Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”

Heather Woods Broderick — Invitation



Heather Woods Broderick pode não ser muito conhecida por seu trabalho solo, mas deveria. A multi-instrumentista nascida no Maine já acompanhou muitos artistas, entre eles Lisa Hannigan, Horse Fathers e, sua amiga, Sharon Van Etten. No dia 19 de abril, Broderick lançou seu 3º álbum: Invitation, pela gravadora Western Vinyl.

O trabalho recente brinca com o folk e a música ambiente. Algo que já havia sido explorado no em Glide (2013). A música de abertura — “A Stilling Wind” —, ecoa como o prelúdio do mergulho profundo no universo de Heather. Inicia-se com teclas distorcidas, quase aquáticas, e então surgem camadas e camadas de som: violão de aço dedilhado em looping, a voz serena de Broderick, guitarras e pedais que a reverberam, bumbo marcante, surdo, violoncelo, baixo, violinos etc etc. Tudo cresce e se transforma numa belíssima harmonia.

Aliás, harmonia é que não falta em Invitation, o cd soa como um sonho. Em vezes celestial, outras vezes mais obscuro. A exemplo, temos a já citada “A Stilling Wind” e “A Daydream”, preenchidas de arpejos que nos dão aquele sentimento de maré, levando e trazendo o som e suas sensações. A impressão de mar inerente não é à toa, o álbum foi produzido na costa do Oregon — onde habita a cantora —, conhecido por fazer fronteira com o Oceano Pacífico, por suas pedras e montanhas. Cenário perfeito para a feitura do disco.

Voltando às faixas, “I Try” poderia ser uma música da sua fiel escudeira Sharon Van Etten, tanto do excelente Are We There (2014) ou do atual Remind Me Tomorrow (2019) devido ao combo grand piano + sintetizador + refrão simples e pegajoso. “Quicksand” mostra o quanto Heather é talentosa no seu instrumento de origem, é quase 1 minuto de solo de piano beirando ao etéreo, sustentado por uma orquestra. “Invitation” termina a obra com som de grilos ao fundo e com a narração de um suposto sonho, refletindo a necessidade de aceitação pelo acaso, pelo que se está por vir na vida: “A dream took me last night / into the deeps of the darker satellite / I accepted the invitation”.

O ponto negativo de Invitation pode até não ser tão negativo assim, se comparado lado a lado com a proposta de música ambiente do cd. A voz da cantora é muito delicada e pode soar como insegura às vezes, ou se perder diante da grandiosidade instrumental que ela propõe. Entretanto, não chega a ser insuportável e se encaixa bem no vazio e no eco que é ofertado pelo álbum.

Se você curte Sharon Van Etten, Angel Olsen, Volcano Choir, Julian Baker, você possivelmente irá curtir Heather Woods Broderick em Invitation e nos seus demais álbuns.

OUÇA: “A Stilling Wind”, “A Daydream”, “Quicksand”, “Invitation”


Jade Bird – Jade Bird



Jade Bird é uma jovem e excelente cantora e compositora do interior da Inglaterra que se destacou já em seu EP de estreia, Something American de 2017. Apesar de inglesa, sua música sempre teve um forte acento norte-americano: algo entre folk, country e americana. No entanto, em seu autointitulado debut, ela adiciona elementos do rock alternativo noventista, com referências dos melhores vocais femininos da época, tornando Jade Bird ainda mais interessante em relação ao que ela já havia apresentado.

Dessa leva de novas e fantásticas cantoras e compositoras (Phoebe Bridgers, Soccer Mommy, Snail Mail, Molly Rankin e por aí vai), talvez Jade Bird seja a dona da voz mais poderosa, mais forte, crua e direta. Jade Bird, o álbum, é recheado de faixas em que ela pode mostrar todo o alcance e energia vocal que possui. Canções como “I Get No Joy”, “Uh Huh” ou “Love Has All Been Done Before” estão em um nível bastante acima do que a média dos novos artistas tem entregado.

Boa comparação para quem ainda não conhece a música de Jade Bird é Alanis Morissette. Além da voz poderosa e do tom confessional de algumas canções, Jade adicionou forte dose do rock feminino dos anos 90 em sua estreia, tendo forte influência dos primeiros registros da canadense. Mais do que isso, o estilo de escrita de Alanis, com sua repetição de palavras e frases está bem representado em “Does Anybody Know” e “If I Die”, última e mais suave canção do disco.

