Mark Ronson – Late Night Feelings



Mark Ronson é conhecido por colaborar com grandes artistas como Amy Winehouse, Lady Gaga, Adele, Lily Allen, Miley Cyrus, Queens of the Stone Age e Bruno Mars. Além disso, possui cinco álbuns solo, tendo ficado bastante conecido por seu hit “Uptown Funk”, em parceria com Bruno Mars, do disco Uptown Special. Em seu quinto disco, Ronson decidiu usar somente vozes femininas e apostar num estilo mais voltado pro disco, e acertou em cheio.

Trazendo a sueca Lykke Li como convidada, a faixa-título do disco – “Late Night Feelings” – exemplifica muito bem o conceito do álbum, trazendo um arranjo com pop dançante acompanando a voz melancólia da cantora. “Find U Again” traz a cantora Camila Cabello e a produção de Kevin Parker, do Tame Impala. É válido destacar a presença da cantora YEBBA que está presente em três excelentes faixas: “Knock, Knock, Knock”; “Don’t Leave Me Lonely” e “When U Went Away”. O grande destaque do disco é a parceria com Miley Cyrus, “Nothing Breaks Like A Heart”, que combina o disco com o country característico no estilo da cantora.

Ronson trabalha muito bem a estética dos anos 70 em Late Night Feelings, mas trazendo as sonorizações com economia em músicas que servem muito bem para dançar e combinam também com momentos mais relaxados. O caminho nostálgico seguido pelo produtor encaixou muito bem com a escolha das cantoras e com o tom das composições. Late Night Feelings não traz um hit como “Uptown Funk”, mas é – como um todo – um dos melhores álbuns da carreira de Mark Ronson.

OUÇA: “Nothing Breaks Like A Heart”, “Find U Again”, “Don’t Leave Me Lonely” e “Late Night Feelings”

The Raconteurs – Help Us Stranger



O The Raconteurs foi, durante muito tempo, uma alçada experimental e um projeto paralelo quase que de gaveta do excelentíssimo e talentoso Jack White. Foi uma surpresa, em 2006, quando ele lançou o primeiro disco do quarteto junto com outros nomes como Brendan Benson e dois membros do The Greenhornes, mostrando que podia fazer coisas diferentes do saudoso White Stripes. O Raconteurs ficou em foco durante um tempo para o músico, mas acabou sendo engavetado para dar lugar a sua carreira solo e ao The Dead Weather.

Em 2019, de supetão, eles voltam com o terceiro disco de estúdio, Help Us Stranger, num contexto aonde o estilo musical antigo, com pitadas de blues e garage rock, já não é e não se faz mais tão interessante. E, nesse contexto musical diferente em que estamos hoje, é ainda mais interessante perceber que Jack e companhia sabem muito bem disso e desviam o som do The Raconteurs para algo mais polido e menos sujo, na maior parte do tempo; fazendo adições interessantes e incursões simples para mostrar as novidades.

Help Us Stranger tem poucas coisas que podem se relacionar com os dois álbuns que o precedem, como algumas distorções aqui e ali, ou músicas mais rápidas e enérgicas, mas, essencialmente, é uma redenção a um feijão-com-arroz bem feito e entregue com a tradicional primazia do grupo.

No final das contas, esse terceiro disco vai ser notado como um álbum essencial por marcar a volta do projeto, que eu considero o mais interessante do Jack White, depois de 11 anos. Não possui reinvenções da roda; não possui adições ou mergulhos corajosos, como aconteceu anteriormente; não tem arranjos grandiosos; tampouco mostra Jack White e Brendan Benson em seus momentos de liricistas mais criativos. Help Us Stranger é praticamente um serviço para os fãs e uma desculpa para vê-los em turnê.

O que nos resta aqui é, então, esperar que o foco volte para os Raconteurs; e é praticamente certo que isso vai acontecer, já que eles estão colhendo bons frutos do repentino reaparecimento – turnês lotadas, espaços dignos em festivais internacionais, topos inéditos de paradas e críticas em tons positivos nos sites mais reconhecidos. Vamos aguardar que não se passem mais dez anos para que um projeto tão interessante como esse volte a tona – Jack White mantenha-se ocupado aqui, por favor!

OUÇA: “Bored And Razed”, “Now That You’re Gone” e “Live A Lie”

black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

Hot Chip – A Bath Full Of Ecstasy



Um ambiente escuro com vozes ressoando. Neste mesmo ambiente há batidas pop e cada uma estimula que o ouvinte visualize uma cor. A descrição serve para explicar uma espécie de fenômeno sinestésico ou o clipe de “Melody Of Love”, faixa de abertura do novo álbum do Hot Chip. A sinestesia compreende a junção de diferentes planos sensoriais, está relacionado a forma como sentimos o mundo ao nosso redor. 

