blink-182 – NINE



O blink-182 está de volta! Absurdo dizer isso quase no fim de 2019? Nem um pouco. O nono álbum da banda, intitulado ironicamente de NINE, traz o blink na sua  melhor forma: rebelde, apaixonado e barulhento. O trio californiano trouxe de volta os elementos que ajudaram a construir seu legado pop punk, só que agora com uma pitada generosa de maturidade na produção musical e com muitas experiências de vida.

Finalmente Mark Hoppus, Matt Skiba e Travis Barker soam como uma banda. Desde o fim da formação clássica do grupo, com a saída de Tom DeLonge em 2015, o blink andava completamente desnorteado. O último álbum com DeLonge, Neighborhoods (2011), foi recebido com desconfiança e já mostrava o desacordo musical entre os membros. O primeiro trabalho com Skiba assumindo os vocais e as guitarras, California (2015), parece uma tentativa atrapalhada de mostrar que o grupo ainda estava vivo. 

O que faltava mesmo era o Blink-182 tocar como Blink-182 novamente, e é aí que NINE acerta em cheio. Este novo disco carrega muito do espírito da tríade gloriosa Enema Of The State (1999), Take Off Your Pants And Jacket (2001) e blink-182 (2003) que deu uma legado ao grupo, mas ainda sim traz muita originalidade. Apesar das desavenças, o período nublado de 2011 até 2015 foi fundamental para o amadurecimento pessoal e musical do trio e isso é bem refletido no novo álbum. A primeira faixa, “The First Time”, traz o pop efervescente singular do blink e até se assemelha com o antigo hit “Feeling This”, de 2003. 

“Happy Days”, um dos singles do álbum, traz (desde muito tempo) Mark Hoppus em fúria e confuso, lutando contra os fantasmas que o impedem de crescer – um dos temas recorrentes no álbum Take Off Your Pants And Jacket. A parte romântica de NINE fica por conta da sequência “I Really Wish I Hated You”, “Pin The Grenade” e “No Heart To Speak Of”. As três faixas carregam muita melancolia que só um bom amor adolescente tem e que o grupo já cantou sobre diversas vezes. E se tratando de blink dos velhos tempos claro que tinha que ter espaço para uma dose de humor escatológico: “On Some Emo Shit” é totalmente irônica desde o nome até sua letra obscura. 

A última faixa, “Remember To Forget Me”,  mostra que os rapazes ainda são garotos vulneráveis, gritando desesperadamente acompanhando a evolução de um acústico até a chegada de guitarras e a bateria incomparável de Travis. Aqui se encerra a síntese desse novo blink que carrega seu passado sem ser um fardo. NINE é mais um trabalho que mostra que desespero, solidão e saudade acompanham sempre uma pontinha de esperança. Melancólico demais? Nunca para os emos que cresceram com o blink-182, mas agora precisam lidar com a vida adulta. 

NINE é um álbum saudoso, mas que não se prende somente à nostalgia. Não é um emo sombrio o suficiente, mas carrega tanta emoção que fica difícil de escutar sem sentir uma angústia. O blink-182 amadureceu e nós, sem perceber, amadurecemos juntos. Talvez o álbum soe tão bem justamente por nos levar à uma viagem no tempo sem perder a noção de que não podemos ir tão longe. NINE consolida a mensagem que o blink há tempos tentava pregar: crescer é uma droga, mas infelizmente é necessário. 

OUÇA: “Happy Days”, “I Really Wish I Hated You”, “Pin The Grenade” e “On Some Emo Shit”

Devendra Banhart — Ma



Em Ma, seu mais recente álbum, o cantor Devendra Banhart mais uma vez revisita suas influências do folk e da música latina para criar um trabalho romântico e doce. Ao longo de treze canções, o texano tece um trabalho harmonioso e singelo, com referências espalhadas pelo mapa que resultam em um produto-final interessante, por mais que não consiga sempre escapar da repetição e de uma sonoridade que pode soar muito água-com-açúcar.

