Brittany Howard – Jaime



Dona de uma das vozes mais poderosas de sua geração, Brittany Howard deixou um pouco de lado a sua aclamada banda Alabama Shakes, além de Thunderbitch e Bermuda Triangle, para dar tempo e espaço para o seu primeiro álbum solo: Jaime. E a gente não poderia ficar mais agradecido, afinal, a americana cumpriu com maestria o que se propôs a fazer, como sempre.

Com faixas curtas, o debut parece mais uma única música com interlúdios que separam mensagens diferentes. Mas isso não quer dizer que se trata de uma obra monótona. Muito pelo contrário: temos sopros de paixão, raiva, gritos políticos, ternura e saltos enérgicos entrelaçados, sempre com o mesmo intuito de se conectar intensamente com o ouvinte.

Exemplo é a sequência “Georgia” e “Stay High”: do vigor poderoso de solos de guitarra distorcidos e o vocal de Howard que passa de sussurros para altas imposições, voltamos, sem perceber, para brandura em uma viagem delicada sonorizada, a princípio, pela dupla infalível na suavidade: violão e xilofone.

De falsetes a graves incríveis, Howard segura nossa mão em “Tomorrow”, mas solta sem medo de experimentar. Os descompassos minimamente calculados estão presentes em toda a obra, que traz, com sucesso, a força e identidade da cantora americana. História que está marcada inclusive no nome do álbum — Jaime é o nome de sua irmã mais nova, a primeira que a incentivou a escrever música, e que morreu aos 13 anos.

Ainda sobre sua família, Howard conta de forma literal como o seu pai sofreu um crime de ódio quando ela era apenas um bebê, em “Goat Head”. As emoções, os questionamentos e a transparência emocional da cantora continua em “Presence”, que traz a incrível frase “You make me feel so black and alive”.

O pico do álbum, no entanto, é o grito político em “13th Century Metal”, primeiro single e som visceral com frases de peso e mensagens afirmativas, como “I am dedicated to oppose those whose will is to divide us. And who are determined to keep us in the dark ages of fear”. Aqui, Howard esquece a melodia para afirmar, reafirmar, fazer valer a sua voz com força, e não com jeito.

Howard é, sem exagero, uma raridade do universo da música: ela transborda beleza não apenas de projetos maravilhosos, mas também em cada música que compõe, em cada falsete que engata, em cada grito contra a desigualdade. Quem é fã da, até então, vocalista do Alabama Shakes, tem muita sorte do ânimo e talento que a mesma tem de sobra.

OUÇA: “13th Century Metal”, “Georgia” e “Stay High”

M83 – DSVII.



O M83 se especializou em contar histórias e, por isso, talvez seja uma das bandas que mais se utilizou do formato “álbum” para propor sua arte. Ouvir um disco do M83 é se entregar a um conto de fadas neon onde tudo é fantástico e nostálgico, pois nesse mundo de características epopeicas, o ponto de partida é a imaginação infantil e toda sua extensão. 9 anos após a sua obra-prima Hurry Up, We’re Dreaming pouco resta dúvida sobre o papel que a figura da criança tem para o artista. Poderíamos passar alguns bons parágrafos discutindo as incursões psicológicas da centralidade do papel da criança e seus efeitos na profundidade da obra acima mencionada, mas não é este o objetivo aqui. Basta que saibamos, como chave de análise, que a potência criativa do grupo reside na transformação do mundo cru, quiçá perverso, em um ambiente totalmente inexplorado e ingênuo. A hora da aventura pode ser sempre o agora. É o que assertivamente o M83 nos convida a fazer com seu novo projeto, DSVII.

As pistas do que se espera do álbum começam pela sua capa: um cavaleiro montado em um réptil depara-se com uma escada rumo ao topo de uma pirâmide. Junto a ele, parece aconselhá-lo uma outra criatura mítica. O entorno parece ser um outro planeta tingido de tons foscos de roxo, verde e azul.