A Bath Full Of Ecstasy,  sétimo disco da banda britânica, flerta com a sensorialidade e a sensibilidade. Trata-se de uma brincadeira: seja com os efeitos alucinógenos, seja com a exaltação.  “Echo”, quarta faixa, poderia tocar em qualquer rádio ou em qualquer filme meio retrô. Uma música com batidas oitentistas e genuínas, afinal, o que é o pop sem sua essência? Um mergulho profundo em uma banheira de melodias eletrônicas. “Bath Full Of Ecstasy” e “Clear Blue Skies” destacam-se pela regularidade positiva: cativantes, seja na animação ou na batida calma e techno que navega e guia o ouvinte: entramos em um universo paralelo.

Philippe Zdar, produtor francês, relacionado ao Cassius e ao Phoenix trabalhou neste álbum. É um dos seus últimos, já que o produtor acidentou-se e acabou falecendo. Um triste pesar ao trabalho. 

Quando pensamos em pares opostos, a filosofia grega apresenta um clássico: apolíneo e dionisíaco, uma dicotomia – espécie de problematização –, que trata dos filhos de Zeus, o pai dos deuses. Temos uma equação que coloca em oposição o racional e o emocional. A Bath Full Of Ecstasy trata de batidas eletrônicas racionais e, até certo ponto, matemáticas em coexistência com sentimentos e divagações  – caóticas e instintivas. 

“Hungry Child” mescla house e eletro pop dançante e melódica. Uma canção para entoar baladas de verão e festas, soando como um possível sucesso  do verão no hemisfério norte. Definitivamente o ponto alto do disco.

“No God”, última faixa, é um pouco mais niilista que as anteriores, ainda em um viés retrô fala sobre dançar em círculos. Seria o eterno retorno ou a rejeição a importância de qualquer outra coisa? A faixa brinca com o questionamento: o que é, de fato, existir? Despretensioso e, ao primeiro olhar, um pouco estranho. Este é o novo álbum do Hot Chip. 

OUÇA: “Melody Of Love”, “Echo” “Hungry Child” e “No God”

Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.

Jonas Brothers – Happiness Begins



Nos anos 2000, três irmãos formaram uma banda que ficaria em atividade de 2005 até 2013.  Composto por Kevin, Joe e Nick Jonas, os Jonas Brothers lançaram, em oito anos, quatro álbuns, participaram de filmes da Disney e tiveram a própria série. Em outubro de 2013 o grupo confirmou o encerramento de suas atividades para a tristeza de fãs que acompanhavam os JoBros. 

Dez anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Happiness Begins surge em um cenário frutífero. Há uma nova safra de boy bands provindas do oriente, reuniões de bandas nacionais e internacionais, remakes e uma busca incansável por ressignificar o passado e – tentar – reviver os dias gloriosos. 

 “Sucker”, primeiro single lançado em 1° de março de 2019, por meio da Republic Records, conquistou o seu primeiro lugar nas paradas americanas. Filmado em Hatfield House, palácio localizado em Hertfordshire na Inglaterra, o clipe é megalomaníaco e digno da monarquia, há também a participação de Danielle Jonas, Priyanka Chopra Jonas e Sophie Turner, esposas dos Jonas. 

O novo álbum dos Jonas Brothers possui o maior número de compositores e produtores nele. Há um claro desejo de retornar para o estrelato. Em 2019 guitarras soam um pouco old fashioned, e tudo bem, afinal no novo álbum elas passam despercebidas. É hora da bateria e dos sintetizadores. 

 “Don’t Throw It Away” bebe da mesma fonte de “Sucker”. Atmosfera da costa do Pacífico, praias e um bronzeado saudável. A faixa é brilhante, não só em genialidade, mas em um aspecto visual sinestésico. Uma combinação com ar de veludo molhado. “Cool”, segundo single, brinca com humor e um tom mais acústico. É cativante e brincalhão, estimulando o público a rir da letra e do clipe em si. 

Happiness Begins refere-se à volta dos JoBros, ela não é icônica ou impecável. Mas, neste álbum, a banda mostra uma faceta que deve ser vista e ouvida: homens que até hoje colhem os frutos de uma carreira iniciada precocemente e, desta vez, mais respeitada que em seu início. Não é mais um sonho adolescente, mas uma banda que deve ser ouvida.  Um grupo que entende de música, mídia e personalidade. Estão colhendo o seu melhor momento: o presente.