Ma é mais um exemplo do talento de Banhart como escritor e performer. Suas composições pulam do inglês para o espanhol, japonês e português com graça — às vezes, na mesma canção —, e esse encontro cultural é bem representado nos arranjos, que mesclam gravações lo-fi com um som tropical. Isso dá ao disco um ar casual e agradável, como algo que poderia ser a trilha-sonora de um luau ou de uma road-trip pela América do Sul.

A referência à música brasileira fica clara na deliciosa faixa “Carolina”, na qual Banhart até canta numa entonação semelhante à de Caetano Veloso. Há uma homenagem forte à MPB, que o cantor conhece muito bem, mas essa é filtrada através o prisma da música folk norte-americana, o que amarra o que ambos os gêneros têm em comum em uma sonoridade “de raíz” dotada de uma agradável familiaridade.

Além desse entendimento do que há de universal e semelhante em suas referências, Ma também é permeado pelo tom de romantismo que está presente em todas as canções do álbum. As composições relatam singelos casos e declarações de amor, um tema salientado pela forma doce que Banhart performa as canções. A figura materna e temas relacionados à infância também surgem em diversos momentos — como adiantado pelo título do álbum —, o que também explica o clima sonhador e tranquilo de Ma.

Essa escolha por uma atmosfera uniformemente nivelada pode fazer com que o disco soe repetitivo, com canções que podem ser intercambiáveis entre si, mas é algo que dá liga e coerência a Ma. Como um todo, trata-se de um álbum maduro e interessante, propondo misturas interculturais que são mais do que um adereço ou uma fantasia, mas um elemento essencial e integral para o DNA artístico de Devendra Banhart.

OUÇA: “Carolina”, “My Boyfriend’s In The Band” e “Kantori Ongaku”

Taylor Swift – Lover



As primeiras cenas do videoclipe de “ME!”, primeiro single da nova era de Taylor Swift, já indicavam que os tons e dramas de reputation haviam ficado para trás. A cobra transformou-se em borboletas, e as cenas que se seguiram eram lúdicas e pintadas em cores pastéis servindo de pano de fundo perfeito para a coreografia e euforia das interpretações de Taylor e Brandon Urie, seu parceiro na canção. E esse é realmente o tom que preenche quase todas as faixas de Lover: um disco leve, divertido, apaixonado, recheado de boas mensagens e que peca apenas pelo excesso de faixas.

Musicalmente, Lover não é um grande avanço em relação ao que Taylor já fez. Dessa vez, ela estreitou ainda mais a parceria com Jack Antonoff e a sonoridade fica entre 1989, reputation e Red. Não que isso seja algo ruim, mas para quem espera grandes transformações sonoras de um disco para outro, Lover pode ser uma decepção. Apesar do drama de algumas letras, vide “Miss Americana & The Heartbreak Prince” e “I Forgot That You Existed”, a grande mudança aqui é a presença de uma Taylor muito mais madura.

Lover aborda diversos assuntos com pauta presente em nossos dias. Há mensagens fortes sobre autoafirmação, feminismo, homofobia e cyber bullying. Taylor nunca havia se posicionado sobre essas questões tão incisivamente quanto ela faz aqui. Mas apesar dos assuntos com apelo social, Lover é, acima de tudo, um disco que celebra as várias formas de amor, inclusive amor próprio. A cantora não tem vergonha de se expor, de mostrar ao mundo que está apaixonada e a faixa “Lover” é o melhor exemplo.

Se em reputation, a poesia e a capacidade de contar histórias estavam reduzidas em relação a seus melhores trabalhos, estes fatores voltaram com toda força em Lover. Taylor sempre compôs descrevendo cenas, pessoas e lugares de uma forma bastante rica sem perder o mérito pop de suas composições. “It Is Nice To Have A Friend” e “Lover” são bons exemplos desta capacidade. Outra capacidade que a esta altura ninguém ousa questionar, é o talento de Taylor de construir grandes refrãos e, já na primeira audição, Lover deixa vários trechos em looping na sua cabeça, queira você ou não (alô, “Cruel Summer” e “The Man “, estou falando de vocês!).

