Telekinesis — Effluxion


“Back-to-basics”. É assim que Michael Benjamin Lerner descreve o novo trabalho com o Telekinesis. Effluxion, seu 5º álbum, saiu pela Merge Records no dia 22 de fevereiro. O cd tem 10 faixas e passeia um pouco mais pelo indie rock e rock propriamente dito do que seu antecessor Ad Infinitum (2015).

Para compreender um pouco mais Effluxion é preciso voltar para o debut de Lerner: Telekinesis! (2009). O músico foi descoberto por Chris Walla, ex-integrante da Death Cab for Cutie, que o ajudou a produzir o primeiro disco. Todos os instrumentos do álbum de estreia foram tocados por Michael, o que torna o trabalho bastante pessoal. Os demais álbuns tiveram participações do próprio Chris Walla, dos músicos de apoio de Lerner e também do Jim Eno (Spoon). Na obra atual, Michael resolveu voltar às raízes e fazer tudo por si próprio, desde os instrumentos tocados, até a mixagem. E é daí que surge uma das coisas positivas de Effluxion: uma boa mixagem. Limpa, sem medo de jogar os baixos e as baterias para cima, sem medo de ser quieto quando necessário.  A faixa título, por exemplo, assusta o ouvinte nos seus primeiros segundos por sua quietude e por seu som seco. Por pouco mais de 1 minuto até parece uma música perdida dos Beatles, algo ali do Yellow Submarine ou do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club.

Inclusive, Lerner não nega ser grande fã da banda e que sua música é abundantemente influenciada pelo quarteto. É até curioso, pelo fato dele ter estudado no Liverpool Institute of Performing Arts, do Paul McCartney. Durante a primeira metade do álbum, essa predileção se mostra evidente: na levada padrão das baterias, nas linhas de baixo, nos violões melódicos e nos pianos pulsantes. No finalzinho, o som fica mais preto no branco, mais direto. Exemplo disso é a faixa “A Place in The Sun”, já lançada como single anteriormente, que surgiu depois de uma ida fracassada ao cardiologista: “My heart’s a ping pong ball skipping in a sea of goo”, diz Lerner em uma das metáforas divertidas dentre várias nas suas composições.

Falando um pouco mais sobre as faixas, “Effluxion”, que abre o cd, dá as caras para essa aventura de Lerner, sobre o ato de compor e de deixar a composição fluir. “Like Nothing”, 3ª faixa, se comporta como um iêiêiê tanto pela vibe da música, quanto por sua letra que parece ambientada nos anos 1960: ‘Minivans moms and dancehall dads / Find a little slice of the happy and sad’. “Set a Course” é parecida com faixas dos primeiros cds: folk, voz e violão no maior estilo Sufjan Stevens, S. Carey e cresce para uma batida constante e de balançar a cabeça, ao mesmo tempo em que o eu-lírico recorda sua trilha pela vida e aconselha os demais: ‘I was lost / I was found / Now just look at me / Set a course / And take it easy’. “Out of Blood” fecha o álbum como um sonho-pesadelo — um pouco mais parecido com o Ad Infinitum — com sintetizadores, programações e hi-hats.

Quanto ao título do novo trabalho do Telekinesis, ele se deriva de uma palavra latina “effluere”, que em português significa mais ou menos fluir para fora, deixar sair. Em inglês — entrando no contexto da produção, já que é de natureza norte-americana —, a palavra “effluxion” tem duas possíveis interpretações: o ato de escorrer e a passagem do tempo. Como aquela velha história do rio blá blá blá. O conceito do título é muito bem atrelado as canções: a já citada “Effluxion” e “Running Like a River”.

No geral, Effluxion tem um quê de homenagem aos clássicos. Gostoso de ouvir, dançante, tem composições divertidas e reflexivas (mas não tanto), é romântico quando tem que ser, é pop quando tem que ser, é pessoal e esperançoso, por fim. Depois dos 30 anos, Michael Benjamin Lerner, aprendeu muito e resolveu que seria bom voltar ao básico, que seria bom confiar em si e no que a vida tem a nos trazer.