A travessia começa, pois, com a epopeica “Hell Riders”, canção de quase 7 minutos de duração dá as primeiras notas e tons da narrativa. DSVII afasta-se notavelmente do maximalismo proposto no álbum de 2011, ou mesmo daquele presente em Junk (2016). Nesta faixa, há coros angelicais (muito presentes em vários outros momentos do disco) e melodias medievalistas muito bem executadas nos sintetizadores que dialogam claramente com as trilhas dos jogos de videogame. O álbum flui perfeitamente a partir daí, as composições e as variedades de som aplicadas enriquecem e conferem uma atmosfera completamente cativante, como é o caso das ótimas e emocionantes “A Bit Of Sweetness”, “Meet The Friends” e “Jeux d’enfants” (novamente, o léxico infanto-juvenil sendo apresentado). São músicas extremamente sensíveis que trabalham em baixos decibéis, mas que funcionam como fôrmas para a imaginação do ouvinte. Um presente para a nossa necessidade de se recolher, refletir e se reinventar.

Passados os 50% da audição do disco, nada resta de dúvida sobre o ótimo trabalho entregue pelo M83. “Lunar Son” é a grande joia da segunda parte do LP, ao passo que traz lindos solos de flautas ritmados por pianos.  Ao final, o álbum revela onde o nosso simpático personagem vai parar: o templo da tristeza. A faixa ata as duas pontas do disco com um desenvolvimento primoroso, valendo-se de todos os elementos explorados nas outras 14 faixas do disco. O final desta faixa não tem nada de tristeza, a parte do fato de que a aventura teve seu fim. A travessia do jovem herói foi completa e muitos passos acima do começo, mas, como em um movimento espiralado, seu fim está na mesma linha do começo.  É hora de voltar a realidade, até que a próxima audição comece e a criança dentro de cada um de nós possa brincar novamente.

OUÇA: “Hell Riders”, “Meet The Friends” e “Lunar Son”

Big Thief — Two Hands



Dentro da indústria musical há algumas possibilidades para que um artista lance dois álbuns no mesmo ano: o fracasso e o conceito são alguns dos cenários iminentes. E, com absoluta certeza, o flop não é a alternativa correta para o caso do Big Thief — banda do Brooklyn que lançou Two Hands, seu novo trabalho, apenas cinco meses após U.F.O.F..

A verdade é que se U.F.O.F era voltado para seres extraterrestres (sendo a explanação da sigla: “unidentified flying object friends”), Two Hands retorna a Terra para falar de nós, seres humanos. ‘I am that naked thing swimming in air / Why does that mean anything?‘ questiona a vocalista Adrianne Lenker na faixa de abertura de Two Hands. O existencialismo presente indica mais ou menos qual o tom das composições no álbum. Mais à frente da canção, Lenker abraça suas incertezas e o acaso de existir quando diz: ‘I don’t want to lock my door anymore / Hand me that cable / Plug into anything / I am unstable / Rock and sing‚ rock and sing‘, produzindo uma belíssima faixa de abertura: sensível, vulnerável e delicada.

Mas não é só sobre existencialismo que Lenker escreve. Na faixa “Forgotten Eyes” ela dialoga com questões sérias como pessoas moradoras de rua e os não ouvidos pela sociedade, segundo entrevista da própria ao Stereogum. A composição, seu refrão, ‘The wound has no direction / Everybody needs a home and deserves protection‘, juntamente aos violões, riffs e bateria mais que orgânica e energética de James Krivchenia, fazem desta canção uma das mais interessantes do trabalho. Lembra um tanto o Real Estate, pode-se dizer.

Voltando ao tema conceito, a delicada faixa-título abraça de uma vez por todas a ideia dos dois álbuns lançados em 2019 serem obras complementares. Two Hands continua a história de dois seres iniciada em U.F.O.F., uma relação entre “celestial” e “terráqueo”, porém sem os clichês de ETs criados e conhecidos por nós. A atmosfera das canções é algo tão natural que encanta. Mas especialmente em Two Hands isso é ultra trabalhado, simplesmente pelo fato do novo CD ser mais orgânico e possuir menos participações de samples e sons sintetizados. Tanto é verdade que é possível ouvir os rastejos dos dedos nas cordas do baixo de Max Oleartchik.

Ainda nos mesmos 39 minutos é possível ouvir a delicadíssima “Wolf”, o primeiro single “Not” — digno de uma performance espetacular ao vivo —, e a dark “Cut My Hair”. A verdade, no entanto, é que nada do que eu fale aqui chegará a preciosidade que é Two Hands. Big Thief é hoje uma grande banda, dedicada, talentosa e curiosa  (Adrianne Lenker é um exímia compositora, sem medo de mostrar sua vulnerabilidade) e a dupla de CDs é só a confirmação disso.

