção do álbum ficou por conta de Rostam Batmanglij, ex-Vampire Weekend e que já produziu para nomes fortes do pop, indie e R&B como Carly Rae Jepsen, HAIM, Charli XCX e Frank Ocean. E por falar em HAIM, algumas faixas do disco contam com a ajuda de Danielle Haim na bateria.

Assim como o nome indica, Immunity trata de alguns assuntos delicados, como descobrir e lidar com a sexualidade (“Bags”, “Sofia”, “Softly”); a relação de Cottrill com artrite reumatoide juvenil e como a doença afeta o seu dia-a-dia (“Sinking”, “I Wouldn’t Ask You”); depressão (“Alewife”) e relacionamentos passados com corações partidos (“White Flag”, “Feel Something”).

O disco é recheado de músicas sinceras e emocionais, com influência clara de álbuns como o Blue (1971) de Joni Mitchell, mas o ponto alto do fica por conta de faixas como “Bags” e “I Wouldn’t Ask You”.

Em “Bags”, é impossível não compartilhar da ansiedade de Clairo sobre gostar de alguma amiga/amigo próximo (em entrevista ao site Genius, Cottrill afirmou que a música é sobre uma de suas primeiras experiências gostando de meninas). A faixa fala sobre não saber lidar com o novo sentimento, e que no final, ter qualquer interação com a pessoa, mesmo que sejam apenas pequenos momentos descontraídos como sentar no sofá e assistir TV, seria melhor do que declarar seus sentimentos e a pessoa eventualmente ir embora (“I guess this could be worse / Walking out the door with your bags”).

Já “I Wouldn’t Ask You”, a faixa de quase 7 minutos que fecha o álbum, é uma emocionante carta de agradecimento que Cottrill dedica à um antigo namorado que a ajudou e a acompanhou no hospital durante períodos de crise de sua artrite reumatoide. A faixa tem dois grandes momentos, com o primeiro sendo uma produção simples, que consiste basicamente em um piano e o vocal, acompanhada por um coral de crianças cantando em loop o verso “I wouldn’t ask you to take care of me”, que por sua vez reforça o sentimento de invalidez de Cottrill perante a situação. O segundo momento é mais upbeat e retrata o momento em que Clairo se da conta do amor e gratidão que sentia pelo parceiro.

Considerando todas as faixas, Immunity mostra o desejo de Clairo e Rostam de pavimentarem um novo caminho, experimentando novos sons e estilos musicais, flertando com o indie rock anos 2000 à lá Strokes em “Sofia” e até uma pegada mais R&B com lo-fi beats em “Softly”.

Com esse álbum de estreia, Clairo mostra para todos que apostavam que ela seria apenas uma One Hit Wonder, ou que ela nunca sairia do seu quarto e continuaria criando melodias no Garageband, que ela na verdade tem potencial e repertório de sobra, e vem ganhando espaço na cena atual junto à outras artistas LGBTQ+ como Snail Mail, girl in red e King Princess.

Músicas como as de Cottrill se fazem cada vez mais necessárias e especiais, principalmente pela naturalidade, sinceridade e delicadeza com que os assuntos são retratados em suas letras. No final, Immunity é como a própria foto da arte de capa: acolhedor, tímido, simples e cativante, mas sem tentar demais.

OUÇA: “North”, “Bags”, “Impossible” e “I Wouldn’t Ask You”

Apeles – Crux



Após a dissolução do excelente duo Quarto Negro, o vocalista Eduardo Praça se lançou com um novo projeto solo chamado Apeles e Crux é seu segundo álbum completo de estúdio. Crux chega agora e segue o ótimo Rio Do Tempo de 2017, mas é apenas agora em Crux que a impressão geral do álbum é que ele se trata de uma quase continuação do que Eduardo fazia com o Quarto Negro.

Rio Do Tempo é um álbum excelente, e é claro que por se tratar da mesma pessoa ele já tinha um ar de conhecido, em músicas como “Clérigo” e “Imensamente Sutil” isso ficava bastante claro. Os mesmos pianos e clima semi-shoegaze de sempre, mas em Rio Do Tempo eles eram utilizados de uma outra maneira. Mas CruxCrux, sonora e liricamente, parece se tratar da continuação de Amor Violento, o excepcional último álbum do Quarto Negro lançado em 2015.

O single “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços” é a maior prova disso. Um dos vários pontos altos de Crux e com certeza uma das melhores músicas lançadas nesse ano de 2019, ela poderia facilmente integrar Amor Violento como nada que o Eduardo fez como Apeles até agora poderia.

Nunca é divertido quando uma banda da qual você é fã encerra as atividades, e com muita frequência isso é seguido por outros trabalhos de seus membros (falando nisso, Yatho o projeto atual de Thiago Klein, outra metade do Quarto Negro, também vale e muito a audição), mas em Crux Eduardo anda por uma linha bastante tênue e complicada, muito mais do que foi em Rio Do Tempo.