OUÇA: “Effluxion”, “Cut The Quick”, “A Place In The Sun” e “Set A Course”

Betty Who – Betty




A carreira de Jéssica Anne Newmann, conhecida como Betty Who artisticamente, inicia em 2012, por meio de um single liberado para download independentemente. Era “Somebody Loves You”, que muito rápido alcançou sucesso na internet, em especial em Youtube.

Certamente você já ouviu alguma coisa da Betty Who, já que a artista é figurinha carimbada em playlists em serviços de streaming. Com um estilo inconfundível, que mescla fortes referências aos anos 1980 com synth e dance pop, Betty canta, muitas vezes, sobre sentimentos agridoces com upbeats.

Em 2013 foi lançado o primeiro extended play (EP) de sua carreira, The Movement. Em 2014 surge o primeiro álbum, Take Me When You Go, depois do lançamento de um segundo EP, Slow Dancing. Ambos foram muito bem recebidos pela crítica e audiência.

Neste meio tempo, a partir dos primeiros lançamentos, a aclamação pelo estilo retrô de suas canções, com forte apelo oitentista, rendeu convites para participações na TV, em turnês – de Katy Perry e de Kylie Minogue – na Austrália e estreias significativas nas paradas internacionais.

The Valley, o segundo disco, foi lançado em 2017. Apresenta canções com mais elementos eletrônicos, letras mais maduras e não abandona as referências aos anos 1980.

O fato que é Betty Who nunca abandonou a fonte oitentista onde embebe suas canções. E isso é presente no lançamento mais recente, o Betty, de 2019. Este é um registro que, dentre todos, é o que mais de distância de Take Me When You Go – o debut. Por isso é necessário fazer um breve retrospecto da carreira pra entender o que disco mais recente propõe.

Em Betty Jessica Anne canta, mais uma vez, sobre situações que vive, como em “Marry Me”, e aproxima sua música de um contexto mais comercial e radiofônico. Não soa mal. Na verdade, o resgate em que ela aposta soa muito bem em faz sentido ouvir sua música alinhada com as características daquilo que faz sucesso atualmente, sem deixar de lado a personalidade musical de Betty. Mesmo as músicas mais diferentes do álbum, o caso de “Taste”, por exemplo, conservam elementos particulares de suas canções – como os agudos, refrão fácil e eletro.

OUÇA: “Just Thought You Should Know”, “Between You & Me” e “Ignore Me”

Ladytron – Ladytron



Ladytron traz novas cores ao seu trabalho inovador iniciado nos anos 2000. Para antigos e novos ouvintes, o grupo de Liverpool carrega seus tripulantes por um roteiro energético, inconformado e revigorante do seu electro-pop e shoegaze que os consolidou e inspirou diversas bandas.

Oito anos desde seu último projeto de estúdio, o álbum homônimo chega com um grito ritmado, “Until The Fire” anuncia com sua bateria emoldurada pela icônica combinação dos vocais de Helen Marnie e Mira Aroyo ah que veio ‘Oh we hang on the wire, and the walls get higher / Just until the fire catches them’. Um prelúdio para um álbum distópico.

Na segunda e ótima faixa “The Island”,  a banda invoca suas raízes do sinthypop dos anos 80 com um toque de Chvrches – que Helen já afrimou ser uma grande fã – um eco energético e revigorado do trabalho que consolidou a banda, “We are sirens of, of the apocalypse / Poisoned paradigma / We are savages, give them your poison lips”.

Ao decorrer do álbum com boas faixas como “Far From Home” e “Paper Highways”, o grupo como um dos precursores do ressurgimento do sinthypop nos anos 2000, mostra que continua afiado, atual e incisivo na construção de um álbum – marca já registrada em seus últimos trabalhos.

A segunda parte do álbum reserva boas faixas com um mix de uma banda consolidada mas inconformada em olhar apenas para o passado, “Deadzone” com sua energia ritmada numa vibe e enredo cyber-punk, ‘Don’t come knocking with your night moves / My resistance is your weakness’ transparecendo à faixa Manequin com um quê de pista ao mesmo tempo saudosista e futurista. Bons exemplos de como Ladytron se mantém fiel à qualidade, com uma sonoridade familiar, mas nunca obsoleta.