OUÇA: “Forgotten Eyes”, “The Toy”, “Two Hands” e “Not”

Lindstrøm – On A Clear Day I Can See You Forever



On A Clear Day I Can See You Forever é um registro que leva a experimentação de Hans-Peter Lindstrøm a um lugar diferente do que ele havia explorado nos seus trabalhos anteriores. O caráter dançante é abandonado em função de uma experiência espacial e sensorial de introspecção que reflete muito bem o momento sombrio e conturbado que o mundo vive.

O primeiro rascunho do que viria a ser On A Clear Day I Can See You Forever vem de uma performance realizada por Lindstrøm no Centro de Arte Henie Onstad e você consegue sentir bem o caráter solene e experimental que um local de arte pede na primeira faixa. Os acordes iniciais mais agudos chamam a atenção de quem está passando ou quem chega no álbum mas logo nos primeiros segundos as notas são distorcidas em modulações mais graves para realmente levar o ouvinte a um estado contemplativo.

Outro elemento importante na produção do trabalho é a característica física do som. Lindstrøm optou por não usar computadores e usar apenas drum machines e sintetizadores analógicos históricos como os primeiros modelos da Roland, da Korg e da Wurlitzer, além de um Memorymoog que tem o papel de destaque, sendo explorado até as últimas consequências com todas as suas limitações que acabam gerando uma performance física mesmo que pode ser sentida em intervalos breves de silêncio para que o músico precise se recompor das teclas e pedais pesados e mudar o timbre entre uma frase instrumental e outra.

O álbum perde a força quando vai mais fundo nas drum machines que acabam por tirar o ouvinte da imersão de um som mais orgânico com as sequências em loop das máquinas que, na sua constância mecânica, soam mais artificiais. A segunda faixa “Really Deep Show” acaba sendo menos afetada por esse elemento por ter mais camadas sonoras que preenchem os ouvidos com mais intensidade mas “As If No One Is Here” que fecha o registro e é quase toda conduzida por uma drum machine acaba se tornando quase insuportável no meio de seus quase nove minutos de duração.

On A Clear Day I Can See You Forever é uma experiência artística que, ao te tirar da realidade e te colocar num espaço amplo e cheio de camadas, deixa o vazio para que você complete mentalmente e reflita sobre a realidade que abandonou com mais clareza.

OUÇA: “On A Clear Day I Can See You Forever” e “Really Deep Show”

Kim Gordon – No Home Record



Quais fatores definem nossa identidade? Como as coisas que fazemos ou as pessoas que temos ao redor de nós influi em quem somos? E se essas coisas estão atreladas a nós por anos, décadas, quais as marcas que deixam quando ficam para trás?

É quase inevitável pensar em questões assim quando escutamos o primeiro álbum solo de Kim Gordon. Pois não tem como a artista não ter ficado marcada por suas décadas de trabalho à frente do Sonic Youth, uma das bandas que ajudou a definir o rock alternativo desde os anos 80. O que, no entanto, não quer dizer que Gordon tenha ficado parada desde 2011. De lá para cá foram nada menos do que 3 discos lançados com projetos como Body/Head e Glitterbust, além de vários EPs, aparições na TV e no cinema e até um livro de memórias. Mas, mesmo antes do fim do Sonic Youth, Gordon já se envolvia em uma série de projetos paralelos, como a banda Free Kitten.

Talvez faça mais sentido pensar em No Home Record como uma continuação desse trabalho multifacetado de Gordon do que em buscar nele ecos do Sonic Youth. Não que não existam paralelos. Em alguns aspectos, o debute de Gordon lembra os álbuns que o Sonic Youth fez em sua era de ouro, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Os sons angulares, com uma forte pegada industrial, os vocais distantes e cool. Mas mesmo esses fatores já haviam voltado à tona nos projetos mais recentes da musicista. No Home Record pode não ser, nem de longe, o álbum mais experimental de Gordon nos últimos anos, mas compartilha do mesmo impulso desses. Da vontade de fazer coisas diferentes, de testar suas possibilidades. De todas essas coisas que a arte experimental prima por fazer.