O principal problema do disco é ser longo demais. No terço final de Lover é impossível evitar a sensação de já ter ouvido algo muito parecido em uma faixa anterior.  Com dezoito músicas, muitos temas e arranjos soam repetidos. Esse erro já havia ocorrido com reputation e mais uma vez faltou uma mão mais pesada para limar quatro ou cinco das canções que menos enriquecem o disco. Nem a estratégia de incluir os singles na reta final do álbum ajuda a finalizar a audição sem a sensação de déjà vu.

No fim das contas, a impressão que fica é que Lover poderia ser um excelente disco com doze faixas, mas acabou sendo um disco mediano e repetitivo com dezoito canções. Apesar dos pesares, quando estas canções acertam o alvo, acertam realmente em cheio. Taylor mais uma vez prova que tem a mão cheia para construir pérolas pop e para isso conta com um time que reforça suas forças. Fica apenas faltando cortar os excessos e lançar o grande disco que seu potencial promete. Em anos, Lover é o disco que passou mais perto disso.

OUÇA: “Lover”, “The Archer”, “Cruel Summer”, “You Need to Calm Down” e “Cornelia Street”

Teago Oliveira — Boa Sorte



Teago Oliveira ao longo de 10 anos de carreira da Maglore se mostrou ser um dos melhores compositores da atualidade e ajudou a construir o que hoje chamamos de “nova Bahia”. Em meio às comemorações da primeira década de banda, Teago conseguiu lançar seu primeiro álbum solo. Boa Sorte, lançado dia 17 de setembro pela Deck e pela Natura Musical, conta com 11 faixas repletas de saudade, de crítica e de Bahia.

É bem verdade que o movimento de álbuns solo de grandes compositores à frente de bandas de sucesso no meio pop-alternativo brasileiro pode ter gerado grandes expectativas do público para o trabalho do músico baiano, a exemplo temos Uma Temporada Fora de Mim (2015), do Hélio Flanders, e o super elogiado Recomeçar (2017), do Tim Bernardes. Com isso, a queda do muro da espera existe, mas não chega a doer tanto. Boa Sorte bebe da música brasileira dos anos 1970: divertida, tropical, caetaneosa, jorgebenjosa, e, ainda sim, melancólica, exilada. A impressão que dá é que Teago está exilado em seu próprio país — o compositor reside, há alguns anos, sob as muralhas de concreto de São Paulo —, e esse exílio não vem de uma ditadura militar, como foi o caso dos seu conterrâneos Gil e Caetano (mesmo que, em nossa atual conjuntura política, pareça ser), ou um exílio produtivo, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (2013), mas sim um exílio do ofício de ser músico, de se manter no eixo Rio-SP para ter melhores resultados e menor burocracia. A prova maior disso é a faixa “Longe da Bahia”, que, em sonoridade, lembra “Maracangalha” (1956), de Dorival Caymmi, em um passo lento.

Em “Azul, Amarelo”, faixa de Marceleza de Castilhos, Teago colore de Nordeste o CD: araçá maduro, verão, céu, mar. Inclusive, como nordestina, Boa Sorte é tão gostoso quanto assistir Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, numa sala de cinema. Os ouvidos cansados de vocabulários sudestinos podem respirar nas faixas “Superstição”, música meio à la Marcelo Camelo, e na já citada “Longe da Bahia”, nelas palavras como “chinelo” e “mainha” são um agrado particular. Outros pontos altos do disco são “Oh, Meu Bem”, delicada, dedilhada ao começo, melódica, percussiva e orquestrada, e o primeiro single a ser lançado pelo músico: “Corações em Fúria (Meu Querido Belchior)”. Ambas as canções soam como cartas, a primeira romântica, e a segunda crítica e saudosista. “Corações em Fúria” faz uma colcha de retalhos com algumas canções do compositor-professor cearense, entre elas os clássicos “Coração Selvagem”, “Como Nossos Pais” e “Sujeito de Sorte”. A sétima faixa do disco ainda conta com uma clara menção à “Se Tiver Que Ser na Bala, Vai”, do Vanguart.