O retorno de Ladytron oito anos depois foi certeiro, atual e essencial.

OUÇA: “The Island”, “Deadzone”, “Figurine” e “Far From Home”

Xiu Xiu – Girl With Basket Of Fruit



Há algumas semanas escutei pela primeira vez Girl With Basket Of Fruit. Desde então tenho ensaiado como começar essa resenha, inevitavelmente passando por uma fase de “se você odeia barulhos desesperadores NÃO ESCUTE ESSE DISCO”. Acabei me impedindo de fazer isso porque, claro, seria desonesto com o trabalho do duo californiano Xiu Xiu: o trabalho experimental deles é, essencialmente, barulhos desesperadores.

Isso não é uma crítica fechada em si. Eu adoro barulhos desesperadores em muitos outros contextos — e outros álbuns do Xiu Xiu. Mas dessa vez alguma coisa desandou.

Fundada em 2002 e com 14 discos lançados, Xiu Xiu começou sua carreira musical apostando na desconstrução da formação musical tradicional de uma banda da cena alternativa: a base era feita por uma bateria eletrônica e complementada por instrumentos não convencionais, como instrumentos indígenas norte-americanos, violões mexicanos e por aí vai. Tudo isso permeado por uma dose de letras e performances tristes, desoladoras e devastadoras, que beiram uma espécie de violência não-física.

Sabendo de tudo isso, aceitando tudo isso, gostando de tudo isso, escutei a Girl With Basket Of Fruit esperando pelo Xiu Xiu altamente aclamado de Angel Guts, aquele que me fez escutar e aceitar e gostar de vivenciar esse desespero e tristeza que permeiam a trajetória da banda — e a trajetória pessoal do fundador Jamie Stewart.

Composto por 9 faixas somando tímidos 36 minutos, Girl With Basket Of Fruit é muito menos melódico e pop do que seu antecessor FORGET, trazendo os barulhos digitais frenéticos como espinha dorsal do disco, não apenas como um elemento, como em FORGET. A consistência, beirando a repetitividade, das faixas entre si faz com que o disco soe como um bloco de barulho e informação, como se por 36 minutos fossemos sugados por um vortex — e saíssemos dele intactos, só um pouco tontos.

Girl With Basket Of Fruit impressiona pela violência e intensidade musical, como Xiu Xiu já impressionou antes (os vocais da saturadíssima “I Luv the Valley OH!” ainda me impressionam depois de anos). Mas tudo que a agressividade do disco possibilita de violência quando se escuta, ela deixa de lado em termos de não se fazer esquecer. Depois de escutá-lo pela primeira vez há algumas semanas, precisei escutar mais duas vezes enquanto escrevia a resenha para ter certeza de que não deixaria detalhes de lado.

Para além da leve tontura, Girl with Basket of Fruit é um disco que não me causou muita coisa. Não causou boas impressões, não possibilitou boas reflexões e será rapidamente esquecido. O disco não traz a profundidade que marca a trajetória das letras e composições do Xiu Xiu, costumeiramente marcadas por comentários crus sobre política contemporânea e isolamento social e emocional e se perde em si mesmo.

Para uma banda como Xiu Xiu, que não tem constrangimentos ou amarras em se utilizar do que existe de mais visceral na música e composição experimental para fazer uma impressão livre da necessidade de apenas impressionar e desafiar, esse disco é perturbador. Mas vazio. É como uma pancada na cabeça: vai doer. E vai passar.

Para uma banda que já foi capaz de fazer profundas cicatrizes com sua humanidade crua e visceral, uma pancada na cabeça com uma bateria eletrônica frenética é pouco demais para se levar em consideração.