O restante do álbum mantém, claro, o mesmo clima mas Eduardo segue adicionando guitarras e violões distorcidos o suficiente para diferenciá-los de sua banda anterior. Seus temas e letras, entretanto, aproximam Crux muito mais a Amor Violento do que a Rio Do Tempo; com seu clima de pessimismo esperançoso, se isso faz algum sentido.

Crux no geral se mostra como um ótimo álbum, vindo de alguém que já fez coisas excelentes no passado e se encontra no caminho para atingir tal excelência de novo. Crux mostra que o passado do Eduardo com o Quarto Negro não foi esquecido e que ele está sabendo muito bem aglutinar elementos em seu novo projeto. Crux mostra um Eduardo ainda mais confiante do que antes e não decepciona, é um álbum muito bem feito e produzido, e com certeza uma das coisas mais interessantes do ano até agora.

OUÇA: “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços”, “Deságua”, “Reflexo Turvo” e “Pele”

5 a Seco — Pausa



“Onde eu possa descansar daquilo tudo que já sei / de todo ouro que busquei  / do vício de me reinventar” são os versos compostos por Tó Brandileone e Vinicius Caldeironi no último trabalho do grupo de compositores 5 a Seco após o anúncio da pausa. As linhas da canção sintetizam a decisão do conjunto e a laboração por trás do ser artista.

Pouco mais de um ano após o lançamento de Síntese (2018), o grupo (composto por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni) decidiu que “cada um vai na sua estrada”, como diz “Duas Jornadas”, terceira faixa do disco. A notícia possivelmente pegou de surpresa os admiradores e fãs, e levantou novamente a discussão sobre hiatos musicais

O perfil do álbum é intimista, fraternal e saudoso. Instrumentalmente enxuto, Pausa é composto de, basicamente, voz e violão — salvo algumas aparições de banjos, ukuleles percussões e um belo violoncelo em “Vai Vendo”, composição de Vinicius Calderoni. Iniciado por sua homônima reflexiva, ora misteriosa e dramática, ora envolta em tranquilidade, “Pausa”, como já mencionado, evoca a figura do médico e do monstro, do artista e da canção. “Como Quero Demonstrar”, por sua vez, como boa parte das composições de Leo Bianchini, anima após a ponderação primeira, e traz consigo a carga dos tambores e ritmos estudados por Leo. A atmosfera de despedida volta, na também já citada, “Duas Jornadas”. Seguida da doce dupla “Vai Vendo” e “Vem Ver”. A última, de Pedro Altério, tem sua melodia composta em cima do riff do violão e tem uma aura tão pueril que parece música infantil, influência também da letra — e, por favor, não leve isso como algo negativo, leitor. A metade do CD é marcada por uma canção conjunta: “Coisas Dentro das Coisas” é, possivelmente, uma das melhores do atual trabalho. A música é uma brincadeira com finais, rimas perfeitas e imperfeitas, que, sob alternadas vozes, se transforma de um quebra-cabeças da língua portuguesa a voz uníssona de seus poetas-cantores. Em “Interior”, Tô Brandileone, compositor da faixa e produtor do disco, dialoga com a dualidade dos interiores (o geográfico e o humano), como também aborda mais uma vez no CD o ato da escritura, do transformar causos, sentimentos, ideias, em canção e sobre como esse processo-resultado pode gerar em si e em outros uma espécie de catarse. Ao final do disco, tem-se, ainda, “Outro Big Bang” que representa de maneira caótica a nossa modernidade, sob a base da figura sonora da aliteração; a bossa de Pedro Viáfora, “Centro”; “Invenção”, que por influência da sua pós produção imagino, lembra coisas produzidas por Erasmo Carlos, somadas à boleros radiofônicos; e, por fim, a levíssima, porém poderosa, “O Fio E A Teia”, com sentimentos de comunidade e comunhão.

A metalinguagem, como citado anteriormente, permeia boa parte do derradeiro trabalho. E é, acredito, a perspectiva do fim (ou pausa, por se dizer) que sustenta esse crivo: a análise de cada indivíduo de si e dos outros, bem como o crescimento das composições e a edificação da banda em dez anos de carreira, com certeza, surtiram efeito na construção do disco, construindo possibilidades e temáticas dentro das canções. Com isso, o fim, ou mais corretamente, o hiato — adotado há décadas por diversas bandas nacionais e internacionais como Beach Boys, Novos Baianos e Los Hermanos — permite a grupos musicais a anestesia de novas produções por tempo indeterminado, sejam elas CDs ou turnês. Ultimamente esse recurso tem sido usado comumente para produzir capital na indústria musical, a exemplo: a já mencionada Los Hermanos que se reúne de quatro em quatro anos, mais ou menos, para novas turnês nacionais (e internacionais). Não há como prever, no entanto, se esse será o perfil da 5 a Seco, mas há de se acreditar no desenvolvimento individual desses que a compõe. E, sinceramente, é o que importa.