Talvez por isso seja um disco tão variado. Vamos desde um punk relativamente simples com “Hungry Baby” até, de forma mais surpreendente, experimentações melódicas que parecem sair da mesma estrutura do trap, como na faixa “Paprika Pony”. Vindo de uma artista tão completa como Gordon, nada deveria nos surpreender. E, de fato, quando analisamos friamente, não surpreende mesmo. Pois, ainda que variado e rico, No Home Record cai em algo que volta a aproximá-lo de alguns álbuns do Sonic Youth: é um trabalho extremamente intelectual. Suas faixas são criadas em torno de estruturas bem definidas, e, a partir disso, são bem estruturadas. Colocar juntas todas essas partes exige um esforço mental, além de grande conhecimento sobre diferentes estilos musicais e sobre o que é cool. Essas são qualidades que ninguém pode negar que Kim Gordon tenha e das quais se utiliza muito bem.

O que isso significa, no entanto, é que não estamos diante de uma obra musical leve, para ouvirmos no modo aleatório. O álbum exige certa dedicação. Quase como ler um manifesto. Pois, de certa forma, é isso que é. No Home Record é uma espécie de declaração daquilo que podemos esperar da música de Gordon daqui para a frente. Não por acaso a música que fecha o disco é chamada “Get Yr Life Back”. E, julgando por aquilo que Kim reunião nessa coleção sonora, ficamos sabendo que ela não vai ignorar sua história com a banda que a tornou famosa, mas que sua identidade certamente não se resume a sua história.

OUÇA: Air BnB”, “Hungry Baby” e “Get Yr Life Back”

The Darkness – Easter Is Cancelled



Em seu primeiro conto publicado numa revista comercial, Late Night, David Foster Wallace argumenta “se você sabe de antemão que vai ser feito de ridículo, então você está um passo à frente, porque você pode fazer a si mesmo de ridículo ao invés de deixar ele fazer isso com você”. A ideia talvez seja o melhor resumo do processo criativo que orientou a banda britânica de hard rock The Darkness na composição da maioria de seus discos, e continua sendo verdade para o último lançamento do grupo: Eastern Is Cancelled.

Sexto disco de estúdio da banda, Eastern Is Cancelled compreende 53 minutos de músicas divididos em 14 músicas fundadas numa mistura de composições firmemente estabelecidas no campo do hard rock mais comercial e humor autoconsciente e às vezes autoindulgente. Muito da composição do The Darkness usa – e conscientemente – os clichês sonoros do hard rock mais farofa, inclusive os exagerando, então julgar a qualidade do trabalho da banda depende mais de analisar a qualidade das letras.do que as harmonias. 

Dentro desses critérios, Eastern Is Cancelled é um disco competente. Jogando com suas forças (às vezes até demais) o The Darkness consegue fazer o que se espera de um disco da banda. É essa a maior qualidade da  banda, mas também é sua principal fraqueza, tanto como artistas como nessa obra especificamente.

O disco não é sem seus pontos fortes, seja com “Rock And Roll Deserves To Die”, faixa que abre o disco e tem interessantes influências de folk no violão, além da teatralidade da voz de Justin Hawkins e do som dramático e triunfante da percussão na segunda metade da música, “How Can I Lose Your Love”, uma power ballad que atende todas as tropes do gênero, de novo dando destaque para a performance vocal aguda e lamuriosa de Hawkins e o solo rápido e agressivo, “Heart Explodes”, uma metabalada em que Hawkins explora a dificuldade de escrever uma música de amor e a subsequente separação em que ele reflete sobre a vida de solteiro enquanto sua ex-parceira abre um asilo para palhaços (?), a faixa tem um momento interessante no final, quando crescendo com ares de hino triunfante surpreende.

Outros pontos interessantes – mas não muito – ficam por conta de “Deck Chair”, outra balada (são muitas no disco) dessa vez sobre a perda de uma cadeira e agora com influências de valsa e “Sutton Hoo”, com uma levada country e contando sobre as experiências com abdução alienígena dos moradores de um pequeno vilarejo. 