OUÇA: “Amargi ve Moo”, “Pumpkin Attack on Mommy and Daddy”, “Normal Love”, “The Worst Thing”

Jon Fratelli – Night Bright Flowers


O trabalho de Jon Fratelli, tanto à frente de seu  projeto principal The Fratellis como em seu registro solo anterior, sempre teve uma relação bem forte com o country, usado como base pra subversão e criação de riffs empolgantes e dançantes. Seu segundo trabalho solo  mostra que o escocês também conhece bastante do lado mais sentimental do gênero. Combinando influências de um country mais lento e instrospectivo com toques de ‘american standards’, Night Bright Flowers traz arranjos complexos e delicados que evidenciam Fratelli como um músico experiente e versátil.

O álbum abre com “Serenade In Vain“ que diz logo de cara que estamos diante de um álbum totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha feito antes. A música é uma balada sentimental que faz um ótimo uso do timbre de Jon Fratelli como um instrumento que constrói a melodia em contraponto a levada de percussão e o piano minimalista. Alguns toques de rouquidão em algumas passagens da letra combinadas com as cordas ajudam ainda mais a passar o sentimento que a faixa pede. As guitarras com slide que vão aparecer bastante ao longo do álbum também dão as caras timidamente por aqui com uma produção que faz com que você se sinta num bar com a banda tocando bem perto. É uma faixa pra ser sentida e é impossível não se sentir afetado por ela.

A faixa-título “Bright Night Flowers”  traz na letra algo como uma reflexão sobre como ele, um rockstar que já não é mais nenhum garoto observa os jovens vivendo suas vidas à noite, cometendo seus erros e acreditando que são invencíveis e acaba se dando conta de que já viveu esses dias há muito tempo atrás. O instrumental continua na mesma pegada da abertura mas tem um arranjo menos espetacular, reduzindo o caráter orquestral. As guitarras com slide aqui são bem mais evidentes e se misturam às cordas fazendo uma cama pra um piano bem marcado com o dedilhado e Jon Fratelli aqui começa a exibir sem alcance vocal, saindo dos graves e lançando algumas notas mais agudas com bastante precisão. Em termos vocais “After A While” é a melhor perfomance do músico, variando do grave ao médio-agudo com bastante naturalidade e sendo bem expressivo nas inflexões, instrumentalmente no entanto essa faixa parece uma continuação da anterior e, mesmo com algumas passagens interessantes acaba parecendo longa demais com pouca variação além da voz.

“Evangeline” é talvez o momento em que Jon Fratelli mais se aproxima de seus trabalhos anteriores. A faixa lembra um pouco “Henrietta” do Fratellis por conta da cara de country de salloon e a conversa com uma amada na letra mas sem a afetação dos riffs e o sarcamo da primeira e é uma das faixas mais upbeat do registro.

A segunda metade do álbum não tem nenhuma faixa necessariamente ruim, muito pelo contrário, são tão bem arranjadas e tão bem escritas quanto a primeira não apresentam muita variação em relação ao começo do disco, e nenhuma canção se destaca muito com exceção de “Crazy Lovers Song”, uma balada country tradicional com o melhor trabalho de guitarra com slide do álbum todo e o piano funcionando como baixo de um jeito bem interessante. O final instrumental da música que mescla o folk escocês com o country americano através das linhas de cordas também merece ser apreciado.

Bright Night Flowers não é um álbum super inovador mas soa muito verdadeiro do começo ao fim expressando as reflexões de Jon Fratelli de forma bastante poética com arranjos e performances que revelam uma atenção e cuidado com os detalhes que vale a pena ser escutado.

OUÇA: “Serenade In Vain”, “Bright Night Flowers”, “Evangeline” e “Crazy Lovers Song”

Jards Macalé – Besta Fera


Passados quase oito anos desde o último trabalho do tipo, Jards Anet da Vida, da Selva, da Silva, ou simplesmente Macalé, retorna com um novo álbum de estúdio. Mas diferentemente daquele Jards (2011, registrado também de forma audiovisual no documentário de mesmo nome de Eryk Rocha), o foco em Besta Fera (2019) não é em regravações dele próprio, muito menos em versões de outros artistas. As 12 faixas de autoria ou coautoria do Maldito (“é a mãe!”) que aparecem aqui são tocadas em parceria com um grupo afiado – ao todo, são 18 músicos creditados além de Macalé, com a produção de Kiko Dinucci (Passo Torto, Metá Metá) e Thomas Harres.