OUÇA: “Sucker”, “Don’t Throw It Away”, “Happy When I’m Sad” e “Rollercoaster”.

Madonna – Madame X



O que faz um álbum ser bom? A artista por si só basta? São os hits? Os charts? Tem que ter uma farofa? São os produtores, os feats, a presença ou não de um conceito? Boas letras? Acho que isso é muito individual. Tudo isso pode ou não ser importante, mas o principal é o que ele desperta dentro de você.

Julgar o trabalho de um artista é completamente subjetivo. É claro que temos pessoas preparadas para fazer isso, mas quanta coisa ruim, ruim mesmo faz um sucesso danado? Esse texto ficaria gigantesco se eu citasse alguns e tenho certeza que seria super criticada por ter mencionado certas bandas. Arte é isso. Cada um tem uma percepção.

A Madonna sempre foi e sempre será uma pessoa polêmica. Nem sempre por ter um trabalho interessante, mas é inegável que ela é uma das cantoras mais fascinantes do mundo. Quando ela anunciou Madame X eu fiquei muito ansiosa, até ela lançar “Medellín”. Aí, Madonna… Jura?

Então vieram os feats com o Swae Lee e o Quavo. Minha Nossa Senhora… “Crave” até tem um refrão que gruda na cabeça, mas “Future” é um horror. Madonna, você não precisa lançar uma música WOKE pra fazer sucesso. Puta que pariu, Madonna. Me ajuda.

Baseado nos singles, esperava uma bomba. Até que ela lançou “Dark Ballet”. Eu sou grande defensora de que uma música não deve se apoiar em um clipe, mas esse não é o caso. A música e o clipe são complementares, mas uma vez que visto o clipe é difícil dissociar o som da imagem. Alí estava a cantora que os fãs tanto amam. E desse momento em diante, a Madonna brilhou. 

Fazia muito, mas muito tempo que eu não ouvia um álbum dela e sentia os arrepios que senti. Acho que a última vez que isso aconteceu foi com o Confessions On A Dance Floor. Mas Madame X me pegou. Foram tantas boas surpresas que quase me esqueci dos singles que ela lançou antes do álbum sair oficialmente. A cereja no bolo foi ouvir a rainha do pop cantando um funk (!) em português (!!). Eu sei que é um cover, mas quem liga? Ficou maravilhoso. 

Madame X não precisava de dois feats com o Maluma. Não precisava de faixas WOKE. Não precisava de uma porção de outras coisas. Mesmo assim é um trabalho surpreendente, repleto de bons momentos e misturas sonoras marcantes. Vemos aqui uma Madonna revigorada, fresca e pronta pra outra. Pode ser que você acredite, como muitos, que ela precisa se aposentar. Pra mim, a arte que ela apresenta para o mundo é um presente. Que disco, meus amigos. Que disco.

OUÇA: Tudo. É a Madonna, gente. Tem que ouvir pelo menos uma vez.

Two Door Cinema Club – False Alarm



False Alarm é o quarto disco dos queridos Two Door Cinema Club. Quem ouviu apenas o debut, quase dez anos atrás, e se deparou com alguma faixa deste novo trabalho em algum serviço de streaming deve estar se perguntando: afinal, o que houve com o Two Door Cinema Club? A verdade é que False Alarm traz uma nova banda. As guitarras espertas ficaram de lado e agora sobram teclados, sintetizadores, bases eletrônicas e até participações de rappers. Para os saudosistas, talvez essa mudança não agrade tanto, mas não dá para negar que essa mudança caiu muito bem.

A mudança apontada no disco anterior, Gameshow, é bastante aprofundada aqui. Gameshow soou como o trabalho de uma banda perdida, à procura de identidade, mesclando a sonoridade já conhecida com experimentações pouco inspiradas. Já False Alarm se mostra bem mais coeso que seu predecessor e está com os dois pés firmemente fincados na música eletrônica. Há um forte senso de álbum e não mais uma coleção de singles desconexos. Canções que isoladas poderiam soar mais fracas passam a fazer todo sentido quando ouvidas no contexto do disco.

Bandas com origem no indie com guitarras bastante presentes não costumam criar obras sólidas quando entram de cabeça na música eletrônica, vide o desastre que foi Stay Together, o último disco do Kaiser Chiefs. Mas o Two Door Cinema Club soube explorar essa sonoridade muito bem. Para os padrões da banda, pode-se até dizer que False Alarm é um disco experimental. No entanto, tudo é filtrado pela forma com que eles sempre criaram música, tornando as faixas bastante acessíveis. E isso é um grande elogio para quem tem a clara intenção de criar música pop.