É impressionante que, tão jovem, ela tenha composto todas as canções sozinha. Se faz palpável toda a segurança e confiança em cada nota, em cada acorde. É comum e até perdoável que ocorram pequenos deslizes em discos de estreia, mas não é o caso aqui. Salta aos ouvidos a importância que Jade dá à sua interpretação e ao sentimento que cada canção pede, característica essencial dos grandes intérpretes, e que deixa transparecer toda a verdade de cada palavra.

Jade despontou com canções enraizadas fortemente no country norte americano, mas ao adicionar pitadas de rock alternativo à sua música, ela construiu um forte debut. Nenhum segundo é desperdiçado e sobram faixas bem escritas, musicalmente bem construídas e com bom potencial radiofônico. Jade Bird está apenas começando sua carreira, mas com este disco ela provou que está no caminho certo e sabe muito bem a artista que quer ser.

OUÇA: “Lottery”, “Does Anybody Know”, “Uh Huh” e “Love Has All Been Done Before”

PS.: O foco do texto de hoje é Jade Bird, mas já que Phoebe Bridgers foi citada, não deixem de ouvir Better Oblivion Community Center, parceria dela com Conor Oberst e um dos melhores discos do ano.

Gang of Four – Happy Now



Os veteranos do Gang Of Four retornaram à cena com seu mais novo álbum, Happy Now, sucessor de What Happens Next (2015), lançado pelo selo alternativo do frontman Andy Gill. Happy Now, em contraste com seu antecessor, é um álbum eminentemente político por meio do qual o grupo inglês reflete sobre os principais acontecimentos da presente época: Brexit, Trump, pós-verdade e a persistente distribuição de renda ao redor do mundo.

Happy Now dificilmente representa um retorno à sonoridade pela qual o Gang of Four se tornou conhecido nos anos 80, uma sonoridade marcada pelos clássicos riffs funkeados de guitarra, linhas de baixo alucinantes e batidas pesadas e cruas de bateria, o que os tornou expoentes no que se convencionou chamar de pós-punk. Ao contrário, o álbum explora em quase toda sua extensão uma espécie de eletropop misturado com pitadas de rock industrial, recheado de sintetizadores, vozes sampleadas, drum machines e efeitos sonoros.

A sonoridade das faixas é vívida e animada, mas nem por isso deixam de ser sombrias, cruas e intensas; contudo, as faixas são interessantes, não repetitivas e envolventes.

A razão para isso reside no fato de que a formação atual grupo parece estar em maior sintonia do que no disco anterior (desde 2013, Andy Gill, o único remanescente da formação original, vem testando novas formações para o grupo) e Happy Now pode ser visto como um ponto importante para o “longo retorno” do grupo.

As letras das faixas tratam dos acontecimentos políticos da presente época. Em “Alpha Male”, o grupo critica o presidente estadunidense Donald Trump e os escândalos que acompanham seu governo (inclusive, um dos quadrantes da capa do contém o rosto do presidente) e até sampleia sua voz em alguns trechos; em “Ivanka: ‘My Names On It’”, a crítica se estende à esposa de Trump e ao resto da família do presidente, que são símbolos dos cúmplices e testemunhas coniventes de um governo marcado por escândalos, desmandos e violação de direitos. “I’m A Liar” e “White Lies” nos trazem reflexões sobre a natureza da verdade e como sua importância tem sido relativizada nos grandes territórios de embate político, notadamente as redes sociais.

Happy Now não é exatamente o expoente da arte de protesto de nossos tempos, mas representa um trabalho tematicamente interessante e sonoramente consistente de uma banda que sempre foi marcada por boas e ácidas críticas aos tempos em que esteve inserida. O mais novo trabalho da banda é louvável por não se silenciar diante de catástrofes políticas e sociais que ainda nos assolam e por nos mostrar que a música é um instrumento vital de resistência.

OUÇA: “Alpha Male”, “Change The Locks” e “White Lies”

Anderson .Paak – Ventura



Nostálgico, Anderson .Paak continua sua viagem pelos arredores de Los Angeles em seu quarto álbum de estúdio, Ventura. Com sua voz rasgada e boa energia, o disco traz um ar mais nostálgico que sua produção anterior, Oxnard, e vem mais como uma evolução de seu reconhecido segundo álbum, Malibu, de 2016. No entanto, dessa vez o música entrega ao público muito mais R&B, funk, soul e disco que seus trabalhos anteriores, em uma boa união entre os ritmos marcados dos anos 70 e 80, sem perder a atualidade. O hip hop ainda é presente, mas funciona mais como elemento no meio das canções do que como gênero em si.