Para encadear tudo isso, Jards mergulha na obscuridade. É claro que a morbidez e as sombras não apareceram em sua obra hoje; porém, muito provavelmente esse é o seu trabalho mais enfático em todas essas características. Talvez a situação do país tenha ajudado também… O breu, o fundo, a cidade noturna, a experiência-limite: tudo aparece de cara na capa, a última feita pelo fotógrafo Cafi. E surge nos arranjos, como no instrumental e coro desesperado de “Vampiro de Copacabana”, abrindo o disco.

Dentro das demais faixas, essas escolhas são próximas entre si e até em certos aspectos e timbres funcionam como algo já esperado, ao pensar em outros trabalhos dos participantes do álbum (os dois últimos álbuns de Elza Soares e os do Metá Metá, por exemplo). Isso pode causar alguma decepção, mas não se pode dizer que as tentativas são caricaturais ou monótonas. Evidente que não seria justo com o homem que já fez coisas como Contrastes (1977) se não houvesse variedade.

E há. Por aqui, Jards recita com a rouquidão habitual, ao som de cavaquinhos e metais, um Gregório de Matos que parece falar dele mesmo, que cantou nas últimas décadas como o Boca do Inferno os vícios do Brasil. Já ali, canta um Ezra Pound borbulhando água, afogado pela guitarra abrasiva de Guilherme Held e por uma bateria sensacional de Harres. Acolá, ele já está praticamente numa psicodelia nordestina, falando de cidades malvadas e acordos escusos, nessa que é talvez o ponto alto do disco (“Pacto De Sangue”, parceria com Capinam). Só voz e violão, tropeçando em “Obstáculos”. E assim por diante, o compositor apresenta um caminho sonoro com significados amorosos, políticos e existenciais, provavelmente próprio de quem já viveu três quartos de século.

Engana-se quem espera saudosismo barato. Ou mesmo um pessimismo exagerado. É possível dizer isso não apenas pelas parcerias consistentes com artistas mais novos — e que, ainda assim, são de gerações bem distintas entre si, como Juçara Marçal e Tim Bernardes —, mas sobretudo pela capacidade de Jards de extrair da adversidade força, amor e graça. Ao final, o disco até parece traçar uma espécie de testamento. Em “Valor”, gravada em 1981, o músico vem com uma voz muito menos afônica questionar a longevidade de seu legado. Isso no mesmo disco em que, chamando o vento e enfrentando o sol, mostra encontrar a resistência pessoal. Diante de todas as décadas entre o sucesso de suas músicas e o relativo ostracismo de sua carreira, mais um ciclo se fecha.

Seria um final? Ele mesmo reflete e responde num samba mais tradicional, “Tempo E Contratempo”, e despista mais uma vez. A resenha começou falando que Jards Macalé estava de volta. É mais provável que ele simplesmente estava, e assim continue. “E essa que é a graça.”

OUÇA: “Pacto De Sangue” e “Tempo E Contratempo

Avril Lavigne – Head Above Water


Depois do maior hiato de sua carreira – 6 anos desde o lançamento do último álbum -, Avril Lavigne volta com letras reflexivas e acústicas em contraposição aos hits cheios de guitarra e refrões relativamente simples que a tornaram famosa, como “Complicated”, “Girlfriend” e “Sk8er Boi”.

Este novo trabalho é marcado pelo fato dela ter sido diagnosticada em 2015 com doença de Lyme, enfermidade comum, mas que pode ser letal se não tratada. O divórcio com o vocalista do Nickelback, Chad Kroeger, também influencia nas canções.

A faixa que faz uma referência mais direta a luta contra a doença é “Warrior”, última do disco. A música é uma balada acústica na qual Avril se abre sobre o momento em que batalhava pela vida. O refrão adota o tom de superação que marca todo o lançamento: ‘And I’m stronger, that’s why I’m alive / I will conquer, time after time / I’ll never falter, I will survive / I’m a warrior’. A mesma ideia de superar desafios está presente na faixa-título Head Above Water, na qual ela fala sobre manter “a cabeça acima da água” durante a tempestade.