Dessa vez, a influência oitentista vem bem forte, mais especificamente do Devo, um dos criativos e talentosos patinhos feios daquela década. E aqui é possível citar diversos paralelos entre as bandas: indo do peso dos teclados e sintetizadores, dos efeitos nos vocais, da estrutura das canções até à ironia das letras e à marcada identidade visual. O Two Door Cinema Club nunca se esforçou tanto para criar uma marca visual como faz em False Alarm. A capa do disco, os pôsteres da turnê, os lyric vídeos, os videoclipes oficiais, as apresentações ao vivo… De forma louvável, tudo isso divide a mesma estética, reforçando ainda mais a coesão do disco.

“Satellite”, segundo single e penúltima faixa do disco, resume bem a essência de False Alarm. A faixa contém os elementos que caracterizam essa segunda fase do Two Door Cinema Club. Os efeitos na voz estão lá. Os sintetizadores a la Devo também. As guitarras ainda existem, mas estão em segundo, terceiro ou quarto plano. O que se mantém intacto é o talento em criar músicas para as pessoas dançarem, seja lá com qual instrumento for.

É fato que todo aquele indie pop perfeito com guitarras espertas dos dois primeiros discos ficou para trás. No entanto, essas palavras são escritas sem nenhum pesar. False Alarm é um disco muito bem resolvido. A obra é coesa e conta ainda com singles capazes de integrar os setlists sem fazer feio quando comparados aos clássicos indies da discografia da banda. False Alarm é a prova de que o Two Door Cinema Club está em constante mutação. E essa mutação lhes caiu muito bem, uma vez que está mantida a qualidade das canções que os rapazes entregam.

OUÇA: “Once”, “Satellite”, “Talk”, “Dirty Air” e “Break”

Dona Onete – Rebujo



Dona Onete lança o seu terceiro álbum de estúdio e torna ainda mais difícil para o seu público a tarefa de escolher um favorito. Desde os seus sessenta e poucos anos, a quase octogenária artista não trai as raízes que nutrem o seu estilo e através dos ritmos paraenses segue fazendo sua festa e contando suas histórias, mas nunca com o peso de soar repetitiva. Escutar as 11 faixas de Rebujo é prestar audiência a uma sabedoria popular que é, ao mesmo tempo, secular e cotidiana disposta em timbres orgânicos e modernos.

Em seu último lançamento, a artista apresenta uma variedade rítmica ainda mais abundante. Elementos do brega paraense, da batucada de terreiro, da cumbia latina, da guitarrada, do bolero, do swing, entre outros, engrossam o caldo da mistura carimbolesca que a artista faz. “Festa De Tubarão” é o single deste disco. Tem a cara do carnaval de rua. Marchinha animada e ornamentada com flores de jambu e cheiro de tucupi, é fácil de cantar e tem sua cota de duplos sentidos. Assim como os hits “Jamburana” e “Banzeiro”, essa faixa é forte candidata a fazer o gosto popular. No entanto, outras músicas também fazem sua campanha à conquista de ouvintes, é o caso de “Mistura Pai D’égua”, “Fogo Na Aldeia” e “Balanço Do Açaí”.

Nesta última, a guitarra confere à faixa uma densidade rockeira que não se faz ruidosa, mas aumenta a tensão do contexto das inconveniências da colheita do açaí. Ainda na primeira faixa, “Mexe, Mexe”, é possível identificar elementos rítmicos do funk que reforçam o atestado de saliência da Rainha do Chamego. Já em “Musa Da Babilônia”, com a participação de BNegão, o ritmo popular paraense conversa com o samba carioca para exaltar a beleza não de uma garota de Ipanema, mas de uma sereia do Leme, “negra, negra, negra, negra”.

Em “Mexe, Mexe” e “Vem Chamegar”, enquanto convida à dança, Dona Onete faz mistério quanto a essa substância que se produziu em solos amazônicos a partir da miscelânea histórica, isso que é “coisa de branco/de índio e de negro”. Esta temática se faz presente, seja como figura ou fundo, ao longo de todo o álbum. Além disso, ela que é a rainha do assunto, ainda encontra espaço para dar provas do seu chamego, disso que resulta da riqueza cultural e folclórica que banha a artista e o Pará, e que se estende por onde passam os rios dessa terra.