Por fim, é primoroso avaliar o tamanho amor pela palavra. No mais, fico feliz pelo disco, fico feliz pelo Brasil ter compositores tão bem estruturados e apaixonados nessa seção da música popular. Fiquemos curiosos pelo futuro e continuemos a acreditar no poder da canção e do amor.

OUÇA: “Pausa”, “Vem Ver”, “Coisas Dentro das Coisas” e “Interior”

Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold



I need something pretty to help me ease my pain‘. Esse é o primeiro verso da faixa-título, que abre o nono álbum de estúdio da lendária banda americana Sleater-Kinney. ‘But I’m broken in two, cause I’m broken inside‘ é o verso que o encerra. Não se trata em momento algum de um álbum fácil, leve e divertido.

É impossível falar de The Center Won’t Hold sem comentar sobre o fato de que ele foi inteiramente produzido pela Annie Clark, também conhecida como St. Vincent. E sua influência no trabalho final já era perceptível desde a capa e a música “Hurry On Home“, primeira divulgada pela banda para promover o álbum. Trata-se da música mais explicitamente sexual já gravada pela banda, e sonoramente mistura o tradicional som do S-K com uma produção bastante urgente e moderna quase robótica, característica principalmente do último álbum da Annie, o excelente MASSEDUCTION. Mas as coisas param por aí. O restante do álbum todo é Sleater-Kinney do começo ao fim.

Também é impossível falar desse disco sem citar a saída de Janet Weiss, a melhor baterista de rock da história, que anunciou que estava deixando a banda faltando pouco mais de um mês para o lançamento de The Center Won’t Hold. “The band is heading in a new direction and it is time for me to move on.“, seu anúncio no twitter dizia. The Center Won’t Hold é o nono álbum da banda e o sétimo gravado e composto com Janet nas baquetas, e essa notícia veio como um baque para Deus e o mundo. Tudo o que o S-K sempre fez em toda a sua carreira foi seguir em direções novas a cada trabalho, indo do punk cru de Dig Me Out ao psicodélico The Woods. Poderia a mudança dessa vez ser tão drástica a ponto de sua baterista há 24 anos querer sair da banda? Bom, não. Mas também sim.

The Center Won’t Hold é com certeza o álbum menos acessível da banda até hoje, o mais difícil e o mais controverso. Ele também marca a primeira vez em que as guitarristas e vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker escreveram separadamente e isso é bastante claro. A diferença entre as músicas da Corin e as da Carrie são bastante evidentes, causando uma certa disparidade e idiosincrasia que nunca antes apareceu. Aquela sua tradicional dinâmica de tirar o fôlego de uma começar um verso ou riff em sua guitarra e a outra terminar quase passando por cima não está presente em nenhum momento aqui. De uma certa forma, apesar de tudo, The Center Won’t Hold têm as composições e músicas mais estruturalmente tradicionais de sua carreira como S-K também.

Mas nada disso necessariamente é uma coisa ruim, pelo contrário. O que o álbum falta de coesão ele compensa com toda a certeza em qualidade. Os mais diversos humores se entrelaçam e se encavalam e resultam, por vezes, em transições incríveis como da sombria “RUINS” para a leve “LOVE”. E “LOVE”… Outro ponto que é impossível de se ignorar nesse disco.

“LOVE” é, literalmente, uma declaração de amor da Carrie Brownstein à banda como um todo e a tudo o que já passaram e viveram (talvez à Corin um pouquinho mais). Citando em sua letra toda a sua trajetória e trabalhos passados, ela nos conta como foi o começo de tudo e conclui onde estão agora. ‘There’s nothing more frightening and nothing more obscene than a well-worn body demanding to be seen‘, uma crítica ferrenha ao fato de que mulheres após uma certa idade (as três já passaram dos 40 anos) são colocadas de lado por que ‘envelhecer é feio’.

Outra música que merece um destaque especial é “The Dog/The Body”, penúltima faixa. É a mais próxima da velha dinâmica do S-K, seus versos quase proféticos ‘If you wanna go, can’t find a reason not to leave‘ seguem o refrão mais ‘todos-juntos-com-seus-isqueiros-e-celulares’ da carreira da banda.