Contudo, o disco também tem falhas, que infelizmente superam suas qualidades, e a principal e mais geral delas que pode ser estendida à maioria das faixas é: clichê. Seja nos riffs clássicos do hard rock em faixas como “Eastern Is Cancelled” e “Choke On It” ou na imensa e repetitiva quantidade de baladas que não conseguem ter personalidade o suficiente para se destacar no catálogo, a banda parece satisfeita em aproveitar e reciclar as fórmulas clássicas do gênero adicionando só humor o suficiente para reduzir qualquer expectativa que poderia se ter sobre o trabalho e deixar claro que a banda em si não leva o que faz tão a sério assim. 

O tempo de execução também age contra o disco, e 53 minutos parece um tempo longo demais para ver os mesmos tipos de piadas e personagens desfilarem de novo e de novo pelas letras das músicas.

Em resumo, não faz muito sentido ouvir a banda se você não gosta do estilo, porque as composições que você vai encontrar são bem comuns e o humor das letras é o ponto forte da banda.

Como Foster Wallace discorre no conto que abre esta resenha, saber que você vai ser feito de ridículo é uma vantagem poderosa que tira do seu interlocutor a chance de rir de você porque você tem a oportunidade de fazer isso antes dele. Em especial num gênero de fórmulas tão performáticas e exageradas quanto o hard rock, isso pode ser efetivo, e quando o The Darkness surgiu, a banda conseguiu destaque justamente pela forma descarada com que assumia o absurdo do estilo. Ao mesmo tempo, não se levar a sério demais também pode ser uma fraqueza que impede o artista de se propor algo mais ambicioso e o deixa confinado a repetir a piada constantemente.

E uma piada repetida demais ou por tempo demais acaba sempre perdendo a graça.

OUÇA: “Rock And Roll Deserves To Die”, “How Can I Lose Your Love”, “Heart Explodes” e “Sutton Hoo”

Tegan and Sara – Hey, I’m Just Like You



Hey, I’m Just Like You é o nono álbum de estúdio da dupla canadense Tegan and Sara, lançado juntamente com High School, seu livro de memórias. O que torna Hey, I’m Just Like You diferente de tudo o que a banda já fez até agora é o fato de que as músicas aqui são gravações de coisas que as moças escreveram em sua adolescência, que resgataram enquanto faziam a pesquisa para compilar e escrever seu livro. Segundo as próprias, tratam-se de músicas que elas nunca teríam conseguido escrever hoje como adultas, com uma produção que elas nunca teríam conseguido fazer antes quando eram adolescentes.

Just Like You é uma jornada à adolescência das duas, de uma forma bastante cândida e honesta. Simples. O álbum traz de volta em muitos momentos as guitarras e violões do começo de sua carreira que haviam sido deixadas levemente de lado em seus últimos dois álbuns cuja produção foi synthpop. Aqui, elas misturam esses elementos, por vezes quase punks (nem que seja apenas em espírito), à sua atual produção pop monumental que conhecemos em Heartthrob e foi aperfeiçoada com Love You To Death.

Just Like You é um álbum como nenhum outro na discografia das meninas. É até estranho pensar que nunca ouvimos essas músicas antes, que elas não escolheram gravá-las nem para seus primeiros álbuns. Existem muitos momentos aqui, talvez “All I Have To Give The World Is Me” mais do que qualquer outro, que caberiam perfeitamente em seu This Business Of Art, se tivesse sido gravada com a produção folk do restante do álbum. Coisas e constatações como essa tornam Just Like You um álbum bastante interessante de se ouvir várias vezes e analisar esses detalhes.

Suas letras, mesmo tendo sido escritas há praticamente duas décadas, são perfeitamente balanceadas entre a quase arrogância que adolescentes têm de saberem tudo sobre absolutamente tudo e uma vulnerabilidade que só aparece com a maturidade que o tempo traz. É um álbum bastante complexo e contraditório, nem sempre as letras casam com a produção. E essa idiossincrasia da dupla é seu ponto alto, com toda a certeza.

We don’t have fun when we’re together anymore, all we get when we’re together is bored‘ é um exemplo primordial disso. Um verso extremamente simplista que foge por completo das grandiosas metáforas exploradas pela dupla em The Con e Sainthood, mas que funciona tão bem – por que não deixa de ser um sentimento verdadeiro a todos. Não interessa se você é adolescente ou está com seus 30+, é algo que qualquer pessoa pode se relacionar.