O álbum, com suas 11 faixas, destaca-se principalmente pela instrumentação, com destaque às linhas de baixo e bateria, sem deixar de lado sintetizadores, riffs de guitarra e um beat bem marcado. A construção do álbum é consistente nas primeiras quatro faixas, com uma quebra considerável em “Good Heels” – um dos pontos fracos do álbum – e tenta retomar o ritmo com “King James”, um dos singles do disco, que no entanto não consegue manter a sequência alcançada nas primeiras faixas. Essa quebra de ritmo causada no meio do álbum afeta fortemente a consistência do álbum, que após a segunda metade torna-se mais um amontoado de músicas do que algo sólido e bem estruturado, como espera-se de um bom álbum.

As primeiras quatro faixas do disco trazem uma força muito positiva para os fãs de .Paak, com belas parcerias, como o rapper André 3000, lenda do Outkast, ou como o experiente Smokey Robinson, que faz de “Make It Better” uma das melhores canções do álbum. O groove presente nessas faixas, com destaque especial para “Winners Circle”, com uma bela instrumentação, fariam do álbum completo por si só.

A quebra do ritmo, como já dito, acontece em “Good Heels”: uma faixa de 1:38 com a parceria de Jazmine Sullivan, que abruptamente acaba como se estivesse faltando alguma coisa, como se fosse feita pela metade, em algo que poderia render mais. A canção é mais parada que as faixas anteriores, quase “morta”, dilacerando todo o groove já alcançado em uma tentativa de uma música mais soft, voltando à estaca zero. O desapontamento causado por essa quebra faz as músicas seguintes perderem todo o nexo, salvo “King James” e “Jet Black”, que facilmente poderiam vir logo na sequência das quatro primeiras faixas, com um groove e uma qualidade excepcional.

Outro detalhe do álbum – não necessariamente negativo – é uma aparente divisão em duas partes de algumas canções, com uma mudança do ritmo ou de estrutura da música, mas que – felizmente – não afeta a qualidade dela. Talvez o exemplo mais claro fique em “Reachin’ 2 Much”, que começa com uma linha de bateria forte, em um estilo mais funk, e “do nada” vira uma música disco, com violinos, um coral melódico e uma guitarra cheia de efeitos. Talvez na primeira vez que você ouça, soará estranho, mas ao mesmo tempo interessante. Outro exemplo mais sutil é na faixa de abertura, “Come Home”, que inicia-se com um ritmo mais soul e um certo sofrimento na voz de .Paak, e que ganha boa agilidade quando André 3000 entra e faz seu quase um minuto e meio de rap ininterrupto. Intrigante.

Talvez Ventura contenha algumas das melhores canções de .Paak, mas ainda é um álbum que peca em estrutura. Suas músicas mostram um avanço do artista em busca de um ar nostálgico, ao mesmo tempo que moderno, com muitas referência dos anos 70 e 80. O músico californiano aparentemente descobriu em Ventura um caminho confortável e de qualidade para sua produção musical, e muito provavelmente seus próximos álbuns continuem a evolução mostrada em seus últimos discos. Seu último álbum já é consideravelmente bom, e seus fãs têm motivos para esperar um futuro ainda melhor.

OUÇA: “Make It Better (feat. Smokey Robinson)”, “King James”, “Jet Black (feat. Brandy)”, “Winners Circle”

Bibio – Ribbons



Ribbons, novo disco de Bibio, é mais uma experiência prazerosa da doce melancolia que o músico britânico faz de melhor. Com uma ambientação introspectiva e fundamentada em violões e sons acústicos, o álbum deve agradar aos fãs de canções como “Jealous Of Roses” e “Haikuesque (When She Laughs)”.

O que diferiu Bibio em toda sua carreira de outros artistas similares sempre foi sua dedicação em fazer com que a atmosfera construída reflita um sentimento profundo e quase entorpecedor, seja em um formato mais acústico ou experimentando com elementos da música eletrônica. Aqui, Ribbons é um trabalho comovente, singelo, de pura e genuína emoção que dialoga intimamente com o ouvinte através de uma paisagem sonora sustentada por um formidável instrumental, já que as líricas e vocais aparecem muito pouco.