O ponto alto do álbum é também o seu ponto baixo: Boa Sorte tem MUITAS referências. A certo passo, parece ter sido difícil filtrar o que entrava no CD ou não (que tem produção do próprio Teago e de Leonardo Marques). As alusões conversam bem entre si, porém fica um pouco difícil sintetizar o que é Teago Oliveira (fora da Maglore) devido ao vasto referencial teórico-artístico. 

No mais, fico muito feliz de ver o meu país Nordeste trazendo bons frutos em tempos tão sombrios. Que mais Erasmos e Gals sejam tocados e cantem suas músicas, assim como os demais brasileiros.

OUÇA: “Oh, Meu BemX”, “Longe Da Bahia”, “Superstição” e “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)”

Boogarins – Sombrou Dúvida



Aqui vemos um Boogarins mais palatável e menos dado a experimentações. Muitas das músicas do Sombrou Dúvida permitem entender o que o Dinho fala sem precisar de pesquisas nas letras na internet.

No entanto, ainda é um álbum que mantém a essência “bugarinha”. Ainda há o tom psicodélico e os reverbs para reforçar esse tom, ainda que menos extremados.

Um mesmo verso genial é repetido duas vezes no lançamento da banda goiana: “existe um desgaste no novo / se repete dá nojo/ e isso você não quer ver”. Eu acho que é essa mesmo a ideia, não adianta eles quererem fazer algo novo como Lá Vem A Morte toda vez.

Esse trecho está tanto na faixa-título “Sombra ou Dúvida” como em “Invenção”, as duas lançadas como single. “Invenção” inclusive faz uma homenagem à música “Princesa” dos também goianos Carne Doce.

A versão acabou ficando mais interessante que a original da Carne Doce, pois a roupagem psicodélica do Boogarins dá o toque de graça que faltava na música da Salma Jô e do Macloys. As duas bandas são próximas e já trabalharam juntos em outras faixas antes como “Benzim” e “Dos Namorados”.

“Dislexia Ou Transe” tem uma intro, repetida algumas vezes ao longo da música, que parece muito com a abertura de Globo Rural, porém a semelhança fica só nessa parte mesmo e o resto da música é puro Boogarins. É uma faixa com tudo para ser fixada na cabeça de quem curte esse estilo Tame Impala e a fase mais pop do Pink Floyd.

Outro destaque é “A Tradição”, com uma das letras mais bem construídas e reflexivas do álbum:

“A tradição

Como arma apontada

Mas não quer atirar

Jogue as ideias no ar”

“Sombrou Dúvida” difere muito do seu predecessor Lá Vem A Morte, onde as distorções sonoras eram tamanhas que o que o Dinho falava era totalmente incompreensível. Em “Onda Negra” e “Foi Mal” só dá para entender o que é cantado se a letra for lida antes, agora nas canções deste álbum de 2019, claramente dá para entender tudo.

Neste ano, o conjunto de Goiânia resolveu delimitar uma zona de conforto. Não fizeram mal pois entregaram um álbum de bastante qualidade. Não chega a representar a importância para a música alternativa brasileira que Lá Vem A Morte representa, mas a banda acertou em não querer inventar a roda duas vezes seguidas.

Apostar no garantido com certeza trouxe um resultado melhor do que tentar fazer um Lá Vem A Morte Parte 2.