Esse é o grande trunfo e a sacada de genialidade de Just Like You: trazer sentimentos e questões ainda presentes na vida adulta sobre tudo – a vida, relacionamentos, amores novos ou em decadência – de uma forma absurdamente simples e direta. De uma forma como só uma adolescente poderia. E te obrigar a admitir que você ainda se sente da mesma forma hoje.

OUÇA: “I’ll Be Back Someday”, “Hey, I’m Just Like You”, “Don’t Believe The Things They Tell You (They Lie)”, “I Know I’m Not The Only One” e “You Go Away And I Don’t Mind”

Nick Cave & the Bad Seeds — Ghosteen



Esta é a resenha mais difícil da minha carreira. Desde o dia 03 de outubro, a internet — como um todo — vem falando nesse álbum. E isso vem me apavorando um pouco desde que tirei a sorte grande de falar de Nick Cave & the Bad Seeds, pelo simples fato de não saber se estou à altura. 

Aproveito, porém, a oportunidade de mergulhar nesse universo e trazer a você, caro leitor, um pouco desse turbilhão de emoções que sinto após ouvi-lo. Tentei me “contaminar” o mínimo possível com informações sobre o álbum ou ler outras resenhas para que minhas palavras sejam as mais verdadeiras possíveis.

Classifico Ghosteen como um espetáculo sonoro pessoal e introspectivo. Não tenho nenhuma bagagem de Nick Cave, só conheço uma de suas músicas “Into My Arms”, do álbum God Is In The House (2003) e que está presente na trilha sonora de Questão De Tempo, um dos meus filmes favoritos. Lembro que, quando o assisti pela primeira vez, criei um ritual, graças a outra música da trilha sonora que me tocou muito. Logo que o filme acabou, deitei no sofá, coloquei “Spiegel Im Spiegel”, de Arvo Pärt (aka a música mais triste do mundo), para tocar nos fones e fiquei lá deitada. Olhando para o teto. Sentindo a música.

Construo esse cenário, pois logo na primeira canção de Ghosteen eu relembrei esse momento e fui tomada por esse mesmo desejo. Largar tudo, deitar imóvel e deixar com que cada partícula do álbum fosse sentida pelo meu corpo. É um disco para se ouvir assim. Sem pressa. Sem preocupações. Nu. Vazio. Pronto para ser preenchido por cada uma das músicas.

Em sua experimentação gótico-psicodélica, Nick Cave & the Bad Seeds traz camadas e mais camadas de vozes, com o destaque para a voz potente e inconfundível de Nick Cave, além de um instrumental que faz arrepiar qualquer um que ouça, seja nos pianos e órgãos ou nas misturas eletrônicas e distorcidas que o faz. 

É arte pura, dividida em dois atos. “Leviathan” promove um perfeito fim de primeiro ato. Que poderia ser muito bem o fim do álbum. Mas Nick Cave and the Bad Seeds vai além. O segundo é ainda mais experimental, com duas — de suas três canções — com mais de 10 minutos de duração. Embora o destaque nesse segundo momento seja o instrumental, principalmente nas canções mais longas “Ghosteen” e “Hollywood”, é impossível não mencionar “Fireflies”, que funciona quase como um poema a ser declamado por Nick Cave. É um momento precioso e reflexivo. 

Não se engane. É uma obra belíssima, mas igualmente pesada. É preciso respirar e processá-la. 

E eu poderia ficar horas a fio tentando descrever o mais recente trabalho de Nick Cave, mas de nada adiantaria. É um álbum que pede pelo mergulho do ouvinte. Que pede pela suspensão do mundo por 1h e 8 minutos. Faça esse favor a si mesmo. 

Dizer que Ghosteen é o álbum do ano de 2019 talvez seja um eufemismo. Mas é isso. É o melhor álbum que você vai ouvir hoje. E como Nick Cave bem canta em “Waiting For You”: “Sometimes a little bit of faith can go a long, long way”.