Um grande ponto forte de Ribbons é o quão fácil é ouvir o disco. Com canções tranquilas, o compilado provoca uma agradável sensação de conforto com instrumentos suaves e uma masterização levemente ruidosa e lo-fi, que confere ao álbum uma sonoridade quase caseira. O tom de melancolia atingido aqui não traz uma carga pesada, que dificulta uma experiência mais casual, mas é abordada com leveza.

Há uma coesão admirável na produção de Bibio. Todas as 16 faixas fluem perfeitamente entre si, fazendo com que os mais de 50 minutos de duração passem muito mais rápido do que o imaginado. Poucas canções de fato se destacam, mas o conjunto da obra é convidativo para que o ouvinte escute o álbum completo do início ao fim.

O ponto alto, no entanto, é “Curls”, o primeiro single. A faixa, uma balada folk movida pelo banjo com alguns flertes com o sintetizador, resume a estética intimista do álbum. A dedicação à delicadeza aparece até mesmo em canções mais animadas como “Old Graffiti”, que adapta a sonoridade do jazz e funk para a proposta de disco.

Ribbons é um álbum muito bem-elaborado, honesto em sua roupagem e imersivo. Além disso, é um trabalho incrivelmente sensível, com melodias sutis e agradável de se ouvir.

OUÇA: “Curls”, “Old Graffiti” e “Pretty Ribbons And Lovely Flowers”

MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”

The Chemical Brothers – No Geography



São três décadas desde a formação do duo britânico, e No Geography traz mais uma vez o icônico The Chemichal Brothers ao centro da relevância num mundo pós furor da EDM. Com um quê de euforia nostálgica, Tom Rowlands e Ed Simons apresentam um material contemporâneo chamando o público para se libertar na pista através da dança.

Em 10 faixas, o duo complementa o bom trabalho iniciado pelos três ótimos singles “MAH”, “Got To Keep On” e “We’ve Got To Try”, compartilhados semanas antes do lançamento.  Dentre as inéditas, a faixa título “No Geography” e “Gravity Drops” remontam uma atmosfera nostálgica e cheia de adrenalina e “Free Yourself” trazendo um adicional de energia e frenesí, “Free yourself, free me, free them, free us, dance!”.

Em sua última faixa “Catch Me I’m Flying” a dupla traz uma balada profunda e leve para abaixar a euforia de suas irmãs predecessoras, o duo conclui useu nono álbum de estúdio num ótimo disco para suceder ao Born In The Echoes, resistindo ao tempo e mostrando uma sede em renovar-se e agitar a pista de dança.

OUÇA: “No Geography”, “Gravity Drops”, “We’ve Got To Try” e “Free Yourself”.

Teen Daze — Bioluminescence



Bioluminescência é a produção de luz por organismos vivos. Peixes, bactérias e vagalumes possuem essa característica, no entanto seria o homem capaz de realizar tal acontecimento? Talvez seja isso que Teen Daze estivesse propondo quando compôs Bioluminescence, seu novo álbum de inéditas.

Que Jamison Isaak tem a natureza como tema principal (nos últimos anos) nós já sabemos. O músico canadense vem explorando o meio em que vivemos em suas faixas desde Glacier (2013) — que para mim, Bárbarah, foi a descoberta deste artista e do gosto pela música eletrônica. Na época eu estava em crise de insônia e ansiedade e o universo chillout de Teen Daze me ajudava a relaxar e a dormir. Mas deixando de falar de mim, Bioluminescence é estritamente instrumental. Diferente do que aconteceu em trabalhos anteriores, em que houve empréstimo de vozes de alguns artistas — como em Themes For A Dying Earth (2017) e em A Silent Planet (2018).

O novo cd começa forte com “Near” e suas sobreposições de strings. E de repente você se imagina assistindo um cardume de peixes passeando magnificamente em um programa como Blue Planet (BBC). Após a efervescência sonora, a faixa vai desaparecendo com o barulho de espuma do mar que dá lugar a solar “Spring”, faixa um pouco mais orgânica devido ao uso de guitarra e — imagino — de uma bateria acústica. Em seguida vem a suingada “Hidden Worlds” e “Ocean Floor” (filha do house), falo já já dela. “Longing” inicia a segunda parte da obra e retorna a vibe da faixa de abertura: acordes em looping, snares tensionados e uma sensibilidade quase etérea. O mesmo acontece com as celestiais “An Ocean on the Moon” e “Drifts”. Por fim, temos “Endless Light” delicada, gotejante e esperançosa.