Quem me conhece minimamente sabe que esta se trata da minha banda favorita, trago em minha pele uma homenagem permanente a elas e ao que significam pra mim. E The Center Won’t Hold foi com certeza um dos álbuns mais difíceis de se resenhar, pra mim, em todos esses anos de You! Me! Dancing!. E o resultado é que, sim, elas foram para uma nova direção. Talvez a mais drástica que já tomaram até hoje. Mas eu ainda estou aqui com elas. Agora apenas com Carrie e Corin. Call the doctor, dig me out of this mess.

OUÇA: “LOVE”, “Hurry On Home”, “The Center Won’t Hold”, “The Dog/The Body”, “Bad Dance” e “RUINS”

Ra Ra Riot – Superbloom



Em seu quinto álbum de estúdio o Ra Ra Riot não foge da fórmula pré-estabelecida do indie pop good vibes com melodias suaves e letras igualmente suaves, sem abordagem de temas complexos e que evocam calma e tranquilidade.

A banda não arrisca muito e acaba presa em uma forma, que embora seja agradável de ouvir, não traz novidade e é facilmente confundida com trabalhos antigos tanto do Ra Ra Riot como do Vampire Weekend, Phoenix e MGMT.

A melhor e mais chiclete faixa do novo disco é “A Check For Daniel”, que em alguns momentos lembra “aquela do Vampire Weekend” (“A Punk”). É a música mais agitada e dançante do álbum e a única que não economiza tanto nas guitarras.

Outro destaque do álbum é a faixa “Belladonna”, que tem um refrão contagiante, e um arranjo musical construído de forma excelente. Os instrumentos são perfeitamente encaixados com um coro de fundo e um interlúdio com diálogos em japonês.

Não há muito o que comentar sobre a composição das letras de Superbloom, todas são genéricas e parecem terem sido feitas somente para preencher os arranjos já construídos, que são muito bons e a principal qualidade da nova obra.

O trabalho novo do Ra Ra Riot não fugiu da zona de conforto. Às vezes isso é bom, outras vezes isso é ruim. Nesse caso o resultado é mais positivo que negativo, mas se tivessem buscado arriscar poderia ter saído um trabalho melhor.

A fórmula indie pop ainda não está totalmente esgotada e permite o surgimento de álbuns de boa qualidade, mas é preciso que se procure alternativas para reinventar.

Sem fugir muito do formato, o Phoenix tentou fazer algo original com o Bankrupt! em 2014 e o Vampire Weekend fez neste ano com Father Of The Bride. Talvez no próximo trabalho o Ra Ra Riot possa trazer sua contribuição para reinventar o indie pop.

OUÇA: “Belladonna”, “A Check For Daniel”, “War & Famine” e “This Time Of Year”

Mabel – High Expectations



Eu tô ficando velha. Acho que é essa a explicação. Só pode ser essa a explicação. Esse raio Dualipatizador passou pelas blogueiras, atrizes e agora chegou na música. Será que a Dua Lipa ganhou tanto dinheiro que está pagando pessoas no mundo inteiro para parecerem com ela? Esse álbum de estreia da Mabel é um Dua Lipa 2.0.

Pra você que nunca ouviu falar nela, a Mabel é uma cantora britânica de 23 anos, filha de Neneh Cherry (!) e Cameron McVey (!!). Com um pai produtor musical e uma mãe cantora, ela já nasceu pronta para ser uma estrela. E, convenhamos, ela conseguiu. Você ouve o singles dela por toda parte, ela está nas rádios e principais playlists do Spotify e faz um pop contagiante. Mal começou e já é a 105ª artista mais ouvida no Spotify. 

Já falei em outras resenhas que música não precisa ter significado profundo sempre. Não tem problema nenhum em ouvir algo só com a intenção de se divertir, distrair a cabeça ou com qualquer outra que não seja refletir sobre o mundo. Nem sempre eu tô com pique que pensar no que um cantor quis dizer usando um sample de 1970 ou pensando no jogo de palavras criado em uma música bônus. O problema principal com High Expectations é que é um álbum que se propõe a ser mais do que realmente é.

Com “Ok (Anxiety Anthem)”, Mabel fala sobre ansiedade de um jeito superficial. Quantas músicas ainda precisamos ouvir dizendo as mesmas coisas sobre ter crises de ansiedade? Parece que estou ouvindo um texto de blogueira com uma batida ao fundo. E isso se repete algumas vezes durante o album. Ainda bem que entre as músicas com essa proposta temos pop chiclete bem produzidos, como “Mad Love” e “Put Your Name On It”.  

Mabel está só começando. Ela tem uma ótima voz e bons produtores, o que me faz acreditar que ela ainda pode surpreender e lançar coisas interessantes no futuro. Para uma cantora que diz que tem altas expectativas e quer lançar músicas que durem para sempre, faltou amadurecimento. High Expectations ficou só na promessa. Quem sabe num próximo disco. 

OUÇA: “Don’t Call Me Up”, “Bad Behaviour”, “Mad Love” e “Put Your Name On It”