OUÇA: “Invenção”, “Sombra Ou Dúvida”, “As Chances”, “Dislexia Ou Transe” e “A Tradição”

Chelsea Wolfe – Birth Of Violence



Ao contrário do que o nome faz parecer, o sexto álbum de estúdio da compositora estadunidense é, sonoramente, um dos menos violentos da sua carreira. Isso principalmente em contraste com os flertes metaleiros do anterior Hiss Spun (2017) e o som darkwave consolidado em Abyss (2015). Agora em Birth Of Violence, lançado no dia 13 de setembro, Wolfe segue por caminhos mais acústicos do folk e country para criar o panorama gótico comum a todo o seu trabalho. 

Uma escolha bem consciente, diga-se. Em produção conjunta com o habitual parceiro Ben Chisholm, Wolfe traz uma nova roupagem de som onde os elementos elétricos e de sintetizadores estão mais enterrados na mixagem. Cria-se uma paisagem sonora enevoada como a da capa (destaque aqui para “Little Grave”), prenunciando a tempestade que casualmente chega ao final do trabalho, na gravação de campo “The Storm”. Em cima de tudo isso, sobressai o vocal e o violão, presente em quase todo o disco. Apesar desse caráter acústico remeter a trabalhos do início da carreira (Chelsea inclusive já fez uma compilação só com canções desse tipo, em Unknown Rooms: A Collection Of Acoustic Songs), aqui tudo tem muito mais fidelidade e polidez na gravação.

Para o bem, e para o mal: esse é um disco com a performance vocal muito mais contida, em registro mais agudo e sem os elementos agressivos de clipagem do lo-fi, o que faz com que as canções percam um pouco o caráter catártico que sempre marcou a sua obra. Não que Wolfe tenha desaprendido como pesar em sua interpretação: “Erde” e “Dirt Universe” são bons momentos para quem espera esse aspecto do trabalho. Os momentos de crescendo dentro do disco também fortalecem algumas canções, como na abertura “The Mother Road”.

Mas num geral, o clima é menos oscilante, que oscila entre bons momentos e outros infelizmente mais esquecíveis, caso do single “Deranged For Rock & Roll”. Na lírica, os temas como identidade feminina (“The Mother Road”, “Erde”) e desolação (“American Darkness”, “Highway”) transparecem em todo o disco e ajudam a fortalecer a coesão temática dentro da obra que se não soa exatamente como a Chelsea Wolfe de sempre, também está longe de ser um atira-pra-todo-lado.

Birth Of Violence é um disco menor de Chelsea Wolfe em um território que apesar de não ser totalmente novo, facilmente se diferencia da sequência dos últimos trabalhos da artista por uma maior sobriedade. Nesse sentido, a execução é competente, mas as composições menos inspiradas e a estética muito mais contida faz o álbum ficar pouco marcante na comparação.

OUÇA: “The Mother Road”, “Erde”, “Dirt Universe”

Charli XCX – Charli



Charlotte Aitchison, ou Charli XCX, é uma força no mundo pop atual, mesmo que em grande parte seja por trás dos holofotes. A moça escreveu músicas como “I Love It”, para a dupla Icona Pop, assim como “Tonight” para o Blondie e “Señorita”, do Shawn Mendes com a Camila Cabello. Em paralelo a isso, a moça tem seu próprio material e inúmeras participações com outros artistas.

Seu novo trabalho solo, simplesmente chamado Charli, é tecnicamente seu terceiro álbum de estúdio e o que veio seguindo Sucker de 2014. Nesse meio tempo essa moça fez de tudo menos ficar parada. Entre Sucker e Charli, a moça lançou o EP Vroom Vroom e duas mixtapes, Number 1 Angel e a maravilhosa e subvalorizada Pop 2.

Pop 2 é a obra prima das mixtapes, um trabalho extremamente variado e com participações de nomes que vão desde Carly Rae Jepsen e CupcakKe até Tove Lo, Pabllo Vittar, Kim Petras e Caroline Polachek. Desde Vroom Vroom, Charli tem apostado em produções inusitadas, que vão mais pro lado estranho do pop e pc music. Completamente diferente do que havia apresentado nos seus primeiros discos, True Romance e Sucker.