Se por um lado a presença de significantes como “cacuri”, “juriti”, “iraúna”, “suí”, “tucandeira”, “tracuá”, representa uma referência identificatória para os nortistas, por outro, instiga aqueles que não estão familiarizados com o termo. A experiência de ter o toque da palavra desconhecida nos ouvidos se traduz em outra força atrativa ao disco. A novidade é sempre excitante e levanta questões: “que diabo é ‘rebujo’?”.

Rebujo é o movimento que faz subir aquilo que se assentou no fundo das águas, voltando à superfície. Pode-se dizer que é nisso que reside a sua popularidade e o sucesso do trabalho da artista. Ao exaltar as delícias rítmicas concebidas no Norte, ao cantar a cultura popular e cotidiana dos paraenses, ao construir cenários de bregas românticos, sempre usando o abastado dialeto dessas terras, Dona Onete está no front dos artistas que se dispõem ao resgate da musicalidade folclórica e regional e conta com uma gama de músicos talentosos para construir seus arranjos, incrementando estilos e ritmos que conferem robustez sonora. No entanto, isso também pode ser interpretado, do ponto de vista criativo, como uma repetição da forma; interessante enquanto novidade, mas extenuante em sua continuidade prolongada.

Assim, embora o disco seja recheado de boas e marcantes faixas, há também aquelas que passam, e só. Convido o leitor a escutar o disco e identificar por si quais são. Mesmo que possa haver divergências críticas quanto ao valor da obra de Dona Onete, dificilmente ocorrerá um debate a respeito disso em meio à folia das ruas, mais fácil seria se jogar na bagaceira. Enfim, fato é que, mais uma vez, esta senhora faceira nos mostra sua habilidade em condensar suas referências musicais com as profundezas de sua origem, construindo uma identidade artística sincera na medida em que é tradução da identidade de Ionete Gama, a professora aposentada. Ela é o que ela canta.

OUÇA: “Festa Do Tubarão”, “Balanço Do Açaí”, “Ação E Reação”

Titus Andronicus – An Obelisk



O grupo de New Jersey com nome shakespeariano retornou ao estúdio em pouco mais de um ano após o lançamento de seu último trabalho. A mesma formação do inconsistente A Productive Cough (2018) deu vida agora a An Obelisk, com produção de Bob Mould, ex-Hüsker Dü. O resultado é o álbum mais curto da banda até o momento, com pouco mais de 38 minutos de pedrada. Só que uma pedrada polida.

Isso porque Obelisk é também facilmente um dos discos mais diretos do Titus. Não que fosse problema em si, dada a versatilidade do conjunto, que já foi do cru Local Business (2012) à ópera-rock de 92 minutos em The Most Lamentable Tragedy (2015). A diferença é que tudo aqui está suficientemente mais enxuto que todos os trabalhos anteriores. Orientado numa direção do Punk e do Power Pop, este é o único álbum da banda em que nenhuma faixa ultrapassa a marca dos seis minutos. 

Isso é positivo? Depende. Quase não há excessos; porém, dá para argumentar que boa parte do caráter criativo do grupo estava nas faixas mais longas e suas várias seções. Elas sumiram. Os arranjos da banda já incluíram sequências de piano e metais, em um caminho próximo ao folk e ao heartland rock. Agora, foram totalmente reduzidos a um formato mais tradicional vocal-guitarra-baixo-bateria. Tudo isso dá uma concisão única, mas não originalidade: o disco acaba sendo um contínuo “eu já ouvi isso antes, e não foi com o Titus”. 

Apesar disso, a execução é competente e as faixas empolgam do início ao fim. Particularmente, as linhas de guitarras estão bem mixadas e construídas, com o destaque para o final de “Hey Ma” e a pegada blueseira de “My Body And Me”. Refrões palavra-de-ordem marcantes também aparecem em faixas como “(I Blame) Society” “Troubleman Unlimited” e “Tumult Around The World” — um excelente encerramento, diga-se. O líder Patrick Stickles vocifera sobre os habituais aspectos psicológicos e políticos já abordados pelo grupo, em letras que variam da tosqueira punk até questionamentos mais elaborados, como em “Within The Gravitron”. 

An Obelisk não é incrível, nem um poço de criatividade, sequer uma volta à forma dos trabalhos que colocaram a banda nos holofotes há mais ou menos dez anos. É, melhor dizendo, um exercício bem direcionado de coesão sonora. Dentro de estilos consolidados há pelo menos três décadas, o Titus tentou dosar os limites criativos e a competência dos músicos. Parece ter funcionado.

OUÇA: “Hey Ma”, “Within The Gravitron”, “Tumult Around The World”