É admirável o trabalho de Isaak em Bioluminescence, mesmo que esta nova fase esteja mais voltada para o house. Porém é no house que o cd dá uma enjoada. Enquanto na parcela calma as repetições funcionam como mantras, a parcela mais animada soa reincidente demais. A exemplo disso temos a faixa “Ocean Floor” (eu disse que ia falar dela!). Com 7 min e 47 seg, a canção parece exageradamente grande, aos 3 min já dá uma vontadezinha de pular para a próxima.

Em termos de conceito, o trabalho se faz muito coeso. Em diversas faixas podemos perceber centelhas luminosas provenientes da natureza, seja no ambiente terrestre ou no aquático. Isso se reproduz também na capa do disco: a mesma imagem justaposta de um lago e sua vegetação característica. O que poderia ser, muito bem, os habitats naturais desses ecossistemas bioluminescentes.

Teen Daze pra mim é a exemplificação de que música feita no computador com um monte de plug-ins pode ser tão sensível quanto uma orquestra, basta se deixar ouvir. Sendo assim, voltamos à questão inicial do texto: seria o ser humano capaz de produzir luz por si próprio? Devo dizer-lhe que, metaforicamente falando, a música (por mais brega que essa afirmação seja!) é luz, e Jamison Isaak parece estar no caminho certo: produzindo um material de qualidade e sintetizando toda a vida que nos rodeia.

OUÇA: “Near”, “An Ocean On The Moon” e “Drifts”

Band of Skulls – Love Is All You Love



Sabe aquelas paixões da pré-adolescência que te emocionam de cara com intensidade e aos poucos vai se tornando um tanto quanto chata e monótona? Ou aqueles filmes que começam com um enredo que te cativam mas chega um momento quando parece que não faz sentido ele ter continuado? Ou aqueles jogos de futebol que parecem que vão ser pegados, com os dois times buscando a vitória, mas que no segundo tempo parece que desistiram e ambos se contentam com o empate? Love Is All You Love é mais ou menos assim. Um álbum que contagia, mas chega um determinado momento que se começa a passar as músicas porque não cativa mais.

    Podemos dividir o álbum em duas metades.

A primeira causando uma ótima impressão, trazendo toda a pegada característica da banda inglesa desde seu debut Baby Darling Doll Face Honey (20019). Abrem com Carnivorous. Impressiona e nos faz pensar que estão retomando o peso, que deixaram um pouco de lado em By Default (2016), e que Love Is All You Love é pra ser um álbum de bater cabelo. O grave e a percussão se sobresaindo com um padrões pegajosos e imprevisíveis, as repetições líricas causam um estranhamento e despertam curiosidade do que está por vir, bem como a guitarra estridente ao fundo fechando a composição.

Quando lançaram o single “Cool Your Battles” a previsão era de um álbum 100% mais ou menos, mas logo que ouvimos a primeira faixa, causa grande expectativa para o que está por vir. E não deixam a peteca cair até a metade do álbum.

A pegada se mantém e não decepciona até se perceber que os sintetizadores começam a tomar conta, quando o produtor Richard X soa mais alto que a própria banda. Vira um projeto que é repleto de músicas um-pouco-mais-do-mesmo. Essa é a segunda metade. Um “cool-down”. Uma inversão de valores. Não que a banda não pudesse experimentar, ou usar de outras musicalidades para apresentar sua identidade. Jamais diria isso. Quando participam da música “Remains Of Nothing”, da Archive, conseguem se inserir de um jeito que não se esperaria da Band of Skulls, e contribuem positivamente.

O que decepciona é essa coisa de falar e dizer nada. Fica monótono. Fica naquele 0x0 chocho. A banda inglesa produz com Love Is All You Love uma certa excitação, mas que cai ao longo do disco. Em entrevista sobre o lançamento do álbum, dizem que estão constantemente buscando se renovar e justificam suas escolhas pelos sintetizadores.

Com altos e baixos, é como um livro que não dá vontade de terminar de ler, mas se espera por um acontecimento brusco – que não acontece. A sensação que fica é de “é isso?”.

OUÇA: “Carnivorous”, “That’s My Trouble” e “Not The Kind Of Nothing I Know”