OUÇA: >“Waiting For You”, “Hollywood”, “Night Raid” e “Sun Forest”

Boy & Bear – Suck On Light



O folk é um gênero musical que tem tudo a ver com raízes. Seu nome tem a mesma etimologia da nossa palavra folclore. O que nos traz à mente histórias e canções passadas de geração para geração, que dialogam diretamente com a história e as tradições de um povo. A transposição disso para a música contemporânea não é nunca direta. Os subgêneros de metal que se relacionam com o folk, por exemplo, costumam beber na fonte de um ideal medieval de culturas europeias, usando suas figuras mitológicas como símbolos. Já no rock mainstream e no indie, o folk começou com artistas gravando músicas que, muitas vezes, já existiam décadas antes, cujas autorias não eram fáceis de definir, se é que não eram composições que foram se moldando ao longo do tempo. Uma boa parte das primeiras gravações fonográficas foram dedicadas a esses registros, mais por seu caráter histórico do que artístico.

Essas gravações, no entanto, cristalizaram uma imagem do que seria uma canção folk. A primeira relação que a maior parte de nós tem com essa palavra é a cena dos EUA nos anos 1960, na qual artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Johnny Cash regravaram alguns desses clássicos, muitas vezes dando traços autorais a esses novos registros. E foi através de uma afinidade com o ideal de como uma canção folk deveria soar, com toda sua história, que artistas desse período passaram a compor suas obras, que até hoje são populares mundo afora. Desde então, as nossas expectativas sobre o folk são praticamente as mesmas.

Mesmo na Austrália, do outro lado do mundo, essas expectativas não foram revolucionadas, graças à mesma matriz da língua inglesa. Ainda que o folk tenha diversos matizes regionais, sua identidade geral é fácil de reconhecer. Por isso, na década passada, quando o folk passou por um novo ciclo de retorno, as referências para quem produzia o som, assim como para quem ouvia, eram as do folk dos anos 1960, um folk infundido com muito rock, que trazia suas letras para questões contemporâneas, com guitarras mais energéticas que Dylan conquistou a tanto custo, mas mantendo uma identidade relativamente estável. Foi nesse cenário que a banda Boy & Bear surgiu, primeiro fazendo covers de seus ídolos do país dos cangurus, e depois com sua própria versão cantarolável e aconchegante do folk em seu debute Moonfire. A facilidade de conhecer e já sair acompanhando cada uma das faixas era um dos pontos mais altos do álbum.

Mas, como ocorreu com tantos artistas desse folk do novo milênio, Boy & Bear foi se debruçando cada vez mais para o rock e deixando o folk de lado. Se tornando cada vez mais hermética. Suas novas canções não convidavam quem as ouvia a aprender as letras para cantar junto. Mas o folk, como disse, é uma música de raiz. E elas sempre estão lá quando precisamos voltar. Suck On Light é um retorno às origens para a banda.

Logo de primeira audição, algumas das melodias parecem ser exatamente as mesmas que a banda toca há oito anos. Pode-se dizer, no entanto, que são versões mais maduras dos mesmos riffs. O que faz com que sintamos falta da jovialidade do primeiro álbum, mas que também tenhamos uma ideia de sua trajetória. Ainda que não sejam canções poderosas, as presentes em Suck On Light são as melhores que a banda desenvolveu desde o debute. Partindo já de como puxa o coro na faixa de abertura até como incorpora guitarras de uma forma que não faz com que percam a aparência de efeitos puramente acústicos. Ou melhor, elas são perceptíveis, mas não destoam. A equalização do álbum foi bem-feita. Fica longe do lo-fi, mas sem cair nos males da superprodução que é um dos bode-expiatórios mais comuns na crítica musical.

Mas o principal defeito do disco aparece justamente em um ponto que é essencial para qualquer obra do gênero folk: nas letras. Aquela vontade de cantar junto não surge em nenhum momento. Podemos admirar o ritmo, a execução técnica. Mas onde está a alma? Quais são as questões das quais esse álbum está tratando? O mundo pode estar precisando de um pouco do engajamento social pelo qual o folk ficou conhecido, ou, ao menos, por sua forma de colocar nossas vidas em perspectiva, cantar nossos cotidianos. Suck On Light não parece fazer nada disso. Antes ficando restrito à psicologia superficial e aos sentimentos genéricos que são tão comuns no soft rock.