E agora Charli segue a mesma linha de pop do futuro que ela havia nos apresentado em Pop 2, com um time estonteante de colaboradores: Lizzo, Sky Ferreira, Troye Sivan, Pabllo Vittar, HAIM, Christine and the Queens e até Clairo e Yaeji. O resultado é um trabalho bastante diverso, mas que tem a voz de Charli XCX – tanto literal quanto metaforicamente – no centro o tempo todo.

De uma certa forma, esse é seu primeiro álbum pop com produção real pop desde que o mundo começou a prestar atenção nela. E o resultado não é muito o que o mundo pop estava esperando. Mas, vindo da Charli XCX, não ser o pop que se estavam esperando já era o esperado (?). Tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo nesse álbum que a coisa mais fácil de ocorrer é você se perder ou se distrair enquanto o escuta. A faixa “Click”, com Kim Petras e Tommy Cash, é talvez o maior exemplo disso. Sua produção muda de direção tantas vezes em seus quatro minutos que quando acaba parece que um trem passou por cima de você.

Um momento quase desnecessário do álbum, e me dói muito escrever isso, fica com a participação da maravilhosa Lizzo em “Blame It On Your Love”. Trata-se de uma música que já apareceu antes em Pop 2, na época chamada apenas de “Track 10”, que foi regravada, reescrita e resultou em uma versão bem menos interessante do que a original, cujo verso da Lizzo é quase desperdiçado por que não faz muito sentido e não casa com o resto.

Charli peca pelo excesso. Tudo aqui é demais, e nem sempre isso serve pra elevar as músicas. É um álbum com 15 faixas no total e muitas delas estão longe de ser o melhor que a Charli é capaz de fazer. Há momentos em que ela e seus colaboradores brilham e chega quase a ser mágico, como “Gone” (com Christine and the Queens), “Cross You Out” (com Sky Ferreira) e “Shake It” (com Big Freedia, Brooke Candy, Pabllo Vittar e CupcakKe). Mas no geral, o álbum faz com que o ouvinte perca um pouco o interesse no meio das faixas.

Charli XCX já é um nome gigantesco no mundo pop, mesmo que não esteja nunca em níveis Beyoncé de reconhecimento. Mas tudo bem. Ela faz parte de uma geração de cantoras pop que se importam e muito com a música em si, assim como Carly Rae Jepsen e Robyn. Charli é um álbum desafiador, Charli tem do começo ao fim o ponto de vista da própria Charli. Nem sempre funciona, mas é inegável que ela sabe muito bem o que está fazendo e, principalmente, o porquê de fazer o que faz da forma que faz.

OUÇA: “Gone”, “Cross You Out”, “Next Level Charli”, “Shake It”, “February 2017”, “White Mercedes” e “1999”

The Lumineers – III



III é um álbum conceitual que explora como o alcoolismo e o vício em drogas impactou três gerações da ficcional família Sparks e toma como inspiração a experiência do baterista Jeremiah Fraites que perdeu o irmão, amigo de infância do vocalista Wesley Schultz, para o alcoolismo. O álbum se divide em três atos, cada um focado em um membro da família Sparks, e foi concebido junto a um curta metragem que ajuda a contar a história, mas as músicas são igualmente impactantes sem o auxílio do recurso visual.

“Gloria” é o ponto de partida para a história e é apresentada no  capítulo I. A linha de piano similar a uma caixa de música na abertura “Donna” ajuda a passar o tom de recordação que a faixa pede apresentando a mãe de Gloria Sparks e a falta de amor que a levou a abandonar a casa para uma vida na cidade. “Life In The City” conta a dificuldade de viver sozinha na cidade e o instrumental que oscila entre algo mais animado nos versos e mais introspectivo no refrão ajuda a passar a flutuação de sentimentos entre a liberdade e a saudade de casa e entre o barato do álcool e a ressaca que vem depois. O primeiro ato fecha com “Gloria” onde a matriarca é confrontada pelos seus filhos sobre seu vício e como isso os afetou. O contraste entre uma construção musical que lembra bastante o folk alegre dos primeiros trabalhos do Lumineers com a letra pesada passa bem a total alienação de Gloria que, completamente alcoolizada e perdida, não presta atenção ao conteúdo do que lhe é dito.