Os destaques do álbum vão para as letras românticas de “Goddess” e “Crush”, que possuem uma pegada de pop misturado com soul e melodias que te pegam na primeira ouvida.

Dumb Blonde” é a mais pop do álbum. Com uma letra bem “girls with attitude”, ela faz o papel de agradar aqueles que sentem falta da Avril de “Girfriend”. As músicas possuem ritmos parecidos e as guitarras não são ignoradas como no resto do disco. Junto com a rapper Nick Minaj, a canadense se coloca como protagonista e diz que não é nenhuma loira burra. A canção pode lembrar um pouco “Hard Out Here” da Lily Allen.

Head Above Water talvez não agrade os fãs mais antigos da Avril. Por ser um trabalho predominantemente acústico e tratar das fraquezas da cantora porta-voz da rebeldia adolescente dos anos 2000, alguns podem estranhar.

No entanto, engana-se quem espera ouvir um disco pessimista, apesar dos temas difíceis abordados, todas as composições focam em transpor essas dificuldades. Ainda que muitos clichês sejam usados, como o discurso batido de “vencer batalhas” e “passar pela tempestade”, Avril  acerta em mostrar a capacidade de se reinventar e externar em suas músicas os demônios internos contra os quais ela luta há 4 anos.

OUÇA: “Goddess”, “Crush” e “Head Above Water”

Copeland – Blushing


A sensação geral de Blushing é algo como aquele estado entre o sono e a vigília em que você não consegue dormir à noite sonhando com os bons momentos da vida e recapitulando o que poderia ter dito ou feito para prolongá-los mas é confrontado com a realidade da solidão na madrugada. Essa característica nostálgica se reflete tanto nas letras como nos intrumentais que, embora sejam bastante diversos, revisitam alguns dos melhores momentos do passado do Copeland, desde o sinfônico e o soul do Ixora de 2014 até algumas guitarras mais rasgadas e quebras abruptas dos primeiros trabalhos.

Uma característica que chama atenção logo nos primeiros instantes é como o álbum evoca emoções muito profundas sem apelar para extremos. A cada faixa somos transportados para estados emocionais diferentes e intensos com pequenos movimentos instrumentais. Tudo acontece de uma forma coesa com uma continuidade construída de forma a não se tornar monótona, em que cada canção explora elementos diferentes e tem seu momento de brilho com algum ponto que resume a emoção que ela deveria passar entretando ainda totalmente relacionada com o que acontece nas faixas ao seu redor. Exemplo disso é “Lay Here”, uma faixa que trabalha a estrutura do R&B noventista através da batida e do baixo pra gerar uma melancolia que tem seu ápice com um pequeno movimento de sintetizador gerando uma dissonância com as cordas, a sobreposição de todos esses elementos tem um resultado poderosíssimo combinado com a voz disparando a vibe que a letra pede.

Algo que o Copeland sempre fez muito bem foi misturar elementos de gêneros diferentes de uma forma que não soe alienígena e aqui essa mistura serve pra gerar a tensão que as letras pedem, demonstrando a diferença entre o amor que você imaginou e o que aconteceu de verdade. Em “Night Figures” isso fica claro com os movimentos de soul sinfônico e hip hop envolvem os trechos que remetem à imaginação e uma agressividade controlada das guitarras e a explosão da voz mostram as partes em que o eu-lírico toma noção da sua condição na realidade no final da música.

Blushing é o sexto álbum na discografia do Copeland, o segundo álbum depois do hiato da banda e soa como uma evolução natural da estética adotada em Ixora, reforçando ainda mais o caráter onírico e melódico que começou nessa fase.

OUÇA: “Pope”, “Colorless”, “Lay Here” e “Strange Flower”

El Toro Fuerte – Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos


Afeto em primeiro lugar. Amizade transbordando. Os mineiros da El Toro Fuerte entregaram, logo no fim de janeiro para o público, o segundo trabalho da banda, nomeado Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos. O álbum possui 13 faixas, três a mais que o álbum de estreia da banda, Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo.