OUÇA: “Work Of Art”; “Off My Head” e “Telescope”

Temples – Hot Motion



Uma frase que circula pela internet, comumente atribuída a Sartre, afirma que não importa o que fizeram de você, o que importa é “o que você faz do que fizeram de você”. A frase, em que pese a indefinição sobre a autoria, resume assim o princípio de autodeterminação. Nenhum indivíduo é gerado espontaneamente, todos possuem uma origem que os antecede e afeta o seu desenvolvimento futuro. Determinar-se, então, é a capacidade de assumir a agência deste processo e ser responsável pelo próprio destino. Essa é a primeira reflexão provocada por Hot Motion, último trabalho de estúdio da banda britânica Temples.

Terceiro disco do grupo, Hot Motion, vem dois anos depois do último trabalho de estúdio da banda e compreende 45 minutos divididos em onze músicas. No disco, o trio inglês mantém os pés firmes nas suas origens, sendo fiel à mistura de indie e do rock sessentista (especialmente The Kinks) ao mesmo tempo em que explora elementos de outros estilos musicais, em especial art rock e post-punk. O resultado é uma sólida obra que mistura fidelidade e experimentação não se limitando nem a um nem a outro extremo para alcançar um resultado novo e refinado a partir dessas fundações.

As composições do disco são refinadas, explorando a adição precisa de elementos à base estabelecida da estética da banda para construir arranjos ora grandiosos e triunfantes, ora esquivos e cáusticos. Com uma presença que é quase um efeito de persistência de visão a banda se move pelas paisagens sonoras do disco sempre ondulando entre forçar e se recolher, nunca parando num lugar só por tempo o suficiente para que nós possamos capturá-la.

Talvez o principal elemento do disco (e o mais constante) seja as mudanças de andamento das músicas. Por ser tão básico, mesmo quando o ouvinte já se acostumou com esse jogo de sombras da banda, ainda não é o suficiente para que ele não seja surpreendido com os destinos a que a banda pode conduzi-lo. Nós sabemos que o caminho vai mudar, mas não sabemos para onde, e onde é a parte principal do trajeto. Mesmo quando você espera a queda, é impossível conter as reações físicas da perda de gravidade.

Mas só a mudança de andamento e as variações de tempo, composição e elementos das músicas não seriam o suficiente para fazer de Hot Motion um grande disco. Mais do que “o que”, o essencial é o “como”.

Seja com as guitarras ecoando em acordes cristalinos e os  corais que dão à composição grave e terrestre da faixa título “Hot Motion”; com a marcha de bateria e o groove de baixo que conduzem “You’re Either On Something” sob vocais com uma distinta influência de Beatles ou com a robustez da composição de “Holy Horses”, que mesmo sem um elemento tão distintivo, tem presença que exige ser notada, o Kinks constantemente apresenta ao ouvinte algo de novo que enriquece a(s) sonoridade(s) explorada no disco.  A variedade continua com a melodia serpenteante de “The Howl”, em que a bateria de fanfarra volta a aparecer, agora acompanhada de perto pelo vocal de James Bagshaw numa performance que tem quase a força apoteótica de um hino, passando por “Not Quite The Same” em que o groove de baixo e bateria faz dela a música mais dançante do disco ao mesmo tempo que os vocais em eco dão à música um efeito etéreo e encerrando em “Monuments”, que coincidente encerra o disco, num testemunho da incrível capacidade de Bagshaw de envolver o ouvinte com seus vocais e sua capacidade de criar refrões memoráveis.

Outras faixas excelentes do disco são “The Beam”, “Step Down” e “Context”, que enquanto menos distintas do que as citadas até aqui, merecem o reconhecimento pelo refinamento do trabalho de composição da banda.

Naturalmente (para quem fez as contas até aqui), nem todas as faixas do disco foram dignas de elogios, e a obra tem seus pontos fracos. Em particular, a dobradinha “It’s All Coming Out” e “Atomise”, enquanto não são particularmente ruins, são decididamente as faixas com menos personalidade e riqueza do disco e, ao mesmo tempo, as que perdem mais força em comparação com o resto do conjunto.

No geral, o novo disco do Temples é um sólido, refinado e variado trabalho, que consegue com sucesso explorar seu campo de referências ao mesmo tempo que mantém sua fundação firme e inabalável. Em seu terceiro trabalho, o Temples mostra que não é preciso reinventar a roda para fazer a terra girar.

OUÇA: “Hot Motion”, “You’re Either On Something”, “Holy Horses”, “The Howl”, “Now Quite The Same” e “Monuments”