O segundo ato traz o neto de Gloria, Junior Sparks, para a cena e abre com “It Wasn’t Easy To Be Happy For You”, uma música sobre a primeira vez que um adolescente tem seu coração partido e é o único momento em que o conceito do álbum falha em função de uma música legal. É uma ótima música, muito amigável pra tocar em rádios e playlists mas não se conecta bem com o que vem antes ou depois tematicamente. Mais adiante no arco de Junior, vemos como ver a vó perdida em seu vício o afeta profundamente em “Leader Of The Landslide” que narra como ele enxerga Gloria como a causa da dificuldade de relacionamento que ele tem com as pessoas a sua volta e seu pai, Jimmy Sparks, que será apresentado no último arco. A música é construída de tal forma que as partes mais pra cima com a bateria e o violão soam como um pedido de ajuda do rapaz, como se ele estivesse reunindo as últimas forças para expressar sua raiva e a performance vocal de Schultz passa esse desespero perfeitamente. O arco fecha com “Left For The Denver” uma música voz e violão com acordes menores e uma batida descendente que dá o tom trágico de ser abandonado pela mãe que não aguenta conviver com os conflitos dos Sparks nesse ponto da história

Jimmy Sparks é o foco do capítulo III e conhecemos sua história logo depois de ser deixado pela esposa em “My Cell” que narra os conflitos de amar uma pessoa mas ser tão quebrado a ponto de não deixar que ela se aproxime. As linhas de piano e violão que se combinam com a voz expansiva e melancólica de Schultz trazem instrumentalmente esses sentimentos conflitantes de querer um lar de amor mas acabar condenado a se sentir em uma cela. “Jimmy Sparks” prepara o ouvinte para o final de uma forma épica com uma vibe de trilha sonora de faroeste que vai ficando cada vez mais tensa conforme vemos a vida de Jimmy indo mais e mais para o fundo do poço com seus problemas e vícios em drogas até o ponto de ser abandonado por seu filho Junior e ficar totalmente sem esperança. O arco e o álbum fecha com “Salt And The Sea” que narra como algumas coisas não tem solução e algumas pessoas não tem salvação. O tom soturno do instrumental combinado a uma certa calma na performance vocal passa a ideia de que todos os membros da família Sparks aceitaram conviver com a destruição e a escuridão que existe dentro deles, uma aceitação do inevitável para que possam continuar a viver.

Com III o grupo leva a característica narrativa de suas músicas a um nível mais sombrio e pessoal, explorando e amarrando os diferentes sentimentos que uma história pesada como essa envolve. É o álbum mais ambicioso e obscuro do grupo e vale a pena ser ouvido do início até o fim com bastante atenção aos detalhes que ajudam a contar essa história.

OUÇA: “Life In The City”, “Leader Of The Landslide”, “My Cell” e “Salt And The Sea”

Lower Dens — The Competition

Quatro anos após Escape From Evil (2015), Lower Dens ressurge com um novo álbum intitulado The Competition, e, dessa vez, o duo de Baltimore parece que conseguiu chegar a um resultado coeso e encorpado. Baseado em temas como capitalismo, relacionamentos, e sentimentos como a raiva, por exemplo, a dupla não-binária (ou trans, como afirmou Jana Hunter — sobre si — no Tumblr em 2015) chegou com um trabalho instrumentalmente mais pesado que seus antecessores.