O grupo oriundo de Belo Horizonte é formado por João Carvalho (vocais, guitarra e baixo), Gabriel Martins (bateria), Fábio de Carvalho (guitarra, baixo, vocais) e Diego Soares (baixo, guitarra e vocais). O novo projeto da banda soa como algo mais experimental e ousado. O NALV é a caminhada em direção ao que a banda projeta, onde o disco é a forma material consolidada desta transição. Mesclando math rock, rock alternativo e emo, o álbum reflete a personalidade de sua capa. Colagens, montagens, ideias e resoluções poéticas e instrumentais, objetos singulares formando um conjunto diverso.

Abrindo com “Aniversários São Difíceis”, o álbum já demonstra seu viés sentimental, melancólico e analítico. Nostalgia sonora e narrada. Além dos arranjos instrumentais, a El Toro Fuerte conta com narrativas líricas dignas dos mais próximos amigos. É como se os ouvintes fossem amigos próximos e, junto com a banda, todos estivessem em um bar contando casos da vida. Histórias de amigos e lugares, aventuras contemporâneas.

Há, no álbum, várias contribuições de amigos próximos para compor e gravar o material. Fazem parte do disco Nicole Patrício (Alambradas), Laura Vilela e Raquel Batista. “Nos Seus Movimentos”, faixa com participação de Vilela nos vocais é um dos destaques do NALV. A melodia trabalha a favor da letras, falando sobre amizade, pertencimento e amadurecimento. É uma canção com momentos de calmaria e explosão muito bem utilizados. “Fim do Inverno”, lançada ainda em 2018, explora a sensibilidade e apresenta uma atmosfera que parece rememorar o disco anterior.

“Hidra”, sétima faixa, possui uma das melodias que flerta com algo psicodélico — algo meio triste, chapado, flutuando. É uma das músicas mais curtas do projeto e parece soar como uma continuação melódica da deliciosa faixa “Aquários”. A pluralidade sonora, entretanto, pode não agradar aos que esperam certa concisão.

Hidra, na mitologia grega, era uma espécie de monstro com um corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos segue uma lógica semelhante ao monstro mitológico. É um projeto com uma ideia central bem definida, mas que é amplificada em diversas figuras sonoras ao longo do álbum, um projeto coletivo e interessante.

OUÇA: “Aquários”, “Fim Do Inverno”, “Nos Seus Movimentos” e “Corações Tranquilos Dormem Cedo”

Broods – Don’t Feed The Pop Monster


Poucas coisas são mais irônicas do que começar um trabalho chamado Don’t Feed The Pop Monster com uma música pop até a medula. Ao longo de seu terceiro álbum, Broods mostra que a intenção da dupla não era fugir de sons grudentos. O foco era proporcionar canções pop que não fossem esquecíveis e sem personalidade.

Os irmãos Georgia e Caleb Nott continuam apostando no mesmo tom melodramático e até exagerado dos álbuns anteriores. Porém, isso ficou mais latente nas letras dessa vez, já que a sonoridade do novo lançamento está mais leve e próxima de artistas cheios de energia, como HAIM.

Mesmo não abandonando os sintetizadores pelos quais são conhecidos, o duo se arrisca um pouco mais, como em “Dust”, em que guitarras remetem a “Wicked Love”, de Chris Isaac. Outro risco foi colocar Caleb para cantar em “Too Proud”, o que acabou destoando do resto do álbum, em que a suavidade da voz de Georgie garante um clima de delicadeza, mesmo quando a euforia se sobressai.

O grande destaque fica por conta da proximidade com o dream-pop. Além disso, várias músicas dos irmãos nascidos na Nova Zelândia lembram bastante os vocais sussurrados e etéreos de Imogen Heap, assim como as melodias intimistas e inventivas da cantora, como em “Falling Apart”.

Broods também se joga em referências pop dos anos 90 e 2000 em alguns momentos, desde B-52s até Gwen Stefani.  Portanto, trata-se de mais um trabalho em que o duo tenta desafiar expectativas, mostrando como o pop ainda tem muita flexibilidade para ser divertido sem cair na obviedade.

OUÇA: “To Belong”, “Everyting Goes (Wow)”, “Peach” e “Hospitalized”