Em “Young Republicans”, Jana canta: “In every generation / There are those who just don’t fit in” e é assim que The Competition soa: como uma aceitação completa daqueles que não se encaixam nos padrões cristalizados da sociedade. Seja pelas letras, ou pelo uso provocador de sintetizadores, ou até mesmo pela uma oitava abaixo na voz de Hunter (devido ao processo de hormonização). Sendo assim, faixa citada é um extrato do que é o novo trabalho. 

Dito isto, nos 44 minutos de duração do disco há espaço para canções como “Buster Keaton”, uma balada anos 1980, com sintetizadores estelares que fala sobre um romance que surgiu numa tentativa de costurar os lábios, e, claro, não deu muito certo (imagino que nem os lábios nem o relacionamento rs); faixas como “I Drive”, repleta do começo ao fim com super saws e dançante, mesmo que de temática triste; e “In Your House”, uma surpresa simples entre as outras faixas mais recheadas de efeitos sonoros.

Os pontos negativos ficam por conta da tentativa excessiva de se fazer algo no estilo. O som dos anos 1980 é, hoje em dia, inegavelmente um hype e um modelo a ser seguido por muitos. Com isso, The Competition pode se perder diante de tantos e tantos CDs do gênero. No entanto admiro Jana Hunter e Nate Nelson por mostrarem ao mundo exatamente como são e a continuarem exercendo a difícil, mas não impossível, tarefa que é ser no mundo.

OUÇA: “Galapagos”, “Young Republicans”, “Real Thing” e “In Your House”

MUNA – Saves The World


MUNA é Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson. Fazendo música juntas desde 2013, quando iniciaram o projeto, o jovem trio se conheceu na faculdade e, dali, passaram a trabalhar juntas sob a identidade que as tornou famosas.

Depois de um relativo sucesso com os primeiros materiais e um modesto alcance de seu trabalho antes de 2015, a música de Gavin, Maskin e McPherson foi impulsionada por um remix de “Winterbreak”, uma das canções do primeiro álbum do trio, feito pelo DJ Tiësto em 2016.

Após o lançamento primeiro álbum, About U, em 2017, MUNA abriu shows para o Grouplove nos Estados Unidos (e mais recentemente para Harry Styles, também), se apresentou no Lollapalooza em Chicago e teve músicas em trilhas sonoras de audiovisuais, além de aparições na TV americana. As particularidades da música entregue pela banda, composta por três mulheres abertamente lésbicas e celebrando o poder feminino, foram combustíveis que alimentaram a espera espera por mais material inédito.

Saves The World é, assim, uma obra completa. Vai de momentos que parecem clamores, com “Who”, a canções que parecem proposta de outro grupo, como “Number One Fan”, esta última contrastando com a melancolia do restante do álbum. O segundo disco do trio de indie pop foi entregue em 6 de novembro, cerca de dois anos após o debut, About U, ser liberado.

A fórmula — uma atmosfera oitentista, guitarras elétricas, batidas enérgicas e mensagens fortes nas composições — é repetida neste novo registro. MUNA traz junto de si, em Saves The World, questões sobre política, ansiedade e depressão e sobre a sexualidade. O disco serve como um apelo à audiência que, em uníssono com as artistas, vive tempos tempestuosos. A crítica é evidente.

O segundo disco poderia ter tardado mais a chegar — mas teria sido um desperdício de tempo. Seguindo na esteira do sucesso de About U a decisão mais consciente foi se entregar ao novo material do projeto logo os compromissos com a divulgação de disco anterior abrandassem. O que resultou em segundo álbum, com outras 12 músicas inéditas. Quatro das quais trabalhadas com singles antes do lançamento em setembro.

Talvez Saves The World não nos traga hinos como About U nos trouxe, o que é caso de “I Know A Place”, “Loudspeaker” e “So Special”, canções que podem ser tornar atemporais e marcas de uma geração que desperta para sonoridades diferentes na segunda década dos anos 2000. No entanto a mensagem proposta pelas três segue na mesma linha, tão boa quanto o disco anterior.

OUÇA: “Stayaway”, “Who” e “Number One Fan”